Capítulo 14
TODA SUAVE ROSA TEM OS SEUS ESPINHOS
Ver Montgomery a esperando na estação não foi algo que a surpreendeu. O que realmente a surpreendeu foi ver a sua avó ao lado dele e com uma expressão de muito poucos amigos. Respirou fundo e foi caminhando até eles, empurrando o seu carrinho e desviando dos transeuntes. Aproximou-se dos dois e rapidamente abriu um sorriso para Montgomery.
-Monty! – disse alegremente e depois se virou para Amélia com o sorriso se apagando do rosto e sendo substituído por uma face desgostosa. -Grandmère. - terminou em um tom arrastado de voz, quase entediado.
-Não adianta fazer essa cara para mim jovenzinha, a senhorita não vai escapar da boa conversa que teremos. Foi uma vergonha. Saiu em todos os jornais o escândalo que você deu.
-Saiu? Engraçado, eu não vi nada no Profeta Diário. Tem certeza que a senhora viu bem, vovó? - retrucou petulante e Amélia fez uma carranca. Quem aquela menina pensava que era para usar aquele tom de voz com ela?
-Está ficando tarde, precisamos ir senhora. Sr. Winford deve estar nos esperando. - Monty convocou antes que as duas se fuzilassem mais com o olhar. Dallas girou nos saltos e começou a andar pela estação como se possuísse o lugar e Montgomery olhou abismado para isso. Que feitiço jogaram nela naquela escola para ela estar agindo assim? Uma vez a jovem tinha contado a ele sobre a casa em que tinha caído e a fama que essa tinha. Será que a Sonserina havia lhe subido a cabeça?
O caminho para a mansão deu-se no mais absoluto silêncio e assim que a limusine entrou nos terrenos dessa, Amélia lançou um olhar significativo à neta, mas essa a ignorou ainda olhando a paisagem janela afora, coisa que ela estava fazendo desde que saíram de King's Cross.
Montgomery abriu a porta de passageiros assim que parou o carro e Amélia e Dallas desceram desse. Mal pôs os pés dentro de casa e a jovem sentiu-se sendo arrastada pelo braço por sua avó em direção a biblioteca da casa. A mulher mais velha entrou no aposento e trouxe a menina consigo, fechando bruscamente a porta atrás de si. Dallas apenas respondeu a tal comportamento da avó com uma atitude indiferente. E ela teve quase certeza que podia ver uma veia pulsando na testa da mulher. Riria por causa disso, mas tal ato poderia deixá-la ainda mais irritada. E constatou com uma certa mistura de estranheza e contentamento que era isso mesmo o que ela queria. Será que era isso? Por anos ela tentou achar uma resposta por ter sido mandada para a Sonserina, a casa dos arrogantes, como muitas vezes ela denominou e talvez a resposta estivesse surgindo agora. Agora que ela era um pouco mais crescida e um pouco mais segura de si podia entender o que o chapéu deve ter visto na hora da seleção. Não foi a Dallas do presente, mas sim a do futuro. Realmente era uma mudança assustadora, mas ela tinha que admitir que estava gostando. Gostando do fato que podia encarar a avó nos olhos e não tremer diante disso. Não tremer mais diante de ninguém. Bem, exceto de Harry. Mas o tremor que Harry lhe causava era sempre algo bom, embora ela relutasse a senti-lo pelo simples fato de que era Harry, o homem que ela nunca teria.
-Olhe para isso! - Amélia percorreu a sala e pegou algo em cima da mesa que lá tinha, jogando no pufe entre Dallas e ela. -Olhe a vergonha! - Dallas olhou para o pufe e para o monte de revistas que lá tinha. A maioria tinha fotos antigas e recentes dela nas capas assim como fotos da sua família, às vezes com ela sendo a matéria principal ou sendo a secundária. Pegou uma das revistas nas mãos e leu a manchete em voz alta.
-Herdeira dos Winford dá vexame em festa de Natal. - folheou a revista e abriu na página da matéria. –"Dallas Winford... blá, blá, blá... recusou acordo de casamento com Allen Haliwell... blá, blá, blá... alegando que: "não se casaria com esse protótipo de gente". Acho que eu deveria ter dito "desculpa de homem", ficaria mais impactante.
