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CAPÍTULO IX
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Edward ficou deitado na cama por mais de uma hora depois de voltar do jardim, mas sem dormir. Sentia dor em todos os ossos, em todas as juntas, e desconfiava que a perna esquerda estava ligeiramente inchada. Desanimou-o perceber como estava fraco, porém era um prazer saber que agora poderia se mover e recuperar a força e a energia. Entretanto, era um covarde de primeira e se perguntava se sempre teria sido.
Por quase duas semanas estivera irritado, ansiando para voltar a se levantar, para poder sair daquela casa e começar a descobrir quem diabos era. Mas, quando isso finalmente acontecera naquele dia, quando o momento da partida parecia iminente, Edward se descobrira dominado pelo pânico. Tinha dito a verdade a Isabella Swan. E, meu Deus, em que tipo de encrenca acabara se metendo? Ele quisera ajudá-la. Por mais aborrecido que tivesse ficado com ela na noite anterior por não lhe dar a escolha de manter sua virtude intacta, também desejara fazer algo positivo. Afinal, a Srta. Swan salvara sua vida.
Edward não tinha dúvida de que teria morrido na floresta de Soignés se ela não houvesse aparecido e buscado ajuda. E Isabella se dedicara a ele por bem mais de uma semana. Edward desenvolvera carinho por ela. Aliás, ficara inebriado por ela desde o primeiro momento em que a vira. O rapaz quisera fazer algo por Isabella. E a convidara para o jardim com a intenção de descobrir algo sobre o tio dela, para ver se era possível que a moça fosse viver com o parente. Havia planejado se oferecer para acompanhá-la até a casa do tio. Não teria sido muito em comparação ao que ela fizera por ele, mas pelo menos seria algo. Algo são, sensato, honrado. E, caso descobrisse que era um homem solteiro, voltaria a procurá-la e a pediria em casamento, como ditava a honra. E olhe o que acabara fazendo!
Porém, a questão era que o pânico que Edward sentira pairando acima de sua cabeça durante todo o dia desaparecera assim que ele fizera a sugestão, e em seguida experimentara a empolgação de um louco desafio.
O que aquilo dizia sobre o caráter dele? Será que costumava se comportar como um garoto de 25 anos disposto a entrar em qualquer esquema maluco? Isso se realmente tivesse 25. Poderia muito bem ter 30. Edward fez uma careta. Agora era tarde demais para mudar de ideia sobre aquela aventura louca, mesmo se quisesse... e não estava certo de que queria. Iria assumir uma identidade nova e, junto com ela, uma esposa – supostamente em um casamento por amor. Sim, com certeza um casamento por amor. Convenceria o barão Weston de sua elevada respeitabilidade e retidão de caráter.
Edward riu baixinho. Tudo de que precisava era um desafio, e aquele era colossal. Sentia-se... Com certeza sentia-se novamente como seu antigo eu. Esse pensamento ameaçou provocar um nova onda de melancolia. Fechou os olhos e pousou as costas da mão sobre eles. Esperava passar o resto do dia na cama, ou pelo menos no quarto, mas Emmett apareceu à porta no fim da tarde para informar que aquela era a noite de folga das damas e que haviam convidado o Sr. Smith para se juntar a elas no jantar caso ele se sentisse disposto.
– Mas devo avisá-lo, senhor – acrescentou o sargento –, que elas também me convidaram.
– E por que não seria adequado jantar com um sargento? – questionou Edward, as sobrancelhas erguidas. – Não sei a que altura meu eu verdadeiro está na escala social, McCarty, mas este aqui ficará encantado de jantar com o senhor... e também com as quatro damas da noite.
Ficaria feliz com a companhia, pensou Edward, enquanto Emmett o ajudava a vestir o paletó e lhe penteava os cabelos. Ele próprio ajeitou a gravata com certo talento. Então, suas mãos se detiveram de repente ao lembrar que alguém ficaria horrorizado ao vê-lo naquele momento. Ele chegou até a se divertir com a ideia. O problema era que aquela sensação, por mais vívida que fosse, não vinha acompanhada de um rosto ou de um nome. Quem ficaria horrorizado?
Por um instante, Edward achou que conseguiria arrancar um nome das profundezas da memória. Era como se uma cortina oscilasse diante do vazio de sua mente, ameaçando ser lançada para o lado a qualquer momento, fustigada pelo vento, revelando o que estava por trás. Mas a cortina se manteve teimosamente no lugar. Edward tentou recuperar ao menos alguma coisa. Era um homem ou uma mulher? Quem diabos era aquela pessoa que surgira de súbito num momento em que ele nem sequer tentava se lembrar de algo? Mas não adiantou.
