Capítulo 16

MEU PARTIDO É UM CORAÇÃO PARTIDO

Apoiou a cabeça na mão e pôs-se a olhar movimento no vilarejo janela afora. O verão já estava chegando ao fim, mas essa maldita guerra não chegava. Mais um ano se foi e eles ainda estavam no meio de um furacão de grande escala. Muitos estavam morrendo, outros enlouquecendo ou desistindo diante de tanta dor e sofrimento que Voldemort estava causando por causa de suas visões deturpadas do mundo. E aqueles que ainda se mantinham firmes estavam condenados à solidão, como ele. Harry a cada dia via seus amigos voltarem para casa e encontrarem em seus lares e famílias um pouco de estabilidade e paz. Invejava Hermione e Rony que agora casados tinham um ao outro como alicerce, ou Gina e Draco já com a sua pequena família e o que dava mais um motivo ao loiro de lutar bravamente nesta guerra. Os Weasley's, cada um deles, estava arrumando alguém para lhes fazer companhia cada vez que voltavam para casa depois de um duro dia de batalhas. Mas e quanto a ele? Quando tudo o que tinha era um pequeno apartamento vazio no fim da rua principal de Hogsmeade? Parecia que o idolatrado Menino-Que-Sobreviveu estava fadado à solidão e a relacionamentos superficiais. Poderia até ser engraçado pensar em amor em momentos como esse, logo ele que na adolescência não se importava muito com namoros desde que superou a sua paixão pela Cho, mas, mesmo assim, pensamentos mudam e ver os seus amigos e família construindo bases sólidas em suas vidas no meio dessa guerra o deixava um pouco deprimido pelo simples fato de que ele não poderia compartilhar disso com eles. Era a vida deles e nessa parte de suas vidas ele não tinha participação.

-Um nuque pelos seus pensamentos. – Harry piscou ao ouvir a voz e levantou a cabeça, a voltando para a mulher que estava sentada em frente a ele no pequeno escritório que tinha dentro do QG da Ordem.

-Lilá! – sorriu abertamente a ela. Haviam se encontrado muitas outras vezes depois do casamento de Rony e Mione, ficado juntos algumas vezes, mas depois que ela teve que fazer uma viagem para a Itália a trabalho da Resistência eles perderam um pouco o contato.

-O que faz aqui sozinho Harry? – a mulher inclinou-se em sua cadeira e acariciou a mão dele sobre a mesa, lhe sorrindo docemente.

-Pensando na vida. – retrucou, fazendo um gesto vago com a mão livre.

-Pensando? Harry sabe que nesses dias o que mais fazemos é pensar. Pensar nas preocupações e missões que temos, pensar na guerra e se sobreviveremos, somente pensar. Soube que você andava trancado nesta sala pensando muito, por isso vim aqui te fazer uma proposta.

-Proposta? – Harry endireitou-se na cadeira e sorriu maliciosamente para ela ao ver a expressão marota no rosto de Lilá. -O que você tem em mente para mim srta.Brown?

-Ah sr. Potter! Eu tenho em mente um almoço no Três Vassouras, e eu não aceito um não como resposta. – Harry desfez rapidamente o sorriso e ficou repentinamente sério. -O que foi? – perguntou a jovem ao ver a expressão do homem, achando que ele iria recusar o seu convite.

-Apenas um almoço? – falou um tempo depois em um tom de criança manhosa e Lilá deu uma suave gargalhada ao perceber a brincadeira do moreno.

-Você não muda Harry… - os olhos dela brilharam divertidos. - ainda bem. – e levantou-se, estendendo uma mão para ele em um convite mudo. Rapidamente Harry pôs-se de pé e segurou a mão oferecida, se deixando guiar por Lilá para fora do QG rumo ao almoço deles em Hogsmeade.


Ela nunca o tinha visto, em todos os anos que o conhecia, Patrick a olhar de maneira tão séria e reprovadora, como um pai prestes a dar um longo sermão na filha travessa, além de uns belos puxões de orelha. Mas o que ela esperava? Apoio incondicional do amigo depois de dizer a ele sobre a proposta que lhe foi feita por um certo sonserino durante o verão que passaram em Hogwarts? Seria pedir muito não? Ainda mais que Patrick era aquele que mais a ouvia reclamar sobre o mesmo sonserino.

-Pelo amor de Merlin, me diga que você vai dizer não. – falou o adolescente em um tom exasperado, passando as mãos pelos seus cabelos que pela falta de corte caiam sobre os olhos dele.

