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CAPÍTULO XII
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Edward estava de pé à primeira luz da manhã. Tivera uma noite agitada, a princípio porque não havia nenhuma porta separando os quartos de ambos nem os dois pequenos cômodos entre eles. E Isabella estivera particularmente adorável durante a noite, no vestido verde-pálido, com os cabelos arrumados por Rosalie. Por algum motivo, irritou-se ao vê-la tão atraente, isso quando estava determinado a evitar qualquer envolvimento emocional. Porém, não era de surpreender, imaginou Edward, sobretudo porque a tivera para si uma vez – um evento encantador e perturbador que preferiria esquecer se ao menos fosse possível. Porém, não tinha muitas outras lembranças que pudessem ajudá-lo a bloquear aquilo.
Quando enfim conseguira cair no sono, seu descanso fora perturbado por sonhos confusos que pareciam vívidos até ele tentar se lembrar deles ao acordar. Alguns já eram conhecidos, com a carta e a mulher o esperando nos portões de Namur. Mas dessa vez houvera outro também – e tudo de que Edward conseguira se recordar em seus períodos de vigília era uma fonte jogando água a mais de 10 metros de altura de uma bacia de mármore que ficava no meio de um jardim circular. A água refletia a luz do sol, que transformava as gotas em arco-íris cintilantes. Por mais que tentasse, não pôde situar a fonte e o jardim em qualquer cenário mais amplo. A princípio, pensou que fosse parte de Chesbury, mas então se deu conta de que ali só havia um longo jardim parterre. Se aquela era uma cena relembrada, deduziu que a ida para o campo a houvesse provocado.
Que sonho estúpido e inútil, pensou enquanto seguia a caminho dos estábulos, usando a bengala, embora tentasse não se apoiar muito nela. Contudo, podia-se dizer o mesmo dos outros sonhos, ou fragmentos de memória, ou que diabos fosse aquilo. Ele estava adiantado, mas queria dar uma olhada nos cavalos antes de Isabella chegar, a fim de escolher as montarias adequadas para ambos. E o mais importante: desejava descobrir se teria condições de subir num cavalo. A perna esquerda ainda não voltara totalmente ao normal, e fora com relutância que Edward pedira a Emmett para acompanhá-lo.
Havia apenas um cavalariço de pé, que estava parado à porta de uma das baias, olhando distraidamente ao longe e se coçando, quando Edward e o sargento entraram no pátio pavimentado do estábulo. O rapaz os encarou e bocejou antes de sumir de vista dentro da baia.
– Há aqui o mesmo tipo de comportamento que vemos na cozinha – observou o sargento. – É como se não houvesse uma mão no comando, senhor.
De fato parecia que não havia ninguém no comando nos arredores dos estábulos, concordou Edward.
Os cavalos pareciam bem alimentados e tinham água, embora nenhum estivesse tão bem tratado assim, a não ser um garanhão negro de pelo sedoso que, mais tarde, ele descobriu pertencer ao capataz de Chesbury, o Sr. Drummond. O cheiro dos estábulos dava a impressão de que não eram devidamente limpos havia dias, pelo menos.
– Sele esses dois cavalos e leve-os para o pátio – Edward instruiu o cavalariço, que voltara à vista assim que se tornara óbvio que não iriam deixá-lo em paz, entregue aos devaneios e coceiras. – Este aqui com uma sela lateral.
– E que essas baias estejam limpas e cobertas de feno fresco quando eles voltarem – acrescentou Emmett.
– Recebo ordens do Sr. Laurent – retrucou o rapaz de forma atrevida.
Diante dos olhos surpresos do cavalariço, o valete de Edward subitamente se transformou no sargento que já fora.
– É mesmo, garoto? Se o Sr. Laurent ainda estiver dormindo por ter trabalhado muito duro ontem, você receberá ordens de quem quer que o mande fazer direito aquilo que é pago para fazer pelo barão. Pare de se preocupar com suas coceiras e fique em posição de sentido.
Surpreendentemente, foi o que o rapaz fez, como faria um soldado raso sob o olhar crítico de seu sargento.
– Anime-se, garoto – disse Emmett de forma mais amável –, e encontre as selas.
Edward riu, embora voltasse a ficar sério quase no mesmo instante. Provavelmente era a mão de comando de Weston que estava inativa. A doença do homem deixara o pessoal do estábulo relapso e, ao que parecia, também os empregados da cozinha, a julgar pela qualidade do jantar da noite anterior – uma refeição que Weston mal provara, percebera Edward. Era pouco provável que o barão sempre tivesse dirigido a propriedade com desleixo. O lugar não parecia negligenciado havia tanto tempo.
