Capítulo 12
OS ESCOLHIDOS
Puxou o capuz de suas vestes para cima de sua cabeça e o deixou cair sobre os seus olhos, abaixando levemente o rosto e cruzando as mãos sobre a mesa a sua frente. A fumaça do incenso preenchia o local enquanto o ambiente morno e o cheiro se tornavam a cada momento mais enjoativo. Porém, isso não o impedia de começar a suas piadas do dia sobre a aula mais inútil, na sua opinião e na de muitos, da escola.
-Ah srta. Winford… - a voz de Patrick soou etérea naquele canto da sala enquanto Dallas revezava o seu olhar entre a professora e o amigo, que agora circulava as mãos sobre a bola de cristal. -… vejo um futuro obscuro para você.
-Verdade? - Dallas perguntou fingindo interesse.
-Oh, sim. Eu a vejo, a vejo com um avental sujo de molhos nojentos, carregando crianças babonas no colo e preparando comida para um Harry barrigudo e caído. - disse em um tom sério, porém Dallas não se segurou e estourou em risadas. Somente Patrick fazia piadas em relação aos seus sentimentos a Harry, mas ela não se importava. Ele podia brincar às vezes, mas nas muitas outras era ele que estava ao seu lado a apoiando.
A jovem rapidamente engoliu a risada e Patrick jogou o capuz para traz e sentou ereto na cadeira quando viram Sibila levantar os olhos e os mirar intensamente.
-Viram algo que possam compartilhar com a turma, senhores? - perguntou com o seu habitual tom de voz enjoativo.
-Não. - falaram os dois em unísso ao mesmo tempo em que o sinal tocou. Rapidamente os jovens recolheram as suas coisas e saíram às pressas da sala de Adivinhação.
-Essa passou perto. - falou Patrick.
-Você tem aula de que agora? - perguntou Dallas.
-Hum… eca! História da Magia.
-Então é aqui que a gente se separa. Eu tenho que ir na Sonserina pegar meus livros de poções. - retrucou a garota com entusiasmo.
-Eu não sei como você vê graça em poções.
-Oras… como o professor Snape diz: "A maravilhosa arte de preparar poções"… - imitou a jovem com uma voz rouca e arrastada e Patrick riu.
-A gente se vê no jantar. - despediu-se e seguiu o seu caminho para a próxima aula. Dallas desceu até as masmorras a caminho de sua sala comunal e rapidamente a alcançou, pegando seu material. Estava prestes a sair dessa, quando viu seu caminho ser bloqueado por um corpo maior que o seu. Dallas mirou o rapaz a sua frente e rapidamente estreitou os olhos em desagrado. Davon Yale estava novamente querendo a provocar como sempre desde que descobriu que ela era uma trouxa e espalhou isso para a Sonserina inteira. Ainda se lembrava muito bem do primeiro embate dos dois, de onde ela saiu correndo e chorando. Mas agora, depois de um ano batendo de frente com ele, ela estava com a língua tão afiada que estava surpreendendo muito de seus colegas de casa.
-O que quer Yale? - disse contrariada, tentando se livrar dele, mas sem muito sucesso. Davon era um rapaz alto, de pele morena e com os cabelos negros e olhos castanhos. Era um dos artilheiros do time de Quadribol da casa e por isso tinha um uma força física com a qual uma garota como ela não conseguiria competir.
-Aonde vai sangue-ruim? - retrucou com um sorriso malicioso.
-Aula. Sei que o seu cérebro é meio lento para processar, mas caso você não lembre, isso daqui é uma escola.
-Oh, alguém acordou armada hoje.
-Se eu realmente estivesse armada já teria dado um tiro no meio da sua testa.
-Me dado o quê? - Dallas sorriu triunfante.
-Tsc, tsc, tsc, se considera melhor do que eu mas nem sabe o que é um tiro. Santa ignorância. - retrucou e finalmente o conseguiu tirar do caminho e seguir para a sua aula.
A explosão foi-se ouvida ao fundo da sala e logo Snape estava deslizando por ela como um Dementador ao encontro do aluno desastrado.
