O QUARTO DIA DE NATAL

No dia seguinte, Ginny podia ser encontrada sentada na mesma mesa de biblioteca como no dia anterior. Quem passasse por ela admiraria os lindos ganchos que prendiam o seu cabelo encaracolado ruivo, e pouco depois, começaria a questionar a sua sanidade.

- Caramba, tens de estar aqui em algum lugar… - podia ouvir-se ela a murmurar para si própria. Alguns primeiranistas tinham parado para olhar para os seus olhos arregalados e assustaram-se com uma das suas crises de palavrões. Ela nem sequer tinha reparado que eles estavam lá.

Na verdade, Ginny estava completamente abstraída aos olhares que recebia das pessoas que passavam ou aos olhares ameaçadores de Madame Pince. A única coisa que ocupava sua cabeça era encontrar algum tipo de feitiço ou poção para descobrir de onde vinham esses presentes.

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A pessoa em questão estava a vê-la folhear um livro com uma brutalidade que não era comum nela, rindo silenciosamente para si mesmo.

"Ela é determinada…" Ele pensou divertido. "Pena que todo o seu esforço seja em vão."

Se ela conseguisse achar um feitiço que a pudesse ajudar, ela ficaria desapontada ao perceber que não teria nenhum efeito. Ele tinha bloqueado todos aqueles métodos mágicos indesejáveis de encontrar a origem de qualquer coisa. Ele até sabia de um feitiço que, se a carta tivesse desbloqueada, diria exactamente quem a tinha escrito.

"Não posso deixar que os meus planos sejam arruinados, pois não?" Ele pensou presunçosamente. Apesar de não o mostrar, ele estava preocupada que mesmo os seus planos acabassem por não ser suficientes no fim.

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Ginny atirou outro livro para a pilha à frente dela que cada vez crescia mais. "Não serve para nada…" ela resmungou, mudando para outro. Apesar de não ter paciência nenhuma com este tipo de coisas, ela era demasiado teimosa para desistir sem antes encontrar o que ela estava a procurar.

Ela parou de deitar fumo quando se deparou com um parágrafo interessante.

«'Originaro', pronunciado 'Ó-rigi-nÁro' quando dirigido a um objecto dirá de onde ele veio ou foi criado. Este feitiço pode ser frustrante considerando que poderá dizer a origem óbvia, e não aquela procurada. Por exemplo, se for feito num sweater de lã (assumamos que se quer saber quem o mandou), pode mostrar uma imagem de uma ovelha ao invés da informação que se quer receber. A razão é porque o sweater veio, obviamente, de uma ovelha. É necessária imensa concentração para obter os resultados desejados.

Boa sorte!»

- Vale a pena tentar, suponho. - Ignorando a regra que dizia claramente que não era permitido usar magia em nenhuma parte da biblioteca, Ginny tirou a varinha do bolso, enquanto praticava a pronunciação na sua cabeça.

"Ó-rinÍ-nÁro… espera, não… Ó-rigi-nÁro… é isso mesmo!"

Fechando os olhos, e dirigindo todos os seus pensamentos a quem lhe andava a dar presentes (o que não era difícil, visto ser a única coisa em que ela pensava ultimamente), Ginny sussurrou o encantamento, apontando a varinha ao pequeno pedaço de pergaminho em cima da mesa. Um pequeno raio de luz branca saiu da sua carinha (felizmente não fazia nenhum barulho, ou ela seria expulsa da biblioteca pela Madame Pince). Atingiu o pergaminho e no início o papel limitou-se a brilhar misteriosamente. Parecendo quase como um balão de pensamento dos livros muggles de banda desenhada, uma nuvem rosa pairou sobre a mesa. Dentro estava nitidamente a figura de uma árvore.

- Argh! - Ginny gritou, usando a mão para afastar a imagem da sua frente.

- Miss Weasley! - uma voz aguda e não muito contente fez-se soar atrás dela.

- Sim, Madame Pince? - Ginny perguntou, tentando parecer o mais inocente possível com os restos de um feitiço a pairar sobre a sua mesa.