Montar no cavalo cinco minutos mais tarde provou ser tão difícil quanto Edward antecipara. Depois de algumas tentativas abortadas e de se recusar a permitir que o sargento o erguesse, Edward resolveu o problema subindo desajeitadamente pela lateral direita, logo só teve o trabalho de passar a perna esquerda por cima do cavalo. Felizmente, depois que já estava posicionado, a sensação na perna era quase confortável.
– Você se dá conta, McCarty – perguntou ele, pegando as rédeas –, de que esta deve ter sido a última coisa que eu fiz antes de cair na floresta de Soignés, bater com a cabeça e perder a memória?
– Mas é fácil ver que o senhor nasceu sobre uma sela – respondeu o sargento, afastando-se do cavalo, que empinou, andou para o lado e bufou nervoso, pois sem dúvida não era montado havia algum tempo.
Edward nem sequer percebera que o animal não estava imóvel e dócil. Era verdade, pensou, bastante animado: respondera ao cavalo e o controlara inconscientemente, como se tivesse acessado talentos antigos adquiridos durante a outra vida.
– Espere aqui, vou só dar uma volta ao redor do pátio.
A sensação de estar em cima de um cavalo era tão boa que Edward soube que fizera aquilo a vida toda. Ele guiou o animal por trás dos estábulos e atravessou a meio galope pelo amplo gramado ali, tentando se imaginar cavalgando com outras pessoas, disputando corridas, pulando cercas e sebes, caçando. Procurou se visualizar na batalha – à frente da cavalaria ou dirigindo o avanço da infantaria. Desejou recapturar aqueles momentos finais na floresta, quando a perna devia estar doendo como mil demônios, quando devia estar preocupado com a carta e a mulher à sua espera nos portões de Namur. Tentou adivinhar o que o levara a cair e bater a cabeça com força o bastante para fazer desaparecer tudo o que havia lá dentro.
Mas tudo que conseguira agora, pensou ao voltar para os estábulos, fora uma bela dor de cabeça.
Isabella estava lá, conversando com Emmett e olhando para o outro cavalo com óbvia apreensão. Ela usava um vestido azul prático, para andar de carruagem, e um chapéu audaciosamente inclinado para a frente sobre os cabelos castanhos penteados para cima. Estava parada em um quadrado de luz e, sem o chapéu, teria parecido o anjo de Edward.
Ele sentiu uma ponta de desconforto. O dia anterior não correra exatamente como imaginara. Edward tinha uma terrível suspeita de que Weston não era o monstro frio que Isabella descrevera e ela não era indiferente ao tio como fingira ser – ou como talvez ela pensara ser.
– Bom dia.
Ele tirou o chapéu num cumprimento e meneou a cabeça para ela.
– Bom dia – respondeu Isabella.
Quando se aproximou com o cavalo, Edward pôde ver seus olhos arregalados e o rosto muito pálido.
– Ah, não, eu não vou conseguir. Realmente não vou conseguir. Não é nada bom. Se houvesse aprendido na infância, talvez fosse uma amazona de talento razoável a esta altura. Mas não posso começar a aprender aos 22 anos. De qualquer modo, está na hora de você descer daí antes que machuque de novo a perna.
Por mais que Edward achasse incrível Isabella nunca ter andado a cavalo, ele percebeu que não poderia simplesmente esperar que ela pulasse na sela do outro animal e saísse cavalgando ao nascer do sol. Talvez nem mesmo subisse sozinha naquele dia. Mas ela iria andar a cavalo, ah, se iria. Edward descobriu que podia ser muito teimoso.
– Você precisa ver a vida da perspectiva do lombo de um cavalo. Não há nada que se compare a isso. Você vai ficar empolgada.
– Acredito em você sem sentir a necessidade de experimentar. Agora vou voltar para a casa.
Edward guiou o cavalo para bloquear o caminho dela.
– Não até que você tenha me provado que não é covarde. Primeiro andará comigo, no meu cavalo. Estará segura. Apesar do que me aconteceu na Bélgica, não deixarei que caia. Prometo.
– Andar a cavalo com você?
Ela levantou a cabeça e os dois se encararam.
Ah, sim, Edward podia compreender o que ela estava pensando, embora Isabella não o colocasse em palavras.
Segurar-lhe as mãos contra o peito na noite anterior havia elevado a temperatura dele em alguns graus. Saber que Isabella estava dormindo em um quarto separado apenas por três batentes o mantivera acordado metade da noite. E agora ele a convidava para andarem juntos no mesmo cavalo? Mas Edward sabia que não se tratava só de um convite: era um desafio.