-Dez pontos a menos para a Grifinória sr. Lucca! - bradou o homem e os sonserinos riram, porém Dallas estava alheia a isso pois mirava intensamente o seu caldeirão borbulhando. Snape virou-se, farfalhando as suas vestes atrás de si, e voltou a postar-se em frente à sala de aula, olhando todos com os seus olhos negros como se desafiasse alguém a cometer mais um erro para sofrer as conseqüências. Por que ele sempre tinha que pegar alunos que tinham uma certa síndrome de Longbotton para poções? Com certeza isso era karma. Ele deveria estar pagando pelos seus pecados por ter sido Comensal da Morte ou por alguma coisa mais grave que ele deve ter feito na sua vida passada. Continuou rodando seus olhos pela turma silenciosa e que trabalhava em seus caldeirões quando esses caíram na garota solitária a um canto da sala. A mirou fixamente e viu o quanto ela estava compenetrada em sua poção. Ao menos seu karma não era tão extenso assim pois tinha Dallas para poder fazer o seu dia. Melhor dizendo… à noite, quando colocava a cabeça no travesseiro e consolava-se sabendo que havia enfiado ao menos algum conhecimento na cabeça de vento desses alunos.
Lembrou-se da última reunião da Ordem para por em prática a sua sugestão de recrutar alunos como aliados de acordo com a matéria em que cada um se destacava. Iria sugerir a menina mas parecia que a Granger tinha dado um passo à frente dele e sugeriu a garota, para completo desagrado, o que o surpreendeu muito, do Potter. O rapaz parecia ser totalmente contra a entrada da jovem no treinamento da Resistência. Sabia que ele tinha um apego à menina, tanto que veio lhe pedir que mantivesse um olho nela por causa de seus colegas de casa pelo simples motivo que ela era nascida trouxa, mas aquela proteção excessiva já era demais. Se a garota realmente tinha potencial não poderia ser reprimida. E ele via potencial nela apesar de ser raro ele ver isso em um de seus alunos, então que trabalhassem nisso.
Outra explosão o tirou de seus pensamentos e ele bufou como um gato enraivecido. Esquadrinhou a sala e não se surpreendeu quando viu qual caldeirão tinha explodido.
-Sr. Lucca! - bradou, caminhando até o jovem que rapidamente se encolheu em seu lugar. -O que o senhor fez agora? - a sineta tocou, aliviando um pouco o garoto. -Vinte pontos a menos para a sua casa. Sumam daqui seus incompetentes! - todos começaram a recolher seus materiais e a saírem apressados das masmorras. -Srta. Winford peço que fique, preciso lhe falar. - Dallas aguardou silenciosamente em seu lugar. Quando o último aluno saiu das masmorras Snape virou-se para ela.
-Sim professor?
-Srta. Winford me acompanhe. - o homem começou a caminhar e Dallas o seguiu até que se encontrarem no escritório dele. -Sente-se. - ofereceu um lugar e sentou-se à mesa. Dallas sentou-se em frente a ele e ergueu uma sobrancelha curiosa. Não lembrava de ter feito nada de errado. Na verdade, desde que recebeu aquela detenção há tempos atrás, estava se comportando muito bem. Então, o que ele iria querer com ela?
-Professor? – chamou depois de minutos de silêncio, com ele parecendo ponderar algo.
-Srta. Winford, o que você sabe sobre o Lorde das Trevas? - a menina franziu o cenho. Que tipo de pergunta era aquela?
-Bem… eu sei o que leio no jornal, o que Patrie me conta e o que li nos livros. Por quê?
-Sabe que estamos em guerra, não sabe? Mesmo que os muros de Hogwarts a isolem do mundo lá fora o mesmo está em um grande caos. O que você conhece do mundo mágico certamente se limita à plataforma 9 ½, Hogsmeade e o Beco Diagonal.
-Sim.
-E o fato de estar neles faz parecer que tudo está na mais absoluta paz se deve a proteção acirrada que impomos sobre esses lugares. E quando digo "nós", srta.Winford, não me refiro apenas ao Ministério, porque o próprio sob a liderança do idiota do Fudge não faz muito para nos ajudar. O Ministro só está lá por fachada, para transmitir uma falsa sensação de segurança a comunidade mágica. O que realmente está batendo de frente com o Lorde das Trevas nessa guerra é a chamada Resistência da Fênix.
-Certo professor não quero que soe desrespeito ao senhor, mas o que isso tem a ver comigo? - Snape inclinou-se na cadeira e cruzou suas mãos sobre a mesa.
-Muito, senhorita, mais do que possa imaginar. A Resistência da Fênix é uma extensão de combate que está sob os comandos da Ordem da Fênix, com certeza você deve ter ouvido falar dela, ao menos lido em livros.
-Sim senhor, mas não tinha muitos dados sobre essa nos livros.
-Isso porque tentamos manter sigilo absoluto sobre ela. Mas algumas coisas sempre acabam vazando. Mas isso não muda o fato de que somos cautelosos sobre quem são os nossos agentes e a quem escolhemos para poder entrar na Ordem, mas especificamente na Resistência.
