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CAPÍTULO IV
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Depois de acordar, Isabella desceu para ver se podia fazer algo para ajudar.
A cozinha estava tomada por aromas deliciosos. Angela mexia uma grande panela de sopa. Uma das bancadas estava coberta por pães recém-assados e bolos de groselha. A grande chaleira fervia na lareira.
– Dormiu bem? – perguntou Angela. – Estão todas lá em cima, no quarto de Emmett. Se puder ser gentil e fazer o chá, Bella, nós o levaremos lá para cima também. O outro pobre homem ainda está dormindo?
Isabella não estivera no quarto do desconhecido antes de descer.
Ainda se sentia um tanto embaraçada por levá-lo a acreditar que fazia parte do bordel, que trabalhava com as demais. Ao mesmo tempo, sentia-se aborrecida com o próprio constrangimento e com as perguntas dele. Aquelas damas a acolheram quando ela não tinha para onde ir. E o haviam acolhido também. O que importava se eram prostitutas? Para ela, o fundamental era serem ótimas pessoas.
O sargento se tornara o queridinho de todas. Embora houvesse perdido um olho e também seu meio de ganhar a vida, recusara-se desde o início a mergulhar na autopiedade. As cinco tiveram que se esforçar para persuadi-lo a continuar na cama por pelo menos alguns dias a fim de que os ferimentos se curassem devidamente. Bella tinha um carinho especial por ele: McCarty se dispusera a resgatar um estranho que estava ainda mais ferido do que ele mesmo.
– Você não vai parecer tão mal depois que o globo ocular tiver sarado e puder usar um tapa-olho – dizia Victoria quando Bella entrou no quartinho do sótão carregando a bandeja de chá.
Angela vinha logo atrás com um prato cheio de fatias grossas de pão com uma quantidade generosa de manteiga. Victoria limpara o ferimento e agora colocava uma atadura nova ao redor da cabeça do sargento.
– Acabo de perder o apetite – comentou Angela.
– Você vai parecer um pirata, Emm – afirmou Rosalie –, embora eu imagine que isso possa atrapalhar nas profissões futuras, não é?
– Sim, ter dois olhos me permitia trabalhar como militar. Foi o que fiz desde menino. Não sei fazer mais nada. Mas vou descobrir uma forma de ganhar meu pão de cada dia, posso garantir. Vou sobreviver.
– É claro que vai – falou ela, inclinando-se para a frente e dando um tapinha carinhoso na mão grande do homem. – Mas ficará nessa cama por pelo menos mais um ou dois dias. Isso é uma ordem. Eu o carregarei de volta se tentar se levantar.
– Acho que não teria muito sucesso na empreitada, moça, embora eu ouse dizer que a senhorita tentaria com empenho. Me sinto um idiota deitado aqui. Tudo que me aconteceu foi perder um olho. Mas, quando me levantei há pouco para ver aquele camarada que trouxemos para cá, oscilei como uma folha ao vento na escada e tive que voltar. Esse é o resultado de passar tanto tempo deitado aqui.
– Ah, pão fresco... – disse Alice. – Não há melhor cozinheira neste mundo do que a nossa Angie. Ela está desperdiçando seus talentos sendo prostituta.
– Era eu quem deveria carregar essa bandeja pesada, senhorita – falou o sargento para Bella. – Mas acredito que amanhã já estarei melhor. As damas, por um acaso, teriam necessidade dos serviços de um camarada corpulento que já parecia feroz mesmo antes de precisar usar um tapa-olho e que agora colocaria o próprio diabo para correr? Para tomar conta da porta enquanto estão trabalhando, talvez, e para jogar na rua qualquer cavalheiro impertinente que esqueça suas boas maneiras? O que acham?
– Quer ser promovido de sargento do Exército para porteiro de bordel, Emmett? – perguntou Victoria, dando uma mordida no pão com manteiga.
– Eu não me importaria nem um pouco, até que consiga organizar minha vida, por assim dizer, madame. E não esperaria em retorno nada mais do que comida e esta cama aqui.