Ora, que fosse. Ele decidira que Isabella aprenderia a andar a cavalo e era isso que iria acontecer.
– Normalmente eu sugeriria que você colocasse seu pé sobre a minha bota esquerda para que eu pudesse erguê-la até aqui, mas no momento não sou capaz de uma demonstração como essa. Emmett, acha que poderia erguer Lady Smith até aqui?
Ela deixou escapar um som que parecia uma estranha combinação de um gritinho com um grasnido.
– Farei isso, senhor. Se me permite a liberdade, senhorita. Sr. Smith... Sir Jonathan, devo me lembrar de dizer, assim como deveria ter me lembrado de chamá-la de Lady Smith. Sir Jonathan a manterá em segurança quando já estiver em cima do cavalo. É fácil ver que ele nasceu sobre uma sela, como comentei agora há pouco. E acredito que a senhora vai gostar do passeio.
Como Emmett via Isabella como algo muito próximo de um anjo, era de duvidar que o homem teria agido contra os desejos expressos dela, mas felizmente – ou talvez infelizmente – ele agiu rápido e, enquanto Isabella ainda abria a boca para sem dúvida protestar, o sargento já a erguia com as mãos grandes espalmadas na cintura da jovem e a depositava no lombo do cavalo, diante da sela. Edward a enlaçou para firmá-la.
– Oh – fez Isabella. – Oh.
Ela se agarrou a ele, em pânico.
– Relaxe – disse Edward, segurando-a com mais firmeza. – Você só corre perigo se lutar comigo. Relaxe, meu amor.
Ele sorriu diante dos olhos arregalados de Isabella.
– Aí está, senhorita... Lady Smith – falou o sargento. – Não parece ter nascido sobre uma sela, mas nasceu para estar nos braços de Sir Jonathan.
O sargento se afastou, rindo da própria observação espirituosa, e desapareceu dentro do estábulo – provavelmente para ir atrás dos cavalariços e fazê-los trabalhar.
Isabella já estava menos tensa, mas ainda permanecia imóvel. Sem nem mexer a cabeça, continuava a olhar bem em frente.
– Você deve estar se imaginando sentada em uma sala de estar tentando escolher entre ler um livro ou fazer um bordado.
– Jamais o perdoarei por isso – retrucou ela, a voz rígida.
Edward riu e voltou a guiar o cavalo para fora do pátio do estábulo. Ele talvez nunca se perdoasse também. Sentia o calor do corpo de Rachel contra o seu e o aroma do perfume de gardênia.
Do ponto de vista de uma pessoa com os pés plantados na terra, um cavaleiro não parece muito distante do chão, mas quando você é o cavaleiro, ou pelo menos você está sentado diante do cavaleiro – o que dá no mesmo –, o chão parece assustadoramente distante.
Isabella estava bastante consciente do espaço vazio ao redor. Se o cavalo houvesse permanecido muito, muito quieto, ela talvez conseguisse se recompor depois de um instante, mas é claro que não era da natureza dele ficar parado. Assim, o animal começou a andar para o lado, a empinar e a resfolegar. Então, ele se moveu ainda mais: girou ao redor, batendo os cascos nas pedras do pavimento, e seguiu para fora do pátio do estábulo. Ela estava convencida de que, a qualquer momento, seria arremessada para a frente ou jogada para trás e que alguém precisaria recolher seus restos mortais. Ou talvez ela acordasse vários dias depois com um inchaço do tamanho de um ovo na lateral da cabeça e sem memória – não se lembraria nem mesmo daquilo, seu primeiro passeio a cavalo em dezesseis anos.
O peito de Jonathan parecia tranquilizadoramente sólido, pensou Bella, enxergando-o pela visão periférica a apenas poucos centímetros do seu braço esquerdo. Se quisesse, poderia se apoiar nele e sentir-se relativamente a salvo. Porém, recusou-se a mostrar tamanha fraqueza e se empertigou de propósito. Só então Bella percebeu que um dos braços de Jonathan estava passado ao redor da cintura dela. Mesmo que inclinasse o corpo para trás, não cairia. O outro braço dele segurava as rédeas, mas a tocava na frente da cintura também e parecia uma barreira sólida o bastante. Na verdade, ela podia sentir o calor do corpo dele e o perfume da colônia, do sabonete ou da espuma de barbear. E havia algo mais impedindo-a de cair: a coxa direita de Jonathan, ela se deu conta subitamente, comprimia o traseiro de Bella e a parte interna da coxa esquerda estava pressionada contra os joelhos dela. Era estranho como só notara a proximidade do homem muito depois de se preocupar com o animal e o perigo – embora não houvesse passado tanto tempo assim.
