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CAPÍTULO VIII

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Edward acordou em pânico de manhã cedo, esgotado como se não tivesse dormido a noite inteira. Tentou sair da cama, mas então lembrou que não conseguiria. Precisava chegar aos portões de Namur. Ela o esperava lá e ele estava apavorado com a possibilidade de que ela pudesse correr um grave perigo. A dor teve a dupla função de afastar o que restava do sono e interromper o sonho, se é que fora só um sonho.

Edward permaneceu deitado, imóvel, uma das mãos sobre o machucado na coxa, que latejava, a outra agarrando as cobertas e tentando desesperadamente resgatar o sonho. Quem estava esperando por ele? E por quê? Qual era o perigo que ela corria? Tinha sido só um sonho? Ou era uma lembrança?

Ele desistiu depois de alguns minutos e tentou, talvez pela centésima vez, recuperar a memória do que acontecera com ele antes de chegar àquela casa. Estivera cavalgando do campo da Batalha de Waterloo em direção a Bruxelas. Pelo menos isso era o que presumia, já que provavelmente fora baleado na batalha. Havia uma carta. E uma mulher esperando por ele nos portões da cidade. Contudo, por mais que se esforçasse – seu rosto chegou a ficar encharcado de suor e a cabeça começou a latejar –, Edward não conseguiu se recordar de mais nada.

E não parecia haver ligação entre os detalhes aleatórios, que poderiam ser tanto lembranças reais quanto meros sonhos. Se ele lutara na Batalha de Waterloo, por que estava cavalgando para o norte para encontrar uma mulher? E por que a carta era tão importante? Seria algo que ela lhe escrevera, chamando-o para protegê-la de algum perigo? No meio da batalha? Não, aquilo não fazia o menor sentido.

Foi um alívio ouvir uma batida na porta, embora ainda não estivesse pronto para encarar Isabella Swan ainda. Virou a cabeça com cautela, mas era Emmett, com os apetrechos de barbear nas mãos, um par de muletas sob um dos braços e um largo sorriso, apesar das ataduras que ainda envolviam parte do rosto.

– O senhor ficará de pé e ativo hoje – disse depois de cumprimentar Edward com um alegre bom-dia. Ele pousou os itens de barbear e apoiou as muletas no pé da cama. – Isso vai animá-lo. Vou lhe dar uma ajuda com elas mais tarde.

– Ficarei ainda mais feliz quando conseguir algumas roupas. Já estou inerte e dependente há muito tempo. Não vejo a hora de andar por aí. Preciso descobrir quem sou e resgatar a minha antiga vida.

– Se não se incomodar, eu mesmo vou barbeá-lo hoje. Estou me acostumando a ver as coisas apenas com um dos olhos.

Edward o encarou, desconfiado.

– Você realmente tem ambições de ser um valete, não é?

– Preciso fazer alguma coisa – respondeu Emmett, passando sabão no pincel de barbear. – A vida inteira fui soldado. Estive a serviço de Sua Majestade desde que era um rapazote. A opção era ser ladrão e tentar não ser enforcado. Não tenho talento para roubos... nem para a forca. Preciso, então, encontrar outra opção de trabalho. E por que não ser valete? Venho recebendo ordens de cavalheiros e atendendo-os há seis anos, desde que me tornei sargento. Posso vesti-lo e barbeá-lo e cuidar de suas roupas com apenas um olho, do mesmo jeito que faria se enxergasse com os dois.

– Mas continuo sem dinheiro – lembrou-lhe Edward, mas deixou o homem ensaboar seu rosto e se preparou para ter a garganta cortada.

– Entenda, senhor, eu tenho um pouco. Não muito, do ponto de vista de um cavalheiro, admito, porém o bastante para me sustentar por algum tempo. Não necessito tanto de dinheiro, senhor, mas de me sentir útil, ao menos por um tempo, enquanto me reorganizo.

– Sei exatamente como se sente – disse Edward, abatido. – No entanto, você pode conseguir algo melhor, sargento. Nem temos certeza de que sou um cavalheiro, certo?

