Capítulo 6

Já era noite quando Draco voltou para casa, trazendo Gina pela mão.

O apartamento estava escuro e, na penumbra da luz da lua que entrava pela janela semi aberta, ele pode perceber o quanto estava bagunçado. Muito mais do que quando saíra. A mesa de centro onde antes deixara as cartas de Snap Explosivo para enganar os homens do ministério estava agora vazia, como se alguém tivesse passado uma vassoura por cima dela. E tudo que antes estivera sobre ela agora se encontrava no chão. Assim como a camisa de Neville, manchada de batom.

Draco não pode deixar escapar uma risadinha. Mais uma vez o panaca do Longbottom, que de panaca só tinha a cara, tinha se arranjado. Àquelas alturas podia imaginar o belo par de chifres que Ronald Weasley carregava na cabeça. Teria feito um comentário maldoso, mas lembrou que a mulher ao seu lado era a irmã dele e achou melhor manter a boca fechada ou ela poderia esquentar. E como era esquentada aquela ruivinha!

Teve vontade rir de si mesmo. Aquele, sem dúvida alguma, havia sido o dia mais louco de toda sua vida. Começando pela briga com Hermione; o Weasley em sua porta; se livrara da sangue ruim; matara a sindica; resolvera ressuscitar o cadáver com magia negra; se pendurara do lado de fora da janela, só de avental, para esconder-se da polícia do ministério da magia; sua casa fora invadida por uma mulher descontrolada; apanhara de Gina e agora acabara de descobrir que encontrara a mulher de sua vida. E tudo isso num dia só.

Não podia negar: estava apaixonado por ela. E, também, negaria por que? Não era o que esperavam que fizesse? Um Malfoy e uma Weasley nunca! Nunca? Nunca era muito tempo. E não tinha tanto tempo assim para perder. Ainda mais agora que iriam fugir juntos.

Sim, fugiriam juntos. E a idéia havia sido dela. Naquela tarde, depois que saíram da lanchonete, alugaram um quarto de hotel onde, entre beijos e mais beijos, descobriram que a vida podia pregar peças. Descobriram que poderiam ser os piores inimigos, mas que ser amantes era muito mais divertido. Ela trouxera a graça de volta a sua vida e lhe dissera que ele a fizera encontrar um sentido há muito tempo perdido para ter um motivo para levantar a cada manhã. Poderia ser que se separassem na semana seguinte, mas isso não importava. O que importava era que estavam à um passo de fazer algo que realmente iria significar. Algo que todos considerariam loucura e que, de fato, era loucura. Mas isso não importava.

Naquela tarde ele lhe contara sobre seus anseios, seus medos e suas ambições como se ela fosse uma velha amiga. Ela, em troca, fizera o mesmo. Haviam mais coisas em comum entre seus mundos tão opostos que ninguém nunca imaginaria. E a grande coincidência era que para ambos faltava alguma. E ambos tinham a sensação de encontrar esta coisa que faltava no outro.

Foi quando, num átimo de insensatez, ela lhe propusera que esquecesse tudo: o cadáver na cama de Hermione, Neville, o Ministério da Magia. Que esquecesse tudo e fugisse com ela para algum lugar que nem ela sabia onde era. Ela faria o mesmo. Era uma insensatez, ambos sabiam. Mas a vontade de arriscar era maior que o bom senso. E, por isso, naquele momento eles retornavam ao apartamento para reunir algumas coisas de Draco antes de irem para a estação ferroviária pegar o primeiro trem para o primeiro lugar que encontrassem.

Draco segurou firme a mão de Gina e olhou para aqueles olhos escuros tão profundos que pareciam lagos onde ele poderia se afogar. Ela lhe sorriu.

- Você tem certeza que quer fazer isto? – ele falou.

Ele acabara de lhe perguntar se ela tinha certeza. Era óbvio que não tinha certeza. Como poderia ter? Estava prestes a cometer a maior loucura de toda sua vida e ele lhe perguntava se tinha certeza.

