O SEGUNDO DIA DE NATAL

Ginny acordou na manhã seguinte, passando pela mesma rotina do dia anterior. Hoje ela tinha uma das suas próprias sweaters Weasley, ela tinha tantas que podia usar uma diferente em cada dia das férias de Natal.

Ela lembrou-se dos acontecimentos do dia anterior quando reparou no pequeno pedaço de pergaminho ainda em cima da sua mesinha de cabeceira. Ginny congelou ao olhar para ele, ela tinha tentado tudo o que conseguira pensar para descobrir de onde Kringle tinha vindo.

Ela tinha observado Harry de perto todo o dia, não que alguém considerasse isso estranho. Ela esperou que ele lhe lançasse um olhar estranho, ou até reparar que ela estava no mesmo quarto, mas ele estava tão distraído como sempre.

"Se calhar ele é um actor extraordinário…" mas Ginny apercebeu-se de que este era outro dos seus períodos de ilusões.

Tinha conseguido dar uma olhada na redacção de Poções que ele estava a escrever para Snape enquanto ele ia à casa de banho. A sua letra era descuidada, como a maior parte dos adolescentes escrevia. A letra da nota que tinha recebido era certinha e elegante. Ginny duvidava bastante que Harry conseguisse escrever assim mesmo que estivesse a tentar pôr aquilo bonito.

Ela até tinha pedido emprestado o revelador de Hermione, para ver se tinha tinta invisível.

Não tinha descoberto absolutamente nada.

Quem quer que tenha enviado Kringle, não queria que ela descobrisse a sua identidade.

Enquanto descia para tomar o café da manhã, Ginny dava voltas ao cérebro, tentando pensar em alguém que gostasse dela o suficiente para gastar galeões com ela. "Ninguém gosta de mim," Ginny pensou tristemente. "Tenho sido praticamente invisível durante anos." Mas ainda restava a pergunta de quem parecia finalmente ter reparado nela,

Ela podia ter pensado que este era um dos presentes espontâneos de Fred e George (como as vestes de Ron no ano passado), mas a carta dizia muito claramente que aquele não era um presente de um membro da família.

- Ginny! Ginny, espera! - Uma voz estridente chamou-a, os passos desciam as escadas atrás dela.

Ginny suspirou, virando-se para esperar que Colin Creevey a alcançasse. Ela sorriu educadamente, sem deixar passar o facto de que o que ela realmente queria era fugir na direcção oposta. - Olá, Colin.

- 'Bem, Ginny? - Colin cumprimentou sem fôlego. - Somos os únicos Gryffindors do nosso ano que estão cá, por isso pensei que faria todo o sentido andarmos juntos. - Colin olhou para ela, esperançoso. Ginny, sendo a pessoa boa que era, não seria cruel o suficiente para o rejeitar.

"Claro, Colin," ela respondeu debilmente. "Vamos tomar o café da manhã." Colin sorriu largamente e praticamente saltou para o Salão Principal, uma Ginny sombria a segui-lo.

"Não pode ser ele, pois não?" Ginny pensou, entrando em pânico. Ele era, afinal, a única pessoa que queria passar algum tempo com ela. Ele era um bom garoto e tudo isso, mas ele tinha a estranha capacidade de enervar todas as pessoas. Ginny sentou-se ao lado dele, que esperava ansioso na mesa dos Gryffindor. Sempre que olhava para a sua cara excitada, o coração dela apertava-se.

"Como é que posso ter a certeza?" Ela pensava, desesperada. "Talvez se der algumas pistas…"

Para o alívio de Ginny, Kringle tinha escolhido esse momento para chegar, com uma pequena embalagem amarrada.

- Olha, Colin. - Ginny apontou para a coruja que se aproximava. -É a minha coruja nova, alguém ma mandou ontem. Eu estarei eternamente grata a essa pessoa, se eu ao menos soubesse quem ela é. - Ginny observou a sua cara pormenorizadamente. Ela também se criticou por ter sido tão precipitada.

"E o que é que vais fazer se for ele? Começar a falar como uma idiota e cair aos seus pés?"

Felizmente, ou Colin não sabia do que é que ela estava a falar, ou estava determinado a não o demonstrar. - Isso foi um gesto simpático. - Colin respondeu vendo Kringle a dirigir-se à mesa deles. Para surpresa e divertimento de Ginny, Kingle desceu a pique, certificando-se de que acertava Colin com a asa antes de aterrisar.

- Au! - Colin gemeu; Ginny teve de se segurar para não rir. As outras pessoas sentadas à mesa gargalhavam.

Ginny susteve a respiração quando viu o que a coruja entregava. Era um pacote pequeno, bem embrulhado e verde, juntamente com o mesmo envelope verde e dourado que tinha recebido no dia anterior. Não tinha nome, mas Kringle parecia saber que era para ela. Ginny deu uma olhada para a mesa, mas ninguém estava sequer a olhar para ela. Com certeza o seu Pai Natal secreto (pois era assim que ela tinha começado a chamá-lo) estaria a observá-la para ver a sua reacção. Isso se ele estivesse lá.

