O DÉCIMO-PRIMEIRO DIA DE NATAL

Ginny acordou a sorrir. Na névoa confusa da manhã, ela não sabia bem porquê, mas ela simplesmente soube que estava feliz. Quando se lembrou de todas as coisas que tinham acontecido nos últimos dez dias, ela sorriu ainda mais.

Alguém estava apaixonado por ela, a Ginny sonsa, sempre na sombra dos seus irmãos…

Na verdade, Hermione era uma boa amiga. Depois de ontem, parecia que Hermione estava desesperada por uma companhia feminina. Depois de terem ultrapassado aqueles momentos estranhos e inevitáveis no início, elas tinham (mesmo soando idiota) formado uma ligação.

[flashback]

Ginny tinha contado a Hermione tudo que tinha acontecido nos últimos tempos, contente por poder desabafar. Ela contou-lhe sobre as suas suspeitas, ficando imensamente vermelha quando explicou porque é que pensava que podia ser Harry. Ela falou sobre Colin, e como esperava não ter de o magoar se realmente fosse ele. Hermione preferiu não dizer nada sobre Harry, mas ela reconfortou Ginny sobre Colin.

- Há mais alguém que achas que pode ser? – Hermione perguntou curiosa – Sabes… é possível que a pessoa não esteja aqui… se esses presentes apareceram e tu nunca tivestes contacto com o garoto… Ele pode estar a pedir a outras pessoas que os dêem para ti. Como fez com aquele primeiranista.

Ginny olhou para Hermione, hesitante. Ela não tinha muitos amigos, e não queria correr nenhum risco, Hermione podia pensar que ela era uma mulher escarlate se ela lhe contasse sobre o beijo. Mas se elas se iam tornar amigas… ela devia-lhe dizer a verdade.

A reacção de Hermione foi cómica, e um pouco previsível. O queixo caiu-lhe e ela olhou para Ginny por alguns momentos, sem poder acreditar… Ginny supôs que ela estava a habituar-se à ideia de que ela já não era um bebé lentamente. Na verdade a culpa de ela pensar que Ginny era uma menininha não era dela… Passar demasiado tempo com Ron fazia isso às pessoas. Mas Hermione recuperou-se, e Ginny ficou contente de ela ter desistido de lhe dar um sermão maternal. Em vez disso ela começou a dar risinhos (sim, risinhos), e pediu-lhe para contar mais, para lhe dar todos os detalhes.

Claro que pouco depois elas conversavam e riam uma com a outra como se conhecessem desde sempre.

[fim do flashback]

Ginny suspirou contente, indo até ao seu malão que estava na ponta da sua ponta, quase deitando Kringle ao chão enquanto o fazia. A coruja olhou para ela ofendida, alisando as penas e saindo pela janela aberta.

"Espera, porque é que a janela está aberta no meio do Inverno?"

Infelizmente, a sua pergunta não proferida foi logo respondida.

Emma, uma das colegas de Ginny, estava à frente do espelho de corpo inteiro mexendo no cabelo castanho escuro e liso. Ginny lançou um olhar carrancudo às suas costas… De todas as coisas que podiam arruinar o seu dia…

- Oh, olá Ginny, finalmente saíste da cama, não é? – Emma perguntou, tentando fazer uma voz doce.

Ginny olhou para o relógio e viu que já era quase meio dia. "Oh céus… Eu nunca durmo até tão tarde."

- O que fazes aqui? – Ginny perguntou, era a véspera de Natal, afinal… uma altura muito estranha para voltar para a escola.

Emma sorriu pretensiosamente ao seu reflexo no espelho. – Eu queria passar aqui as férias, mas os meus pais insistiram de eu ao menos os ir visitar. Agora estou de volta.

"Há aqui qualquer coisa errada…" Ginny pensou, um pouco desconfiada. "A Emma nunca fica na escola mais tempo do que é obrigatório."

Antes de poder dizer alguma coisa, Emma continuou a falar. Ela adorava falar sobre ela, qualquer que fosse a audiência. – Agora posso ficar aqui e passar um Natal romântico com o meu namorado. – Ginny viu Emma sorrir ainda mais.

"Ela tem sempre um namorado, porque é que me havia de importar agora?" Ginny perguntou-se.

Ouviu-se uma batida hesitante na porta. – Emma? – uma voz familiar chamou, soando um pouco nervosa.

- Entra! – Emma respondeu, parecendo excitada.

- Hmmm… tens a certeza que não queres que espere cá fora? – A voz perguntou, muito desconfortável por estar ao pé do dormitório feminino, quanto mais entrar nele.

- Não sejas tolo, Harry, só estou cá eu e a irmã mais nova do Ron – O coração de Ginny pareceu que se afundou até ao estômago. Não que ela precisasses de confirmação, ela soube no minuto em que o ouviu chamar o nome da colega que era o Harry.

Harry Potter.

A paixão/obsessão que tinha ocupado os seus pensamentos e a sua cabeça durante muitos anos estava a namorar a sua colega fútil.

Quando Harry entrou no quarto só deitou um rápido olhar para Ginny antes de começar a babar pelos atributos femininos de Emma. Tal como todos os outros garotos fariam.

Ginny suspirou, por alguma razão tinha acreditado que Harry era uma das poucas pessoas que não davam muita importância à aparência…

Outra coisa que surpreendeu Ginny foi não ficar desapontada com pensava que ia ficar. "Vá lá, Ginny… O teu coração devia estar partido." Mas era quase como se estivesse à espera que algo do género acontecesse. Claro que seria um conto de fadas perfeito, o fantástico Harry Potter, secretamente apaixonado pela pequena e tímida Ginny Weasley… dando-lhe presentes românticos e caros e só revelando a sua identidade no dia de Natal…

Mas será que ela realmente estava à espera disso?

