.
CAPÍTULO VII
.
Só quando deu a volta na chave é que Isabella se deu conta plenamente do que estava prestes a fazer.
O Sr. Smith lhe avisara que iria beijá-la, mas ela não o detivera. Não quisera detê-lo. Agora ele lhe pedira que ficasse e Bella concordara, embora não tivesse dúvida do que o homem pretendia.
O Sr. Smith iria levá-la para a cama. E ela aceitara.
Estaria louca? Completamente insana? Mal o conhecia. Na verdade, nem sequer sabia o nome verdadeiro do sujeito. Logo ele sairia da vida de Isabella, partiria para sempre, apesar da promessa de encontrá-la algum dia para que pudesse pagar parte da dívida que achava ter com ela. O Sr. Smith acreditava que ela era uma prostituta. Achava que aquele momento não era nada mais para ela do que uma breve diversão à parte, sem dinheiro envolvido.
Não era tarde demais. Ainda poderia recusar, destrancar a porta e fugir para o seu quarto no sótão. Mas tinha 22 anos e sua vida até ali fora tão árida de empolgação, fosse sexual ou de outra natureza... Os homens que tivera oportunidade de conhecer – inclusive certos cavalheiros que frequentavam a casa de Lady Mallory e haviam pensado que ela era presa fácil por ser uma espécie de criada – sempre lhe provocaram arrepios de repulsa. Quando ela avaliara de forma muito racional e concordara em se casar com o Sr. Crawley porque achara que ele era bem diferente de todos os outros, descobrira que o reverendo era um patife de coração gelado.
Queria fazer aquilo.
Ansiava por fazer aquilo com Jonathan Smith. Não havia ilusões nem promessas envolvidas. Não havia futuro. Apenas aquela noite. Não suportaria destrancar a porta e sair do quarto. Tinha certeza de que, se fizesse isso, se parabenizaria pelo resto da vida pelo próprio bom senso e fingiria que não se arrependia, mas sentia-se terrivelmente atraída por ele e levou alguns segundos para que esses pensamentos assentassem na mente de Isabella.
Então ela inspirou devagar e se virou para o quarto.
Talvez se lamentasse no dia seguinte, mas deixaria para pensar nisso quando o dia seguinte chegasse. Ao olhar para ele e ver o desejo escancarado no rosto misteriosamente belo, percebeu o problema: não sabia como agir em uma situação daquelas. Se não houvesse saído da cama, não teria pensado na própria ignorância, mas ali estava ela, parada do outro lado do quarto, sem ter ideia do que fazer.
Bella sorriu, nervosa por dentro.
– Vai ter que me ajudar a sair do vestido e do espartilho.
Ela sentou-se novamente à beira da cama, de costas para Jonathan Smith, e inclinou a cabeça para a frente. Ele não disse nada, mas Bella sentiu seus dedos trabalharem nos botões, presilhas e cadarços, pois sentia o rastro de fogo que ele deixava ao passar. Ela segurou o vestido contra os seios depois que ele e o espartilho foram abertos nas costas e experimentou o frescor da noite contra a pele nua, arrepiando seu corpo por completo.
Smith afastou a roupa dos ombros de Rachel, que estremeceu com as carícias das mãos masculinas. Ela se levantou, então, e soltou o vestido, que deslizou, levando junto o espartilho. Deixou tudo de lado. Só o que restava eram as meias e a fina roupa de baixo que se moldava ao corpo.
Bella se sentou na cama de novo e foi tirando as meias.
Percebeu que, ao mesmo tempo, ele despia a camisola e a jogava no chão, por cima do vestido, com uma urgência mal controlada sob o rosto concentrado. Ela se virou e baixou os olhos para Smith. Os ombros eram muito largos, o corpo, musculoso e muito másculo, apesar de ele ter ficado inválido por quase duas semanas. O homem a encarava de volta, os olhos de um verde musgo, escurecidos, intensos, febris.
