"Nós faremos
Tudo
Sozinhos
Nós não precisamos
De nada
Ou de ninguém
Se eu deitasse aqui
Se eu apenas deitasse aqui
Você deitaria comigo e simplesmente esqueceria o mundo?
Eu não sei bem
Como dizer
Como me sinto
Aquelas três palavras
São faladas demais
Elas não são o suficiente"
Snow Patrol – Chasing Cars
Aproximava-se da meia-noite quando o telefone de Kobayashi tocou, era sua mãe. Após alguns minutos de conversa, ela notou que todos ainda estavam comendo (principalmente Elma) como se não houvesse amanhã, exceto por Kanna e Riko, que já estavam quase dormindo, apoiadas uma na outra. Mesmo assim, todos pareciam muito felizes.
Decidiu voltar rapidamente ao quarto, era hora de buscar o presente mais importante daquela noite. Havia escondido aquela pequena caixa em uma das malas, no meio de suas roupas. Tohru não poderia encontrá-lo de jeito nenhum, para não estragar a grande surpresa. Abriu a caixa mais uma vez, as duas lindas alianças ainda estavam ali, intocadas. As guardou no bolso de sua calça, pegou os outros pacotes de presentes que fingiu esquecer no quarto e saiu.
Não surpresa, encontrou Tohru do lado de fora assim que abriu a porta.
"Fiquei preocupada quando te vi saindo da mesa daquele jeito."
"Não se preocupe, Tohru. Só percebi que estava ficando tarde e vim buscar os presentes, creio que as meninas devem pegar no sono a qualquer momento."
Tohru sorriu e concordou com um gesto, e segurou a mão livre de Kobayashi.
"E aqui está o seu primeiro presente dessa noite" – disse a dragoa, instantes antes de beijar-lhe intensamente.
A ceia continuara tranquilamente, seguindo-se com a troca de presentes. Tohru e Kanna ficaram extremamente felizes com os novos smartfones que ganharam de Kobayashi. Tohru retribuiu-lhe com uma pequena caixa, delicadamente embrulhada em folhas que pareciam seda ao toque. Ao abri-la, Kobayashi deparou-se com um lindo colar prateado, com um pingente em formato de coração, cravejada com um lindo rubi no centro.
"Esse é o seu segundo presente da noite, minha querida Kobayashi."
Kobayashi ficou claramente pensativa sobre quantos presentes ainda receberia dela naquela noite, antes e depois daquilo.
Um clima estranho foi se criando quando todos, eventualmente, começaram a olhar para Kobayashi após a entrega de todos os presentes. Sabiam que estava na hora tão aguardada.
Kobayashi, por outro lado, tentava se acalmar. Não havia mais para onde fugir, não que fosse o caso.
Georgie levantou-se, pronta para iniciar um discurso e dar a Kobayashi mais alguns instantes para se controlar.
"Eu gostaria de agradecer a todos vocês por esses momentos maravilhosos, pelo convite, pelos presentes, e principalmente, por cuidarem tão bem de mim e da minha irmã. E o meu desejo é que todos esses momentos maravilhosos se repitam infinitas vezes".
Tohru levantou-se prontamente após o discurso, encarando Georgie.
"Só a trouxemos para provar de uma vez por todas quem é a melhor maid de todas! E eu não vou perder para você!" - Tohru perdeu-se na personagem, tentando fazer uma risada maligna, falhando miseravelmente, e rindo da própria encenação.
Kanna levantou a mão.
"Bom, a senhorita Georgie cozinha melhor os pratos doces, Tohru-sama é melhor nos pratos salgados. Ambas são ótimas em cuidar da casa, em cuidar de mim e da Saikawa. E ambas são igualmente lindas. Empate!"
Tohru a fulminou com o olhar.
"Traidora! Não cozinharei mais doces favoritos." - novamente, a risada maligna falhou e todos riram da situação.
Georgie deu a volta na mesa, e aproximou-se de Tohru.
