.

CAPÍTULO XIV

.


Meia hora mais tarde, Isabella já estava quase se recompondo adequadamente da briga – que parecera surgir do nada e a fizera atacar outra pessoa. Foi então que ouviu uma batida à porta. Rosalie entrou sem esperar por autorização.

– Que confusão, Bella. Angie está na cozinha em plena batalha. Ela assumiu o comando das criadas da cozinha, da comida e dos fogões, mas a cozinheira apenas recuou para reorganizar as forças para um contra-ataque. Ela e a governanta estão se fortificando com gim. Então, as panelas e os insultos vão voar, pode estar certa. Não perderia isso por nada no mundo, por isso vou me apressar com o recado que tenho para dar. O barão quer vê-la nos aposentos privados dele e é melhor você ir. Talvez consiga descobrir onde ele guarda as joias e eu possa usar minha capa preta e minha máscara, colocar uma faca entre os dentes e encontrar um galho de hera na parede da casa que dê para escalar esta noite, na lua nova.

Bella riu com a chuva de palavras, mas enquanto se apressava na direção dos aposentos do tio, o que realmente desejava era estar em qualquer outro lugar da Terra. De repente, todas as mentiras e engodos pareciam desprezíveis, mas o que ela poderia fazer agora, senão seguir em frente com o plano? Afinal, não era a única envolvida na farsa. Não poderia expor as amigas como fraudes.

Odiava Jonathan. Odiava.

Ele provavelmente fora rico, arrogante, insensível e sem coração na outra vida. Ela ignorou o fato de que Jonathan não a empurrara de volta e, ainda, se desculpara.

– Entre e sente-se, Isabella – disse o tio depois que o valete abriu a porta para ela.

Ele não se levantou. Seus pés estavam apoiados em um banquinho. Apesar de parecer cansado, observou intensamente Bella atravessar o cômodo e ocupar a cadeira que lhe fora oferecida. Os dois estavam sentados de frente para uma janela baixa, que dava para os jardins e o gramado mais além.

– Tio Carlisle, como o senhor está? Quero dizer, como realmente está?

– É o meu coração – confessou ele. – Está desistindo lentamente de mim... ou rapidamente. Quem pode saber? Tive alguns problemas nos últimos três anos, o mais recente em fevereiro último. Estava me recuperando bem, mas então algo aconteceu e me aborreceu. Então, ontem, você chegou aqui.

Ela estava sendo colocada junto com o que quer que o tivesse aborrecido recentemente? Bem, não poderia reclamar. Havia se convidado para ficar ali depois de recusar o convite dele no ano anterior. Nem mesmo escrevera para avisar o tio de sua chegada e levara consigo um bando de pessoas. Não chegara a ocorrer a Isabella que o barão teria envelhecido em dezesseis anos. E ela com certeza jamais considerara a possibilidade de ele estar doente. Esperara encontrar o mesmo homem robusto e confiante – a única diferença seria que ela agora estava armada contra ele.

– Partiremos amanhã, se desejar – disse ela. – Ou até mesmo hoje.

– Não foi isso o que eu quis dizer. Quanto você conhece Smith, Isabella? O que sabe dele? É belo e charmoso, confesso... ou pelo menos é charmoso quando convém a ele. Você se casou porque era dama de companhia e suas escolhas não pareciam muitas? Mas isso teria sido muito tolo de sua parte. Será uma mulher rica um dia. Poderia ser rica a qualquer momento durante o último ano se houvesse se casado com a minha aprovação.

– Amo Jonathan. E sei que ele é um homem com quem posso viver feliz e segura pelo resto da vida. O senhor não poderia ter escolhido com mais sabedoria por mim, tio Carlisle.

– E, ainda assim, vocês brigaram com bastante violência esta manhã. Ele a insultou, imagino, e você o empurrou.

Bella fechou brevemente os olhos.

É claro! Ele tivera uma visão privilegiada da altercação com Jonathan. Ela mesma podia ver naquele momento o banco em que estiveram sentados sem precisar nem esticar o pescoço. Ao menos a janela estava fechada, logo ele não ouvira uma palavra do que disseram.

– Não foi nada – assegurou ela. – Uma troca de palavras ríspidas e logo nos entendemos. Só isso.

– Mas você não se entendeu com ele. Deixou-o ainda zangada e ele permitiu que você fosse.

– Não foi nada sério – insistiu ela, e espalmou as mãos no colo.