Bella sentiu um medo súbito e repentino da paixão que parecia vibrar entre eles, mas é claro que já era tarde demais para mudar de ideia. Além do mais, sentia um fascínio e um desejo avassalador misturados ao medo, que atentava contra todos os seus sentidos, a entorpecendo de forma deliciosa.
– Solte os cabelos – pediu Smith, mas, antes que ela pudesse levantar os braços, ele segurou suas mãos. – Não, deixe que eu os solte.
Como tinha tempo antes de começarem os trabalhos da noite, Rosalie fora até o quarto de Bella para conversar e pegar emprestada a escova da outra com a permissão da dona. A prostituta fizera em Bella um penteado que era uma obra de arte e a jovem ficara satisfeita, porque queria estar bonita para a visita ao cômodo de Jonathan. Ele se demorou tirando os grampos e soltando as tranças.
Bella abaixou a cabeça de modo que os rostos deles ficassem próximos. Os cabelos caíram ao redor dos dois como uma cortina. Por vezes, Jonathan interrompia seus esforços para puxá-la mais para perto e beijá-la delicadamente – nas pálpebras, no nariz, nos lábios. Rachel sentia os seios rígidos, quase inchados, além de um latejar forte no ventre que se espalhava até o meio das pernas; reconheceu-o como um efeito físico do desejo.
Tudo aquilo parecia terrivelmente pecaminoso, pensou. E também insuportavelmente erótico. Se ele não terminasse logo de soltar seus cabelos, Isabella achava que pegaria fogo.
– Receio que o ferimento da minha perna vá me tornar menos ágil do que eu gostaria de estar neste momento – disse Jonathan por fim, passando os dedos pelos cabelos soltos de Bella e puxando a cabeça dela para baixo mais uma vez, de modo que seus lábios se tocassem. – Terá que montar em mim e fazer a maior parte do trabalho.
Quando Bella obedeceu, Jonathan afastou as cobertas para que ela se juntasse a ele na cama. As pernas bambas da jovem quase a traíram e ela quase se esqueceu de respirar. Apoiou um dos joelhos no colchão e ele segurou a barra da camisa de baixo dela com ambas as mãos, que levantou os braços para que Jonathan a despisse. A peça foi se juntar às outras no chão. Ela estava assustadoramente consciente da vela acesa na mesa de cabeceira, que o permitia ver cada detalhe de seu corpo inexperiente. Jonathan a encarava com os olhos semicerrados e os lábios torcidos.
– Para ser justo com as outras mulheres, deve haver alguma imperfeição na sua pessoa. Mas, se houver, não consigo ver... Venha cá.
Isabella estava com 22 anos, logo não era de todo ignorante a respeito do assunto, mas o homem à sua frente com certeza esperava experiência e talento. Bom, ela lhe dissera certa vez que era quem atendia aos que gostavam de inocência fingida.
– O senhor precisa me orientar. Sou nova nisso, lembra?
Ele riu baixinho.
– Monte em mim, linda.
Naquele momento, Isabella deu graças pela atadura que envolvia a coxa de Smith. Como precisava montar nele e se acomodar de modo a não machucá-lo, a não encostar no ferimento sem querer, a situação não foi tão estranha, logo não experimentou um constrangimento profundo, pois esse cuidado extra lhe deu tempo para não parecer desajeitada de verdade.
Ela sentiu o calor do corpo dele se espalhar por suas coxas. Uma fraqueza quase dolorosa subiu pelo corpo dela, e até mesmo sua garganta ardia. Pousou as mãos nos ombros de Jonathan e se inclinou sobre ele, os olhos fixos nos dele.
Jonathan assumiu a partir daí. Ele passou uma das mãos pela nuca de Bella e beijou-a de boca aberta, invadindo-a com a língua. Ela nunca sonhara ser consumida por um desejo tão grande. Nos minutos seguintes, Smith tocou cada centímetro do corpo dela – com as mãos, os dedos, os lábios, a língua, os dentes – de maneiras que Bella nem imaginava serem possíveis.
