FUGA PARA GODRIC'S HOLLOW

Lílian terminara, naquela tarde, todo o seu serviço, antes mesmo do expediente acabar. Pegou uma revista para ler, enquanto esperava a hora de ir embora. Sentia cada vez mais vontade de passar mais tempo com Harry, mas era impossível largar o emprego, se quisesse manter o mesmo padrão de vida . Ela e Tiago haviam combinado de não mexer na herança dos pais dele, deixando o dinheiro guardado para alguma emergência.

Olhou para as fotos do filho, encantada. Harry estava, a cada dia que passava, mais parecido com Tiago, não só fisicamente, mas também no gênio difícil. Era teimoso como o pai. Agora, que estava aprendendo a andar, não parava quieto, levando a babá à loucura.

Faltando pouco mais de dez minutos para ir embora, Lílian viu Tiago entrando no departamento, aflito. Raramente ele ficava no Ministério, e era mais raro ainda vê-lo subir para os outros departamentos. Justamente por isso, Lílian estranhou a presença do marido ali.

- Arruma suas coisas, Lílian, precisamos ir embora.

- Calma, Tiago. Eu já estou pronta, só estou esperando...

- Você não está entendendo, nós não vamos para casa...- Tiago falava baixo, evitando chamar a atenção. - Vamos precisar fazer uma viagem...é emergência...

- Você pode me dizer o que está acontecendo?

- Pega suas coisas, e vamos descer, que eu te explico no caminho...- Tiago parecia transtornado. Pegou os porta-retratos de cima da mesa, e começou a ajudar a mulher a guardar alguns documentos.

A Sra Figg entrou na sala de Lílian naquele momento, e parecia não estar estranhando o fato de sua funcionária estar juntando suas coisas, como se fosse embora e nunca mais voltar.

- Sra Figg, eu nem sei mesmo o que dizer, alguma coisa coisa está acontecendo - e lançou um olhar de censura para Tiago - vamos viajar, ou coisa parecida.

- Eu já fiquei sabendo, Lílian. Pode ir, daqui a pouco eu desço para falar com vocês.

Somente quando estavam sozinhos, no elevador, Tiago abriu o jogo.

- Invadiram nossa casa, hoje à tarde, Lílian...fizeram uma zona, destruiram um monte de coisa...

- Meu Deus, Tiago, o Harry! - Lílian gritou, desesperada, tentando fazer o equipamento andar mais rápido - O que aconteceu com ele, Tiago?

- Calma, Lílian, calma...ele está lá embaixo. A Samantha saiu com ele para passear, quando voltou, encontrou a casa revirada. Correu na casa da Isabella, que pegou o Harry e veio direto para cá.

Os dois saíram do elevador, no subsolo. Lílian se preciptou, correndo, em direção a porta de entrada do Departamento de Execução das Leis da Magia. Encontrou Isabella sentada na recpção, com Harry dormindo em seu colo.

- Ah, Graças a Deus, Isabella. Ele está bem?

- Está, Líli, calma. Senta aqui - Isabella deu espaço para a amiga, e passou o bebê para os braços da mãe .

- O Sirius já chegou, Isabella?

- Ainda não, Tiago.

- Será que alguém pode me dizer exatamente o que está acontecendo? - Lílian estava irritada, tentando entender que loucura era aquela.

Tiago tirou uma carta de dentro do bolso, e entregou para Lílian. Era de Dumbledore.

Caros Tiago e Lílian,

Gostaria, neste momento, de não estar escrevendo essa breve carta. Infelizmente, não são só os momentos agradáveis que fazem parte da nossa vida.

Peço, encarecidamente, que deixem Londres imediatamente, assim que receberem esta. Venham para Hogwarts, onde poderemos conversar calmamente.

Tudo indica que Lord Voldemort está atrás de vocês. Portanto, não percam tempo.

Fiquem tranquilos, vamos resolver essa situação o mais brevemente possível.

A. Dumbledore

- Eu recebi essa carta minutos antes da Isabella chegar, Lílian, e pedi para o Sirius ir até nossa casa, ver o que ele consegue retirar de lá. Já avisei o Sr Crouch, ele vai disponibilizar um carro do Ministério e uma escolta para nós, até King's Cross...

- Isso é loucura, Tiago. Por que Voldemort estaria atrás de nós? A não ser que toda aquela história com o Malfoy - Lílian agora estava furiosa. Colocou Harry novamente no colo de Isabella, e encarou o marido - Porque tanta teimosia, Tiago? Adiantou alguma coisa provocar essa gente? Está vendo o resultado?

