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CAPÍTULO XVIII

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– Ah, meu Deus, Bella, eu poderia chorar – disse Rosalie. – Mas, em vez disso, encontrarei um canto tranquilo e dançarei a noite toda com Emmett, querendo ele ou não.

Bella também se sentia prestes a cair no choro. Nunca parecera nem de longe tão magnífica quanto naquele momento.

O vestido era de renda branca sobre uma anágua de cetim branco, a saia de cintura alta muito cheia, embora caísse em pregas suaves ao redor do corpo quando Isabella ficava parada. O babado de renda na bainha tinha uma estampa de folhas verdes, bordado com delicados ramos verdes. O corpete era discreto, de um cetim verde-primavera, as mangas curtas e bufantes detalhadas de verde e branco. Os sapatinhos eram verdes e as longas luvas, brancas. Rosalie arrumara os cabelos dela em um penteado alto, embora cachos também emoldurassem o rosto de Bella caindo pelas têmporas e na nuca. Ela usava duas plumas nos cabelos, que haviam sido arrumadas atrás e curvadas de forma convidativa sobre o topo da cabeça.

– Você fez maravilhas por mim, Rosalie – comentou Bella com um suspiro diante do espelho grande no quarto de vestir.

– Acredito que isso foi obra da natureza – interveio outra voz. – Rosalie apenas acrescentou os toques finais.

Jonathan estava parado no arco entre os dois quartos de vestir. Bella se virou depressa para encará-lo.

Ele parecia magnífico como sempre em suas roupas de noite, que já vira quando chegaram a Chesbury, só que Jonathan havia mudado desde então. Ele estava levemente bronzeado e em forma e cortara os cabelos, embora uma mecha ainda insistisse em cair charmosamente sobre a sobrancelha direita dele. Talvez Isabella estivesse sendo parcial, mas não acreditava que já tivesse visto um homem mais lindo em toda sua vida.

– Nossa! – exclamou Rosalie. – Como você está lindo! Eu gostaria que o houvéssemos amarrado nu às colunas da cama em Bruxelas quando tivemos oportunidade.

Jonathan sorriu e balançou o dedo para ela. Seus dentes eram de um branco ofuscante em contraste com o rosto bronzeado.

– Mas vocês quatro teriam me exaurido, Rosalie, e a esta altura eu seria uma mera sombra do meu antigo eu.

– Mesmo a sua sombra seria capaz de fazer uma mulher suspirar. Emmett ainda está nos seus aposentos? Preciso ensiná-lo a dançar.

– Ele já fugiu para o andar de baixo. Para se esconder do destino sombrio que o aguarda, acredito.

– O pobre querido... – disse Rosalie com ternura enquanto saía do quarto. – Não tem ideia do que está prestes a atingi-lo.

Jonathan sorriu para Bella e ela percebeu que não conseguia mais vê-lo com imparcialidade.

Por quase um mês vinha fazendo o papel da esposa devotada, e a farsa tivera um efeito definitivo sobre suas emoções. Isso sem contar aquela tarde na ilha – que não fora repetida ou mencionada desde então, embora com certeza não houvesse sido esquecida. Não mesmo. Como ela poderia esquecer?

– Você está mesmo linda – disse Jonathan, entrando de vez no quarto de vestir.

– Obrigada. – Ela lhe deu um sorriso melancólico. – Vou me divertir esta noite como nunca me diverti antes. É meu primeiro baile e talvez meu último. É o fim, Jonathan. Tem noção disso, não é? Amanhã vou procurar meu tio e pedir novamente as joias. Caso ele se recuse a me entregar, não pretendo continuar a lutar. Depois de amanhã vamos partir de qualquer maneira e então você estará livre.

– Estarei? – perguntou ele em voz baixa. – Bella, precisamos...

Uma batida à porta do quarto o interrompeu. Jonathan abriu-a. O tio de Bella entrou, mas logo parou abruptamente.