Chupou, lambeu e mordiscou partes que ela nem sonhara que lhe trariam tanto prazer e que a deixassem insuportavelmente sensível. Jonathan pousou a mão espalmada sobre o ponto mais íntimo dela, que pulsava, levando-a à loucura, então abriu-a, explorando a carne, acariciando, provocando, arranhando de leve... e deslizando um dedo devagar, depois dois, para dentro dela.
Estava úmida, percebeu Bella, e músculos que nem sabia possuir se contraíam ao redor dele. Enquanto ele lhe dava uma aula sobre carícias preliminares, as mãos dela deslizavam pelo corpo dele, maravilhando-se diante da sólida masculinidade, por puro instinto sabendo onde se deter e afagar. Depois que Smith se banqueteou de seus seios, Bella abaixou a cabeça e lambeu um dos mamilos dele, provocando-lhe um arquejo e uma exclamação. Ela levantou a cabeça e sorriu.
– Foi bom?
– Sua feiticeira!
Ela moveu a boca para o outro, explorando esse novo poder que lhe fora concedido.
– Se não descer logo o corpo sobre o meu – falou por fim –, vou passar vergonha.
Contudo, Jonathan não esperou que Bella tomasse a iniciativa. Ele pousou as mãos nos quadris dela e puxou-os para baixo até que ela o sentisse rígido contra sua entrada úmida, que pulsava e ardia de desejo. Então, Smith pressionou-a com firmeza e Bella foi penetrada e aberta até sentir um desconforto crescente, uma dor aguda, que não demorou muito a passar quando ele parecia atingir mais fundo do que ela jamais imaginara ser possível.
Por um instante, não havia nenhum pensamento coerente na mente de Isabella, apenas o puro choque físico de haver perdido a inocência. Ela mordeu o lábio inferior no momento em que ouviu uma exclamação abafada.
– Que diabos...?
Durante um tempo, nenhum dos dois se moveu.
Ele, de olhos arregalados, em choque. Ela, com esperança e pânico no olhar, implorando silenciosamente para que o homem não recuasse agora.
Pareceu uma eternidade enquanto ela via o choque e a agonia abrandar no olhar de Jonathan. Então, ele começou a fazer coisas com Isabella que a deixaram entorpecida de novo. Ergueu ligeiramente o corpo dela e se moveu, sem parar, até de repente baixá-la com força e segurá-la firme, imóvel, enquanto a jovem sentia um jato quente em seu íntimo. Ela percebeu que o ato terminara ali.
Isabella experimentou uma curiosa sensação de desapontamento. Tudo terminara rápido demais, depois daquela lenta construção de prazer que marcara o início. O ato em si parecera quase um anticlímax. Contudo, ela não se arrependeria no dia seguinte. Não se arrependeria. Tivera o que desejara, e a culpa era dela se não achara a última parte nada fenomenal. Mesmo assim, tinha sido fantástico exercitar livremente a própria feminilidade e se deitar com um homem por quem vinha sentindo uma atração crescente nas duas semanas anteriores.
Isabella encostou a testa no ombro dele enquanto acalmava a respiração. Esperava não tê-lo desapontado muito Após um minuto ou dois de imobilidade e silêncio, Jonathan falou com uma voz surpreendentemente normal:
– Vai ser intrigante ouvir sua explicação para isso, Srta. Swan. Perdoe-me se estou exausto demais para ouvi-la neste exato momento.
Bella fechou os olhos com muita força. Que humilhação! Ela não o enganara nem por um instante.
A perna de Edward latejava bastante. Ele ignorou a dor e se concentrou na irritação que sentia.
Cedera à tentação de se divertir com o que pensou ser uma mulher experiente. Em vez disso, descobriu que estava corrompendo a inocência da jovem, acabando ali todo e qualquer encanto que vinha sentindo, o prazer se extinguindo diante à perturbadora verdade.
Deveria ter seguido seus instintos, disse a si mesmo, obviamente tarde demais. Sempre pensara em Isabella Swan como uma dama. Sempre a chamara de Srta. Swan. Por que diabos ela permitira que aquilo acontecesse? Sentia-se um violador, pelo amor de Deus!
