TENSÃO NO MINISTÉRIO
Lílian superou com facilidade todas as dificuldades que envolviam a maternidade. Desde o primeiro momento que segurou o filho no colo, sentiu realmente o que era amar outra pessoa. Era um vínculo forte demais, para ser quebrado. Sabia que amaria Harry para o resto de sua vida, e ele era a pessoa mais importante no mundo.
Gostava, nas poucas horas livres que tinha, de ficar com o filho na cama, fazendo-o rir. Era um bebê esperto, seus olhos ( verdes, como os da mãe ), observando tudo. A diversão favorita de Harry era puxar os óculos de Tiago, todas as vezes que estava no colo do pai. E ria, deixando a mostra seus dois dentinhos, provocando o riso de toda a família.
Quando a primavera chegou, Lílian e Denise saíam para passear no parque com seus bebês, comparando o desenvolvimento dos filhos. Algumas vezes, Isabella acompanhava as amigas à esses passeios, com uma vontade louca de ter um filho também.
- Você e o Sirius bem que podiam arranjar um bebê, Bella. Você iria ficar uma graça, barriguda.
- E matá-lo de susto, Denise? - Isabella riu com gosto, e completou - Eu iria criar duas crianças.
- Ainda implicando com as gracinhas do Sirius, Isabella? - Lílian pareceu levemente indignada.
- Ah, é brincadeira...na verdade, eu curto muito o jeito moleque dele...é isso que o torna ainda mais encantador...
Tudo poderia estar perfeito, se Emily Potter não houvesse adoecido naquela época. E, embora Tiago e Lílian a tivessem levado aos melhores médicos de Londres ( bruxos e trouxas ), não havia muito o que fazer. Restavam-lhe poucos meses de vida, o que deixou toda a família, e seus amigos mais próximos, chocados. Mas Emily não se entregou a doença, e seguiu um tratamento rígido, e uma dieta rigorosa. E, o mais importante, fazia questão da presença do neto, sempre que possível. Lílian autorizou Samantha a levar Harry, quase todas as tardes, para River Country, ficar junto da avó.
O verão logo chegou, novamente. O tempo parecia estar correndo cada vez mais depressa. Lílian mal pôde acreditar quando julho chegava ao fim, que seu filho já estava completando um ano. Ela e Tiago organizaram um almoço, ao ar livre, para comemorar o aniversário de Harry. Convidaram apenas os amigos mais próximos da família, devido ao estado de saúde delicado de Emily.
Tiago e Lílian passaram os primeiros dias do mês de agosto em River Country, em companhia de Emily. E, numa certa manhã, um dos elfos que serviam os Potter há anos, bateu discretamente na porta do quarto do casal. Lílian levantou-se, e adivinhou o que havia acontecido, pela expressão assustada da criatura.
- Sra Potter...Dunky foi levar o chá da Sra Potter...ela está dormindo, Sra Potter...vai dormir para sempre, Sra Potter.
Lílian tentava fazer com que Harry comesse toda a papinha que havia no prato, mas o garotinho parecia disposto a fazer birra. Era uma manhã de sábado, quente e abafada. Fazia pouco mais de uma semana que Emily havia morrido. Era um vazio que estava sentindo. A sogra era como um segunda mãe para ela. Tiago, quando não estava trabalhando fora, ficava a maior parte do tempo em silêncio, fechado no escritório, lendo e relendo os longos relatórios do Ministério. Era a sua forma de tentar fugir a dor que sentia.
Naquela manhão, no entanto, acordara mais disposto, e agora ria, observando a mulher tentando fazer o filho comer, e Harry virando a cara, se negando a abrir a boca.
- Deixa eu te mostrar como se faz . - Tiago pegou o prato das mãos de Lílian, e fingiu que o garfo era uma vassoura, provocando risos no filho.
- Desse jeito, ele faz mais bagunça, e não come nada, Tiago.
- Que chata a sua mãe, Harry...só sabe dar bronca...
Uma coruja entrou pela janela da cozinha naquele instante, deixando uma carta cair sobre a mesa. Lílian apanhou o envelope, enquanto Harry, num momento de distração de Tiago, pegou a varinha do pai, e fez o prato de comida voar. Tiago, ocupado em limpar a sujeira ( "seu pestinha..."), não percebeu a expressão de choque no rosto da esposa.
