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CAPÍTULO XIII

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Edward tomou café da manhã sozinho – bacon frio e viscoso, linguiças cruas no meio, torrada queimada e café morno e fraco demais. Ele rejeitou os ovos, que estavam gelados no prato aquecido do bufê. Isabella fora direto dos estábulos para o próprio quarto – para escrever uma carta, explicara.

Quando saiu mais tarde para olhar ao redor, ele encontrou duas das outras damas nos jardins. Elas estavam sentadas em um banco longo, uma de cada lado do barão. Alice se encontrava vestida de preto – até o guarda-sol rendado era dessa cor –, enquanto Angela estava toda de rosa. Eram figuras belas e extremamente respeitáveis.

Edward conteve o riso ao se juntar a elas, esforçando-se para apoiar o mínimo de peso possível na bengala. A perna vinha se comportando bem depois do passeio a cavalo.

– Ah, lá vem Sir Jonathan – disse Alice, girando o guarda-sol.

– Bom dia.

Weston inclinou a cabeça enquanto Edward fazia uma mesura para os três.

– Nós os vimos pela janela mais cedo, Sir Jonathan – comentou Angela, animada –, não é mesmo, Alice? E persuadimos o querido lorde Weston a assistir também. O senhor manteve Isabella bem segura sobre o cavalo. E devo dizer que os dois fazem um par muito belo e romântico.

Edward sorriu.

– Encontramos as cascatas entre as árvores, senhor, e nos sentamos lá por algum tempo. É uma parte adorável do parque.

Weston assentiu. Não parecia muito melhor depois da noite de sono.

– Recebi uma reclamação do meu principal cavalariço – comentou o barão – de que o seu valete, Smith, andou interferindo no andamento do estábulos.

Quando Edward e Isabella haviam deixado o local mais cedo, Emmett estava despido até a cintura, limpando as baias, e alguns cavalariços o ajudavam. Edward declinara da oferta do sargento de largar tudo e voltar para casa a fim de ajudá-lo a mudar de roupa.

– Peço perdão, senhor. Meu valete foi sargento da infantaria até perder um dos olhos na Batalha de Waterloo. Está acostumado a trabalhar duro e a mandar outros homens fazerem o mesmo quando há trabalho a ser feito.

– E há trabalho a ser feito nos estábulos? – perguntou o barão, com a testa franzida.

Edward hesitou. Permitir que o próprio valete desse ordens aos cavalariços de Chesbury para arrumar os estábulos era uma falha de etiqueta que não iria torná-lo mais caro ao barão.

– Era de manhã cedo e McCarty foi até os estábulos comigo para me ajudar a montar, pois foi a primeira vez que fiz isso desde que machuquei a perna. Havia apenas um cavalariço lá e muito a ser feito em relação aos cuidados com os cavalos e à limpeza das baias. Acredito que tudo teria sido feito, ou ao menos estaria a caminho de ser feito, se houvéssemos chegado cerca de uma hora mais tarde. Vou orientar meu homem a limitar seus serviços à minha pessoa no futuro.

Weston continuava com a testa franzida.

– Não estive lá desde o meu último problema no coração, vários meses atrás. Talvez o trabalho tenha ficado negligenciado. Vou prestar atenção nisso.

Edward achou divertido ver Alice pousar a mão no braço do barão em solidariedade.

– Mas não deve se exaurir, milorde – falou ela. – Por nenhum motivo... nem mesmo para nos entreter. Somos perfeitamente capazes de nos distrairmos sozinhas. E, inclusive, faremos o possível para deixá-lo bem confortável, não é mesmo, Angie?

– É muita gentileza da sua parte, madame – agradeceu o barão, ainda distraído e de cenho franzido. – Os canteiros estão cheios de ervas daninhas.

– Mas até mesmo as ervas daninhas podem ser encantadoras – comentou Alice. – Na verdade, nunca compreendi por que algumas plantas são aprovadas e chamadas de flores, enquanto outras, igualmente belas, são consideradas ervas daninhas, com desprezo.

