NOVOS RUMOS
Enquanto se arrumava para sair, na noite de 24 de dezembro, Isabella repassava mentalmente a conversa que tivera com Mellyssa Black uma semana atrás. Não fora muito fácil, já que o relacionamento entre as duas não era dos melhores. Mas a mãe de Sirius estava tão mudada, que Isabella imaginava estar diante de outra pessoa.
- A Lyra me disse que você está grávida...isso é verdade, Isabella? - havia um tom de urgência na voz de Mellyssa. - Minha filha não está imaginando coisas, está?
- É verdade, Sra Black...
Mellyssa ficou por uns instantes em silêncio, tentando absorver a notícia. Era jovem demais para ser avó. No entanto, pensou mais uma vez no filho. Vinha pensando nele todos os dias, todas as horas, imaginando que fosse enlouquecer. E agora, a namorada dele estava ali, na sua frente, afirmando estar grávida. Sentiu pena de Isabella, que afinal de contas não passave de uma criança assustada. Limpou as lágrimas que escorriam do rosto da moça, e finalmente sorriu.
- Vai ficar tudo bem, Isabella. Nós vamos te ajudar. Precisamos permanecer unidos, e essa criança vai ser muito feliz. Não vou deixar nada faltar para o meu neto.
- Eu não estou pedindo nada, Sra Black, eu só não suporto mais ficar sozinha...sem ninguém que consiga entender o que estou sentindo...
- Não se preocupe, Isabella, e deixe tudo por nossa conta. Vou cuidar de você e do bebê. E por favor, não me chame de senhora, sim? Pode me chamar de Mellyssa.
A campainha tocou, e Isabella atendeu a porta. Remo estava parado a sua frente, sorrindo discretamente.
- Feliz Natal , Isabella. - O rapaz entrou, e abraçou a amiga.
- Feliz Natal para você também, Remo . Foi bom você ter aparecido, estava começando a me convencer que você sumira.
- Eu só viajei um pouco, desculpe não ter te dado notícias...e como você está?
- Eu estou indo, Remo...tentando tocar a minha vida.
- Quer ir para a minha casa, passar a noite de natal comigo e com a minha mãe?
Isabella encarou o amigo, sem conseguir achar uma desculpa para dizer não. Já havia combinado ir para a casa dos Black.
- Sinto muito, Remo, mas não vai dar.
- E você vai ficar aqui, sozinha?
- Não vou ficar sozinha...obrigada pelo convite, assim mesmo.
Remo puxou com delicadeza a mão direita de Isabella, e olhou para o anel que ela ganhara de Sirius.
- Como você tem coragem de usar isso? Remo agora apertava o punho de Isabella com força.
- Isso foi um presente, Remo - Isabella puxou a mão, esfregando o punho. Do homem que eu ainda amo...
- Você está ficando louca...- o rapaz balançou a cabeça, icrédulo.
- Pelo menos eu não oculto os meus sentimentos, e nem ajo covardamente...
- O que você quer dizer com isso?
- Você poderia ter sido um pouco mais delicado com a Lyra, Remo...só isso.
- Então vocês já estiveram juntas?
- Já...e se você quer mesmo saber, eu estou indo para River Country passar a noite de Natal...
Isabella encarou o amigo, vermelho de raiva. Nunca havia visto Remo, sempre tão calmo, se descontrolar daquela forma.
- Você perdeu a noção da decência, Isabella? Se juntar àquela gente? Por que? Será que você não entende o que ele fez? Tiago, Lílian e Pedro, Isabella...ele matou os três...
- Eu tenho meus motivos, Remo...você jamais entenderia.
- O que você está escondendo de mim? E porque essa, agora , confratenizar com os Black? Vocês nunca se deram bem...- Remo observou a amiga atentamente - Há alguma coisa que ainda te ligue com aquela família , Isabella?
- Eu estou grávida do Sirius, Remo. É isso que você queria saber?