– Mas a questão, Emm – adiantou-se Rosalie –, é que não pretendemos ficar aqui mais tempo do que precisarmos. Agora que os exércitos se foram, assim como a maior parte das pessoas que vieram acompanhar os soldados, o negócio está escasso. Precisamos voltar para casa, e quanto mais cedo melhor. Temos que encontrar um bandido e fazê-lo em pedacinhos.
– Ele levou todo o dinheiro que poupamos com trabalho duro por quatro anos – explicou Victoria. – E queremos o que é nosso de volta.
– No entanto, o mais importante é que queremos pegar aquele verme mentiroso e sorridente – acrescentou Rosalie.
– Alguém roubou o dinheiro de vocês? – O sargento fez uma carranca enquanto pegava um prato com duas fatias de pão com manteiga da mão de Angela. – E pretendem ir atrás dele? Vou com vocês. Só de encará-lo já tiro qualquer sorriso do rosto do desgraçado. E deixarei com ele mais do que um olhar como lembrança. Para onde ele foi?
– Esse é o problema – respondeu Victoria com um suspiro. – Temos quase certeza de que foi para a Inglaterra, Emmett, mas é só o que sabemos. E a Inglaterra é um lugar bem grande...
– Victoria e Alice escreveram para todas as nossas colegas que sabem ler – contou Rosalie. – Uma delas vai esbarrar com o patife e, mesmo se isso não acontecer, vamos arrumar um modo de encontrá-lo... ainda que leve um ano. Ou mais. Só precisamos de um plano.
– Precisamos é de dinheiro, Rose – replicou Alice secamente enquanto Bella servia o chá. – Se vamos percorrer a Inglaterra, precisaremos de muito dinheiro. E, enquanto andarmos pelo país, não teremos como trabalhar.
– Talvez nunca o encontremos e nunca recuperemos nosso dinheiro – disse Angela. – E, nesse meio-tempo, teremos gastado uma enorme quantia e ganhado quase nada. Talvez seja mais sensato desistir, voltar para casa e poupar mais uma vez.
– Mas e a nossa motivação, Angie? – retrucou Rosalie. – Eu pelo menos não estou disposta a deixá-lo escapar. Ele acha que conseguirá só porque somos prostitutas. Não foi tão insolente em seus roubos com mais ninguém. O patife tirou dinheiro de Lady Mallory e de outras damas, de acordo com Bella, mas lhes disse que era para a caridade. Elas talvez nunca percebam que o dinheiro na verdade foi morar no bolso dele. Mas o cretino nem mencionou a caridade para nós. Simplesmente levou tudo, incluindo nossos agradecimentos. É isso que faz o meu sangue ferver. Ele nos fez de tolas.
– Sim – concordou Angela. – Precisamos ensinar uma lição a esse homem, mesmo que terminemos mendigando.
– Precisamos é de dinheiro – repetiu Alice, batendo com as unhas na borda do prato –, e em grande quantidade. Mas como vamos colocar as mãos nele... a não ser da maneira óbvia, é claro?
– Gostaria de ter acesso à minha herança – disse Isabella.
O tamborilar parou e todas a fitaram com interesse.
– Você tem uma herança, Bella? – perguntou Rosalie.
– Ela é sobrinha do barão Weston por parte de mãe – lembrou Victoria às outras.
– Minha mãe me deixou as joias dela – revelou Bella. – Mas só terei direito a elas daqui a três anos, quando completar 25 anos. Lamento até ter mencionado a herança, já que não podemos usá-la agora. Pelos próximos três anos serei a mais pobre de todas.
– Onde estão as joias? – indagou Alice. – Em algum lugar onde possa resgatá-las? Não seria roubo, certo? Elas são suas.
– Nós as pegaríamos usando capas e máscaras negras, com adagas presas atrás das orelhas, escalando os muros cobertos de hera na calada de uma noite sem luar? – sugeriu Rosalie. – Gosto da ideia. Diga, Bella.
Isabella balançou a cabeça, rindo.
– Não tenho ideia de onde estão. Meu tio as guarda, mas não sei onde.
Havia, é claro, um modo de obter as joias antes dos 25, mas não era relevante no momento.
– E quanto ao homem no andar de baixo? – perguntou o sargento. – Eu estava certo a respeito dele, não estava? É um nobre?
– Ele realmente é um cavalheiro – confirmou Isabella.
– Quem é ele, senhorita?