– Ah, Isabella, você não tem ideia de quanto ansiei por vê-la assim – falou ele, admirando-a. – Ou como ansiei para ver sua mãe enfeitada para o primeiro baile dela.

Bella não queria brigar com o tio, não naquela noite, mas a pergunta escapou de sua boca antes que ela pudesse se conter:

– Por que o senhor disse que, se as coisas saíssem à sua maneira, eu teria sido apresentada à sociedade quando fiz 18 anos?

O barão não aceitou a cadeira que Jonathan lhe ofereceu.

– Seu pai não permitiria. Assim como não permitiu que eu a trouxesse para cá para passar férias quando você era menina nem que eu a mandasse para uma boa escola de moças. Pelo que você me contou nas últimas semanas, percebi que ele nunca deixou que você recebesse nenhum dos presentes de Natal e de aniversário que eu lhe mandava todo ano. Seu pai também não autorizou que sua mãe se comunicasse comigo de maneira alguma depois que se casaram... até ela estar no leito de morte. Já não o culpo de todo. Lidei mal com a questão do namoro deles. Eu era jovem, autoritário e absolutamente inflexível. Levei-os a fugirem, mas como posso lamentar o que aconteceu se a união entre eles gerou você?

Estranho como a verdade era simples.

E como acabava num átimo com dezesseis anos de mal-entendidos. O tio não a negligenciara, nem à mãe dela. Eles haviam sofrido com longos anos de separação e infelicidade porque, muito tempo antes, dois homens teimosos brigaram por uma mulher: um, irmão e tutor; o outro, apaixonado por ela.

– Tio Carlisle... – começou Bella, dando dois passos na direção dele.

O barão ergueu a mão para detê-la.

– Vamos nos sentar e conversar sobre isso amanhã, Isabella. Eu, você e seu marido. Há muito a ser dito, mas pode esperar. Nada vai ameaçar o nosso prazer esta noite. Enfim a verei dançar em um baile oferecido por mim... com um marido à sua altura e capaz, eu acredito, de lhe dar a longa vida de felicidade que você merece.

Bella sentiu como se alguém houvesse enfiado uma faca em seu estômago e a torcido. Ah, o preço da mentira! Jonathan havia cruzado as mãos nas costas e a encarava intensamente.

– Vim trazer isto – falou o barão, mostrando um estojo de veludo que Bella não notara até aquele momento. – Eram de sua tia, Isabella, e agora são suas. Fico feliz por você não estar usando nenhuma outra joia.

Ele abriu o estojo e Bella se viu olhando para um colar de pequenas pérolas com uma esmeralda engastada em um pendente de diamantes. Em um dos cantos do estojo havia um par de brincos de esmeralda e diamante combinando.

– Meu presente de casamento para você.

Bella achou que suas pernas iriam ceder. Então, sentiu o braço firme de Jonathan ao redor da cintura.

– É um lindo conjunto, senhor – elogiou ele. – Estava lamentando não ter a chance de comprar joias para a minha esposa. Mas agora me sinto quase feliz por isso. Permita-me.

Jonathan tirou o colar do estojo e prendeu-o no pescoço de Bella. A joia caiu pesada, fria e magnífica contra o colo dela, a esmeralda aninhando-se logo acima do decote. Jonathan também colocou os brincos nas orelhas dela e sorriu, ainda o ator consumado, como se não sentisse como era trágico o que estava acontecendo.

– Tio Carlisle...

Bella se aproximou e o tocou pela primeira vez. Enlaçou o pescoço do tio e pressionou o rosto contra o dele, mas não conseguiu dizer nada significativo, pois a garganta estava dolorosamente apertada.

– Tio Carlisle...

Ele deu um tapinha carinhoso nas costas dela.

– As joias não são necessárias para aumentar sua beleza, isso é certo. De qualquer modo, estão onde devem estar. A quem mais eu daria as joias de Esme? Restam apenas um primo distante e a esposa dele, e nunca os vejo.