- Sabe que magia não é permitida aqui. Vou ter de lhe pedir que saia, mas não sem antes tirar dez pontos da sua casa. - Depois Madame Pince afastou-se, mas Ginny ainda podia sentir o seu olhar ameaçador do outro lado da biblioteca. Ginny resmungou, pegou suas coisas e saiu da biblioteca.

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- Ó-rigi-nÁro! - Ginny gritou por aquela que parecia ser a centésima vez naquele dia. De novo, a imagem irritante de um carvalho pairou sobre a sua cabeça.

- Raios. Bem, ao menos já sei que este papel veio de um carvalho…

Os pensamentos de Ginny pararam quando um grande "squawk" veio do outro lado das portas trancadas da sala de feitiços (Pois Ginny tinha-se trancado na sala, colocando mesas na porta para garantir privacidade).

- O que…? - ela murmurou, indo até à porta e encantando uma mesa para sair do seu caminho.

Quando abriu a porta, ficou chocada ao descobrir quatro pequenos pássaros brancos a olhar para ela.

- Squaaawk - um deles disse, desta vez mais alto, já que não tinhauma porta no meio. Eles entraram na sala sem Ginny lhes dizer nada e pousaram na mesa do Professor Flitwick.

Ginny meteu a cabeça para fora da sala, mas não parecia haver alguém nos corredores. - De onde diabos vocês vieram? - Ela perguntou pra ninguém em especial. - Este não é outro presente, pois não?... - Ela fez uma careta só de pensar na reacção da sua mãe a quatro pássaros barulhentos a acordá-la todas as noites. Foi aí que reparou que um dos pássaros tinha um envelope amarrado à perna, como numa coruja (apesar de este não parecer gostar muito de ser usado como mensageiro). Ela voltou para dentro, pensando no que iria fazer com aqueles animais inesperados. Apesar de eles não parecerem tão excitantes como os outros três presentes, as suas mãos ainda tremiam ao abrir o envelope.

No quarto dia de Natal

O teu verdadeiro amor deu-te

Quatro ovos dourados ornamentados.

- Ovos? - ela sussurrou, olhando para os pássaros com dúvidas. Mas quando ela ia voltar a ler a carta outra vez, os pássaros levantaram-se e dirigiram-se para a saída.

- Ei! Voltem cá! - Ela gritou-lhes, sem saber se era boa ideia deixá-los a vaguear pela escola. Ela voltou-se para a mesa em que eles tinham pousado, e exclamou ao ver o que tinham deixado. Quatro ovos reluzentes e dourados brilhavam na sala de aulas escura. Eles pareciam iluminar a área sombria à sua volta com uma luz dourada, fazendo uma pessoa ficar feliz e quente só de olhar para eles. Sem conseguir resistir ao seu encanto, Ginny atravessou a sala e pegou num, apertando-o contra o peito. A alegria rapidamente invadiu o seu corpo, deixando todos os seus dedos a tremer com aquela energia. Pousando aquele ovo cuidadosamente, ela pegou em outro. O mesmo tipo de coisa aconteceu, mas desta vez várias imagens apareceram diante dos seus olhos.

A sua família, a sua mãe a agarrá-la para um abraço gigantesco depois de ter saído da Câmara dos Segredos.

Percy, a ameaçar os gémeos com o punho por terem tornado o seu cabelo azul.

Arthur a contra-lhe tudo sobre o seu novo aparelho muggle.

Centenas de memórias passaram diante dos seus olhos. Todas lembravam-na do quanto a sua família era importante para ela. Não percebeu que estava a chorar até pousar o ouvo dourado na mesa. Ela limpou as lágrimas rapidamente, pegando no ovo seguinte.

Aquele estava longe de ser agradável como o anterior. A primeira coisa a passar-lhe pela cabeça foi Tom Riddle. Por um pequeno momento ela tinha pensado que era Harry, mas os seus olhos frios e o sorriso sarcástico fizeram-na tremer. Ele estava em cima dela, a gozar com ela, rindo de como tinha sido facilmente iludida, e de como Harry ia morrer por causa da sua ingenuidade. A sua face tinha empalidecido, mas nenhuma lágrima caiu. Ela estava demasiado aterrorizada para chorar. Outras imagens seguiram-se àquela: Hermione deitada, petrificada, na Ala Hospitalar, a cara angustiada do irmão sempre que a via. Tudo no que Ginny podia pensar era, "eu fiz isto, a culpa é toda minha".

