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CAPÍTULO V

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Isabella não voltou ao quarto naquele dia, percebendo mais uma vez o poder desconfortável que tinha sobre os homens. Ela sabia que era considerada muito bonita, mas sempre fora muito cuidadosa em chamar o mínimo de atenção para sua aparência.

James Crawley a agradara porque nunca fizera muitas referências à beleza dela. Parecera admirá-la como pessoa.

Isabella não tivera intenção de encantar o homem ferido. Quisera apenas demonstrar preocupação e simpatia, mas havia percebido a reação física dele e sentira a tensão entre os dois quando se debruçara sobre ele. Que tolice fizera. A mera ideia de ficar sozinha com um homem em um quarto deveria tê-la chocado, mas sentara-se na beira da cama, inclinara-se sobre ele, tocara sua cabeça e o fitara nos olhos... Ora, isso não tinha sido nada, nada inteligente. E, é claro, se fosse totalmente sincera consigo mesma, teria que admitir: o homem não fora o único a ficar daquele jeito. Ela também se sentira muito descomposta. O desconhecido podia estar ferido e vulnerável, mas era jovem e belo. E sem dúvida exalava masculinidade – só de pensar nisso, corou.

Ela ficou longe do quarto dele até a manhã do dia seguinte, quando pareceu seguro entrar – o quarto estava cheio. As damas haviam tirado a noite da véspera de folga, como faziam uma vez por semana, por isso estavam de pé cedo e de ótimo humor.

Angela levou o café da manhã para o estranho e ficou no quarto, conversando. Victoria e Alice apareceram vinte minutos mais tarde com uma camisola limpa, ataduras novas, água quente, panos e toalhas. Rosalie levou o café da manhã do sargento, no sótão. Ela aproveitaria a oportunidade para perguntar a McCarty se ele poderia emprestar seu material de barbear ao Sr. Smith – todas haviam decidido chamar assim o homem misterioso.

Quando Isabella terminou de lavar os pratos e de arrumar a cozinha, estavam todos no quarto do Sr. Smith, incluindo o sargento. Ela ficou parada na porta, observando e escutando.

– Devo dizer que me sinto uns 2 quilos mais leve... – falou o Sr. Smith. – Não, 3. Só a oleosidade do meu cabelo devia pesar 1 quilo.

– Eu lhe disse que seríamos gentis como a sua mãe, meu amor – lembrou Victoria com determinação enquanto dobrava a toalha.

– Imagino que diga isso a todos, Victoria, não é mesmo?

– Só aos muito jovens. Não diria isso a você em circunstâncias normais.

– Na verdade – replicou o homem, e Bella percebeu que ele estava sorrindo e se divertindo –, minha memória voltou na noite passada e lembrei que sou um monge. Pobreza, castidade e obediência são os valores que me guiam.

– Com esse corpo? – questionou Rosalie, em seu tom de rainha da tragédia, levando as mãos aos quadris. – Que desperdício mortal.

– Não me incomodo com a parte da obediência – comentou Angela.

– Um monge lindo e sem um centavo em um bordel... – refletiu Alice. – É o bastante para fazer uma pobre moça chorar.

– Ele ficará mais lindo sem essa barba que arranha – declarou Rosalie. – Fui pegar emprestado o estojo de barbear de Emm, mas ele insistiu em trazê-lo pessoalmente.

– Um rival? – indagou o Sr. Smith, colocando a mão no peito. – Meu coração está partido.

Estavam todos se divertindo imensamente, flertando. Isabella desejou ser tão despreocupada assim. As amigas estavam vestidas para a manhã, sem cosméticos, penteados elaborados ou roupas chamativas. Eram mulheres bonitas e pareciam muito mais jovens daquele jeito.

– Esse é o sargento Emmett McCarty – apresentou Rosalie. – Ele foi ferido em batalha.

– Perdi um olho, senhor – informou o sargento. – Ainda não peguei o jeito de ver apenas com um dos olhos, mas me adaptarei com o tempo.

– Ah – fez o Sr. Smith, e estendeu a mão direita –, então o senhor é o sargento que ajudou a Srta. Swan a salvar a minha vida, não é? Tenho uma dívida enorme com o senhor.

O sargento olhou para a mão estendida, obviamente embaraçado, e apertou-a por um brevíssimo instante, ao mesmo tempo que inclinava o corpo para a frente em uma saudação constrangida.