"Eu admito, você é uma maid melhor do que eu. Você tem algo que eu jamais terei, Tohru."
Georgie estava sorridente como sempre, enquanto Tohru permanecia confusa com aquelas palavras.
Kobayashi enfim se levantou, juntou toda a sua coragem para falar. Nunca teve problemas com ansiedade, talvez fosse mais um dos "efeitos-Tohru", responsáveis por virar sua vida de pernas pro ar.
"Obrigada a todos por virem, não seria tão divertido sem todos vocês aqui. Obrigado a todos vocês pelo trabalho duro neste ano – especialmente Elma e Takiya – e obrigada, Georgie e Riko, por cuidarem tão bem da Kanna. E a todos, por cuidarem de mim. Esse com certeza foi o ano mais louco da minha vida, mas também foi o mais feliz. E tudo graças a vocês"
Brindes e aplausos ecoaram por toda a mesa.
Kobayashi estendeu a mão para Tohru, que a segurou imediatamente.
"E muito obrigada a você, minha querida Tohru. Sem você, eu provavelmente estaria no meu antigo apartamento, sozinha e saber como é bom se sentir amada. Por isso, eu tenho outro presente, muito mais especial, pra você" – Kobayashi ajoelhou-se, enquanto todos imediatamente se levantaram.
"Minha doce Tohru, eu sei que infelizmente não viverei tanto quanto você, mas eu prometo que farei o possível para te fazer felizes por todos os anos que me restam" – e tirando a aliança do bolso – "Você aceita passar todos estes anos ao meu lado?"
Tohru saiu de sintonia. Seu corpo não respondia, seus pensamentos transformaram-se em um turbilhão de memórias. Não conseguia acreditar no que acabara de acontecer. Tinha certeza de que passariam o resto de suas vidas juntas, mas com certeza o pedido partiria dela. Kobayashi estava realmente mudada. Estava feliz.
Demorou alguns segundos para Tohru recobrar o domínio sobre seu corpo e sua mente, chegou a se beliscar para ter certeza de que aquilo não era um sonho. À sua frente, Kobayashi ainda ajoelhada, segurando aquela belíssima aliança. Seus olhos eram diferentes, já havia notado há algum tempo. Aquele olhar de peixe morto era coisa do passado; o que via agora era um olhar sério, determinado, apaixonado e cheio de energia. Sua Kobayashi estava ainda mais irresistível.
Tohru cedeu. Ajoelhou-se diante de Kobayashi, e a abraçou com todas as forças.
"É claro que eu aceito, Kobayashi. É tudo o que eu mais quero. Não me importa se foram 100 dias ou 100 anos, eu a quero comigo por todo o tempo!"
Kobayashi sentia as lágrimas de Tohru escorrendo sobre seu ombro, assim como podia a sentir soluçar. Afagou-lhe as costas gentilmente, e sentiu o abraço ficar ainda mais apertado, quase a sufocando.
Tohru afastou-se devagar, sem desviar seu olhar de Kobayashi. Um sorriso formou-se involuntariamente em seu rosto, enquanto apreciava as feições de sua amada. Sentia vontade de beijá-la, de pegá-la e voar para longe, onde pudessem viver eternamente sem preocupações. Suas mãos instintivamente acariciavam as maçãs do rosto dela. Aquele doce momento duraria pela eternidade.
Os pensamentos de Tohru foram interrompidos por um abraço de Kanna, imediatamente se colocando entre as duas.
"Quer dizer que agora vocês duas vão ficar juntas pra sempre?"
"A intenção é exatamente essa, Kanna" – Kobayashi respondeu docemente – "a Tohru nunca mais vai se livrar de mim" - e riu baixinho.
Tohru levantou-se repentinamente.
"Já sei! Não há motivos para esperarmos mais, então vamos nos casar aqui mesmo" – e dito isso, lançou um olhar fulminante para Fafnir, que continua com seu videogame portátil no canto da mesa – "Você pode muito bem realizar a cerimônia, então prepare-se imediatamente!"