– Ele não se lembra.
McCarty deu uma risadinha.
– A batida na cabeça o fez perder a memória, não é? Pobre-diabo. Mas, se o homem é um nobre, muita gente deve estar procurando por ele, pode ter certeza. A família dele talvez até seja aqui de Bruxelas, se não fugiu toda antes de a batalha começar, como a maioria das pessoas. Eu me arriscaria a dizer que os parentes estão dispostos a pagar uma recompensa vultosa por vocês o terem salvado e tomado conta dele.
– Mas e se o homem nunca se lembrar de quem é? – perguntou Angela.
– Poderíamos publicar um anúncio com a descrição dele em todos os jornais da Bélgica e de Londres – sugeriu Victoria. – Mas demandaria tempo e dinheiro e, mesmo assim, talvez a família não estivesse disposta a pagar.
– Poderíamos não contar sobre o paradeiro dele no anúncio e mantê-lo como refém – sugeriu Rosalie, sempre mirabolante. – Dessa forma, ganhamos mais dinheiro do que com uma recompensa. Afinal, mantê-lo cativo não seria um problema, certo? O homem não possui uma peça de roupa a não ser a camisola que Vic lhe arrumou. Não pode fugir, a menos que deseje ser visto correndo nu pelas ruas. E não vai conseguir ir a lugar algum por um longo tempo... não com aquele ferimento na perna. Além do mais, para onde iria? Nem sequer sabe o próprio nome.
– Eu poderia me certificar de que ele não fosse a lugar algum – ofereceu-se o sargento.
– Quanto pediríamos? – indagou Victoria. – Cem guinéus?
– Trezentos – propôs Angela.
– Quinhentos – disse Rosalie.
– Eu não aceitaria um centavo a menos do que mil guinéus – manifestou-se Alice. – Fora as despesas.
Todos caíram na gargalhada.
Isabella sabia, é claro, que nenhuma das outras falava sério sobre o esquema de sequestro. Por mais duras que parecessem, aquelas damas tinham o coração mole. A incapacidade de roubar os cadáveres no campo de batalha era uma prova.
– Enquanto isso – voltou a falar Angela –, teremos que despi-lo da camisola para que não consiga escapar com facilidade.
– E precisaremos amarrá-lo às colunas da cama – acrescentou Alice.
– Ai, ai, acalme-se, coração palpitante – disse Rosalie, abanando o rosto com a mão. – Também não poderemos permitir nenhuma coberta sobre o corpo dele, não é mesmo? Talvez ele tente amarrá-las umas às outras e usá-las para escapar pela janela. E depois vesti-las como uma toga romana. Eu me ofereço como voluntária para fazer turno dobrado de guarda todo dia... e toda noite.
– Acho que vou ficar, afinal – declarou o sargento. – As damas vão precisar dos meus músculos avantajados para carregar todas as bolsas pesadas com o dinheiro do resgate.
– Seremos ricas, Emmett – afirmou Alice.
Os seis gargalharam de novo.
– Mas falando sério – disse Isabella quando o riso cessou –, a perda de memória do homem pode ser um problema grave, principalmente porque vai levar algum tempo até que ele possa voltar a andar. Não terá para onde ir. Mas sei que vocês estão ansiosas para retornar à Inglaterra, e eu também.
– Vamos jogá-lo na rua quando formos partir, Bella – retrucou Rosalie.
Ela estava brincando, é claro: nenhuma delas teria coragem de simplesmente abandonar o homem.
Se ao menos conseguisse ter acesso à própria fortuna, pensou Isabella, seria capaz de fazer muito mais do que financiar a busca por James Crawley – que, de qualquer modo, não sabia se seria possível. Reembolsaria as amigas e resgataria o sonho delas. Permitiria que elas se aposentassem e levassem as vidas respeitáveis por que ansiavam. Antes de mais nada, aliviaria a própria consciência pesada. E, é claro, ganharia a independência econômica, algo muito bem-vindo.
Só que não adiantava nada sonhar, disse a si mesma com um suspiro.
– Vou descer para dar uma olhada no paciente – avisou ela. – Ele pode estar acordado e precisando de alguma coisa.
Quando voltou a acordar, no fim da tarde, Edward estava sozinho.
