Capítulo 6
O PIOR NATAL DE TODOS
Parecia que agora ela era a nova atração da Sonserina. Toda vez que ela passava pelo salão comunal rostos se viravam e gente apontava para ela como se ela fosse uma verdadeira aberração, como no passado. Mas isso não a surpreendeu, ao contrário, ela já esperava por isso depois do que aconteceu com aquele grupo de quintanista com quem discutiu. O que na verdade a surpreendeu é que os cochichos e as piadinhas não a afetavam, não do modo como ela imaginava que afetaria, destruindo a sua alma e a fazendo chorar por dias. Muito pelo contrário. Tudo aquilo a estava irritando, e muito. Tanto que já arrumou briga no corredor por causa disso e entrou em sua primeira detenção. Seu pai ficou chocado quando soube do feito da filha, Patrick apenas bateu palmas e lhe deu os parabéns por finalmente reagir a algo e Harry, bem, ele caiu na gargalhada o que acabou a influenciando e a fazendo rir também.
Dallas jogou a sua última peça de roupa dentro de seu malão e fechou esse bruscamente. Estava irritada novamente, pois mais uma vez teria que passar o Natal em casa. Não que ela desprezasse a companhia de seu pai e de Monty, mas certamente ela não fazia questão de passar o Natal com Amélia. Amélia? Quando foi que ela deixou de chamar a mulher de grandmère para chamar de Amélia? Não importava agora. Ela apenas queria, ao menos uma vez, ficar em Hogwarts e ter um Natal de verdade. Catou a gaiola de sua coruja e saiu as pressas do salão da Sonserina, não se importando em desviar de ninguém pois sabia que os alunos fariam isso por si só. Despediu-se de Patrick no hall de entrada do castelo, ele ficaria em Hogwarts o sortudo, e entrou nas carruagens. Encontrou uma cabine vazia no trem e acomodou esperando que esse partisse. Para piorar o seu feriado Harry não estava em Hogsmeade de novo e por isso não podia se despedir dele. Ela gostaria muito de saber o que esse garoto tanto fazia para viajar desse jeito. Uma vez ele disse que o curso de Auror exigia muito dele, mas ela não acreditou, pois Patrick havia lhe dito que gostaria de ser Auror mas que a única coisa chata disso é que a Academia de Aurores era como Hogwarts, um internato. E Harry, definitivamente, não estava nessa Academia. Ela sabia que ele estava mentindo e que com certeza o que ele fazia era algo relacionado a Voldemort. Mas se ele não queria lhe contar, não seria ela a insistir.
Quando o sol já estava pondo-se no horizonte, o Expresso chegou à estação de King's Cross. Dallas arrastou o seu malão por entre as barreiras, balançando de um lado para o outro a gaiola de Osíris que piava irritada por causa do chacoalhar. Alcançou a parte trouxa da estação e viu que não era Montgomery que estava lá a sua espera, como sempre, mas sim o seu pai. Em outras ocasiões ela pularia de alegria e correria até ele, o abraçando fortemente. Porém o problema era que: se o seu pai estava ali, algo tinha acontecido ou iria acontecer. Ou então ele veio apenas reforçar as palavras desgostosas da carta que a enviou quando soube da detenção da jovem.
-Pai. - a menina falou em um tom sério e sussurrado.
-Dallas. - Albert deu um pequeno sorriso constrangido. Algo, definitivamente, não estava certo.
-E o Monty?
-Ele ficou em casa. Esse ano eu resolvi buscar a minha filha para levá-la para casa. - a morena franziu as sobrancelhas e seguiu o pai até o carro no estacionamento.
-Há algo errado, papai? Aconteceu alguma coisa? Grandmère está bem? - não soube direito por que a imagem de sua avó lhe veio a cabeça, mas algo lhe dizia que essa repentina aparição de seu pai se relacionava a ela. Albert enrijeceu um pouco e falou em um tom um pouco desgostoso.
-Sua avó está ótima… Até demais. - sussurrou a última frase com uma voz contrariada.
Dallas apenas deu de ombros e o caminho até a mansão seguiu-se em silêncio depois que saíram da estação.