-Onde o senhor quer chegar, professor?
-A guerra está ficando cada vez mais violenta minha jovem e isso acarreta perdas. Estamos perdendo aliados e pelo rumo que as coisas estão indo, esse confronto não irá terminar amanhã. Por isso, estamos nos precavendo. Estamos recrutando novos aliados, novos agentes.
-Está querendo me dizer… ?
-Você tem um talento senhorita, tem grandes habilidades em poções e isso é muito útil nessa batalha, assim como outros alunos têm talento em algo e também serão úteis. Por isso eu estou te oferecendo uma escolha. A escolha de ser uma agente em treinamento da Resistência. Não estou dizendo que vamos te treinar para te mandar para a guerra. Pode ser que quando o treinamento se encerrar a guerra também tenha se encerrado, ou não. Então, a decisão é sua. - a sala ficou em silêncio por longos minutos enquanto Dallas encarava o professor a sua frente intensamente. Depois de quase vinte minutos de silêncio, a menina se manifestou.
-Quando eu começo professor? - Snape deu um pequeno sorriso com o canto da boca e entregou a ela um pergaminho com instruções para o encontrar depois do jantar nas masmorras. Dallas levantou-se pronta para partir da sala, quando a voz do professor a parou:
-É uma grande bruxa senhorita, não deixe que ninguém diga o contrário. – disse em seu tom habitual e sem emoções. A menina apenas assentiu com a cabeça e saiu do escritório.
-Eu não acredito nisso! - o moreno protestou levantando-se de seu assento e começando a perambular pela sala do diretor. Minerva levantou-se também e depositou uma mão no ombro dele, tentando acalmá-lo. Tinha acabado de trazer a resposta do Ministério sobre o caso Sirius Black X Pedro Pettigrew e essa não foi muito favorável. Mesmo com a prova de que Pedro estava vivo, o Ministério ainda queria que houvesse um julgamento, pois o mesmo apresentou vários argumentos contradizendo as acusações de Sirius.
-Aquele rato desgraçado, assassino filho-da-mãe está me acusando! Acusando a mim, Alvo! - o homem apontou furiosamente para o próprio peito enquanto descarregava a sua fúria.
-Sirius, Sirius, acalme-se. Era de se esperar que ele tentasse algo para se livrar da punição.
-Eu deveria tê-lo matado! - bradou e Dumbledore o mirou com firmeza.
-E então mereceria o título de assassino que você está recebendo. – o velho bruxo falou em tom sério e Sirius se calou, jogando-se contra a cadeira em que estava sentado há poucos minutos.
-O que faremos Alvo? - Minerva mirou o diretor.
-Enfrentaremos esse julgamento e prepararemos uma boa defesa para Sirius.
-Eu posso defendê-lo. - prontificou-se Remo e Sirius sorriu para o amigo. Remo era bom com as palavras e com certeza conseguiria convencer o juiz de que era inocente.
-Isso seria muito bom Remo, mas… não será possível.
-O quê? - Sirius exaltou-se novamente.
-Remo é seu amigo por isso não serão muito válidas as palavras dele perante o juiz, pois há sentimentos envolvidos na defesa. Precisaremos de alguém que não tenha vínculo com você, mas que ao mesmo tempo o conheça bem. Alguém imparcial.
-E onde você achará essa pessoa? - perguntou o ex-prisioneiro intrigado.
-Já tenho o candidato perfeito em mente. - os olhos de Dumbledore brilharam e Sirius teve a nítida sensação que boa coisa não viria disso.
O relógio já marcava nove e meia da noite quando Dallas chegou a entrada da sala de Snape e encontrou a porta dessa fechada. Cautelosamente aproximou-se e bateu de leve nessa mas, mesmo assim, o barulho ecoou pelas paredes de pedra daquela parte do castelo. O som de passos veio de dentro da sala e rapidamente a porta dessa se abriu.
-Atrasada srta. Winford. - Dallas abriu a boca para protestar diante do absurdo dele, não tinha chegado atrasada coisa nenhuma, tinha chegado na hora. Bem, de acordo com o relógio dela era na hora. -Siga-me. - Snape saiu da sala e começou a andar pelos corredores das masmorras. Dallas o seguiu em silêncio a apenas a três passos de distância dele e quanto mais eles andavam, mais parecia que estavam se aprofundando nos caminhos do castelo.
Passados quinze minutos de caminhada ambos pararam em frente a um enorme quadro onde havia uma esfinge como pintura.