– Espero sinceramente que você não tenha cometido o mesmo erro que sua mãe cometeu, Isabella.

Ela fuzilou-o com os olhos.

– Como sabe que foi um erro? O senhor desaprovou o casamento dela e, depois, cortou-a de sua vida e só a viu morta. Como sabe que minha mãe não foi loucamente feliz durante todos esses anos? Como sabe se não teria continuado feliz até papai morrer, no ano passado?

Ele suspirou.

– Eu não falaria mal de Swan. Ele era seu pai, Isabella, e acredito que você gostasse dele. Não seria natural se fosse o contrário.

– Eu o adorava – disse ela com determinação, embora tivesse consciência de que estava sendo enfática demais. Amara o pai até o fim, mas não fora nada fácil. E, às vezes, o odiara. – O que lhe dá o direito de julgar? De cortar qualquer contato com a única irmã porque desaprovava a escolha dela e então aparecer e tripudiar quando ela morreu? O que lhe deu o direito de conquistar o afeto de uma criança... de comprar esse afeto com sorvetes, uma boneca e passeios de cavalo... e depois desaparecer e deixá-la crescer acreditando que não fora digna do seu amor? Eu era sua sobrinha! Não tinha culpa se desaprovava a meu pai. Ainda assim, era filha de sua irmã. E ainda era uma pessoa com méritos próprios.

Isabella. – Ele fechou os olhos, encostou a cabeça nas almofadas da poltrona e levou a mão ao coração. – Isabella.

Ela se levantou com as pernas bambas.

– Sinto muito. Sinto tanto, tio Carlisle... Por favor, me perdoe. Eu nunca brigo com ninguém... Ainda assim, fiz isso duas vezes esta manhã, com duas pessoas diferentes. Vim a Chesbury por minha livre e espontânea vontade. É imperdoável da minha parte atacá-lo como se o senhor tivesse invadido a minha casa. Tudo isso aconteceu há muito tempo e o senhor de fato me ofereceu um lar aqui depois que papai morreu, mesmo que tenha condicionado o convite à ameaça de me casar com alguém da sua escolha.

– Uma ameaça... – Ele riu baixinho. – Isabella, você contava com 21 anos e não tivera oportunidade, até onde eu sabia, de conhecer pretendentes adequados. Seu pai não a apresentara à sociedade. Pensei que estava lhe fazendo uma gentileza.

– Ora, não foi essa a impressão que tive por sua carta, talvez porque eu não estava com uma disposição muito generosa a seu respeito. O senhor não me ofereceu condolências pela morte de papai.

– Porque eu fiquei feliz – replicou ele com a voz cansada. – Achei que a morte dele finalmente lhe daria uma chance na vida, pois você ainda era jovem o bastante para agarrá-la, mas foi desatencioso da minha parte não compreender que você estaria sofrendo.

– Não importa. Eu agarrei, sim, a minha chance para a felicidade, mas não cegamente, tio Carlisle. Escolhi um homem que era ao mesmo tempo apresentável e um bom partido. Escolhi alguém a quem eu poderia amar e que me ama.

Por um instante, ela ficou tão presa ao papel que acreditou piamente que adorava Jonathan, as palavras vinham com assustadora naturalidade.

– Posso lhe servir algo? – perguntou Bella. – Algo para beber, talvez?

– Não.

– Eu não sabia que o senhor estava doente e acabei aborrecendo-o vindo até aqui. Deveria ter ficado longe.

– Passaram-se 23 anos desde que sua mãe foi embora. Ela era quinze anos mais jovem do que eu, mais como uma filha para mim do que uma irmã. Eu a amava profundamente, mas ela era impulsiva, teimosa e uma romântica incurável. Lidei mal com a situação. Embora meu casamento tenha sido bom, sinto um vazio na minha vida desde que sua mãe partiu. Estou feliz por você ter vindo.

O tio fechou os olhos. Ele poderia ter preenchido aquele vazio a qualquer momento durante os anos seguintes à morte da mãe, pensou Bella, dividida entre uma angústia terrível e uma raiva crescente. Porém, não brigaria mais com o tio. Fora uma pessoa de temperamento moderado durante toda a vida, até ali. Só assim, acreditava, tinha sido capaz de lidar com o pai, os amigos dele e a vida tumultuada que levavam.