Ao menos esse ano o vestido não era cheio de bordados e babados, fazendo-a parecer uma boneca muito feia. Ao menos era algo que ela agüentaria carregar a festa inteira. Bem, parte da festa, pois assim como nos anos anteriores ela daria um jeito de escapar no meio desta e se trancar em seu quarto, dando as caras apenas no dia seguinte. Rodou em frente ao espelho e pela primeira vez em sua vida gostou do que viu. Não estava tão ruim assim. Agora que não usava mais óculos seu rosto ficava com uma aparência melhor. Podia até dizer que os quilos a mais lhe fizeram bem ela tinha ganhando algumas curvas mas mesmo assim ainda parecia franzina, ao menos para ela. Os cabelos, que sempre eram presos em duas tranças em cada lado da cabeça, estavam soltos e desciam lisos pelas costas, chegando a altura da cintura e o vestido era azul turquesa como seus olhos eram às vezes. É, não estava tão ruim assim.
Clarisse adentrou o quarto e sorriu para a jovem que lá estava. Ainda se lembrava do susto que levou quando viu a menina chegar em casa. Ela estava se tornando uma bela jovem, embora a própria insistisse que não e fizesse de tudo para parecer feia, e ela achava que isso era um modo que Dallas havia encontrado de se proteger do mundo. Se esconder em um casulo. Mas Dallas não era uma menina feia, nunca poderia ser. Sr. Albert era um homem charmoso e Chloe fora uma bela mulher, ao menos a imagem que ela lembrava era a de uma bela mulher.
-Menina… - já estava começando a ser um erro a chamar de menina. -… está na hora do martírio. - brincou e Dallas sorriu a mulher.
-Certo. - a jovem concordou e saiu do quarto, acompanhando Clarisse.
Como sempre o salão estava cheio de gente rica a importante da sociedade da Grã-Bretanha. Dallas apenas olhou todas aquelas pessoas e ficou admirada pelo fato de a Rainha da Inglaterra não estar presente já quê, do jeito que tinha tanta gente importante ali mostrava que a sua família era bastante influente. A noite seguia normal, com ela dando sorrisinhos e apertos de mãos para os convidados enquanto internamente lutava contra a vontade de rolar os olhos em aversão àquela pompa toda. Não sabia direito porque não gostava de tanto luxo se viveu cercada por ele. Monty lhe dizia que talvez fosse pelo fato de sua mãe ter sido uma mulher simples e que não ligava para o dinheiro e apenas para a felicidade. Dallas apenas sorria ao ouvir tais coisas sobre a sua mãe, pois para conhecê-la melhor só pela boca dos empregados, já que se dependesse da sua família nunca saberia de nada. Principalmente se dependesse da boa vontade da sua avó, que foi a que mais conviveu com ela enquanto seu pai sempre viajava a negócios. A comemoração seguia bem, exceto que na festa também estava o sócio de seu pai, sr.Haliwell, e o filho dele, os mesmo que em uma de suas férias de verão foram jantar em sua casa e Amélia ficou lançando indiretas sobre a sociedade.
Quando deu meia noite, no alto da festa, Dallas resolveu que já era hora de se retirar e dar um adeus àquela frescura toda. Porém, algo a fez parar em seus rastros repentinamente. A música havia parado de tocar e a sua avó estava chamando a atenção de todos para si. Assim que o último convidado virou-se para ela a mulher começou a falar.
-Agradeço a todos a presença nessa grandiosa noite… - a menina rodou os olhos e começou a subir as escadarias da casa pois parecia que a Sra.Winford começaria com mais um daqueles discursos formais dela. -… que será para a nossa família, uma noite muito especial. Tudo graças a minha neta. - e a mulher indicou a escada onde Dallas parou repentinamente e virou-se, vendo dezenas de pares de olhos em sobre ela. Mas o que a matriarca faria dessa vez?
-Há pouco mais de um ano a nossa família fez uma maravilhosa sociedade com os Haliwell. E agora eu digo, com grande alegria, que essa sociedade se estenderá para algo mais que negócios. É com grande prazer que eu anuncio o noivado de minha neta Dallas Geraldine Winford com o sr.Allen Haliwell III. - aplausos foram dados ao longo do salão mas rapidamente cessaram quando um grito veio das escadas.
