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CAPÍTULO XV

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A aula de equitação teve que ser cancelada porque as nuvens da noite anterior haviam trazido chuva e, quase até o meio da manhã, ainda chuviscava. Assim que o tempo clareou, Edward foi em busca de Jasper Drummond, o capataz de Chesbury, que concordara em lhe mostrar as terras cultivadas da propriedade.

Rapidamente ele ficou muito mais certo de que pertencia à vida no campo. Os cenários, sons e cheiros do parque e dos estábulos lhe eram tão familiares quanto o ar que respirava. Ele achou todo o passeio fascinante – o mar verde das plantações ondulando com o bater da brisa, o solo dos campos de um marrom escuro luxuriante depois da chuva, as vacas e os carneiros pastando nas campinas, os porcos nos chiqueiros, as galinhas e patos andando soltos, a enorme horta, os pomares, o celeiro cheirando a feno e esterco, as carroças, os arados e ancinhos.

– A propriedade parece próspera – comentou Edward quando voltaram aos estábulos.

– E ela é, senhor – concordou Drummond. – E poderia ser ainda mais com algumas melhorias e investimentos, é claro, mas o patrão perdeu um pouco o interesse na terra desde que ficou doente. Ele me deixa resolver as coisas, mas não quer ouvir falar de mudanças.

Edward não desejava se envolver. Não era problema dele, mas compreendia a frustração do homem: ter energia e entusiasmo e não conseguir lhes dar vazão podia comprometer o amor de alguém pela vida. Teria sido isso o que acontecera com ele em algum momento no passado? Seria ele um homem sem objetivo? Sem direção? De repente, Edward se recordou de algo que Emmett lhe dissera em Bruxelas: Quando enfim lembrar quem é, talvez se dê conta de que se transformou num homem melhor do que jamais foi. Talvez tivesse parado de amadurecer ao chegar à idade adulta. Talvez precisasse acontecer algo drástico como perder a memória para que conseguisse evoluir.

Uma coisa ele sabia com certeza: pertencia ao campo, pertencia à terra. Se, ao fim daquele mês, descobrisse que era mesmo um oficial, venderia sua patente. Se fosse realmente o caçula, sem fortuna e sem renda própria, procuraria emprego como capataz, mesmo se sua família – quem quer que fosse – considerasse essa atitude uma mácula no orgulho dela. Não tinha como saber naquele momento que tipo de homem havia sido, mas o homem que era agora estava pronto para assumir as rédeas da própria vida e fazer exatamente o que quisesse.

Seus devaneios foram interrompidos quando Drummond lhe fez algumas perguntas sobre a suposta propriedade em Northumberland. A facilidade com que Edward inventou os detalhes o convenceu mais uma vez de que, no mínimo, possuía conhecimento para tornar plausível a mentira. Quando devolveu o cavalo aos estábulos e voltou para a casa no início da tarde, sentia-se revigorado e mais animado pela primeira vez desde a manhã anterior.

Victoria estava arrancando ervas daninhas em uma das extremidades do parterre. Dois jardineiros faziam o mesmo, um no canto oposto e outro no meio do terreno. Mais quatro jardineiros estavam espalhados além do jardim cortando a grama com gadanhas enquanto dois ajudantes faziam pilhas com o que era ceifado. O aroma de grama recém-cortada e úmida dominava o ar. Isabella estava parada no caminho pavimentado, observando, mas se virou ao ouvi-lo se aproximar e abriu um sorriso devastador.

Edward se perguntou o que fizera para cair nas graças dela até lembrar que a sala de estar de tio Carlisle dava para os jardins. Ele sorriu, passou um braço pela cintura dela e beijou-a. Não a abraçou por tempo de mais – teria sido vulgar, já que os dois estavam à vista de Victoria e de vários criados – nem de menos. Porém, quando ergueu a cabeça, sorriu de novo e manteve o braço ao redor da cintura dela.

– Fiquei fora por duas horas – comentou ele – e pareceu uma eternidade longe de você, meu amor.

– Passei a manhã toda me arrependendo por não ter ido com você.

Edward se perguntou se algum ator no palco já teria se visto quase com uma ereção, pois estava perigosamente perto de exibir uma. Ele sorriu e abraçou-a com mais força por um instante antes de se afastar.

