Capítulo 1





Arrastaram o cadáver porta adentro e quase atropelaram Bichento que tentava escapar pela porta para dar uma voltinha. Mais que depressa Draco largou o corpo e puxou o gato pelo rabo.
- Volta aqui! Tua dona me mata se você resolver fugir! - resmungou. O gato, em resposta, lhe lançou um olhar furioso e tascou-lhe um arranhão. Ainda mais irritado com isso, pegou o bicho pelo pescoço e o atirou para dentro. O gato, magoado, soltou um gemido e correu para o quarto de Hermione, enquanto Draco fechava a porta com um chute.
- Quer me ajudar aqui, Malfoy! - Neville falou entredentes, ainda segurando as pernas da velha. - Ela é pesada, sabia?
- Deve pesar mais que a mãe do Weasley!
- E, por falar nele, a Hermione te mata se souber que você atirou o gato dela.
- Ela pelo menos poderia ter feito a gentileza de levar embora este bicho inútil! - respondeu, com maus modos, erguendo a síndica pelos braços. - Para onde levamos este trambolho?
- Vamos botar atrás do sofá, por enquanto. E, pelo amor de Merlin, vista uma roupa!
Draco soltou o cadáver, novamente, e pôs o avental, que estava em cima do sofá.
- De novo a droga do avental? - resmungou Neville. Draco lhe lançou um olhar feio, enquanto erguia a síndica novamente.
- De certo você espera que eu vá até o armário escolher uma roupa a uma hora destas!
Neville não respondeu. Os dois arrastaram a velha até o lugar combinado e então deram a volta, caindo, pesadamente, sobre o sofá.
O silêncio pairou entre eles por alguns instantes, até que Neville o quebrou:
- Que falta faz a Hermione numa hora destas! - suspirou. Draco não gostou de ouvir seus próprios pensamentos saírem da boca de Neville.
- Falta por que? - esbravejou. - Para ficar gritando que somos dois irresponsáveis ou algo do gênero? Melhor sem ela!
- É, pode ser. Mas ela saberia o que fazer!
- Você não passa de um bebê chorão, Longbottom! Você não sabe o que fazer? Eu sei o que vamos fazer! Vamos trazer esta velha de volta!
Neville atirou-se do sofá ao ouvir aquilo e ficou olhando para Draco, num misto de pena e medo, como se estivesse diante de um louco perigoso. Aquilo só o irritou ainda mais.
- O que foi, Longbottom?
- Você não pode estar falando sério! - o outro murmurou.
- Mas é claro que eu estou falando sério! Você tem alguma idéia melhor?
- Malfoy, você é doente! - Falou Neville, entredentes, a fisionomia mudando do medo para a fúria. Aquilo teria deixado Draco com receio, em outra ocasião. Neville nunca se enfurecia, não poderia saber o que esperar dele. Mas naquela situação, Draco nem notou. E Neville continuou: - Ela vai virar um zumbi! Não existe maneira realmente eficaz de trazer de volta alguém que morreu. Além do que, os únicos feitiços que existem para isso são magia negra!
- E daí? É isso ou Askaban! E eu não quero sob hipótese alguma sequer conhecer Askaban em uma visita! O que você sugere que façamos?
- Vamos jogar o corpo num rio!
- Sim, claro! - respondeu, irônico. - Vamos embrulhar o cadáver no tapete da sala e sair por ai de madrugada com ele nas costas. Você não pensa, não é, Longbottom?
- Você está completamente fora de si se acha que eu vou sair por ai fazendo rituais de magia negra para reviver cadáveres!
- E você está mais louco ainda se está achando que eu vou sair por aí com um cadáver no ombro para atirar num rio.
- E vamos fazer o que, então? Deixá-lo atrás do sofá até que comece a feder e todo mundo venha bater aqui? - gritou Neville.
- Se você não parar de histeria, Longbottom, eu vou te bater!
- Então bate! - respondeu Neville, completamente fora de si, metendo um soco no queixo de Draco, que foi pego de surpresa. "Ô mão pesada a do Longbottom" pensou Draco, atirando-se contra Neville. Os dois rolaram no chão aos socos e sopapos.
Não estando ali Hermione para lhes jogar um balde de água fria (não que ela já o tivesse feito alguma vez, mas provavelmente era o que faria se estivesse ali), eles brigaram até ficarem cansados e machucados o bastante para cada um desabar de um lado, no chão.
Ficaram por ali por alguns momentos, deitados lado a lado, a respiração ofegante, alguns gemidos de dor.
- E então, Longbottom? - disse Draco, com a voz ainda mais arrastada que o normal. - O que faremos?
- Par ou ímpar? - respondeu Neville, muito baixo. - Quem perder faz o que o outro quer!
- Ímpar! - disse Draco. Neville sussurrou um "já" e jogaram. Neville tinha dois dedos erguidos, Draco os cinco. - Ganhei!!!
- Tudo bem! Você sabe fazer o tal feitiço?
- É uma espécie de ritual. Precisamos colocá-la num pentagrama, acender uma vela em cada ponta da estrela, queimar umas ervas, recitar um mântra numa língua estranha e tocar a boca dela com as varinhas, ao mesmo tempo, lançando o feitiço.
- Magia negra! Magia negra! Minha avó deve estar rolando na sepultura há uma hora destas. Usar minha varinha para magia negra... - resmungou Neville.
Os dois enrolaram o tapete da sala e desenharam um pentagrama com uma pena de tinta vermelha que Hermione havia deixado sob a mesa da cozinha. Arrastaram o cadáver até o centro do pentagrama.
- Que ervas eu uso? -disse Neville. Draco, atordoado atrás de velas, que pareciam ter sumido do apartamento, mal prestou atenção. Algo sobre ervas.
- O que?
- Que ervas eu uso?
- Não lembro! Acho que qualquer uma serve.







