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CAPÍTULO X
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Isabella duvidava que fosse reconhecer o tio quando enfim o reencontrasse. Não o via desde que tinha 6 anos. Na época, ele parecera alto, grande e sólido como uma rocha, além de confiável e bem-humorado. Mas essas lembranças logo haviam azedado.
A carruagem passou por um sulco na estrada e lançou para o alto um jato de lama, embora a chuva tivesse parado fazia uma hora. Nesse momento, o joelho dela tocou o de Jonathan, que estava sentado à frente, com um espaço estreito entre os assentos. Por sorte, era o joelho da perna boa, embora a outra viesse se curando rapidamente durante as duas semanas e meia desde que ele começara a usar muletas. Jonathan agora conseguia apoiar um pouco do peso sobre a perna, mesmo que ainda utilizasse uma bengala robusta quando caminhava.
Bella afastou a perna às pressas e seus olhos encontraram os dele antes de se desviarem, fingindo interesse pela paisagem. Ambos tinham cumprido o acordo: mal haviam se tocado, mal haviam ficado juntos a sós, mal haviam trocado uma palavra em particular. Dessa forma, longe de estar mais confortável na presença de Jonathan, ela sentia exatamente o oposto. Continuava sem acreditar nos eventos daquela noite fatídica. Só podia ter sido um sonho. Mas logo surgiam em sua mente imagens vívidas e chocantes de si mesma, dele, deles, e sentia vontade de pular no lago mais próximo para se esconder e apagar o rubor. Também não ajudava em nada o fato de, a cada dia, Jonathan estar mais forte, mais saudável, mais bonito, mais másculo e mais... ah, mais tudo.
Nem em um milhão de anos, pensou Bella, segurando a tira de couro acima do ombro enquanto a carruagem sacudia mais uma vez ao passar por outra depressão na estrada, poderia ter previsto que sua vida tomaria aquele rumo. Era simplesmente bizarro demais. O sobressalto da carruagem fez Victoria acordar de um cochilo. Ela se sentou e ajeitou a touca.
– Quase adormeci.
– Gosto mesmo da sua aparência, Victoria – elogiou Bella.
– É porque estou parecendo uma matrona sisuda, meu amor – retrucou ela, com uma expressão sofrida.
– É porque você se parece novamente com a minha querida ama – explicou Bella, apertando o braço da outra.
Alice, Angela e Rosalie seguiam na carruagem atrás deles, com o sargento Emmett.
Todas as quatro damas haviam abandonado as plumas vistosas antes de saírem de Bruxelas e estavam vestidas com uma respeitabilidade quase cômica. Com o rosto brilhando de tão limpo e os cabelos de uma cor castanha uniforme demais, Victoria se assemelhava a sua versão mais antiga. A mulher também parecia mais jovem, embora provavelmente jamais fosse admitir isso para si mesma.
Jonathan também estava com uma aparência mais bem cuidada e elegante do que qualquer cavalheiro teria o direito de ter. Usava roupas novas e caras e tinha dinheiro. Bella não sabia onde o conseguira, embora não fosse necessário um grande esforço intelectual para imaginar como conseguira. Jonathan saíra umas duas vezes com Emmett e, na segunda vez, voltara com um baú novo, novas roupas, botas e uma bengala – e também com uma enorme quantidade de comida para a casa. Ele até pagara a própria passagem para a Inglaterra e as delas também, embora Bella tivesse toda a intenção de reembolsá-lo assim que estivesse de posse das joias e houvesse vendido algumas delas.
E também fora Jonathan que contratara as carruagens e cavalos, já na Inglaterra. Se ele havia sido um jogador em sua vida passada, obviamente não perdera o jeito. Devia ter ganhado uma boa soma. Se havia uma classe de cavalheiros que Isabella desprezava mais do que qualquer outra era a dos jogadores. O pai dela fora um. Era bom não estar apaixonada por Jonathan Smith e o casamento deles não ser verdadeiro. Jogadores não davam maridos responsáveis e comprometidos em prover a família – isso para dizer o mínimo. Existiam momentos de abundância, de extravagância eufórica, mas também semanas, meses e até mesmo anos de pobreza extrema, fugindo de credores.