Mas depois as imagens pareceram mudar. Ela estava a recordar-se da sensação de Tom a tomar o seu corpo e como ela tinha tentado lutar. Ele tinha ficado ainda mais zangado, dizendo-lhe para o ouvir, que ele era amigo dela e que nunca lhe faria mal. Ainda assim ela resistiu. "Não vou deixar que lhes faças mal" ela tinha pensado desesperadamente.

Ela tinha lutado arduamente com ele, às vezes ganhando um pouco de controle sobre ele enquanto a possuía.

- Mata-a - Tom tinha ordenado à serpente nos confins do corpo de Ginny. "Não", Ginny tinha pensado desesperadamente, enquanto ela avançava sobre Penelope Clearwater (a garota que tinha visto Percy beijar) e Hermione.

 - Então, Ginny. - Tom tinha dito para a tranquilizar – Ela descobriu o nosso segredo, depressa vai perceber que estás atrás de tudo. Não quero que tenhas problemas.

A voz dele parecia tão calma e segura que Ginny quase vacilou. Mas a ideia do que isso poderia fazer à sua família atingiu-a e ela esqueceu Tom por um pequeno momento, mas isso já era suficiente.

- Não mates ninguém! – ela tinha sussurrado ao basilisco desesperadamente. Ele virou a cabeça rapidamente, e Hermione e Penelope, em vez de receberem o raio directamente, olharam para os seus olhos através do espelho que tinham sido espertas o suficiente para trazer. Elas caíram para o chão parecendo mortas, mas Ginny sabia que não estavam.

- TOLA! – Tom tinha gritado no fundo da sua mente. Ginny podia sentir que ele estava a tentar voltar a controlá-la, para acabar o que ele tinha vindo fazer. Ela não podia deixar que isso acontecesse. Com a sua última réstia de força, ela tirou a varinha e fez um barulho enorme, com faíscas a voarem em todas as direcções para atrair os professores.

Ela tinha voltado para a escuridão, só acordou quando já era noite, o diário aberto pousado em cima do seu peito.

Ginny abriu outra vez os seus olhos, ela estava a tremer, mas não era de medo. Ela pousou o ovo com cuidado, maravilhada com o que tinha visto. Todos os seus sentimentos de culpa tinham desaparecido. Ela tinha o enfrentado. Ela tinha impedido que ele matasse com todas as forças que tinha conseguido reunir. Se não tivesse sido por ela, Hermione e Penelope estariam mortas. Se não tivesse sido ela a receber o diário, quem sabe quem o podia ter recebido? Essa pessoa podia até ter sido um dos servos fiéis de Voldemort, e aí ele com certeza teria voltado ao poder.

Ginny não conseguia acreditar nos efeitos de ter compreendido algo tão simples. Parecia como se tivesse estado a carregar um peso para onde quer que ia, e que de repente ele tinha desaparecido. Aquele ovo tinha lhe mostrado o seu pior medo, e ela tinha-no enfrentado e percebido que estava a carregar aquele peso sem motivo nenhum.

O controle que Tom Riddle tinha sobre ela estava finalmente quebrado. Ela nunca poderia agradecer o suficiente ao seu "Pai Natal Secreto" por isto.

Se ela ao menos soubesse quem ele era…

Ela olhou para o último ovo com algumas dúvidas; já tinha passado por várias emoções por uma noite. No entanto, o ovo estava a libertar um brilho reconfortante a que Ginny não conseguiu resistir. Pegando-o, Ginny preparou-se para as imagens ou sentimentos que ela pensou que começassem a invadir a sua mente.

Muito surpreendentemente, nada aconteceu.

- Talvez seja defeituoso – ela murmurou, sem se importar. O ovo só por si era completamente lindo; ter poderes mágicos era só um bónus.

Ela arrumou os quatro tesouros na sua mala e saiu da sala, dando saltinhos enquanto andava.