Isabella devolveria as joias no dia seguinte, é claro. O colar era como uma corrente de culpa ao redor de seu pescoço. Porém, prometera aquela noite a si mesma e, o mais importante, ao tio também. Talvez em algum momento do futuro – rogava a Deus para que ele vivesse tanto – o barão conseguisse perdoá-la pelo que ela fizera, ou ao menos se lembrasse daquela noite com menos sofrimento do que sem dúvida experimentaria quando descobrisse a verdade.

Bella recuou, sorriu e deu o braço a ele.

– Vamos descer?

Ela se virou para Jonathan, ainda sorrindo, e lhe deu o outro braço. Smith pressionou o braço dela contra o corpo para tranquilizá-la, mas que consolo ele poderia oferecer? O esquema parecera uma grande travessura quando Jonathan o sugerira em Bruxelas. E ela concordara. Portanto, não podia culpá-lo por nenhuma das consequências da farsa.


Aquele era um baile do campo e não se comparava em nada a alguns dos maiores que a aristocracia de Londres oferecia nas temporadas sociais que Edward estava certo de que frequentara, mas o que faltava em números e brilho sem dúvida era compensado com entusiasmo.

Todos os convidados, ao que parecia, estavam ali para se divertir. E foi o que fizeram enquanto a orquestra tocava e os dançarinos executavam os passos complicados e animados de uma quadrilha atrás da outra. Porém, ninguém ofuscou o brilho de Isabella ou aproveitou mais do que ela a noite.

Edward estava fascinado por ela, assim como muitos outros convidados, pelo que podia ver. Na verdade, era mais do que fascinação: estava, é claro, perdidamente apaixonado. Tivera absoluta certeza disso naquela tarde na ilha. Desde então, havia sido uma agonia mortal se manter indiferente a ela quando estavam a sós e, em público, dar conta da dupla farsa que era fingir que simulava amor e devoção. Os três batentes entre os quartos dos dois tinham sido um convite cada vez mais difícil de resistir.

Ele não queria arrastar Bella para um envolvimento mais profundo que talvez não levasse a nada, a não ser a um coração partido depois que ele recuperasse o próprio passado. Estava decidido a fazer algo por ela. Ficara claro como água que o tio a amava e que Bella poderia ser feliz ali, ainda mais após a breve explicação do barão para a aparente negligência dele. Aquele era o lugar dela.

Edward decidira que, depois que os dois partissem, ele voltaria. Iria confessar a verdade a Weston, assumir toda a culpa – nada mais justo – e interceder a favor de Bella. Se o barão a amava tão profundamente como Edward acreditava, de forma incondicional, a perdoaria e a levaria de volta para casa e com o tempo, Bella se casaria, se acomodaria e teria a sensação de pertencimento mesmo após a morte de Carlisle Weston. Talvez se a busca de Edward pelo próprio passado o levasse a descobrir que não era um homem casado ou comprometido... Mas ainda não ousava pensar nisso.

Edward e Bella dançaram juntos o primeiro conjunto de quadrilhas. Se estivessem em um baile londrino e aquele fosse o evento de apresentação dela à sociedade, os modos de Bella seriam severamente censurados pelos mais altos moralistas. Era moda que as jovens damas demonstrassem um permanente ar de tédio, como se a transição da sala de aula para o salão de baile exigisse a mudança da alegria juvenil para o cinismo da maturidade. E Isabella era o júbilo em pessoa. Ela também conhecia os passos intrincados da dança e os executou com precisão cuidadosa por alguns minutos até dar uma risada súbita e deixar a seriedade de lado para apenas se divertir. Ele riu também.

– Talvez fosse bom você economizar alguma energia para mais tarde.

– Por quê? – O rosto dela já estava enrubescido e os olhos brilhavam. – Por que sempre guardamos as coisas de valor para mais tarde? Quero viver o agora. Talvez seja tudo que eu tenha.