– Suponho que isso seja obra de Victoria, certo? – falou Edward, indicando com a cabeça as pessoas ocupadas à sua frente.

– Alice fez uma reunião com todos os criados e Victoria também participou. Pelo que eu soube por Rosalie, parece que Alice levou todos às lágrimas ao apelar à lealdade deles para com um patrão que sempre os tratou com bondade e generosidade, mas que agora está doente demais para perceber que estão preguiçosos. Essa foi a resposta dos jardineiros. Victoria, é claro, não conseguiu resistir a juntar-se a eles.

Edward riu. Bella ergueu os olhos para ele e riu também. Ela estava usando um vestido limão bem claro e, mais uma vez, Rosalie fizera um excelente trabalho com seus cabelos, arrumando-os em um halo castanho de cachos e mechas. É claro que não era necessário reparar nesses detalhes, pois ela era a beleza em pessoa, mesmo vestida com uma camisola de algodão simples e os cabelos soltos. Pensando na possibilidade de o tio dela estar observando, Edward beijou-a na ponta do nariz.

– Percebe a diferença, Isabella? – perguntou Victoria, erguendo o corpo e passando as costas da mão enluvada pela testa suada.

– Sim – admitiu ela, observando a parte do canteiro que acabara de ser limpa. – Como as cores das flores parecem mais vivas agora! E que cheiro glorioso da grama!

Ela fechou os olhos e inspirou, parecendo absolutamente feliz. Edward a observava.

– Victoria, ainda vamos tornar Isabella uma mulher do campo.

A cortesã olhou de um para o outro e sorriu.

– Espero que sim. Pelo bem de vocês dois, espero que sim, Sir Jonathan.


Bella passara a maior parte da noite anterior acordada. Depois que Jonathan saíra do quarto, milhares de pensamentos encheram sua mente, nenhum deles agradável.

Chegara à conclusão de que tudo que poderia fazer no mês seguinte era continuar o que começara e fazer o papel dela o melhor possível. Também decidira deixar qualquer ideia preconcebida de lado e se dar a oportunidade de conhecer o tio. Afinal, talvez nunca tivesse outra chance. Não sabia se ele se recuperaria do próximo ataque cardíaco.

De qualquer modo, não estava ali para roubá-lo. Abandonaria o mau humor e a culpa. Estava mortalmente enjoada de ambos. Ela jamais conseguiria mudar o passado. Viveria o presente e moldaria o futuro o melhor que pudesse. Dessa forma, durante a semana seguinte, Isabella aprendeu a montar – lenta e dolorosamente, mas com empenho – e foi recompensada com uma sensação de realização e de prazer que quase nunca experimentara antes. Passou vários momentos com o tio, muitas vezes procurando-o, não só o evitando quando não tinha muita escolha. Recebeu várias visitas dos vizinhos e as retribuiu com Jonathan, Victoria e às vezes Alice – embora ela ficasse a maior parte do tempo debruçada sobre os livros de controle da casa, tentando pôr alguma ordem no caos, ou sobre os livros de contas da propriedade com o Sr. Drummond, enquanto ele pacientemente interpretava colunas e números para ela.

Bella foi à igreja e ajudou Alice e Victoria a sobrescritar os convites para o baile, com base em uma lista que o tio lhe entregara.

Deixou o amor transbordar de cada poro de seu corpo, como Jonathan pedira, sorrindo para ele, rindo com ele, montando a cavalo e caminhando com ele, passeando pela fazenda com ele e ouvindo as explicações dele. De mãos dadas e dedos entrelaçados, permitindo que Jonathan beijasse sua mão e até mesmo os lábios a cada mínima desculpa, sentando-se ao lado dele, conversando com ele, olhando-o com admiração e devoção e, de modo geral, comportando-se como uma recém-casada nos primeiros dias de um casamento por amor.

Muitas vezes, ela quase se esquecia de que era tudo encenação.

O espelho lhe mostrava que seus olhos estavam mais brilhantes e o rosto, mais corado do que nunca, desde sua infância. Por mais que ansiasse para ver terminado o fardo daquele mês e por mais que se lembrasse de que as amigas deviam estar ansiosas para pegar a estrada e começar a busca por James Crawley, uma parte dela temia deixar Chesbury e voltar a Londres para procurar emprego novamente, caso o tio se mostrasse determinado a não lhe entregar as joias.

