Capítulo 11
O INFORMANTE
Os alunos corriam pelos caminhos enlameados puxando suas capas por cima de suas cabeças para se protegerem da chuva. Porém, muitos riam com a situação e corriam, pulando em poças d'águas enquanto faziam o trajeto de volta ao castelo em meio de conversas animadas e brincadeiras. O final de semana em Hogsmeade coincidiu, para a felicidade de todos, junto com o Dias das Bruxas, o que fez muitos se divertirem dentro das lojas enfeitadas e cheias de souvenires e nas lojas de doces.
Dallas corria ao lado de Patrick com a sua capa enrolada em seus braços para proteger os doces que carregava enquanto o jovem brincava de pular em poças de água apenas para molhá-la mais do que ela já estava. Seguiram o caminho todo assim, em meio a um grupo de corvinais do quarto ano, jogando e gargalhando com suas piadas até chegarem à escola. No que pisaram no hall de entrada cada um começou a seguir o seu caminho
-Fala, o que você comprou para mim? - perguntou a morena pela enésima vez e Patrick negou-se a dizer qualquer coisa pela enésima vez, também. Dia trinta e um de outubro era muito mais que o Halloween para Dallas, era nesse dia que ela faria quatorze anos.
-Tira a graça do presente se eu te contar antes. Na hora do banquete eu te entrego. Por isso não se esqueça que te espero na mesa da Corvinal. Hoje você vai jantar comigo.
-Patrick, eu faço as refeições com você quase todos os dias. - isso era uma verdade. Desde que descobriram que ela era nascida trouxa os sonserinos faziam questão de ignorá-la. Não que ela se importasse muito e realmente não fazia questão de ter a atenção deles. Por isso, por muitas vezes acabava fazendo as refeições na mesa da Corvinal e assim ganhando mais amigos do que poderia imaginar ter um dia.
-Só estou relembrando. - pararam em uma interseção do corredor. -Bem, te vejo no Salão Principal. - despediu-se e subiu as escadas a caminho de sua sala comunal. Dallas tomou as escadas que desciam para as profundezas da escola e seguiu seu caminho para a sua sala, pingando gotas de água pelo trajeto, suas roupas ensopadas apenas se ajustavam no corpo adolescente mostrando coisas que meninos adorariam ver. Com certeza Filch não teria um dia muito feliz com tantos alunos molhados perambulando pelos corredores. Quando dobrou uma esquina viu um vulto parado perto de uma estátua e isso a fez parar bruscamente. Será que tinha alguém perdido na área da Sonserina?
-Olá? - chamou e a figura se mexeu, mostrando-se a luz das tochas. Quando a jovem reconheceu a pessoa que lá estava seu corpo tremeu.
Recostou-se na parede de pedra fria e fechou os olhos lentamente, não se importando se estava com o corpo dolorido ou com as roupas sujas e molhadas, apenas se importava com as palavras ditas na reunião de minutos atrás quando ele informou a Dumbledore sobre a armadilha e a captura de Sirius. Tudo o que eles conseguiram como solução para esse problema foi jogar todos os seus homens em campo atrás de qualquer pista que os levassem ao paradeiro de Sirius Black. Pois, com certeza, como Hermione deduziu, se a armadilha original planejava capturar Harry Potter e essa falhou, ter Sirius como prisioneiro era apenas uma alteração dos planos iniciais do Lorde das Trevas. E ele não estava errado quando concluiu que pegando Black Harry iria atrás desse, pois isso era o que ele queria fazer nesse exato momento. Contudo, o tom autoritário na voz de Alvo e as súplicas de Hermione junto com os apelos de Rony o impediu de fazer alguma besteira confiando tal caso nas mãos dos agentes da Ordem. Pois, segundo Snape, que estava na reunião apenas para o deixar mais irritado ainda com as suas palavras, ele estava emocionalmente envolvido e com certeza faria uma besteira.
Passos leves o fizeram ficar alerta novamente e abrir os olhos para ver a nova figura que entrava no corredor. A pessoa parou e chamou com uma voz quase sussurrada quem quer que estivesse naquele lugar. Harry moveu-se e se mostrou as luzes feitas pelas chamas, revelando-se para a pessoa.
-Dallas… - murmurou. Desde a fuga da menina depois do casamento de Rony e Hermione, que Harry não via a jovem.
-Ha-Ha-Harry! - gaguejou a garota, recuando inconscientemente um passo. Seus cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo tinham fios grudados em seu rosto rosado por causa do frio.
