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CAPÍTULO III

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Edward ficou consciente da dor e tentou escapar dela voltando a mergulhar na abençoada escuridão do esquecimento. Mas não dava para ignorá-la. Na verdade, era tão intensa que ele nem conseguia definir claramente de onde vinha, só sabia que estava quase toda concentrada na cabeça. Parecia não estar sentindo dor, mas ser a própria dor.

Havia luz além das pálpebras fechadas, dando-lhes um tom alaranjado desconfortável. Era luz demais. Virou a cabeça para fugir dela e a pontada o atingiu como uma bala entrando em seu cérebro e explodindo em milhares de estilhaços. Um instinto cego de autopreservação foi a única coisa que o impediu de gritar e tornar tudo ainda pior.

– Ele está voltando a si – disse uma voz feminina.

– Acha que devo queimar algumas penas, Vic, e colocar sob o nariz dele? – perguntou outra voz de mulher.

– Não – retrucou a primeira voz. – Não queremos que desperte sobressaltado, Angie. Ele já vai acordar com uma gigantesca dor de cabeça, de qualquer modo.

A dor de cabeça não pertencia ao futuro, pensou Edward. E "gigantesca" parecia a descrição de um pigmeu perto do que ele sentia.

– Ele vai sobreviver, então? – quis saber uma terceira voz feminina. – Na noite passada e hoje temi que fosse morrer. Está pálido como o travesseiro. Até os lábios estão brancos.

– Só o tempo dirá, Bella – respondeu uma quarta voz, rouca e ardente. – Ele deve ter perdido muito sangue por causa desse ferimento na cabeça. É o tipo que mais sangra. Já me admira não ter parado de respirar ainda.

– Menos conversas sobre sangue, por favor, Rose – pediu uma delas.

Ele estava perto da morte?, pensou Edward com certa surpresa. Mesmo agora, corria risco de morrer? Aquelas mulheres estavam falando dele?

Edward abriu os olhos. A luz do quarto foi tão dolorosa que ele se encolheu e estreitou os olhos. Diante dele, quatro cabeças o examinavam com atenção.

Mais perto, a cerca de 30 centímetros, estava um rosto muito maquiado, os lábios e a face com muito ruge, os olhos delineados com alguma substância negra que também deixava os cílios espetados, e as pálpebras em um tom de azul-celeste. Era o rosto de uma mulher que tentara parecer dez anos mais jovem e fracassara tristemente. O rosto era emoldurado por cachos elaborados de um cobre escuro, com mechas vermelhas e cor de laranja.

Edward desviou os olhos para outra mulher, uma beldade loura vestida de seda verde-esmeralda, os cabelos presos para o alto e cascateando sedutoramente, os olhos azuis e ousados em um rosto bonito que se tornara ainda mais atraente com a sutil aplicação de cosméticos. Ela usava uma antiquada pinta falsa, em formato de coração, no lado direito da boca.

Ao seu lado, estava uma mulher menor de formas singelas, com o rosto fino cercado por exuberantes fios pretos e curtos, que o encarava com olhos grandes, de um azul acinzentado, suavemente destacados por maquiagem.

O quarto rosto, redondo, belo e também pintado, era emoldurado por cabelos de um castanho claro e brilhoso.

Edward percebia que uma pessoa estava se apoiando numa das colunas da cama, mas não ousou mover a cabeça para mirá-la. Além do mais, já vira o bastante para chegar a uma surpreendente conclusão.

– Morri e fui para o céu – murmurou, fechando de novo os olhos. – E o paraíso é um bordel. Ou seria um inferno cruel, já que, lamentavelmente, pareço incapaz de aproveitar as vantagens da minha boa sorte?

O som de risadas femininas lisonjeadas provocou uma agonia tão excruciante que, para sua sorte, a inconsciência voltou a engolfá-lo.


Elas haviam acertado no palpite: o homem era um cavalheiro, pensou Isabella, sentada mais uma vez à cabeceira do desconhecido durante a noite.