– Ah, eu tenho. Não duvidei disso nem por um momento, senhor. Já conheci homens que eram cavalheiros, outros que não, e outros ainda que fingiam ser. Sem dúvida é um cavalheiro. Não sei quem o senhor é... Não estava no meu regimento e eu nunca havia posto os olhos no senhor até vê-lo na floresta. Mas sei o que o senhor é.

Edward ficou imóvel enquanto a navalha corria por sua pele, o rosto de Emmett pairando acima, cheio de ataduras, machucado e firme, com a testa franzida em concentração.

– Já se sentiu apavorado? – perguntou ele.

– Imagino que o senhor esteja se sentindo assim. – O sargento abriu um sorriso torto, revelando dentes largos. – Esta é a primeira vez na vida que barbeio outro homem. E só tenho um dos olhos para ver o que estou fazendo.

– Digo, apavorado por ter perdido tão subitamente seu antigo modo de vida e por ter que arrumar um novo.

McCarty endireitou o corpo, já tendo completado uma das faces de Edward.

– Apavorado? Nunca me senti apavorado na vida, senhor. Ou pelo menos nunca chamei a sensação de pavor. Não parece másculo, concorda? Ou talvez não seja pavor, dependendo do que o camarada faz com o que sente. Posso até sentir um pouco de medo, senhor, mas não adianta deixar que ele nos domine, não é mesmo? Há todo um outro mundo além do exército. Vou descobrir o que me oferece. Quem sabe eu goste mais desse novo mundo do que do anterior. Ou não. Mas, se não gostar, voltarei a procurar outra coisa. Não há nada que me detenha, apenas minha morte, que acontecerá quando chegar a hora, não importa o que eu faça nesse meio-tempo.

Ele se debruçou sobre Emmett para investir contra o outro lado do rosto.

– Na verdade, para ser honesto, não é covardia se sentir apavorado. Era o que eu sempre dizia aos meus garotos antes de uma batalha, principalmente aos recrutas recém-saídos da Inglaterra e dos braços das mães. Se nunca ficou apavorado, senhor, nunca vai descobrir do que é feito e o que é capaz de fazer. Nunca vai se tornar um homem melhor. Talvez seja isso que o senhor vá descobrir... E, quando enfim lembrar quem é, talvez se dê conta de que se transformou num homem melhor do que jamais foi. Talvez tivesse parado de amadurecer ao chegar à idade adulta. Talvez precisasse acontecer algo drástico como perder a memória para que conseguisse evoluir. Peço perdão por estar dizendo isso, senhor. Às vezes falo demais.

– Percebi que o senhor é um filósofo tagarela, McCarty. E me pergunto se terei caráter para corresponder às suas expectativas em relação a mim. Já me cortou?

– Não, senhor – retrucou o sargento, endireitando o corpo e examinando o resultado final de seu trabalho antes de secar o rosto de Edward com uma toalha limpa. – Acredito que já tenha perdido sangue o bastante por um mês.

– Obrigado.

Edward passou a mão pelo queixo liso e pensou nas palavras de Emmett. Sentia-se, é claro, muito apavorado, embora parecesse uma vergonha admitir. O que o destino lhe reservara sem dúvida era uma das piores sortes: perder-se, não guardar lembrança alguma de 25 anos de vida. Teria coragem para construir uma nova identidade e uma nova vida, talvez melhor do que as antigas? Porém, o sargento não era tão corajoso quanto suas palavras sugeriam. O homem ainda estava no bordel, mesmo já recuperado o bastante para ter ido embora nos dias anteriores. E estava disposto a se ligar a um homem que não tinha um centavo no bolso para lhe pagar, só para não ter que sair sozinho pelo mundo.

Sair sozinho pelo mundo... era mesmo um pensamento terrível. Subitamente, Edward percebeu que estava tão ansioso para partir quanto para ficar, para encontrar alguma desculpa que adiasse o momento inevitável.