Não via Harry desde o dia posterior ao casamento na casa dos Weasley e, conseqüentemente, não tocava no nome dele há meses apenas para esquecer a cena que presenciou naquele monte. Claro que, o vendo agora, tudo voltou a sua mente como um filme à alta velocidade. Crispou os olhos e apertou ainda mais o embrulho de doces entre seus braços, dessa vez incitando suas pernas a irem para frente. Começou a apertar o passo na intenção de passar por ele e fingir que não o viu, e tal plano estava funcionando até que quando chegou perto dele esse a segurou pelo braço e a fez virar bruscamente, fazendo os seus corpos ficarem a centímetros de distância um do outro e suas respirações quentes roçarem em suas faces. Os doces já esquecidos no chão entre os pés de ambos.
-Ainda chateada comigo? - perguntou em tom sério e chateado diante da atitude da garota.
-O que o faz pensar que estou chateada com você? – retrucou friamente e de modo defensivo. Não gostava dessa proximidade toda. Fazia tempos que não ficava tão próxima de Harry e isso a estava afetando mais do que gostaria e destruindo todas as suas resoluções.
-Hum… deixe-me ver. Você passa direto por mim fingindo que não me viu… Isso pode ser uma grande pista de que está chateada comigo. Sem contar que você não me escreveu o verão inteiro. – acusou magoado. Esperou o verão inteiro por uma carta de menina e ficou extremamente desapontado quando não viu a silhueta de Osíris aparecer uma única vez em sua janela. A última vez que ele tinha se sentido abandonado desse jeito foi em seu segundo ano, quando Dobby desviou todas as suas cartas por causa do caso da Câmara Secreta.
-Presumi que você estivesse ocupado no verão como sempre. - "Com certeza engolindo aquela mulher com seus beijos." Pensou irritada e Harry notou que a voz da garota gotejou sarcasmo.
-O que faz aqui? - perguntou, tentando amenizar a tensão que rodeava os dois. Ela estava mais arredia do que o usual. Na verdade, ela nunca fora arredia dessa maneira, não com ele. Dallas apenas fez uma expressão que indicava que a pergunta era muito idiota.
-Sonserina. Caso você não saiba, esse é o caminho para a minha sala comunal. - retrucou como se estivesse explicando o fato a uma criança pequena. -O que você faz aqui? - perguntou. Era curioso o fato de que um grifinório formado estivesse perdido nos corredores das masmorras, área da Sonserina. Mas a pergunta principal era: o que ele fazia em Hogwarts?
-Eu vim falar uma coisa com Dumbledore. – respondeu como se lesse os pensamentos dela. -Aconteceu uma coisa enquanto eu estava…
-Você não precisa dar justificativas a mim. Não é como se você sempre fizesse isso, não é mesmo?
-Mas qual é o seu problema? – perguntou exasperado diante do ataque da menina. Esperava consolo, apoio por parte dele, e não essa atitude áspera.
-Nada, apenas estou atestando o óbvio. Você não precisa dar justificativas a mim, já falei. – respondeu firme, ignorando a última pergunta dele.
-Tem razão. - respondeu vago, tentando mudar de assunto, e ficaram longos minutos em silêncio, cada um perdido em seus pensamentos.
Dallas finalmente notou que Harry estava encharcado e com as vestes sujas, além de possuir leves ferimentos na pele exposta. Parecia que tinha vindo de uma pequena batalha. Tinha um ar cansado e preocupado e aparentava, nesse momento, ser muito mais velho do que era. Eram os reflexos da guerra afetando a ele assim como afeta a muitos.
-Algo errado? - perguntou de supetão antes mesmo que pudesse segurar a sua língua e o tirou de seus devaneios.
-Como?
-Você parece… preocupado. - o moreno a encarou profundamente. Agora o tom dela era suave e amigável, diferente de minutos atrás. Essa menina estava se tornando um temperamento muito volátil, ao que parecia.
-Você deve saber que eu participo da guerra contra Voldemort. – a garota assentiu com a cabeça. Ele nunca lhe disse nada diretamente mas ela já desconfiava de tal fato. Afinal, ele era O Menino-Que-Sobreviveu, normal que estivesse no meio dessa confusão. -Hoje eu saí em uma missão que consistia em capturar um Comensal de extrema importância para uma pessoa muito querida para mim. – olhou para ela que se manteve em silêncio apenas o incitando a continuar. -Era o Comensal que traiu os meus pais e jogou meu padrinho, um homem inocente, na cadeia. O problema é que era uma armadilha. Eu consegui fugir mas eles pegaram o Sirius. Apenas… não sei o que fazer.
-Ah… eu sinto muito. - murmurou e Harry se viu sob o olhar de dois orbes violetas inocentes. Adorava os olhos dela, sempre eram calmos e transmitiam uma certa paz.