Certo dia, quando estavam todos saboreando o delicioso e farto almoço de sopa de legumes, pão recém-assado e queijo, seguido por bolo de maçã e creme, tudo preparado por Angela, Isabella percebeu como a aparência do tio mudara para melhor durante a semana anterior. Ele com certeza ganhara peso. Às vezes, ainda parecia abatido e taciturno, principalmente quando a olhava, mas encontrara energia para receber algumas pessoas e parecia muito mais animado. Demonstrava muito carinho por Alice, Victoria e Angela. Bella sorriu para ele.

– O pastor e a esposa virão nos visitar esta tarde – avisou o tio. – Ele precisa conversar sobre algumas coisas comigo, e a Sra. Crowell deseja falar sobre jardinagem com a Srta. Clover, eu acredito. Drummond vai levar a Sra. Streat para ver o ferreiro, e a Sra. Leavey, como sempre, insiste em nos preparar o chá e o jantar. Por que você e Sir Jonathan não dão um passeio esta tarde, Isabella? Os últimos dias têm estado frios e nublados, mas hoje está quente e ensolarado. Seria uma pena desperdiçar um dia destes ficando em casa.

A não ser pelas aulas de equitação de manhã, quase todo o tempo que Bella passara com Jonathan fora na companhia dos outros. Ela não estava certa se desejava ficar sozinha com ele sem cavalos para desviar a atenção.

Ela se virou para Jonathan com uma expressão de dúvida, torcendo para ele arrumar alguma desculpa. Ela não era a única que mudara de aparência devido ao ar do campo. Jonathan estava levemente bronzeado, apesar de os últimos dias terem sido nublados, e mais lindo do que nunca. Ele sorriu, com uma expressão de branda adoração nos olhos, e pousou a mão na dela, sobre a mesa.

– Que ideia brilhante! Aonde nos sugere ir, senhor?

– Ao lago, talvez – respondeu tio Carlisle. – Ainda não estiveram lá, não é mesmo? Peguem um dos meus barcos para ir até a ilha. Imagino que não esteja muito bem cuidada este ano, mas sempre foi um recanto tranquilo. É um lugar discreto e com uma vista agradável do parque.

– Ah, sim, leve Isabella à ilha, Sir Jonathan – entusiasmou-se Alice. – Deve ser um cenário belíssimo. E vocês ficarão completamente a sós lá.

Havia um brilho travesso nos olhos dela quando se virou para Bella.

– Leve a sombrinha para proteger a pele – aconselhou Victoria.

– Tenho medo de andar de barco – confessou Bella.

– Que bobagem, meu amor! – Jonathan sorriu e apertou sua mão. – Você ficava parada na amurada do navio sempre que podia, quando estávamos vindo de Ostend, e se divertia bastante.

– Mas aquele era um navio grande. Agora seria um barquinho pequeno na água.

– Não confia em mim para mantê-la em segurança? – Jonathan aproximou mais a cabeça até ela.

Isabella suspirou.

– Ah, você sabe que confio em você com a minha vida, Jonathan.

– Muito bem, então. – Ele levou a mão da jovem aos lábios. – Está resolvido. Obrigado, senhor, por nos dar licença em relação às visitas desta tarde. Devo confessar que a perspectiva de uma tarde inteira sozinho com a minha esposa é tentadora.

– Prepararei um piquenique para vocês – ofereceu Angela.

E assim, menos de uma hora mais tarde, Jonathan estava arrumando uma cesta de piquenique no barco que o chefe dos jardineiros dissera ser o mais firme. Bella encarava tanto a embarcação quanto a água com uma expressão desconfortável. Ela sempre achara o lago grande. Agora, parecia enorme, quase como um mar. Não sabia nadar – um fato que não importara muito quando transitara entre a Inglaterra e a Bélgica. Nessas ocasiões, argumentara consigo mesma que, se o navio afundasse, a habilidade de nadar não seria de grande valia para a sobrevivência, de qualquer modo.

– Isso é realmente necessário?

– Depois que o seu tio sugeriu? – retrucou Jonathan. – Eu diria que sim. Além do mais, você prefere ficar sentada entretendo o digno pastor e sua esposa em mais uma visita?