-COMO É QUE É! - Dallas desceu os degraus a passos pesados e seus olhos, que essa noite estavam da cor de seu vestido, tinham ganhado tons intensos de violeta. E à medida que ela ia se aproximando da avó eles pareciam escurecer mais ficando quase vermelhos de raiva. - Eu… eu… - muito estavam chocados pois era a primeira vez que viam a pacata herdeira dos Winford explodir de raiva. -… eu não vou me rebaixar a ponto de me casar com esse protótipo defeituoso de gente! Eu não sou uma mercadoria a qual a senhora pode manipular ou vender. EU SOU UM SER HUMANO! - e lançou um olhar irado também para o seu pai que apenas o retribui com pesar. Não pôde intervir na decisão de sua mãe e quando soube ela já tinha assinado o contrato e nada poderia fazer para mudar isso. Era o presidente das Empresas Winford, mas não era o sócio majoritário. No fim, mesmo aposentada, Amélia ainda possuía muito poder não só no mercado como dentro da própria família.
-Dallas… - Amélia aproximou-se da jovem e sibilou perto dela. -… olha a vergonha que você está me fazendo passar. Pare com o escândalo. O noivado já foi arranjado há meses, temos um contrato assinado com a família Haliwell e esse não pode ser quebrado. É a tradição, aceite! Sempre foi assim com as mulheres de nossa família e sempre será. Já fiz muito em deixar você ir para aquela escola maluca, agora faça isso como pagamento a minha boa vontade.
-Pagamento a sua boa vontade? Eu quero que a senhora e a sua boa vontade vão para o inferno! Escuta bem o que eu vou dizer… Eu. Não. Vou. Me. Casar. Com. Esse. Imbecil! - bradou e um vaso antigo ao canto da sala estourou em mil pedaços, assustando alguns presentes. Amélia sorriu sem graça e voltou aos seus convidados para acalmar os ânimos. Dallas apenas viu isso como a sua chance de fugir daquele manicômio. Correu até a porta de entrada e catou o primeiro casaco que viu, sumindo logo em seguida na escuridão que dominava os jardins da mansão.
Desceu a rua daquele bairro chique e chegou à estrada principal. As suas pernas já estavam dormentes pelo frio pelo simples fato que apenas usava uma meia calça fina por debaixo daquele vestido. Andou a esmo, quase tropeçando no grande casaco que usava e agradecia por ao menos ele ser quente o suficiente para a proteger do frio. Porém, agora que parava para raciocinar, para onde iria? Beco Diagonal? Como? Não sabia nem como chegar lá e não tinha a sua varinha. Poderia ligar para alguém. Mas quem? A única pessoa que lhe vinha à cabeça tinha telefone mas não deveria estar em casa. E por que diabos cada vez que ela se metia em um problema ela tinha que pensar em Harry Potter? Bem, não podia evitar pois ele sempre esteve lá para lhe ajudar no que fosse preciso.
Parou em uma calçada ao lado de um sujeito muito esquisito que a olhava de rabo de olho e de maneira desconfiada mas o ignorou, isso até que de repente uma luz forte a cegou por instantes e quando essa cessou, ela se viu em frente a um grande ônibus roxo berrante.
-Boa noite! - um jovem desceu do ônibus e começou a fazer um discurso sobre ele. Dallas viu que o homem ao seu lado pagou algo ao rapaz e subiu no mesmo. -E quanto a você menina?
-Er… isso é um ônibus bruxo?
-Sim. Deseja ir para onde?
-Eu… eu não tenho galeões comigo, só tenho um pouco de dinheiro trouxa. - Lalau a olhou de cima abaixo, a avaliando.
-Bem, quanto de dinheiro você tem? - Dallas enfiou a mão no bolso do casaco, abençoado fosse aquele que esqueceu dinheiro dentro daquele bolso, como ela notou durante a sua fuga, e puxou algumas libras. Lalau avaliou o dinheiro e depois mirou a menina.
-Com isso te levamos aonde quiser e ainda tem direito a um chocolate quente. - a jovem sorriu abertamente para ele.
-Obrigada. - e subiu o ônibus.
-Para onde quer ir?
-Hogsmeade.
