Renuncia: A Rowling o que é de Rowling. Aqui a Aliera só está a brincar com o que ela criou e a divertir-se com isso.



SALTEADORES

Severus nunca fora tão feliz na sua vida. No ultimo mês tinha descoberto que era bom em mais uma coisa; palmar carteiras e roubar bolsas.

Era diariamente elogiado pelo grupo. Eles, evidentemente não sabiam que ele usava feitiços simples como o charme de levitação para aproximar-se das suas vitimas em silencio e tornar as suas posses mais leves. Feitiços de camuflagem e silencio estavam se a tornar tão naturais para ele, como se tivesse nascido a usá-los. Com ajuda da magia era mais rápido que qualquer um dos outros e podia fazer tais malabarismos que nem o Javier podia deixar de se sentir impressionado.

- És um ladrão nato. - Disse-lhe uma noite, enquanto contava o dinheiro que o Severus se encarregara de trazer para a 'Mansão de Cartão?.

- Somos uma equipa! - Respondeu Severus com uma felicidade tão grande que nunca soubera antes poder exprimir. - Nós somos... - Calou-se quando viu Jen a chegar. Havia um acordo tácito entre os rapazes, que a Jen devia ser deixada fora das suas actividades de subsistência. Javier colocou o dinheiro atrás do traseiro.

- Vocês são o quê? - Perguntou a rapariga sentando-se ao lado deles.

- Não devias estar em casa, muchacha? - Perguntou o Javier.

- A minha mãe está a trabalhar numa grande festa com jantar e o meu pai está a fazer o turno da noite. - Respondeu atrevida. -- O que é que eu estaria a fazer em casa sozinha?

- Devias estar em casa! São onze da noite. As ruas são perigosas para uma miúda a esta hora!

- E para um rapaz não são?

- Ele tem razão, sabes? - Severus apoiou o chefe do grupo.

- Eu estou com vocês! - Foi a resposta confiante da Jen. - Que mal é que me poderia acontecer na vossa companhia?

- Tonta! As ruas são perigosas!

- Sabem... - Ela optou por ignorar o Javier. - Nós somos um bom grupo. Onde estão o Beef e o Johnny?

- Lá dentro. A dormir como tu também devias estar.

- Devíamos ter um nome. - Jen interrompeu o espanhol, entregando este comentário como se tivesse inventado um conceito de vida.

- O quê? Não tens nome? - Gozou Severus.

- O nosso grupo devia ter um nome agressivo!

- Agressivo? Mas quem é que tu queres agredir?

- Não sejas parvo, Cãozinho. Eu pensei num nome porreiro para nós.

- Nós? - Javier gritou em terror fingido. - Desde quando é que no tornámos nós?

- Até tremo de pensar o que é que ela inventou. - Acrescentou Severus.

- Eu PENSEI num BOM nome! Eu li-o num livro.

- Portanto nem inventas-te...

- Cala-me essa matraca, Cachorro! Oiçam: 'Os famosos cinco'. - Sorriu na expectativa. - O que é que vocês acham?

- Merlin... - Severus fez uma cara de nojo.

- Gillipollas! Não só é um nome ESTÚPIDO, ainda por cima não é original.

- Pois! - Severus concordou prontamente, embora nunca tivesse ouvido falar desses outros 'cinco', famosos ou não.

- Têm um nome melhor? -- A Jen desafiou os rapazes.

- Sim! - Disparou o Javier. - Não haver nome nenhum!

- Salteadores. - Severus disse distraído, ao mesmo tempo.

Ambos Jen e Javier olharam para ele : - Como ?

- É bom! - Elogiou a Jen - Soa a atrevimento!

- NÃO! Não é! - Disse o Severus rapidamente. - É estúpido!

- Na verdade até é bom. - Disse Javier. -- E eu não conheço nenhuns 'Salteadores'.

- Nem eu! Salteadores! Nós somos os Salteadores! - Ela experimentou o nome.

- Qual é o problema, Cão Gorduroso?

- Nenhum. - Severus não podia deixar de se sentir culpado por usar o titulo dos outros idiotas. Ainda por cima ele era o maior critico deles. Ele odiava aquele nome! Era como uma chamada do passado. Recordava-lhe um mundo do qual ele não se queria lembrar. Porque é que ele tinha sugerido AQUELE nome? Mas os outros gostavam e estavam entusiasmados por o usarem.

A Jen estava feliz por estar com os rapazes numa hora tão tardia. Sentia-se (e com razão) a cometer uma transgressão.