E não deveria ter feito aquilo de forma alguma, mesmo que Isabella Swan fosse uma prostituta com vinte anos de experiência. Ela salvara a vida dele. E, desde então, vinha cuidando dele incansavelmente. E Edward a agradecia assediando-a e tirando... Ora, ele tirara a virgindade dela. Só que não fora à força, maldição.
Estava aborrecido com Isabella Swan e mais do que aborrecido consigo mesmo. Santo Deus, nem sequer tentara tornar o ato sexual entre eles uma experiência prazerosa para ela. Ficara tão chocado... Bella se afastara do corpo dele e saíra da cama instantes depois, então desaparecera atrás do biombo no canto do quarto, levando as roupas – uma exibição de pudor desnecessária após o que haviam feito juntos.
Mesmo correndo o risco de sentir mais dor na perna, Edward estendeu a mão pela beira da cama, pegou a camisola e voltou a vesti-la. Em seguida, cruzou os dedos atrás da cabeça, ergueu os olhos para o baldaquino e esperou. Depois de um bom tempo, Isabella saiu de trás do biombo pé ante pé, talvez na esperança de que ele tivesse adormecido. Havia esquecido de pegar os grampos. Algumas mechas estavam presas atrás da orelha e a massa de cachos chocolate descia pelas costas.
Parecia mais linda do que nunca, pensou Edward, irritado.
– Pensei que o senhor estivesse dormindo – falou ela, após olhar rapidamente na direção dele.
– Pensou, foi? Sente-se, Srta. Swan, e me diga que diabos aconteceu aqui.
Ela se sentou na cadeira e o encarou, inexpressiva.
– Por que não me contou? – insistiu ele. – Sentiu-se coagida? Eu disse ou fiz algo que a levou a acreditar que não tinha escolha?
O rosto de Isabella ficou muito vermelho e ela mordeu o lábio inferior. Entrelaçando as mãos no colo, baixou o olhar para elas por algum tempo enquanto Edward a encarava com uma sensação muito próxima do desprezo.
Talvez não devesse lhe importar se ela era uma prostituta ou uma virgem, mas ele se importava. E muito. Não era o tipo de homem – disso sabia com certeza – que saía por aí deflorando virgens. Então era o tipo que dormia com prostitutas? Não sabia, embora subitamente esperasse que não. Meu Deus, eram mulheres. Eram pessoas. Edward pensou em Rosalie e nas outras. Sim, eram simples pessoas.
– Já lhe ocorreu, Sr. Smith, que precisa haver uma primeira vez para toda mulher?
– E para uma mulher respeitável, para uma dama, essa primeira vez deve ser no leito nupcial. Não posso nem pedi-la em casamento, percebe? Posso já ser casado.
Ela voltou a morder o lábio, porém Edward já não achava mais essa visão algo encantador.
– Eu não me casaria com o senhor mesmo que o senhor fosse livre como um pássaro, se ajoelhasse diante de mim e fizesse um belo discurso. Não sou tola, Sr. Smith, mesmo sendo virgem até pouco tempo atrás. Fiz isso pela mesma razão que o senhor... porque quis, porque o senhor me agradou. E não faz nenhuma diferença, exceto pelo fato de que uma possível lembrança agradável agora foi estragada por sua raiva. Por que está zangado? Fui tão decepcionante? O senhor também foi, se quer saber a verdade.
Ele a encarou, perplexo com a enxurrada de palavras, e apesar de tudo sentiu um sorriso curvar os cantos da boca.
– Não! Fui? Devo admitir que me descontrolei como um colegial inexperiente. A senhorita me pegou completamente de surpresa.
Ela o olhou, parecendo um tanto obstinada.
– Mal posso esperar para ouvir a sua história – continuou Edward. – A senhorita é uma dama e era virgem até agora há pouco. Ainda assim, mora em um bordel com quatro prostitutas e gosta tanto delas que preferiu se igualar a se colocar moralmente acima das amigas. Talvez agora a senhorita até mesmo acredite que é uma delas. Há quanto tempo está aqui?