Estava com todos os seus ossos moídos e doloridos e o seu corpo implorava por um banho quente e uma bela noite de sono para compensar a perda de tempo durante essa missão. Estava ajudando o seu padrinho a capturar Rabicho para assim esse ir a julgamento e no fim Sirius ser inocentado. Porém, mais uma vez, aquele rato fugiu de suas mãos e isso era frustrante. Caminhou pelas ruas abarrotadas de neve do vilarejo e chegou a um pequeno prédio de três andares onde morava Era pequeno, sim, mas bem aconchegante. Subiu as estadas vagarosamente, já retirando o molho de chaves de um dos bolsos. Claro que o apartamento era rodeado de feitiços, mas alguns meios trouxas também vinham a calhar. Chegou ao último andar onde morava e viu que havia algo no corredor que chamou a sua atenção. Uma figura encolhia-se entre as portas dos únicos dois apartamentos que ali tinha e Harry achou isso curioso. Aproximou-se do ser e tocou em seu ombro fazendo esse pular num rompante e ficar em pé.
-Dallas? - o moreno piscou confuso quando viu a garota a sua frente. O que diabos ela estava fazendo ali? E com um casaco maior do que ela e um vestido de festa?
-Eu… eu lembrei, durante a fuga, que você me disse em uma carta que estaria voltando na véspera do Natal. Eu estava tão nervosa que nem pensei nisso. Mas agora está tudo bem.
-Fuga? Que fuga? Você fugiu da onde?
-Fugi de casa.
-Por quê?
-Porque… - a menina tremeu um pouco e abraçou o próprio corpo. Só então Harry notou que ela estava molhada e com certeza andou muito na neve para chegar até ali.
-Vamos entrar antes que você pegue um resfriado. – abriu a porta e cedeu passagem a garota. Assim que entraram, Harry começou a andar pelo apartamento e rapidamente se dirigiu ao seu quarto. Sem ter muito que fazer Dallas o seguiu. O moreno revirou dentro do armário e retirou umas mudas de roupas que ele havia comprado assim que terminou a escola, assim ao menos não teria que usar mais as roupas largas do primo, e entregou a garota.
-Para que isso? - perguntou meio abobada ao ver as roupas em suas mãos.
-Podem ficar um pouco grandes, mas melhor isso do que essas roupas molhadas. - ele pegou outra muda de roupas e foi em direção a porta do quarto. -Pode se trocar aqui, eu vou tomar um banho rápido e já volto. - e saiu.
Dallas ficou mais vermelha do que ficaria em toda a sua vida. Teria que vestir as roupas de Harry? Aproximou o tecido de seu rosto e o cheirou levemente. Uma mistura de cheiro de hortelã com sabão, bem característico de Harry, chegou ao seu nariz. Lentamente começou a se despir e a vestir o que lhe foi dado.
Quando a jovem retornou a sala o moreno já a esperava sentando em um sofá. De duas a uma, ou ela demorou muito ou ele era muito rápido no banho. Banho… Harry no banho… Sacudiu a cabeça intensamente. De onde estava vindo esses pensamentos todos?
-Você ficou bem em minhas roupas. – o homem riu quando viu a menina aparecer na sala com uma calça que era tão longa que lhe cobria os pés e que quase escorregava em sua cintura e uma blusa que vira e mexe estava deslizando por um ombro pálido.
-Você acha? Eu apenas não gostei da cor. - brincou a sonserina.
-Vamos, agora se sente e me diga o que aconteceu. - ela fez o que lhe foi pedido e o viu conjurar duas xícaras de chocolate quente.
-Eu estava em casa em umas daquelas festas pomposas de Natal da minha avó…
-E?
-Sem lembra quando eu te mandei uma carta há um tempo atrás dizendo que a minha avó ficou insinuando em um jantar um certo arranjo de casamento com o filho do sócio do meu pai?
-Lembro.
-Pois é... as insinuações acabaram.
-Quer dizer que a sua avó desistiu da idéia maluca de te casar com alguém.
-Não… ela já fechou o contrato, como se eu fosse uma mercadoria, para me casar com aquele garoto.
-Como é? - Harry eriçou-se indignado ao ouvir tal coisa. Casar? Só por cima do cadáver dele que ele permitiria tal absurdo vindo da avó da garota. Não deixaria a menina casar com ninguém contra a vontade dela.