- Não vem querer me culpar, Lílian. Eu fiz o que deveria ser feito.

- Você não percebe que Voldemort simplesmente elimina as pessoas que tentam atrapalhar o caminho dele, Tiago?

- Ei, ei, vamos parar de brigar? - Sirius entrou na sala, acompanhado de Frank. Os dois empunhavam as varinhas, fazendo várias caixas se equilibrarem no ar. Sirius relaxou, e fez com que as caixas que estava controlando, caissem com delicadeza no chão. Deu um beijo em Isabella, e pegou Harry no colo, que acordara assustado, com a discussão dos pais. Crouch chegou logo em seguida, avisando que o carro já estava estacionado nos fundos do prédio.

- Acho melhor vocês irem...- Frank parecia nervoso, apertando as mãos sem parar.

- Avisa a Denise, Frank, e diz que eu mandei um abraço para ela e para o Neville.- Lílian estava séria, e evitou olhar para Tiago. - Sirius, pode me dar o Harry.

- Eu levo ele, Lílian, pode deixar. Eu e a Bella vamos com vocês até a estação.

- Então vamos logo. - Tiago usou a própria varinha para mover as caixas do lugar, e se despediu de Frank, Moody e alguns aurores que estavam por ali no momento.

Dez minutos depois, desembarcavam diante da estação King's Cross, e se dirigiram para a Plataforma 9 e meia. Apesar de não passarem por ali há alguns anos, sabiam ainda exatamente como fazê-lo. A locomotiva vermelha já estava parada na plataforma, e alguns bruxos já estavam embarcando.

- Acho melhor vocês embarcarem logo . - Sirius entregou Harry para Lílian, e deu um abraço na amiga - Boa sorte para vocês.

- Nós vamos precisar, Sirius...- Lílian afastou-se do rapaz, e abraçou Isabella, que não conseguia conter as lágrimas - Ei, Bella, por favor...não precisa chorar...escuta - limpou as lágrimas do rosto da amiga - Você e o Sirius já tem previsão de quando vão se casar?

- Assim que o meu divórcio sair, Lílian...por que?

- Me escreva, e eu vou dar um jeito de ir...nós vamos nos ver em breve.

Tiago também se despediu dos amigos, e fez sinal para a esposa entrar no trem. Lílian não falou com o marido. Escolheu a última cabine, e sentou-se, aconchegando Harry no colo, tentando fazê-lo dormir.Tiago sentou-se no banco em frente. O trem apitou pela última vez, e Lílian acenou para Sirius e Isabella, parados na plataforma, vendo o trem ganhar velocidade. Assim que fez a primeira curva, já não podia ver mais os amigos.

Nunca havia se sentindo tão infeliz, sendo obrigada a deixar para trás tudo o que conquistara nos últimos anos: seus amigos, seu trabalho, sua casa. Deixou as lágrimas rolarem a vontade pelo rosto, enquanto observava a escuridão lá fora. Tiago apoiou a cabeça no vidro da janela, e encarou a esposa. Seus olhares se cruzaram, e ambos revelavam o desespero que estavam sentindo. Tiago levantou-se de onde estava, sentou-se ao lado de Lílian e a puxou para si. Esta afundou a cabeça nos ombros do marido, chorando mansinho. Tiago a abraçou ainda mais, chorando também . Não passavam de duas crianças assustadas. E, entre os pais, Harry dormia, tranquilo, alheio a tudo o que acontecia ao seu redor.


Hogwarts ainda estava mergulhada no silêncio, quando Lílian saiu do quarto reservado para ela, Tiago e Harry. Haviam chegado ao castelo no meio da madrugada, exaustos da viagem. Mesmo assim, não conseguiu dormir. Agora, perambulava sozinha pelos corredores do castelo, protegida pela Capa da Invisibilidade de Tiago. Não queria ser vista por ninguém, naquele momento. Lembrava-se de todos os detalhes do castelo, e de como havia sido feliz ali, sem grandes preocupações. Como era possível que tudo tivesse mudado em tão pouco tempo?

Quando finalmente os alunos começaram a sair de suas casas, Lílian voltou para o quarto. Tiago já estava acordado, trocando de roupa. Sorriu, surpreso, quando viu a esposa despir a capa.

- Onde esteve?

- Por aí...andando, matando as saudades. Você dormiu bem?

- Mais ou menos...- Tiago ficou sério, novamente - Você não pregou os olhos, Lílian...

- Você sabe que eu sofro de insônia...principalmente nos momentos de tensão...