Eles ainda estavam saindo do pátio do estábulo e o cavalo mudou novamente de rumo, distanciando-se da frente da casa e margeando o lago até um amplo gramado nos fundos que se estendia até a fileira de árvores a distância.
– Isso é inútil – disse Bella. – Você nunca vai conseguir me transformar em uma amazona.
– Vou conseguir, sim. Decidi que você aprenderá a cavalgar e descobri que devo ser um homem bem obstinado, que impõe sua vontade aos que estão ao redor. Talvez fosse um camarada dos coronéis Leavey e Streat.
Ela não ousou virar a cabeça, mas sabia que ele sorria. Jonathan estava muito satisfeito consigo mesmo, assim como na véspera, sem nenhuma preocupação no mundo.
– Eu me arrisco a dizer que todos os seus homens o odiavam – comentou Isabella maldosamente.
Ele riu.
– Não se pode viver no campo e não saber andar a cavalo – insistiu Jonathan. – Seria o mais completo absurdo.
– Passei a minha vida toda em Londres, sem contar os últimos meses, e é para lá que vou depois que isto tiver terminado.
– O que planeja fazer lá?
– Vou arrumar outro trabalho. Ou, se conseguir minha herança, viverei do dinheiro da venda das minhas joias depois que devolver às minhas amigas o que perderam... O que você está fazendo?
O cavalo deu uma ligeira acelerada no passo.
– E acredita mesmo que me persuadirá a fazer isso sozinha algum dia? Apenas eu em cima do cavalo?
– Tinha a esperança de que isso acontecesse ainda hoje, mas fui otimista demais ao mandar que um cavalo fosse selado para você. Teremos que esperar até amanhã.
– O que você está fazendo? – perguntou ela mais uma vez.
– Passando a uma caminhada mais acelerada. – Ele riu. – Relaxe, Isabella, não vou disparar nem nada parecido. E não vou saltar sobre nenhum portão ou sebe. Apenas atravessaremos a trote este gramado e voltaremos, para que você possa sentir como é andar a cavalo. Não vou deixar que se machuque.
– A trote? – questionou Bella, com uma voz fúnebre.
De repente ela percebeu que o ar da manhã estava frio, refrescante. Já havia notado isso assim que colocara os pés para fora de casa, mas agora podia sentir o frescor contra o rosto. Logo que conseguiu reunir coragem para relaxar os músculos do pescoço e virar a cabeça, viu como era adorável o lago que se estendia de um dos lados do gramado, as águas paradas e verde-escuras por causa do reflexo das árvores na margem mais distante. A própria grama também era linda, embora não tivesse sido aparada recentemente. Avistou margaridas, botões-de-ouro e trevos por toda parte, fazendo com que o terreno parecesse mais uma pradaria. O cavalo perturbou diversos insetos ao passar, como as coloridas borboletas que sobrevoavam o tapete verde, branco e amarelo. Pássaros passavam acima das cabeças deles. Os cascos seguiam caminho com um som ritmado.
Isabella teve uma súbita lembrança de si mesma aos 6 anos, cavalgando diante do tio nas ruas de Londres, e uma vez no Hyde Park, quando ela acreditara que andar a cavalo com certeza era a coisa mais empolgante do mundo. A criança que já fora com certeza tinha razão, pensou ela no mesmo momento em que se deu conta de que estavam realmente trotando – ou talvez "meio galope" fosse a descrição mais apropriada. Ela se pegou rindo e virou a cabeça para compartilhar a euforia que sentia com Jonathan, que a encarou com olhos de um verde absolutamente escuro e nada sorridentes.
Bella não disse nada – seu estômago estava ocupado demais dando cambalhotas. Jonathan também se manteve em silêncio. Ela se voltou de novo para a frente, um tanto confusa, e olhou ao redor mais uma vez. Sua euforia não diminuíra, mas somara-se a ela uma consciência física aguda da presença de Jonathan Smith. Perguntou-se por um instante se teria coragem de fazer o que fizera com ele em Bruxelas se já o tivesse visto vestido e de pé, ou a cavalo, e percebido como era viril, cheio de energia, quando não estava acamado por causa dos ferimentos. Com certeza teria saído em disparada do quarto para não voltar nunca mais. Ou talvez não. Afinal, não se deitara com Jonathan porque ele estava enfraquecido e abatido, certo? Havia simplesmente enlouquecido, só isso. Uma insanidade irresponsável. Uma irresponsabilidade insana. E logo depois concordara com aquela farsa louca.
Lembrava-se de um dia ter se considerado uma moça quase monótona de tão sensata. Precisara ser assim para manter o controle da casa paterna.