– Mais dor, senhor? – perguntou o sargento.
– Não, nada.
A princípio, quando eles entraram na sala de jantar, Edward achou que Emmett havia se enganado e aquela era uma noite de trabalho. As damas estavam vestidas com toda a pompa, em seda e cetim, os seios perigosamente próximos de escapar do corpete, acima de espartilhos muito apertados, os penteados elaborados, cheios de cachos, os cabelos enfeitados com plumas, o aroma forte dos perfumes florais, os rostos muito maquiados. Ele se lembrou da primeira visão que tivera das mulheres. Inclinou-se na mesura mais profunda e gentil que suas muletas permitiram.
– Ainda estou convencido de que morri e fui para o céu.
Ele percebeu que o pequeno sinal preto em forma de coração que Rosalie costumava usar perto da boca fora colocado no lado esquerdo do decote. Elas haviam se vestido para ele, pensou Edward – porque iria participar do jantar. Sentiu vontade de rir, mas não quis se arriscar a ofendê-las. Gostava imensamente de todas, de verdade.
Isabella Swan estava vestida como na noite anterior, exceto pelos cabelos, penteados de forma mais simples, brilhando como puro chocolate nobre sob a luz do candelabro no meio da mesa. Ele provavelmente perdera a sanidade mental para ter acreditado que a jovem trabalhava naquele bordel. Agora que seus olhos haviam sido abertos, estava muito claro que ela era uma dama refinada e elegante. Edward ainda se sentia um tanto ressentido com ela – ou talvez consigo mesmo, por causa da própria estupidez.
Foi uma refeição estranha.
As mulheres não tinham criados, como Edward já havia percebido antes. Aparentemente, era Angela quem fazia a maior parte da comida. Por sorte, ela parecia ter um grande talento culinário. Mas todas as cinco ajudavam a servir, a trazer os pratos quentes para a mesa e a tirar a louça vazia. E a conversa era inteligente e animada. Elas falaram sobre Bruxelas, sobre como a cidade estivera apenas algumas semanas antes, transbordando com todos os eventos glamorosos da aristocracia, e como estava naquele momento, após a partida de quase todos os estrangeiros. Tagarelaram sobre a guerra e suas consequências, sobre as perspectivas de paz e prosperidade para a Europa agora que Napoleão voltara a ser preso. Pediram a opinião de Emmett a respeito da estratégia de batalha usada. Conversaram sobre Londres e seus teatros e galerias de arte.
Quieta durante toda a noite, Isabella Swan enfim falou na hora da sobremesa, olhando diretamente para Edward e enrubescendo:
– Acredito que vou conseguir pôr as mãos nas minhas joias, afinal.
– Vai me deixar escalar a hera, Bella? – perguntou Rosalie.
– O Sr. Smith vai a Chesbury comigo, passando-se por meu marido. Vamos conseguir a aprovação do meu tio para o nosso casamento e ele me entregará a minha herança. Então, poderei vender uma peça ou duas e iremos atrás do Sr. Crawley, se for o que desejarem. E o Sr. Smith partirá em busca de seu lar e de sua família.
Houve um alto clamor de quatro vozes animadas, todas tentando falar ao mesmo tempo. Victoria venceu a disputa:
– Passar por seu marido, meu amor? Por que ele não pode ser seu marido?
– Eu me cobrirei de luto profundo se ele fizer isso, Vic – reclamou Rosalie –, em solidariedade ao resto das mulheres do mundo. Fico bem de preto.
– Mas é uma ideia esplêndida – interveio Alice. – Não sei por que não pensamos nisso antes. Com certeza vai funcionar.
– Não pode ser um casamento de verdade – explicou Isabella. – O Sr. Smith ainda não sabe quem ele é. Além do mais, decidi que, se algum dia me casar, será por amor. Fui tola por me contentar com menos no caso do Sr. Crawley. Graças aos céus, percebi meu erro a tempo.
– Vai funcionar perfeitamente – opinou Angela, levando as mãos ao colo. – Bastará um olhar para você, Sr. Smith, e o barão irá correndo pegar as joias.
– Mas não acho que devemos dar como certo, Angie – argumentou Alice –, que o barão irá simpatizar com ele como nós. O Sr. Smith terá que usar seu charme de um modo diferente, mas acredito que vai conseguir. Há um brilho malandro em seus olhos que me diz que ele irá se divertir com a situação e se superar.