– O agora é sempre tudo que temos – retrucou ele, rindo de novo ao bater o salto do sapato no chão junto com ela, mas a frase ficou em sua cabeça por muito tempo depois que a falou.

Edward viu Weston parado perto das portas duplas do salão de baile com um dos vizinhos. Contente, ele observava Isabella balançando a cabeça no ritmo da música. Ainda não aparentava ser um homem saudável, porém sua pele perdera o tom cinzento e já não estava mais quase esquelético, parecendo à beira da morte. Se ao menos ele conseguisse viver por mais um ou dois anos, pelo bem de Bella...

O casal de fachada também dançou com outros parceiros. Edward bailou com Alice e Victoria, entre outras. Fazia muito tempo que ele deixara de lado a esperança – e o medo – de ser reconhecido naquela vizinhança. Pelo que soubera, muito poucas famílias tinham o hábito de ir a Londres e nenhuma delas se movia pelos círculos da aristocracia.

Logo antes do jantar houve a valsa – a única da noite. Vários casais assumiram seus lugares no salão, mas não tantos quanto nas outras danças. Bella estava de braço dado com o tio.

– Não vai valsar? – perguntou Edward, indo até eles.

– Infelizmente não conheço os passos – confessou ela.

– Então está na hora de aprender – falou ele, estendendo a mão.

– Aqui? Agora? Acho que não – replicou Bella, os olhos arregalados.

– Vai se acovardar, meu amor? – Ele sorriu. – Eu a ensinarei.

– Vá, Isabella – incentivou o tio.

Edward achou que Bella iria recusar, mas ela riu e aceitou a mão que ele lhe oferecia.

– Por que não? Se eu passar uma enorme vergonha, sem dúvida divertirei os convidados e lhes darei assunto pela próxima semana, pelo menos.

Não era fácil ensinar alguém a valsar enquanto outros casais rodopiavam pelo salão. Porém, a plateia logo entendeu o que estava acontecendo e começou a gritar palavras de encorajamento e a aplaudir. Pareciam se divertir mais do que nunca. Bella continuou a brilhar, mesmo quando tropeçava, empacava, ria e voltava a tentar seguir o comando dele com determinação. Então, de repente, após alguns minutos, ela pegou o ritmo, decorou os passos e, risonha, passou a olhar nos olhos dele, e não para os pés.

– Estou valsando.

– Você está valsando – concordou ele. – Agora relaxe e me deixe guiá-la.

Ela obedeceu e logo os dois valsavam com habilidade, embora Edward não tentasse nenhum passo mais elaborado ou rodopio.

Isabella mordeu o lábio inferior e seu sorriso desapareceu ao encará-lo. O braço direito de Edward estava ao redor da cintura dela, a mão esquerda de Bella no ombro dele, as outras mãos unidas. Apenas alguns centímetros os separavam. Edward podia sentir o calor do corpo dela e o perfume de gardênia. Ele andara a cavalo com ela, caminhara com ela, até mesmo nadara com ela. Porém, mal a tocara desde aquela tarde na ilha e evitara estar tão próximo assim, e ela também. Mas o que os dois poderiam fazer agora? Estavam valsando juntos no salão de baile de Chesbury, algumas dezenas de olhos os observavam e outros casais também dançavam. Mesmo assim, pareciam estar sozinhos, rodopiando lentamente por um mundo mágico destinado a desaparecer logo. Após mais dois ou três dias, Edward talvez nunca mais a visse de novo.

A linda, linda Isabella. Seu anjo.

– Bem, qual é o veredicto para seu primeiro baile? – perguntou ele, depois de dançarem por vários minutos em silêncio.

– Foi mágico – respondeu Bella, pondo em palavras o pensamento dele. – Está sendo mágico. Ainda não terminou.