Entretanto, não se demorou nesses pensamentos, pois estava se divertindo, contra todas as possibilidades. As árvores distantes se aproximavam rápido demais. Logo voltariam para os estábulos e a primeira aula de equitação dela – se é que podia ser chamada assim – terminaria.
Bella relutou em admitir que lamentava a perspectiva.
– E então? – perguntou Jonathan, quebrando um longo silêncio, quando se aproximaram das árvores.
Ele fez com que o cavalo passasse a andar.
– O passeio está sendo bastante agradável, devo confessar – respondeu ela, da forma mais recatada possível. – Mas tenho certeza de que não conseguiria fazer isso sozinha.
– Conseguiria, sim. Conseguirá.
Jonathan não fez a volta imediatamente, como Bella esperava. Seguiu até mais perto das árvores e passou devagar entre elas, abaixando a cabeça, assim como ela, quando algum galho parecia próximo demais. Na beira do bosque, a relva era alta, mas então a maior parte dela desaparecia, desencorajada a crescer, sem dúvida, pela espessura das folhas e dos galhos acima. Apesar de não irem muito longe, conseguiam ouvir o som de água correndo quando pararam.
– Ah, como eu suspeitava – disse ele. – Acredito que um rio atravesse este bosque para alimentar o lago. Vamos investigar?
– As árvores ficam mais densas a partir daqui.
– Fique aqui, é seguro. Só vai me tomar um instante.
Jonathan desceu do cavalo e logo fez uma careta de dor.
– Você se esqueceu do ferimento, não foi? – repreendeu ela, sentindo-se bastante insegura ali em cima. – Nem trouxe a bengala.
Quando levantou os braços e a fez descer, Jonathan estava rindo de novo, mas Bella percebeu que ele trincava os dentes, que o esforço lhe provocava uma dor considerável.
– Estou mortalmente cansado dessa enfermidade, Isabella, de ficar andando por aí com uma bengala como se eu fosse um octogenário com gota – lamentou-se ele, prendendo o cavalo a uma árvore. – Vamos encontrar o rio.
Para a sorte dele, não era longe. A vista sem dúvida valeu a breve caminhada. O rio não era muito largo e descia de uma encosta à direita deles que não era íngreme o bastante para formar uma cachoeira, mas ainda assim a água cascateava sobre pedras de vários tamanhos, formando uma espuma branca em vários lugares. Tratava-se de um cenário adorável, de tirar o fôlego, completado pelas árvores que se elevavam nas margens. Além da vista, havia o som sussurrante e borbulhante da água, o cheiro dela e do verde que cercava tudo. E também o canto dos pássaros, centenas deles ao que parecia, embora estivessem todos ocultos entre os galhos.
Para Isabella, que passara a vida toda na cidade, era como estar em um pedaço do paraíso. Estava deslumbrada. Era como se um punho enorme houvesse acertado seu estômago e lhe roubado o ar.
– Vamos nos sentar? – sugeriu ele.
Bella percebeu que estavam parados sobre uma rocha grande, plana no topo, ao redor da qual a água corria veloz. A mão esquerda de Jonathan pressionava a parte de cima da coxa dele.
– Homem tolo. Ainda deveria estar na cama.
– É mesmo? – Jonathan a encarou com sua típica expressão arrogante, do alto do nariz proeminente, com as sobrancelhas erguidas. – Com você como minha enfermeira, Isabella? Acredito sinceramente que a inocência daqueles dias se foi para sempre. Não se preocupe comigo. A perna está sarando e não vou exagerar nos cuidados com ela.
Jonathan se abaixou com cautela sobre a pedra, a perna esquerda esticada à frente, a direita dobrada. Apoiou um braço no joelho e o outro atrás do corpo. Bella se sentou ao lado dele, o mais distante que o patamar da pedra permitiu, e abraçou os joelhos erguidos. Às vezes Jonathan parecia tão risonho e travesso que ela quase esquecia que também era um homem sob a constante ameaça do pânico. Ele não era Sir Jonathan Smith. Isabella não sabia o nome dele.
Ele não sabia o próprio nome.
– Mas como você vai voltar a montar? – perguntou ela.
– Estava me perguntando a mesma coisa. – Ele riu baixinho. – Vou pensar em um modo quando chegar a hora. Este é um belo lugar... além de isolado. Perfeito para namorar se a pessoa estiver inclinada a isso.
– Mas a pessoa não está – respondeu ela rapidamente.
– Não, a pessoa com certeza não está.
Por incrível que parecesse, Bella se sentiu insultada. Jonathan tinha mesmo que deixar tão óbvio que a falta de modos naquela noite a tornara nada atraente? Ele a achara uma decepção. Que humilhação! Ela apoiou o queixo nos joelhos e olhou ao redor: Uma cena como aquela, pensou, seria capaz de recuperar uma alma.