– Tio Carlisle, entregue-me as joias. Eu as guardarei como um tesouro, e o mesmo fará Jonathan. Ficaremos mais alguns dias e o deixaremos em paz. Escreverei para o senhor e virei visitá-lo.

Ela iria escrever para ele, jurou a si mesma. E confessaria tudo. Se o tio a perdoasse, o visitaria sempre que pudesse. Tentaria não guardar mágoa por conta do passado. Talvez os dois pudessem de algum modo se tornar tio e sobrinha de verdade.

– Não estou com pressa alguma para que parta – retrucou ele. – Já faz muito tempo que não tenho jovens nesta casa, Isabella. E gosto das suas amigas. São damas encantadoras. Já faz muito tempo também que não recebo ou mesmo vejo meus vizinhos sem ser na igreja. Devem ter se passado vinte anos desde que foi dado um baile em Chesbury. Não haverá ninguém aqui durante o próximo mês. Fique para que possamos nos aproximar e para que eu possa conhecer seu marido.

Bella mordeu o lábio. A enormidade da farsa em que havia se envolvido se tornava mais óbvia e mais dolorosa a cada hora que passava.

– E minhas joias?

O barão demorou algum tempo para responder.

– Não vou prometê-las, Isabella, nem mesmo no fim do mês. Vamos ver. Smith é bem capaz de sustentá-la, de acordo com a apresentação dele, por isso você não precisa das joias para vendê-las. Quanto a usá-las... Ora, são peças antigas, pesadas, nada adequadas a uma jovem mulher. São heranças de família que foram confiadas aos meus cuidados... primeiro pela minha mãe, depois pela sua.

Então tudo aquilo fora para nada, pensou ela... A única mínima esperança era um "vamos ver". Poderia ter argumentado, mas percebeu que a mão do tio estava no peito mais uma vez e que sua pele parecia cinzenta. Ele não abriu os olhos. Ela o observou, alarmada. Inclinou-se na direção dele, porém não conseguiu se obrigar a tocá-lo.

– Eu o deixei exausto, tio Carlisle. Posso chamar seu valete para atendê-lo?

Bella saiu apressada sem esperar por uma resposta, mas o valete estava andando de um lado para outro no corredor, assim ela nem precisou buscá-lo.

Que manhã estranha fora aquela, parecera mais longa do que um dia normal, ou mesmo do que uma semana. Sentia-se exaurida. Houvera tão pouca paixão na vida dela até então, e agora havia abundância.


A cozinheira e a governanta levaram suas reclamações pessoalmente ao barão Weston.

A governanta usou seu trunfo de imediato: Se o patrão não confiava nela para contratar os melhores empregados possíveis para cada função naquela casa, declarou, então se demitiria. Não toleraria que damas que nunca vira na vida invadissem sua cozinha e aborrecessem a cozinheira de tal maneira que a pobre mulher duvidava que fosse produzir uma refeição decente.

O barão Weston dispensou a cozinheira e aceitou a demissão da governanta.

– Não havia me dado conta – comentou ele na sala de estar à noite, logo depois do jantar – de como nossas refeições estavam tão pouco agradáveis. Eu lhe agradeço, madame. A Carlton House não serviria pratos mais deliciosos do que os desta noite. Achei que tinha perdido o apetite, mas comi com muita vontade agora.

Angela enrubesceu.

– E os bolos do chá, nesta tarde, estavam leves como o ar – elogiou ele. – Todos os vizinhos tentarão roubar a minha cozinheira.

Ele deu uma risadinha e, subitamente, pareceu melhor do que no dia e meio anterior, reparou Edward. Os Rothes haviam feito uma visita naquela tarde, levando o filho e as duas filhas, e tinham ficado para o chá. O mesmo acontecera com a Sra. Johnson e sua irmã, Srta. Twigge, e o reverendo e a Sra. Crowell. Todos expressaram grande prazer em conhecer a sobrinha do barão e seu marido e pareceram encantados com Alice e Angela, que haviam se afastado por uma hora de suas tarefas na cozinha. A Sra. Crowell se envolvera em uma conversa agradável com Bridget sobre flores, legumes e verduras e cercas vivas, pelo que Edward ouvira.

– Mas não posso, é claro, esperar que continue a trabalhar na minha cozinha, madame – continuou o barão com um suspiro. – Terei que ver o que meu capataz é capaz de me sugerir amanhã.