Contudo, Edward percebeu que ela tinha consciência de que estava quase acabando. Aquele era um baile rural e os habitantes do campo não dançavam a noite toda como em Londres durante a temporada, pois a maior parte dos londrinos não tinha nada o que fazer no dia seguinte além de dormir e se levantar para mais eventos sociais. O baile terminaria logo depois do jantar. Parte do brilho se fora dos olhos dela.

De repente, eles cintilavam de novo, mas agora com lágrimas que ela tentou esconder baixando a cabeça. Por sorte eles estavam perto das portas francesas que se abriam para uma varanda. Edward guiou-a até lá ainda valsando e parou junto ao parapeito de pedra. O ar noturno foi uma bênção, fresco em contraste com o salão abafado.

– Jonathan – disse Bella, envolvendo o pingente de esmeralda do colar –, não posso mais fazer isso.

Ele sabia exatamente a que ela se referia e levou uma das mãos à nuca de Rachel.

– Nunca me ocorreu que talvez eu o amasse – continuou ela. – E que talvez ele me amasse. Nunca me ocorreu que talvez houvesse uma explicação para a aparente negligência do meu tio.

– Você deveria ter vindo para cá quando ele a convidou.

– Depois da morte do meu pai? – Bella desviou o olhar para o lago, que refletia um raio de luar. – Eu me sentia abalada, abatida. Achei que, se tio Carlisle tivesse qualquer vestígio de sentimento por mim, haveria me procurado, como depois da morte da minha mãe. Não imaginei que ele estivesse doente e não pudesse viajar, e acho que não lhe ocorreu me avisar. Talvez tenha presumido que eu já sabia. A carta dele pareceu abrupta e autoritária. Fria mesmo.

– Se você tivesse vindo para cá, não teria ido a Bruxelas nem se envolvido com Crawley. E não se sentiria em profundo débito com suas amigas. Não inventaria esta farsa.

– E não teria conhecido você.

– Ora, é verdade... – Ele riu baixinho. – Se você tivesse vindo para cá, é muito provável que eu estivesse morto.

– Me causa calafrios pensar nisso.

– Eu também – concordou Edward com fervor.

– Olhe – disse ela, apontando para baixo.

Em um pátio cercado atrás dos estábulos, duas pessoas dançavam sob o luar: um homem grande e não muito gracioso, uma mulher alta e voluptuosa: Rosalie e Emmett.

– Aquele é um encontro planejado no paraíso – comentou Edward antes de apoiar as costas no parapeito para que pudesse olhar Bella mais de perto. – E qual é o seu plano?

– Amanhã vou explicar às damas que não posso ajudá-las, embora sempre vá me considerar em débito com elas e vá lhes devolver o dinheiro quando puder... daqui a três anos. Vamos todos partir depois de amanhã, sem pedir minhas joias a tio Carlisle. Então, ao chegar a Londres, escreverei para ele contando toda a verdade. E devolverei este colar e estes brincos. Você estará livre para fazer o que deve fazer, para encontrar sua família. Só recentemente me dei conta de que, ao concordar com seu plano para me ajudar, o mantive longe dos seus parentes um mês a mais do que o necessário. E como eles devem estar sofrendo...

– Por que esperar até ir embora daqui? Seu tio a ama, Isabella. Sempre amou.

Ela balançou a cabeça.

– Deixe que eu o procure amanhã e lhe conte tudo – pediu Edward. – Acredito poder levá-lo a perdoar você. Como não vai perdoá-la quando souber que essa farsa foi sugestão minha e que você concordou com ela apenas por amor às amigas, por achar que tinha um débito de honra? E porque seu pai escondeu que Weston sempre se preocupou com você, tentando ser um verdadeiro tio. Ele vai compreender como essa farsa se tornou intolerável para você agora que teve uma oportunidade para conhecê-lo e amá-lo. Deixe-me fazer isso.

Bella o encarou.

– Não. Eu me enfiei nesta confusão e sairei dela. Não precisava ter concordado com a sua sugestão. Não sou uma marionete.