Por insistência de Victoria, ela dormira a maior parte do dia, depois ajudara na cozinha e auxiliara Rosalie a trocar o curativo do sargento. Essa última tarefa não seria páreo para os mais fracos. Emmett queria se levantar o tempo todo, mas, como Rosalie lhe explicara, naquele momento ele não estava no comando de seus homens, bradando ordens a cada instante. Ele tinha que se ver com cinco mulheres, que eram muito mais complicadas do que todo um batalhão de soldados. O sargento voltara se deitar docilmente – e, ao que pareceu, também grato por poder se dar a esse luxo.

Durante seu breve retorno à consciência, o homem misterioso falara com o estilo refinado de um cavalheiro. Devia ser um oficial ferido em batalha. Talvez houvesse membros de sua família ali mesmo, em Bruxelas, esperando ansiosos por notícias do destino dele. Como era frustrante não poder informar aos parentes que ele estava a salvo... embora talvez fosse uma conclusão precipitada, pensou Bella, ficando de pé pela décima vez para pousar a mão na testa dele, que com certeza estava mais quente do que uma hora antes. Ainda era possível que o desconhecido morresse por conta do terrível ferimento na cabeça – um corte feio que deveria ter levado pontos e um inchaço do tamanho de um ovo grande.

Era bem provável que ele falecesse se tivesse febre, como ocorria com tantos homens depois de serem submetidos a uma cirurgia. Pelo menos a perna não precisara ser amputada.

Bella precisava agora ir pé ante pé ao sótão para dar uma espiada no sargento McCarty. Ela ouvira sons de dois homens deixando a casa na hora anterior, mas duas damas ainda deviam estar trabalhando. Talvez fosse melhor descer até a cozinha a fim de preparar chá para todas. Deviam estar cansadas e com sede depois de uma noite de serviço. O fato de estar se adaptando tão depressa a impressionava. Precisava fazer alguma coisa ou acabaria cochilando de novo.

Porém, de repente, deu-se conta de um ligeiro movimento vindo da direção da cama. Endireitou-se na cadeira e ficou imóvel, torcendo para que o homem sobrevivesse, para que se recuperasse dos ferimentos e abrisse os olhos. Ela se sentia responsável por ele de um modo curioso. Se ao menos o desconhecido resistisse, talvez ela pudesse se perdoar por ter ido à floresta em uma missão tão sórdida. Afinal, se não estivesse ali, não o teria encontrado. Ninguém o teria encontrado e ele certamente morreria.

Quando Isabella já começava a se perguntar se não imaginara o movimento, o homem abriu os olhos e ergueu-os, sem foco. Ela se levantou às pressas e se inclinou sobre a cama de modo que ele não precisasse mover a cabeça para vê-la. Os olhos verde escuro do estranho se voltaram em sua direção e se concentraram nela, sob a luz das velas. Bella percebeu que estava certa: era um belo homem.

– Sonhei que havia ido para o céu e que o paraíso era um bordel – disse o desconhecido. – Agora, sonho que estou no paraíso com um anjo. Acho que gosto mais desta versão.

Seus olhos estremeceram e se fecharam e os lábios se curvaram ligeiramente. Então era um homem com senso de humor...

– Infelizmente – retrucou Isabella –, este é um paraíso muito terreno. Ainda está sentindo muita dor?

– Por acaso bebi um barril inteiro de rum? Ou fiz outra coisa com a minha cabeça?

– O senhor bateu com ela. Acho que caiu de um cavalo.

– Uma deselegância imperdoável da minha parte. E terrivelmente embaraçoso se for verdade. Nunca caí de um cavalo na vida.

– O senhor levou um tiro na perna. Cavalgar, então, deve ter se tornado muito difícil, excruciante.

– Um tiro na perna? – Ele franziu a testa e voltou a abrir os olhos. Então, moveu as duas pernas e praguejou com vontade antes de se desculpar. – Quem atirou em mim?

– Imagino que tenha sido um soldado francês. Espero que não um dos nossos.