– Está tentando fazer com que eu me sinta melhor, Sra. Streat – disse lorde Weston com um sorriso –, e conseguiu. Mesmo assim, preciso conversar com o chefe dos jardineiros.

– A pessoa com quem eu gostaria de ter uma palavra – manifestou-se Angela, apoiando a ponta do guarda-sol no chão – é com a sua cozinheira, milorde. Não quero ser ofensiva, mas ela parece estar precisando de alguns conselhos.

Edward quase se retraiu. Todos eles estariam de volta à estrada naquele dia mesmo, expulsos de Chesbury Park com um pé no traseiro, se não tivessem muito tato. Alice deu um riso contido e discreto, em total contraste com a gargalhada gostosa que costumava dar.

– Não é preciso conhecer bem minha cunhada para saber que ela tem paixão por culinária, milorde. O coronel Leavey mantém sua própria cozinheira quando está em casa, mas a pobre mulher sempre acaba ociosa. Angela não consegue resistir a passar os dias na cozinha. Não tolera que ninguém mais cozinhe. E é excelente, devo dizer.

O barão suspirou.

– Não tenho muito apetite ultimamente, mas percebi que a comida vem deixando muito a desejar. E é difícil encontrar alguém para substituí-la aqui no campo. Porém, não posso permitir que uma hóspede minha trabalhe na cozinha, madame.

– Acredite em mim, milorde, isso me dará grande prazer – garantiu Angela, que nunca foi de ficar sem nada com que ocupar as mãos. – Vou até lá agora mesmo para supervisionar os cardápios do dia. Acho que vou querer fazer algumas mudanças.

Ela se levantou parecendo satisfeita, animada e bela. Alice também se levantou e olhou para o barão enquanto girava a sombrinha acima da cabeça.

– Foi gentil da sua parte nos acompanhar até aqui fora, milorde, porém o senhor realmente deveria entrar para descansar agora, ainda mais porque receberá visitas esta tarde. Eu o acompanharei de volta. Preciso escrever algumas cartas, se puder me mostrar onde encontro papel, pena e tinta.

Quando o barão se levantou, ela lhe deu o braço e os dois seguiram pela trilha pavimentada, perfeitamente à vontade um com o outro. Angela se deteve.

– Pobre e querido cavalheiro – comentou quando o homem já não podia ouvi-la. – Os empregados o estão enganando vergonhosamente, Sr. Smith. Parece que os estábulos estão em mau estado... Os jardins com certeza estão. Rose disse que a cozinheira tem uma queda pelo gim; já a governanta tem uma queda pelo gim e pelo porto e mal sai do próprio quarto. O mordomo é um desses camaradas velhos e fracos que não têm nenhum controle sobre os subordinados.

– Não tenho dúvidas de que, com você e Rosalie, a cozinha vai acabar entrando nos eixos, Angela – disse Edward com um sorriso. – Meu estômago, devo confessar, tem protestado por conta do que vem sendo servido até agora, embora um hóspede não deva reclamar.

– Pois pode esperar um almoço delicioso. Cabeças vão rolar quando eu entrar naquela cozinha, Sr. Smith. Tenho todo o peso da autoridade do coronel atrás do meu nome.

Ela soltou uma risada travessa. Edward riu para si mesmo enquanto a observava se afastar enquanto Alice já ajudava o barão a subir os degraus. Elas eram uma dupla impagável e, ao que parecia, estavam se divertindo imensamente.

E haveria visitas à tarde, então? Eles se afundariam ainda mais na farsa. Ora, agora não adiantava mais se arrepender. Como já dissera algum personagem da literatura – Macbeth? –, recuar agora seria tão imprudente quanto seguir em frente.

Ele se sentou no banco vago.