Jonathan tinha mais outra fraqueza de caráter, é claro. Que outro cavalheiro teria imaginado e posto em prática uma farsa como aquela? E se entregado à farsa com tanto entusiasmo? Ele discutira os detalhes do plano por horas com Isabella e as amigas e sempre parecera estar se divertindo imensamente. Os olhos do homem já eram bonitos o bastante como eram, pensou, ressentida, sem o brilho travesso que os iluminava com frequência.
– Devemos chegar em breve – avisou ele.
Na última troca de cavalos, haviam garantido a eles que não seria necessário fazer outra. Por um momento, Isabella desejou estar em qualquer outro lugar da Terra que não fosse próximo a Chesbury Park. O estômago dela parecia ter a firme intenção de dar cambalhotas e experimentou alguns momentos de puro pânico. O que estava fazendo? Mas só iria pegar o que era dela, o que a mãe lhe deixara. De qualquer modo, era tarde demais para mudar o plano agora – porém, pela maneira como a encarava, Jonathan parecia temer que ela estivesse muito perto de fazer exatamente isso. Como aquele homem fazia apenas os olhos sorrirem, mantendo imutável o resto do rosto? Ele devia saber quanto aquela expressão o tornava atraente.
– A área rural da Inglaterra lhe parece familiar? – perguntou ela.
– É a Inglaterra – disse ele, dando de ombros. – Não me esqueci do país, Isabella, apenas do meu lugar nele.
Só que ela mal ouviu a resposta. A carruagem estava passando por altos portões de ferro fundido e Bella percebeu que haviam chegado a Chesbury Park. Um caminho de cascalho além dos portões seguia através de uma floresta de antigos carvalhos e nogueiras. Achou tudo tão grande e imponente... A consciência da audácia do que estavam prestes a fazer voltou a atingi-la. Então, aos poucos, surgiram fragmentos de uma majestosa mansão de pedra cinza, mais grandiosa do que qualquer coisa que ela imaginara.
Fora ali que a mãe dela crescera? Podia ver, acima da casa, além do bosque, gramados espaçosos com árvores aqui e ali e um grande lago com o estábulo ao lado. E também um jardim em estilo parterre, com seus canteiros delimitados por sebes ou muretas em disposição simétrica se estendendo à frente da mansão. Quando a carruagem fazia uma curva mais fechada diante do estábulo e se aproximava do terraço que separava a casa do jardim, Bella subitamente pensou que talvez o tio não estivesse em casa. Que balde de água fria aquilo seria nas expectativas de todos! Ela quase torceu para que isso acontecesse, mas logo percebeu que, sendo assim, eles se veriam no meio de Wiltshire, praticamente sem um centavo e sem um plano.
Jonathan se inclinou para a frente no assento e pousou a mão no joelho dela.
– Fique firme. Vai dar tudo certo.
A carruagem parou aos pés de largos degraus de pedra que levavam às portas duplas de entrada da casa. Elas estavam fechadas e ninguém veio correndo até o lado de fora para investigar a chegada de duas carruagens de viagem estranhas. Nenhum cavalariço saiu apressado do estábulo. O cocheiro desceu, abriu a porta e posicionou os degraus do veículo para que descessem. O ar cálido e fresco do verão invadiu o interior abafado. Jonathan desceu com cuidado, apoiou-se na bengala e estendeu a mão para ajudar Bella.
Ela viu que os demais saltavam da outra carruagem.
Rosalie e Emmett se mantiveram mais para trás, ao lado do veículo. Apesar do vestido cinza, simples, da capa e da volumosa touca, Rosalie ainda parecia uma atriz grega voluptuosa, além do tipo de serviçal que causaria inveja às empregadas da casa e disputas a soco entre os empregados. Emmett tinha um tapa-olho preto, os hematomas agora apenas manchas amarelo-acinzentadas no rosto, e realmente se assemelhava a um pirata feroz, como previra Rosalie.