-Dallas! - Amélia bradou com a voz elevada, impedindo-se de gritar histericamente e perder a compostura e educação de princesa que recebeu durante toda a sua juventude.
-Grandmère, a senhora se importa muito com o que os outros dizem.
-Minha querida, - falou em um tom surpreendentemente calmo. -se fossem essas fofoqueiras da alta sociedade, essas velhas matraqueiras, eu realmente não me importaria. Mas essas são as revistas mais conceituadas do país!
-O que está te chateando mais sra. Winford: a vergonha que passou nas revistas ou a vergonha que passou em frente aos Haliwell?
-A vergonha em frente aos Haliwell, obvio! Não me interessa o quanto você grite mocinha, você vai se casar! Sr. Allen e eu temos um contrato assinado em relação a esse casamento. Quando o filho dele e você se casarem nossas empresas se fundirão e assim como agora ele é o nosso sócio, nos tornaremos sócios dele.
-Realmente eu virei a sua mercadoria de compra e venda, não é mesmo? – falou a jovem com as sobrancelhas franzidas e a voz contida por causa da raiva. -Pois fique sabendo que esse contrato não é válido e que quando eu fizer dezoito anos poderei anulá-lo.
-Acha que não pensamos nisso minha cara? Esse contrato foi assinado por seu representante legal, ou seja, eu…
-Meu pai é meu representante legal! Afinal, ele é o meu pai. A senhora não é nada! – Amélia sentiu como se tivesse levado uma bofetada na cara diante dessa acusação, mas não deixou isso transparecer em seu rosto por nenhum momento.
-Mas eu sou a sócia majoritária das empresas e eu assinei o contrato como empresária, não como a sua avó e isso me torna a sua representante legal. E como eu assinei o contrato, apenas eu posso quebrá-lo. Sem contar que está tudo acertado. Você se casará em 1° de julho de 2004.
-Como é? - Dallas quase gritou. Nessa data ela ainda teria dezessete anos e não poderia nem revogar tal coisa ou tentar impedir o casamento. Ainda seria menor de idade. Um pensamento macabro cruzou a sua mente. Com o treinamento da Resistência, ela esperava que logo fosse para o campo de batalha. Se tivesse um pouco de sorte morreria na guerra. Melhor morrer por algo que acredita do que entrar em uma igreja sendo forçada.
-Portanto não adianta gritar e fazer escândalos. Você apenas vai se conformar, como todas as mulheres de nossa família se conformaram quando seus pais escolheram seus noivos. Por gerações foi assim, e essa tradição vai permanecer.
-Ah não, filha minha não vai ser obrigada a se casar.
-Vamos ver se não. Eu também dizia isso para mim mesma quando tinha a sua idade… - Dallas deu um sorriso irônico. Pensar na sua avó com a sua idade e tendo pensamentos parecidos com os seus era surreal. -… mas acabei vendo que era para o bem de todos. Que era o melhor. Por isso, na festa de Natal desse ano, quando os Haliwell vierem você vai sorrir e tratar muito bem o seu noivo. Está me ouvindo?
-Sorrir e tratar muito bem o meu noivo. - repetiu com ironia.
-Nada de gritos e histerismo.
-Certo… Nada de gritos e histerismo. Mas eu posso transformá-lo em lesma, não posso? - Amélia enrijeceu.
-E nada de magia. - enfatizou.
-Ah, aí tira toda a graça da história. Mas a senhora não vai poder me impedir depois do casamento de transformá-lo em uma cobaia.
-Isso é o que veremos. - rebateu a mulher e saiu do escritório com ares de triunfo e missão cumprida, realmente crendo que tinha a neta nas mãos.
O luxuoso carro atravessava as ruas de Londres abrindo caminho por entre os flocos de neve que caíam naquela noite nublada. Em uma das portas negras do veículo havia um pequeno brasão com um H no meio desse simbolizando que quem estivesse dentro do automóvel era alguém importante. Dentro do carro, sr. Haliwell mirou o filho que possuía um olhar perdido na paisagem londrina.