– Desde 15 de junho. Desde o dia da Batalha de Waterloo.
– O mesmo dia em que cheguei aqui?
Ele a encarou com os olhos semicerrados.
– Na véspera – respondeu Isabella. – Mas passamos a noite toda acordadas, portanto nunca dormi neste quarto.
Edward mudou ligeiramente de posição para tentar aliviar a queimação na perna. Deveria mandá-la embora dali. Sem dúvida a Srta. Swan estava ansiosa para ir embora – meu Deus, ela o achara decepcionante. Alguns minutos antes, ele também estivera ansioso para vê-la pelas costas. Mas toda aquela experiência no bordel estava sendo bizarra e Edward tinha a sensação de que ficaria ainda mais se ele ouvisse a história dela. Não iria mesmo conseguir dormir tão cedo se Isabella saísse do quarto.
– O que a trouxe para cá? – perguntou ele. – Estou autorizado a saber os detalhes?
A Srta. Swan abaixou os olhos para as mãos.
– Minha mãe morreu quando eu tinha 6 anos. Meu pai contratou uma ama para cuidar de mim. Era Victoria Clover e se tornou uma segunda mãe para mim, embora eu agora perceba que ela devia ser muito jovem na época. Eu a adorava. Tinha pouco contato com outras crianças... até com adultos, para dizer a verdade. Morávamos em Londres e meu pai raramente estava em casa. Aos 12 anos, meu coração se partiu quando Victoria teve que ir embora. Meu pai disse que, naquela idade, eu já não precisava mais de uma ama, mas eu sabia que era uma desculpa porque ele já não podia mais lhe pagar. Estava sempre ganhando e perdendo fortunas nas mesas de jogo, mas naquele momento havia sofrido uma série de perdas. Dez anos se passaram até que eu voltasse a ver Victoria... em uma rua aqui de Bruxelas, dois meses atrás.
– Deve ter sido um choque e tanto para a senhorita.
– Por causa da aparência dela, quer dizer? Os cabelos dela eram de um vermelho vívido, é claro, e Victoria usava um vestido um tanto chamativo, embora não estivesse maquiada. Mas o interessante foi que a reconheci no mesmo instante e não reparei de fato na mudança da aparência. Era apenas a minha amada Victoria.
Edward observou-a torcer as mãos no colo.
– Quando amamos alguém – divagou ela –, não vemos mais essa pessoa objetivamente. Nós a vemos com o coração. Eu me perguntei por que Victoria ficava se esquivando das minhas perguntas sobre o que fazia e onde trabalhava. E também tentava entender por que ela relanceava o olhar para as outras pessoas na rua como se estivesse constrangida. Ela parecia ansiosa para se afastar de mim. Fiquei magoada.
– Mas não se permitiu ser dispensada com facilidade, não é? – indagou Edward.
– Não. – Ela suspirou. – Teria sido melhor para Victoria e para as outras se eu tivesse empinado o nariz assim que me dei conta da verdade, após alguns minutos, e tivesse seguido meu caminho. Não fiz nenhum favor a ela insistindo para visitá-la. Ela me permitiu vir só depois que lhe contei que estava trabalhando como dama de companhia de Lady Mallory e me sentia solitária e triste. Meu pai morreu há um ano e não deixou nada além de dívidas.
– Então a senhorita visitou o bordel.
Como ela devia ter sido inocente... Mas também corajosa, admitiu Edward, uma mulher guiada por seus princípios e não pelas convenções sociais.
– Sim. – Ela o encarou e sorriu subitamente ao lembrar. – Estavam todas reunidas na sala de estar na tarde em que vim, vestidas com roupas discretas e respeitáveis e se comportando da melhor forma possível. Gostei delas na mesma hora. Eram... Nem sei direito que palavra usar... Eram genuínas. Pessoas de verdade, ao contrário de Lady Mallory e de todas as amigas delicadas dela.