Os olhos dele a focalizaram com mais intensidade.

– Aqui não é a Inglaterra, é? – perguntou o homem. – Estou na Bélgica. Houve uma batalha.

Ela viu que o rosto dele agora estava perceptivelmente febril. Os olhos também se encontravam mais brilhantes do que o normal sob a luz de uma única vela.

Bella se virou para a tigela de água sobre uma mesa ao lado da cama, torceu o pano dentro dela e segurou-o contra as faces do homem, depois contra a testa. Ele suspirou, agradecido.

– É melhor nem pensar nisso agora – falou ela. – Mas o senhor vai ficar satisfeito em saber que vencemos a batalha. Acredito que ainda estivesse sendo disputada quando o senhor deixou o campo de batalha.

O homem ergueu os olhos para ela, contraindo o rosto por um momento, antes de voltar a fechá-los.

– Temo que esteja um pouco febril – comentou ela. – A bala de mosquete ainda estava alojada em sua perna e precisou ser removida por um cirurgião. Felizmente, o senhor estava inconsciente. Deixe-me ajudá-lo a elevar o corpo o bastante para que consiga beber um pouco de água. Não vai ser fácil... O senhor tem um inchaço na cabeça. E um corte.

– Parece que o inchaço é do tamanho de uma bola de críquete. Estou em Bruxelas?

– Está. Nós o trouxemos de volta para cá.

– A batalha. Agora me lembro – falou ele, franzindo o cenho.

Contudo, não comentou mais nada a respeito. De qualquer modo, Isabella não estava certa se queria ouvir os detalhes sangrentos. O homem bebeu um pouco de água, embora ela soubesse que a dor de erguer a cabeça devia ser quase insuportável. Voltou a acomodá-lo com cuidado sobre o travesseiro, secou a água que escorrera pelo queixo e pressionou mais uma vez o pano fresco na testa dele.

– O senhor tem família aqui? Ou um amigo? Alguém que possa estar esperando ansioso por notícias do seu destino?

– Eu... – O homem fez uma careta de novo. – Não... Não sei. Tenho?

– Nós gostaríamos muito de lhes informar que o senhor está a salvo aqui em Bruxelas. Ou talvez sua família toda esteja na Inglaterra. Escreverei uma carta a eles amanhã se quiser.

Isabella não estava preparada para o que o desconhecido disse a seguir:

– Quem diabos sou eu?

Ela teve a sensação de que era apenas uma pergunta retórica, que lhe deu um calafrio. Então, o homem pareceu resvalar novamente para a inconsciência.


Já era dia quando Edward acordou de novo. Não que houvesse ficado de todo inconsciente durante a noite. Sabia que passara a madrugada ora ardendo de calor, ora tremendo de frio, além de sonhar, ter estranhas alucinações – mas não conseguia se lembrar de nenhuma delas – e gritar várias vezes. Recordava que alguém o velara por toda a noite, refrescando-lhe o rosto com panos úmidos, colocando mantas quentes sobre ele, levando água aos seus lábios e sussurrando palavras de conforto em seus ouvidos.

Edward acordou se sentindo totalmente desorientado. Onde diabos estava?

Levara um tiro na perna, lembrou a si mesmo, e caíra do cavalo, fazendo estremecer todos os ossos do corpo e terminando com uma enorme concussão. Fora resgatado e levado para um bordel habitado por pelo menos quatro prostitutas muito maquiadas e um anjo. Talvez fosse tudo um sonho estranho e bizarro.

Ele abriu os olhos.

O anjo não fora fruto de sua imaginação. Ela estava se levantando de uma cadeira ao lado da cama e indo se debruçar sobre ele. Edward sentiu a mão fresca na sua testa. Os cabelos da mulher eram como chocolate puro, muito brilhantes, a pele rosada e sedosa. Os olhos, castanhos e grandes, estavam emoldurados por cílios cheios. Uma boca larga e generosa, um nariz reto. Não era magra nem gorda. Tinha o corpo lindamente proporcionado, muito feminina. Ele sentia um aroma doce, embora não conseguisse distinguir nenhum perfume. Com certeza a mulher mais adorável que Edward já vira.