– E ele tem um ar que sugere berço de ouro, dinheiro e poder – comentou Rosalie. – Ah, acalme-se, coração meu! Acha que seu tio se deixaria enganar se eu me passasse por você, Bella, e fingisse ser a Sra. Smith?
– Nem por um momento, Rose – replicou Angela, rindo. – Mas pense em como essa situação é romântica. Aposto que o Sr. Smith e Isabella se apaixonarão e se casarão, vivendo felizes para sempre.
– Eu não ficaria nem um pouco surpreso – intrometeu-se Emmett –, se me perdoa por dar minha opinião quando ninguém a pediu, menina. E se o senhor me perdoa. Às vezes falo demais.
Edward sorriu para todos na mesa e viu que Isabella estava se sentindo desconfortável.
– Mas o próximo passo – continuou Victoria, colocando ordem de novo na conversa – é decidir o que o Sr. Smith vai contar. Precisamos inventar toda uma história de vida para não deixar nada ao acaso. Então ele terá que decorar seu papel, e Isabella, o dela.
Houve uma agitação geral, com todas dando sugestões, a maior parte delas completamente absurda, provocando muitas risadas. Edward deixou-as falar por algum tempo antes de levantar a mão e atrair a atenção.
– Com certeza não serei um limpador de chaminés que descobriu ser um príncipe ou um duque que é filho ilegítimo do rei com sua amante preferida, embora ambas sejam sugestões brilhantes e tentadoras. Talvez possa ser um baronete com uma propriedade no norte da Inglaterra. Mas seria melhor se eu e a Srta. Swan decidíssemos os detalhes entre nós dois e os apresentássemos a vocês, para que aprovassem.
– Srta. Swan?! – exclamou Angela. – Precisa chamá-la de Isabella agora, Sr. Smith. E ela deve chamá-lo de Jonathan... a menos que escolha se tornar Orlando, como sugeri um minuto atrás, já que é um nome muito mais romântico.
– Há uma garrafa de vinho na despensa – lembrou Alice. – Está no chão, embaixo da última prateleira, se quiser fazer o favor de pegá-la, Emmett. Estávamos guardando para uma ocasião especial, e acho que este é o caso. Temos um casamento falso a comemorar.
Enquanto eles faziam brindes e bebiam vinho apenas alguns minutos depois, como se celebrassem um casamento de verdade, Edward percebeu que Isabella estava muito quieta. Só que um esquema louco estava prestes a se tornar ainda mais ousado.
– Não pode aparecer na porta do barão sem um valete a seu serviço, senhor – disse Emmett a Edward quando pousou o copo na mesa. – Não sou o serviçal de melhor aparência em que já pousou os olhos, por conta do meu tamanho, do meu falar rude e da minha única experiência como soldado, mas sou melhor do que nada. Vou com vocês, senhor. Não precisa se preocupar em me pagar coisa alguma. Como lhe disse, tenho o bastante para pagar a minha própria passagem à Inglaterra e para as minhas necessidades por mais ou menos um mês. Isso me dará algo para fazer enquanto me recomponho, por assim dizer.
Edward olhou para ele com as sobrancelhas erguidas. Bom, na verdade o homem estava certo. Não daria uma impressão tão boa se aparecesse em Chesbury Park como marido de Isabella sem um valete. E a bagagem e o dinheiro? Tinha pouco mais do que as roupas que usava, para ser sincero. Subitamente, deu-se conta de que precisariam planejar aquele esquema com muito cuidado antes de saírem correndo para Wiltshire. Antes que ele pudesse dar qualquer resposta ao sargento, Victoria se manifestou:
– E Bella não deve chegar à casa do tio sem outra companhia que não a do Sr. Smith, mesmo se supostamente for casada com ele. Afinal, é um casamento recente e o barão deve acreditar que ela estava em Bruxelas na companhia de pessoas decentes. Eu serei essa companhia e irei com você, meu amor. Além do mais, já que o Sr. Smith e Isabella não são de fato casados, não seria certo viajarem juntos sem acompanhante, não é mesmo?
– Com esse cabelo, Vic, o barão Weston a veria como uma prostituta mesmo que fosse cego – comentou Alice.
– Posso tingi-lo. Eu o pintarei da minha cor natural, um elegante e respeitável castanho-avermelhado.