- Comunicado do Ministério, Tiago...
- Do Ministério? Por quê?
- Elayne e Arnold McKinnon, Tiago...foram assassinados...
Tiago ficou chocado com a notícia. Arnold fora Auror e, há alguns meses, fora transferido para o setor de espionagem e investigação do Ministério, graças a sua mente brilhante em desvendar casos misteriosos e complicados.
- Quem fez isso?
- Não está escrito, Tiago. O Sr Crouch só está nos comunicando o fato, e exigindo nossa presença no Ministério, hoje a tarde.
- Mas hoje é sábado...
- E você vai discutir com o Crouch?
Lílian e Tiago chegaram ao Ministério no começo da tarde, e perceberam uma movimentação além do normal em frente ao prédio. Havia vários repórteres e jornalistas, tentando entrar à força, e descobrir o que estava acontecendo. Os dois entraram correndo, enquanto Rita Skeeter, reporter do Profeta Diário, tentava entrevistá-los.
A sala de reuniões do Departamento de Execução das Leis da Magia já estava cheio quando os Potter chegaram. Além de ter convocado todos os aurores, Crouch convocara a presença de Cornélio Fudge, Arabella Figg, e um bruxo que Lílian não conhecia pessoalmente, Mundungo Fletcher, chefe da espionagem.
- Acho que todos já chegaram... - Crouch observou todos os presentes, um a um. Estavam esperando maiores explicações.
- Elayne e Arnold McKinnon foram assassinados essa madrugada, no interior da Alemanha. Estavam passando férias justas e merecidas, graças ao seu empenho durante todos esses anos, de serviço prestado ao Ministério. - Fez uma pausa, e logo em seguida continuou o discurso - Nossa rede de espionagem descobriu uma facção de Comensais da Morte atuando na Europa Central, formada por homens e mulheres de diversas nacionalidades. Foi armada uma emboscada para os McKinnon, na qual teve a participação de cidadãos ingleses.
Crouch abriu uma grande tela branca, e bateu com a varinha. A foto de um bruxo apareceu, seguida de uma ficha de identificação.
- Adrian Travers, provavelmente o co-autor dos assassinatos. Ele é um dos líderes dessa facção internacional. Ele já nos escapou uma vez, mas agora não temos mais dúvidas de que ele é um assassino frio e calculista.
Tiago encarou com ódio a foto de Travers. Ele fora um dos muitos suspeitos de ter assassinado seu pai. Fora absolvido por falta de provas, levando o Ministério a rever toda a investigação sobre a morte de Harold Potter.
- Mostre os outros, Crouch. - Fletcher pediu.
Fotos menores apareceram, e Lílian não pode reprimir uma exclamação revoltada, ao ver Snape e Avery incluídos no grupo. Havia outros que não conhecia, inclusive uma mulher loura, muito bonita.
- Maryel Guchard, é alemã. Tem pouco mais de vinte anos, mas é uma assassina fria e calculista, está sendo procurada há mais de seis meses pelo Ministério alemão. É amante de Severo Snape. Não sabemos até que ponto ele e Mattew Avery estão envolvidos nesse crime.
- E porque você nos chamou aqui, Crouch?
- Nós vamos mandar uma equipe de Aurores para o interior da Alemanha, Longbottom. Foi um pedido de socorro que o Ministério alemão nos fez. Eles ainda não têm a nossa estrutura de combate aos Comensais da Morte. E você vai estar no comando.
- E quanto ao Moody?
- Ele não está em condições físicas suficientes para essa viagem. Depois dele, você é quem tem mais experiência em expedições, Longbottom. Bem, agora vamos as questões práticas...Sra Figg, preciso que entre em contato imediatamente com os Ministérios franceses e alemão, solicitando a permissão de entrada, e execução das Maldições Imperdoáveis em seus territórios...ah, sim...e envie também uma relação com o nome de todos os Aurores que viajarão.
- Você já tem os nomes, Longbottom?