Certeza não tinha, mas era o que queria fazer e, portanto, o que faria. Não iria pensar a respeito antes de fazer pois se pensasse seria capaz de perder a coragem e desistir. E não queria desistir. Ao menos uma vez na vida iria até o fim. Desse no que desse, afinal não era por isso que estava esperando há tanto tempo? Por algo diferente? Por um motivo para levantar à cada manhã?

Naquela tarde não havia conhecido uma face de Draco Malfoy que nunca imaginara existir? E não se descobrira apaixonada por esta face? Imaginou quantas outras faces dele poderia vir a conhecer e isto a fez desejar passar o resto da vida ao seu lado. Conhecendo quantas faces dele fosse possível e imaginando de que maneira ele a faria se apaixonar por cada uma delas. Até mesmo por aquela face odiosa que conhecera ainda criança. Sabia que ele a faria se apaixonar até por ela.

E então, num arroubo insensato, propôs que fugissem juntos. Sem destino. Para onde o vento os levasse. E ele topou.

E, agora, ele lhe perguntava se tinha certeza. O que poderia responder?

- Você tem? – ela lhe perguntou em resposta e ele apenas sorriu. Claro que ele também não tinha certeza mas, assim como ela, era o que ele queria fazer. – Arrume logo suas coisas, Draco. Antes que Astrid apareça e eu não consiga mais me livrar dela.

- Astrid deve estar bem ocupada! – ele respondeu com um sorriso maroto, indicando a porta do quarto de Neville com a cabeça.

Quem diria? Astrid havia esquecido Rony pelo primeiro que apareceu? Ou a mulher era realmente muito louca ou Rony não soubera como "amansar" a fera. Ou Neville era realmente tão terrível quanto Draco dissera. Mas nessa alternativa não poderia acreditar. Não parecia algo próprio de Neville ser um conquistador irrecuperável que não perdoava um rabo de saia. Não do Neville que conhecia, pelo menos.

"Mas isso é o que se espera dele," pensou. "Que seja um rapaz certinho."

Draco lhe deu um beijo e foi até o quarto, onde, ela observou da porta, reuniu algumas roupas, a varinha e dinheiro numa mochila. Depois foi até ela e passou o braço sobre seus ombros.

- Vamos?

- Vamos!

Mas, no momento em que ele pôs a mão na maçaneta da porta da rua, esta se abriu e Gina pôde distinguir os rostos de Hermione e do irmão à sua frente.

Algo lhe dizia que deveriam ir buscar suas coisas no dia seguinte. Mas, levando em consideração que naquele momento estava abraçada a Rony, deitados no chão do banheiro, depois de uma exaustiva maratona para "inaugurar" o apartamento, ela se perguntou se não seria apenas preguiça de deixar os confortáveis braços dele para ir até o pardieiro onde morava antes. Acabou por concluir que era bem isso e resolveu deixar a preguiça de lado e ir com ele buscar suas coisas. Afinal, nunca dera importância àquelas bobagens sobre intuição.

Porém, no momento em que abriu a porta de seu antigo apartamento e deu de cara com Draco, abraçado na irmã de Rony, com uma mochila no ombro e, os dois, com aquela cara muito feliz de quem estava fazendo algo errado, ela questionou se sua intuição não estaria certa. Que diabos Malfoy estava fazendo com o braço em torno dos ombros de Gina? E por que diabos ela estava com aquela cara de quem estava adorando? Alguma coisa estava muito errada por ali. E ela temia que fosse a reação que Rony teria no momento que a ficha caísse.

Hermione percebeu o misto de surpresa e pânico que denunciavam os olhos de Draco ao vê-los. Gina, no entanto, revelava uma mistura de surpresa e fúria. Sua fisionomia foi mudando, rapidamente, até que a surpresa foi embora e a fúria cresceu, fazendo-a parecer um tigre pronto para o ataque.

A expressão do rosto de Rony ela não chegou a ver pois, no momento em que foi virar-se para olhá-lo, ele avançou para cima de Draco como se tivesse possuído pelo espírito de um trasgo montês.

