Capítulo 10
PEGANDO O RATO PELO RABO
As pessoas passavam apressadas pela rua, muitas se cobrindo com seus casacos ou jornais e revistas para se protegerem da chuva. Os olhos verdes apenas acompanhavam os movimentos delas por detrás dos óculos escuros, sentado em uma mesinha debaixo da marquise de uma cafeteria. Ao seu lado, um enorme cão negro encontrava-se deitado calmamente alheio à confusão feita a sua volta pelos passantes. Levou a xícara de café aos lábios e torceu um pouco o nariz, o café estava frio. O cão percebeu o movimento de seu dono e levantou um pouco a cabeça, o mirando com um ar indagador.
-Detesto cheiro de cachorro molhado. - escarneceu e o animal rosnou. -Estou brincando apenas para desfazer a tensão. - murmurou, batendo no topo da cabeça peluda do cachorro. -Essa espera está me matando… ai! - resmungou, levando uma mão a orelha esquerda por causa de um zumbido que a fez latejar.
-Desculpe. - foi o que soou em seu ouvido pelo comunicador que estava dentro desse. O que deu na cabeça de Simas para sugerir tais meios de comunicação a bruxos nessa missão? Ele conseguiria usar um comunicador perfeitamente… Mas Rony! Isso era outra história.
-Isso doeu Ronald. - sibilou e percebeu que o cachorro ao seu lado balançou as orelhas divertido.
-Foi mal companheiro, mas é que esse negócio deu uma chiada muito estranha quando eu mudei de posição.
-E onde diabos você está?
-Às duas horas de você. - Harry olhou na direção indicada pelo amigo e viu esse parado em frente a uma loja de eletrodomésticos trouxa, de costas para ele e parecendo bem interessado nos rádios ligados na vitrine dessa.
-Saia daí então, todo esse equipamento vai dar interferência nos comunicadores.
-Foi mal. - respondeu, encaminhando-se para uma loja de roupas ao lado. Uma loja de roupas femininas. Harry apenas rolou os olhos divertido. Se isso não fosse uma missão, riria com as trapalhadas de Rony. Ele poderia ser um grande agente, mas era uma negação quando o assunto era usar equipamentos trouxas no trabalho.
Rony, Sirius, Simas e ele haviam armado uma emboscada, pois receberam a informação de que Pettigrew estava se escondendo por aquelas bandas junto com um grupo de Comensais. O que eles queriam ali era um mistério, mas eles iriam descobri e assim pegariam dois coelhos com uma cajadada só. Melhor, um rato com uma ratoeira só. Descobririam mais planos de Voldemort e assim, talvez, conseguiriam ficar um passo à frente nessa batalha e capturariam Pedro, o levando a julgamento e assim libertando Sirius.
-Vocês dois querem parar de matraquear? - retrucou Simas que estava recostado em uma banca de jornal aproveitando o toldo dessa, e lendo uma revista para disfarçar.
-Nos desculpe, mamãe. - falaram Rony e Harry em unísso e puderam ver o irlandês soltar um bufo.
Ficaram meia hora naquela espera. Simas já tinha lido a mesma revista quase umas três vezes, Rony estava recostado na vitrine da loja com um boné escondendo os cabelos vermelhos e óculos escuros para ocultar a sua pessoa e Harry já sentia que o seu traseiro estava ficando dormente. O cão ao seu lado era o único que parecia estar esperando pacientemente e não desistiria tão cedo. Afinal, ele tinha os seus motivos. Era a sua liberdade que estava em jogo.
-Se isso for mais uma pista falsa… - murmurou Simas.
-Nosso informante disse que era confiável, que havia Comensais agindo nessa área.- retrucou Rony.
-Teo pode ter se enganado como da outra vez. Eu estou com a impressão que Voldemort está nos fazendo de idiotas. Tudo que conseguimos até hoje foram poucos Comensais capturados e informações inúteis vindas do nosso X-9. Ele está nos tapeando e estamos caindo. - rebateu Harry desgostoso.
-Não estamos caindo, a Ordem já notou isso, não é à toa que temos integrantes inteligentes nela. Mas temos que dar crédito a tudo. Um dia iremos acertar. - Rony murmurou sob a respiração.
-Espero que esse dia seja hoje… - um movimento no início da rua chamou a atenção de Harry. -… Suspeitos às doze horas. - o moreno levantou-se de seu assento e puxou algo de dentro do bolso. Uma bengala desdobrou-se em sua mão e ele incitou o cachorro ao seu lado a andar. Alcançaram a rua, deixando a chuva bater em sua longa capa e em seu chapéu, e começaram a andar em direção aos quatro homens vestidos com roupas chamativas, uma péssima combinação de roupas trouxas, e que vinham na direção oposta da dele.
