RENUNCIA: Todos conhecem o mundo que J.K.Rowlings criou. Eu só gosto de passear lá de vez em quando.

Obrigado à Dana pela critica. Foste muito simpática.





O Tamisa

Severus não conseguia responder, o que se estava tornar uma situação repetitiva. Com alguma comida no seu estômago (longe de cheio), Ele estava a recobrar a força para manter a sua decisão de não regressar a casa.

- Não tens de fazer nada comigo.

- Ah, sim! Tens um lugar para ficar?

Severus não teve de pensar muito.

- Não.

- O que é que tens para comer?

- Nada. - Ele estava a sentir-se mesmo estúpido.

O rapaz espanhol olhou para ele incrédulo.

- Então, talvez seja melhor ficares connosco.

- Vocês têm casa e comida? - Perguntou Severus.

- Casa, não temos. - Respondeu o Beef. - Mas podemos arranjar comida.

Severus estava incerto se queria saber como.

- Anda lá. - Instruiu Javier.

Enquanto corriam pelas ruas de Londres, passaram por muitas pessoas que regressavam a casa depois de um dia de trabalho.

Chegaram a um beco mais escuro e silencioso. - Ali. - Javier apontou para um amontoado de caixotes de cartão, no canto da rua.

- Ali? - Os olhos de Severus arregalaram-se de incredulidade. - Vocês vivem ali? Em caixotes de cartão?

- Sim! Se consegues melhor, podes ir embora. - Os três rapazes formaram uma frente forte e orgulhosa. Aparentemente Severus tinha cometido uma gafe, ao deixar de apreciar a 'casa' deles.

- Desculpem! Não tenho sitio melhor! Não queria... Eu quase congelei ontem à noite! Como é que vocês conseguem aquecer-se à noite?

- Nós temos alguns tapetes e cobertores. - Respondeu Um Johnny apaziguado. - Dormimos juntos e fica quentinho. Vais ver.

- Mas - Avisou o Javier. - se queres ficar aqui tens de trabalhar como todos nós.

- A fazer o quê?

- Ostias! O que é que pensas? A roubar, é claro!

- Roubar. - Severus estava inseguro acerca deste assunto. Um Snape transformado num ladrão? O que é que a mãe...

- Está bem.

- Já fizeste isto alguma vez? - Perguntou o Beef.

- Não. Mas eu aprendo rapidamente. - Acrescentou rapidamente, para desbastar os olhares de duvida dos outros.

- É melhor não meteres água. - Avisou o Javier. - Se quiseres sair, decide agora.

- Eu não quero sair! Eu disse que aprendo e vou aprender!

- Certo. De qualquer modo as lições só começam amanhã. - Informou o rapaz mais velho. - Agora é hora de dormir.

Esta foi apenas a primeira de muitas noites que o Severus viria a dormir no que ele passou a chamar de 'Mansão de Cartão'. Era uma melhoria em relação à sua primeira noite fria, sozinho. Agora estava quente, gozando do calor corporal dos outros rapazes. O pior era o cheiro. Em Hogwarts, todos os alunos tinham as suas camas respectivas e apesar de haver quatro a cinco camas por dormitório, odores desagradáveis nunca tinham sido problema (pelo menos, nos ultimos cem anos). As casa de banho estavam lá por alguma razão.

Severus nunca tinha sido um maníaco da limpeza, mas estes rapazes PRECISAVAM de um banho. Naquele momento, ele também e para não variar, foi suficientemente estúpido para lhes dizer isso.

A Jen estava com eles. Tinha escapado ao castigo em casa e concordou que um banho era uma necessidade geral entre os rapazes.

Javier presenteou-os com um sorriso malicioso e disse:

- Está bem. Vamos tomar banho.

Quando o Severus viu os rapazes a tirar a roupa e a saltar para o Tamisa, ficou congelado na margem.

- Anda Cãozinho! - Chamou o Johnny. - Salta!

- Não.

- Vamos lá, gorduroso! - Desafiou Beef. - Tu é4 que te queixas-te.

- Mas... Mas isto é o rio!

A Jen ria sentada na margem.

- E HÁ uma rapariga a ver!

- É só a Jen! - Respondeu Johnny que não via razão para vergonhas, em frente àquela rapariga em particular.

Javier içou-se na margem, para fora de água, com uma graciosidade fácil e felina.

- Guarro! Entra na água.

- Não!

Com dois passos, Javier agarrou o Severus que era consideravelmente mais baixo que o espanhol, mais velho. Teria sido fácil para Severus, defender- se com um feitiço mas não queria fazer magia em frente deles. O tio Belchior tinha avisado muitas vezes para ele NUNCA fazer magia em frente dos muggles. Impossibilitado de usar as suas armas, ele foi carregado pelos braços fortes do espanhol e saltaram ambos para a água.

Só pode gritar com voz aguda e histérica:

- Eu não sei nadar!