-Eu não quero me casar com ele. Ela não pode me obrigar a me casar com quem eu não gosto… Por favor, Harry, faça algo… - Harry a olhou com um certo pesar, vendo aqueles olhos violetas lhe implorarem por ajuda. Certo que estava extremamente frustrado e com mil pensamentos na cabeça em relação a isso. Mas, se fosse pesar racionalmente os acontecimentos o que realmente ele poderia fazer? Não tinha poder para mandar a avó dela cancelar o casamento, por mais que quisesse fazer obrigar a velha a fazer isso.
-Dallas… o que eu vou fazer? Não posso dar desmandos a sua avó. Eu nem a conheço. - Dallas levantou-se bruscamente da cadeira e lhe lançou um olhar irado.
-Pensei que você fosse meu amigo. Pensei que você sempre iria me proteger. Você havia dito que cuidaria de mim. Não estou vendo você cuidar de mim… - e começou a chorar. Harry passou a mão pelos cabelos e levantou-se também, indo até ela e lhe tocando um ombro, mas essa se virou de costas para ele.
-Sou seu amigo, mas eu não sou Deus.
-Mas eu pensei que você fosse o grande Harry Potter. O salvador do mundo mágico.
-Dally… - a garota virou-se bruscamente e o abraçou pela cintura, enterrando o rosto no peito dele. O moreno foi pego de surpresa mais logo retribuiu o abraço.
-Eu não quero me casar Harry… eu não gosto daquele garoto… não é dele que eu gosto.
-Hum… - Harry falou com um tom divertido. -… e por acaso a senhorita gosta de alguém?
-Sim.
-Quem? - agora ele estava curioso. De quem ela gostava? Será que era Patrick? Aqueles dois viviam grudados como cola.
-Eu… - "Eu gosto de você, eu te amo. Diz isso para ele!", pensou freneticamente.
-Dallas? - "Não, eu não vou dizer, ele vai rir de mim." –Por acaso é o Patrick o garoto que você gosta? - perguntou curioso. Seja quem for o garoto, queria saber, não gostaria de ver aquela menina sofrer. Dallas apenas negou com a cabeça ainda contra o peito dele. -É alguém de Hogwarts? - um aceno positivo. -E você vai me dizer quem é? - um aceno negativo. -Okay então.
O barulho estridente do telefone ecoou na casa chamando a atenção da jovem que se encontrava em seu escritório. Hermione cruzou o pequeno apartamento alugado em um pequeno subúrbio de Londres e catou o aparelho estridente.
-Alô?
-Mione.
-Harry? Quando foi que você voltou?
-Ontem. Mione eu preciso de uma ajuda sua.
-Algum problema? - o tom da voz dela deixava claro que se Harry precisava de ajuda era algo a ver com Voldemort. Porém, se fosse isso ela saberia através da Ordem. Não saberia?
-Não é sobre Voldemort, Mione. – ele sabia interpretar os amigos tão bem.
-Então?
-Mione, você entende sobre leis trouxas?
-Leis trouxas?
-É, Direito.
-Não. Por quê? Ah, Harry, não vai me dizer que se meteu em problemas com as leis trouxas? Se for isso você tem que procurar alguém da Ordem para te ajudar. Isso se o contratempo tiver se dado durante alguma missão. – a mulher ouviu uma risada do outro lado da linha assim que terminou de falar.
-Não foi isso Mione. Por que você sempre acha que quando eu te peço uma ajuda é porque estou em problemas? - silêncio. -Okay, não precisa responder. – e dessa vez foi a vez de Hermione rir.
-Fala o que você quer então.
-Se lembra da Dallas?
-Sim.
-Pois é. Lembra-se que eu lhe falei uma vez sobre o arranjo de casamento que a avó dela fez para ela?
-Sim, mas você disse que eram apenas especulações da Dallas, que nada estava confirmado.
-Agora está. Dallas apareceu na minha casa ontem dizendo que a avó dela fechou um contrato de casamento com a família Haliwell.
-Contrato de casamento?
-A mulher trata a própria neta como mercadoria a ser negociada. Como alguém pode ser assim?
-E o que isso tem a ver com as leis, Harry?