Fafnir a ignorou completamente.
"É, talvez seja melhor mesmo" – respondeu Tohru – "é capaz de vocês nos rogar uma maldição ou coisa pior."
Kobayashi ria, com Kanna ainda em seu colo.
"Calma, Tohru. Temos muito o que fazer antes de nos casarmos. As coisas não são tão rápidas e fáceis assim neste mundo. Além do mais, eu ainda preciso conversar com os meus pais sobre isso. E seria muito bom você falar com o seu pai também. E não se preocupe, eu não vou fugir de você."
Tohru foi novamente surpreendida por um abraço, desta vez de Elma.
"Se acalme, garota. Você tem essa mania estranha de querer colocar o carro na frente dos dois. E meus parabéns, estou muito feliz por você, por vocês! Continuem cuidando bem uma da outra, tá bom?"
Tohru acenou com a cabeça, logo em seguida encostando-se no ombro de Elma.
"Eu farei o meu melhor! Obrigada."
Mais tarde naquela noite, Kobayashi perdeu o sono. Tateou em volta da cama e não encontrou Tohru. Virou-se para o outro lado, a fim de pegar seus óculos na escrivaninha. Ao colocá-los, pôde enfim encontrá-la, ajoelhada no chão. Sua cauda balançava incessantemente de um lado para o outro. Seus olhos estavam vidrados naquela joia recém-colocada em seu anelar direito. Kobayashi levantou-se devagar e foi até ela. A luz da lua entrava com facilidade através das cortinas, irradiando sobre a pele clara de Tohru, a deixando tão bela quanto um anjo deveria ser.
Kobayashi ajoelhou-se ao seu lado, e com uma das mãos, ajeitou uma mecha de cabelo da linda dragoa a sua frente.
"Tá tudo bem, Tohru?"
A resposta demorou a sair dos lábios dela, num misto de alegria e tristeza.
"Estou sim, Kobayashi. Essa é a noite mais especial da minha vida, até agora. Mas estou um pouco preocupada. E se os seus pais não aceitarem isso? E tem o meu pai também, você sabe como ele é com relação a nós duas. Além do mais, as pessoas deste mundo não parecem aceitar muito bem esse tipo de relação. Várias vezes eu já notei algumas pessoas fazendo cara de nojo para nós, quando estamos juntas. Realmente, os seres humanos ainda tem muito a evoluir."
Kobayashi soltou um longo suspiro antes de responder.
"Sim, os seres humanos têm muito o que evoluir ainda, Tohru. Mas eu não me importo com o que os outros pensam, ou deixam de pensar. O que eu mais quero agora é ser feliz, e fazer você feliz. Quanto aos nossos pais, eles podem até não aceitar a nossa relação, mas eu não vou desistir de nós por causa disso, e se precisar, eu lutarei contra todo mundo por você, Tohru!"
Tohru virou-se repentinamente e a abraçou, com tamanha força que ambas acabaram caindo no chão. A respiração de Tohru estava pesada, seus olhos fixados nos dela.
"Eu te amo, Kobayashi"
"Também amo você, Tohru."
E beijaram-se. Beijaram-se profundamente por longos e memoráveis minutos.
Tohru estalou os dedos, deixando Kobayashi levemente confusa.
"O que foi isso?"
"Magia de proteção sonora" – respondeu a dragoa.
"Então quer dizer que… aqui no chão mesmo?"
"E por que não?" - respondeu Tohru, enquanto retirava a camisola.
Na manhã seguinte, Tohru despertou com a luz do sol batendo em seu rosto. Estava sozinha na cama. Após alguns instantes, ouviu a porta se abrir. Kobayashi entrara carregando uma bandeja com frutas e algumas outras guloseimas.
"Café na cama, Kobayashi? Você não cansa de me surpreender."
Kobayashi sentou-se na beirada da cama, com um lindo sorriso no rosto.
"Estou estudando novas maneiras de te mimar, Tohru. É sempre você que está me mimando, pensei em retribuir um pouco."