"Não é altura de pensares nessas coisas" Ginny disse a si mesma firmemente. Agora que Harry estava obviamente posto de lado… quem estava a fazer aquilo tudo? Com certeza não era Colin… Não parecia ser ele… Mas nunca se sabe.

- Vemo-nos mais tarde, Ginny! – Emma disse, dando a Ginny um olhar presunçoso por cima do ombro. Ginny limitou-se a rolar os olhos para as costas dos dois.

Quando eles saíram, ela lembrou-se que Kringle tinha estado à espera que ela acordasse… Isso significava que devia haver algum presente.

Vendo o envelope em cima do seu malão onde Kringle tinha estado, Ginny rapidamente o apanhou, saboreando todos os momentos da expectativa.

No décimo-primeiro dia de Natal,

O teu verdadeiro amor deu-te,

Onze pixies a dançarem na lua cheia

Vai para o sítio mais afastado do castelo e mais perto da floresta, às onze horas

Traz alguém contigo se estiveres nervosa

Ginny ficou a olhar para as instruções, como é que era suposto ela sair assim tão tarde sem ser apanhada? Não que ela fosse uma santa… Ela apenas sabia que as hipóteses de ela não ser vista eram muito pequenas, e Ginny não queria uma detenção no Natal.

"Se eu fosse o trio maravilha, eu saberia exactamente o que fazer…" e foi aí que teve uma ideia brilhante.

"Hermione!"

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- Queres que eu faça o quê??? – Hermione gritou, olhando para Ginny como se ela estivesse louca. – Nem pensar que eu te vou ajudar a sair do castelo e quebrar regras da escola. Sou uma monitora, sabes!

- Mas Hermione, eu vou com ou sem ti, e tu andas às escondidas com Ron e Harry há anos! – Ginny contrapôs.

- Só quando são situações de vida ou morte – Hermione continuou, teimosa.

- Vá lá, Hermione, vai ser engraçado, quantas vezes é que se podem ver pixies a dançar?

Ginny sorriu quando os lábios de Hermione se enrugaram, e os seus olhos brilharam de ansiedade. Era verdade, poucas pessoas tinham a sorte de assistir a um círculo de pixies (pelo menos era isso que Ginny achava que ia acontecer). Eles saíam em algumas luas cheias e dançavam, cada grupo tinha o seu próprio círculo, e se se tivesse sorte de achar um, na lua cheia podia assistir-se a esse espectáculo da Natureza.

- Bem… - Hermione começou, suspirando derrotada. – Está bem… Mas nunca contes ao teu irmão que quebrei as regras de livre vontade.

- De acordo. – Ginny concordou, sorrindo triunfante.

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Às dez e meia as duas garotas saíram. Hermione conseguiu pedir emprestado o manto de Harry. Ao que parece, Harry estava demasiado agarrado em Emma para protestar. – Acho que ele nem ouviu o que eu disse. – Hermione queixou-se. – Aquela coisa tinha acabado de se sentar no colo dele.

Ginny limitou-se a rolar o olhos, - Emma tem esse efeito sobre os garotos.

- Tu pareces não te importar com isso… Não tinhas dito que pensavas que o Harry podia ser…

- Eu sei, mas não estou tão chateada como pensava que estaria… Estou só confusa com quem me anda a fazer isto…

- Sabes que o Colin gosta muito de ti… - Hermione começou, mas Ginny interrompeu-a.

- Eu sei, mas todas estas coisas de feiticeiros… acho que ele não era capaz de as fazer. Não estou a falar do facto de ele ter pais muggles. – Ginny apressou-se a explicar. – É só que… Os amuletos e tudo isso são coisas que a maior parte das pessoas com pais muggles não conhecem sem pesquisar. E o preço de algumas destas coisas… - Ginny abanou a cabeça ao pensar nisso. – Duvido que ele pudesse pagá-las.

Hermione concordou, relutante, mas elas ainda não o podiam pôr de parte (visto que ele era o único suspeito que sobrava).

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Tal como os outros presentes, a dança dos pixies era absolutamente maravilhosa. Quando Ginny e Hermione chegaram, elas estavam longe do castelo o suficiente para tirarem o manto, para o alívio delas. Elas tinham seguido a borda da floresta proibida até chegarem a um tipo de recinto (elas não sabiam que era o mesmo lugar onde tinham ficado os dragões no quarto ano de Ginny). Hermione sabia que era aquele o lugar certo, porque "segundo as suas pesquisas", aquele era o sítio ideal para os pixies realizarem os seus rituais de lua cheia.

E claro que ela tinha razão, Hermione nunca errava naquele tipo de coisas. Os pixies emergiram das árvores às onze horas. A lua cheia destacava-se no céu, e parecia que descia, iluminando apenas o seu círculo enquanto eles dançavam.

Não havia música, não havia nada excepto os sons que a Natureza lhes dava, mas eles dançavam como se tivessem uma batida e seguiam o seu ritmo.

Hermione, que tinha trazido um caderno de notas para escrever detalhes da experiência estava parada, a caneta a cair da sua mão, olhando completamente abismada.

O tempo já não importava, e as duas garotas sentaram-se e olharam, com a alma a flutuar, alegria nos seus corações, até que a lua cheia desapareceu do céu e já não havia para onde olhar. Tinham ficado lá um minuto, depois Ginny e Hermione acordaram do seu estado de perplexidade e perceberam que já era manhã. 

- Uau… - Hermione disse, e Ginny apenas abanou a cabeça, concordando. Não havia nada mais a dizer.

Com o manto da Invisibilidade na mão, as garotas voltaram para o castelo, Ginny meramente ciente de que já era dia de Natal.