– Queríamos pegar emprestada sua navalha, não você, Emmett – ralhou Alice. – Deveria estar na cama.

– Não brigue comigo, moça. Não consigo passar todos os minutos do dia na cama. Eu voltaria para os meus homens, mas o exército não me aceitará mais por causa do olho que perdi.

– Sim, bem... seus homens acabariam marchando para oeste, entenda, Emmett, enquanto você seguiria rapidamente para leste, porque eles estariam no seu lado cego e você não os veria. E agora pretende cortar a garganta do Sr. Smith? Seria um terrível desperdício de um homem encantador, devo dizer. Eu poderia pensar em coisas muito melhores para fazer com ele.

Ela deu um olhar lascivo e brincalhão na direção do Sr. Smith.

– Acredito que eu mesmo conseguirei me barbear – disse o ferido – se alguém for gentil o bastante para me ajudar a me sentar mais ereto na cama.

Rosalie se dispôs a ajudá-lo.

– Se na minha vida normal eu for um duque – comentou o Sr. Smith, fazendo uma breve careta quando Rosalie o ajudou a se erguer e ajeitou os travesseiros em suas costas –, provavelmente nunca fiz isso antes na vida e estou prestes a cortar a minha garganta, do mesmo modo que o sargento McCarty faria.

– Santo Deus – disse Angela, passando por Rosalie –, chega de conversa sobre sangue, se não se incomoda, Sr. Smith. Eu farei a sua barba. Já devo ter barbeado mais ou menos uns mil homens.

– Todos eles sobreviveram? – perguntou o Sr. Smith, sorrindo.

– Desconte mais ou menos uma centena aqui e ali. Olhe para esse maxilar, Rose. Já viu algum mais firme e dominante? Pelo amor de Deus, como ele é bonito!

Foi nesse momento que os olhos risonhos do Sr. Smith pousaram em Isabella no batente da porta. Não deixaram de sorrir, mas ficaram presos aos dela por um momento e ela soube que o homem misterioso a via de um modo diferente. Sentiu-se de súbito ofegante e muito constrangida. Ele estava pálido e ela percebeu que a limpeza e toda aquela agitação o cansavam e provavelmente faziam sua cabeça doer. Ainda assim, com a camisola nova, os cabelos lavados e úmidos e o sorriso travesso, o homem era de uma beleza devastadora.

Enquanto Angela ensaboava o rosto do Sr. Smith e fazia um floreio com a navalha no ar, Isabella pensou que dera a impressão errada a ele na véspera. Não deveria ter se sentado de modo tão ousado na beira da cama do rapaz. Contudo, quando os outros deixaram o quarto, mais ou menos dez minutos depois, ainda animados, conversando e rindo, ela ficou para fechar as cortinas e impedir a entrada da luz forte do sol.

Se aproximou da cama e ajeitou as cobertas, embora Victoria já houvesse feito isso antes de sair. O Sr. Smith a encarava, um sorriso cauteloso ainda no olhar.

– Bom dia.

– Bom dia. – Isabella se sentiu inibida. – Posso ver que está cansado e que está com dor de cabeça.

– Estou exausto de não fazer nada. – O sorriso desaparecera e fora substituído por uma expressão um tanto desolada. – Acordei em pânico esta manhã procurando pela carta nos meus bolsos inexistentes.

– Que carta?

Ela se inclinou ligeiramente sobre ele e franziu a testa.

– Não faço ideia. – O homem pousou as costas da mão sobre os olhos. – Será que foi apenas um sonho sem sentido ou terá sido um fragmento de memória tentando se destacar nesta bruma densa do esquecimento?

– O senhor estava entregando ou recebendo a carta?

Ele suspirou depois de alguns momentos de silêncio e retirou a mão de cima dos olhos.

– Não faço ideia – repetiu, voltando a sorrir. – Mas não estou com amnésia total, sabe? A senhorita é... Isabella Swan. E eu sou Jonathan Smith. Vê como minha memória trabalha perfeitamente se lhe peço para mostrar seus talentos apenas em relação aos últimos dias?

Ele estava fazendo piada da situação, mas Bella percebeu que, para o Sr. Smith, a perda da memória era um sofrimento muito mais devastador do que qualquer um dos males físicos. Ela não tivera a intenção de ficar no quarto, mas agora resolveu se sentar e puxou a cadeira mais para perto da cama. Isabella imaginou que naquela manhã, por trás da atitude alegre, o horror estivesse sempre à espreita.