McCarty se demorava lavando o pincel e a navalha na tigela de água. Ele pigarreou e falou sem olhar para Edward:

– Gosto das damas daqui, senhor. Até servi de porteiro para elas na noite passada, a fim de que ficassem livres para atender aos cavalheiros e se sentissem seguras caso algum deles se tornasse mais agressivo. Não me importa o que fazem para ganhar a vida, mas me pergunto o que a Srta. Swan está fazendo aqui. A jovem não é uma delas.

Edward lançou um olhar incisivo ao sargento.

– Pelo que sei, ela é uma dama.

– Eu sabia, senhor. Desde o primeiro momento, quando ela gritou que o senhor era marido dela e estava gravemente ferido, soube que era uma dama. Mas sempre há o risco de que o bom nome da Srta. Swan seja manchado por estar vivendo em um bordel. Não queremos piorar as coisas para ela, se é que me entende. O que o senhor quer que eu faça com os grampos de cabelo dela que estão sobre a mesa? Não gostaria que as outras damas os vissem aqui quando trouxessem o café da manhã e tivessem a ideia errada.

Por um instante, Edward se sentiu como um soldado raso se encolhendo diante da língua gentil, mas inegavelmente direta, do sargento. Diabos, ele se esquecera dos grampos. Desejava com fervor que aquilo tudo tivesse sido um sonho, mas lá estavam os grampos como uma prova incontestável.

– Recolha todos se puder, McCarty, e coloque-os na gaveta de cima da cômoda ali. A Srta. Swan teve uma dor de cabeça quando estava sentada aqui na noite passada me fazendo companhia e tirou os grampos para diminuir a pressão.

Que explicação absolutamente estúpida.

– Claro, senhor – disse o sargento de forma simpática, recolhendo os grampos em sua mão grande. – Eu protegeria aquela pequena dama com a minha vida se alguém tentasse fazer mal a ela... como estou certo de que o senhor também faria. Nunca me esquecerei do modo como ela chorou, debruçada sobre o senhor, embora não fosse o marido dela, como acabou ficando claro. Uma dama de coração terno, senhor.

– Estou muito consciente de que devo a minha vida a ela, sargento, e muito mais do que isso, até.

Emmett não se demorou mais. Recolheu os itens de barbear e saiu do quarto.

Edward nem esperou que o café da manhã chegasse para afastar as cobertas, passar as pernas com cuidado pelo lado da cama e puxar as muletas em sua direção. Estava se sentindo inquieto, fraco, irritado, culpado... e muito pecaminoso. Poderia fazer algo para aliviar os primeiros dois problemas, ao menos. E quanto aos outros? Teria que pensar em algum modo de fazer as pazes com Isabella Swan, mas tinha a sensação de que um simples pedido de desculpas não bastaria. Precisaria arrumar uma outra maneira.

Edward enfiou as muletas com firmeza sob os braços e se ergueu sobre o pé direito.


Bella se ocupou na cozinha por boa parte da manhã, ajudando Angela a assar pães e bolos, descascando batatas e picando legumes. Felizmente as outras mulheres ficaram na cama até mais tarde. Ela estava surpresa porque Angela pareceu não notar nenhuma diferença nela. Afinal, tinha a sensação de que as atividades da noite anterior se achavam escritas em seu rosto. Também sentia-se muito grata porque Emmett se estabelecera como valete do Sr. Smith e cuidava das necessidades do homem durante a manhã.

Antes do meio-dia, Isabella se ofereceu para fazer compras e saiu apressada de casa. Vinha evitando sair muito desde que voltara a Bruxelas, temendo que algum conhecido de Lady Mallory a visse e a acusasse de ser cúmplice do Sr. Crawley – embora fosse pouco provável que alguém houvesse se dado conta da patifaria do homem. Na verdade, era bem possível que a maioria das pessoas nunca se desse conta, a menos que checassem com as obras de caridade para as quais achavam ter contribuído.

Contudo, naquele dia estava desesperada por ar, por exercício, e não se incomodou com as chances de encontrar qualquer um. Não lhe ocorreu nem que, antes da morte do pai, em Londres, ela não tinha permissão para colocar os pés fora de casa sem acompanhante. Bella caminhou além do que seria necessário para resolver o que precisava.