- Tira as mãos de cima da minha irmã! – ele rugiu, dando um empurrão tão violento em Draco que o jogou no chão. Por um momento Hermione ficou sem reação. Havia tantos anos que não presenciava um rompante de Rony que já nem sabia como acalmá-lo. E, para melhorar sua situação, o rompante tinha que se dar justo com quem.

Mas, para sua sorte (ou azar, ela não tinha certeza), Gina meteu-se na frente de Rony, antes que ele pudesse acertar Malfoy novamente, e meteu-lhe um forte chute na canela. Rony olhou, surpreso e furioso, para a irmã.

- Que merda você pensa que está fazendo, Gina? Por que você está aqui? E porque está aqui com o Malfoy?

- Porque eu estou aqui? – ela gritou, ainda mais furiosa do que ele. – Por que você não pergunta para aquela desvairada da tua mulher? Por que com o Draco?

- Draco? – ele a cortou, indignado. – Você está chamando este infeliz pelo primeiro nome?

- Não é da tua conta! – ela continuou, como se ele não a tivesse interrompido. – Mas é por tua culpa. E o que eu estou fazendo, apesar de não ser da tua conta também, eu te digo. Estou indo embora com ele! Dê lembranças minhas ao papai e à mamãe e vá pro diabo que te carregue!

Ela não sabia como tivera coragem de dizer tudo aquilo ao irmão. E nem queria saber! Não lhe desejava mal, mas o conhecia bem o suficiente para saber que se lhe desse uma deixa ele tentaria impedi-la. E não existe melhor defesa que o ataque. Isso sem contar que ainda estava fula da vida com ele por ter lhe deixado Astrid de presente.

E agora que tinha Rony ali, incrédulo e embasbacado na sua frente, não poderia perder a oportunidade perfeita. Deu uma joelhada nas partes baixas do irmão que foi de dar pena. O coitado se contorceu de dor. Viu que Draco, já em pé, tentava a muito custo conter o riso. E que Hermione, naquela hora, correu acudir Rony.

Gina, pela enésima vez naquele dia, aproveitando o momento, agarrou Draco pela mão e disparou a correr, puxando-o consigo. Os dois saíram correndo porta a fora, escada a baixo, como dois loucos. Correram, correram e correram. Até que Draco, esbaforido, tentando recuperar o fôlego que perdera completamente de tanto correr e dar risada ao mesmo tempo, encostou-se num muro, rindo e tentando respirar.

- Gina, você é demais! Nunca imaginei que você seria capaz de fazer uma coisa daquelas! – ele falou, após ter se acalmado. Foi a vez dela cair na risada.

- Nem eu, Draco. Nem eu!

Ele a abraçou, carinhosamente, e então lhe deu um beijo rápido.

- Pronta? – ele lhe disse, sorrindo.

- E isso importa? – ela respondeu lhe piscando um olho. Ele soltou uma gostosa gargalhada enquanto tirava a varinha da mochila. Então segurou a mão dela e ergueu a varinha acima da cabeça, chamando o Noitebus Andante.

Hermione correu para acudir Rony, e também para segurá-lo caso resolvesse contra-atacar Gina. Porém a irmã dele saiu correndo do apartamento arrastando Draco consigo.

Rony, apesar da dor que estava sentindo, gritava impropérios e tentava se por em pé para correr atrás de Gina. Hermione temia que ele conseguisse fazê-lo. E teria feito se a porta do quarto de Neville não tivesse sido aberta.

- Mas que merda, Malfoy! – Neville já abriu a porta gritando. – O que está acontecendo desta vez? Tá apanhando da Gina de novo? Toma jeito de gente, criatura!

Foi neste momento que os olhos de Neville cruzaram com os de Rony.

- Olha, não é o que vocês estão pensando, tá? – Neville, apavorado, foi logo dizendo, todo enrolado e sem saber por onde começar. – A gente não estava fazendo nada demais! É verdade!

A colocação de Neville até teria feito sentido se não fosse necessário acrescentar a isso que ele estava perceptivelmente nu, apenas enrolado num lençol e acompanhado por uma bela loura no mesmo estado que, imediatamente, Hermione identificou como a mulher de Rony.

Rony engoliu em seco.