O rapaz sentou-se no sofá, espantado demais com a revelação de Isabella. Embora ele estivesse desconfiado, não esperava que realmente fosse verdade. Isabella permaneceu em pé, encostada na estante.
- Bella...escuta, você não precisa dos Black...eu...eu te ajudo a criar a criança...ele ou ela nunca vai precisar saber a verdade, eu assumo a paternidade, até caso com você...lógico, se você quiser...
- Remo Lupin, você é o cara mais patético que eu conheço - Isabella o encarou, com raiva - O pai do meu filho é Sirius Black, e nada vai mudar isso. Nada, entendeu? E ele vai crescer sabendo a verdade.
- Se você prefere assim...eu poderia poupar você, evitar que seu filho seja apontado na rua, em Hogwarts, ou seja lá onde ele estiver. Bem, feliz natal, Isabella.
Remo desaparatou, deixando Isabella sozinha. Ela sentou-se no sofá, e chorou de raiva. Não queria brigar com Remo, ofendê-lo, mas o que poderia ter feito diante daquela proposta absurda?
O jantar transcorreu tranquilamente na casa dos Black, salvo as condições em que se encontravam. Isabella não conseguia ficar a vontade ali, mas era o único lugar em que poderia expor seus sentimentos em relação a Sirius sem ser criticada. Tentava imaginar o tamanho do sofrimento que os Black estavam sentindo, e a exclusão social pela qual estavam passando. Mellyssa a fez repetir o seu encontro com Sirius, antes do filho ser levado para Azkaban.
- E você não contou a ele, Isabella? Não disse que estava grávida? - Felix perguntou, amargurado.
- Não tive tempo...e me arrependo de não ter falado antes...
- Ele não devia ter saído aquele dia...- Mellyssa murmurou, tristemente.
- Agora não adianta mais pensarmos no passado, Mel...temos que cuidar do futuro, isso sim. Da nossa filha, de Isabella e nosso neto.
- Que tal falarmos sobre aquela proposta, pai? - os olhos azuis de Lyra brilhavam intensamente.
- Que proposta? - Isabella perguntou, interesssada.
-Bem...Isabella, você já deve estar sabendo que a Lyra irá no começo de janeiro para Salem, terminar os estudos. No entanto, ela não quer ir sozinha...e Mellyssa e eu não estamos dispostos a nos mudar para os EUA. Então, nós pensamos: você não gostaria de ir com ela? Iria ser muito mais tranquilo ter o bebê longe daqui.
A proposta de Félix era ousada e relativamente assustadora. Mas Isabella nunca havia temido o desconhecido, embora dessa vez não estivesse sozinha. Não havia mesmo sentido continuar na Grã-Bretanha. Então, em questão de segundos, decidiu-se: pediria demissão e iria embora da Europa, acompanhando Lyra rumo à América.
O Ministério da Magia parecia tomado de uma excitação e expectativa nunca vista antes. Era chegada a hora da renovação, esperada por toda a comunidade mágica, depois de tantos anos de caos e guerra. No entanto, muitos dos planos ministeriais tiveram de ser mudados às vésperas da escolha do novo ministro.
Arabella Figg acompanhava com pouco interesse toda a movimentação. Sentia-se completamente desanimada, frente aos acontecimentos que haviam abalado todo o Ministério. Poucas semanas antes de Lílian morrer, Arabella havia sido convidada a compor a lista de nomes que disputariam o mais alto cargo ministerial, e aceitara o convite. Seria a primeira mulher a concorrer para a vaga . Sua aposentadoria podia esperar, e Lílian seria sua substituta. E seus concorrentes eram nomes de grande peso e prestígio: Cornélio Fudge, Bartolomeu Crouch e Félix Black, de quem era amiga há muitos anos.