Ela achava que nunca havia sido tão afetada pela beleza natural. Sempre pensara que nem sequer gostava do campo.
– Perdemos muito passando a vida toda na cidade.
– É realmente lindo – concordou ele.
– Você cresceu no campo?
– Uma pergunta capciosa, Isabella? – disse Jonathan após uma breve pausa. – Mas acredito que possa respondê-la. Devo ter crescido, ou pelo menos devo ter passado grande parte da vida em uma propriedade rural. Nada disto aqui me parece familiar. Não creio que tenha visto este lugar antes e seu tio não pareceu me reconhecer. Só que me sinto confortável aqui. É como se pertencesse ao lugar, a este tipo de lugar, mesmo que não a esta propriedade específica.
Bella o encarou, a bochecha encostada no joelho.
– Você agora tem uma noção mais sólida de quem é, então? Há alguma lembrança particular, mesmo que pequena?
Ele balançou a cabeça, fitando com os olhos semicerrados a água que cascateava, cintilando ao sol da manhã.
– Não exatamente. Apenas sonhos persistentes, que nem tenho certeza se são recordações. Se eu me concentrar muito neles, talvez me induzam ao erro. Talvez me levem a criar uma realidade que não se assemelhe em nada à verdade. Há a carta, que me provoca uma sensação de urgência sempre que sonho com ela. E a mulher esperando por mim nos portões de Namur. Havia alguma mulher lá quando você e o sargento McCarty me levaram de volta para a cidade?
– Dezenas. E centenas, talvez milhares de homens. Estava um caos completo lá, ainda que algumas pessoas tentassem manter algo semelhante à ordem. Mas ninguém veio reivindicá-lo, embora várias mulheres examinassem desesperadas todos os rostos na esperança de encontrar um conhecido, eu suponho.
– Então talvez a mulher só exista no sonho. Caso contrário, quem é ela?
Quem é ela?
Isabella não conseguiu pensar em uma resposta que pudesse consolá-lo. Abraçou os joelhos com mais força.
– E na noite passada tive um novo sonho – voltou a falar Jonathan. – Havia uma fonte no meio de um grande jardim circular e a água jorrava alto no céu. Nada mais. Não vi os arredores. Acho que, quando ouvi a água desse rio correndo, pensei que fosse descobrir a origem do meu sonho. A luz cintilava sobre a água como aqui, mas criava um arco-íris. Algumas pessoas dizem que não sonhamos em cores. Porém, vi aquele arco-íris em toda a sua glória. Eu me pergunto se isso é uma prova de que a fonte realmente existe em algum lugar... Mas qual é a importância disso para mim?
– Talvez ela fique na casa onde você cresceu. Na sua casa de campo.
Jonathan ficou em silêncio por algum tempo e Bella reparou de novo no som da água e dos pássaros, na paz que aquele lugar inspirava. E imaginou se a mãe estivera ali, bem naquele lugar – para brincar na infância, para pensar e sonhar na juventude. Será que fora até ali para ponderar sobre a decisão fatídica de desistir do pai de Isabella, ou desafiar tio Carlisle e fugir com o namorado? Em certa época – distante, talvez até antes da morte da mãe –, o pai de Bella fora muito mais vistoso, encantador e alegre do que em seus últimos anos, quando o vício do jogo e, em menor grau, o álcool o haviam deixado amargo, tornado seu humor mais inconstante, imprevisível. Era fácil entender por que a mãe largara tudo por ele.
Se houvesse vivido mais um ano, herdaria as mesmas joias que naquele momento ainda estavam fora do alcance de Bella. A família teria sido muito mais abastada – até com certeza o pai perder tudo no jogo.
– Sempre devo ter amado a terra – comentou Jonathan. – E me pergunto se isso me magoou, já que, provavelmente, era um dos filhos mais novos, portanto destinado a ir para o Exército. Ou talvez eu tenha negado meu amor pela terra porque sabia que nunca a herdaria ou poderia viver perto dela depois que crescesse.
– Você falou sobre o perigo de confiar demais em seus sonhos... Será que suas suposições talvez não sejam lembranças reais? Pode afirmar mesmo que foi um oficial?
Ele virou a cabeça para encará-la, com as sobrancelhas erguidas. Ficou encarando-a por um longo tempo, durante o qual Bella descobriu ser impossível desviar os olhos.