Isabella percebeu que a pergunta era retórica, mas não estava certa se daria a resposta esperada, se fosse o caso. Jonathan estendeu a mão para ajudá-la a entrar no barco, parecendo muito firme, embora só houvesse deixado a bengala de lado uns dois dias antes. O barco oscilou de forma alarmante quando Bella entrou, mas ela se sentou rapidamente em um dos bancos e se conformou com a própria sorte. Jonathan tirou o paletó antes de se acomodar no banco oposto e colocou-o no fundo da embarcação, junto com a cesta. O chapéu dele logo teve o mesmo destino e a brisa brincou com os cabelos mais longos. A aparência dele era saudável e viril.

– Você parece incrivelmente animado – comentou Bella, abrindo a sombrinha para proteger a nuca dos raios de sol, enquanto Jonathan pegava os remos.

– Por que não estaria? – perguntou Jonathan, manobrando o barco para dentro da água.

Bella se agarrou à amurada com a mão livre.

– O dia ensolarado é o bastante para trazer uma sensação de bem-estar a qualquer um.

– Achei que você não tinha a mínima vontade de ficar sozinho comigo.

Bella relanceou o olhar para a perna esquerda de Jonathan, que ele flexionava e esticava conforme remava. Era difícil acreditar que aquele era o mesmo homem que, não muito tempo antes, estava deitado no bordel, parecendo mais morto do que vivo. Quem era ele? Às vezes se esquecia de que ele não era Jonathan Smith. Para ela, era estranho não saber nem seu nome verdadeiro – imagine para ele.

– Mas não somos crianças para brigar a cada oportunidade, certo, Bella? Podemos concordar em aproveitar juntos uma tarde livre?

– Acho que sim – respondeu ela, olhando ao redor.

As árvores na margem oposta pareciam mais verdes que o normal. A água do lago cintilava ao pôr do sol e, por algum motivo, parecia menos assustadora agora que ela estava ali. Ou talvez fosse porque Jonathan sabia o que fazia com os remos.

– Você sabe nadar?

– Mais uma das suas perguntas capciosas? – indagou ele. – Devo mergulhar para saber? Mas o que você faria se descobrisse que não sei e a última coisa que visse de mim fosse uma bolha na superfície? Acabaria encalhada aqui pelo resto de sua vida de viúva. Sim, Isabella, sei nadar. É estranho, não é, que eu saiba certas coisas impessoais como essas a meu respeito? Você sabe nadar?

– Não. – ela deslizou a mão livre pela água. Estava fria, mas não muito. – Nunca tive a oportunidade de aprender.

– Teremos que consertar isso também.

Bella não discutiu. Sempre achara que nadar devia ser delicioso, conseguir se mover através de um meio diferente, flutuar misteriosamente na aparente fragilidade da água. Agora, mais do que nunca, ansiava aprender tudo que perdera crescendo em Londres, sem nunca ter se aventurado no campo, nem mesmo para uma curta visita.

– O que você fazia para se divertir na infância? – perguntou Jonathan.

Bella mal soubera que o verbo "se divertir" poderia se aplicar a ela.

– Eu lia, costurava e bordava. Às vezes pintava. Quando Victoria ainda estava comigo, e acho que também enquanto a minha mãe estava viva, eu costumava sair para longas caminhadas no Hyde Park e em outros lugares. Às vezes levávamos uma bola.

– E depois que Victoria foi embora?

– Eu não tinha permissão para sair sem uma criada. Às vezes, quando tínhamos uma criada, costumávamos ir à biblioteca. Umas poucas vezes fui às compras com nossos vizinhos.

– Ir para Bruxelas deve ter lhe parecido uma enorme aventura.

– De certo modo. – Bella sorriu. – Mas você deve lembrar que eu estava trabalhando e meus deveres me mantinham ocupada.

– Lady Mallory levava você à rua com ela? – perguntou ele. – A bailes, eventos e visitas?

– Não. Lady Mallory estava em Bruxelas porque o filho dela era oficial da cavalaria. A Srta. Donovan, prometida dele, também estava lá com os pais. Eu não era necessária, então, a não ser durante as manhãs. Ou para servir chá e ficar à disposição caso Lady Mallory recebesse visitas.

– Ah. Então não existe nenhuma chance de você ter me visto lá.