Tivera a intenção de procurar o capataz e pedir ao homem que o levasse para conhecer a fazenda, mas talvez fosse melhor esperar até o dia seguinte, para que pudesse estar com Isabella quando as visitas chegassem. Além do mais, Emmett já estava deixando sua marca nos estábulos e Angela invadira a cozinha. Era melhor que ele tivesse cuidado para que o interesse pela propriedade não fosse visto como uma interferência.

Contudo, Edward estava interessado mesmo e não pôde deixar de se lembrar do que Bella dissera mais cedo: talvez houvesse crescido em uma propriedade rural. Aquele tipo de vida parecia entranhado em seus ossos. E com certeza ele amava o campo. Ao olhar ao redor, quase podia chorar de tão comovido, depois de passar algumas semanas em Bruxelas e, depois, viajando até ali. Seria um filho mais novo? Seria um oficial? Devia ter se sentido deslocado, incapaz até mesmo de considerar a ideia de viver em uma terra que não era sua, mas do pai e, depois dele, do irmão mais velho.

Como lidara com esses sentimentos? Ficara emburrado, ressentido, mal-humorado? Não conseguia se imaginar dessa forma, mas como poderia saber? Talvez a perda de memória também provocasse mudança de personalidade. Teria se reprimido, experimentando a inquietação e o vazio? Odiara o Exército? Ou fingira para si mesmo que adorava? Ou simplesmente fizera o melhor possível? Ou, se nunca houvesse sido um oficial, seguira pela vida sem maiores objetivos? Teria sido capaz de fazer isso? Talvez, se a memória nunca retornasse e ele jamais mais pudesse encontrar a própria família, procurasse emprego como administrador. Talvez tivesse sido um. Era um trabalho de cavalheiros, afinal, mas também não tinha ideia de sua posição na escala social. Quem sabe trabalhar sempre houvesse sido uma necessidade para ele.

Mas por que um administrador de propriedade estaria vagando pela floresta de Soignés, com a Batalha de Waterloo em andamento e uma bala de mosquete na coxa? Edward invejou Isabella e Alice por passarem a manhã escrevendo cartas. Essa talvez fosse uma atividade da qual ele não costumasse gostar, mas agora desejava que houvesse qualquer pessoa para quem pudesse escrever. Teria sido ele que redigira a carta de seus sonhos? Ou alguém a redigira para ele? Ou – uma possibilidade que nunca considerara – talvez ele fosse apenas um mensageiro.

Edward fechou os olhos e tentou imaginar esse cenário.

Por quem? Para quem? E qual seria o envolvimento dele naquilo?

A dor de cabeça já familiar começou a incomodá-lo atrás dos olhos. Quando voltou a abrir os olhos, sentiu-se quase grato ao ver Victoria e Bella saindo para o jardim. Edward se levantou para cumprimentá-las. Isabella mudara de roupa e usava um vestido de dia, de musseline estampada com raminhos.

Ele lembrou com certo desconforto que a beijara novamente perto das cascatas. Havia prometido a si mesmo que não voltaria a fazer nada semelhante. Encobrira o próprio erro com uma desculpa razoável, é claro, mas a verdade era que não fora premeditado. Bella estava mais luminosa do que nunca naquele cenário rural. Maldição, os dois haviam rido das tolices dela sobre o cavalo como duas crianças despreocupadas e Bella parecera irresistível.

Ele não sugerira levá-la até Chesbury para achá-la irresistível. Queria estar livre quando partisse dali. Não tinha como saber os laços emocionais que deixara para trás ao perder a memória. Com certeza não precisava de nenhuma nova amarra.

Bella não estava usando touca, percebeu Edward, e seus cabelos cintilavam puramente ao sol. Victoria carregava uma cesta larga e rasa pendurada em um dos braços e parecia muito mais jovem do que em Bruxelas, com os cabelos agora castanhos, o chapéu com aba de palha e um sorriso relaxado. Era realmente uma mulher bonita, embora já devesse ter bem mais de 30 anos.

