Capítulo 9
A FESTA

Recostou no batente da porta e bateu na mesma, mas não obteve resposta. Esperou pacientemente por uns dez segundos e bateu de novo, dessa vez tendo mais sucesso.

-Virginia. - chamou com a voz arrastada. -Está tudo bem aí dentro?

Bruscamente a porta se abriu revelando a face que variava do pálido ao vermelho, de Gina.

-Eu estou botando os bofes para fora e você ainda me pergunta se está tudo bem? – resmungou enquanto da parte externa da casa vinha os sons da festa que já durava há mais de uma hora.

-Eu falei para você não comer aqueles salgados que eles lhe fariam mal.

-Não… você falou: "tem certeza que quer comer isso? Eu não colocaria na boca algo que não possa identificar".

-Dá no mesmo.

-Não… - ela não chegou a terminar a sua frase, pois bateu a porta do banheiro na cara dele novamente.

-Está tudo bem aqui? - uma nova voz soou no corredor e Draco virou-se para ver a sra. Weasley o mirando com um ar preocupado. Sorriu para ela apenas para lhe assegurar que estava tudo perfeito.

-A Gina apenas está tendo uns contratempos com a sua digestão.

-Que digestão! A comida não está tendo nem tempo de ficar dois segundos no meu estômago para ser digerida! - veio o grito de dentro do banheiro.

-Como, querida? - Molly aproximou-se da porta desse e bateu de leve nela. -Está enjoada, Gina? Algo não lhe desceu bem? - novamente a porta foi aberta apenas para mostrar uma ruiva muito pálida.

-Vamos dizer que sim. - murmurou e Molly prontamente começou a avaliar a filha, medindo temperatura dela e verificando a fisionomia da mesma.

-Hum… - rapidamente a mulher abriu um largo sorriso e olhou de Draco para Gina e vice-versa. -Oh! Minha querida! Isso é maravilhoso. - e abraçou a jovem fortemente.

-O que é maravilhoso mamãe?

-Como o quê? Meu bebê vai ter um bebê. - e rapidamente começou a chorar.

-Como à senhora… ?

-Oras, Gina eu tive sete filhos, acho que posso muito bem identificar isso. Parabéns querido! - virou-se para Draco e o esmagou em um abraço. O loiro demorou um tempo para retribuir esse, pois não estava acostumado com tal demonstração de afeto e foi à primeira vez que se sentia tímido em relação a isso. O abraço da sra. Weasley era um abraço materno e isso o fez se sentir bem. Fazia tempos que não sabia o que era ter o carinho de uma mãe. Não desde que a sua se foi.

-Er… Obrigado.

-Bem, se a Gina está enjoada por causa da gravidez eu posso fazer um chá que resolverá isso rapidinho.

-Não… Mamãe. Eu já vou ficar melhor, a senhora pode voltar para a festa. Vão dar por sua falta lá.

-Que dêem, preciso cuidar da minha filha antes. – segurou na mão dela e começou a puxá-la em direção a cozinha. Draco apenas as seguiu em silêncio.


Os orbes verdes estavam fixados na pista de dança em meio ao jardim onde casais mexiam-se de acordo com a música lenta, em volta dos noivos que a estavam a umas três danças na pista, parecendo hipnotizados um pelo outro como se somente eles estivessem ali e o resto do mundo não existisse. Harry sorriu. O olhar apaixonado que aqueles dois trocavam dizia tudo e ele ainda se lembrava das brigas que eles tinham na época de Hogwarts antes de finalmente se declararem. Se bem que: namorando, noivos, casados, aqueles dois nunca deixariam de brigar, arrancando boas gargalhadas de seus amigos. Rodou os olhos pelo local e viu antigos companheiros de escola que compareceram ao casamento e também viu Lilá vir em sua direção com um grande sorriso no rosto.

-Harry… - a mulher sussurrou quando estavam bem perto um do outro. Ela não havia mudado muito, apenas se tornado uma mulher mais bela do que antes.

-Lilá… - tomou a mão dela e depositou um beijo nessa. -… Bela como sempre. - disse e a mulher corou.

-Cavalheiro como sempre. - retrucou com um sorriso.

-E Dino? - perguntou. Não via o companheiro em lugar nenhum.

-Em missão, não pôde comparecer. - disse com um tom um pouco sombrio. Falar sobre o trabalho dos agentes nem sempre agradava a muitos. O próprio Harry não gostava de falar muito do trabalho que fazia. Dizer que sairia em missão dava a própria palavra missão um sentido de que algo ruim estaria por vir.

-Mas ele está bem, não está?

-Creio eu que sim. Não temos nos falado muito.

-Pensei que vocês…

-Terminamos… nossas vidas não se associavam. Voltamos a ser apenas bons amigos.