Chegou mesmo a passear por algum tempo no Parc de Bruxelles. Ficou observando os cisnes no lago e absorvendo o calor e a luz do sol, mesmo já sendo o meio da tarde, chegou temerosa em casa. Retraía-se só de pensar em confrontar de novo o Sr. Smith. Como algum dia seria capaz de olhar para ele depois do que acontecera entre os dois?

Quando ouviu vozes e risadas na sala de estar, decidiu se servir de uma xícara de chá primeiro e tomá-la ali para se recompor. Isabella abriu a porta com cuidado e espiou ao redor, temendo que as amigas estivessem recebendo clientes, embora não costumassem fazer isso durante o dia. Porém, quase recuou ao ver que um cavalheiro estava de fato na sala com as mulheres – um cavalheiro extraordinariamente belo. Por uma fração de segundo, não o reconheceu, mas havia um par de muletas apoiado na cadeira ao lado do homem.

– Isabella! – chamou Victoria. – Entre, meu amor, venha conhecer a nossa visita.

– Ele não está lindo? – perguntou Angela, animada.

Rosalie estava parada perto da janela, as mãos nos quadris.

– Ele é bem elegante, devo admitir. Só é uma pena que esses bolsos estejam vazios.

– Não sei se me importo, Rose – disse Angela.

– Vamos acabar deixando o pobre homem ruborizado – falou Angela, enquanto Bella entrava na sala a contragosto e fechava a porta. – Mas é verdade que ele é bonito o bastante para fazer qualquer garota respeitável disputá-lo com as melhores amigas.

Estavam todas brincando e flertando como sempre. O Sr. Smith sorria e aceitava tudo com bom humor, mas, ao ver Bella, pegou as muletas e se levantou da cadeira, fazendo uma mesura surpreendentemente graciosa.

– Srta. Swan.

Ele a encarou, o olhar não mais tão risonho.

Bella torceu muito para não corar. Vendo-o ali, era quase impossível imaginar que, menos de 24 horas antes, os dois haviam estado nus e intimamente juntos. Mas, como não era impossível, ela sentiu uma enorme vontade de morrer de vergonha. ... como, aparentemente, fomos uma decepção um para o outro... Bella podia ouvi-lo falar aquelas palavras tão claramente como se as estivesse dizendo agora.

Não tinha notado como o Sr. Smith era alto. As roupas dele não haviam sido feitas pelo mais exclusivo dos alfaiates, imaginou, mas a camisa era muito branca, a gravata engomada com um nó elegante, o paletó azul caindo bem o bastante para destacar os ombros e o peito largos, e a calça cinza justa e muito lisa sobre as pernas musculosas – sem contar a marca da atadura na perna esquerda. Ele usava sapatos de couro em vez de botas, que combinariam melhor com aquele traje, mas no geral Angela tinha razão: Smith estava lindo. Dos cabelos recém-lavados caía uma mecha acobreada e convidativa sobre a sobrancelha direita.

– Suas novas roupas lhe caíram bem, então, Sr. Smith? – perguntou Bella, esforçando-se para parecer simpática e casual.

– A não ser por um dos paletós. Infelizmente, foi o de que mais gostei, mas, mesmo com todo o empenho de McCarty, não consegui me enfiar nele.

– Nós calculamos mal, Allie – disse Rosalie, aborrecida. – O peito dele é ainda mais largo do que tínhamos suposto.

– Os ombros também, Rose – acrescentou Alice, examinando-o abertamente. – Prestamos atenção demais nesse rosto bonito e no sorriso travesso que vem com ele. Não cometeremos de novo esse erro.

– Deveriam ter perguntado as minhas medidas, senhoritas – falou o Sr. Smith, voltando a se sentar com cuidado na cadeira depois de Bella ter se acomodado em outra.

– Elas ficaram com medo de que o senhor não se lembrasse, e eu teria todo o prazer do mundo em usar a minha fita métrica para tirar as medidas – comentou Angela. – Isso vai ensiná-las a sempre terem por perto as próprias fitas.