As outras duas mulheres se adiantaram pelo terraço enquanto Jonathan ajudava Victoria a descer. Angela parecia uma jovem matrona satisfeita consigo mesma que nunca na vida tivera um único pensamento malicioso. Alice colocara os cabelos sob a elegante touca preta e mantinha as formas bem feitas cobertas por um vestido preto decente. Ela parecia frágil, bela e respeitável como a esposa de um vigário.
– Ainda acho estranho não precisar estreitar os olhos quando me viro para o seu cabelo, Vic – comentou Angela.
– Belisque as bochechas, Bella – aconselhou Alice . – Está mais pálida do que um fantasma.
Jonathan fez com que Bella se sobressaltasse novamente ao lhe dar o braço. Ele sorriu, com os olhos cálidos e uma expressão de adoração.
– Vamos começar o jogo – murmurou.
– Sim. – Ela lhe deu um sorriso encantador.
Jonathan guiou-a pelos degraus e bateu em uma das portas com o punho da bengala. Um minuto inteiro se passou – ou, ao menos, foi o que pareceu – antes que um criado idoso atendesse a porta. Ele olhou para cada um deles como se tivessem duas cabeças.
– Sra. Streat, Sra. Weber, Srta. Clover, Sir Jonathan e Lady Smith, antiga Srta. Isabella Swan, esperam falar com o barão Weston – disse Jonathan bruscamente, estendendo um cartão de visita para o criado. – O barão está em casa?
– Vou ver, senhor – retrucou o criado, mas se afastou para o lado a fim de deixá-los entrar.
Jonathan se lembrara até de encomendar cartões de visita. Fileiras de colunas altas estriadas se erguiam de um chão quadriculado, sustentando o piso do segundo andar. O teto era dourado, pintado com o que pareciam ser anjos e querubins. Bustos de mármore sobre pedestais de pedra os encaravam com olhos duros e vazios do alto de seus nichos nas paredes. Uma escada grande e larga, do lado oposto às portas, levava ao andar de cima, dividindo-se em um patamar de onde saíam dois lances curvos. Sobre ela, pairava um enorme candelabro.
O criado desapareceu escada acima.
Isabella sempre imaginara Chesbury Park como uma casa de bom tamanho, cercada por jardins também de bom tamanho. Não esperara encontrar uma mansão enorme ou um vasto parque – apesar do nome da propriedade. Pela primeira vez, compreendeu a dimensão do atrevimento da mãe ao insistir em se casar com o pai dela, apesar da oposição do irmão. Ela saíra daquele lugar para os cômodos escuros e apinhados que costumavam alugar em Londres.
– É enorme – sussurrou Alice.
Estavam todos olhando ao redor, impressionados, exceto Jonathan. A expressão em seu rosto era de interesse, mas ele parecia totalmente à vontade. Isso significava que estava acostumado com esse tipo de ambiente? Depois do que pareceu uma eternidade, o criado voltou e os convidou a acompanhá-lo. O homem os conduziu pelo lance à esquerda até o segundo andar. Lá, corredores largos levavam em ambas as direções, mas os sete não seguiram por nenhum deles. Em vez disso, foram instados a passar por altas portas duplas que davam em uma sala de visitas bem à frente.
Nas paredes forradas de brocado cor de vinho estavam pendurados quadros com retratos e paisagens em molduras douradas e pesadas, o teto era coberto por muitas cenas da mitologia clássica e as longas janelas tinham pesadas cortinas de um rico veludo. Um tapete persa cobria a maior parte do chão e a mobília dourada e pesada estava arrumada em grupos para permitir a conversa. O principal ficava diante da lareira alta, entalhada em mármore, com o consolo acima.