– Então conte a ele pessoalmente – sugeriu Edward. – Faça isso amanhã, Bella, e confie no amor dele por você. Seu tio a amou por toda a vida.

– É tarde demais. Não mereço a confiança de ninguém ou o amor de ninguém. Perdi o direito a ambas as coisas... A música está terminando. Precisamos entrar para o jantar parecendo animados. Ele está feliz esta noite, não está? E com uma aparência melhor do que quando chegamos, não é mesmo? Devemos lhe dar pelo menos o resto desta noite. Ou melhor, eu devo.

Se alguém fosse gentil o bastante para encostar um revólver na cabeça dele, pensou Edward, ele mesmo puxaria o gatilho de bom grado. Ofereceu o braço a Isabella.


Embora soubesse que o baile era em parte em homenagem ao casamento dela, Bella não esperara que houvesse discursos e brindes durante o jantar, além de um bolo grande, que ela e Jonathan cortaram e logo foi passado de mesa em mesa para servir aos convidados. Ela não parava de sorrir, sentindo-se doente por dentro.

Como pudera achar que aquele era um excelente modo de pôr as mãos em dinheiro? Mas o pior ainda estava por vir. Quando Bella e Jonathan enfim se sentaram e os convidados começavam a se agitar para voltar ao salão de baile e às últimas danças da noite, tio Carlisle se levantou de novo e ergueu as mãos pedindo silêncio. Todos o atenderam quase no mesmo instante.

– Considero apropriado fazer este anúncio em público, embora originalmente pretendesse informar a minha sobrinha e ao marido dela em particular amanhã. Mas, afinal, de certo modo, o que vou falar diz respeito a toda a vizinhança. Provavelmente é de conhecimento geral que sou o último homem da minha linhagem e que meu título morrerá comigo quando chegar o momento. Porém, minha propriedade e fortuna não estão atreladas ao título, são minhas para deixar a quem quiser. Há um primo distante do lado da minha família materna, a quem considerei por um longo tempo, apesar de ele viver na Irlanda e eu só o ter encontrado no máximo três vezes na vida. É claro que sempre tive a intenção de deixar uma porção considerável da fortuna para minha sobrinha, Isabella, Lady Jonathan Smith, já que é minha parente mais próxima. Só que a conheci melhor e passei a amá-la profundamente nas últimas semanas. Também vi que Sir Jonathan é um rapaz confiável, determinado, com um interesse óbvio pela terra e muita inteligência para lidar com ela. Fiz todos os arranjos necessários para reescrever meu testamento amanhã. Minha sobrinha herdará tudo depois que meus dias nesta terra houverem terminado.

Isabella não ouviu os murmúrios de concordância e os aplausos que se seguiram ao anúncio; os ouvidos foram tomados por um zumbido e seu corpo se enregelou. Percebeu que estava prestes a desmaiar. Ela inclinou a cabeça para a frente e cobriu o rosto com as mãos, sentindo a mão de Jonathan em sua nuca. Respirou lentamente para tentar se recompor.

Quando Bella voltou a erguer a cabeça, o tio estava parado ao seu lado. Ela se levantou e o abraçou sem dizer uma palavra, em meio ao murmúrio de aprovação dos convidados e a outra onda de aplausos.

– É isso o que me fará feliz, Isabella – disse o barão, encarando-a com um sorriso, de braços estendidos. – Mais feliz do que qualquer coisa no mundo.

– Não quero que o senhor m-m-morra – balbuciou ela antes de enlaçar o pescoço do tio e enfiar o rosto no ombro dele.

Mas Bella queria morrer. Era só o que queria. Ela não soube como conseguiu seguir no baile pelo resto da noite, mas foi o que fez, sorrindo para estranhos e evitando com determinação todos que conhecia. Concentrou-se apenas em ser a recém-casada radiante e, graças aos céus, teve êxito. Na agitação que se seguiu à partida dos convidados, subiu correndo para o quarto, mas não contou com a total falta de consideração das amigas por suas portas fechadas – e não havia nem isso entre o aposento dela e o de Jonathan.