– Não – respondeu Jonathan por fim. Ele riu, embora não parecesse estar se divertindo. – Não posso afirmar nem mesmo isso, não é? Mas por que eu estaria naquele campo de batalha se não estivesse com o Exército? Para tomar um tiro só por diversão? Pareço mesmo ser um homem imprudente, não pareço? Se eu for um civil, isso explicaria por que estava sozinho e havia me afastado do campo de batalha.
– É apenas um palpite. Não sei mais do que você. Pensei também em outra possibilidade. Se você tem cerca de 25 anos, provavelmente já teria sua patente há cinco, seis ou sete anos. Só que, além dos ferimentos sofridos pouco antes de o encontrarmos, não havia outros em nenhuma parte do seu corpo. Nenhum ferimento antigo, de antigas batalhas, quero dizer. Não seria improvável, até mesmo inacreditável?
– Talvez eu sempre tenha sido extraordinariamente sortudo. Ou talvez sempre tenha me escondido atrás de algum sargento robusto ou de um soldado raso quando surgia um mosquete ou uma espada diante de mim. Ou talvez, até Waterloo, eu estivesse sempre baseado em casa.
Bella suspirou e voltou a apoiar o queixo nos joelhos. Se ao menos pudesse fazer algo para ajudá-lo a lembrar... Poderia vê-lo de volta ao seu antigo eu e às pessoas que o amavam. Guardaria boas lembranças dele depois que tivesse partido, certa de que Jonathan voltara a ser quem sempre fora.
Havia algo que pudesse fazer?, perguntou-se Isabella. Investigar por conta própria, quem sabe? Tinha algumas amigas em Londres... Poderia escrever para elas e perguntar se sabiam de algum cavalheiro da alta sociedade desaparecido desde a Batalha de Waterloo? Com certeza seria um absurdo indagar uma coisa: centenas de homens deviam estar desaparecidos. Mas o sumiço de oficiais já teria sido estimado, não é? Nenhuma das amigas dela circulava na alta sociedade. Seria bom ao menos tentar? Jonathan fora até ali para tentar ajudá-la.
– Acho – disse ele, interrompendo os pensamentos de Bella depois de vários minutos em silêncio – que já a mantive ao ar livre o bastante para convencer seu tio de que me disponho a ensiná-la e estou apaixonado a ponto de roubar algum tempo a sós para nós dois.
Ela voltou a encará-lo. Jonathan sorria preguiçosamente, a seriedade esquecida, ao que parecia, ou afastada da mente mais uma vez. De repente, Jonathan se inclinou mais para perto e, antes que conseguisse compreender sua intenção, encostou os lábios nos dela. Teria sido muito fácil se distanciar, ficar de pé, alisar o vestido e voltar através das árvores até o cavalo. Jonathan só a estava tocando com os lábios.
Mas Bella não pensou nisso naquela hora. Permaneceu sentada, cativa da surpresa e de alguma outra emoção muito mais sedutora. Foi um beijo delicado e demorado, em que as línguas umedeceram os lábios um do outro e se tocaram brevemente. Não foi lascivo e não ofereceu risco de levar a algo mais intenso. Só que também não foi um beijo fraterno ou de amigos casuais. Sem dúvida havia um componente sexual. Os pensamentos e as emoções de Bella se mesclaram à beleza da natureza que os cercava, ao correr da água, ao farfalhar das árvores e ao canto dos pássaros. Aquilo era tudo pelo que seu coração ansiara durante a vida inteira, pensou ela – embora, na verdade, não estivesse realmente pensando, e o pensamento teria parecido estranho caso houvesse lhe ocorrido.
Quando Jonathan se afastou, Bella o encarou com olhos sonhadores e abriu os lábios, indefesa.
– Pronto – disse ele. – Agora você parece ruborizada e recém-beijada, Bella, como deveria mesmo parecer quando voltarmos.
Ele sorriu.
Ela se sentiu uma completa tola.
Era tudo parte da farsa, nada mais. Ela se levantou às pressas e passou as mãos pela saia.
– Não me lembro de ter lhe dado permissão para me chamar de Bella – comentou tolamente.
Jonathan riu.
– Agora você acaba de acenar com a bandeira vermelha diante do touro. Será Bella, sim, daqui em diante. Pode revidar e me chamar de Jon.
Ela voltou sem esperar por ele, embora mantivesse certa distância prudente do cavalo. Então percebeu que Jonathan estava mancando muito. Ficar sentado na pedra depois de cavalgar sem dúvida enrijecera bastante a perna dele.
– É melhor eu caminhar de volta aos estábulos – sugeriu ela – e ver se há uma carroça ou uma charrete que possa ser mandada aqui para pegá-lo.