– Mas não podemos permitir que só você se divirta, Vic – interveio Rosalie. – Se vai tirar férias por uma semana ou duas, então não vejo por que todas nós não podemos fazer o mesmo. Gosto da ideia de ser camareira de uma dama. Tenho talento para penteados... é o que todas vocês dizem... e para escolher o que uma dama deve usar para tirar a melhor vantagem de seus dotes. Irei como sua camareira, Bella. Seria estranho se você não tivesse uma. E, com um pouco de sorte, descobrirei que o barão Weston emprega uma casa cheia de serviçais belos e altos e que tem um estábulo repleto de cavalariços belos e rudes, além de um parque lotado de jardineiros belos e bronzeados. Mas não precisa se preocupar com a possibilidade de eu desgraçá-la. Sei ser respeitável quando preciso.
Olhando ao redor da mesa, Edward se viu entre a diversão e o desespero. E se perguntou se Isabella estava se sentindo tão sem controle da situação quanto ele. O silêncio dela sugeria que sim.
– E quanto a nós? – quis saber Angela, parecendo ressentida. – O que Alice e eu devemos fazer enquanto vocês duas se divertem em Chesbury Park?
– Usar nossa imaginação, Angie, é isso o que faremos – respondeu Alice. Ela bateu as pestanas sobre os grandes olhos azuis e levou uma das mãos aos fios pretos, em um gesto coquete. – Damas e cavalheiros, conheçam a Sra. Mary Alice Streat, viúva respeitada e respeitável do falecido capitão Streat e amiga querida da Srta. Isabella Swan, que se casou recentemente na minha casa. E você, minha preciosa – acrescentou, sorrindo com graciosidade para Angela –, se não me engano, é a irmã querida do meu falecido marido, cujo próprio esposo, capitão Weber, está no momento a serviço em Paris.
– O que foi, Allie? – retrucou Angela, esvaziando seu copo de vinho. – Você teve dificuldade para reconhecer a própria cunhada? Mesmo que tenhamos saído juntas da Inglaterra e estejamos voltando juntas para lá?
– E estamos fazendo um breve desvio em nosso retorno para casa – completou Alice –, a fim de acompanhar uma jovem amiga, a recém-casada Lady Smith, a Chesbury Park.
– Agora estou terrivelmente arrependida por ter me condenado à cozinha – reclamou Rosalie. – Embora talvez não. Pelo menos terei todos aqueles serviçais, cavalariços e jardineiros só para mim, quando não estiver ocupada penteando Isabella. E também poderei fofocar com Emm.
Edward pigarreou e quatro conjuntos de plumas de cabelos menearam a cabeça enquanto as damas lhe voltavam a atenção.
– Mas precisamos lembrar que isso não é apenas uma travessura que estamos aprontando para nos divertir. Nossa principal preocupação precisa ser garantir que a Srta. Swan... que Isabella e eu causemos uma boa impressão no tio dela, para que ela consiga pôr logo as mãos no que seria dela de qualquer modo aos 25 anos.
Todas ficaram sérias e continuaram a encará-lo, ansiosas.
– Mas também será uma travessura – replicou Rosalie depois de uma breve pausa.
Todas voltaram a tagarelar.
– Teremos que aguardar ao menos uma semana ou mais antes de partir – disse Rosalie, enfim se manifestando. – Precisamos esperar até que o Sr. Smith recupere mais as forças e Emmett esteja livre de suas ataduras.
– Para você ele agora é Jonathan, Bella – lembrou Angela. – Vai ter que começar a chamá-lo de Jonathan. Ou de Orlando. Não acham que ele tem jeito de Orlando?
– Eu tenho um tapa-olho – falou o sargento. – Ainda não o estou usando porque os hematomas não desapareceram completamente. Não quero assustar vocês, damas.
– Não precisam esperar por minha causa – assegurou Edward. – Podemos muito bem começar essa farsa o mais rápido possível.
Ele – um homem sem dinheiro, sem posses, sem identidade – estava fadado a viajar para a Inglaterra com uma jovem esposa de mentira, cercado por um séquito composto por um valete ex-militar com aparência de pirata e quatro prostitutas exuberantes se passando por serviçais e damas. E partiriam com a missão de enganar um homem absolutamente respeitável para conseguir tirar dele uma fortuna em joias. E tudo aquilo começara com a sugestão impulsiva dele no jardim, naquela tarde.
– O senhor ainda sente dor e está terrivelmente cansado – disse Isabella de repente. – Acredito que tenha exaurido suas forças hoje. Deve ter mais cuidado amanhã.