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O que Ginny não sabia era que o seu "Pai Natal secreto" estava mesmo a observá-la, muito concentrado. Tinha começado a olhá-la no instante em que ela tinha entrado no Hall com aquele insuportável Creevey. Os ciúmes invadiram-no, um sentimento ao qual ele definitivamente não estava habituado, e que não era bem vindo. Devia ser com ele que ela falava tão espontaneamente. Devia ser com ele que ela partilhava os seus segredos, medos, alegrias e problemas.

Ele olhava-a enquanto ela dava a Kringle um pedaço de torrada antes de sair do Salão Principal com o pacote que lhe tinha enviado. O seu coração deu um pulo ao vê-la olhar para a coruja de uma maneira tão afectuosamente. Ele perguntava-se o que ela faria com os seus presentes… Com sorte, ela sentir-se-ia da mesma maneira quando ele se revelasse.

"Não ponhas a carroça à frente dos bois", ele disse para si mesmo firmemente. Ainda faltava muito tempo para esse momento.

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Ginny desamarrou o pacote e saiu do Salão, sem se preocupar em responder às perguntas de Colin, que queria saber para onde ela ia. Ela estava absorta a tudo e todos, excepto ao desejo de querer estar sozinha quando abrisse o presente de hoje.

Ela não estava à espera de outro, apesar de ela conhecer a canção. A coruja tinha sido muito cara, o facto de a pessoa estar a passar por este trabalho todo por causa dela era inimaginável.

No entanto, não havia nenhuma dúvida de que aquele envelope era da mesma pessoa.

Ginny trancou-se numa das salas de aulas vazias. Ela pousou o pacote e abriu o envelope com as mãos a tremer. De novo, ela encontrou um pequeno pedaço de pergaminho com o elegante tipo de letra a adorná-lo.

No Segundo dia de Natal

O teu verdadeiro amor deu-te

Os teus doces preferidos, com uma surpresa ou duas

Ginny deixou sair o ar que ela estava a conter. Era quase idêntico ao do dia anterior, incluindo o facto de não haver nenhuma pista sobre a pessoa que tinha enviado.

"Os teus doces preferidos…" Ginny leu a linha outra vez. "Como é que ele sabe quais são os meus doces preferidos?"

Ginny pôs a nota no bolso e pegou na embalagem que cabia na alma da sua mão. Levantando a tampa, ela descobriu dois sapos de chocolate.

"Como é que ele sabia…" Ela pensou, confusa. Mas também, toda a gente sabia que a sua colecção de figurinhas de bruxos e bruxas famosos era maior até que a de Ron. Era a única coisa que ela comprava no Expresso de Hogwarts quando tinha dinheiro, e os donos do Dedosdemel tinham alguns postos de lado sempre que havia uma ida a Hogsmeade.

- Suponho que seja muito óbvio… - ela murmurou para si mesma. Abriu um dos sapos e olhou para o cartão.

Ela comeu o chocolate antes que ele pudesse fugir, e fechou os seus olhos em Êxtase. "O que seria de mim sem chocolate?" Ela pensou sonhadora. A sua família sempre tinha ficado preocupada com a sua obsessão com qualquer coisa que tivesse chocolate, e o facto de que ela gastava todas as suas poupanças em sapos de chocolate sempre que podia.

Tu sabes que uma garota precisa de manter a forma! A voz da sua mãe fazia-se ouvir na sua mente. Vais ficar mais gorda que uma baleia se continuares assim!. Ginny sorriu perante as ameaças da sua mãe. Ela felizmente tinha herdado os genes de magreza da sua família, como Ron. Por mais que ela comesse, não ganhava um quilo.

Apesar da sua paixão por chocolate, Ginny quase deixava a figurinha cair quando viu quem era a bruxa que lhe acenava.

- Oh, meu… - ela murmurou. A olhar para ela estava uma das figurinhas mais raras. Ela sabia que ninguém tinha uma, mas com certeza o seu Pai Natal secreto não poderia saber que cartão tinha dentro…?

Ela abriu abruptamente o outro sapo de chocolate, deitando a embalagem para o chão, e olhando, sem poder acreditar, para outro feiticeiro extremamente raro que lhe acenava.

- Inacreditável. - Ela murmurou confusa. Ron teria um ataque quando lhe mostrasse!, ela pensou sorrindo maliciosamente. Eles sempre tinham tido um pequeno concurso entre eles.

Ginny dançou de alegria na sala, antes de meter o outro sapo na boca. Ela colocou as duas novas figurinhas na sua mala junto com o pedaço de pergaminho e saiu da sala.

No caminho de volta para a sala comum, os seus pensamentos voltaram à pessoa que tinha passado por tanto trabalho por causa dela.

"Finalmente alguém reparou em mim, e nem sequer sei quem é." Ginny suspirou, saboreando o último pedaço de chocolate a derreter-se na sua língua.