Havia um cavalheiro parado diante da lareira, de costas para eles. Não era muito idoso, embora parecesse ser à primeira vista. Era magro e grisalho – até mesmo seu corpo parecia cinzento – e estava de ombros caídos. Porém, mesmo se tivesse boa postura, não teria mais do que uma altura mediana. Bella não via o tio fazia dezesseis anos e o examinou intensamente agora. Era muito diferente do homem de que se lembrava. Seria mesmo ele? O homem a encarou com olhos intensos sob as sobrancelhas densas e grisalhas.
Bella se adiantou na direção dele, à frente dos outros, e inclinou o corpo em uma profunda mesura. E enfim o reconheceu. Lembrava-se daqueles olhos, que sempre a haviam encarado diretamente, mesmo quando tantos adultos não enxergavam de fato as crianças.
– Tio Carlisle?
Ela se perguntou se deveria cruzar a distância que ainda os separava e beijá-lo no rosto, mas hesitou por um momento longo demais, e então já era impossível fazê-lo. Além do mais, o tio era um estranho para ela, mesmo que fosse seu único parente conhecido.
– Isabella? – O tio manteve as mãos atrás das costas enquanto inclinava a cabeça com cortesia, mas de modo impessoal. – Você se parece com a sua mãe. Então se casou, não é?
– Sim. Há apenas uma semana, em Bruxelas, para onde fui antes da Batalha de Waterloo. – Bella virou a cabeça e sorriu calorosamente quando Jonathan apareceu ao seu lado. – Permita-me apresentar Sir Jonathan Smith. Jonathan, esse é o barão Weston.
Os dois trocaram mesuras.
– Eu estava morando com amigas queridas em Bruxelas antes do casamento – continuou ela – e, como elas também voltavam à Inglaterra esta semana, foram gentis o bastante para nos acompanhar até aqui. Permita-me apresentá-las. Sra. Streat, Sra. Weber, cunhada dela, e Srta. Clover, que fez a gentileza de ser minha acompanhante depois que deixei de trabalhar para Lady Mallory.
Cortesias e mesuras foram trocadas.
– Angela e eu realmente fizemos questão de acompanhar nossa jovem amiga até a sua porta antes de seguirmos nosso caminho – explicou Alice –, embora, é claro, não fosse necessário, já que ela agora está casada com Sir Jonathan e tem a querida Victoria para lhe fazer companhia, mas somos muito apegadas a ela.
De algum modo, Alice conseguiu parecer ao mesmo tempo muito viva e exausta, como se ir até ali houvesse sido uma grande provação e um nobre sacrifício.
– Asseguramos à querida Isabella que o barão Weston ficaria aborrecido conosco se a abandonássemos assim que chegássemos às terras inglesas – acrescentou Angela com um sorriso gracioso, como uma rainha fazendo uma concessão a um súdito.
– Sentem-se, senhoras – disse Carlisle. – E você também, Smith. A bandeja de chá chegará a qualquer momento. Quartos serão preparados para todos vocês. Está fora de questão que continuem viagem antes que estejam totalmente descansadas.
– Que gentileza extraordinária da sua parte, milorde – comentou Alice. – Não sou uma grande viajante e confesso que de fato estou exausta depois de alguns dias de viagem.
Bella se sentou em um sofá pequeno e Jonathan se acomodou ao seu lado. Os dois se entreolharam, uma leve aflição na expressão dela, a sombra de um riso na dele, embora houvesse feito muito bem até ali o papel de cavalheiro respeitável. Ela torceu para que Alice e Angela não falassem demais.
Isabella logo voltou a atenção para o tio e o examinou, perturbada. Aquele era o homem alto, robusto e risonho das lembranças de sua infância? Mesmo levando em consideração que ela era muito nova na época e que o vira da perspectiva de uma criança, ele sem dúvida mudara consideravelmente em dezesseis anos. Parecia doente. Não, não havia dúvida sobre isso: o homem estava esquelético e com uma aparência exaurida. Ela imaginara que chegaria ali para ludibriar um homem robusto, arrogante e obstinado – para lutar contra alguém que justificaria o logro e o desafio. E agora se ressentia de sua fragilidade. Isso chegava até a assustá-la um pouco.