– Nenhuma. O mais perto que cheguei de ir a qualquer festa foi na noite de um piquenique sob o luar, na floresta de Soignés. Eu iria porque Lady Mallory queria que eu carregasse seus xales, para caso a noite ficasse mais fria. No entanto, no último momento, o Sr. Donovan resolveu que acompanharia a esposa e a filha, e não havia espaço para mim na carruagem.

Isabella exibia uma decepção amarga. Jonathan a encarava e piscava rapidamente. Ele parara de remar.

– O que foi? – Ela se inclinou para a frente. – Você estava lá?

Bella notou a tensão no rosto dele, o esforço que fazia para se lembrar. Gotas de suor escorriam de sua testa. Mas, depois do que pareceu um minuto inteiro, Jonathan balançou a cabeça.

– Quem ofereceu o piquenique?

– Não consigo me lembrar – respondeu ela após pensar por alguns instantes. – Um conde, eu acho. Não tinha uma reputação muito boa e houve muito falatório porque ele quase comprometeu uma jovem dama que foi tola o bastante, imagino, para se tornar presa de seu encanto. O nome dele me escapa, mas sei que nunca esteve na casa de Lady Mallory.

– Às vezes – falou Jonathan com um suspiro –, é como se houvesse uma cortina pesada diante da minha memória, que balança e ameaça se abrir. Entretanto, toda vez ela volta a ficar parada, firme no lugar. Se eu estava na Bélgica naquela época, é bem possível que tenha comparecido ao tal piquenique. Por um momento, tive certeza de que compareci. Mas já estou ficando entediado com essas referências intermináveis ao lamentável estado da minha mente. Eu a trouxe até aqui para que pudéssemos aproveitar a tarde. Você está aproveitando?

– Estou – respondeu Bella.

E era verdade.

Para ser sincera, vinha se tornando cada vez mais viciada no campo. Cavalgar, explorar o parque, fazer visitas, passear pelos adoráveis jardins e agora andar de barco no lago – tudo parecia um longo idílio. Isso, é claro, se ela ignorasse os aspectos negativos de sua estadia, que poderiam lhe roubar a alegria do momento se refletisse muito sobre eles. Naqueles dias, estava determinada a ignorá-los.

Jonathan voltara a remar e estava manobrando o bote ao longo de um pequeno quebra-mar na ilha. Amarrou o barco com firmeza a uma estaca e ajudou Bella a desembarcar. A ilha parecia maior do que quando vista da terra firme. O terreno se erguia já desde a beira da água. Eles subiram ao topo, mesmo podendo ter seguido por uma das trilhas malcuidadas à esquerda e à direita, que aparentemente os guiariam ao redor do perímetro. Jonathan carregava a cesta de piquenique, embora ela houvesse se oferecido para fazer isso, devido à perna esquerda fraca dele, que ainda o fazia mancar um pouco. Havia arbustos e algumas árvores na subida, mas o topo da colina era coberto pela relva um pouco alta e um mirante – era um local bem isolado, feito de pedra e com um aspecto arruinado, mas esse parecia ser o objetivo quando o construíram.

Um banco firme de madeira fora colocado sob o teto de ardósia e oferecia proteção da chuva e do vento e uma vista esplêndida do lago, dos estábulos e da casa. O dia estava adorável, ensolarado, com uma brisa suave e morna, e a sombra do refúgio não os atraiu. Depois que Jonathan pousou a cesta no chão e Bella apoiou a sombrinha ao lado dele, os dois passearam pela área aberta, admirando toda a paisagem. O cenário mais lindo era o do rio cascateando sobre as pedras e desaguando no lago, a certa distância.

Bella sentia o calor do sol em seus braços nus e no corpo todo. A água era de um azul claro e profundo. Ela inspirou o aroma da relva, das flores e da água. Não conseguia se lembrar de nenhuma outra vez em que houvesse experimentado tamanho bem-estar. Nem mesmo aquela manhã nas cascatas se comparava com aquilo. Ela inclinou a cabeça para trás a fim de sentir a luz e o calor no rosto, abriu os braços e girou.

– O mundo não é um lugar muito lindo?