Rony saiu de sua posição e rapidamente tirou sua varinha de seu bolso, a escorregando para debaixo da manga de seu casaco e começou a seguir Harry, na calçada oposta do outro lado da rua. Quando o moreno passou por Simas, esse enrolou a revista e deslizou a sua varinha para dentro dessa e o seguiu a uns quatro passos de distância.
Harry continuou caminhando, tateando o chão com a bengala e deixando o cão o guiar, fingindo ser um cego no meio da multidão. Viu que cada vez mais as figuras se aproximavam de si e quando chegou perto o bastante delas, propositalmente esbarrou em uma das mais altas. Agarrou-se a manga do casaco dessa para impedir-se de cair, mas rapidamente equilibrou-se em seus pés.
-Me desculpe senhor. - murmurou, apalpando o homem a sua frente, vendo uma parte da Marca Negra sendo mostrada pela manga da roupa dele.
-Tira as suas mãos de mim seu trouxa idiota!
-Realmente me desculpe senhor. - continuou com as suas apologias e discretamente fez um sinal com os dedos para os outros dois homens que se aproximavam. Ao lado dele o cão começou a rosnar e isso atraiu a atenção dos outros três Comensais, que estava voltada a Harry. Por isso, eles não viram Rony e Simas se aproximarem. Tudo o que ouviram, antes de seus mundos escurecerem, foi um murmúrio perto de seus ouvidos acompanhado por algo pontiagudo em suas nucas.
-Mas o quê…? - o Comensal esbarrado olhou para os dois companheiros caídos e depois para o único que restou de pé. Porém não ficou consciente por muito tempo, Harry rapidamente sacou a sua varinha e apagou esse também.
Pedro olhou aturdido a sua volta quando viu seus companheiros caírem no chão desacordados e rapidamente começou a tremer ao ver os três homens que o rodeava.
-Pettigrew.
-Potter! - guinchou e logo sumiu de vista, começando a correr e abrindo espaço pela multidão. Harry e Sirius não tiveram tempo para processar o ocorrido e rapidamente já estavam atrás do fugitivo enquanto Simas e Rony ficavam para trás cuidando dos Comensais apagados.
Quem passasse por aquele vilarejo e mirasse o alto daquele monte a veria. Erguendo-se solitária naquele lugar, com um aspecto sombrio e quase caindo aos pedaços, a principal atração turística da cidade: A Casa dos Gritos. Quem alcançasse aquele monte apenas olharia para uma construção abandonada e com as janelas e portas lacradas. Nunca que alguém imaginaria que dentro daquela casa velha, falsamente assombrada, neste mesmo instante, bruxos corriam de um lado para o outro entre os cômodos, revisando mapas e estratégias, preparando feitiços e poções, aparatando e desaparatando, gritando e recebendo ordens. Ninguém nunca iria supor que aquela casa velha, depois de anos sem ter o seu visitante habitual, um lobisomem conhecido por muitos em Hogwarts, agora era o QG dos bruxos da Resistência.
Um jovem acabara de aparatar na sala principal da casa, quase sendo derrubado por bruxos apressados que passavam de lá para cá. Tinha uma expressão apreensiva e aparência cansada. Seu nome era Teo Boot, um dos intermediadores de informações do lado das trevas, o contato do verdadeiro informante.
-Droga… - rodou sobre os pés, vendo a confusão que aquele lugar estava. Nunca que um dia veria aquele QG calmo. Parou um bruxo que passou a sua frente e perguntou:
-Hermione Weasley, onde está? - o bruxo indicou com o dedo as escadarias da casa e rapidamente sumiu por entre os corredores.
Teo subiu os degraus com pressa e começou a correr pelo andar superior, procurando de porta em porta. A casa quando foi transformada em QG por ter acesso rápido a Hogwarts, sede da Ordem, foi magicamente ampliada para poder comportar todos os seus agentes e colaboradores. Uma vantagem no começo, mas que agora, para alguém que estava com pressa como ele, era um martírio ter que cruzá-la. Bateu na quarta porta daquele corredor e finalmente achou quem queria ver.
-Hermione! - a morena virou-se e viu o jovem entrar esbaforido em sua sala. -Hermione… Harry… Comensais… Armadilha! - disse entre inspiradas de ar para poder recuperar o fôlego. Hermione arregalou os olhos e rapidamente acionou o dispositivo de alarme, convocando vários agentes a sua sala. Um a um eles foram aparecendo e mirando a jovem que, apesar de ser apenas uma garotinha aos olhos de muitos, era uma mulher que conseguia controlar a mão firme muitas operações. Era o cérebro do grupo, como sempre.