Tohru corou levemente, mas não pôde esconder seu sorriso.
"Você já me mima o suficiente, Kobayashi. Mas mimo nunca é demais."
Kobayashi a alimentava com morangos, e Tohru os apreciava lentamente, aproveitando-se da oportunidade para sentir os dedos de sua amada em sua boca.
Pouco antes de retornarem para casa, Kobayashi resolveu ligar para seus pais, a fim de contar-lhes sobre o que planejava para o futuro. Seus pais ficaram inesperadamente felizes com a notícia, algo que Kobayashi achou estranho. Mais tarde ela descobriu que Tohru já havia comunicado a eles pessoalmente o desejo de se casar com sua filha, sem sequer saber dos planos de Kobayashi.
Alguns dias depois, Kobayashi acabara de retornar do trabalho, o ano mal havia começado e a quantidade de trabalho se multiplicava exponencialmente. Kanna a recepcionara alegremente ao entrar no apartamento.
"Bem-vinda, Kobayashi!" - a pequena dragoa a abraçou imediatamente.
"Estou com fome, Lady Tohru não voltou ainda pra fazer o jantar." Kobayashi acariciou os cabelos dela, então rumou para a cozinha.
"Então vamos fazer o jantar nós mesmas, Kanna."
A garota empolgou-se, magicamente vestindo uma roupa de maid igual à de Tohru.
"Essa roupa ficou ótima em você, Kanna. Talvez eu deva vestir a minha também."
Kobayashi mal teve tempo de pensar nisso quando Kanna estalou os dedos, mudando a roupa dela também.
"Isso é muito prático, Kanna. Mas eu preciso daquelas roupas para ir ao trabalho amanhã."
"Não se preocupe, reverterei o feitiço mais tarde."
Em alguns minutos, o apartamento foi tomado por um cheiro delicioso dos mais variados ingredientes e temperos; Tohru chegou em alguns minutos, visivelmente frustrada.
Ou, pelo menos, estava, a visão de sua amada usando suas roupas a fez esquecer completamente o motivo da frustração.
Kobayashi a recepcionou com um beijo, antes de convidá-la a se sentar para o jantar. E imediatamente pôde notar em seus olhos que algo não estava certo. A abraçou o mais forte que pôde. Tohru a abraçou de volta imediatamente, e as lágrimas naturalmente caiam sobre o ombro de Kobayashi.
"Nós já sabíamos que seu pai não seria fácil, mas foi tão ruim assim?"
Tohru levou alguns instantes para recobrar-se do choro e dos soluços.
"Eu pensei que fosse morrer, Kobayashi. Meu pai disse coisas horríveis, chegou a voltar à sua forma original para me atacar, eu podia sentir que ali seria o fim. Mas aí nossos amigos apareceram. Fafnir e Lucoa estavam dispostos a enfrentá-lo por mim. Eu realmente não entendo como um dragão do caos poderia enfrentar seu próprio rei, ainda mais o Fafnir. E um dragão espectador tomando partido foi realmente algo raro de se ver. Eu não entendo os motivos deles, mas fiquei feliz. Então Elma e Telne apareceram. Eu não sei o que aquela velha disse ao meu pai, mas ele recuou. Por fim, ele me disse algo sobre a informação já estar espalhada por todo o reino, e que isso poderia ser muito prejudicial para os dragões."
Kobayashi soltou um longo suspiro antes de responder, ponderando sobre tudo o que acabara de ouvir.
"Sabe, Tohru, eu acredito que amigos são assim, mesmo não demonstrando o tempo todo, amigos estão sempre por perto para nos fazer o bem. Se eles chegaram a pontos tão extremos, é porque realmente se importam com você. Devemos agradecer a eles depois, e quanto a Telne, eu realmente fico grata que ela tenha intervindo e não deixasse aquela situação continuar. Eu estou feliz que esteja bem, Tohru."
Kobayashi apertou o abraço novamente, e dessa vez pôde sentir o coração de Tohru desacelerar. Tudo estava voltando ao normal.