– Vamos descobrir o que realmente sabemos a seu respeito? Sabemos que é inglês. Que é um cavalheiro. E um oficial. E que lutou na Batalha de Waterloo. O que mais?

– Sabemos que sou um péssimo cavaleiro. Caí do cavalo. Isso significa que eu não era da cavalaria? Talvez nunca houvesse cavalgado. Talvez eu tenha roubado aquele cavalo.

– Mas levou um tiro na coxa – lembrou Bella. – A bala de mosquete continuava cravada no seu corpo. O senhor deve ter sentido uma dor terrível, estava perdendo sangue. E já havia cavalgado uma boa distância desde o campo de batalha. Não é necessariamente um péssimo cavaleiro.

– Gentileza da sua parte – disse ele com um sorriso desanimado. – Mas, quando fui ferido, por que diabos meus homens não me carregaram para fora do campo de batalha até o cirurgião mais próximo? Por que eu estava sozinho? Por que estava a caminho de Bruxelas? Presumo que é para onde me dirigia. Estaria desertando?

– Talvez alguns parentes seus morem aqui e o senhor fosse encontrá-los.

– Talvez eu tenha uma esposa. E seis crianças.

Isabella não pensara nisso. Mas, obviamente, que não havia razão alguma para se sentir desapontada diante dessa possibilidade. Talvez tivesse um casamento feliz. E filhos.

– Ela não teria trazido seus filhos para Bruxelas – falou Isabella. – Teria ficado na Inglaterra com eles. Quantos anos o senhor tem?

– Está fazendo uma pergunta capciosa para tentar me fazer lembrar de outro detalhe, não é, Srta. Swan? Quantos anos pareço ter? Vinte? Trinta?

– Algo entre os dois, imagino.

– Vamos supor, para efeito de argumentação, que eu tenha 27 anos – sugeriu o Sr. Smith. – Precisaria me manter muito ocupado para já ter seis filhos.

Ele sorriu e pareceu subitamente animado e travesso, apesar da palidez.

– Três pares de gêmeos – arriscou ela.

– Ou dois conjuntos de trigêmeos. – Ele riu. – Mas eu com certeza não poderia ter me esquecido de uma esposa, poderia? Ou de filhos? Por outro lado, talvez sejam eles a razão para minha memória ter resolvido sumir.

– Também sabemos que o senhor tem senso de humor. Tudo isso está sendo muito enervante, não? Mas ainda consegue brincar e rir.

– Ah, agora estamos chegando a algum lugar – falou o Sr. Smith. – Tenho senso de humor. Uma evidência-chave. Agora talvez sejamos capazes de descobrir quem eu sou.

Isabella o encarou com simpatia. A vida dela não fora repleta de grandes momentos de felicidade, mas ainda assim detestaria acordar um dia e descobrir que tudo havia se apagado de sua memória. O que restaria?

– Talvez eu seja o mais sortudo dos homens, Srta. Swan – comentou o Sr. Smith, parecendo ter lido a mente dela. – Somos frequentemente encorajados a olhar para o lado bom de qualquer acontecimento, até do pior desastre, não é verdade? Com a perda da memória, descubro-me livre do passado e de todos os seus fardos. Posso me recriar e moldar um futuro sem a influência repressora dele. O que imagina que me tornarei? Ou, sendo mais objetivo talvez, quem devo me tornar? Que tipo de pessoa Jonathan Smith deve ser?

Isabella fechou os olhos e engoliu em seco. Ele falava com tranquilidade, como se achasse aquilo divertido. Ela considerava a situação aterradora.

– Só o senhor pode decidir isso – disse baixinho.

– Nu eu nasci naquela outra vida de que não consigo me lembrar e nu nasci também nesta nova vida. Eu me pergunto se, quando nascemos a primeira vez nos esquecemos de tudo o que aconteceu antes... William Wordsworth desejaria que acreditássemos nisso. Já leu algum poema dele, Srta. Swan? A "Ode à imortalidade", por exemplo? "Nosso nascimento não é senão sonho e esquecimento"?

– Agora sabemos algo mais a seu respeito: o senhor lê poesia.