-Obrigado. - retrucou no mesmo tom de voz, dando um passo para frente e depositando a testa na curva do ombro com o pescoço da jovem. Dallas gelou com o movimento e ofegou profundamente, não sabendo como reagir diante dessa atitude dele. Seu corpo todo tremia e ela ficou parada por longos segundos enquanto o ouvia dar suspiros cansados contra a pele de sua nuca, lhe enviando calafrios pelo corpo molhado. Quando finalmente conseguiu ordenar as idéias em seu cérebro, ergueu uma mão e começou a acariciar os cabelos que, mesmo molhados, continuavam revoltos. Harry soltou outro suspiro, dessa vez de contentamento, e sorriu um pouco. O toque dela era tão bom, tão confortante que poderia ficar assim eternamente, sendo consolado pela menina. Ficaram minutos nessa posição até que ele se ergueu e a jovem quase protestou por causa disso.
-Está tarde. - murmurou o rapaz.
-É, daqui a pouco começa o banquete de Halloween. - retrucou a menina, recolhendo os doces caídos aos seus pés.
-Halloween? Eu havia esquecido disso. Eu… - o moreno bateu com a mão na testa. -… eu esqueci de comprar um presente para você. Me desculpe. - Dallas sorriu para ele.
-Sem problemas.
-Não! Diga algo que você queira, qualquer coisa que eu te dou de aniversário.
-Eu… - uma sombra de tristeza passou pelos olhos dela. O que ela queria estava a sua frente e isso, ela sabia, nunca iria ter. Já tinha perdido as esperanças de um dia conquistar o coração do rapaz. -… o que eu quero você não pode me dar Harry.
-Como? - A jovem acenou uma negativa com a mão num gesto para ele esquecer o que ela disse.
-Vá ao banquete. Meu presente será a sua companhia.
-Eca… me sentar com os sonserinos?
-Se sentar com os corvinais, que é onde eu vou estar.
-Okay então. - concordou, dando um beijo de despedida na testa da jovem e seguindo caminho pelo corredor.
Girou o corpo no chão frio e úmido sentindo todos os seus músculos protestarem por tal movimento. Piscou um pouco para acostumar os olhos a pouca claridade e os abriu vagarosamente. Os orbes azuis escanearam o local e se viu preso dentro de um quarto velho e semi-destruído. Tentou sentar e suprimiu um gemido por causa disso. Onde estava? Ah, sim! Havia sido pego. Tinha sido uma armadilha. Aquele maldito Rabicho tinha armado uma armadilha para pegar Harry, com certeza. Quando pusesse as suas mãos naquele rato imundo o mataria, poderia apostar nisso. Isso se conseguisse sair vivo dali. Apoiando-se na parede com a tinta descascada começou a usá-la de suporte para pôr-se de pé. Quando conseguiu o seu intento, a porta do quarto rangeu.
Sirius ficou alerta e pronto para qualquer batalha se aqueles Comensais quisessem. Observou a figura solitária entrar no quarto e trancar a porta atrás de si, recostando-se nessa.
-Sirius Black. - murmurou. -Bem, a idéia inicial era capturar o Potter, mas ter você em nossas mãos também será útil. Uma bela isca, o plano do mestre não foi tão mal sucedido assim.Porém… - o Comensal deu um passo a frente e Sirius manteve-se firme, mostrando que não se abalava com o fato de estar em desvantagem no momento. -… receio que não será bem sucedido novamente. – Sirius piscou um pouco em confusão. Do que ele estava falando?
-Como? - disse com a voz rouca e sentiu a sua garganta arranhar por causa disso. Estava seca. Há quanto tempo estava desacordado?
O Comensal aproximou-se mais um pouco e girou a cabeça, como se procurasse algo a sua volta. Sirius não saberia dizer o que ele procurava, já que a máscara cobria o rosto dele.
-Quero que me faça um favor. – disse com um tom de voz que denunciava que ele estava sofrendo uma grande batalha interna.
-O quê? - o moreno estava mais do que confuso. O que estava acontecendo ali? O Comensal mexeu em algo em sua mão, tirando um anel de um de seus dedos e entregando a Sirius.
-Entregue isso a Padma.
-Padma? Padma Patil? Por quê? Quem é você?
-Diga a Dumbledore que o Lorde das Trevas está tentando aliança com terroristas trouxas. Se ele conseguir isso, seu poder de fogo pode aumentar e a sua influência também. Ele tem que impedir isso.
-Você… - Sirius arregalou os olhos. Agora sim sabia quem era ele. -… Você é o Informante.