-Não é tão ruim assim. - falou o homem.
-Fale por você mesmo. Seria ruim se você fosse obrigado a se casar com aquela coisinha esquisita.
-Allen, eu lhe expliquei as condições desse acordo. Ela será muito proveitosa para a nossa família. Fundir as suas empresas com as dos Winford é o sonho de qualquer grande empresário e nós conseguimos isso graças a minha boa regência nos negócios.
-E graças à bajulação que você deu a velha Winford.
-Um pouco de charme também conta. - sr. Haliwell sorriu maliciosamente. -E se você quiser ser um homem de sucesso tem que enfrentar certos obstáculos.
-Aquilo não é um obstáculo, é um estorvo. Além do mais, eu não sei nada sobre aquela menina. Nunca a vi na Academia Montreale, pensei que os Winford mandavam todos os seus herdeiros para lá.
-Amélia me disse que dessa vez resolveram inovar. Parece que Dallas recebeu uma bolsa em uma escola muito renomada na Escócia, mas ela não me disse qual era. Disse que era um colégio antigo e de conhecimento de poucas pessoas. Que era um lugar muito seleto.
-Mas como aquela velha é prepotente, esfregando assim na nossa cara que Montreale já não é boa o bastante para a sua adorada família.
-Não vamos discutir a personalidade da mulher, vamos discutir a de Dallas. Fora aquele ataque que ela deu no último Natal aquela menina é uma lesa. Então não será tão difícil ser marido dela se ela acata toda e qualquer ordem.
-Como não vai ser difícil? Não será o senhor a dormir com ela. Não é o senhor que será obrigado a fazer um filho nela.
-Não precisa ser mais de uma criança, uma só está de bom tamanho. E além do mais, não é porque estará casado com ela que estará morto. - o homem piscou um olho para o filho que sorriu sarcástico.
-O senhor morreu depois do casamento, papai?
-Sim. O meu caso e o da sua mãe é diferente. Casei com ela por amor. Amor a ela e amor ao dinheiro do pai dela. Dei sorte.
-É, mas essa sorte pulou uma geração da família. - comentou o jovem desgostoso quando foram interrompidos pelo chamado do chofer no interfone.
-Chegamos senhor.
O vestido ajustou-se ao corpo dela como se tivesse sido feito por magia. Era estranho, ela lembrava-se daquele vestido, o usara apenas uma vez e depois o guardou no armário. Não gostava dele, ele era folgado demais e a deixava com uma aparência esquelética. Mas quando pediu a Clarisse que escolhesse uma roupa para ela e a mulher puxou esse vestido do armário dizendo que o achava lindo, não quis desapontá-la e acabou decidindo por usá-lo. Andou vagarosamente até em frente ao espelho que refletia seu corpo todo e ergueu uma sobrancelha diante da imagem que viu. O vestido estava uns dois dedos mais curto, pois ela lembrava-se que sempre tropeçava nele por ele ser comprido demais, mas agora ela conseguia ver a ponta dos seus pés. E estranhamente a peça acentuava curvas que antes não existiam no seu corpo. Inclinou-se em direção ao espelho, tirando uma mecha castanha do cabelo da frente dos olhos. Brilhantes orbes violetas a encararam de volta e Dallas recuou, franzindo as sobrancelhas. Quem era aquela mulher a olhando no reflexo do espelho? Não se lembrava dessa Dallas a olhando quando mirava o espelho quando era mais jovem. O que havia mudado com os anos? O que a mudou com os anos? Virou-se e mirou Clarisse sentada em sua cama e a mulher apenas lhe sorriu abertamente como se visse algo que ela não via.
-O que foi?
-Estou apenas surpresa. Aquela capa da escola que você usa e as roupas de inverno escondem muito de uma pessoa.
-O que você está querendo dizer? - a mulher levantou-se e caminhou até ela, depositando as mãos em seus ombros e a virando em direção ao espelho, onde a jovem a viu atrás de si através do reflexo de ambas.
-Olhe para você, está virando uma mulher. Eu a conheço desde bebê, a vi crescer e por isso vejo as mudanças. Está ganhando curvas e formas. Está ficando bela como a sua mãe foi. Aliás, você está ficando muito parecida com ela. - Dallas sorriu abertamente diante do que ouviu.
