.
CAPÍTULO II
.
Ao amanhecer, a estrada ao sul de Bruxelas parecia uma cena saída do inferno.
Estava lotada de carroças, charretes e homens caminhando penosamente, alguns carregando caixões ou apoiados em um companheiro. Quase todos exibiam ferimentos, parte deles bem graves. Voltavam do campo de batalha, ao sul da cidade de Waterloo.
Bella nunca vira um horror interminável como aquele.
A princípio, achou que ela, Alice e Rosalie eram as únicas indo na direção oposta, mas é claro que se enganara: pessoas a pé ou até em veículos seguiam para o sul. Um soldado em péssimo estado com o rosto sujo de pólvora que guiava uma carroça ofereceu-se para levar as damas. Alice e Rosalie, convincentes no papel de esposas ansiosas, aceitaram.
Isabella não aceitou. A bravata que a levara até ali estava se desintegrando rapidamente. O que ela estava fazendo? Como pudera até mesmo pensar em se beneficiar de toda aquela miséria?
– Vão vocês. Deve haver muitos homens feridos na floresta. Vou olhar lá. Procurarei por Jack e Sam também – acrescentou, erguendo a voz para que não só o condutor da carroça como qualquer outra pessoa por perto pudesse ouvir. – E vocês procurem por Harry para mim, mais para o sul.
A mentira e a farsa fizeram com que se sentisse suja e pecadora, embora fosse pouco provável que alguém estivesse prestando atenção nela. Isabella saiu da estrada lotada e começou a caminhar por entre as árvores da floresta de Soignés, embora não fosse muito longe, para não se afastar demais da estrada e acabar perdida.
Que diabos iria fazer agora?, perguntou-se. Estava convencida de que não conseguiria continuar com o plano. Não teria coragem de pegar nem um lenço de um pobre homem morto. E mesmo a ideia de ver um cadáver fazia a bile subir por sua garganta. No entanto, voltar com as mãos vazias, sem ao menos ter tentado, seria egoísta e covarde da parte dela.
Lembrou-se então do Sr. Crawley sentado com as damas na sala de estar da Rue d'Aremberg, explicando a elas como era perigoso manterem uma grande soma de dinheiro guardada com elas, em tempos tão voláteis e em uma cidade estrangeira. Ele se oferecera para levar o dinheiro com ele a Londres, onde conseguiria investi-lo com bons lucros. Isabella ficara ao lado do reverendo, sorrindo, orgulhosa por ter sido ela que apresentara as mulheres a uma pessoa tão bondosa, solidária, atenciosa. Depois, agradecera ao Sr. Crawley.
E pensara que, ao menos uma vez na vida, havia conhecido um homem firme, confiável e resoluto. Quase imaginara que o amava.
Bella cerrou os punhos ao lado do corpo e trincou os dentes, mas a realidade dos arredores logo acabou com suas reminiscências inúteis. Deve haver milhares de feridos em todas essas carroças e charretes, deu-se conta, desviando o rosto da estrada à sua esquerda. Todo aquele sofrimento ao redor e, ainda assim, ela fora até ali em busca de cadáveres, para vasculhá-los e saquear qualquer bem valioso que fosse de fácil transporte e que pudesse ser vendido.
Simplesmente não conseguiria fazer isso.
Então, Isabella bateu os olhos no primeiro cadáver. Seu estômago pareceu se virar do avesso, dando-lhe uma ânsia de vômito.
Ele estava caído contra o tronco alto de uma das árvores, fora da visão da estrada, e definitivamente morto, além de nu.
Isabella sentiu os músculos abdominais se contraírem de novo enquanto dava um passo hesitante, relutante, mais para perto do homem. Em vez de vomitar, ela riu. E levou a mão à boca, mais horrorizada com a reação inapropriada do que teria ficado se houvesse esvaziado o conteúdo de seu estômago no chão em plena vista de milhares de homens. Por que achava engraçado não haver restado nada para saquear? Alguém descobrira aquele homem antes dela e levara tudo.