Ela estava certa, é claro. Edward vinha ignorando os sintomas havia algum tempo, mas mal conseguia se sentar ereto. A perna latejava sem cessar. E uma dor de cabeça o maltratava em algum lugar atrás dos olhos.
– Venha, vou levá-lo para o seu quarto.
Edward voltou a erguer as sobrancelhas. Levá-lo para lá? Por acaso era inválido? Mas ele não discutiu.
– Sim, vá com ele, Bella – concordou Rosalie. – E certifique-se de que ele esteja aquecido para a noite. Só não se enfie na cama com ele, seja uma boa moça, vocês só são casados de mentira.
– Ah, mas eu adoro um pouco de romance... – disse Alice com um suspiro. – Mesmo sendo de mentira.
– Há uma questão sobre mentiras – comentou Edward com Isabella quando os dois já não podiam mais ser ouvidos pelas outras. – Elas crescem como uma bola de neve assim que surgem. Está preocupada com o que acaba de ouvir?
– Estou preocupada com tudo que venho ouvindo desde esta tarde – retrucou ela, fechando a porta do quarto, mas sem trancá-la. – Porém, não vou impedir a situação. O senhor vai me ajudar a deixá-las felizes e elas precisam de um descanso desse tipo de vida que vêm levando nos últimos anos. Apesar das aparências, na verdade as quatro não são criaturas vulgares. São minhas amigas, Sr. Smith. E, mesmo se forem desmascaradas, mesmo se o senhor for desmascarado, e daí? Não estarei pior do que agora, não é mesmo? Meu tio não poderá mais negar minha herança depois do meu aniversário de 25 anos.
– É melhor seguirmos o conselho delas: eu e você devemos nos chamar de Jonathan e Isabella daqui em diante. Lembre que estamos perdidamente apaixonados e não somos o tipo de casal que se dirige um ao outro com uma formalidade distante.
Ela o encarou com a testa franzida.
– Muito bem, então. Mas uma coisa deve ficar clara desde o princípio, senhor... Jonathan. O que aconteceu na noite passada não vai se repetir, nem haverá flertes... de ambas as partes. Você talvez já seja casado e, mesmo que não seja, não iria querer se ver amarrado a uma esposa antes mesmo de se lembrar de sua vida normal. E não estou em busca de um marido. Achei que estava quando conheci o Sr. Crawley, mas, desde que me livrei dele, percebi que minha independência é importante demais para que abra mão dela facilmente.
– Além de tudo isso – acrescentou Edward, para não ficar para trás com o orgulho ferido –, nós dois fomos uma decepção um para o outro na noite passada.
– S-sim.
Ela teve a graciosidade de corar.
– Então não haverá envolvimento em particular, apesar da exibição pública de afeto e gentileza – confirmou ele, vendo-a desviar os olhos.
Ele se sentou na cama e apoiou as muletas na cabeceira. Isabella fez menção de ajudá-lo, mas Edward ergueu a mão para detê-la.
– Isabella, não há mais necessidade de estar disponível o tempo todo para mim. Na verdade, eu me sentiria muito mais feliz se você mantivesse uma distância permanente de mim daqui em diante.
A cor desapareceu do rosto dela.
– Muito bem, então – disse ela, com tom levemente magoado, mas mantendo a expressão de indiferença. – Chamarei o sargento Emmett.
Ela saiu do quarto sem falar mais nem uma palavra. Edward suspeitava que, longe de ser uma prostituta, a jovem era bastante inocente. Ela nem sequer o compreendera, achando que ele não conseguiria suportar seu toque. Estava certa, é claro, mas não pela razão que provavelmente imaginava.
Ele talvez ainda estivesse aborrecido com Isabella e tivesse deixado o bom senso de lado naquele dia – na verdade, não havia talvez quanto a isso –, mas ainda não estava morto. E ela ainda era a criatura mais linda, mais atraente que ele se lembrava de já ter visto. Agora que era tarde demais, ocorreu a Edward que inventar um plano que o manteria perto de Isabella, muito perto, talvez tivesse sido a coisa mais estúpida que ele já fizera. E isso com certeza não era pouco! Quem teria imaginado que cair de um cavalo poderia provocar tanto caos na vida de uma pessoa?
Edward estava tentando levantar a perna para cima da cama quando McCarty chegou para ajudá-lo.
– Fez a coisa certa, se permite que eu dê minha opinião sem tê-la solicitado – disse o sargento, despindo o paletó de Edward e colocando as pernas dele na cama.