A conversa seguiu assim por cerca de dez minutos, acompanhada de muitas risadas.

Isabella tentava se recompor e ensaiar mentalmente o que diria quando por fim se visse sozinha com ele, como acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde. E foi bem cedo.

– Em meu vacilante progresso pela casa – disse o Sr. Smith –, vi que vocês têm um belo jardim nos fundos e que alguém teve consideração para colocar um banco de madeira. Se me derem licença, gostaria de ir até lá, passear um pouco pelo caminho pavimentado e me sentar por algum tempo, respirando o ar livre.

– Só tome cuidado para não exagerar no exercício – alertou Victoria. – Lembre que esse é o primeiro dia em que está de pé.

– Detestaríamos ter que carregá-lo de volta para a sua cama – falou Angela.

– Não, não detestaríamos, Angie – negou Rosalie.

– Serei cuidadoso – prometeu o Sr. Smith. – Srta. Swan, se incomodaria de me acompanhar?

Victoria sorriu e assentiu em consentimento para Bella, como se ainda fosse a ama dela. A jovem pousou a xícara vazia e o pires e se levantou. Teria feito de tudo para evitar aquele encontro. Ainda não estava pronta. Mas será que estaria algum dia? Como não podia mudar a noite anterior, só tinha a opção de seguir em frente e lidar com o constrangimento de ficar a sós com ele.

Bella segurou aberta a porta da sala de estar enquanto o Sr. Smith passava de muleta. O caminhar dele era vagaroso, mas estável, percebeu ela, quando os dois saíram para o jardim. Ela acertou o passo com o dele depois de fechar a porta dos fundos e cruzou as mãos nas costas.

– Bem, Srta. Swan, precisamos conversar – começou o Sr. Smith. O tom divertido de flerte, que usara na sala de estar, se fora.

– Precisamos? – Ela concentrava a atenção nas pedras da trilha que seguiam. Como uma criança, evitava pisar nos vãos entre elas. – Eu sinceramente preferiria que não fizéssemos isso. O que está feito está feito. Não significou grande coisa, não é mesmo?

– Que golpe no meu orgulho masculino! Estou ciente de que, em circunstâncias normais, eu agora deveria pedi-la em casamento.

Isabella se sentiu mais mortificada do que nunca.

– Eu jamais aceitaria. Que ideia tola!

– Fico feliz porque a senhorita pensa assim. Não posso, é claro, fazer qualquer oferta desse tipo... ao menos ainda não. Eu não teria um nome legal com que assinar a licença ou o registro de casamento. E talvez eu até já seja casado.

Ela se esquecera dessa possibilidade. Sentiu o estômago se revirar.

– Nem agora, nem nunca – disse Bella com firmeza. – Nem mesmo se, depois de descobrir sua identidade, eu souber que é solteiro. Estive envolvida em um noivado irrefletido este ano, Sr. Smith. Não tenho intenção de me envolver em outro tão cedo.

– O que está planejando fazer?

Bella sentiu-se em desvantagem agora que o Sr. Smith estava de pé. Acostumara-se a olhá-lo de cima. Até mesmo na véspera, enquanto eles estavam... Bom, preferia não pensar a respeito.

– Não decidi ainda. Suponho que vá arrumar outro trabalho.

– E imagino que vá precisar de uma referência de caráter de Lady Mallory. Ela lhe daria?

Bella fez uma careta.

– As damas aqui querem ir atrás do Sr. Crawley assim que voltarem à Inglaterra. Quer dizer, se conseguirem levantar dinheiro suficiente para cobrir as despesas de viagem. Pensei em ir com elas. Não será fácil encontrá-lo e há poucas chances de que recuperemos algum dinheiro, mas sinto que preciso ajudá-las ao máximo.

– Essas damas não precisam de sua ajuda, Srta. York. São mulheres calejadas pelo trato com o mundo. Vão sobreviver.