-Está querendo dizer que eu estou bonita?
-Com certeza. E mais esperta também. - afastou-se da jovem e voltou a sentar-se na cama.
-Como?
-Eu sem querer ouvi a discussão que você teve com a sua avó no dia em que você chegou. E Monty me contou o que você fez na estação de trem. Me alegro em saber, - a mulher ficou extremamente séria. - que você não está mais abaixando a cabeça para tudo o que a sra.Winford diz. - nesse momento a frase de Davon, no dia do beijo roubado no Expresso, voltou a sua mente.
"Esse brasão nas suas vestes significa algo não vê? Você está no mesmo barco que nós. Talvez você tenha que aprender que para merecer o nosso respeito, tem que ser como nós e parar de pensar como as outras casas."
-No mesmo barco… - murmurou e viu que ironicamente o vestido era prateado. -Uma sonserina… - sorriu maliciosamente para o seu reflexo no espelho, finalmente achando a sua resposta para a pergunta que se fez mais cedo. O que tinha mudado em si? Talvez fosse hora de admitir que era mais uma venenosa serpente do que um dócil carneiro. -… e que morre antes de se casar com aquela coisa.
Clarisse a observou falar consigo mesma e viu o pequeno sorriso que ela deu ao próprio reflexo. Realmente ela estava mudando e não se surpreenderia se no futuro ela fizesse alguma loucura. Poderia até chamar isso de hormônios adolescentes ou rebeldia sem causa já que esse novo comportamento até a assustava um pouco. Porém, ela apenas sentaria em seu lugar na platéia e veria o circo pegar fogo dentro dessa família quando finalmente Dallas resolvesse mostrar do que realmente era capaz.
-Acho que está na hora de descer para a festa menina.
-É… - Dallas respirou fundo e resolveu fazer o que todos os seus colegas de casa sempre faziam: atuar. Como uma boa multimilionária essa noite ela seria esnobe de uma maneira que nunca foi na vida. -… hora do show. – empinou o nariz e saiu do quarto altiva, como se nada e nem ninguém do mundo fosse capaz de afetá-la no momento.
Amélia olhou para o topo da escada pela milésima vez entre uma frase e outra da sua conversa com a família Haliwell, apreensiva. Quando fez o mesmo movimento pela milésima segunda vez, finalmente viu o que queria. Dallas descia as escadas de maneira majestosa, sorrindo para tudo e todos e atraindo a atenção de muitos. A jovem apenas sorriu mais com isso, um sorriso que para quem visse parecia algo doce e feliz, mas que para ela era a sua primeira tentativa bem sucedida do sorriso mais falso que fez na vida. Caminhou a passos leves até o grupo formado por sua avó e pelos homens da família Haliwell e deu um leve aceno de cabeça para todos em cumprimento.
-Parece que essa escola fez bem a ela. - sr. Haliwell sussurrou ao filho ao ver Dallas se aproximar do grupo.
-Ao menos ficou menos doloroso casar com ela, mas ainda precisa melhorar mais. - calaram-se quando viram a jovem chegar perto deles.
-Srta. Winford. - sr. Haliwell pegou a mão dela e depositou um leve beijo nela. Dallas apenas sorriu calorosamente a ele.
"Vou acabar distendendo um músculo do meu rosto de tanta falsidade" Pensou.
-Sr. Haliwell. - cumprimentou de volta, virando-se para Allen e lhe estendendo a mão. -Prazer em revê-lo Allen, embora nosso último encontro não tenha sido muito proveitoso. Perdão pelo que fiz. - Allen sorriu e pegou a mão dela, fazendo o mesmo que o pai
-Não me importa, é passado. O importante é que agora eu tenho o prazer da sua companhia. - Dallas lutou contra a vontade de rolar os olhos e bufar, mas no fim apenas sorriu mais ainda.