– Vou colher alguns botões para alegrar a casa, Sr. Smith – avisou Victoria. – Sente-se de novo e Isabella lhe fará companhia. Deve tirar o peso dessa perna pelo máximo de tempo possível.

– Sim, madame – disse Edward, sorrindo e esperando que Bella se sentasse, antes de se acomodar ao lado dela. – Tem certeza de que consegue distinguir entre as flores e as ervas daninhas?

– Há mesmo muitas ervas daninhas – comentou Victoria, olhando criticamente para o jardim. – Eu deveria ter trazido uma enxada. Adoraria dar uma boa limpada nesse jardim. Está uma desgraça.

– O jardim me parece ótimo, Victoria – disse Bella.

– Isso é porque você cresceu na cidade grande, meu amor.

– E você não? – perguntou Edward.

– Eu, não – respondeu Victoria. – Cresci em uma casa paroquial, Sr. Smith. Meu pai era ministro, mas muito pobre. Eu era a primogênita de sete irmãos. Não havia nada que eu gostasse mais do que ajudar a minha mãe no jardim e na horta... as flores na frente da casa, a horta nos fundos. Não há sensação melhor na vida do que enfiar os dedos na terra. Acho que teria me casado com Charlie Perrie se a casa dele tivesse jardim, horta, algumas galinhas e quem sabe um porco, embora ele não fosse nem um mínimo generoso ou bem-humorado. Aos 16 anos, segui para Londres em busca de fortuna. Fui a garota mais feliz do mundo quando o Sr. Swan me contratou como ama de Isabella, e o emprego durou seis anos. Não estou reclamando da minha vida desde então, mas ter um jardim é a minha ideia de paraíso. Se conseguirmos nossa pensão, ela terá um enorme jardim. E uma cozinha grande para Angela. Mas estou falando demais. Vou colher algumas flores agora.

Ela seguiu ao longo do parterre e se inclinou para cortar alguns botões.

– Foi Victoria que a ensinou a ler? – perguntou Edward a Bella.

– Acho que foi minha mãe. Ou talvez meu pai. Ele gostava de ler e era um homem muito culto. Costumava ler para mim quando eu era bem pequena.

– Como era a sua vida?

Isabella pensou por um tempo.

– Devo ter sido muito próxima da minha mãe. Sei que fazia pirraças terríveis por algum tempo depois que a pobre Victoria chegou... para tomar o lugar da minha mãe, foi o que pensei na época. Mas logo passei a amá-la como a uma mãe... assim é a inconstância infantil. Fiquei muito infeliz quando Vic foi embora e a situação do meu pai em relação ao jogo e à bebida piorou. Porém, gostava de ser a dona da casa, responsável por tudo ali, e acho que me saí bem. Aprendi a ser frugal e a guardar nos bons tempos para que pudéssemos atravessar melhor os tempos ruins. Só que, nos últimos anos do meu pai, os tempos ruins eram quase constantes. Eu o amava e sempre guardarei com carinho as lembranças de momentos em que ele me amou com alegria e generosidade e de quando se permitia ser amado. Eles foram ficando mais esparsos no fim da vida dele.

– Você nunca foi à escola?

– Não.

– Tinha amigos?

– Uns poucos. – Bella baixou os olhos para as mãos. – Tínhamos alguns bons vizinhos que permanecem meus amigos até hoje.

Ela fora uma criança solitária e pobre, pensou Edward, examinando o perfil de Isabella com os olhos semicerrados. E por muitos anos, desde que Victoria partira, fora carente de amor, imaginou. E de amigos. Mas fizera o melhor possível daquela situação. Não era de choramingar. Em vez de ter inventado aquela travessura como um colegial animado, Edward percebeu que deveria ter insistido com mais determinação na primeira ideia que dera a Bella: Era ali que ela deveria morar permanentemente – como a Srta. Swan de Chesbury Park.

Edward começava a ter sérias dúvidas sobre a impressão que Bella tinha de Weston.