No dia seguinte, após o expediente, Kobayashi convidou Elma para tomar uma cerveja e relaxar. Ela aceitou prontamente.
O barzinho estava mais vazio do que de costume, o que possibilitou a Kobayashi fazer-lhe a pergunta que a atormentava há alguns dias.
"Elma, eu preciso saber, o que você e sua avó fizeram naquele dia pela Tohru… Primeiro, eu preciso agradecer a vocês duas por ela estar viva. Mas o pai dela não é fácil, então o que vocês fizeram foi algo extraordinário. Então, eu quero que seja sincera comigo, o que vocês falaram afinal? E por qual razão? Vocês são dragões da harmonia, então, não deveriam se envolver num assunto dos dragões do caos, certo?"
Elma bebeu alguns goles de sua cerveja, e ainda pediu algumas porções ao garçom. Estava nitidamente tentando disfarçar e evitar ao máximo tocar neste assunto, mas o olhar de Kobayashi deixou bem claro que não haveria escapatória.
"Tudo bem, Kobayashi. Eu vou dizer, não há razão para você não saber disso mesmo. Primeiro, o motivo é bem simples: você e a Tohru são minhas amigas, minhas melhores amigas. Eu faria qualquer coisa por vocês duas. E o que nós dissemos? Apenas os fatos, vocês duas se amam verdadeiramente, e nada nem ninguém mudaria isso. Ele estava realmente transtornado, afinal, Tohru é tudo o que têm para chamar de família. A guerra entre os humanos, os dragões e os deuses não foi muito gentil com ele. Por muito tempo, assim como eu, ele pensou que Tohru estava morta. Ele não queria perdê-la de novo."
Kobayashi ouvia tudo atentamente, mil pensamentos ecoando em sua mente.
"Então ele não deveria ter ameaçado matá-la, você não concorda?"
Elma balançou negativamente a cabeça.
"Não, não devia mesmo. Eu estava lá, pude sentir aquele olhar frio e assassino. Felizmente todos estavam lá, e depois disso, minha avó conseguiu acalmá-lo. Creio que ela deva conversar constantemente com ele até hoje. Existem outros motivos que não cabe a mim dizer a você, Kobayashi. Motivos de dragões. O que eu posso dizer é que ele está arrependido, e é bem provável que ele apareça qualquer dia desses para se desculpar com você e a Tohru."
Ela respirou fundo antes de continuar.
"E sim, somos dragões da harmonia como você bem lembrou, Kobayashi. E é essa harmonia que buscamos, por isso minha avó foi tão solícita em ajudar. Claro, se falhássemos, provavelmente iríamos iniciar uma guerra entre os clãs, mas na hora isso sequer passou pelas nossas cabeças. Falha nossa".
Kobayashi enfim sorriu um pouco, embora assustada com o último comentário, e segurou as mãos de Elma.
"Bem, só posso agradecer a você e sua avó por estarem lá pela Tohru e que isso não tenha desencadeado outra guerra. E antes que eu me esqueça, por favor venha a nossa festinha na semana que vem. Vamos enfim, oficializar a data do casamento; Tohru e eu contamos com você (embora ela nunca vá admitir isso)."
"Eu com certeza irei, Kobayashi. E não precisa me agradecer, pois como eu disse antes, vocês suas minhas melhores amigas e eu farei qualquer coisa por vocês."
Elma e Kobayashi despediram-se minutos mais tarde na estação, antes de cada uma pegar o trem de volta para casa.
Dias depois, o apartamento da família Kobayashi estava cheio.
Dragões e humanos festejando alegremente o anúncio oficial do casamento de Kobayashi e Tohru, a ser realizado no início da primavera.
Kobayashi sentou-se à mesa, ao lado de Lucoa. Havia algo que queria lhe perguntar há algum tempo e enfim, surgiu a oportunidade perfeita para tal. Já obteve a resposta que desejava de Elma, porém, gostaria de confirmar se seu coração estava realmente certo sobre os outros dragões.