Isabella sabia que, de qualquer modo, não conseguiria fazer aquilo. Naquele momento teve certeza absoluta disso. Mesmo se o homem estivesse completamente vestido e usasse um anel valioso em cada dedo, um relógio e um cordão de ouro, bolsas cheias na cintura e uma espada de ouro ao lado do corpo, ela não seria capaz de pegar nada. Teria sido roubo, sim.
O homem era jovem, com cabelos que pareciam muito escuros em contraste com a pele pálida. A nudez era terrível, patética, sob aquelas circunstâncias, pensou. O rapaz era um monte insignificante de humanidade morta, com um ferimento medonho na coxa e uma poça de sangue sob a cabeça, sugerindo que ali também havia outra ferida grave. Ele era filho de alguém, irmão, talvez marido, talvez pai. A vida fora preciosa para ele e, talvez, para dezenas de outras pessoas.
A mão que Bella levara à boca começou a tremer. Estava fria e úmida.
– Socorro! – chamou ela em voz fraca na direção da estrada. Ela pigarreou e gritou com a voz um pouco mais firme: – Socorro!
Além de uns poucos olhares apáticos, ninguém prestou atenção nela. Todos, sem dúvida, estavam muito preocupados com o próprio sofrimento.
Ela se apoiou em um dos joelhos e se aproximou mais do homem morto, sem saber bem com que intenção. Iria rezar por ele? Fazer uma vigília por ele? Mesmo que o morto fosse um estranho, não merecia que alguém registrasse seu falecimento? Ele estivera vivo na véspera, com uma história, esperanças, sonhos e preocupações próprias. Ela estendeu a mão trêmula e pousou-a no rosto dele, como se o abençoando.
Pobre homem. Ah, pobre homem...
Ele estava frio, mas não gelado. Com certeza havia um resto de calor sob sua pele.
Bella retirou a mão rapidamente e voltou a pousá-la no pescoço dele para sentir a pulsação. Havia um fraco pulsar sob seus dedos. Ele ainda estava vivo.
– Socorro! – gritou ela de novo, pondo-se de pé e tentando desesperadamente chamar a atenção de alguém na estrada. Ninguém olhou para ela. – Ele está vivo! – berrou mais uma vez com toda a força dos pulmões. Estava desesperada por ajuda. Talvez o homem ainda pudesse ser salvo. Com certeza ele não tinha muito tempo. Bella gritou ainda mais alto, se é que isso era possível: – É meu marido! Por favor, alguém me ajude!
Um cavalheiro a cavalo – não era militar – voltou a atenção na direção dela e, por um momento, Bella achou que ele se aproximaria para ajudá-la, mas quem acabou saindo da estrada foi um homem gigante, um sargento, com uma atadura ensanguentada ao redor da cabeça e sobre um dos olhos, que veio cambaleando na direção dela.
– Estou indo, moça. O estado dele é muito grave?
– Acredito que sim. – Bella se deu conta de que chorava muito, como se o homem inconsciente fosse um ente querido. – Por favor, ajude-o!
Isabella acreditara tolamente que, depois que eles chegassem a Bruxelas, tudo ficaria bem, que haveria uma enorme quantidade de médicos e cirurgiões esperando para cuidar dos ferimentos do grupo ao qual se juntara. Ela caminhava ao lado da carroça onde o sargento encontrara espaço para o homem nu e inconsciente. Alguém conseguira um pedaço de saco de aniagem para cobri-lo parcialmente, e Bella também cedera o próprio xale.
O militar seguia perto dela. Ele se apresentara como Emmett McCarty e explicara que tinha perdido um dos olhos na batalha, mas que teria voltado ao regimento depois de ser tratado em um hospital de campanha se não houvesse sido dispensado do Exército – ao que parecia, não havia utilidade para sargentos com apenas um dos olhos. Pagaram o que lhe deviam, a dispensa fora registrada no livro de pagamento dele, e estava feito.