– Sim, é claro, vão sobreviver – disse ela. Parou e se virou para encará-lo, a raiva cintilando nos olhos. – Não importa que não farão nada mais do que isso, que não possam esperar por liberdade, felicidade ou abundância. Afinal, são apenas prostitutas.

Ele suspirou alto.

– Só quis dizer que a senhorita não é responsável por elas mais do que é responsável por mim... ou eu pela senhorita. Às vezes as pessoas precisam apenas permitir que as outras levem as próprias vidas, mesmo que seja difícil assistir.

Bella franziu a testa. Estivera disposta a uma boa briga, mas o Sr. Smith se recusara a morder a isca.

– Talvez devêssemos nos sentar antes de continuar esta conversa – sugeriu ele. – Odiaria tropeçar, cair aos seus pés e talvez lhe dar a impressão errada.

Ela seguiu à frente do Sr. Smith, mas esperou até que ele se sentasse com cuidado e apoiasse as muletas no braço de ferro fundido antes de se acomodar na outra extremidade. Desejou que o banco fosse um pouco mais comprido.

– Conte-me sobre o seu tio – pediu ele.

– Ele é o barão de Weston de Chesbury Park, em Wiltshire. Não há muito mais a contar. Era irmão da minha mãe, mas renegou-a depois que ela fugiu aos 17 anos para se casar com o meu pai. A única vez em que o vi foi após a morte da minha mãe, quando ele foi a Londres para o funeral e ficou por alguns dias.

– Ele é seu único parente vivo?

– Até onde eu sei, sim.

– Talvez devesse procurá-lo. Ele dificilmente lhe daria as costas, não é?

Isabella virou-se para encará-lo, incrédula.

– Ouvi falar do homem duas vezes desde os 6 anos. Uma delas foi quando eu tinha 18 anos e ele se recusou a me entregar as minhas joias. A outra foi quando voltei a pedir as joias depois que meu pai morreu. Naquela ocasião, ele escreveu que eu não poderia tê-las, mas que, se estivesse passando necessidade, poderia morar lá e ele me encontraria um marido.

– Portanto é possível que a senhorita vá para lá.

– Se estivesse no meu lugar, o senhor iria? – questionou ela, voltando a ficar irritada. – Recorreria a alguém que renegou sua mãe quando ela se casou e que o ignorou por toda a vida, a não ser por alguns dias quando o senhor tinha 6 anos? Alguém que estava tão ansioso para vê-lo novamente que lhe informou que poderia ir viver com ele se estivesse passando necessidade e que ameaçou casá-lo com alguém da escolha dele. O senhor iria?

A proximidade do Sr. Smith era desconcertante. Sobretudo porque Bella ainda precisava levantar os olhos para encará-lo. Ele parecia se agigantar, maior e mais imponente do que parecera deitado na cama.

– Acho que não – respondeu Jonathan. – Não, essa é uma resposta inadequada. Eu provavelmente diria ao desgraçado para enfiar a cabeça no óleo quente.

Bella ficou tão surpresa e chocada que caiu na gargalhada. Ele sorriu lentamente e ela percebeu que os olhos verdes do homem estavam fixos em sua covinha, que sempre considerara um traço infantil.

– Conte-me sobre as joias – pediu o Sr. Smith.

– Eu nunca as vi – ela desviou o olhar para o lago de nenúfares –, embora saiba que elas são bastante valiosas. Minha avó deixou-as para a minha mãe com a condição de que permanecessem sob os cuidados do meu tio até que ela se casasse com a aprovação dele ou depois que fizesse 25 anos. Minha mãe se casou sem a aprovação e morreu aos 24 anos. Mas ela deve ter se comunicado com ele de algum modo, porque deixou as joias para mim sob as mesmas condições.

– Talvez sua mãe achasse que as joias estavam mais seguras com ele do que com seu pai.

Bella já havia pensado nessa possibilidade humilhante. Pobre papai... Ele teria apostado a fortuna toda e então chorado de remorso, para logo voltar às mesas de jogo tentando ganhar tudo de volta.