- Ainda não, Sra Figg...deixe-me ver...- Frank tirou uma caderneta de dentro do bolso, onde estava relacionado todos os Aurores, e suas principais habilidades. Lílian pegou um pergaminho e esperou, nervosa, que Frank começasse a ditar os nomes. O rapaz evitou olhar tanto para Lílian, sentada à sua frente, quanto Denise, que estava ao seu lado, fazendo a ata da reunião.
- Bem...coloca aí, logicamente o meu nome...- Frank fez uma pausa, e, ainda evitando Lílian, continuou - Tiago Potter, Allison Bradley, Viviane Smith, Tony Calvert... - E Frank continuou, durante alguns minutos, a selecionar sua equipe. Por fim, após Frank concluir a seleção, Crouch tomou a palavra novamente.
- Vocês partirão terça-feira, e terão a companhia de Mundungo Fletcher, que levará todo o equipamento de investigação que será necessário para essa missão. Agora, não preciso dizer o que vocês devem fazer. É imprescindível que tragam esses Comensais de volta para a Inglaterra, não importando o tempo que isso irá levar. Vocês agora estão dispensados.
O enterro dos McKinnon serviu de palco para as pessoas expressarem sua revolta, e exigirem maiores providências do Ministério da Magia. Bartô Crouch fez um discurso inflamado, prometendo o fim de Voldemort em breve. Embora Lílian não fosse íntima de Elayne e Arnold, ficou emocionada com as belas palavras do Profº Dumbledore.
Na noite de segunda-feira, no entanto, Lílian estava inconformada com a partida de Tiago. Não se acostumara com as viagens do marido.
- Isso é suícidio, Tiago. Se embrenhar no meio de uma floresta, um lugar totalmente desconhecido...você não está com medo?
- Não, nem um pouco Lílian...quantas vezes eu preciso dizer que gosto do que eu faço?
- Tiago, você não é mais um moleque...você tem um filho, se esqueceu?
- Escuta, Lílian...não vou perder a oportunidade de colocar o assassino do meu pai em Azkaban...e não é você quem vai me impedir...
- É essa sua obsessão, Tiago...- A voz de Lílian, alterada, ecoou pelo quarto - Isso é guerra, não é um jogo de quadribol...você já pensou que pode morrer de uma hora para outra?
- Agora chega, Lílian...- Tiago deu um berro que podia ser escutado de longe - Chega, eu não preciso que você fique me lembrando o tempo todo os riscos que eu corro.
- Então talvez você não precise mais de mim como esposa, também, Tiago. Boa noite, e boa viagem. - Lílian apagou a luz do quarto, e se enfiou nos meios da coberta. Mas estava tensa demais para conseguir dormir.
Tiago partiu na manhã seguinte. Despediu-se de Harry, bagunçando ainda mais o cabelo do filho. Lílian estava séria, e a despedida foi fria. Quando saiu de casa, teve a impressão de que seu casamento não iria resistir por muito tempo.
Era uma madrugada muita fria, em fins do mês de setembro. Tiago encolhia-se na sua capa, tentando manter-se acordado.Segurava firme a varinha por debaixo das vestes. Estava exausto, há horas estava de vigilância, enquanto boa parte dos seus companheiros tentavam dormir.
Fazia quase dois meses que estavam fora de casa, seguindo o rastro dos Comensais da Morte. Era, sem sombra de dúvida, a expedição mais longa que haviam feito. E a que trouxera maiores lucros também. Já haviam capturado grande parte dos membros daquela facção. Os poucos que sobraram eram justamente os ingleses, e a garota alemã. Era uma questão de horas, talvaz. Os Comensais estavam encurralados na floresta, e os aurores a haviam enfeitiçado, de modo que era impossível desaparatar e aparatar naquela região.
Tiago ouviu um farfalhar de mato atrás de si, e levantou-se depressa, colocando-se em posição de ataque.
- Calma, Tiago...sou eu, Frank...
O rapaz relaxou, sentando-se novamente.
- Cara...você quer me matar de susto?
- Foi só um teste, Tiago - Frank sorriu, exibindo uma expressão cansada e esgotada - Vigilância constante, como diz o velho Moody.
Frank sentou-se ao lado de Tiago, para fazer-lhe companhia. Ficaram em silêncio, tentando ouvir qualquer barulho fora do normal.
- Noite parada, essa...- Frank comentou, baixinho - É horrível ficar parado, esperando...