-Senha? - disse o quadro.
-Blanco. – respondeu Severo e o quadro se mexeu revelando um pequeno portal por onde eles passaram. Caminharam por mais dez minutos por um extenso corredor quando de repente Dallas sentiu suas pernas serem presas no chão. A sua frente, Snape também havia parado.
-Professor?
-Sim?
-Eu estou presa.
-Esse é o sistema de segurança da sala, senhorita. A Ordem usa muitas salas dentro do castelo para treinamentos, reuniões ou simplesmente descanso de seus integrantes. Quando chegar a esse ponto, se você não parar por si só o sistema de segurança te para. - Dallas assentiu em compreensão e sentiu feitiços baterem em seu corpo como se estivessem reconhecendo algo. Um minuto depois Snape voltou a andar e ela o acompanhou.
Severo olhou por cima de seu ombro vendo que a garota o seguia e sorriu um pouco. Falou sobre o sistema de segurança, mas não mencionou o sistema de identificação. Havia muito mais que feitiços protetores naquelas paredes. Os feitiços extras que a jovem recebeu eram uma espécie de teste inconsciente para saber se ela realmente merecia entrar na Resistência. Se era de confiança e se estava disposta a agüentar as conseqüências de sua escolha. Parece que ela passou na prova. Chegaram à porta no fim do corredor e ele a abriu, com a jovem ainda o seguindo, e finalmente entraram.
O queixo de Dallas quase caiu. Aquela sala era enorme. Era realmente uma sala de treinamento. Olhou ao seu redor e percebeu que não era a única que estava ali. Havia outros alunos do quarto ano para cima. Outros escolhidos para ajudar na guerra. Mas parecia que ela era a única sonserina ali. Bem, parecia até que ela viu alguém em um dos cantos da sala ao lado do professor Lupin.
Davon mirou a recém chegada e abriu um grande sorriso malicioso que se expandiu quando a viu virar o rosto e o ignorar, caminhando para perto de um grupo de corvinais conhecidos seus.
-Essa é a última Severo? - perguntou Minerva.
-Sim.
-Ótimo! Atenção todos! - os alunos viraram-se e encararam a professora de transfiguração. -Vocês foram escolhidos para serem treinados e futuramente nos auxiliar na batalha contra Voldemort. - alguns tremeram diante do nome. -A partir de hoje nos encontraremos diariamente nessa sala nesse horário. Peço que não comentem nada com ninguém. Tudo o que acontecer aqui é sigiloso. Não queremos que corram o risco de seus nomes caírem em bocas de Comensais em treinamento. Isso mesmo, assim como a Ordem tem agentes dentro dessa escola em treinamento o Lorde das Trevas também tem os seus Comensais. - todos os olhos dos alunos recaíram sobre Davon e Dallas que retribuíram os olhares com uma mirada gélida. -E isso não quer dizer que eles pertençam a Sonserina. -rebateu McGonagall ao ver a reação automática que os alunos tinham em relação a casa da serpente. -Eles estão infiltrados em todas as casas, portanto a primeira lição que daremos hoje é que sejam atentos. Qualquer movimento suspeito deve ser informado a um dos professores que se encontram nessa sala hoje. Por enquanto isso é tudo. Alguma pergunta? - acenos negativos foram dados. -Certo então, amanhã nos vemos nesse mesmo horário para começar os ensinamentos. Podem ir.
-Então, você tem algo que preste para poder entrar na Resistência. - alguém sussurrou perto do ouvido da morena sonserina. -Pensei que sang…
-Cala a boca! - gritou Dallas, virando-se abruptamente, sacando a sua varinha e a apontando entre os olhos de Davon. -Abra mais uma vez a sua maldita boca para dizer que eu sou uma sangue-ruim e eu vou te mostrar como fazer magia de verdade! – vociferou com os seus olhos violeta irradiando fúria. Davon recuou um passo e mirou a garota intensamente. Ela não parecia blefar e realmente estava disposta a azará-lo. Não se arriscaria a continuar a provocando com tanta gente em volta.
-Terminaremos essa conversa mais tarde… trouxa. - virou-se e saiu da sala.
Os professores e alguns alunos ainda miravam Dallas, ainda com a varinha erguida, com uma certa surpresa. Raras eram as vezes que alguém viu a sonserina explodir de tal maneira. Na verdade, se a viram ficar irritada foram duas vezes e isso já era muito.
-Chega srta. Winford! Está na hora de ir. - Snape convocou.
-Sim professor. - Dallas guardou a varinha dentro das vestes e acompanhou os outros.