Edward esperou que a Srta. Swan prosseguisse, que descrevesse os eventos que a haviam levado a morar ali.
– Conheci o reverendo James Crawley na casa de Lady Mallory – continuou ela. – Ele costumava ir lá com frequência, às vezes sozinho, às vezes com a irmã. Era muito charmoso. Todas as damas se encantavam com ele. O reverendo não tinha uma igreja própria na Inglaterra. Explicava que desejava ser livre para se devotar aos trabalhos de caridade, para arrecadar dinheiro em prol de causas que valiam a pena. Viera para Bruxelas porque achara que poderia trazer algum conforto para os milhares de homens que logo estariam encarando a morte em batalha.
– Existem capelães dos regimentos.
– Eu sei. Mas ele alegou que esses capelães devotavam tempo aos oficiais e negligenciavam as necessidades dos homens de baixa patente.
– Imagino que tenha se apaixonado no mesmo instante – falou Edward secamente, imaginando uma Isabella com olhar de adoração para outro homem. – Ele era belo?
– Ah, muito. Era alto e louro e tinha um sorriso encantador. Só que a princípio eu apenas o admirava. Ele nem me notava. Eu era pouco mais do que uma criada.
Talvez, pensou Edward cinicamente, porque ela não tivesse dinheiro para encher os cofres do homem.
– Começo a sentir o cheiro de um rato.
A Srta. Swan franziu a testa.
– Quando ele por fim me notou e começou a me cortejar, eu o achei irresistível. Não por causa da aparência ou porque estivesse apaixonada, mas porque era extremamente zeloso com seu trabalho e com sua fé. E porque era um homem de princípios, sóbrio, generoso e confiável. Não havia conhecido muitos assim na vida. E estava inegavelmente inebriada. A Srta. Crawley também se tornou minha amiga.
– Definitivamente um rato – concluiu mais uma vez Edward. – Mas deve ter sido sua aparência, e não sua fortuna, que o atraiu. Imagino que a senhorita não tenha um tostão.
Ele notou o rubor da jovem, mas ela estava com os olhos fixos nas mãos de novo.
– Ele começou a conversar comigo toda vez que ia à casa de Lady Mallory – prosseguiu Isabella – e me levava para passear sempre que eu tinha uma hora livre. A Srta. Crawley me convidou para o chá. Tudo parece ter acontecido há tanto tempo... Eu era tão ingênua! Quando o Sr. Crawley me pediu em casamento, aceitei sem hesitar. Talvez o que eu mais admirasse nele fosse ter pedido para ser apresentado a Rosalie e Victoria quando as encontramos certa tarde, mesmo tendo ficado óbvia a profissão das duas. O Sr. Crawley conversou com elas gentilmente e, de algum modo... ainda não sei como aconteceu... fomos convidados para tomar chá aqui.
Pelo silêncio dela e por vê-la engolindo em seco várias vezes, Edward imaginou que a história começava a se tornar dolorosa. Mas ele não fez nenhum comentário. Tentou mais uma vez acomodar a perna em uma posição mais confortável. Isabella cerrou os punhos.
– O Sr. Crawley tinha muito talento para tirar informações das pessoas. Sem me dar conta do que fazia, eu lhe contara sobre a minha herança antes mesmo que ele começasse a me cortejar com determinação. E Rosalie ou Victoria... não lembro qual das duas... lhe falou sobre o sonho que tinham de economizar dinheiro o bastante para comprarem uma pensão em algum lugar da Inglaterra e se aposentarem. Acredito que tenham até revelado que estavam próximas de atingir esse objetivo, mas nunca haviam confiado em qualquer banco para manter o dinheiro delas seguro.
Se ela era uma herdeira, pensou Edward surpreso, por que diabos aceitara o trabalho como dama de companhia de uma senhora e fora viver em um bordel? Mas ele não queria interrompê-la.
– Fiquei pateticamente grata a ele por tratar minhas amigas com tanto respeito e gentileza – falou a Srta. Swan.
Edward fez uma careta.