– Nada me daria mais prazer, milorde – assegurou Angela. – Gosto de me manter ocupada... como o coronel Leavey lhe confirmaria, se estivesse aqui. Cozinhar é a minha grande paixão, assim como o bordado ou a pintura são para outras damas.

– Com sua permissão, milorde – disse Alice –, irei até os aposentos da governanta pela manhã para examinar as contas e organizar as tarefas dos criados para o dia. Não há problema nenhum nisso, embora o coronel Streat empregue toda uma equipe quando estamos em casa, sempre insisto em manter um olho neles eu mesma.

– É uma oferta bastante gentil, madame, enquanto avalio novos funcionários – agradeceu o barão, compreensivelmente surpreso. – Estou impressionado.

Enquanto ele falava, Victoria arrumava uma almofada atrás de sua cabeça e pousava os pés dele sobre um banquinho. Durante o jantar, ela já dissera ao barão que prepararia um chá com uma mistura especial, muito boa para o coração, e lhe serviria na hora de dormir. Edward estava espantado com o fato de eles ainda não terem sido postos na rua por terem mexido em tantos vespeiros. De qualquer forma, as refeições sem dúvida haviam melhorado incrivelmente.

E, enquanto Edward se arrumava para o jantar, Emmett contara que os estábulos tinham recebido uma limpeza em regra, levando embora pelo menos um mês de sujeira. O chefe dos cavalariços se ocupara dando ordens.

– Eu disse ao rapaz – falava o sargento – que talvez ele estivesse deprimido porque o barão dispensara quase todos os caçadores e já não cavalgava mais, nem sequer usava a carruagem todos os dias. Mas acrescentei que isso não era desculpa para que perdesse o orgulho de um serviço bem-feito ou para não cumprir com as obrigações pelas quais era pago e recebia casa e comida. Disse também que, se ele fosse um soldado, seria esperado que mantivesse a arma limpa e carregada, o equipamento em ordem, o estômago sem muito rum, mesmo que não estivesse em meio a uma guerra, porque nunca se sabe quando nossos nobres vão resolver brigar com os de outro país e o armamento precisará ser usado novamente.

No entanto, nenhum dos hóspedes foi mandado embora. Na verdade, Carlisle parecia até gostar da companhia. Só que seus olhos passavam muito tempo presos em Isabella, com uma expressão um tanto taciturna. E ela era a única que fazia muito pouco ou nenhum esforço para conquistar o barão – ou para se exibir como a recém-casada feliz que estava ali para interpretar. Ela ainda estava aborrecida com ele, é claro, percebeu Edward.

Como na noite anterior, todos foram para a cama cedo. Quando já não podiam ser ouvidos por Weston, Victoria comentou que dormir cedo era um luxo do qual nunca se cansaria, e Angela concordou com entusiasmo, principalmente porque precisaria estar de pé cedo para preparar o café da manhã.

Edward não tinha certeza se aqueles horários do campo combinavam com ele. Sentia-se inquieto. Pensou até em voltar ao andar de baixo e sair para uma caminhada, mas viu pela janela que as nuvens haviam se acumulado durante a noite. Estava muito escuro do lado de fora e ele não conhecia o parque bem o bastante para se aventurar sem a orientação de alguma luz. Além do mais, caso Weston o escutasse, se perguntaria por que o marido da sobrinha a abandonara na cama quando o casamento ainda estava na lua de mel.

Edward permitiu que Emmett o ajudasse a tirar o justo paletó de noite e conversou com o sargento por alguns minutos, mas o dispensou antes de se despir por completo. Estava muito ciente do silêncio enquanto permanecia de pé diante da janela. Rosalie também havia saído do quarto de Bella – Edward ouvira as duas conversando e rindo pouco antes.

Ele entrou no próprio quarto de vestir. Não havia luz no de dela, porém o rapaz conseguiu distinguir ao longe o brilho suave de uma vela, então ela estava acordada. Edward hesitou por algum tempo. Conversar em um dos quartos de dormir com certeza não era o mais sábio a se fazer tarde da noite, mas ao menos poderiam ter certa privacidade.

– Estou entrando. Se precisar fazer algo para preservar seu pudor, faça agora.

Isabella estava na janela, usando uma camisola simples e prática na qual parecia muito mais atraente do que qualquer outra mulher usando pura renda. Rosalie havia penteado seus cabelos até ficarem brilhantes e macios e eles agora caíam até o meio das costas. Ela estava descalça, abraçando o próprio corpo, e exibia uma expressão surpresa e um tanto indignada.