Quando caiu, a água fria pareceu-lhe dura como uma parede solida. Foi um choque e o pior foi o pânico que sentiu quando o rapaz mais velho o largou. Havia água fria e escura em todo o lado! Em toda a volta dele! Não conseguia respirar. Os pulmões estavam a arder. O pânico estava a tomar conta dele. Não conseguia pensar. Talvez fosse porque não conseguia respirar e estava concentrado nisso. Então, quando não conseguiu evitar mais, o Severus inalou a água escura.







- Respira! Um, dois, três, quatro...

Severus sentiu uma forte pressão no peito, que o fez tossir repetidamente, expelindo dos seus pulmões, o que parecia um rio inteiro.

- Isso mesmo! - Ouviu uma voz trémula sobre ele. - Respira cãozinho, vá lá.

Ele estava a tentar, mas era um esforço doloroso. Conseguia sentir a sua corrente sanguínea a correr dentro das veias e o peso das mãos de alguém sobre o seu corpo. Podia ouvi-los falar, mas não conseguia ver nada.

Sentiu os braços fortes do Javier a segurar os seus ombros e a ajuda-lo a sentar-se.

- Não consigo ver...

- Abre os olhos, pendejo!

Só então, percebeu que tinha os olhos fechados. Com um alivio tremendo, desenrascou-se para abri-los e viu as caras preocupadas das outras crianças.

- Eu estou a respirar. - Assegurou.

- Ele está tão pálido! - Insistiu a Jen, com os olhos arregalados de susto. - Vamos leva-lo para a minha casa.

- E a tua mãe? - Perguntou o Beef.

- A minha mãe chega às seis. Temos tempo. Ajudem-me a carregá-lo.

- Eu não preciso de ser carregado! - Queixou-se o Severus. - Eu posso andar!

Os outros não lhe prestaram qualquer atenção. O Javier agarrou-o por debaixo dos braços e meio carregou, meio arrastou-o pelas idênticas ruas de Londres. Pararam em frente a uma casa que parecia igual a todas as outras na rua.

Jen produziu uma chave de dentro do bolso das calças e abriu a porta.

- Entrem de uma vez! Não quero que as bisbilhoteiras das minhas vizinhas, digam aos meus pais que vocês estiveram aqui!

Severus foi atirado a tremer, para cima de um sofá.

- Temos de lhe tirar as roupas!- Disse a Jen.

- Não!! - Atirou Severus horrorizado.

- Já alguém te disse, que és uma pessoa negativa? - perguntou a rapariga.

- Ele é tímido! - Explicou Javier. - Mulher burra! Vai para a cozinha! Eu tiro-lhe as roupas!

- Mas quem é que estás a mandar para a cozinha? - Gritou a miúda de dez anos. - Nunca ouviste falar de emancipação feminina?

- O quê feminina? - Javier olhou para a Jen, como se tivesse acabado de lhe crescer uma segunda cabeça. - Vai buscar uns cobertores! - Ordenou.

Disparando um olhar furioso ao rapaz, Jen correu para obedecer às instruções.

- Agora tira a roupa! - Javier disse a Severus num ton que não admitia argumentos.

O Severus, obviamente, tentou.

- Não tir...

- Tiras a roupa ou tiro-te eu mesmo.

Sem resposta para isto, Severus tirou a túnica e as calças e correu para trás do sofá, quando a Jen voltou com os cobertores.

- Pareces melhor. - Ela disse, atirando um cobertor sobre a cabeça dele.

Severus cobriu-se e sentou-se no sofá, apreciando o calor que começava a sentir.

- Obrigado.

- Porque é que não disseste que não sabias nadar? - Apontou o Beef.

- Eu disse.

- Eu quero dizer, ANTES de saltares para a água.

- Não saltei por vontade própria.

- Está tudo certo. Ele está bem. - Apaziguou a Jen.

- Pois. - Concordou o Johnny.

- Parece - disse o Javier - que tenho mais a te ensinar, do que pensava.

- Estás a ensinar-lhe o quê? - Perguntou a Jen, inocentemente.

- Nada que te interesse.

- Mal educado.

- Florzinha de estufa.

- Estás na minha casa!

- E então?

- Então, és um mal educado...

- Já disseste isso.

- ...A falar comigo dessa maneira, na minha casa!

Severus estava a ficar cansado de ouvir a discussão deles e interveio:

- Tens alguma coisa quente? Jen?

- O quê? - Ela perguntou, chateada com a interrupção.

- Para comer ou beber. Para ficarmos quentes.

- Posso fazer chá...

- Vamos ser envenenados. - Gozou o Johnny.

- Alguém te ofereceu alguma coisa? - Ela atirou.

- Eu não disse nada! - Interrompeu ansioso, o Beef. - Tens bolachas? Abes, para empurrar o chá. Ou scones...

- Tu és um glutão. - Jen acusou.

- Isso é mau?

- Esquece. - Ela foi para a cozinha preparar o lanche deles.

Os rapazes ficaram até recearem que os pais da Jen pudessem chegar do trabalho.

Nessa noite, o odor na 'Mansão de Cartão' não foi diferente das outras noites.