– Talvez meu tio ache que as joias estão mais seguras com ele do que comigo. Meu pai já havia morrido quando lhe pedi que as entregasse no ano passado. São minhas. Se eu fosse homem, não haveria argumento para reter a minha herança, pois sou maior de idade. Gostaria tanto que já fossem minhas... Eu devolveria a essas damas tudo o que perderam e resgataria seu sonho. Como ficariam felizes! Como eu ficaria feliz!

Ela mordeu o lábio ao sentir os olhos marejados.

– Mas há um modo de a senhorita colocar logo as mãos na sua herança, não há? – lembrou Jonathan.

Ela deu uma risadinha zombeteira e o encarou. O Sr. Smith também a fitava com uma expressão firme.

– Eu teria que estar casada.

Ele ergueu uma das sobrancelhas.

– E conseguir a aprovação dele para esse casamento – completou ela.

O Sr. Smith levantou a outra sobrancelha e seus olhos assumiram a expressão sorridente que ele costumava reservar para as brincadeiras com as amigas dela.

– Não posso me casar com o senhor – falou Bella com determinação. – O senhor mesmo já disse isso e, além do mais, não me casaria com ninguém apenas para colocar as mãos nas minhas joias.

– Admirável – murmurou ele, e sorriu. – E, de qualquer modo, como conseguiria a aprovação do meu tio? O senhor nem sequer sabe o seu nome.

Ele voltou a erguer as sobrancelhas para ela e subitamente pareceu travesso, brincalhão... e irresistível.

– Nunca ouviu falar, Srta. Swan... ou devo ousar chamá-la de Isabella... de uma farsa?

– O quê?

Ela o encarou com os olhos arregalados.

– Eu fingirei ser seu marido e irei até Chesbury Park com a senhorita para resgatar sua fortuna das garras desse tio de mão fechada e coração duro. Então poderá fazer o que desejar com as joias, embora eu deva alertá-la de que talvez descubra ser muito difícil persuadir essas damas a aceitarem um centavo sequer seu.

– Mas o senhor está ansioso para ir embora daqui. Quer encontrar sua família e sua casa.

Ele fez uma careta e o riso desapareceu de seus olhos.

– Sim, é verdade, mas, ao mesmo tempo, a senhorita não faz ideia de quanto temo esse momento. E se eu for embora daqui e não encontrar nenhuma pista da minha identidade? Pior, se encontrar uma família grande e uma horda de amigos e descobrir que todos são absolutos estranhos para mim? Consegue entender o terror inerente a cada pensamento desse? Talvez, se eu adiar por um tempo minha jornada de autodescobrimento, a memória retorne por conta própria.

– Mas... – começou ela, os pensamentos se atropelando tão caoticamente que não conseguia organizá-los – não posso pedir que faça isso por mim.

– A senhorita não está me pedindo. – Ele voltou a sorrir e, de repente, Isabella sentiu vontade de esticar a mão e tocar tamanho calor. – Eu é que me ofereci. Poupe-me do pavor de não ter nada a fazer a não ser me lançar no vasto desconhecido, Srta. Swan. Vamos fazer isso.

Havia um milhão de argumentos contra aquela ideia... pelo menos um milhão. Mas tudo que Bella conseguia visualizar era sua imagem sorridente entregando a Alice a exata soma de dinheiro que vira a amiga pôr nas mãos de James Crawley. Poderia fazer isso de verdade. E não precisaria se sentir culpada pela farsa, certo? O dinheiro era dela e tio Carlisle sempre fora horrível com ela. Isabella não lhe devia nada.

– Tudo bem.

Ela sorriu. O Sr. Smith apoiou o braço no encosto do banco e continuou a sorrir como um colegial travesso, exceto pelo fato de que estava ainda mais lindo.

– Só torço para que a senhorita não espere que eu fique de joelhos para pedi-la em casamento. Acho que nunca mais conseguiria me levantar.


Oi, meninas. Desculpe o sumiço, tive uns problemas de saúde e fiquei nessa de ir e voltar do PA desde quinta-passada com uma infecção que não passava, mas agora me sinto um pouco melhor. Prometo não sumir mais. Beijinhos!