Até onde Bella sabia, o tio era o único parente vivo dela, a única pessoa que a impedia de ser completamente sozinha no mundo. Parecia uma preocupação absurda, já que os únicos contatos que tivera com o homem em 22 anos haviam sido aqueles poucos dias, quando estava com apenas 6 anos, e as duas cartas desde então, negando-lhe o que ela pedira.
Mas, ainda assim, estava perturbada.
Edward sentia-se feliz por estar na Inglaterra. Dava-lhe uma sensação de lar, embora não tivesse ideia de a que parte específica do país pertencia. Também estava confortável no ambiente atual, embora não lhe parecesse familiar. E não acreditava já ter se encontrado com lorde Weston, embora houvesse se perguntado se o barão o reconheceria. A situação se complicaria bastante se isso tivesse acontecido.
Weston não era exatamente como Edward esperara – um tirano rude e sem cerimônia. Mas inválidos podiam ser petulantes e bem desagradáveis, e Weston com certeza era um inválido. Fosse como fosse, sentia-se empolgado com o desafio, agora que estavam colocando a farsa em prática. As últimas duas semanas haviam parecido intermináveis enquanto esperava que sua perna se curasse o suficiente para que pudesse viajar. Contudo, percebeu que Isabella parecia desconfortável e era compreensível. O homem era tio dela, seu único parente.
Edward pegou a mão dela, pousou-a sobre a manga de seu paletó e ficou segurando-a. Alice estava comentando sobre a beleza da casa e que a fazia lembrar da casa do cunhado, em Derbyshire – da casa do irmão de Angela, ela deve ter se dado conta de repente.
– Não concorda, Angela? – perguntou, sorrindo graciosamente.
– Estava pensando a mesma coisa, Alice.
– Como o senhor está, tio Carlisle? – perguntou Bella, inclinando-se ligeiramente para a frente.
– Muito bem – respondeu ele, largando-se sobre uma cadeira perto da lareira, porém Edward achava que o homem mais parecia com o pé na cova. – Uma situação bastante súbita, não é mesmo, Isabella? Você foi a Bruxelas para ser dama de companhia de Lady Mallory. Já conhecia Smith naquela época?
– Sim – garantiu ela. Aquilo tudo era parte da história que haviam inventado, é claro. – Nós nos conhecemos em Londres no ano passado, pouco depois da morte de papai. Voltamos a nos encontrar em Bruxelas e Jonathan começou a me cortejar seriamente. Quando Lady Mallory decidiu voltar à Inglaterra antes da Batalha de Waterloo, Victoria me chamou para morar com ela e com essas damas, suas amigas.
– Victoria é uma amiga muito querida – explicou Alice, só para o caso de Weston não ter compreendido bem que aquela era uma relação particularmente especial.
– E foi minha ama por seis anos depois que mamãe morreu – completou Bella. – Fiquei encantada por reencontrá-la em Bruxelas e aceitei com satisfação o convite, ainda mais quando foi gentilmente reiterado por Alice e Angela... Então Jonathan me convenceu a me casar com ele antes de voltarmos para casa.
Weston ficou olhando pensativo para Edward, mas, antes que pudesse fazer qualquer comentário, o chá chegou. Angela se acomodou atrás da bandeja e, sem cerimônia, começou a servir a bebida e passar as xícaras.
– Todas concordamos, milorde – disse Victoria a Weston –, que eu deveria acompanhar Lady Smith até aqui, já que ela se casou muito recentemente. Então Alice e Angela não conseguiram resistir a vir também.
Edward ainda achava divertido olhar para Victoria e ver uma mulher mais jovem, de aparência agradável e respeitável, que por acaso acabara de falar com a mesma voz da Victoria Clover que ele conhecera em Bruxelas. Nesse meio-tempo, Weston voltou a fixar o olhar em Edward.