– Não foi uma vida ruim – continuou ela, encarando-o. – Não quero lhe dar a impressão de que meu pai foi cruel comigo, ou mesmo que me negligenciou, ou que eu o odiava. Acho que papai era doente. Ele não conseguiu evitar nos levar à ruína. Então, pegou o que pareceu ser um resfriado inofensivo e morreu em três dias.

– Sinto muito.

– Eu não. – O sorriso dela era tenso. – A vida se tornara algo muito próximo de um tormento para ele. E para mim.

Entretanto, Isabella mordeu o lábio superior ao terminar de falar e baixou rapidamente a cabeça para esconder os olhos marejados. Edward viu uma lágrima cair nas costas da mão dela e resistiu ao impulso de passar o braço por seus ombros. Ela não se sentiria bem com sua piedade.

– E agora você acredita que as joias podem resolver todos os seus problemas – comentou Edward – e que vão permitir que viva feliz para sempre.

Ela ergueu os olhos depressa, as lágrimas ainda perigando escorrer.

– Não, é claro que não! – Isabella saltou de pé e o encarou com irritação. – O dinheiro não trará meu pai de volta do jeito que ele costumava ser ou do jeito que deve ter sido quando mamãe o conheceu e se apaixonou. O dinheiro não me fará feliz. Não sou idiota, Jonathan. Mas apenas pessoas que têm muito dinheiro o desprezam. Para o resto de nós é importante. Pode ao menos nos dar comida e roupas e alimentar nossos sonhos. Você deve ser de uma família abastada ou jamais diria o que acabou de dizer. E acredito que seja muito parecido com meu pai. Você é um jogador. Por acaso, na última vez que jogou, quando estávamos em Bruxelas, a sorte estava do seu lado e lhe garantiu dinheiro o bastante para que agora você não se preocupe. Da próxima vez, pode ser que não tenha tanta sorte.

– Isabella – falou Edward, inclinando-se para a frente e tentando pegar uma das mãos dela –, não tive a intenção de que minhas palavras tivessem esse efeito.

Ela puxou a mão.

– Ah, teve, sim. As pessoas sempre falam que não tiveram intenção quando sabem que ofenderam alguém. Que outra intenção poderiam ter suas palavras? Sou filha de um pai imprudente e sempre vivi de artifícios, isso é o que você pensa. Acha que, se eu colocar as mãos nas minhas joias, vou acabar com a fortuna toda exatamente como meu pai fez com o que ganhava e que logo estarei pobre de novo. Além do mais, sou apenas uma mulher. É o que está pensando, não é? O que as mulheres sabem sobre planejar e gastar com sabedoria?

– Isabella, você acha que sabe muito sobre o que penso, mas lamento por ter falado de forma tão descuidada, lamento mesmo.

Ele quisera dizer que ela precisava de mais do que dinheiro. Precisava de família e amigos. Precisava pertencer a algum lugar. Precisava encontrar o amor ou deixar o amor encontrá-la. Não necessariamente o amor sexual, embora sem dúvida com o tempo também fosse encontrar esse tipo. Precisava de um lar. Precisava de Chesbury e de Carlisle, mas fora teimosa demais após a morte do pai para notar isso e agora se colocara em uma situação desagradável que talvez acabasse tornando impossível qualquer reconciliação com o tio.

E tudo por culpa dele, Edward, é claro. A intenção dele fora dizer que provavelmente ali havia um tesouro muito maior para Isabella do que as joias. E que Weston estava tão solitário e necessitado de uma família quanto ela. O problema é que se expressara de forma lamentável. E tinha sido ele que pensara naquele esquema ardiloso para conseguir as joias.

– Não – disse Bella –, você não lamenta. Os homens nunca lamentam. Eles dominam o mundo e as mulheres são apenas criaturas tolas e completamente incapazes de saber o que lhes trará felicidade. Sei que não deseja estar aqui, embora tenha sido você quem sugeriu que viéssemos fingindo sermos o que não somos. Ora, agora está preso aqui por todo um mês. Não dou a menor importância para o que pensa de mim ou do meu desejo de me apossar da fortuna. Não me importo.