Estava apaixonado, pensou, meio de brincadeira.

– Está se sentindo um pouco melhor? – perguntou ela.

Se as suposições dele não estavam erradas, a mulher também morava no bordel. Isso fazia dela...

– Estou com a mãe de todas as dores de cabeça. Parece que todos os meus ossos foram rearrumados de um modo não muito gentil, e nem ouso mexer a minha perna esquerda. Estou quente demais, mas também tremendo. Meus olhos estão sensíveis à luz. A não ser por essas pequenas queixas, acredito que esteja com ótima saúde. – Edward tentou sorrir, porém sentiu uma pontada aguda em algum lugar na lateral da cabeça, provavelmente onde se ferira. – Tenho sido um paciente problemático? Acredito que sim.

Ela sorriu, encarando-o.

Tinha os dentes brancos e bem alinhados. Seu olhar se tornou caloroso, dando-lhe uma beleza pura, estonteante, e então cintilou, com um toque travesso. Ele estava mesmo apaixonado. Era um caso perdido. Absolutamente inebriado.

Contudo, ela lhe banhara a testa e murmurara tolices carinhosas durante toda uma noite febril. Que homem não acabaria encantado, ainda mais quando a dama tinha a aparência de um anjo? É claro que ele estava um tanto delirante.

– De forma alguma – respondeu ela –, a não ser por seu terrível hábito de me mandar para o inferno sempre que tento levantar sua cabeça para que beba alguma coisa.

– Não é possível! Peço que me perdoe. Ainda não estou convencido de que não morri e fui para o céu. E que a senhorita não é o meu anjo da guarda.

Ela riu baixinho para não piorar a dor de cabeça dele. Então mais alguém entrou no quarto – a encantadora moça de cabelos louros e olhos desafiadores. Ela pousou a tigela de água fresca que trazia, levou as mãos à cintura bem torneada, colocando-se em uma pose que fazia o melhor tanto pelos quadris quanto pelos seios, e examinou-o de cima a baixo. Edward teve a sensação de que os olhos da mulher conseguiam ver por baixo das cobertas.

– Ora, que belo demônio você é, agora que os olhos estão abertos e alguma cor voltou ao seu rosto, embora deva dizer que ficará ainda mais bonito depois que se livrar dessa touca branca. Foi para o céu e descobriu que o paraíso é um bordel... realmente, teria sido uma grande sorte a sua! Está na hora de você ir para a cama, Bella, e ter o seu sono de beleza. Victoria disse que você ficou acordada a noite toda de novo. Eu assumirei aqui. Essa coxa precisa de um curativo novo, para minha felicidade?

Os olhos dela se voltaram com franca apreciação para os de Edward e a mulher franziu os lábios. Ela não estava maquiada naquela manhã, mas exibia uma sensualidade crua que deixava clara a sua profissão. Edward deu uma risadinha, mas logo se encolheu e desejou não ter reagido ao flerte ousado da mulher, cometendo tal violência com a própria cabeça.

– Vou apenas passar um pano no rosto dele mais uma vez para baixar a febre, Rosalie – disse o anjo. Ela era Bella... Isabella? – Então vou me deitar. Devo confessar que estou cansada, mas você também deve estar.

Rosalie deu de ombros, piscou com ousadia para Edward e saiu com a tigela de água.

– Este lugar é um bordel? – perguntou ele.

Não deveria ter feito a pergunta em voz alta, deu-se conta ao ver Isabella enrubescer.

– Não vamos lhe cobrar o uso da cama – retrucou ela, com um toque de irritação na voz.

Era seu modo de confirmar, supôs, o que fazia dela...

Os olhos dele passearam pelo quarto. Era agradável, com decoração e mobília discretas, em tons de marrom e dourado – nenhum sinal de vermelho. A cama era um tanto estreita, mas larga o bastante para a função a que era destinada, imaginou ele. Era um cômodo ocupado por uma mulher: havia frascos, escovas e um livro na penteadeira.