– Não se preocupe – disse Edward. – Não vim cobrar meus direitos conjugais.

– Por que veio? – questionou ela, correndo os olhos pela camisa, os calções e os pés ainda com meias. Edward não levara a bengala. – Não tem nada para fazer aqui. Vá embora.

– Supostamente somos recém-casados, Bella. Nosso casamento devia ter sido por amor. Devíamos cintilar com a dimensão recém-descoberta do amor que as noites na cama nos mostraram. Em vez disso, ficamos em silêncio, os lábios cerrados um para o outro, mal conseguindo nos tratar com educação. É desse modo que pretende convencer seu tio de que nosso relacionamento é uma versão do paraíso?

Isabella lhe deu as costas e voltou a encarar a escuridão do lado de fora enquanto Edward apoiava um dos ombros no batente que separava o quarto de vestir do quarto de dormir dela.

– A única coisa de que nos esquecemos quando concordamos em um plano foi que teríamos que fazer juntos. Você atua muito melhor do que eu.

– Você tem tanta aversão assim por mim? – Ele suspirou e a encarou com certa irritação. – Há não muito tempo, só de vê-la entrando em meu quarto, meus dias se iluminavam. Fiquei encantado por você desde o instante em que a vi pela primeira vez. Sabia disso? Antes você escolhia ficar na minha companhia, sentar-se comigo para conversar e ler para mim, mesmo quando não havia necessidade de cuidados médicos. Acha possível esquecermos o que aconteceu para mudar tudo isso?

– Não – retrucou ela, após um longo silêncio. – Não é possível. Coisas como essa não podem ser esquecidas apenas porque queremos. Fui desajeitada, sem a menor habilidade, e fiz com que sentisse aversão por mim.

– Que diabos, Bella. Acha mesmo que me importo com falta de jeito e inexperiência? Só fiquei ressentido porque você me enganou, mas isso é passado. E está na hora de deixarmos para trás o que aconteceu.

– É impossível esquecer. É tolice até sugerir que tentemos.

Ela continuava com a expressão emburrada, ignorando todo o calor nas palavras dele, enervando-o até o limite. Ele sentiu vontade de machucá-la da mesma forma que seu jeito sisudo e frio o machucava.

– Meu Deus, Isabella, estamos falando só de uma ida para a cama. Talvez não tenha sido uma experiência marcante, por algumas razões específicas, mas também não foi de todo ruim. Foi apenas sexo.

– Exatamente.

Mulheres, é claro, eram muito diferentes dos homens no modo de ver esse tipo de assunto. Ele tinha noção disso, embora não soubesse como, mas não devia ter dito uma tolice dessas. Para ela, Edward sabia, a experiência tinha sido marcante, embora não de uma forma agradável. Diabos, naquele momento ele poderia estar mancando pelas ruas de Bruxelas ou de Londres buscando parentes e amigos sob cada pedra. De onde tirara a maldita ideia daquela farsa? Mas sabia de onde.

Isabella quisera ajudar as amigas e ele quisera ajudá-la, porque lhe devia a vida e talvez porque ainda se sentisse encantado, talvez até mesmo apaixonado por ela.

– Bem, você vai ter que atuar melhor amanhã, Bella. Vai precisar fingir que está apaixonada por mim e que esse amor transborda por cada poro do seu corpo. Caso contrário, teremos vindo até aqui em vão e partiremos dentro de um mês sem estarmos melhor do que agora.

Ela se virou para encará-lo.

– Meu tio está com problemas cardíacos e pode morrer a qualquer momento. Disse que está feliz por eu ter vindo e deseja que fiquemos aqui, para que possa nos conhecer melhor... embora tenha visto a nossa briga pela janela esta manhã. Tio Carlisle falou que há um vazio em sua vida desde que minha mãe fugiu com meu pai. Ele está determinado a dar um baile em nossa homenagem. Só que deveria ter feito isso anos atrás. Deveria ter me trazido para visitá-lo com frequência nos últimos dezesseis anos. Deveria ter perdoado a minha mãe antes disso, para que ela viesse visitá-lo comigo. E agora está morrendo.

Bella cobriu a boca com a mão, mas Edward percebeu que ela mordia o lábio superior para controlar as emoções.

– Talvez, Isabella, esteja na hora de você simplesmente perdoá-lo.