– Obrigado, Emmett. Como desconfio que você esteja acostumado a opinar, não precisa se desculpar toda vez que fizer isso.
– Obrigado. Essa atadura está um pouco frouxa. Posso apertá-la?
– Por favor. Mas você entende, não é, que meu casamento com a Srta. Swan é inteiramente fictício?
– Entendo que o senhor tomou para si o papel de marido e protetor da dama, seja de verdade ou não. E como é um cavalheiro, que não corta ligações como essa a menos que a dama o faça, não é de todo fictício. O senhor fez o correto e digno depois que ela teve aquela dor de cabeça aqui na noite passada e teve que tirar os grampos. O próximo passo agora caberá à dama, não é mesmo? Quero dizer, decidir que seja de verdade ou não, quando sua memória voltar e o senhor descobrir se já não é casado.
– Obrigado, sargento – agradeceu Edward brevemente.
Emmett retirou a atadura e já se preparava para voltar a colocá-la mais firme quando, o desmemoriado percebeu que o ferimento estava se curando muito bem, apesar de certo inchaço e da dor causada pelo procedimento.
– Eu precisava mesmo dessa chamada de atenção sobre as minhas obrigações como um cavalheiro.
– Não, não precisava, senhor – retrucou McCarty. – Eu falo demais. Sem inflamação nesse ferimento, não é mesmo? O senhor estará novo em folha em mais uma semana ou duas, embora eu acredite que há mais para curar do lado de dentro do que do lado de fora.
Edward olhou pensativo para o sargento enquanto o homem se endireitava.
– Você estaria disposto a me emprestar metade do dinheiro que tem?
Emmett ficou em posição de sentido e falou sem hesitar:
– Venho tentando pensar em um modo de lhe oferecer parte do dinheiro sem ofendê-lo, senhor, embora não seja muito. Um cavalheiro precisa ter fundos, não é? Não seria certo que ele esperasse que as damas abrissem as bolsas a cada caneco de cerveja de que necessitar para matar a sede. Mas não seria um empréstimo. O senhor pode ficar com parte dele. Tenho o bastante.
– Mas será um empréstimo de qualquer modo – replicou Edward com firmeza. – E temporário, eu espero. O que você sabe de Bruxelas? Ficou baseado aqui antes da Batalha de Waterloo? Conhece algum lugar aonde um homem pode ir para jogar pesado? Além desta casa, quero dizer.
– Cartas? – O sargento estava ajudando Edward a despir o resto das roupas e logo o ajudou a vestir a camisola. – Conheço um ou dois lugares, senhor, embora não sejam finos como os que o senhor deveria frequentar.
– Não importa.
A hipótese de ser reconhecido se fosse a um lugar frequentado pelas altas classes, embora fosse atraente de certo modo, talvez só complicasse as coisas, agora que ele concordara em ir para a Inglaterra com Isabella Swan.
– Apenas me indique um que você conhece.
– Vai jogar, senhor? Tem certeza de que se lembra de como jogar?
– Perda de memória é uma coisa estranha. Pelo menos a minha perda de memória é. Parece que me lembro de tudo, menos dos detalhes relacionados à minha identidade.
– E costumava ter sorte nas cartas, senhor?
– Não faço ideia, mas espero que sim. Caso contrário, em breve chegarão a Chesbury Park um cavalheiro empobrecido e sua esposa. E terei uma dívida tão constrangedora com você quanto com as damas daqui.
– Mas o senhor tem tido sorte no amor – disse o sargento, animado, aparentemente determinado a acreditar que o casamento se destinava a ser uma união verdadeira por amor. – Vamos encarar isso como um bom presságio. Vou descobrir o melhor estabelecimento para o senhor jogar. As coisas podem ter mudado um pouco desde a batalha. Até irei com o senhor, se me permitir. Para ficar de olho, quer dizer, no caso de alguém tentar alguma grosseria, embora não acredite que isso vá acontecer. E para tentar minha sorte também.
No escuro e já sozinho, tentou arrancar uma única lembrança de trás daquela cortina pesada que nublava sua mente. Apenas uma... e então todas voltariam de uma vez, ele estava certo. Porém, como não tinha lembranças com que se distrair enquanto esperava o sono, a mente de Edward deslizou de volta para as últimas horas. Logo estava rindo baixinho de si mesmo.
É, melhor melhor não seria a palavra, mas estou... melhor kkkkkk Obrigada!