Porém, quando os Potter morreram, Arabella retirou sua candidatura, e decidiu afastar-se de uma vez por todas do Ministério. Não concordou com o fato de terem obrigado Félix a pedir sua aposentadoria. Crouch, o mais cotado dos quatro para o cargo de Ministro, foi o primeiro a colocar-se contra Black, fazendo questão de enfatizar o monstro que era o filho dele. Bem...Crouch não tivera a mesma sorte. Seu filho fora pego em companhia de Comensais da Morte, acusados de atacarem o casal Longbottom. E o mandara para Azkaban, após um julgamento fajuto, no qual ficou claro que Bartolomeu Crouch faria qualquer coisa pelo poder. Isso não o fazia muito diferente dos seguidores de Lord Voldemort.
No entanto, Crouch ficara desacreditado, e perdera a vaga de Ministro para Fudge. No fim, o Conselho Ministerial resolveu que Crouch ficaria a frente do Departamento de Cooperação Internacional em Magia, substituindo Arabella Figg.
Arabella arrumava o seu escritório, recolhendo seus pertences pessoais. Era primeiro de janeiro, um novo ano começava. Dois dias antes, esteve em Hogwarts, conversando com seu velho mestre, Alvo Dumbledore, o qual lhe propusera uma importante tarefa. E ela não pode recusar. Se mudaria naquela mesma tarde para a rua em que a irmã de Lílian morava, para vigiar Harry Potter, e protegê-lo. Era a úncia coisa que poderia fazer por Lílian, mais do que sua funcionária, uma grande amiga, quase sua filha.
Félix Black apareceu a porta do escritório, e observou Arabella esvaziar as gavetas. Sentia-se grato em relação a amiga. Havia sido a única pessoa em todo o Ministério que não lhe virara as costas.
- Boa tarde, Arabella.
- Félix? Que surpresa te ver aqui...- Arabella sorriu, arrumando os cabelos.
- Eu vim acertar minhas contas e,lógico, me despedir de você. Vou deixar a Inglaterra ainda essa semana...
- E para onde você vai?
- Eu e Mellyssa resolvemos ir viver na fazenda que ela herdou dos pais, na Irlanda.
- E quanto a sua filha?
- A Lyra embarca amanhã para a América. Vai estudar em Salem. E você, o que vai fazer da sua vida?
- Vou me embora de Londres...curtir minha aposentadoria ...- corou um pouco, ninguém deveria saber para onde iria.
- Então boa sorte, Arabella.
- Até logo, Félix. - Arabella abraçou seu velho amigo, com lágrimas nos olhos - Mantenha contato, e mande minhas lembranças a Mellyssa.
Felix retirou-se da sala, deixando Arabella novamente sozinha com seus pensamentos. Era o fim de uma era, o Ministério renovava-se, e tirava de campo seus funcionários indesejáveis. Era injusto aquele sistema, e sentiu-se bem por estar indo embora dali.
Isabella levantou-se ainda de madrugada, no dia em que iria viajar para a América. Passara aquela última noita em River Country, ajudando Mellyssa e Félix a organizar toda a mudança. Ainda estava escuro, e nevava forte, mas mesmo assim saiu de casa, rumo ao cemitério da cidade.
Comprou um grande maço de flores, e caminhou em direção ao mausóleu da família Potter. De longe, no meio da névoa, percebeu que havia um homem ajoelhado em frente ao túmulo. Quando chegou mais perto, o reconhecu na mesma hora: era Severo Snape.
- Bom dia, Severo.
O rapaz levantou-se, assustado. Estava extremamente pálido, com os olhos inchados e vermelhos. Provavelmete, estivera chorando.
- O que você está fazendo aqui? - perguntou a Isabella, com raiva.
- Eu é que faço essa pergunta, Severo Snape...eu vim trazer flores para os meus amigos, e você?
Snape permaneceu em silêncio, incapaz de falar qualquer coisa.
- Você a amava demais, não?
- Isso não é da sua conta, Bianchi. Principalmente depois do que o seu amante fez...