-Devo dizer sinto muito ou que bom para você?

-Não diga nada, apenas dance comigo. - a morena lhe estendeu a mão, indicando com a outra a pista de dança.

-Você sabe muito bem que eu sou uma negação na dança. - retrucou. Lilá apenas sorriu abertamente para ele, inclinando-se um pouco sobre o moreno e sussurrando em sua orelha:

-Eu te guio. - Harry deu um pequeno sorriso com o canto dos lábios e pegou a mão dela, a levando para a pista de dança.

Outra música começou a tocar, emendando com a que veio antes. Harry girou Lilá pela pista e a puxou para perto de seu corpo bruscamente, a fazendo soltar uma risadinha. Escorregou as mãos para a cintura dela enquanto ela passava os braços em volta de seu pescoço. Vagarosamente começaram a se balançar de acordo com o ritmo da música que tocava.

-Se lembra do nosso Baile de Formatura? - perguntou o moreno.

-Se eu me lembro? Fiquei muito irada por ter sido largada tão cedo no meio da festa.

-Bem, eu precisava partir no dia seguinte. Só compareci a festa por causa das formalidades da entrega do diploma. Se não fosse por isso, nunca que abandonaria uma mulher tão bela e que estava chamando a atenção de todos os homens daquele salão.

-Harry Potter, está flertando comigo? - riu, dando um leve tapa no braço dele.

-Talvez. - retrucou com um sorriso enigmático. Há tempos Harry deixara de ser um menino tímido em volta das garotas e tornara-se o que muitas meninas de Hogwarts chamavam de Don Juan. Claro que um pouco mais modesto. -Está funcionando?

-Talvez. Lembra-se de quando namoramos?

-Lembro. Não era bem um namoro o que tivemos. Foi algo tão sem compromisso.

-Mas foi divertido. Talvez fosse por isso que não deu certo com Dino. Afinal, uma vez tendo experimentado o charme de um Potter, você fica viciada. - brincou e Harry sorriu marotamente.

-Eu sei.

-Oras, mas onde está aquele garoto galante, mas modesto, que eu conheci? Esse Harry convencido é novo para mim.

-Esse Harry convencido está tentando ganhar a mulher mais bonita da festa. - sussurrou perto da orelha dela e Lilá corou.

-Se continuar assim, vai conseguir. - a música encerrou e eles se separaram.

-Gostaria de me acompanhar em uma caminhada? Do monte perto da Toca dá para ver um belo céu nessa noite estrelada. - ofereceu um braço a ela e prontamente Lilá o aceitou, caminhando com ele para fora dos jardins da casa.


Caminhou sorrateiramente para o portão de entrada da casa, passando por esse vagarosamente. Ainda conseguia ouvir o barulho de festa que vinha do outro lado do terreno, das pessoas rindo e conversando, da música tocando e tudo mais. Alcançou a estrada de terra e começou a caminhar por essa. Parou um pouco e espreguiçou-se, estalando a coluna ruidosamente. A noite não estava nem na metade e ela estava quase caindo de cansaço. Mas ao menos valeu a pena. Essa era a primeira festa que ia à qual considerava realmente uma festa. A alegria, a descontração e a música, isso sim é que era um lugar agradável de se ficar. Voltou a caminhar pela estrada, a festa poderia estar maravilhosa mas ela realmente precisava de ar. Tanta gente em um lugar só, por mais que fosse divertido conversar com a família trouxa de Hermione ou a grande família Weasley, sufocava um pouco. Colocou as mãos nos bolsos do casaco, poderia ainda ser verão mas naquela noite uma brisa fria insistia em soprar, e pôs-se a seguir a estradinha com os olhos fixados no céu estrelado. Era uma noite linda e ela tinha certeza que poderia ver metade das constelações nesse céu. Será que conseguiria achar a constelação de seu signo escorpião? Talvez.

Deixou seus pés a guiarem pelo caminho já conhecido de todas as vezes que já passou por ali. Circundou A Toca e se dirigiu inconscientemente para o local o qual ela elegeu como o seu favorito dentro daquela região. Era um pequeno monte que ficava atrás da casa e no alto dele erguia-se um carvalho e de lá se podia ter uma bela visão do céu à noite e dos arredores. Subiu a passos demorados a estradinha de terra que levava ao local e finalmente abaixou seus olhos do céu, apenas para arrepender-se amargamente em relação a isso.