O Javier disse-lhe que ela era maluca e decidiu ignorá-la. Talvez se se aborrecesse, a rapariga voltasse para casa. Gatinhou para dentro da 'Mansão de Cartão' e foi dormir.

Severus também devia ir, mas a rapariga implorou-lhe para que ficasse acordado por mais algum tempo.

- Vá lá! Sabe-se lá quando é que eu volto a ter uma oportunidade como esta outra vez?

- Não sei e não quero saber! É tarde. - Ele tentou escapar para dentro, mas ela agarrou a túnica dele pelo colarinho.

- Podíamos dar um passeio pela margem do rio.

- Tu e a margem do rio...

- Vá lá!

Com um suspiro, o Severus levantou-se e seguiu-a, ainda a queixar-se.

- Está a ficar frio! Tu devias ir para casa e eu devia ir dormir!

- Podes dormir depois!

Andaram em silencio por algum tempo. Severus não estava habituado a falar com miúdas. Nem mesmo em Slytherin. Aquelas raparigas olhavam-no por cima do ombro. Ele não estava preparado para lidar com isso. Nem lhe passaria pela cabeça ir falar com raparigas das outras equipas. Ás vezes espiava-as quando tinha a certeza de que não estavam a olhar: A Narcissa era uma bruxinha loura, bonita e arrogante. O tipo de pessoa tão linda que parecia ter como objectivo na vida, dar prazer àqueles que a olhavam. A Lilly 'Sangue de lama' Evans era uma Gryffindor e outra que chamava a atenção do Severus. Não que ele fosse alguma vez, admitir uma coisa destas a alguém. Um segredo só é um segredo, quando apenas uma pessoa o sabe. Talvez fosse o cabelo dela: longo, ruivo, que dava nas vistas. Ou talvez fossem os olhos verdes. Não podia ser o brilhante discurso dela que a tornava tão interessante, já que ele nunca tinha falado com ela. Nem queria. Ela era uma 'sangue de lama' e amiga dos 'Salteadores'. Mas a Jen era diferente. Ela era mais nova do que ele. Não o fazia sentir-se... Inferior? Ela nem era uma RAPARIGA por assim dizer. Ela era uma pessoa e uma amiga de fácil convívio.

- Onde conheces-te os rapazes? - Perguntou o Severus para combater o silencio.

- Bem. O Javier eu já conhecia. O Johnny e o Beef conheci este ano, quando o Javier fugiu do orfanato com eles.

- Vieram de um orfanato? E os pais deles?

- Os pais do Javier morreram. Não sei nada dos pais dos outros miúdos.

Severus andou um pouco analisando a informação. - Conheces-te os pais dele? - Perguntou passado algum tempo.

- Sim. A minha mãe conheceu-os melhor do que eu. Os pais do Javier eram imigrantes da Espanha. O Javier tinha dois anos quando chegaram cá. Pelo que eu ouvi, não foi nada fácil para eles. A Mãe do Javier conseguiu um emprego como empregada na mesma mansão onde a minha mãe trabalha.

- A Tua mãe é uma empregada?

- Não. A minha mãe é uma cozinheira. Uma cozinheira incrível! Consegue preparar um banquete assim! - Estalou os dedos.

- O que é uma empregada?

- Estás a gozar com a minha cara?

- Hã... Hum... Nem por isso.

- E dizes que tens doze anos? Francamente... Uma empregada é alguém que limpa a casa... Que serve à mesa... Isso assim.

- Como um duende doméstico?

- O que é um duende doméstico?

- Estás a ver que não sabes tudo?

- O que É um duende doméstico? - Ela exigiu uma resposta.

- É... A empregada dos meus pais... - Ele preferiu dar uma meia resposta.

- Tu tens uma empregada? Não acredito!

- Estás a chamar-me mentiroso? - Severus ficou ofendido.

- Estás a dizer que és rico? Quem é que ia fugir de uma casa confortável?

- Eu não disse que era rico! Eu disse que os meus pais têm um duende... Empregada. E é verdade. O que aconteceu aos pais do Javier?

- Porque não lhe perguntas?

- Porque não me respondes?

- Porque é que é que queres saber?

- Eu quero conhecer-vos! Mas se queres que eu... Talvez eu deva ir dormir. - Começou a andar mais depressa.

- Não espera! Eu... O pai do Javier era um drogado! Eu ouvi a minha mãe a dizer que ele morreu com uma overdose de heroina. Não digas ao Javier que eu te contei!