-Há uma lareira no primeiro andar na casa. Você segue o corredor, é a segunda porta a direita. É noite e poucos Comensais estão de vigia no local. Voldemort não está… tome… - esticou uma varinha ao homem. -… boa sorte. – virou-se e saiu do aposento e Sirius pôde perceber que não ouviu o clique da porta se fechando. Era a sua deixa para sair dali. Aguardou alguns segundos, ainda em choque com o tamanho de sua sorte, e saiu do quarto. A única coisa que encontrou foi um Comensal caído, com certeza o Informante o tinha tirado do caminho. Seguiu a passos leves pelo corredor e desceu vagarosamente as escadas da casa, tentando fazer o mínimo de barulho possível na madeira velha. Alcançou o último degrau e viu que na sala havia dois Comensais conversando a baixas vozes, grudou na parede e começou a deslizar ao longo dessa, se escondendo nas sombras. Chegou à entrada do corredor mencionado e procurou a porta indicada. Entrou vagarosamente por essa e achou a lareira. Em questão de segundos ele já havia sumido nas chamas verdes.
Tropeçou e caiu dolorosamente no chão fazendo um grande estrondo e atraindo a atenção de todos que ali estavam. Em segundos a sala estava cheia de bruxos, agentes e aurores que o olhavam estarrecidos. Um homem foi abrindo caminho pela multidão e chegou a ele, o ajudando a se levantar e limpando as suas vestes surradas.
-Sirius! - Remo exclamou surpreso.
-Bom estar em casa. – Sirius murmurou, olhando a sua volta e vendo que todos estavam se dispersando.
-Como você conseguiu chegar até aqui? - o moreno ergueu uma sobrancelha e indicou com o polegar a lareira atrás de si. -Você sabe o que eu quis dizer.
-Tive ajuda para fugir. - pessoas recomeçaram a entrar na sala, algumas em silêncio, outras fazendo um grande tumulto. Sirius logo se viu envolvido por um par forte de braços e um jovem se espremendo contra o seu corpo.
-Sirius… - murmurou o rapaz. O moreno acariciou os cabelos rebeldes de maneira paternal e sorriu um pouco. Ao menos tudo o que sofreu valeu a pena, Harry estava são e salvo.
-Está tudo bem Harry. - consolou como se ele fosse uma criança pequena. Por cima da cabeleira negra ele viu Dumbledore mirando seus olhos, não mais cintilantes, nele.
-Presumo que você teve ajuda para poder escapar.
-Sim professor. - retrucou o homem enquanto Harry soltava-se dele.
-E ele te disse algo? - Sirius assentiu com a cabeça e contou a todos os presentes naquela sala o que o Informante havia lhe dito. -Péssimo, realmente péssimo. - ponderou Dumbledore, alisando a longa barba prateada. -Temos que começar a espalhar nossos contatos e agentes, precisamos impedir isso. - balançou a cabeça levemente de um lado para o outro. -Um homem corajoso esse jovem. Muito mesmo. - murmurou mais para si mesmo do que para os outros, que mesmo assim o ouviram mas não chegaram a entender muito as suas últimas palavras. Sirius, porém, tinha uma vaga idéia do que o professor falava e rodou seus olhos pela sala. Os orbes azuis recaíram na morena que estava a um canto dessa e, com passos lentos e cansados, ele caminhou até ela.
-Padma Patil? - perguntou e a mulher assentiu quando o viu a sua frente. O homem remexeu algo em seus bolsos e ofereceu a ela. -Ele me pediu para que lhe entregasse isso. - a jovem pegou a aliança e lágrimas começaram a correr pelo seu rosto.
-Obrigada. - murmurou com a voz embargada, conjurando uma pequena corrente e prendendo o anel ao pescoço. Dumbledore aproximou-se dela e depositou uma mão em seu ombro em sinal de conforto.
-Ela era um grande homem, mesmo não aparentando.
-Eu sei, por isso me casei com ele às escondidas. Por isso me arrisquei tanto. Afinal, meus pais não gostaram de saber que a garotinha deles se apaixonou por um Comensal da Morte. - sussurrou em meio ao silêncio da sala.
-Um Comensal da Morte apenas na tatuagem, não no coração.
-Voldemort nunca teve o coração dele, pois esse era meu. - disse, fechando os olhos e envolvendo o cordão recém adquirido em uma das mãos. Dumbledore assentiu e sorriu levemente para a jovem enquanto os outros lançavam olhares complacentes a ela. Agora sim eles haviam descoberto a identidade de seu Informante e parecia que Voldemort também a descobriria mais cedo o mais tarde. Pelo visto, foi mais cedo.
Dois dias depois a Ordem da Fênix recebia com pesar a notícia do assassinato de Blaise Zabini.