– E você, Smith? Quem viria a ser exatamente? Smith é um nome bastante comum. Há alguns de boa linhagem em Gloucestershire. Você é um deles?
– Duvido muito, senhor. Sou de Northumberland e a maior parte da minha família vive ali há gerações.
Northumberland era o mais distante ao norte em que haviam conseguido colocá-lo sem chegar à Escócia. Edward continuou a falar, explicando como, dois anos antes, herdara do pai uma propriedade próspera e de bom tamanho – mas nem tão grande assim, ou tão próspera, ao contrário do desejo de Rosalie e Angela, que queriam apresentá-lo como um rei Midas dono de uma imensa fortuna. Apoiado por Bella, Edward ressaltara que deveria parecer um cavalheiro que o barão Weston aprovaria, mas não alguém que ele pudesse conhecer, mesmo que em um lugar remoto como Northumberland.
Edward seguiu dizendo que fora a Bruxelas porque o primo estava servindo ali com seu regimento.
– E lá reencontrei Isabella – disse, sorrindo com carinho para ela e segurando-lhe os dedos da mão, que ainda descansava sobre a manga do seu paletó. – Não a havia esquecido. Como poderia? E me apaixonei perdidamente assim que pousei os olhos nela de novo.
Foi interessante ver Isabella enrubescer e morder o lábio inferior.
– Nunca nada me tocou tanto na vida quanto a doçura do romance que floresceu diante dos nossos olhos, milorde... Sir Jonathan me faz lembrar muito meu querido e finado marido, o coronel Streat – falou Alice, e um lencinho se materializou em suas mãos. – Ele teve a morte de um herói na Guerra Peninsular, dois anos atrás.
Streat fora promovido a alturas vertiginosas, pensou Edward. Começara como capitão umas duas semanas antes, não fora? Ele torceu para que as damas não planejassem ser muito prolíficas em suas mentiras, a não ser que tivessem memórias muito boas. O barão pousou a xícara vazia e o pires.
– Devo confessar que estou desapontado – manifestou-se o barão – por Isabella ter se casado sem me procurar primeiro. Estou ciente de que ela é maior de idade e que, há mais de um ano, já poderia se casar com quem escolhesse. Sem dúvida não precisava da minha permissão. Mas eu teria gostado se ela houvesse pedido a minha bênção e, assim, realizasse o casamento aqui em Chesbury. Só que não fui consultado.
E assim, pensou Edward, ele começava em desvantagem. Estava sendo visto como um homem cujas paixões o haviam levado a uma indiscrição. Não levara Isabella até a casa na Inglaterra para se casar, não a levara a Northumberland para apresentá-la à família dele e não a levara ali a Chesbury Park para receber a bênção do tio. Qualquer pessoa em sã consciência se perguntaria por que ele não fizera nenhuma dessas coisas. Por outro lado, Weston nunca mostrara qualquer interesse real na sobrinha. A preocupação que demonstrava agora era hipócrita, para dizer o mínimo.
– Sir Jonathan é incrivelmente romântico e impulsivo – interveio Angela, com as mãos entrelaçadas no colo. – Nada o convenceria do contrário, milorde. Foi preciso realizar a cerimônia nupcial em Bruxelas, para que pudesse trazer Isabella para casa com ele como sua esposa. Meu querido coronel Weber é do mesmo jeito.
– O coronel Streat também era assim – acrescentou Alice. – Ele insistiu que eu seguisse o regimento até a Península com ele por longos períodos.
Ah, outro coronel. Alice não acabara de dizer que não estava acostumada a viajar?
– E agora você vem aqui – continuou Weston, a atenção ainda em Edward e Isabella. – Acho que não é difícil imaginar por quê.
Isabella olhava com firmeza para o tio, o queixo erguido.