-Não há nenhuma maneira de anular esse contrato? - Hermione piscou um pouco e sentou-se no sofá que ficava ao lado da mesa do telefone.
-Harry… - falou em um tom um pouco derrotado. -… conheço a família Winford de coisas que li nos jornais e confesso que se você não tivesse me dito que Dallas era nascida trouxa eu nunca que saberia da importância dela. Os Winford são uma família antiga e cheia de tradições. Comandam o mercado imobiliário e de venda e compra de empresas há anos. São poderosos e influentes, uma versão trouxa dos Malfoy. Não creio que qualquer coisa que a gente faça possa impedir Dallas de se casar à força.
-Hermione! A menina só tem treze anos, mal sabe o que quer da vida e já estão fazendo isso com ela…
-Harry, eu sei que você se apegou a essa garota, sei que gosta muito dela, isso é tão você, querer sempre proteger os mais fracos. Mas você sabe que nesse mundo da alta sociedade o nome e o poder aquisitivo é o que conta. Você pode ser influente no mundo dos bruxos mas no dos trouxas você não é ninguém.
-Valeu Hermione, levantou o meu animo com isso. – retrucou sarcástico.
-Só estou sendo realista.
-Ah, eu sei. - Harry deu um suspiro cansado ao telefone.
-Mas eu verei o que posso fazer.
-Como?
-Meu tio é advogado. Falarei com ele sobre esse caso. Ele deve ter um jeito de burlar esse contrato que avó da menina arrumou.
-Hermione eu te amo!
-Eu sei meu querido. E ainda me pergunto o que seria de você e Rony sem mim.
-Pena que é tão metida. - Harry caçoou e, apesar de não poder ver, sabia que Hermione estava fazendo careta do outro lado da linha.
-Verei se posso falar com o meu tio ainda hoje e depois te digo o que ele resolveu.
-Obrigado Mione.
-Disponha.
-Bem, eu falei com o meu tio… - Hermione nunca mudaria, pensou Harry ao vê-la carregada de pastas e blocos de notas. Uma simples conversa com um advogado tinha resultado em pesquisas e anotações por parte da própria, apenas para aprofundar-se no assunto. Agora cá estava ela em frente a Harry e Dallas, essa usando novamente o seu vestido porque não agüentava mais tropeçar nas pernas da calça que usava, revirando anotações e falando o que conseguiu obter na conversa com o tio. -… ele me disse que até Dallas completar dezoito anos ela não poderá se casar. É a lei. A não ser, é claro, que seus pais tenham lhe dado permissão. - e mirou e menina.
-Não creio que meu pai daria permissão. Acho que nem a minha avó. A tradição diz que as mulheres têm o casamento arranjado, mas esse só acontece depois que a mesma termina o segundo grau. Ao menos eu espero que isso ainda esteja sendo mantido.
-Se for assim então quando você fizer dezoito será dona do seu nariz e pode revogar esse contrato de casamento.
-E serei deserdada e jogada na rua por minha avó.
-E você se importa com isso? – retrucou Harry.
-O quê?
-É uma bruxa, Dallas! E nesse mundo as coisas funcionam diferente do mundo trouxa. É uma boa aluna e isso conta ponto futuramente para a profissão que escolher. Com certeza se você continuar nesse rumo vai terminar Hogwarts com um emprego garantido e terá a sua própria vida. A não ser, é claro, que você sinta que seja muito duro largar a vida de luxo a qual você está acostumada. - Dallas lançou um olhar ofendido a Harry.
-Eu estou pouco me lixando para o dinheiro da minha avó. Ele que se exploda!
-Então… Quando você se formar em Hogwarts terá oficialmente maioridade bruxa e como é esperta se sairá muito bem no nosso mundo. E você sabe que pode sempre contar com a minha ajuda, não sabe? - Harry deu um meio abraço nela e sorriu. Dallas apenas ficou vermelha e abaixou a cabeça, passando desapercebida pelo moreno mas não por Hermione que há tempos notara o quanto essa menina se apegou ao salvador do mundo mágico. E que já a flagrou por muitas vezes olhando para ele de uma maneira… apaixonada. A mulher deu um sorrisinho malicioso. Parecia que Harry tinha arrumado uma nova admiradora.