– Uma vida como soldado jogada no esgoto, por assim dizer – lamentou ele com tristeza. – Mas não importa, vou me recuperar. A senhora tem o seu homem com que se preocupar, madame, e não precisa ficar ouvindo meus choramingos. Ele vai conseguir se safar, se Deus quiser.
Quando eles chegaram a Bruxelas, havia um número absurdo de feridos e moribundos perto dos portões de Namur. O homem inconsciente talvez nunca conseguisse um cirurgião se o sargento não houvesse exercido a autoridade a que não tinha mais direito e gritado ordens para que se abrisse caminho até um dos hospitais improvisados em barracas. Isabella desviou o olhar quando retiraram uma bala de mosquete da coxa do desconhecido – graças a Deus estava inconsciente, pensou ela, sentindo-se fraca só de pensar no que estava acontecendo com ele.
Mais tarde, ao voltar a ver o estranho, tanto a perna quanto a cabeça dele se achavam envoltas em pesadas ataduras, o corpo envolvido em um cobertor áspero. McCarty encontrara uma maca e dois soldados rasos acomodaram o homem ali.
– Os amputadores acham que seu marido tem chance se a febre não o levar e se a batida na cabeça não houver arrebentado o crânio dele – disse o sargento, sem meias palavras. – Para onde, madame?
Isabella se voltou para Emmett.
Boa pergunta, para onde? Quem era aquele homem ferido, a que lugar ele pertencia? Não havia como saber até que ele recuperasse a consciência. Nesse meio tempo, ela o reivindicara para si. Dissera que o desconhecido era seu marido em uma tentativa desesperada – e bem sucedida – de atrair a atenção de alguém. Mas para onde poderia levá-lo? A única casa que Isabella conhecia em Bruxelas era o bordel. E ela era apenas uma hóspede ali – totalmente destituída, por sinal, já que não tinha quase nenhum dinheiro para ajudar a pagar o aluguel.
Pior que isso, era responsável pelo fato de as demais mulheres também terem perdido quase tudo. Como poderia, agora, levar o homem ferido para lá e pedir às damas que cuidassem dele e que o alimentassem até descobrirem de onde ele era e, então, arrumarem um modo de levá-lo para lá? Contudo, o que mais poderia fazer?
– A senhora está em choque, madame – disse o sargento, segurando-a solicitamente pelo cotovelo. – Agora respire fundo e deixe o ar sair devagar. Pelo menos ele está vivo. Milhares não estão.
– Moramos na Rue d'Aremberg – respondeu ela, e sacudiu a cabeça, como se para clareá-la. – Siga-me, por gentileza.
Angela estava enfiada até os cotovelos em massa de pão – os criados haviam fugido de Bruxelas antes da batalha – e Victoria se preparava para entreter o Sr. Hawkins. Ela saiu do quarto ao ouvir a comoção na porta da frente, os cabelos ruivos presos em um coque frouxo no alto da cabeça com uma fita cor-de-rosa para mantê-los afastados do rosto, as faces vermelhas de ruge. Apenas um dos olhos estava pintado com uma sombra azul pesada e lápis; em contraste, o outro parecia assustadoramente nu.
– Deus amado – comentou Angela, os olhos se iluminando ao ver o sargento McCarty –, um gigante de um olho só e eu sou a única disponível.
– Isabella está com ele – observou Victoria. – Meu amor, o que é isso? Está com problemas? Ela não tinha más intenções, soldado. Estava apenas...