– Como posso? Como posso? Minha vida também tem sido vazia. Às vezes eu pensava que era mais mãe do que filha para o meu pai. Tomar conta dele foi um enorme fardo.

Edward a encarou, pensativo. Como eram pesadas as bagagens que as pessoas carregavam do passado... A perda de memória teria sido uma vantagem? Que tipo de assuntos não resolvidos ele estaria carregando antes de cair e bater com a cabeça?

– Odeio isso – falou ela de repente, foi até a cama e afastou as cobertas. – Odeio essa autopiedade, esses resmungos. Não sou assim. Essa não sou eu. Nunca saí por aí declarando que minha vida era vazia, um fardo. Simplesmente a vivia. Por que agora a vejo dessa forma?

– Talvez por ter vindo para cá e, assim, aberto o livro do seu passado. E talvez suas emoções negativas tenham se intensificado porque você veio do modo errado... e eu sou inteiramente culpado por isso.

– Não comece a se oferecer de novo para confessar a verdade a tio Carlisle. – Ela se sentou na cama, segurando no colchão com firmeza, aparentemente não se dando conta da mensagem que poderia passar. – É tarde demais.

– Mesmo que consiga pôr as mãos em sua fortuna, aquelas quatro damas se recusarão a receber um único centavo como forma de recompensa.

– É claro que não recusarão. – Bella arregalou os olhos. – Foi minha culpa. E tudo que elas têm para sustentá-las é o sonho de um futuro diferente.

– Duvido. Elas são mulheres de fibra, Isabella. Sobreviveram a alguns dos golpes mais duros da vida e vão continuar a sobreviver do jeito delas. Não são responsabilidade sua... ou minha. Não desejariam ser.

– Vou encontrar uma forma de persuadi-las. Preciso encontrar. Mas primeiro é necessário convencer tio Carlisle. Ele me disse esta manhã que não tem pressa de me entregar as joias. Falou que você tem condições de me sustentar e que não preciso realmente das joias. É tão injusto... Eu não deveria ter que implorar ou bajular. Se meu tio gosta de mim, deveria me entregar o que é meu de livre e espontânea vontade.

O que Isabella precisava mais do que qualquer outra coisa na vida, pensou Edward de repente, era de algumas gargalhadas. Pareciam ter sido quase inexistentes em sua vida. Mas ele a vira se transformar completamente naquela manhã, quando lutara para subir no cavalo e embolara as pernas nas saias, mostrando uma extensão chocante da perna. Ele a metera na confusão e agora lhe cabia tirá-la dela. Ao mesmo tempo, talvez pudesse pensar em algumas formas de fazê-la rir de novo.

– Amanhã, Bella, teremos que agir como se houvéssemos passado a noite toda nessa cama fazendo amor. Precisamos nos comprometer com essa farsa, já que você não permite que eu termine com ela. Sorria para mim.

– O quê? – Ela o encarou sem entender.

– Sorria para mim. Com certeza não é tão difícil. Já fez isso antes. Sorria.

– Que bobagem!

– Sorria.

Ela esticou os lábios, parecendo desafiadora e constrangida. Edward sorriu também.

– Tente de novo. Imagine que você me ama mais do que a própria vida. Imagine que acabei de fazê-la feliz na cama e que estou me preparando para voltar a fazer o mesmo. Sorria para mim.

Ele ficou satisfeito por ter permanecido onde estava, o ombro ainda encostado no batente, as pernas cruzadas. Quando Isabella sorriu, tudo dentro dele pareceu mudar de lugar, desde os fios de cabelo, até o estômago e o dedão do pé. Sentiu uma pressão na virilha, mas lutou contra ela, consciente de que ainda usava os mesmos calções reveladores.

Edward sorriu lentamente e percebeu que os nós dos dedos de Bella ficavam muito brancos conforme ela agarrava o colchão com mais força.

– Eu a verei nos estábulos amanhã de manhã, na mesma hora de hoje – disse baixinho. – Boa noite, meu amor.

Bella não respondeu. O silêncio seguiu Edward de volta ao próprio quarto, onde ele pagou o preço por aquele breve experimento passando uma hora inteira ou mais sofrendo com um calor inquietante.


Seja bem vinda de volta, Pearl. E espero que tenha voltado pra ficar junto com a Manda, a Veiga, Mickky, gabsmoura e Patylayne. É um prazer tê-las comigo. Abraços e até o próximo! :)