– Este é o seu quarto? – quis saber Edward.

– Não enquanto o senhor estiver nele. – Ela arqueou as sobrancelhas e o encarou diretamente. Estaria zangada? – E, sim, eu moro aqui.

– Peço perdão, ocupei a sua cama.

– Não precisa se desculpar. O senhor não a requisitou, não é mesmo? Nem mesmo pediu por ela. Fiz com que o trouxessem para cá depois de encontrá-lo na floresta. O sargento que me ajudou também está aqui, em uma cama no sótão. Ele perdeu um dos olhos na batalha e está sofrendo muito mais do que jamais vai admitir. É uma perda particularmente lamentável, porque levou a uma dispensa sumária do Exército. E o homem não conhece outra vida desde os 13 anos.

– A senhorita me encontrou na floresta?

Na floresta de Soignés? Que diabos ele estava fazendo lá?

Edward tinha uma lembrança confusa do som de armas pesadas, porém, por mais que tentasse, não conseguia se recordar de qualquer outro detalhe da batalha. Sabia apenas que o inimigo era Napoleão e que havia sido planejada por meses. Provavelmente lutara nela. Mas por que entrara a cavalo na floresta? E por que seus homens o tinham abandonado ali? Ou estava sozinho? Mas, se fora ferido no conflito, por que não buscara atendimento médico no próprio campo de batalha?

– Achei que estava morto – disse Isabella, molhando o pano em água fresca e pressionando a testa dele com um frescor abençoado. – Se eu não houvesse parado para tocá-lo, não teria percebido que ainda estava vivo. O senhor poderia ter morrido lá.

– Então estou em dívida com a senhorita para sempre, e também com esse sargento, a quem preciso agradecer pessoalmente assim que puder.

Ele pensou em algo de repente e sentiu uma onda de alívio ao se dar conta de que havia um detalhe muito mais importante do que a batalha em si.

– O que fez com meus pertences?

Edward a observou torcer o pano, mergulhá-lo na água e voltar a torcê-lo antes de responder.

– Roubaram o senhor. Levaram tudo.

– Tudo? – Ele a encarou, horrorizado. – As roupas também?

Isabella assentiu. Meu Deus, ela o encontrara nu?

Mas não foi o constrangimento que o fez fechar os olhos com força e cerrar os dentes, sem se preocupar com a dor que a tensão lhe causava. Edwardsentia o pânico se intensificar, ameaçando extravasar. Teve vontade de jogar as cobertas para o lado e sair correndo do quarto. Mas para onde iria? E com que propósito? Em busca da própria identidade? Não restava nada que pudesse ajudá-lo a se lembrar.

Acalme-se, disse a si mesmo. Acalme-se.

Ele caíra de um cavalo e batera a cabeça com força o bastante para ter uma concussão. A dor era uma prova. Por sorte ainda estava vivo. Provavelmente havia um calombo do tamanho de uma bola de críquete na lateral de sua cabeça. Precisava dar uma chance ao próprio cérebro de se reorganizar. O inchaço precisava ceder e os ferimentos necessitavam de tempo para se curarem. A febre deveria ir embora. Não havia pressa. Mais tarde, naquele mesmo dia, no dia seguinte ou no outro, ele se lembraria.

– Qual é o seu nome? – perguntou Isabella, pressionando o pano no rosto quente dele.

– Não consigo me lembrar – admitiu ele, reprimindo o pânico.

– Não se preocupe. – Ela sorriu. – Logo vai se recordar.

– Diabos, não consigo nem lembrar meu próprio nome.

O horror provocou um aperto no estômago, como se uma mão gigante o estivesse espremendo com força. Edward lutou contra uma onda de náusea enquanto segurava um dos pulsos da jovem e o outro braço dela. Percebeu que sentia dor em ambos os braços. Podia ver os hematomas pretos e roxos por todo o membro direito.