Sentia-se consideravelmente melhor, embora não ousasse mover a cabeça ou a perna esquerda. Ele se perguntou se a febre teria ido embora. Tentou permanecer despreocupado e alegre e ensaiou o que falaria quando uma das mulheres entrasse no quarto:
"Ah, boa tarde. Permita que eu me apresente. Sou..."
Sua mente permanecia alerta, ele sorria para o quarto vazio, mas o nome esquecido não lhe vinha. Que absurdo esquecer o próprio nome! De que adiantava sobreviver por um triz se teria que passar o resto da vida como um anônimo?
A porta do quarto foi aberta e o anjo entrou.
– Ah, o senhor acordou. Estava dormindo quando chequei mais cedo.
Ele também sorriu e descobriu que isso já não lhe causava mais uma dor agoniante. Edward falou antes que pudesse perder a coragem:
– Acabei de acordar. Boa tarde. Permita que eu me apresente. Sou...
Porém, é claro que acabou se interrompendo tolamente, a boca aberta como um peixe removido do açude, pendurado no ar.
– Prazer em conhecê-lo, Sr. Smith – respondeu ela com uma risadinha. Então aproximou-se mais de Edward, com a mão direita estendida. – Sr. Jonathan Smith, foi o que disse?
– Talvez eu seja lorde Smith – corrigiu Edward, forçando-se a rir com ela. – Ou Jonathan Smith, conde de Sabe-Deus-o-Quê, ou Jonathan Smith, duque de Um-Lugar-Qualquer.
– Eu deveria, então, chamá-lo de Sua Graça, não é? – perguntou Isabella, os olhos cintilando provocadores, enquanto Edward tomava a mão dela e sentia a suavidade da pele e o aroma doce e límpido.
Ele gostou do fato de Isabella o encorajar a rir de si mesmo. Por que não? Afinal, qual era a alternativa?
Edward segurou-lhe a mão com mais firmeza e levou-a aos lábios. Os olhos da jovem se desviaram e ele viu que ela mordia o lábio inferior. Ah, sim, Isabella fazia muito bem o papel de inocente. E nenhuma mulher tinha o direito de ser tão linda.
– Talvez seja melhor não – respondeu ele. – Seria aviltante descobrir depois que não sou duque coisa nenhuma, mas um mero plebeu. Também não acredito que eu me chame Jonathan ou Smith.
– Devo me dirigir ao senhor apenas como senhor, então? – indagou Isabella, sorrindo de novo enquanto recolhia a mão e se inclinava sobre Edward para desenrolar a bandagem. Ela examinou o ferimento sem tocá-lo. – O corte já não está mais sangrando, cavalheiro. Acho que não há problema em ficar sem a atadura. Se a ideia o agradar, é claro, senhor.
Ela endireitou o corpo com um olhar risonho. Edward gostou de sentir a cabeça arejada. Ergueu a mão, passou os dedos pelos cabelos e se deu conta, pesaroso, de que estavam embaraçados, precisando ser lavados.
– Mas devo ser o Sr. Alguém, certo? Que mãe batizaria o filho apenas como Senhor? Seria excêntrico. Porém, não posso mesmo ser alguém tão importante como um duque ou um conde. Se fosse, não estaria lutando naquela batalha. Devo ser um dos filhos mais jovens de alguma família.
– Mas o duque de Wellington estava lutando – argumentou ela.
Naquele dia, os olhos de Isabella pareciam mais verdes do que castanhos, talvez por refletirem a cor do vestido. Ela o encarava diretamente, com um olhar bem-humorado, embora Edward também tivesse enxergado simpatia ali. Era um absurdo sentir-se um tanto sem fôlego diante da proximidade da jovem, pensou ele, e se perguntou se seria sempre tão palerma diante de lindas desconhecidas.
Edward sentia como se seu corpo tivesse sido abandonado na esteira de uma manada de elefantes.
– Ah, sim, é claro – disse ele, estalando os dedos. – Talvez esse seja eu. Mistério solucionado. Com certeza tenho nariz para isso.
– Só que o duque com certeza já teria sido dado como desaparecido a uma altura destas – replicou Isabella, e Edward percebeu pela primeira vez a marca definitiva de perfeição do rosto dela... uma covinha no lado esquerdo da boca. – Então, se lembra da Batalha de Waterloo? Pelo que sei, foi assim que a chamaram.