Albert tomou mais um gole de seu vinho, observando toda a cena a um canto do salão enquanto estava alheio a conversa dos empresários a sua volta. Quase sorriu quando viu a filha chegar e cumprimentar os Haliwell. O jeito com que ela fingiu simpatia, porque ele sabia que aquilo era um teatro afinal, ele conhecia a própria filha como ninguém, e quase riu com a maneira com que ela falou com eles. Sua menina estava crescendo e aprendendo a se defender. Isso era bom, muito bom por sinal.
-Então… - Allen começou enquanto via que Amélia e seu pai os deixaram propositalmente sozinhos. -… sua avó me disse que você estuda em um internato na Escócia. - um garçom passou em frente à Dallas e essa prontamente pegou uma taça de vinho, quase a bebendo em um gole só. Poderia estar fazendo um belo papel, mas ainda estava nervosa.
-Sim. - respondeu, terminando de engolir o vinho e a colocando na bandeja do outro garçom que passou, pegando outra taça cheia.
-E o que você mais aprende nessa escola? Qual o ponto forte dela? Economia? Química? Qual a sua matéria favorita? - Dallas soltou uma alta gargalhada que atraiu a atenção de poucos porque foi abafada pela música. Talvez o álcool estivesse fazendo efeito. Não era dada a beber, mas desde muito cedo foi ensinada por sua avó a reconhecer as melhores bebidas. Hoje ela estava pondo seus ensinamentos em prática.
-Desculpe. - ofegou um pouco, parando de rir. O que diria a ele? Que adorava Poções e que brincava com unicórnios e sempre arrumava um duelo ou outro de varinha com companheiros de casa que ainda insistiam em chamá-la de sangue-ruim? -Eles ensinam um pouco de tudo.
-Um pouco de tudo o quê? - tinha que manter a conversa. Afinal, o que falaria com aquela garota?
-De tudo. Oras o que você aprende na escola eu também aprendo. - "Uma baita mentira, mas esse imbecil não precisa saber disso." Sorriu docemente.
-Sei… - disse descrente. Ela estava fugindo do assunto e ele sabia que a jovem não estava a fim de falar com ele. Se queria mesmo deixar seu pai orgulhoso teria que ser persistente. O primeiro encontro deles não tinha sido dos melhores, não quando ele caçoou dela a noite inteira com tiradas sarcásticas. O que faria agora para manter a atenção dela? Olhou a sua volta e achou a sua resposta na varanda daquele salão.
-Gostaria de tomar um pouco de ar comigo.
-Não há ar o suficiente para você aqui dentro? – rebateu a garota, virando sua terceira taça de vinho.
-Não com todas essas pessoas compartilhando dele comigo.
-Monopolista, não?
-Vamos? - ofereceu o braço e ela, que hesitou um pouco mas acabou o aceitando. Chegaram na varanda e lá ficaram parados por longos minutos em silêncio. Allen mirou a jovem com o canto do olho. Se tinha conseguido trazê-la até ali já estava ao menos fazendo progressos. Parecia que ela finalmente estava caindo em seu charme. A viu o encarar e sorriu para ela, que automaticamente sorriu de volta. Sim, estava progredindo. -Sabe, fiquei surpreso quando a vi descendo as escadas.
-Por quê? - o rapaz virou-se para ela e aproximou-se da jovem.
-Está mudada, diferente da garotinha que eu conheci há dois anos.
-Um dia as pessoas crescem. – o rapaz a mirou de cima a baixo com um certo brilho no olhar.
-Algumas indo por um ótimo caminho. - rebateu e a garota estreitou um pouco os olhos. Não estava gostando do rumo daquela conversa, ainda mais que ele deu mais um passo para perto dela.
-O que está fazendo? - Perguntou, recuando mais e vendo a sua fuga sendo impedida pela grande porta de vidro da varanda que estava fechada.
-Fazendo aproximações.Vamos nos casar, esqueceu? Temos que nos dar bem.
-Nem que você me drogue eu vou me dar bem com você.
-Não seja tão difícil. Conheço milhares de menininhas como você. Sempre recatadas e tímidas, mas no fundo umas mulheres rebeldes.