– Ah, Victoria, Angela – apressou-se em dizer Bella –, estava procurando pela floresta e me vi diante desse homem. Pensei que estava morto, mas então o toquei e percebi que ainda estava vivo, só que levou um tiro na perna e tinha um ferimento horrível na cabeça. Chamei por todos os homens que passavam na estrada, mas nenhum deles me deu atenção até eu gritar que era meu marido. Então o sargento McCarty se aproximou para me ajudar e carregou o desconhecido até uma carroça. Depois que voltamos para Bruxelas e o cirurgião cuidou dele, o sargento encontrou esses homens com a maca e me perguntou para onde poderiam levar o ferido. Não consegui pensar em outro lugar que não aqui. Desculpem, eu...
– Ele não é seu marido, madame? – interrompeu Emmett, encarando Victoria com uma expressão que misturava desconfiança e fascínio.
Os dois soldados rasos olhavam a cena de soslaio e sorriam.
– Encontrou alguma coisa com ele? – perguntou Victoria, fitando Isabella com seus olhos grotescamente desacertados.
– Nada.
Isabella experimentou uma terrível culpa. Não apenas ela não conseguira nada como ainda levara até as amigas outra boca para alimentar... se ele algum dia recuperasse a consciência para comer.
– Ele estava completamente despojado.
– De tudo? – Victoria se aproximou mais da maca e levantou um canto do cobertor. – Ai, meu Deus.
– Você parece estar prestes a desmaiar, sargento – comentou Angela, limpando as mãos sujas de farinha no avental largo.
Pela primeira vez, Bella olhou mais detidamente para Emmett, envergonhada por ter ignorado o problema do sargento, a perda do olho, tamanha sua ansiedade. Ele estava mesmo com uma aparência emaciada.
– Isso na sua atadura não tem a menor possibilidade de ser sangue, não é mesmo? – indagou Phy llis. – Se for, estou prestes a desmaiar.
– Onde devemos colocá-lo, sargento? – perguntou um dos soldados.
– Você fez a coisa certa, Bella, meu amor – afirmou Victoria. – Agora, onde podemos colocar o pobre homem? Ele parece mais morto do que vivo.
Além dos pequenos quartos no sótão, reservados para criados, não havia outros cômodos vagos, pois Bella ocupara o último na véspera.
– No meu quarto – respondeu ela. – Vamos colocá-lo lá. Eu posso dormir no sótão.
Os soldados carregaram a maca escada acima. Bella foi na frente para afastar as cobertas de modo que o homem ferido pudesse ser acomodado logo sobre a cama em que ela mesma ainda não dormira. Ouviu Angela logo atrás, no corredor:
– Se não tiver para onde ir, sargento... e me arrisco a dizer que não tem... nós o acomodaremos em um dos quartos do sótão. Farei chá e um caldo de carne. Não, não discuta. Está parecendo um morto-vivo. Só não me peça, nunca, para trocar sua atadura. É tudo que lhe peço.
– O que exatamente é este lugar? – Isabella escutou o sargento indagar. – Por um acaso seria...
– Pelo amor de Deus, você deve estar mais do que meio cego se precisa fazer essa pergunta. É claro que é.
McCarty enfim cedeu à insistência de Angela e se deitou. O sargento se revelou realmente muito mal, com uma terrível dor de cabeça e uma febre que só aumentava. Apesar dos débeis protestos do homem, ela e Isabella subiram e desceram as escadas para cuidar dele várias vezes pelo resto do dia, assim como Victoria, logo que terminou seu encontro com o Sr. Hawkins.
Isabella se surpreendeu por não sentir nada – choque, constrangimento nem repulsa – por saber que estava dividindo uma casa com uma prostituta em plena atividade. Tinha coisas mais importantes em que pensar. Ela passou a maior parte da tarde e da noite no próprio quarto, sentada à cabeceira do desconhecido, e se deu conta de que talvez jamais viesse a saber a identidade dele. O homem não dera o mínimo sinal de estar voltando à consciência desde o primeiro momento em que ela o vira e permanecia mortalmente pálido – quase tão branco quanto a atadura que envolvia sua cabeça ou a longa camisola que Bridget encontrara para ele.