-Rápido… Backer reúna seus homens e vá rapidamente para a zona 95 onde Harry está atuando. Aquela missão que ele pegou é uma armadilha. - o homem chamado Backer não esperou segunda ordem. Rapidamente convocou os seus agentes e sumiram da casa em direção a Londres. -Teo, você vem comigo, vamos ser se conseguimos entrar em contato com eles. Se tivermos sorte eles ainda estão no estado de espera. - Teo concordou com a cabeça e seguiu para a sala de comunicações mágicas dos agentes.
Harry abria espaço entre as poucas pessoas que se aventuravam a andar na chuva, correndo por entre elas sem parar para pedir desculpas em quem esbarrava ou derrubava no chão. Ao seu lado, um cão negro corria em velocidade igual ou superior a sua. Ambos rápidos como predadores mas, mesmo assim, o rato que fugia deles parecia ser muito rápido. Ratos sempre eram rápidos quando estavam com medo. Isso era uma regra.
O cocuruto careca de Pettigrew podia ser divisado em meio à multidão mesmo sob a chuva que caía na cidade e Harry mantinha seus olhos atentos a isso, quando viu esse mesmo cocuruto sumir em uma curva. Seguiu o mesmo caminho, quase escorregando na calçada molhada, e viu-se em um beco sem saída e com nenhum sinal de Pedro.
-Merda! - praguejou, olhando a sua volta. O cão negro ao seu lado apenas farejava o ar a procura de pistas. Foi quando os olhos verdes pousaram em um pequeno buraco na calçada estreita do beco. -Te peguei. - sorriu maliciosamente e sumiu de vista.
A última coisa que Sirius viu antes de voltar a forma humana foi um gato negro se esgueirando para dentro de um bueiro.
-Harry! - o homem chamou mas já era tarde, ele tinha entrado naquele buraco. O moreno olhou a sua volta, não foi apenas o cheiro de Pettigrew que ele conseguiu identificar naquele local, mas também o cheiro de confusão. Procurou por algo que possibilitasse sua entrada no sistema de esgoto e encontrou a tampa de um quase aberta. A puxou completamente, revelando a passagem, e pulou dentro dessa.
O gato negro corria a toda velocidade pelos canos largos e úmidos. O cheiro fétido espalhando-se por todo o lugar mas isso não diminuía a sua percepção e muito menos o seu olfato. Sentia que estava perto de pegar o traidor e assim libertar seu padrinho e vingar seus pais. Entrou em mais um cano e se estivesse em sua forma humana sorriria quando avistou a sua presa. Parecia ser o único rato naquele local e ele o pegaria como o bom felino que era. Tinha que lembrar de agradecer a Minerva as aulas de animagia, pois elas lhes foram muito úteis, mesmo com ele sendo um animago ilegal. Os orbes verdes estreitaram-se ao mirar a sua vítima e um rosnado saiu de sua boca. O rato deu uma breve olhada para trás e tremeu, incitando as suas pequenas patas a correrem mais. Porém, foi em vão. Em um pulo de gato, Harry avançou sobre o animal e o prendeu entre as suas garras afiadas. O tinha pegado, como o bom rato que ele era. Rapidamente eles começaram a se engalfinhar dentro daquele campo de batalha úmido e sujo e num piscar de olhos suas formas animagas cederam lugar à humana.
Harry ajoelhou sobre Pedro e num impulso só o socou no rosto. Esse ficou aturdido por um momento, mas mesmo assim conseguiu livrar-se do peso sobre si, levantando-se e cambaleando um pouco, procurando um meio de fugir. Podia sentir o seu maxilar ficar dolorido, assim como os ferimentos em seu corpo causados pelas garras do moreno a sua frente. Puxou sua varinha mas mal teve tempo de conjurar o primeiro feitiço e já se encontrava voando por aquele corredor de esgotos, batendo em uma parede e deslizando até o chão. Cinco anos de treinamento em defesa pessoal, artes das trevas, feitiços e mais alguns anos de ódio acumulado por aquele homem fez Harry conjurar o feitiço de desarmamento mais poderoso que um bruxo poderia ter feito. Vendo o corpo cair inerte no chão, o moreno seguiu até ele e o puxou pelos poucos cabelos que tinha e, mesmo inconsciente, esse gemeu.