Aquele, definitivamente, não era o seu dia. Não que os outros houvessem sido melhores, mas aquele estava ganhando de longe. E era só meio dia.
Depois que terminara os estudos em Hogwarts, ingressara na escola de aurores. Estudara lá pelo tempo necessário, mas nunca conseguira receber o diploma. Depois de não passar no teste final por quatro vezes, acabara por desistir. E, desde então, vivia com os pais sem fazer nada. Não que realmente não fizesse nada, ajudava a mãe com os afazeres domésticos. Mas sua vida nos últimos anos havia sido uma total e irrecuperável perda de tempo. Poderia estar fazendo muita coisa, mas não fazia nada. Tentara um emprego no ministério, por intermédio do pai, mas não durara muito tempo. Não levava jeito para a coisa.
Todos os seus dias eram entediantemente iguais. Sempre iguais. Desejava ardentemente que alguma coisa acontecesse para mudar sua vida, mas nada acontecia. Cada dia que passava era igual ao anterior e isso era uma irremediável perda de tempo. Parecia que as coisas nunca iriam mudar. Que envelheceria assim. Andava mau humorada como nunca fora antes. Queria explodir o mundo.
Quando acordara naquela manhã, encontrara um bilhete da mãe preso na geladeira.

Gina, querida

Fui resolver uns assuntos com seu pai. Volto no fim do dia.
Prepare o almoço para seus irmãos.
Beijos

Mamãe

Amassara o bilhete e o jogara fora, bufando. Os irmãos em questão eram Fred e Jorge, os únicos, além dela, que ainda moravam na Toca. Porém, ao contrário dela, tinham seu próprio negócio e ajudavam a sustentar a casa.
Gina sentia falta dos outros irmãos. Especialmente de Rony que casara com aquela alemã sonsa e fora embora para a Alemanha. Apesar de Fred e Jorge serem bons companheiros, estes só apareciam para comer e dormir. Estavam sempre trabalhando ou caindo na farra. E ela sentia-se tão sozinha.
Quando estava acabando de preparar o almoço para os dois, uma coruja apareceu trazendo o recado de que eles não viriam para almoçar. Teve vontade jogar as panelas nas paredes, na falta das cabeças igualmente vermelhas dos dois. Perdendo tempo outra vez! Sempre assim! Será que aqueles cabeças ocas nunca iriam aprender a avisar antes?
Já estava se preparando para mandar uma coruja com um berrador bem mal criado para a dupla quando escutou o som de alguém aparatando na sala. Pensando que deviam ser os gêmeos, que haviam mudado de idéia, correu para lá, de dedo em riste, pronta para lhes dizer poucas e boas. Mas, ao chegar, esqueceu o discurso e baixou o dedo. Não, não, não! Aquilo só poderia ser castigo.
Parada, no meio da sala, estava sua cunhada, Astrid, em carne, osso e olhos inchados de chorar. Aos prantos. E Gina odiava a cunhada.
No mínimo aquela víbora havia brigado novamente com Rony e estava ali para encher os ouvidos de sua mãe com suas intermináveis lamentações. Não seria a primeira vez: Astrid sempre fazia isso. Eram os únicos momentos em que lembrava da existência da família do marido: quando brigavam e ela vinha atormentar Molly Weasley com suas queixas. Gina achava que ela fazia isso por que sua própria família sabia o quanto era louca e não lhe davam atenção. Não sabia como Rony não via que a mulher era uma histérica desgovernada e se perguntava se ele tinha conhecimento das cenas que ela vinha fazer para sua mãe quando brigavam.
Ah, mas desta vez ela iria se dar mal, ô se iria. A mãe não estava em casa e a desvairada da mulher do Rony iria escutar as poucas e boas que estava guardando para os gêmeos.
- O que foi desta vez? Rony não quis ir a alguma festa com você novamente para que venha aqui encher os ouvidos de minha mãe? - disse, raivosa, para a cunhada. - Você não toma jeito, mesmo! Não sei por que ele não te larga! Aposto que não sabe das coisas que você vem fazer aqui em casa, senão já teria te largado há muito tempo.
O queixo de Astrid tremeu. Lágrimas grossas rolaram de seus olhos e começaram a cair mais e mais. Então ela se jogou nos braços de Gina e começou a soluçar como uma criança que perdeu o brinquedo predileto.
- Rony me deixou! - conseguiu falar, entre um soluço e outro. Gina, estática, sem saber o que fazer, apenas a abraçou.