– Talvez eu também escreva. Talvez saia declamando versos ruins aonde quer que vá. Talvez essa morte e esse renascimento sejam o maior favor que já fiz para os meus contemporâneos.

Isabella deu uma gargalhada e o Sr. Smith tirou o braço de cima dos olhos e riu com ela.

– Sim, é claro – continuou ele –, caído do céu por um buraco em uma nuvem. Decidi que essa é a única explicação.

Bella riu de novo e baixou os olhos para limpar uma poeira invisível da saia do vestido. Lá estava ela de novo sozinha com ele, sentindo a indesejada atração. Mas o homem era um inválido. E ela era sua enfermeira.

– E, assim – prosseguiu o Sr. Smith –, tive sorte o bastante para gozar de dois nascimentos no curso de uma vida. Só que, desta vez, não tenho uma mãe para cuidar de mim e me alimentar. Estou por conta própria.

– Ah, não, não fale assim – replicou ela, inclinando-se para a frente na cadeira. – Vamos apoiá-lo e ajudá-lo, Sr. Smith. Não vamos abandoná-lo.

Os olhos dos dois se encontraram e ficaram fixos um no outro. Os dois permaneceram calados pelo que pareceu um longo tempo, mas o ar parecia vibrar entre eles. Isabella voltou a se perguntar se seria a responsável por aquilo e desviou os olhos.

– Obrigado. A senhorita é incrivelmente gentil. Todas vocês são. Mas não tenho a intenção de ser um fardo por mais tempo do que o necessário. Já estou em dívida o suficiente.

A conversa estava ameaçando se tornar pessoal.

– Vou deixá-lo a sós. Estou certa de que precisa descansar.

– Fique. – Ele estendeu o braço na direção dela, mas abaixou-o antes que Bella pudesse imaginar se tivera a intenção de pegar a sua mão. – Se puder, é claro. E se tiver vontade. Sua presença me acalma... Pelo menos às vezes.

O homem caiu no sono quase no mesmo instante.

Bella poderia ter saído do quarto na ponta dos pés, mas ficou onde estava, olhando para ele, imaginando quem seria, o que faria quando houvesse se recuperado o suficiente para ir embora. E se perguntando se era normal sentir uma... uma atração física tão grande por um desconhecido que salvara da morte.


Ao longo da semana seguinte, os ferimentos na cabeça de Edward haviam se curado o bastante para que ele conseguisse movê-la livremente em qualquer direção, desde que não o fizesse de forma brusca. E podia permanecer sentado por períodos cada vez mais longos sem ficar tonto. Os hematomas já não estavam tão feios e as dores iam diminuindo gradualmente. A perna se curava mais devagar, já que a bala de mosquete parecia ter causado algum dano aos músculos ou tendões da coxa.

Assim, Edward ainda não podia se apoiar na perna ferida, e Rosalie ameaçara amarrá-lo à cama caso ele tentasse.

Pelado – acrescentara ela enquanto varria o quarto, fazendo-o gargalhar.

Sentia-se terrivelmente inquieto. Não poderia ficar na cama para sempre, mais fraco a cada hora que passava. Ele mexia a perna e flexionava o pé e o tornozelo o máximo possível sob as cobertas. Com frequência, quando estava só, sentava-se na beira da cama e exercitava a perna sem colocar peso nela e sem exagerar para não desmaiar de dor. Precisava mesmo era de muletas. Mas como poderia pedi-las se não tinha meios de pagar por elas?

Edward tinha a sensação de ser um prisioneiro. Além de apenas uma das pernas ter pleno funcionamento, ele não possuía absolutamente nada, nem mesmo as camisolas que usava. Como poderia adquirir outras roupas? E como poderia sair da casa, e até mesmo daquele quarto, se não as adquirisse? Estava agoniado para procurar alguma pista de sua identidade, mesmo sabendo por Angela que a maior parte dos britânicos já havia partido àquela altura.

Perguntou-se por que ela e as outras ainda estavam ali. Parecia lógico presumir que tinham chegado à cidade para fazer negócio aproveitando o período de alvoroço em Bruxelas, com o pessoal do Exército e os visitantes britânicos. Então, Edward se deu conta de que a presença dele devia estar retendo-as. Ele se encolheu, como se sentisse dor.

É claro que elas ainda estavam fazendo negócios. Quase toda noite ouvia o barulho animado no andar de baixo, e logo sons mais íntimos, de prazeres privados, mais perto. Era tudo muito frustrante.