- Uma hora eles vão ter que aparecer...a água e a comida deles está acabando...mais cedo ou mais tarde, vamos pegá-los.
- E voltar para casa...não aguento mais de saudades...
- Eu nem sei se vou estar casado ainda, quando voltar...- Tiago comentou, amargurado.
- A Lílian não tem escrito para você?
- Tem sido bem fria...escreve mais para dar notícias do Harry...
- E o Neville completou um ano, semana passada. É, Tiago...vida de Auror não é muito fácil...
- Nem um pouco...só espero que todo esse sacrifício compense.
- Claro que vai compensar...só de imaginar meu filho crescendo num mundo sem violência, sem discriminação...
Os dois amigos ficaram novamente em silêncio. Tiago foi relaxando aos poucos, quase dormindo. Porém, um grito de alerta ecoou na escuridão, e foi bruscamente despertado por um cutucão de Frank.
- Potter, Longbottom, estão indo na sua direção...- os dois ouviram a voz de Allison, distante cem metros dali.
Tiago levantou-se depressa, murmurou "Lumos", e a ponta da varinha acendeu, iluminando o seu redor. Não viu um vulto, que pulou de cima de uma árvore, estuporando-o. Caiu de boca no chão, sentindo os óculos se partindo, o sangue escorrendo pelos lábios. Sentiu o corpo todo dolorido, mas já era longe o tempo em que perdia a consciência ao ser estuporado. O vulto o virou de barriga para cima,e Tiago viu diante de si o rosto de Travers, sorrindo debilmente, com a varinha apontada para sua cabeça. O Comensal teve o cuidado de pisar na mão em que Tiago segurava a varinha, imobilizando-a.
- Ora, ora, quem diria...Potter...que coincidência, não? Primeiro o pai, depois o filho...
- Seu filho da...
- Que boca suja, Potter...seu papai não iria gostar...ele foi muito mais educado na hora de morrer...tsc, tsc...pena que eu só ajudei...eu era novo ainda...Malfoy achou melhor ele fazer o serviço...mas dessa vez, eu vou dizer as palavras mágicas...
- Lúcio Malfoy? - Tiago tentava mantê-lo ocupado, falando. Na posição em que estava, podia ver vultos atrás de Travers...e tinha certeza que não eram Comensais da Morte.
- É...muito astuto e inteligente...ajudando nosso Lord a limpar o mundo da sujeira dos trouxas e sangue-ruins...mas por que eu estou falando tudo isso? Não devo satisfação nenhuma a você.
Travers ergueu a varinha, mas não houve tempo para lançar nenhuma Maldição. Tiago viu Frank sair da escuridão, a varinha apontada para o Comensal.
- Estupefaça!!
Adrian Travers caiu sobre Tiago, que agilmente desviou o corpo. Mais do que depressa, os dois aurores o amarraram e o amordaçaram.
- Você esta bem, Tiago?
- Estou...um pouco zonzo, mas já vai passar...conseguimos pegar o desgraçado, Frank.
- É... a tal da alemã tentou passar pelo Calvert, ele não conseguiu impedí-la... Era ele ou ela...
- Ele usou Avada Kedavra?
- Não teve outra escolha. Snape e Avery escaparam, eles tiveram tempo de chegar a orla da floresta e desapartar...
- E nós, tivemos alguma baixa?
- Graças a Deus, não.
Tiago sentou-se, ainda atordoado por tudo o que acontecera. Sentiu um ódio por Travers tão grande, que teve ímpetos de matá-lo. Mas Frank o conteve.
- Precisamos dele vivo, Tiago. Para depor no Ministério...
- Você ouviu o que ele disse sobre o Malfoy?
- Ouvi...escuta, vou enviar uma coruja para o Crouch, e avisar que estamos voltando para casa. Não há muito mais o que fazermos aqui.
- Tá certo...vou comunicar aos outros...
Frank afastou-se, em busca de uma coruja . Tiago acenou a varinha para o Comensal inconsciente, e o fez flutuar até o ponto onde os outros aurores se encontravam. Sentiu alívio e temor ao mesmo tempo, pensando na volta para casa, e como Lílian iria recebê-lo.
Capítulo 8 ...
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