Harry choramingou, baixinho. Tinha acabado de acordar, e sentia fome. Lílian pegou o filho no colo, e o aninhou nos braços. Ouviram uma batida na porta, e quando Tiago atendeu, encontrou a Profª McGonnagal parada a sua frente, com a mesma expressão que ele conhecia tão bem.

- O Diretor quer vê-los, Potter. - A voz da professora era grave, mas sorriu ao ver Lílian com o bebê no colo. - É uma bela criança, meus parabéns.

- Obrigada, professora. - Lílian sorriu, e completou - Mas ele está com fome, e nós também. Será que podemos tomar um café antes?

Alguns minutos depois, bem alimentados, entraram na sala de Alvo Dumbledore. O diretor mantinha uma expressão grave, mas, assim como a Profª McGonnagal, não pode deixar de sorrir, quando aproximou-se de Harry, e este tentou tirdar os óculos de meia-lua que Dumbledore usava. Por fim, sentou-se, e começou a expor suas preocupações em relação aos Potter. Lílian ouviu o professor em silêncio. Até então , parecia estar vivendo apenas um longo pesadelo, mas agora o perigo era real.

- E o que nós poderemos fazer, Profº Dumbledore? - Tiago interrompeu o diretor, ansioso.

- Passei horas conversando com todos os professores, Tiago. Chegamos a conclusão de que seria melhor vocês se esconderem, através do Feitiço Fidelius.

- Aquele que necessita de um fiel do segredo? - A voz de Lílian estava baixa e hesitante - Mas é muito difícil de ser feito, não?

- Mas é a maneira mais fácil de se manterem longe de Voldemort...eu passarei toda a instrução que vocês precisarem, e me ofereço também como fiel do segredo...

Tiago e Lílian se entreolharam, por alguns instantes, como se um estivesse lendo a mente do outro.

- Não, professor. Nós faremos o feitiço, já que é nossa única chance...- Lílian tentou conter-se, abraçando Harry com força.

- Mas é muita responsabilidade para o senhor manter nosso segredo.- Tiago continuou, completando o pensamento da esposa. - Poderemos escolher outra pessoa...Sirius por exemplo.

- Vocês têm que escolher uma pessoa em quem possam confiar.

- Confio em Sirius mais do que em qualquer outra pessoa...- Tiago parecia levemente ofendido, mas acalmou-se - Quero dizer , professor, além do senhor e Lílian, naturalmente.

Dumbledore parecia hesitar, mas conhecia o rapaz muito bem, e sabia como era teimoso. E Lílian compartilhava da mesma opinião do marido.

- Pois assim seja, então. Logo após o almoço, ensinaremos o feitiço a vocês.

- E para onde iremos? Vamos voltar para Londres? - Lílian parecia ansiosa para voltar para sua casa.

- Londres não, Lílian. Nem tampouco River Country . - Dumbledore viu a decepção estampada no rosto da jovem, e imaginou o quanto estava sofrendo, tendo que manter-se longe dos lugares que amava e dos seus amigos. - Imaginei que podiam ir para Godric's Hollow. É uma cidade tranquila, próxima de Hogsmeade.

- A cidade onde Godric Gryffindor viveu seus últimos anos?

- Exatamente. Hoje em dia há mais trouxas que bruxos por lá.

Tiago olhou para Lílian, procurando a aprovação da mulher. Realmente, não havia muita escolha para eles, e aquela parecia ser a única alternativa. Concordaram com um aceno de cabeça.


Godric's Hollow era uma cidade pequena e pacata, muito parecida com Hogsmeade. Lílian, que estava acostumada com a agitação de Londres, odiou aquele lugar desde o primeiro instante em que pisara ali. Alugaram uma casa pequena, no subúrbio da cidade. Era um barraco, se comparada à de Londres, ou a mansão dos Potter, em River Country.

Sirius chegou à cidade dois dias depois, para realizarem o feitiço. Na hora em que recebera a mensagem de Tiago, que pedia ao amigo para ser o fiel do segredo, não pensara duas vezes em aceitar o pedido. Porém, agora, sentindo o vento contra o rosto, enquanto acelerava a moto, que outra pessoa despertaria menos suspeitas de Voldemort. Durante toda a viagem, imaginou que Pedro seria uma pessoa mais indicada : um bruxo sem talentos, não trabalhva para o Ministério, enfim, despertaria menos suspeitas do que ele, Sirius Black, padrinho de casamento dos Potter, e de batizado do bebê.

Sobrevôou a casa dos Potter, e viu Lílian no jardim, lendo uma revista. A moça não o viu, pois ele estava invisível ( era a única maneira de voar com a moto, sem ser visto pelos trouxas). Aterrisou, e voltou a ficar visível, assustando a amiga com o ronco do motor.