Ela acabara de retirar a atadura e a pousara ao lado da tigela com água. Isabella sentou-se, embora mantivesse o corpo inclinado para a frente, permitindo que Edward sentisse sua proximidade. Ele se deu conta de que a jovem devia ser muito experiente em sua profissão e tentasse escravizá-lo aos seus encantos. Se fosse esse o caso, estava sendo bem-sucedida.
– Lembro-me, sim. – ele franziu a testa e tentou se concentrar em alguma recordação... qualquer recordação. Mas não adiantou. – Pelo menos sei que a batalha aconteceu. Consigo me lembrar das armas. Faziam um barulho ensurdecedor. Até mais do que ensurdecedor.
– Sim, eu sei. Ouvimos o barulho daqui. Como sabe que tem o nariz parecido com o do duque de Wellington?
Edward a encarou, sem ação.
– Tenho mesmo?
Ela assentiu.
– Rosalie diz que é um nariz aristocrático.
Isabella ficou de pé e atravessou o quarto até uma cômoda enquanto Edward a observava. A moça tinha curvas atraentes e muito mais encantadoras do que as de muitas jovenzinhas esguias consideradas as beldades na moda – embora a própria Isabella não fosse muito mais do que uma jovenzinha, ele imaginava. Ela abriu uma das gavetas e retornou com um pequeno espelho. Ele o olhou, cauteloso, e umedeceu os lábios com nervosismo.
– Não precisa olhar.
– Preciso, sim.
Edward pegou o objeto, ainda ressabiado. E se não reconhecesse o rosto que visse? De algum modo, seria mais terrível do que não se lembrar do próprio nome. Mas ele dissera que tinha um nariz grande e Isabella confirmara.
Ele ergueu o espelho e encarou o próprio reflexo. Seu rosto se encontrava terrivelmente pálido. E com certeza mais comprido e fino do que estava acostumado a ver, logo o nariz parecia ainda mais proeminente. Os cabelos escuros se achavam desalinhados e oleosos. A sombra escura cobrindo a face e o queixo quase podia ser chamada de barba. Os olhos estavam ligeiramente injetados, com olheiras. A expressão era adoentada, abatida, mas ele reconhecia aquele rosto.
Sentiu vontade de chorar de alívio.
Porém, quando fitou os próprios olhos, procurando por respostas em suas profundezas, não conseguiu ver nada além de uma barreira nua e impenetrável de anonimato. Era como encarar a si mesmo e um completo estranho ao mesmo tempo.
– Muito me espanta a senhorita não sair gritando do quarto – comentou Edward enquanto Isabella voltava a se acomodar. Reparou que ela se sentava como uma dama, a coluna mal tocando no encosto da cadeira. – Estou parecendo um bandido, um degolador... e do tipo sem banho.
– Mas, para ficar convincente, o senhor precisaria de uma pistola em uma das mãos e de uma faca na outra – observou ela, inclinando a cabeça para um dos lados e sorrindo. – Graças a Deus não temos armas na casa e Angela toma conta das facas de cozinha com a própria vida. Esse era o rosto que esperava ver?
– Mais ou menos – respondeu Edward, devolvendo o espelho a Isabella –, embora eu acredite que minha aparência costumasse ser menos infame. Só que é um rosto sem nome, por isso é melhor eu aceitar o que está disponível para mim. Jonathan Smith a seu dispor, madame. Ou melhor, senhor Jonathan Smith, a propósito.
– Sr. Smith. – Ela riu baixinho. – Sou Isabella Swan.
– Srta. Swan. – Edward fez uma ligeira mesura, mas logo desejou não ter feito o movimento de cabeça. – Estou encantado em conhecê-la.
Os dois ficaram se encarando por algum tempo, então ela voltou a se levantar e o surpreendeu ao se sentar na beira da cama e estender a mão para tocar o ferimento dele.