– E ele levou todo o dinheiro delas? Esse homem devia ser mesmo muito esperto... É difícil enganar prostitutas.
– Ele era muito educado e gentil com elas. Chegou mesmo a dizer que sentia uma particular deferência por prostitutas, já que o próprio Nosso Senhor as tratava com respeito. O Sr. Crawley as persuadiu de que estar em um país estrangeiro em tempos incertos deixava-as incomumente vulneráveis a roubos. E as convenceu a colocarem o dinheiro sob a custódia dele, já que estava prestes a partir da Bélgica. Prometeu que iria levar as economias delas para Londres e depositá-las em um banco, onde renderiam juros.
– Pobres damas... – comentou Edward com sincera simpatia. Acabara gostando muito de todas.
– Assim, o Sr. Crawley foi embora levando o que elas haviam demorado anos para economizar. E também uma quantidade generosa de doações para suas obras de caridade, dadas por Lady Mallory e metade das outras damas de Bruxelas. Lady Mallory também estava indo embora para a Inglaterra, mas ficou aborrecida comigo quando lhe contei que iria me casar com o Sr. Crawley e me demitiu no mesmo instante. Parti com os Crawleys. A cerimônia seria na Inglaterra, depois seguiríamos até a casa do meu tio para reivindicar a minha herança. Porém, acabei escutando, totalmente por acaso, uma conversa entre os Crawleys enquanto esperávamos pelas passagens para a Inglaterra... Eu descera para tomar o café da manhã com eles na estalagem em vez de ficar no meu quarto escrevendo uma última carta para Victoria, como planejara fazer. Os dois estavam rindo e conversando sobre o que fariam com todo aquele dinheiro. E soavam muito diferentes das pessoas com quem eu lidara até então.
A Srta. Swan franziu a testa, com a cabeça baixa, e por alguns momentos Edward se perguntou se ela seria capaz de continuar. Por fim, Isabella o encarou com um olhar perturbado e distante.
– Eu os confrontei imediatamente. Não me ocorreu a possibilidade de dissimular. Exigi que devolvessem o dinheiro das minhas amigas e também o meu, que entregara ao Sr. Crawley para que ele o guardasse, embora não fosse uma grande soma. Eles alegaram inocência e tentaram me garantir que estavam brincando. Subi as escadas correndo, com os dois nos meus calcanhares, e tentei encontrar o dinheiro. Mas é claro que não consegui achá-lo nem no quarto dele, nem no dela. De qualquer modo, sabia que nunca me deixariam pegá-lo de volta. Se eu procurasse um policial, o que diria? Alice dera o dinheiro a ele voluntariamente, com a plena aprovação das outras. Eu também... e estava comprometida com ele. Lembrei que o Sr. Crawley carregava pistolas como precaução contra bandoleiros e ladrões. Acabei cedendo covardemente, desculpei-me por minhas desconfianças tolas e voltei ao meu quarto, que, por sorte, ficava no térreo. Então fugi pela janela. Voltei para cá e contei a Victoria e às outras como haviam sido enganadas e como eu, mesmo sem querer, fora responsável pela perda delas.
– Uma atitude dessas exige coragem – comentou Edward.
Isabella continuou a olhar para ele como se não o visse.
– Elas não me disseram uma única palavra de reprovação. Ficaram furiosas e fizeram planos terríveis contra ele e sua vilania, e Victoria apenas me abraçou com força e chorou. Ela só conseguia pensar que eu estava magoada, que devia me sentir devastada por descobrir que ele me enganara.
– E se sentia?
– Talvez tenha acabado ali meu último resquício de confiança nos homens – disse Isabella, deixando os ombros caírem para a frente –, e isso sem dúvida foi doloroso. Só que meus sentimentos não estavam profundamente envolvidos. Eu não concordara com o casamento por romantismo. Agora apenas sinto constrangimento e incredulidade por não ter visto o Sr. Crawley como ele era de verdade.