-Umas vagabundas com certeza, se ficam com você! – retrucou ácida, olhando a sua volta com mais intensidade a procura de uma rota de fuga. Por incrível que parecesse, ela não estava preocupada com o que ele poderia fazer a ela. Na verdade, estava preocupada com o que poderia fazer a ele.
-Oh, alguém está com a língua afiada hoje! - fechou o espaço entre os dois e a abraçou fortemente.
-Me solta se não quiser ver o quanto eu sou rebelde.
-Não.
-Agora! - gritou, chamando a atenção de quem estava próximo da varanda.
-Não vou soltar, o que você vai fazer sobre isso? - deu um sorriso desdenhoso que rapidamente sumiu sendo substituído por um gemido.
As pessoas do salão olharam chocadas para a cena. Dallas havia acabado de dar uma senhora joelhada nas partes íntimas do noivo e além da joelhada desferiu um violento soco no rosto dele. Amélia deixou-se cair como um peso morto em sua cadeira e seus olhos estavam largos em choque diante do que presenciou. Albert cruzou o salão feito um raio e arrancou a filha da varanda, a arrastando pelo braço para o andar superior. Chegaram ao quarto de Dallas e o homem fechou a porta assim que entraram.
-Ele te machucou? - perguntou, avaliando a filha de cima a baixo.
-Era mais fácil eu machucá-lo. - respondeu a garota com um bufo indignada.O que estava dando nesses homens que resolveram todos agarrá-la? Aquele Allen merecia muito mais do que um soco seu. Se pudesse o azararia até a qüinquagésima geração da família. Não! Melhor, eliminaria qualquer possibilidade daquele cachorro desgraçado gerar alguma cria!
-Não duvido. Mais uma página de jornal, mais uma humilhação para a sua avó. Dallas, você deveria ter se controlado.
-E ter deixado aquela coisa me beijar? Eu me jogo dessa janela antes de ele ousar encostar um dedo em mim. – rosnou furiosa, batendo um pé no chão com força. Não era brinquedinho de ninguém para ser agarrada contra a sua vontade.
-Ele é o seu noivo.
-E o senhor fala isso com essa naturalidade? Papai, reaja pelo amor de Merlin! E eu to pouco me lixando para o que é ou deixa de ser. Se ele ousar novamente fazer uma gracinha dessa, ele vai se arrepender amargamente da própria existência. – Albert inspirou profundamente diante da fúria da filha. Nunca a tinha visto tão agitada quanto nesse dia. Nem quando ela soube do noivado tinha ficado tão furiosa.
-Merlin? – falou quando se lembrou das palavras dela e a garota piscou quando percebeu o que havia dito.
-É o costume. Conviver com tantos bruxos nos dá certos hábitos. - Albert sorriu. -Mas isso não muda o fato de que o senhor age como se ele ser o meu noivo é a coisa mais natural do mundo.
-O que está feito está feito, não posso mudar isso.
-Por que não? É o meu pai. O único responsável legal por mim para assinar aquele contrato deveria ser o senhor! - Albert suspirou e passou uma mão trêmula pelos cabelos. Será que deveria contar a ela? Era crescida, iria entender.
-Não sou o único. Infelizmente a sua avó conseguiu enganar a sua mãe quando essa estava grávida, passando todos os direitos de maternidade dela a si própria, a fazendo assinar um papel em branco ou algo do gênero. Assim ela poderia se livrar da Chloe e te criar ao seu modo, sem interferência. E você sabe que mães têm mais direitos do que pais. Por isso, não posso fazer nada para alterar isso. Somente tentar trazer a sua avó ao bom senso. - Dallas sentou-se pesadamente na cama.
-Vou ser obrigada a me casar? - Albert ajoelhou-se em frente a ela.
-Não, não vai. Tome a sua vida em suas mãos Dallas. Faça o que eu nunca tive coragem de fazer. Faz parte de um novo mundo agora, portanto tem uma chance de ser feliz.
-Papai… - o homem apenas sorriu para a filha e levantou-se, dando um beijo estalado na testa dela.
-Melhor ficar no quarto pelo resto da noite. Eu vou descer e ver quais foram os danos. - sorriu mais ainda com a lembrança e saiu do quart, deixando a menina sozinha com os seus pensamentos.