Edward se levantou sem a ajuda da bengala. Percebia que Bella estava muito aborrecida, e não podia ser apenas devido ao comentário infeliz. Ele achava que a realidade de Chesbury Park era muito diferente do que ela imaginara. E ele sentia-se terrivelmente culpado por isso.

– Talvez devêssemos pôr um fim em toda essa farsa, Bella. Explicarei tudo ao seu tio, as damas podem ir embora para organizarem a própria vida do jeito delas e você pode ficar vivendo aqui.

– Ah, sim! – berrou ela. – Isso é o que você iria mesmo sugerir agora que a novidade dessa brincadeira está se esgotando. Me deixaria aqui onde não sou desejada e onde não quero estar e me forçaria a abandonar minhas amigas mais queridas. Só pensar na vida que teriam já é insuportável. Ora, isso não vai acontecer e pronto.

Bella estendeu a mão e o empurrou no peito. Não foi um empurrão forte, mas o pegou de surpresa e o fez perder o equilíbrio, já que estava apoiando a maior parte do peso do corpo em apenas uma perna. Edward cambaleou de forma nada elegante e caiu para trás, com força, sobre o banco.

Ele ergueu as sobrancelhas.

– E agora veja o que me levou a fazer – continuou ela, irritada. – Nunca derrubei ninguém na minha vida.

– Eu arriscaria dizer que nunca fui derrubado. Mas acho que mereci. Não escolhi as palavras com o cuidado que deveria, algo que me lembrarei de fazer na próxima vez que quiser ser gentil com você quando estiver tão espinhosa quanto um ouriço.

Gentil! – exclamou ela, com um tom zombeteiro. – E não sou espinhosa.

Antes que ela pudesse brigar mais, Victoria se aproximou apressada, a cesta cheia de botões de flores.

– O que aconteceu? O senhor caiu, Sr. Smith? Eu lhe avisei...

– Apenas uma rusga de amantes, Victoria – explicou Edward, sorrindo e se sentindo muito tolo. – Nossa primeira. A culpa foi toda minha, é claro. Isabella me derrubou.

– Tudo isto pareceu uma ideia brilhante em Bruxelas – falou a morena. – Todos pensaram que seria uma grande diversão. E assim é, e continuará a ser. Acho que tio Carlisle está morrendo.

Ela levantou a saia de tecido leve depois de soltar esse comentário aparentemente sem lógica, girou nos calcanhares e saiu apressada, quase correndo em direção à casa. Edward teria ido atrás dela, mas Victoria pousou a mão na manga dele.

– Deixe que ela vá. Eu me lembro de Bella chorar desconsolada pela mãe toda noite. E de quando um dos amigos tolos do Sr. Swan quebrou a linda boneca de porcelana dela. Bella juntou os cacos em uma antiga manta e chorou sobre eles a noite toda, mas era pelo tio que ela chorava. Ele surgira como um raio de sol após a morte da mãe e lhe comprara aquela boneca. Então o barão desapareceu tão abruptamente quanto chegara. Ela superou tudo isso ao longo daquele primeiro ano e, depois, foi uma garota de espírito forte, com grande poder de adaptação. Só que agora me pergunto se Bella superou mesmo tudo aquilo. Ela odeia lorde Weston. Mas acho que não vai admitir para si mesma que ainda o ama desesperadamente. Ele é irmão da mãe dela... o único vínculo com suas raízes.

– Ah, meu Deus – disse Edward com um suspiro –, também acho isso, Victoria. E olhe a confusão em que a meti.

– Não se preocupe. Tudo vai dar certo. Espere e veja.

Edward desejou sentir tanta confiança.


Olhem só vocês aparecendo! Bom domingo à todas!