Lá, parados sob a luz da lua minguante, estava um casal de namorados. Até aí tudo bem, se não fosse pelo fato de que o homem que beijava a jovem em seus braços fosse Harry Potter. Dallas estacou no lugar, seu corpo não sabendo como reagir. Não sabia se gritava com ele ou se saía correndo dali. Seu coração estava batendo acelerado no peito e um bolo parecia estar entalado em sua garganta. Lágrimas já desciam pelos seus olhos sem ela perceber e com todo o sangue frio que conseguiu reunir, virou-se e saiu daquele lugar tão silenciosamente quanto chegou, passando desapercebida pelo casal.

Entrou novamente sorrateira na Toca e rapidamente se dirigiu ao quarto de Gina, onde estava hospedada. Aquela noite tinha começado tão bem. Ela deveria saber que felicidade, no seu caso, não durava por muito tempo. Jogou-se na cama sem trocar de roupa e abraçou-se ao travesseiro. Chorou silenciosamente até dormir.


Mesmo tendo dormido quase ao amanhecer, assim como muitos que ficaram na Toca que agora parecia um albergue, Molly não conseguiu desfazer-se do costume de acordar cedo para preparar o desjejum de suas crianças. Crianças… Mesmo que estejam crescidos, alguns se casando, outros tendo filhos, ainda seriam as suas crianças. Para uma mãe seus filhos sempre seriam crianças, mesmo os adotivos, como era o caso de Harry. Girou a varinha e os ovos começaram a se auto fritarem nas frigideiras, fatias de bacon os acompanhava e muito mais para um café reforçado. O rádio da cozinha estava ligado em alguma estação de música bruxa de onde o som ecoava baixinho por ela. Pela janela ainda podia se ver os vestígios da festa da noite anterior espalhados pelo jardim. Essa manhã seria uma manhã de limpeza para todos, para novamente arrumar o jardim para o almoço.

O barulho de um malão sendo arrastado chamou a atenção da mulher que se virou para ver quem estava parado à porta da cozinha. Dallas estava embaixo do arco da porta e segurava a alça de seu malão entre seus dedos, dando um pequeno sorriso a mulher que lá estava.

-Bem… er… sra. Weasley, obrigada por me receber. - disse e Molly franziu o cenho. Que conversa era aquela?

-Como assim querida?

-Eu estou… estou… - ela apontou para a lareira na sala que poderia ser vista atrás dela. -… estou indo para a casa do meu amigo, vou passar o resto do verão lá. - Molly franziu o cenho mais ainda depois de ouvir isso. Ouvira Harry lhe dizer que depois do casamento a levaria para a casa de um amigo, mas ela pensou que isso só seria no dia seguinte. E ela achou que o próprio Harry a levaria.

-Não era o Harry que iria te levar?

-Ah, eu falei para ele não se incomodar que eu ia por mim mesma e ele não se importou. Por isso, eu vou indo. - essa história definitivamente estava muito mal contada. Harry não deixaria a menina que estava sob a sua responsabilidade ir embora sozinha assim.

-Querida, se quiser ir, deixe-me falar com o Harry primeiro que ele te leva. Acho que ele gostaria de te levar.

-Não! - Dallas quase gritou. Não estava a fim de ver Harry, não depois do que aconteceu na noite anterior. -Eu posso ir por mim mesma.

-Acho melhor não, eu vou chamar o Harry. - Molly passou pela jovem e começou a subir as escadas, mas mal chegou na metade dessa ouviu algo vir da sala, algo que soou como: "Casa de Patrick Gordon!". A mulher desceu novamente apenas para confirmar o que já suspeitava: a garota foi embora e isso tinha sido muito estranho. Seria melhor avisar a Harry.

Voltou a subir as escadas e foi para o quarto de Rony, onde o jovem estava. Com cuidado andou pelo quarto que estava abarrotado. Percy havia ido dormir lá, junto com Carlinhos, pois Draco e Gina ficaram com o quarto do mesmo, enquanto Hermione e Rony ficaram no quarto de Percy.

-Harry, Harry… - a senhora Weasley o chamou, balançando de leve o seu ombro. Vagarosamente o moreno abriu os olhos e mirou a mulher com a visão turva. Colocou os óculos e divisou o rosto de Molly.

-Molly? O que houve? – perguntou sonolento.

-Dallas, ela foi embora. - rapidamente ele acordou e saiu do quarto em companhia da senhora.

-Embora? Para onde?

-Eu ouvi ela dizer "Casa de Patrick Gordon."

-Ela foi para a casa do Patrick? Mas eu ia levá-la daqui a dois dias.

-Parece que ela mudou de idéia querido.

-Droga. - o jovem praguejou, voltando para o quarto de onde dez minutos depois ele já saía de roupa trocada e com a sua varinha na mão. -Vou atrás da fujona. Se ela queria ir embora mais cedo deveria ter me falado.

-Me pareceu que ela não estava muito disposta a falar com você. - Molly falou e Harry franziu as sobrancelhas.