Era Isabella Swan que Edward via com mais frequência. Ela se sentava ao lado dele várias vezes por dia, embora já não fosse mais necessária a vigilância constante à sua cabeceira. Isabella costumava trazer algum trabalho de costura e mantinha a cabeça baixa sobre o que fazia enquanto conversava com Edward, ou ficava ali sentada, os dois em um silêncio camarada, até que ele cochilasse. Às vezes, Isabella lia em voz alta trechos do livro que Edward vira sobre a penteadeira dela: Joseph Andrews, de Henry Fielding.

Era interessante descobrir que ela sabia ler... uma prostituta instruída.

Edward tentava ao máximo não usar essa palavra quando pensava nela. Na verdade, aquela era uma situação estranha: não gostava menos das outras quatro damas por causa da profissão, mas ficava desconfortável ao pensar que Isabella era uma delas. Talvez porque nenhum cavalheiro gostasse de admitir que estava enfeitiçado por uma prostituta, e ele ansiava pelas visitas de Isabella.

Gostava de observá-la e de ouvir a sua voz. Gostava dos seus silêncios. Gostava do modo como ela fazia seu coração acelerar, sentir-se mais cheio de vida e de energia. Não que Isabella houvesse flertado de novo tão abertamente como naquela tarde em que se sentara na beira da cama e tocara o inchaço em sua cabeça. Talvez tivesse entendido mal no fim das contas, pensou Edward. Talvez só ele houvesse sentido a tensão sexual naquele momento, atraído pela beleza, simpatia e proximidade dela.

Emmett McCarty criara o hábito de passar no quarto de Edward uma ou duas vezes por dia para ver se podia fazer algo por ele.

– A questão é a seguinte, senhor... – desabafou o sargento certo dia. – Estou bem o bastante para ir embora. Na verdade, nunca estive mal a ponto de realmente precisar ficar aqui, mas as damas me trataram como se eu estivesse prestes a dar meu último suspiro, por assim dizer. Porém, agora que estou aqui, parece que não consigo reunir coragem para partir. Aonde deveria ir? Tudo que sei fazer é trabalhar como soldado.

– Eu o entendo.

– Pensei em ir com elas quando voltarem para a Inglaterra, como uma espécie de guarda-costas, senhor. Vão precisar, já que são damas sem cavalheiro, mas não tenho certeza se de fato precisam de mim ou mesmo se querem que eu vá.

O sargento levava água e navalha todo dia e sempre se oferecia para barbear Edward, que por sua vez declinava da gentileza e desempenhava a tarefa ele mesmo. Certa manhã, o sargento comentou enquanto o observava:

– Acho que não precisa de um valete, precisa, senhor? – perguntou com um suspiro patético. – Há mais mulheres do que o necessário para cuidar do senhor, mas nenhum homem. Um cavalheiro deve ter um homem a seu serviço.

– Sargento McCarty – disse Edward com uma risada triste –, o senhor ao menos tem o seu conjunto de barbear e provavelmente um ou dois pertences além do uniforme e das botas. Talvez tenha até algumas moedas para tilintar em seu bolso. No momento, possuo apenas a pele com que nasci e nada mais...

O sargento voltou a suspirar.

– Bem, se mudar de ideia, senhor... Acredito que ficarei aqui por mais alguns dias. Poderíamos chegar a um acordo.

Um cego guiando o outro, pensou Edward depois que Emmett voltou ao próprio quarto no sótão. Bom, um caolho guiando o incapaz talvez fosse uma imagem mais precisa.

Edward começara a temer que sua memória jamais voltasse. Era um terror profundo, de revirar os intestinos, enfraquecer os joelhos e atordoar a alma, na verdade.

Ele existia se não tinha passado? Tinha algum valor como ser humano se não era ninguém? Que significado poderia ter qualquer coisa que houvesse feito durante a vida se tudo podia ser apagado com uma queda do lombo de um cavalo? Quem ele deixara para trás depois de perder a memória daquela forma, como se houvesse morrido? Quem o pranteara?

Muito, muito tolamente, Edward ansiou por Isabella Swan.

Ele precisava sair dali.


Uma feliz e abençoada Páscoa à todas vocês, e até o próximo, suas sumidas rsrs Beijos!