- Sirius, seu louco! - Levantou-se para receber o amigo. Dava o primeiro sorriso verdadeiro depois de dias. Abraçaram-se como se fizesse anos que não se viam.

- Cadê o Tiago?

- Está lá dentro, nós três precisamos conversar, antes do feitiço, Sirius...

Os dois entraram na sala minúscula, encontraram Tiago sentado na mesa, escrevendo num pergaminho. Levantou os olhos ao ver o amigo ali dentro.

- Ah, olá Sirius, como vai?

- Eu estou bem, apenas preocupado. E vocês?

Tiago deu de ombros, como se não se importasse com mais nada. No fundo, estava mais tranquilo agora, com a presença do amigo. Pegou os pergaminhos em que estivera escrevendo, e passou-os a Lílian, que os leu e , em seguida, os assinou. Estendeu-os para Sirius, que não entendeu nada.

- O que é isso?

- O primeiro é um termo de tutela do Harry, autorizando você a levá-lo, se alguma coisa acontecer conosco...- A voz de Lílian estava firme e fria, o que assustou um pouco Sirius.

- O outro é nosso testamento. Nossos bens devem ficar indisponíveis até Harry se formar em Hogwarts, caso ...- Tiago hesitou um pouco, sem completar a frase.

- Ora, vocês não vão precisar disso. - Sirius tentava manter a voz leve e displicente.

- Não custa nada nos precavermos, Sirius. Nós deixamos uma boa provisão de dinheiro em Gringotes. Entregamos a chave para Dumbledore, achamos mais seguro. Minha capa ficou por lá , também. O Diretor a entregará para o Harry.

- Pensei que vocês dois fossem mais otimistas - Sirius estava meio irritado, com as providências que os amigos estavam tomando.

- Quando se está sendo perseguido por Voldemort, é impossível pensar em outra coisa.

Sirius balançou a cabeça, incrédulo. Por fim, abriu o jogo com os Potter, e revelou o seu plano para os amigos. Lílian e Tiago permaneceram em silêncio, ouvindo os argumentos de Sirius, para usarem Pedro como fiel do segredo.

- Se você está com medo, Sirius, é só falar. - Lílian estava ofendida com a atitude do amigo, parecia que ele se negava a ser o fiel do segredo.

- Pelo amor de Deus, Lílian , você sabe o quanto eu gosto de vocês, e o quanto eu quero vê-los a salvo. Porém, eu posso despertar as suspeitas de Voldemort, e por o plano em perigo.

- O Sirius tem razão, Lílian. Pense bem...Pedro não despertaria as suspeitas de ninguém...

- E você acha que ele concordaria?

- Acho que sim. Ele tem me procurado para obter notícias de vocês.

- E você falou do nosso plano?

- Com o Pedro não. Só comentei com o Remo, e pedi segredo. Não contei nem mesmo para a Isabella.

- Quanto menos gente souber, melhor . - Lílian resignou-se, amuada. - Então, fale com o Pedro, e peça para ele vir aqui, amanhã, sem falta. Não podemos esperar mais.


Voldemort estava em sua casa, furioso há vários dias, desde que os incompetentes do Crabbe e Goyle haviam fracassado na tentativa de acabar com Potter. Agora, percebia que uma tarefa importante como aquela não deveria nunca ter sido confiada a dois idiotas sem cérebro. Ele próprio iria terminar o serviço, desde que seus fiéis servos descobriessem o paradeiro dos Potter. Esperava, há dias, que seu espião lhe trouxesse boas notícias. E, embora ele fosse um idiota também, era íntimo dos Potter, e ultimamente o mantia bem informado.

Ouviu uma batida na porta, e uma figura, um homem baixo e meio gordo, entrou. Havia em seu rosto um sorriso sinistro, e seus olhos brilhavam de fanatismo.

- Então, meu caro Pettigrew, alguma novidade? Ou será que está apenas me fazendo perder meu precioso tempo?

- Não, milorde. Jamais faria uma coisa dessas, senhor - Pedro agora tremia, um prazer antes nunca experimentado, percorria todo o seu corpo. Sabia que o que tinha a revelar era importante demais, e finalmente estaria entre os mais fiéis dos servos. Uma honra que poucos tinham. Até mesmo a de Malfoy estava em baixa, ultimamente.

- Então fale logo, imbecil. - A voz de Voldemort era ríspida e fria.

- Senhor...aconteceu...os Potter me fizeram o fiel do segredo deles!!!

Capítulo 10...

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