"Como vai, Lucoa-san? Espero que esteja gostando da festa."
"Pode parar com isso, Kobayashi. Somos amigas, não precisa ser tão formal assim. A festa está maravilhosa, obrigada pelo convite" – Lucoa colocou o copo de suco sobre a mesa, onde apoiou-se depois para encarar Kobayashi – "Sei o que quer me perguntar, está escrito nos seus olhos."
"Você está certa, e é algo que me deixa incomodada, na falta de uma palavra melhor. Então porquê se colocou entre a Tohru e o pai dela? Até onde eu sei, você é neutra por natureza."
Lucoa deixou escapar um suspiro, seu olhar mirou diretamente em Shouta antes de responder.
"Minhas razões são puramente egoístas, Kobayashi. Seu relacionamento com a Tohru, nesse nível, é o primeiro de que se tem notícia, entre humanos e dragões. Eu a defendi pois assim eu também terei a chance de ser feliz com o Shouta daqui em diante. E certo, também admito que não gosto muito do pai da Tohru, ele tem algumas ideias absurdas sobre conflitos desnecessários. Todos os dragões e outros seres que vieram do nosso mundo pra cá estão fugindo disso, fugindo da guerra. Nós queremos apenas viver em paz."
Kobayashi ouvia tudo atentamente, fitando a garota diretamente nos olhos.
"Eu entendo, Lucoa. Só posso dizer obrigada, obrigada por cuidar da minha Tohru. Vejo que o Shouta está mais à vontade com você, isso é muito bom. Cuide bem dele, é um bom garoto."
"Eu prometo a você, Kobayashi. Ele está amadurecendo e se tornando um bom homem, o que posso fazer agora é ser a melhor companhia pra ele. Darei a ele todo o meu amor, e os meus peitos" – Lucoa riu descontroladamente após o último comentário. Kobayashi meneava a cabeça negativamente.
"Só não o asfixie com essas melancias, Lucoa" – rindo logo em seguida.
Kobayashi respirou aliviada, conseguiu uma das respostas que queria. Faltava a outra, essa, com certeza, seria ainda mais difícil. Caminhou até a geladeira, e pegou duas latas de cerveja.
Sentou-se ao lado de Fafnir, estendendo-lhe uma das latas.
Ele colocou o videogame portátil sobre a mesa, pegando a lata em seguida.
"Sabia que viria falar comigo, Kobayashi. Conseguiu as respostas que queria com Quetzalcoatl?"
Kobayashi abriu a lata, e tomou o primeiro gole daquela cerveja.
"Consegui sim, e agora é a vez de conseguir as respostas de você."
Fafnir repetiu o gesto, tomando um longo gole antes de encará-la para responder.
"Meu motivo é bem simples, e bem parecido com os dela ou de qualquer outro aqui. Cansei-me da guerra, me cansei de disputas tolas e sem sentido. Não confrontá-lo naquele momento traria fim à paz que tanto gosto. Além disso, no nosso mundo original não existem esses jogos, então tenho um bom motivo para evitar que a guerra chegue até aqui. E para lhe satisfazer, Tohru é importante pra mim também, ela é a única que me entendeu por muito tempo."
Kobayashi sorriu.
"E pelo visto, Takiya é a outra pessoa que te entende, não é?"
"Ele é um ótimo parceiro de jogos, apenas isso. Mas, assim como você, ele é um humano fraco e irritante, que precisa ser protegido."
Kobayashi levantou-se após beber mais um gole de sua cerveja.
"Obrigada por isso, Fafnir-san. E obrigada por vir a festa."
Ele apenas acenou, pegando novamente o videogame.
Kobayashi dirigiu-se até a sacada, onde terminou a sua cerveja. Virou-se para jogar a lata no lixo quando topou com Tohru. Estava ainda mais radiante naquela noite, mesmo com seu tradicional traje de empregada, sua beleza exuberante fazia seu coração disparar.
"Conseguiu tudo o que queria, Kobayashi?"