Poucos minutos depois, estavam Victoria, Alice, Rosalie e Angela aglomeradas lá, enquanto Emmett permanecia no batente, de braços cruzados.

– Ora, Bella – disse Rosalie –, agora você está mesmo em apuros.

– Não ouvimos nada na hora em que seu tio fez o anúncio porque estávamos do lado de fora – comentou o sargento com o que bem lembrava um rubor. – Rosalie e eu, quero dizer. Estávamos tomando conta dos cavalos.

– Estávamos dançando, Will. E logo nos beijando. Então entramos em casa e Angie nos contou.

– Meu amor – manifestou-se Victoria –, é melhor irmos embora daqui.

– Ir embora? – Angela pareceu não compreender. – Embora, Victoria? Quem vai cozinhar para o barão?

– Vim aqui para pedir a minha herança – explicou Isabella. – Na época, soou tão lógico fingir que eu era casada para obter as joias! Eu queria desesperadamente ajudá-las a encontrar o Sr. Crawley e ressarci-las. Não posso fazer isso... nada disso. Vamos...

– Só um momento, Isabella. – Alice levantou a mão. – Que história é essa de nos ressarcir? Você iria nos devolver o que ele roubara? Isso quando o patife a usou de forma horrível e tirou tudo de você? Está louca?

– Se não fosse por mim, vocês nem o teriam conhecido.

– Bella, meu amor – disse Victoria –, nem pensaríamos em aceitar um centavo seu, a não ser o que planejávamos pegar emprestado para nossa viagem, até podermos lhe devolver.

– Eu nunca pensaria nisso – foi a vez de Rosalie retrucar, com as mãos nos quadris. – Tem minhocas na cabeça, Bells? Você não roubou nosso dinheiro.

Angela atravessou correndo o quarto de vestir e abraçou Isabella com força.

– Mas sua intenção foi linda, Bella. Sabe quando foi a última vez que alguém pensou em nós desse jeito? E essa estada em Chesbury Park também foi linda. Tenho sido mais feliz aqui do que já fui em qualquer outro lugar na minha vida inteira. Acho que todas nós temos. E precisamos agradecer a você por essas férias fantásticas. Portanto, não acrescente uma culpa imaginária à sua lista de infortúnios.

– E que infortúnios, Bella – comentou Rosalie.

– O que precisa fazer, senhorita... – disse Emmett. – Não que tenha me perguntado, não que seja da minha conta falar qualquer coisa, sou apenas um valete caolho e ainda nem sou muito bom nisso... Mas o que precisa fazer, senhorita... e o senhor também, embora tenha se recolhido ao seu quarto em vez de encarar a confusão aqui... O que precisam fazer é se casarem de verdade, assim tudo estará resolvido.

– Seria tão romântico... – falou Angela. – Você está completamente certo, Emmett.

– Não – retrucou Bella com firmeza. – Isso não é uma opção. Pretendo colocar tudo em pratos limpos o mais rápido possível, então vou cuidar da minha vida. A última coisa de que preciso é de um casamento forçado. E essa também é a última coisa de que Jonathan precisa. Vou resolver tudo.

Embora só Deus soubesse como.

Tio Carlisle parecera tão feliz... Ela nem sabia que a propriedade e a fortuna dele não estavam atrelados ao título de nobreza. Não pensara a respeito. As damas tinham muito mais a dizer, porém Bella não ouviu. Emmett se recolheu ao outro quarto de vestir e, enfim, as quatro mulheres foram embora, todas falando ao mesmo tempo depois de a abraçarem. Então, Rosalie lembrou que era camareira e voltou para ajudá-la a se despir e pentear seus cabelos.

Bella teve a sensação de que uma eternidade havia se passado antes que ela se visse sozinha e pudesse se arrastar para a cama e puxar as cobertas sobre a cabeça.


Ai ai ai. Até quarta, suas lindas!