– O senhor está vivo – disse Isabella, se aproximando um pouco mais – e consciente de novo. Sua febre parece ter baixado consideravelmente. Por algum milagre não quebrou nenhum osso. Victoria falou que o senhor vai sobreviver, e confio no julgamento dela. Apenas se dê algum tempo. Tudo vai retornar ao normal. Até lá, deixe a mente descansar junto com o corpo.

Se a puxasse um pouco mais para perto, pensou Edward, conseguiria enfim beijá-la. Que ideia estúpida quando não havia um só osso em seu corpo que não estivesse terrivelmente dolorido! Caso a beijasse, talvez acabasse descobrindo que até seus lábios doíam.

– Devo a minha vida à senhorita. Obrigado. É incrível como, às vezes, as palavras podem ser inadequadas.

A jovem se afastou delicadamente e recolheu mais uma vez o pano úmido

– A senhorita é uma delas? – perguntou Edward de repente, fechando os olhos e lutando mais uma vez contra a náusea. – É uma... Trabalha aqui?

Por alguns instantes, tudo que ouviu foi a água escorrendo. Edward desejou retirar a pergunta.

– Estou aqui, não estou? – rebateu ela, mais uma vez irritada.

– A senhorita não parece... Parece diferente das outras.

– Está querendo dizer que elas parecem prostitutas e eu não? – questionou Isabella.

Edward percebeu por seu tom de voz que a havia ofendido.

– Acho que sim... Peço que me perdoe. Não deveria ter perguntado. Não é da minha conta.

Ela riu baixinho. Por algum motivo não foi um som agradável.

– Esse é meu principal atrativo: pareço inocente, uma dama, um anjo, como você comentou mais cedo. Um bordel bem-sucedido precisa ter mulheres de todos os tipos. Os homens têm gostos muito diferentes no que se refere às mulheres a quem pagam. Cuido dos que têm gosto para o refinamento e desejam uma ilusão de inocência. Faço muito bem o papel de inocente, não concorda?

Muito bem. Edward abriu os olhos e a pegou sorrindo para ele enquanto secava as mãos em uma toalha. O sorriso combinava com o tom de voz que usara: não exatamente agradável.

– Peço que me perdoe... de novo. Parece que não faço nada além de insultá-la desde que recuperei a consciência. Espero que um comportamento tão desagradável não me seja habitual. Perdoe-me, por favor?

A cabeça dele parecia um balão se expandindo e prestes a explodir a qualquer momento. A perna latejava como um tambor gigante. Havia também outros sofrimentos físicos variados, clamando apenas com um pouco menos de insistência pela atenção dele.

– É claro – respondeu Isabella. – Mas não acho essa profissão vergonhosa ou degradante. Nem considero minhas companheiras... prostitutas menos humanas ou menos preciosas do que outras mulheres que conheço. Até mais tarde. Rosalie tomará conta de você enquanto isso. Está com fome?

– Na verdade, não.

Ele a ofendera, pensou, depois que ela se foi. E Isabella tinha todo o direito de estar aborrecida. Se não fosse pela jovem, provavelmente estaria morto àquela altura. E ela e as amigas lhe haviam aberto a casa. Isabella cedera o próprio quarto. As mulheres estavam cuidando dele 24 horas por dia. Edward sabia que poderia ter um destino muito pior se fosse encontrado por uma dama respeitável. Na verdade, qualquer dama talvez tivesse gritado, corrido e logo desmaiado depois de vê-lo nu, e o deixaria para morrer.

Edward riu baixinho ao imaginar uma cena dessas, mas logo sentiu a náusea voltar. E o pânico.

E se nunca mais recobrasse a memória?


Vamos lá, apareçam, queridas rs. Essa estória, diferente das outras, eu estou encurtando partes generosas... Coisas que não fariam diferença no decorrer dos fatos, pois ela tem vários diálogos e até trechos repetitivos e coisas assim. Obrigada pelas reviews, e até domingo :)