"Eu acho que sim, Tohru. Mas algo está errado, e é comigo. Todos se colocaram em perigo para te proteger, mas e eu? Eu não sou capaz de proteger você, Tohru".
Tohru a abraçou , apoiando sua testa na dela.
"Você não precisa me proteger, Kobayashi. Você só precisa continuar sendo você mesma, preenchendo o meu coraçãozinho com o seu amor, para garantir que ele continue forte e saudável. E com o seu amor, eu tenho forças para enfrentar o mundo!"
Kobayashi e Tohru beijaram-se por alguns instantes, antes que a humana se afastasse um pouco.
"Não quero que você se envolva em mais nenhuma luta por minha causa, seja aqui ou no seu mundo."
Antes de Tohru responder, foram interrompidas pelo barulho da campainha. Estava tarde, certamente era algum vizinho reclamando do barulho.
Mas não era.
Kobayashi abriu a porta.
Era o pai de Tohru, o Imperador do Fim.
Sua presença intimidadora deixou Kobayashi paralisada.
O silêncio tomou conta do ambiente quando todos se deram conta de sua presença.
Tohru aproximou-se rapidamente.
"Papai… você… o que faz aqui?"
Ele não respondeu, não de imediato.
Olhou diretamente nos olhos de Kobayashi, depois Tohru. Por fim, olhou para todos que espreitavam a cena da sala.
Fafnir abaixou a guarda, porém sem desviar o olhar.
Lucoa e os demais se mantiveram afastados, ficando à frente de seus amigos e companheiros humanos.
Tohru dirigiu-se ao pai, sem desviar o olhar por um segundo sequer.
"O que você quer, pai? Tentar me matar da última vez não foi o suficiente?"
Ele continuou sem responder.
Tohru pôde sentir o conflito dentro dele.
"Eu vim para me desculpar, filha. Ou ao menos, tentar. Seus amigos me fizeram enxergar o quanto eu exagerei no nosso último encontro, por isso, eu vim pedir o seu perdão."
Após dizer estas palavras, ele ajoelhou-se diante da filha.
"Peço perdão a você também, Lady Kobayashi. Tenho lhe julgado tão mal, tendo em vista o seu trabalho com relação a todos que chegam a este mundo fugindo da guerra. E também pelo trato que tem com a minha filha, eu nunca a vi tão feliz. E por isso, eu peço seu perdão."
Tohru e Kobayashi se fitaram por um instante; seus rostos serenos já indicavam a resposta.
O silêncio permaneceu por alguns instantes, até que Tohru estendeu a mão para seu pai.
"Levante-se, pai. Eu entendo seus motivos, agradeça aos meus amigos por isso também. Se você está realmente arrependido, eu acreditarei em você. Mas quero que saiba, nada nem ninguém nesse mundo vai mudar o que eu sinto pela Kobayashi."
O velho levantou-se, com ajuda da filha.
"Não pretendo mudar seus sentimentos, filha. Fico feliz em saber que os MEUS chegaram até você. Só desejo a sua felicidade, e se é viver em paz que você e os outros desejam, este é o lugar perfeito. Os deuses do nosso mundo não tem poder aqui, então você estará segura. E se essa relação entre vocês duas conseguir mudar a mentalidade de alguns do lado de lá, então talvez nosso mundo possa ter um pouco de paz."
Kobayashi surpreendeu-se com as palavras de seu futuro sogro; realmente os dragões da harmonia fizeram um bom trabalho em convencê-lo.
Tohru, por outro lado, ainda estava inquieta com a situação. Conhecia bem seu pai. Ela acenou para seu pai, indicando que sairiam do apartamento. Caminharam por alguns instantes até o terraço.
"Aqui ninguém irá nos ouvir, pai; então pode me dizer a verdade, quero saber o motivo dessa mudança de atitude tão repentina."
O velho caminhava em círculos, eventualmente olhando para a filha, ora para o lindo céu estrelado daquela noite.