-Eu deveria ter deixado Sirius te matar quando ele teve a chance, mas como eu achei que você merecia um julgamento, é isso o que você vai ter. - rosnou.
-Harry! - alguém o chamou e o moreno levantou os olhos do homem desacordado enquanto conjurava cordas para amarrá-lo. -Parece que finalmente o pegamos. - Sirius aproximou-se do afilhado e sorriu vitorioso, mas rapidamente esse sorriso sumiu quando se lembrou do porquê ter seguido o garoto. Não era apenas para ajudar, pois esse sabia se virar sozinho, mas porque havia sentindo algo estranho no ar.
-Algo errado, Sirius?
-O amarrou bem? Então vamos embora. - disse em um tom sombrio e o garoto pôde perceber que algo estava realmente errado. Os dois homens viraram-se para ir pelo mesmo caminho que o homem mais velho veio, quando algo os parou. Sombras, sombras deslizavam pelos canos e aproximavam-se deles.
-Vá embora Harry! - comandou o animago.
-Mas… - Harry começou a protestar enquanto as sombras se aproximavam mais e começavam a tomar forma.
-Vá logo! - Sirius ordenou, puxando a sua varinha de dentro de suas vestes.
-Sirius eu vou te ajudar… - retrucou o moreno. Não era mais uma criança. Era um auror formado e não deixaria o padrinho sozinho. Não agora que eles estavam tão perto da liberdade desse.
-Isso é uma ordem Harry.
-Você não é o meu superior! – protestou de maneira infantil.
-Mas sou seu responsável. Não estou tentando proteger um agente, Harry! Estou tentando proteger o meu afilhado.
-E eu estou tentando ajudar o meu padrinho!
-Essa é a última vez que eu digo… VÁ! - e apontou a varinha para o jovem. -Transpor!
-SIRIUS! - a última coisa que Harry viu antes de desaparecer foi Sirius cercado por doze Comensais da Morte que o atacaram sem piedade.
-SIRIUS! - o grito ecoou dentro da casa e todos pararam para ver o que acontecia.
Parado, no meio da sala principal, estava Harry Potter e que tinha alguém amarrado junto com ele. Prontamente uma mulher veio correndo até ele e parou a sua frente com os olhos largos em surpresa.
-Harry. - Hermione murmurou. -Harry, era uma armadilha, estávamos tentando te contatar. Mandei vários agentes para o local onde você estava trabalhando. O que aconteceu? - soltou a sua enxurrada de perguntas, tirando o rapaz rapidamente do choque momentâneo. Sirius havia usado um feitiço de transporte nele, um feitiço muito semelhante ao que era usado para fabricar chaves de portais.
-Eles o pegaram, Mione. Pegaram Sirius. Fomos encurralados dentro do esgoto… - a morena torceu de leve o nariz ao imaginar a cena. -… consegui pegar Pettigrew… - e indicou o homem desacordado e preso firmemente pelas cordas. Com um aceno de cabeça de Hermione alguns agentes na sala recolherem o prisioneiro e o levaram sob custódia. -… Sirius não me deixou ajudar, me mandou direto para cá. E se ele estiver morto, Mione? E se o mataram?
-Isso veremos agora. - Hermione caminhou até a sala de comunicações. Dentro dela havia um grande painel que ocupava as quatro paredes da sala, cheio de quadrados que, quem olhasse de perto, veria que eram buracos nas paredes, onde embaixo de cada buraco havia um nome. A morena chegou perto do quadrado que estava escrito R. Weasley e apontou a sua varinha para ele. Um fogo esverdeado surgiu no mesmo e rapidamente o rosto de Rony aparecia nesse.
-Ron, e então?
-Rodamos a área toda, Mione, nem sinal de mais nenhum Comensal ou armadilha. Infelizmente levaram o Harry e não temos pistas do Sirius.
-O Harry escapou, Ron, mas parece que o Sirius não.
-O que faremos agora?
-Você e Simas retornem ao QG e deixem os Comensais capturados e as pistas com os aurores que aí estão, precisamos informar a Ordem sobre esse ataque.
-Estou indo. - Rony bateu com a varinha em cima de um pequeno retângulo de vidro que cabia na palma da mão e que de um centímetro de espessura, e o fogo esverdeado dentro desse, assim como o rosto de Hermione, sumiu. Na sala de comunicação a morena fez o mesmo com o quadro de contato do marido.
-Vamos para Hogwarts, precisamos avisar que um de nossos agentes foi capturado.
Harry assentiu e seguiu a amiga pela passagem do Salgueiro Lutador rumo ao castelo mágico.