Severus parou. Do que ele conseguia entender, o pai do Javier tinha exagerado a dose de alguma poção. Talvez uma distracção estúpida.

- E a mãe dele? Também estragou outra poção?

- O quê?

- Ela fez uma 'overdose'... Nela?

- Não. Pobre Lupe. Ela chorou até morrer. Estava a trabalhar para toda a família e já estava doente quando ele morreu, mas então deixou de comer e de trabalhar. Só dormia e chorava. Até morrer.

- Ninguém a ajudou?

- A minha mãe tentou falar com ela. A Sr.a Tompson, a patroa, chamou um psiquiatra mas ela fechou-se dentro dela e ninguém conseguia entrar. Foi o que a minha mãe disse.

- Como é que o Javier acabou num orfanato?

- Quando a mãe dele morreu a segurança social pô-lo lá. Ele detestou o orfanato.

Severus perguntava-se o que seria a segurança social.

- Ele não tinha parentes na Espanha?

- Não sei... Penso que não. Ou teria sido enviado para viver com eles.

- Pois...

- E depois ele fugiu do orfanato com o Johnny e o Beef. O Johnny nunca conheceu os pais e o Beef foi abandonado quando tinha quatro anos. Acho que eles não teriam fugido se o Javier não os tivesse arrastado com ele.

Severus parou e olhou para a rapariga com um sorriso tímido.

- E tu? Porque é que sais de casa a esta hora da noite? Porque é que roubas comida de casa para dar a um grupo de pedintes?

A Jen presenteou-o com um sorriso feliz.

- Eu gosto de vocês! Vocês são os meus amigos! O Javier é um chato às vezes, mas é corajoso, sabes? Ele é como um herói! O Johnnyzinho é como um irmão mais novo e o Beef... É o Beef!

- E tu és uma boa pessoa. - Severus entregou o cumprimento sem pensar.

- Obrigado. E tu?

- Eu não tenho a certeza de ser uma boa pessoa.

A Jen riu.

- És tão parvo! Eu estava a perguntar por ti! Porque é que fugiste?

- Hum... Não quero falar sobre isso.

- Porquê? Acabaste de bisbilhotar a vida dos outros Salteadores.

- Pois... Mas... Eu não quero falar sobre isso.

- Tu nunca falas de ti!

O Severus continuou a andar em silencio.

- Os teus pais morreram? - Insistiu a Jen.

- Não. - Respondeu entredentes.

- Batiam-te?

- Não.

- Estás a falar a verdade?

- Sim Jen. Estou a falar a verdade.

- Então porque é que fugiste?

- Não ias entender.

- Eu sou muito esperta. Experimenta-me.

Nervoso, Severus mudou de peso de um pé para o outro.

- Bem...

- Vá lá!

- Os meus pais não gostam de mim! - Deixou sair. -- A minha mãe está arrependida de me ter tido... Porque ela acha que eu sou muito parecido com o meu pai. O meu pai nem se lembra que eu existo.

- Oh.

- Nem sei se sentiram a minha falta.

- De certeza que sim!

- Não estejas tão certa.

- Isso é tão triste.

- Sim... Mas, no entanto eu estou a divertir-me com vocês. São muito melhores do que os outros miúdos que eu conhecia.

- Não tens saudades dos teus amigos?

- Vocês são os meus amigos. Tu e os outros. Não tenho saudades de ninguém. - Mentiu. - Talvez apenas da escola. Já estou a perder o inicio do ano escolar.

- Vocês estão todos a faltar à escola. Estamos quase em Outubro. Talvez devesses regressar a casa.

- Não quero. E mesmo que quisesse, nem sei como.

- Não sabes o caminho de volta?

- Não.

- Cachorrinho...

- NÃO! Eu não quer regressar, por isso não tenhas pena de mim. Vamos andando. Tens aulas de manhã. Eu faço-te companhia até casa.

- Depois, sabes regressar?

- Para a 'Mansão de Cartão'? Claro! Eu agora conheço o território.

Quando chegaram á porta da Jen, ela perguntou.

- Contas-me mais, quando confiares em mim?

Isto apanhou o Severus de surpresa.

- Confiar?

- Sim.

- Isto é tão complicado... - Não pôde evitar mostrar vulnerabilidade na voz.

- Vais ter de confiar em alguém algum dia. - Disse a Jen. - Espero que seja em mim. - apertou a mão dele antes de entrar em casa. - Boa noite.

Severus viu-a fechar a porta. Então, com um nó na garganta, regressou à 'Mansão de Cartão'.