-Veremos. - com um estalido ele desaparatou.


A lareira rugiu em chamas verdes e alguém saiu por ela aos tropeços. Dallas ergueu-se, ainda tonta, e olhou ao seu redor. Pelo visto parecia ter vindo parar no lugar certo, pois tudo a sua volta parecia ser movido à magia. Uma figura apareceu na sala e ela a reconheceu como sendo Patrick.

-Dally? O que faz aqui? Pensei que só apareceria daqui a dois dias?

-Mudanças de planos.

-O que aconteceu? A festa não foi boa?

-Foi maravilhosa, apenas teve uns certos contratempos.

-Como?

-Bem… - e a jovem resumiu a ele a sua história da noite da festa, desde o momento em que teve que bancar a dama de honra, até a hora que pegou Harry beijando outra mulher.

-Ah, Dallas, eu… eu realmente não sei o que dizer. Eu sinto muito.

-Está tudo bem.

-Venha, eu vou te mostrar o quarto que arrumamos para você ficar. - ele foi a guiando pela casa e quando estavam quase saindo da sala ouviram um barulho familiar de aparatação.

-Se… - Dallas falou com a voz trêmula. -Se for o Harry, eu não quero vê-lo. Está bem? - Patrick olhou a amiga com um certo pesar.

-Ok. Segue o corredor direto, a última porta a direita o quarto. - a menina assentiu e seguiu o caminho, enquanto Patrick voltava para a sala.

-Patrick. - Harry virou-se para o jovem. -Dallas está por aí?

-Bem… ela está… - Harry sorriu. -… mas não quer falar com você. - o sorriso dele sumiu rapidamente.

-Como?

-Ela não quer falar com você.

-Essa parte eu entendi.

-Então por que perguntou?

-Por quê, então, seria a pergunta mais correta. - Patrick deu de ombros.

-Não sei. TPM talvez. – disse displicente e Harry estreitou os olhos para o garoto. É claro que ele sabia afinal, ele conhecia cada milímetro da Dallas. Conhecia mais do que ele próprio. Torceu um pouco o nariz. O enervava um pouco saber que outra pessoa sabia mais dos segredos da menina do que ele próprio. Às vezes achava que Dallas não o considerava tão amigo assim, já que era cheia de mistérios que só Patrick entendia.

-Está mentindo.

-Talvez. - o jovem cruzou os braços em uma posição desafiadora.

-Quero falar com a Dallas. – ordenou presunçoso, cruzando os braços da mesma maneira que o corvinal.

-E eu já disse que ela não quer falar com você. – retrucou de maneira infantil.

-Escute menino… - suspirou frustrado diante da teimosia do garoto, passando uma mão pelo cabelo rebelde. -… não tenho tempo para perder com criancices.

-Não estou sendo criança. Não sou criança. Afinal, não sou tão mais novo que você, e você, com certeza, não é tão maduro quanto aparenta. - disse e Harry pôde notar algo implícito nisso. Esse jogo de charadas que Patrick sempre fazia perto de si estava começando a irritá-lo. O garoto sabia de algo, algo relacionando a ele e Dallas que insistia e não dizer. -A Dallas não quer te ver e ponto final. Se você veio aqui para saber se ela chegou em segurança, está feita a sua curiosidade. Pode ir então. - Harry estreitou os olhos, já impaciente com isso.

-Okay! Para mim chega! Certo então, se ela não quer falar comigo para me dar uma explicação sobre essa fuga repentina, quando eu era o responsável por ela, para mim está perfeito! Não vou ficar aturando os ataques de infantilidade da Dallas. Acho que ela não tem mais idade para isso.

-Ah, agora não somos mais crianças, somos pessoas maduras! Você muda de opinião muito rápido, não é mesmo Potter? – escarneceu e Harry teve vontade de dar umas boas palmadas naquele garoto. O que ele estava querendo dizer com isso?

-Quer saber? Não tenho que ficar aqui perdendo tempo com você ou com as bobagens e atitudes inexplicáveis da Dallas. Quando ela resolver crescer ela que me procure e teremos uma conversa. Passem um bom dia vocês dois. – retrucou irritado e desaparatou.

-O que você vai fazer agora? Ele me parece bem chateado com você. - Patrick virou-se e viu a jovem aparecer dentro da sala.

-Pouco me importa se ele está irritado. A irritação dele não chega nem perto da minha. Então, estamos quites.

-Que dizer que não o ama mais? Que mudança brusca de sentimento. – caçoou e a sonserina deu uma careta para ele.

-Acertou em cheio. A partir de hoje eu não me importo mais com Harry Potter. – declarou decidida, esperando sinceramente que pudesse cumprir a sua promessa.