- O mundo é bastante injusto, Snape. - Isabella respondeu, tentando controlar o tom da sua voz...- Quantos como você conseguiram escapar de Azkaban? Imagino quanta mentira você deve ter contado, para convencer até mesmo Dumbledore de que era inocente.
- Eu nunca afirmei ser inocente, e reconheço os meus erros...pelo menos eu não fingi ser o rapaz perfeito durante todos esses anos. Sempre fui autêntico, nunca usei de falsidade como o Black.
Os dois permaneceram em silêncio. Isabella lia todos os nomes gravados no mausóleu, os antepassados de Tiago, sendo observada por Snape.
- Eu tentei salvá-la...- murmurou, por fim. - Não podia deixá-la morrer...mas, mais uma vez, por culpa do Black, eu a perdi. E agora não tem mais volta.
- Ouvi dizer que você será professor em Hogwarts, no próximo ano letivo...
- É, é verdade...a última coisa que eu pensei que fosse fazer na vida.
- Quem sabe um dia você não será professor do filho dela?
- E ter que encará-lo e me lembrar quem era o pai dele? Não, muito obrigado...espero estar longe quando isso acontecer...bem, minha cara, tenho mais o que fazer.
- Então adeus, Severo. Não posso dizer que foi um prazer te encontrar, mas mesmo assim te desejo boa sorte.
Snape não respondeu. Deu meia volta e desaparatou.
O aeroporto de Londres estava cheio como sempre naquela tarde, devido aos vôos atrasados por causa das fortes nevascas. No entanto, isso não parecia importar para Isabella e os Black. Encaminharam-se em direção a uma loja de doces, e fingiram estar comprando guloseimas para a viagem. No entanto, entre as prateleiras abarrotadas, havia uma pequena passagem, que dava acesso a um outro aeroporto, imperceptível para os trouxas.
Pararam diante do portão de embarque para Boston. Felix tirou as passagens do bolso, e as entregou para Isabella e Lyra.
- Bom, vocês já têm todas as instruções de como devem ir para Salem, ao desembarcarem em Boston. Alguma dúvida?
- Não, pai. Estamos tranquilas.
- Então, boa viagem. Isabella, cuide-se bem, e tome conta da Lyra e do bebê.
- Pode deixar...a viagem será breve, não? Eu não gosto muito de aviões...
- Esse é cem por cento seguro, querida. - Mellyssa sorriu, ao ver o medo estampado no rosto de Isabella - protegido por mágica, voa mais rápido e não é reconhecido pelo radar dos trouxas.
Lyra e Isabella despediram-se de Felix e Mellyssa, e entraram pelo corredor de embarque. Entraram na aeronave, e observaram toda a movimentação do aeroporto. Lyra pegou uma revista, e começou a ler, sem dar muita importância ao que ocorria a sua volta. Isabella apoiou a cabeça na janela, e parou para pensar na mudança que sua vida teria, a partir do momento que o avião levantasse vôo.
- Você só pode estar louca...- Remo repetia a mesma frase, enquanto Isabella contava os seus planos para o amigo. - Ir embora da Inglaterra?
- Eu sempre fui louca, Remo...- Isabella sorriu, conformada - Só achei que eu deveria lhe contar...ainda somos amigos, espero.
- Claro que sim...acho que só posso dizer adeus, então.
- Então adeus, Remo. Cuide-se .
Ouviram a voz do piloto, pedindo que colocassem os cintos. Em seguida, o avião começou a se mover, colocando-se em posição na pista.
Não era assim que Isabella imaginava que seria sua vida. O avião já estava na cabeceira da pista, esperando a autorização para decolar. Estava deixando tudo para trás, em busca de mais uma chance. Perguntou-se se algum dia teria paz suficiente.
O avião moveu-se, correndo pela pista, cada vez mais veloz, até levantar vôo. As lágrimas corriam pelo seu rosto, enquanto contemplava Londres, pela última vez. E jurou, para si mesma, que um dia voltaria. E seria feliz...
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