A prostituta e Angela o haviam vestido depois de expulsar Isabella do quarto. A jovem teria achado graça disso se estivesse com humor para achar qualquer coisa engraçada. Fora ela quem o encontrara nu e, mesmo assim, sua antiga ama agora pensava que precisava preservar o recato da pupila. De vez em quando Bella verificava a pulsação no pescoço do homem para se assegurar de que ele continuava vivo.
Alice e Rosalie haviam retornado no início da noite... de mãos vazias.
– Fomos para Waterloo e mais além, até onde a batalha foi disputada ontem – contou Alice, quando todas se reuniram na sala de estar, que estava arrumada para um jogo de cartas mais tarde... aquela era uma noite de trabalho, lembrou Isabella a si mesma. – Você não pode imaginar o cenário, Vic. A pobre Angela teria caído dura no primeiro instante.
– Havia muita coisa a ser pega lá. Poderíamos estar ricas se não tivéssemos esbarrado com uma dupla de mulheres gananciosas. O primeiro cadáver que encontramos era de um jovem oficial que, com certeza, não tinha mais do que 17 anos, não é mesmo, Allie? E ele estava sendo privado de todas as roupas e bens refinados por duas mulheres com a sensibilidade de dois blocos de madeira. Mostrei toda a extensão da minha língua para elas.
– Rosalie disse todos os palavrões que conhecia – comentou Alice com admiração. – Então, uma das mulheres cometeu o erro de zombar dela. Dei um soco na criatura e a deixei sem sentidos. Olhe, Vic, os nós dos meus dedos ainda estão vermelhos.
– Permaneci sentada montando guarda ao lado do corpo do rapaz – contou Rosalie – enquanto Allie foi em busca de alguém que estivesse se responsabilizando pelos enterros e que tratasse o menino com o devido respeito, pobrezinho. Não tenho vergonha de falar que derramei algumas lágrimas por ele.
– Depois disso – acrescentou Alice, um tanto envergonhada –, não tivemos coragem de procurar outros corpos, não é mesmo, Rose? Não conseguíamos parar de lembrar que todos aqueles homens tinham mães.
– Gosto ainda mais de vocês por isso – assegurou Angela.
– Eu também – concordou Victoria. – Não comentei nada ontem, mas fiquei feliz porque o jovem Hawkins estava vindo esta tarde e, assim, me dando uma desculpa para eu não ir. Não parecia certo... Prefiro terminar em um abrigo para pobres do que fazer minha fortuna saqueando o corpo de rapazes corajosos.
– Vamos ter que encontrar outro modo – disse Rosalie. – Não há a menor possibilidade de eu me conformar com esta situação, Vic, e de voltar docilmente a ganhar a vida deitada em uma cama por mais uns dez anos. Posso até precisar fazer isso, é claro, mas só depois de encontrar aquele homem e lhe dar o que merece. Então não acharia a prostituição tão ruim, mesmo se não recuperarmos um centavo do nosso dinheiro... Como foi com você, Bella? Encontrou alguma coisa?
As duas olharam esperançosas para ela.
– Nenhum tesouro, lamento – revelou a jovem com uma careta. – Apenas mais responsabilidades.
– Isabella deparou com um homem ferido e inconsciente na floresta – explicou Angela – e o trouxe para casa. Ele estava nu.
– Deve ter sido empolgante – disse Alice, parecendo interessada. – Foi interessante, Bella? Valia a pena olhar para ele?
– Com certeza, Alice – respondeu Angela –, sobretudo a parte que mais importa. Muito impressionante. Ele está na cama de Bella, ainda inconsciente.
– Também há um sargento no sótão – informou Victoria. – Ele ajudou Bella a trazer o outro homem para cá, mas também estava meio morto. Perdeu um dos olhos na batalha. Nós o colocamos na cama.
– Ou seja, desde ontem de manhã vocês receberam mais três bocas para alimentar graças a mim – resumiu Isabella. – Mas, se o oficial que viram estivesse vivo, vocês teriam coragem de deixá-lo morrer ou fariam o que fiz?