"Eu já lhe disse a verdade, Tohru. Estou ficando farto de guerras sem sentido, esses conflitos desnecessários só nos trazem dor. Embora eu tenha notado que nem todos os humanos queiram viver em paz, você estará mais segura e feliz aqui."
Ele então virou-se diretamente para a filha, a encarando como costumava fazer antes.
"Ainda não sou totalmente a favor disso. Você sabe melhor do que ninguém que os humanos vivem pouco. Quanto tempo mais vocês acham que ficarão juntas? Nós, por outro lado, somos imortais. O ideal seria você estar com alguém da nossa espécie, mas sinceramente já desisti de tentar convencê-la. Seu coração já está nas mãos da senhorita Kobayashi, então não há nada mais que eu possa fazer a não ser desejar que ela viva muito e te faça feliz, filha."
Tohru engoliu seco. Seu coração disparou dentro do peito. Um instinto avassalador tomou conta de si, e a única coisa que fora capaz de fazer foi abraçar seu pai, algo que jamais havia feito.
O velho, sem reação, levou alguns instantes para abraçá-la de volta. Tohru abriu um enorme sorriso ao receber um afago do pai.
"Obrigada, pai. Isso é muito importante pra mim."
"Os humanos amoleceram demais você, filha."
Tohru soltou o pai, lágrimas escorriam do seu rosto.
"Ora, até mesmo o impiedoso Dragão do Fim amoleceu um pouco, então está tudo bem. E o que fará agora, pai?"
Ele coçou a enorme barba, pigarreou e então voltou a andar em círculos.
"Voltarei para casa, ainda tem muita coisa a ser feita. O velho Kamui vai dar trabalho, ele é realmente teimoso e tenho dúvidas se vai querer parar de guerrear algum dia, mesmo depois de tudo o que houve com a pequena Kanna. Vi que a filha dele também tem um relacionamento com uma humana deste mundo, talvez as duas consigam colocar um pouco de juízo na cabeça dura daquele idiota. Mas creio que dará tudo certo, e enfim, eu voltarei para o casamento, eu prometo."
O até então impiedoso Dragão do Fim abriu um portal, despediu-se da filha e entrou.
Tohru permaneceu alguns minutos sozinha no terraço, deitada no chão e apreciando as estrelas.
"Conseguimos, Kobayashi" – pensou, pouco antes de ser interrompida pela própria.
"Vocês demoraram demais, fiquei preocupada e vim ver o que houve. Seu pai foi embora?"
Tohru levantou-se com a ajuda de Kobayashi, a abraçando logo em seguida.
"Sim, ele já foi. Nós conseguimos, Kobayashi. Nada nem ninguém ficará no nosso caminho agora."
"Nada mas… eu acabei ouvindo a conversa, Tohru. Seu pai está certo em uma coisa, e não há como fugir disso. Eu não sei se viverei mais um, dez ou cem anos. Está mesmo tudo bem pra você, Tohru?"
A dragoa apertou levemente o abraço, afagando os cabelos de Kobayashi.
"É claro que está bem, sua boba. Eu amarei você até o fim, estarei com você até o fim. Não me importa por quanto tempo seja, eu estarei sempre aqui. Eu prometo que farei o meu melhor pra te fazer feliz, e te darei todo o meu amor hoje e sempre."
Kobayashi a beijou, seu coração ardia como nunca.
"Eu sinceramente não sei o que você fez comigo, Tohru, mas tenho a impressão de que viverei para sempre, desde que eu esteja com você."
Uma rajada gélida de vento fez com que as duas sentissem calafrios até no último fio de cabelo, e decidissem retornar para o apartamento. Estavam, enfim, em paz.
"Conseguir com você
Ei, você já tentou ao menos uma vez
Realmente vendo o outro lado?
Eu posso andar em arco-íris
Mas querida aí vai
Sonhos são para aqueles que dormem
A vida é a para nós aproveitarmos
E se você está querendo saber onde eu quero chegar com esta canção"
Bread – Make It With You