Edward estava muito consciente da pele nua e sedosa acima do decote baixo e quadrado e da curva suave do seio, na maior parte escondido sob um babado de renda. Ele notou o leve perfume de sabonete e dos cabelos que pareciam um halo castanho contra o sol de fim de tarde que entrava pela janela. Prendeu a respiração, mas logo percebeu que não poderia fazer isso para sempre. Isabella não apenas era linda. Ela o fazia pensar em lençóis desarrumados, braços e pernas entrelaçados e corpos encharcados de suor. Que azar o dele acabar em um bordel sem um centavo no bolso para chamar de seu.
– O corte está cicatrizando muito bem – comentou Isabella, os dedos frios contra a pele dele, leves como plumas –, embora o cirurgião não o tenha suturado. O inchaço está diminuindo, mas ainda está aqui.
Então, Isabella não estava mais olhando para o ferimento, mas encarando-o diretamente nos olhos, a apenas poucos centímetros de distância. Já não era um olhar risonho, apenas caloroso.
– No tempo certo o senhor vai se curar. Sua memória vai voltar. Eu lhe prometo.
Era uma promessa absurda, já que estava além do poder dela. Mas a declaração o confortou mesmo assim.
Isabella baixou o olhar para ele e passou a língua por toda a extensão do lábio superior, de um canto a outro. Então enrubesceu e se levantou. Por um instante, Edward se perguntou se a febre teria voltado. Ele já não tinha dúvidas de que ela o estava envolvendo propositalmente. O modo de flertar de Isabella era mais sutil do que o que costumava ser empregado por suas colegas de profissão, mais óbvias e diretas ao lidar com ele, mas com certeza era um flerte. Edward tinha ferimentos graves e mal conseguia se mover sem sentir uma dor excruciante, porém não estava morto.
Isabella teria que ser uma tola para não perceber isso. E ele não acreditava que ela fosse.
– Vou deixá-lo descansar – disse Isabella, sem olhar para ele. – Voltarei mais tarde se não houver muito trabalho. Alguém lhe trará o jantar. O senhor deve estar com fome.
Edward fechou os olhos depois que ela deixou o quarto, porém não conseguiu mais dormir. Sentia-se sujo, desconfortável, inquieto, faminto e... Diabos, estava excitado.
Precisava tomar banho e fazer a barba. De repente, deu-se conta de que não possuía nem sequer um pente ou uma navalha. A ausência daqueles dois itens tão pequenos fez com que a extensão do dilema se abatesse sobre Edward. E não tinha dinheiro para comprar nenhuma das duas coisas. Nem um único centavo. Que diabos iria fazer se não recuperasse a memória? Vagar nu pelas ruas de Bruxelas até que alguém o reconhecesse? Encontrar um posto militar na esperança de que alguém o identificasse? Ou de que dessem como desaparecido algum oficial? Ridículo... devia haver no mínimo dezenas na mesma situação que a dele.
Encontrar uma embaixada, então, e pedir a eles para fazerem uma busca entre as boas famílias para descobrir qual delas dera como sumido um filho ou irmão... provavelmente um dos mais jovens? Havia uma embaixada em Bruxelas? Edward achava que sim, em Haia, mas quando puxou pela memória, não conseguiu resgatar nenhuma informação pessoal. Qual seria o regimento dele? E a patente? Seria da cavalaria ou da infantaria? Ou talvez da artilharia? Tentou se imaginar cavalgando com seus homens ou liderando um avanço da infantaria.
Mas de nada adiantou... não conseguiu ativar nenhuma lembrança verdadeira.
Isabella dissera que voltaria se não houvesse muito trabalho.
Edward fez uma careta. Onde ela trabalharia, agora que ele ocupava seu quarto? Isso não era problema dele. Assim como ela não era. Sem levar em conta que estava profundamente em débito com ela e não tinha ideia de como retribuir. Deixando de fora o fato de que Isabella era linda e ele estava se comportando como um colegial tonto e exagerado vivendo sua primeira paixão.
A partir do dia seguinte, disse Edward a si mesmo com determinação, teria que fazer um esforço concentrado para se erguer – figurativamente ao menos – e se colocar no caminho da recuperação. Já estava cansado de se sentir impotente.
E iria se lembrar de algo. É claro que iria.
Será que conseguiremos nos ver novamente na quarta? Hã? Hã? kkkk É 2h10 e acabei de chegar de um plantão, estou moída. Fui!