Jonathan já voltara para perto da cesta. Ele estava abaixado, apoiado em um dos joelhos, abrindo sobre a grama a manta fina que Angela também colocara na cesta. Deixara o casaco e o chapéu no barco. A camisa dele oscilava com a brisa, assim como os cabelos. Ele ergueu os olhos para Isabella, semicerrados contra a luz do sol.

– Com certeza é. E a mulher parada no topo do mundo agora não é um atrativo menor.

O constrangimento deixou Bella fraca. Seus braços penderam ao lado do corpo e ela se sentiu uma tola pelo espetáculo de exuberância.

A ilha parecia subitamente muito isolada. E lá estava ele, mais vigoroso, mais atraente do que qualquer homem tinha o direito de ser. Jonathan ficou imóvel por longos minutos, o ar parecendo vibrar entre os dois. Ele desviou o olhar primeiro. Então ficou de pé depois de fechar a tampa da cesta e abrir a manta.

– A questão é, Bella – disse ele, irritado –, que sempre que nos encaramos por mais de alguns segundos, nos sentimos atraídos, mas a imagem do episódio feio entre nós acaba interferindo no que temos no presente. Um impulso de puro desejo da minha parte e de tentação da sua parte, e nossa amizade se foi. Nada nunca mais foi o mesmo.

Toda a luminosidade e alegria abandonaram o dia. Era como se nuvens pesadas houvessem coberto o sol, embora na verdade o céu permanecesse sem nuvens. Ela abraçou o próprio corpo como se para se proteger do frio.

Desejo. Tentação.

Eles tinham sido amigos mesmo? Sim, é claro. E existira certa ternura.

– Leve-me de volta para casa – pediu ela –, arrume suas coisas e vá embora. Eu explicarei a tio Carlisle. Não precisa se preocupar mais. Você não me deve nada.

– Não foi isso que eu quis dizer – replicou Jonathan com um suspiro. – Só lamento por aquele relacionamento perdido e me pergunto se o mesmo acontece com você.

– Nós não temos um relacionamento.

– É claro que temos – falou Jonathan, novamente impaciente. – Não duvido que, depois do seu passado difícil, você anseie por assumir o controle da própria vida antes de se acomodar no casamento e na maternidade. Já eu anseio por descobrir meu passado e, de algum modo, alinhar meu presente e meu futuro com ele. Vamos seguir nossos caminhos separados quando o mês terminar e provavelmente nunca mais voltaremos a nos encontrar... Mas com certeza sempre haverá uma espécie de relacionamento entre nós. Sempre vamos nos lembrar um do outro, quer desejemos ou não. Nunca esquecerei a mulher que me salvou e acredito que você nunca esquecerá o homem que salvou. É assim que vamos nos recordar um do outro? O mês que se passou desde aquela noite não foi feliz ou confortável para nós, certo?

Isabella fora feliz durante a semana anterior. Jonathan parecia sempre muito risonho, vívido. Eles haviam se comportado como recém-casados apaixonados quando estavam juntos, mas ele tinha razão. Com a possível exceção das manhãs em que montaram a cavalo juntos, não se sentiam confortáveis na companhia um do outro. E haviam se sentido naquelas duas semanas em Bruxelas, antes de irem juntos para a cama.

– O que sugere, então? – perguntou Bella. – Que troquemos um aperto de mão e façamos as pazes?

Ela virou a cabeça para fitar o trecho que ia do lago até as cascatas. Tinha vontade de chorar. Apaixonara-se um bocado por ele antes daquela noite. Desde então ficara atraída por Jonathan – fisicamente atraída – e essa não era nem de longe uma sensação tão reconfortante. E eles também haviam sido amigos. Ela perdera um amigo.

– O que precisamos fazer, Isabella, é voltar atrás de alguma maneira e criar lembranças diferentes para levarmos conosco em nossos futuros separados. Lembranças melhores.

– O quê?

Bella olhou para Jonathan por sobre o ombro. Ele estava parado em uma das pontas da manta, os pés separados, as mãos apoiadas nos quadris estreitos, a camisa balançando com a brisa.

– Precisamos fazer amor – explicou Jonathan, com a voz rouca –, só que desta vez com mais prazer, mais alegria, mais afeto. Precisamos levar esse relacionamento a uma conclusão plena e feliz. Aqui, ao ar livre, sob a luz do sol, no calor do verão. Precisamos, Bella.


Que reviravolta, rs. Será que isso vai dar certo?