-Mas e nesse meio tempo? Ainda faltam uns anos para eu ser de maior e durante esse tempo eu tenho que voltar para casa e eu sei… eu sei que não vou resistir a pressão na minha avó.
-Bem… - Hermione virou-se para Harry. -… Harry nos deixe a sós por uns minutos.
-Er… claro. - o jovem levantou-se e foi para outro cômodo da casa.
-Dallas me diga uma coisa, a sua avó sempre controlou assim a sua vida? - a menina assentiu com a cabeça. -E o que o seu pai acha disso?
-Meu pai reclama muitas vezes pela maneira que a minha avó age mas não pode fazer muito. A mulher ainda é a mãe dele e ele a respeita, sem contar que é ela que manda em tudo.
-E o que a sua avó acha de você ser uma bruxa?
-Não gosta nenhum pouco. Sabe, ela sempre me criou para ser perfeita, para ser uma mulher de classe e normal. Talvez seja para compensar a vergonha que ela passou pelo filho dela ter se apaixonado por uma copeira. Uma empregada sem eira nem beira.
-E o que o seu pai acha de você ser bruxa? - Dallas sorriu abertamente.
-Ele tem grande orgulho de mim. Diz que não se importa com o que eu seja pois ele vai me amar da mesma maneira. Claro que ele está um pouco assustado por causa disso.
-Por quê?
-Por causa de Você-Sabe-Quem e a guerra que está acontecendo. Nem todos os trouxas são idiotas e alguns repararam que tem algo muito estranho na tal seita misteriosa que os jornais alegam que anda aterrorizando certas pessoas. Meu pai desconfiou que era bruxaria e me perguntou se eu sabia sobre isso. Acabei contando para ele sobre o Lorde das Trevas. Acho que ele tem medo que eu me envolva nessa guerra só porque sou uma bruxa. - os olhos de Hermione brilharam um pouco.
-E o que você acha dessa guerra?
-Ah, horrível! Mas, sabe, pode ser bobagem e você pode até não levar a sério mas eu gostaria de ajudar.
-Ajudar, por quê?
-Por causa do que me aconteceu quando descobriram que eu era nascida trouxa. Como alguém pode seguir um homem com tais pensamentos? Isso é nojento.
-Você gostaria de ajudar?
-É. Ao menos eu teria uma maneira de me livrar da minha avó porque eu estaria ocupada com outra coisa. Uma coisa que eu realmente queria fazer.
-Sei… - Hermione recostou-se no sofá. Esse não era o rumo que ela queria que a conversa tomasse mas agora que ela estava ali poderia aproveitar. Ainda se lembrava da última reunião da Ordem dizendo que estavam a procura de novos aliados, alunos para serem preparados para no futuro se tornarem companheiros na Resistência. Não conhecia muito Dallas, apenas pelo que Harry lhe dizia, mas ainda se lembrava dela no grupo de estudos. Ainda se lembrava do choque que teve quando viu a ficha dela para o grupo. A menina era uma negação em DCAT, mas poderia ser considerada um pequeno gênio em Poções e muito boa em Feitiços. E isso era um talento. E ela realmente parecia disposta a ajudar, pelo que viu nos olhos da garota. Talvez, se indicasse a menina a Ordem… Pois pelo que ela via era isso que Dallas estava precisando, de um caminho para escolher. Ela apenas não enfrentava a sua família porque não sabia o que faria depois disso. Mas se ela tivesse um caminho a seguir com certeza ela finalmente se livraria dos desmandos da avó dela. E se queria ajudar Harry a ajudar essa menina… Por que não fazer isso?
Pensar em Harry lhe trouxe um pequeno contratempo. Será que ele gostaria da idéia dela? Ele não se opôs à proposta da Ordem na seleção de alunos para a Resistência. Porém, havia alunos e alunos.
-Bem Dallas, veremos o que podemos fazer em relação a sua família. Não se preocupe. - Hermione levantou-se do sofá e agachou-se em frente a ela. -Quando Harry promete uma coisa… ele sempre cumpre. - e piscou um olho para a menina, fazendo-a relaxar um pouco e até sorrir. Sim, havia esperanças para a sua vida.