– Se der um passo que seja naquela direção, Bella, esquecerei que algum dia já ouvi a palavra joia e sairei caminhando em direção ao pôr do sol... na verdade capengarei apoiado em minha confiável bengala... e deixarei a seu cargo explicar a Weston por que ele deve lhe entregar sua herança um minuto antes dos seus 25 anos que seja se acaba de ser abandonada pelo marido com quem acabou de se casar.
– Você poderia simplesmente ter dito "não".
Ele deu a volta até o lado direito do cavalo e se ergueu com movimentos muito desajeitados, mas conseguiu montar. A única demonstração de dor foi o cerrar de dentes causado pela dor – só por conta da presença dela, acreditava Isabella. Então, fingiu que sorria ao baixar os olhos.
– É melhor você vir para esse lado também, Bella – sugeriu Jonathan –, embora vá acabar virada para o lado errado.
– Voltarei caminhando.
– É uma pena que não possamos ter certeza de que seu tio estará espiando de uma janela dos fundos. Coloque o pé sobre minha bota direita ou eu descerei até aí e a deitarei atravessada nas costas do cavalo.
Apesar de se sentir ultrajada e de querer manter a dignidade, Isabella achou as últimas palavras dele muito engraçadas e riu ao fazer o que Jonathan exigira. Não foi uma performance que qualquer um dos dois fosse querer repetir diante de uma plateia, mas com uma quantidade nada elegante de esforço, puxões, arquejos e risadas – de ambas as partes –, ela finalmente se viu diante dele de novo, embora virada para a direita, e não para a esquerda.
– Terei a mesma vista da vinda... – lamentou Bella.
– Está reclamando? Posso fazer o cavalo voltar de costas para o estábulo, se quiser, embora duvide que ele vá gostar da ideia. Ou você poderia passar as pernas por cima do pescoço do animal e se virar para o lado em que deveria estar, afinal.
Os dois riam como crianças tolas, pensou ela. Ela não sabia por quê, mas resolveu tomar essa sugestão absurda, que nem fora dada a sério, como um desafio. Ainda se sentia a quilômetros do chão, porém havia um galho convenientemente próximo para lhe dar tanto uma ilusão de segurança quanto uma dose de coragem. Apoiando-se no ramo, passou as pernas por cima do pescoço do cavalo, uma de cada vez, expondo primeiro o tornozelo esquerdo, então a perna esquerda até o joelho, e o mesmo logo depois com a perna direita.
Ambos ficaram imóveis sobre o animal quando Bella enfim assumiu a posição que queria, com as pernas pendendo para o lado esquerdo. Jonathan a enlaçou, como fizera na vinda. Estavam ofegantes de tanto rir. Foi a cena mais indigna de que Bella já tomara parte.
– E se eu sugerisse que você ficasse de pé sobre as costas do cavalo... em uma perna... girando arcos na cintura, no pescoço, nos braços e na perna erguida?
Rachel deu um gritinho.
– Você poderia ganhar uma fortuna no Anfiteatro de Astley – disse ele, manobrando o cavalo para fora do bosque e fazendo-o andar a passo, então trotar através do gramado na direção da casa e dos estábulos.
– Eu poderia aproveitar o dinheiro depois de ter quebrado todos os ossos do corpo. Não precisaria nem das minhas joias.
Na ida, Bella observara o lago e a terra que o cercava. Agora, na volta, olhou através da ampla extensão de relva até o terreno montanhoso mais além, parcialmente coberto de árvores. Ainda a espantava perceber que ali era Chesbury Park, o lar de infância da mãe, que sempre havia imaginado ser menor e mais modesto.
– E pensar que só faltam trinta dias – comentou Jonathan. – Há 31 dias este mês, eu acredito, tanto se considerarmos julho quanto agosto.
– Você precisará de cada um desses dias para me persuadir a subir naquela sela e cavalgar neste gramado – disse Bella, virando-se para encará-lo.
– Ah! Eu a converti, então, não é?
Era verdade. Isabella não queria que o passeio terminasse. Mal podia esperar pelo próximo. Na próxima vez, estaria sozinha no próprio cavalo e ficaria aterrorizada, mas perdera tanto na vida, presa na existência pobre com o pai em Londres... Talvez não fosse tarde demais para recuperar o tempo perdido.
– Não exatamente – respondeu ela. – Mas não tenho a intenção de passar 31 dias sentada girando os dedos.
– Como eu pensei: converti você.
Ele jogou a cabeça para trás e riu.
23h58 ainda é quarta-feira e cá estou eu. Apareçam, lindezas!
Sobre a prova, fui pior do que sonhara e melhor do que esperava. Fez sentido? kkkkkkk Obrigada pelos votos! Até domingo.