– Eu me casei com um cavalheiro que o senhor não pode de forma alguma desaprovar, mesmo que acredite que o enlace de fato se deu com pressa desnecessária, mas por que eu teria vindo aqui para me casar? O senhor nunca demonstrou qualquer interesse por mim. Nunca quis me conhecer. Mesmo depois que meu pai morreu e o senhor me convidou para vir morar aqui, foi apenas para que pudesse me casar o mais rápido possível e se ver livre de mim. Ora, eu mesma cuidei disso. Vim para buscar as minhas joias, a herança que minha mãe me deixou. O senhor não tem argumentos para se recusar a me entregá-las desta vez.
Suas palavras agressivas e os modos hostis não foram um movimento inteligente e não faziam parte de qualquer plano, mas Edward a admirava por não se deixar subjugar pelo tio. Ao menos Isabella decidira ser honesta sobre seus sentimentos, mesmo se todo o resto fosse mentira. Edward apertou a mão dela com mais força.
– Não estou ciente de que preciso ter qualquer argumento, Isabella – retrucou o barão.
Ela respirou fundo, mas Edward deu um tapinha carinhoso em sua mão e falou primeiro:
– Sua precaução em relação à sobrinha e suas reservas a meu respeito são compreensíveis, até mesmo louváveis, senhor. Não esperaria que ficasse encantado ao saber de um fato consumado, sem aviso, e em seguida receber a exigência de entregar as joias confiadas a seu cuidado e julgamento pela falecida Sra. Swan. Tudo que peço, senhor, é que me dê um pouco de tempo para lhe provar que sou de fato merecedor da mão de sua sobrinha, que ela me escolheu com a cabeça e o coração, que não sou um caçador de fortunas, que nenhum de nós irá desperdiçar a herança. Permita que fiquemos aqui pelo tempo que o senhor achar adequado para um teste. É claro que estou ansioso para levar minha esposa para casa, mas farei o que a deixar feliz. E ganhar a sua confiança a deixará feliz.
O problema de interpretar um papel era que a pessoa se tornava rapidamente imersa nele. Apesar de Edward falar com convicção, quase todas as palavras eram mentira. A única verdade era que desejava ver Isabella feliz.
– Muito bem. – Carlisle assentiu depois de observar Edward, pensativo, por um longo instante, bem enervante por sinal. – Veremos como me sinto após um mês, Smith. Bom, estou negligenciando meus outros hóspedes. Por quanto tempo esteve na Península com seu marido, madame? – perguntou a Alice.
Um mês?
Alice se dedicou a uma ousada e colorida descrição de seus anos no lugar enquanto Edward observava o barão mais detidamente. Ficara claro desde o princípio que o homem estava doente. Porém, sua pele parecia ter empalidecido mais nos minutos anteriores. Seria o efeito de ter cinco hóspedes inesperados? Ou a emoção de rever Isabella e sentir a hostilidade da sobrinha? Ou alguma outra coisa?
Edward voltou o olhar para Isabella. Vendo que ela também estava muito pálida, sorriu e piscou. Bem ou mal, era o marido devotado da jovem pelo mês seguinte. Diabos, tinha contado que alguns poucos dias bastariam. Ou no máximo uma semana, mas agora não havia o que fazer. Edward ergueu as mãos dadas dos dois e levou as costas da mão de Isabella aos lábios por um instante enquanto lhe sorria calorosamente, olhando-a nos olhos, ciente de que aquele gesto estava sendo visto pelas outras pessoas na sala. Na verdade, esperava que estivesse. Mal a tocara em duas semanas e meia e já percebera que fora muito inteligente em se manter distante dela. Isabella era linda e atraente demais para o bem da saúde mental dele. Era melhor que tivesse o cuidado de limitar essas demonstrações de afeição ao mínimo.
Meu Deus, um mês. Um mês inteiro. Mas não poderia culpar ninguém a não ser a si mesmo, certo?
Resolvi postar hoje como forma de desculpas pelos últimos dois atrasos. Até domingo!