– Seria melhor não ser tão dura consigo mesma. Alice, Rosalie e as outras também não desconfiaram da vilania dele e são mulheres mais vividas, mais experientes. Suponho que a senhorita se sinta profundamente em débito por todo o dinheiro que seu ex-noivo roubou.
– Sim. – Ela assentiu. – Mas não posso fazer nada para ajudá-las. Nosso primeiro plano para ir atrás do Sr. Crawley falhou quando achei o senhor e quando Alice e Rosalie deram com um pobre garoto cujo corpo havia sido saqueado. – O rosto da Srta. Swan ficou ruborizado e ela mordeu o lábio. – Havíamos saído para ver que objetos de valor poderíamos encontrar no rescaldo da batalha, mas voltamos sem nada.
– Não é possível! – Ele não conseguiu controlar uma gargalhada alta. – Posso até imaginar... três mulheres saindo para pilhar e percebendo que seus corações eram moles demais para a tarefa. E a senhorita acabou descobrindo meu corpo nu em vez de um tesouro. Pobre Srta. Swan...
– Prefiro ter encontrado o senhor a ter encontrado o tesouro – retrucou ela, parecendo mortificada.
– Obrigado.
Ele sorriu, porém logo ficou sério ao lembrar o que provocara a aparência desgrenhada e desalinhada dela. Maldição, aquilo nunca deveria ter acontecido. O que o possuíra? Aquela sem dúvida era uma pergunta retórica, é claro: era óbvio que tinha sido a luxúria.
– Gostaria de devolver tudo a elas – falou a Srta. Swan apaixonadamente. – Gostaria de lhes entregar de volta o sonho delas, mas não posso. Só vou herdar minhas joias aos 25 anos. E três anos é tempo demais para esperar. Eu poderia tê-las antes, é claro, se me casasse com a aprovação do meu tio, mas não acredito que isso vá acontecer. Demorará muito, muito tempo até que eu volte a confiar em outro homem.
– Ah, agora os motivos de Crawley ficaram claros. Imagino que tenha contado a ele sobre a condição da sua herança, não é?
– Sim. – Ela o encarou com a testa franzida. – Fui terrivelmente tola e ingênua, não fui?
– Terrivelmente – concordou ele, e mudou mais uma vez de posição.
– O senhor está sentindo dor.
– Um pouco de desconforto. Acho que acabei me envolvendo no tipo errado de exercício para a minha condição física. Alguns diriam que estou recebendo a punição merecida.
– Sua perna está doendo? – Isabella se levantou de um pulo. – Vou pegar água fresca para limpar o ferimento, então aplicarei mais unguento e colocarei ataduras novas. Deixe-me ver. Está sangrando?
Edward levantou a mão com determinação quando ela se aproximou da cama.
– Acho que seria melhor para a minha paz de espírito se mantivesse distância de mim, Srta. Swan. Como concordamos que o que aconteceu entre nós esta noite foi um grande erro, e como, aparentemente, fomos uma decepção um para o outro, seria melhor se evitássemos qualquer possibilidade de repetição.
Ela o encarou por um momento, corada e com os olhos arregalados. Então, virou-se e foi em direção à porta com tanta pressa que seus movimentos foram quase deselegantes. Lutou por algum tempo com a tranca antes que ela cedesse e saiu em disparada do quarto, fechando a porta com certo barulho.
Ora, maldição, aquele não fora um discurso muito cavalheiresco da parte dele, certo? Acabara de informar a uma dama que a primeira experiência sexual dela tinha sido um grande erro e que ela fora uma decepção para ele, mas ele o fez para proteger seu orgulho e fazê-la se afastar, para evitar novo episódio descontrolado pela luxúria.
Teria que lidar com alguns fatos nada agradáveis no dia seguinte. E ficava com medo só de pensar no que viria pela frente.
Sim, também acrescentei bastante coisa com relação aos sentimentos dos dois, pois no original é tipo um relatório da cena, não envolve o leitor de verdade. E respondendo à Miccky: sim, é uma adaptação de romance de época sobre a família Bedwyn (Cullen aqui); espero que continue acompanhando, isso me deixa super feliz s2