– Estaríamos brigando para decidir em que cama colocaríamos o rapaz, se na minha ou na de Alice – garantiu Rosalie. – Não se sinta mal, Bella. Acharemos um modo de caçar aquele patife e conseguir nosso dinheiro de volta... e o seu também. Agora vamos fazer o papel de anjos misericordiosos. Gosto disso.
– É melhor darmos uma olhada nos pacientes enquanto temos tempo, Rose – sugeriu Alice, ficando de pé. – Logo teremos que nos preparar para o trabalho. Ainda precisamos ganhar o pão de cada dia.
Todas debateram a misteriosa identidade do homem inconsciente, observando-o junto à cama alguns minutos depois. Não havia como saber quem era, é claro, mas todas concordaram que provavelmente era um cavalheiro – um oficial.
O corte e o inchaço na cabeça sugeriam algo mais grave do que um mero escorregão. Os ferimentos combinavam mais com uma queda de cavalo. Além disso, suas mãos não eram calosas e as unhas eram bem tratadas, como destacou Alice. O corpo também não exibia sinais de maus-tratos: não havia marcas de chicote nas costas, reparou Victoria, logo não se tratava de um soldado raso. Os cabelos escuros eram curtos, em um corte elegante, lembrou Bella – naquele momento estavam quase todos cobertos pela atadura. O homem tinha um nariz proeminente; de acordo com Rosalie, aristocrático, embora, por si só, não fosse nenhuma prova conclusiva de seu status social.
Bella passou a noite toda sentada com o estranho, apesar de não haver nada a fazer a não ser observá-lo e, de vez em quando, pousar a mão em seu rosto e em sua testa em busca de sinais de febre, e no pescoço para checar a pulsação. Enquanto isso, ela ouvia a animação no andar de baixo e, mais tarde, sons diferentes vindos de outros quartos. Dessa vez, aquilo provocou um desconforto real em Isabella. Porém, não conseguia se sentir superior às amigas e não desaprovava o modo como tinham escolhido ganhar a vida – se é que haviam tido alguma alternativa.
Nem por um momento as quatro a culparam pelo que acontecera, embora tivessem bradado contra o Sr. Crawley, com quem ela deixara Bruxelas alguns dias antes. Agora a estavam abrigando e alimentando com o pouco que lhes restava e Bella não tinha dúvidas de que continuariam a fazer isso com o dinheiro que ganhavam naquele momento e com o que ganhariam nas noites e nos dias seguintes. Enquanto isso, ela vivia como uma dama ociosa, sem contribuir. Talvez devesse resolver aquela situação, pensou.
Nem perdeu tempo refletindo sobre essa perspectiva, apesar das distrações inexistentes durante aquela noite de vigília, com exceção do homem na cama. Isabella imaginou que, sob circunstâncias mais normais, ele devia ser muito bonito. Tentou visualizá-lo com os olhos abertos e o rosto corado e animado, sem a atadura na cabeça, imaginando o que ele diria, o que lhe contaria sobre si.
Ela subiu algumas vezes ao sótão para se certificar de que Emmett não precisava de nada, mas em todas as vezes o sargento estava dormindo.
Como a vida era imprevisível..., pensou Bella. Tivera uma infância instável e um início de juventude com um pai que jogava o tempo todo e, na maioria das vezes, estava poucos passos adiante dos credores. Após a morte dele, aceitara o emprego de dama de companhia de Lady Mallory, o que poderia ser descrito no mínimo como uma existência lúgubre. Poucos dias antes, pensara que enfim havia encontrado segurança e a possibilidade de ser feliz como noiva de um homem merecedor do maior respeito e lealdade, até mesmo de sua afeição.
Mas agora lá estava ela, solteira e morando em um bordel, velando por um desconhecido ferido e se perguntando o que lhe aconteceria.
Bom domingo, e até o próximo!