-Bem, eu não sei. – Dallas deu de ombros, ainda ponderando a proposta que lhe foi feita. Isso não era algo que se decidia da noite para o dia, ainda mais com o histórico que ela tinha com o Davon.

-Dallas! – o corvinal gritou, parando no meio da rua e virando-se com uma postura feroz para a amiga, ganhando a atenção de alguns transeuntes que achavam que aquilo deveria ser uma briga de casal que valia a pena ser observada. Vendo o público que estavam começando a atrair, a sonserina lançou um olhar gélido para os passantes e viu com prazer alguns enrijeceram diante disso.

-Vão cuidar das suas vidas! – sibilou como uma cobra raivosa e rapidamente todos deram as costas a dupla e seguiram o seu caminho.

-Dallas, - Patrick falou em um tom mais baixo, quase num sussurro, quando percebeu o que a sua explosão anterior tinha causado. – é do Yale que estamos falando, o garoto que vive te chamando de sangue-ruim.

-Bem, eu nunca mais o ouvi me chamar assim desde que começamos Hogwarts este ano. – defendeu a garota. Na verdade, Davon não a chamava assim desde aquele beijo que eles compartilharam no jardim durante o treinamento da Resistência e que ocasionou a sua briga com o Harry, mas ela não poderia dizer isso ao Patrick senão ele teria uma sincope no meio da rua e atrair mais atenção do que antes, como também não poderia dizer que passou dois meses sozinha com Davon dentro da Sonserina e que por causa disso eles acabaram se aproximando e fazendo um acordo mutuo de trégua, além dos outros beijos que trocaram durante esse tempo. Era uma relação estranha a deles, mas ao mesmo tempo era divertida pelo simples fato de que era proibido – pois os amigos dela jamais aprovariam tal coisa, assim como os amigos de Davon torceriam o nariz para as escolhas dele – e descompromissado e era algo que ninguém nunca pensaria que Dallas pudesse fazer: associar-se com o inimigo, por assim dizer. E olha que eles não sabiam a missa a metade.

-Isso não muda o fato… - Patrick ainda tentou persuadi-la, mas a garota rapidamente o interrompeu.

-Não vou dizer que ele é um homem maravilhoso, um príncipe encantado e coisa e tal. Na verdade ele é prepotente, arrogante e irritante, mas confesso que dá para levar.

-Concordo. Mas uma coisa é você tentar viver pacificamente com ele, outra coisa é você namorá-lo. Quero dizer... Envolve uma relação mais intima aí e ficar aturando o Yale vinte e quatro horas por dia é um teste de paciência até para o mais santo dos homens.

-Verdade, isso quer dizer que eu já posso ser canonizada – Dallas falou em um tom aéreo como se ponderando a colocação do amigo. –Ou posso queimar no fogo do inferno. –terminou com um ar divertido. –E além do mais não é tão ruim assim. – Patrick estreitou os olhos desconfiado com essa colocação. –Quero dizer, nós dois somos sonserinos, então creio que eu tenho mais do que cacife para poder lidar com ele e além do mais ele me pediu em namoro e eu disse que iria pensar, ainda não dei uma resposta. Sem contar que eu apenas te contei isso porque você é meu amigo e merecia ficar sabendo, não pedi sugestões.

-Não estou dando sugestões. Mas como amigo você deve saber que eu tenho direito a te dar conselhos e dizer com todas as letras que aceitar o pedido de namoro do Davon é uma escolha ruim. – concluiu o garoto, novamente passando a mão pelos cabelos para ver se conseguia assimilar tudo o que havia lhe sido dito.

-Eu sei, mas…

-O que Harry diz sobre isso? – Patrick resolveu usar a sua mais poderosa arma – mencionar o nome de Harry – para ver se ainda colocava algum senso na cabeça da menina. Com isso rapidamente Dallas se calou, sabendo que ele tinha tocado no ponto fraco. Falar sobre Harry ainda era a esperança de fazer Dallas desistir dessa idéia, pois sabia que apesar de ainda estar pensando no assunto, ela com certeza estava considerando um sim. A garota estava ficando muito aventureira para o seu gosto. Por que ela não se rebelava como qualquer adolescente normal? Por que não piercings, tatuagens e cabelo coloridos? Por que logo namorar o Yale?

-Não contei ao Harry sobre isso, não que realmente fosse do interesse dele, mas acho que se ele souber sobre o Davon... – ponderou ao lembrar-se da briga que os dois tiveram quando o auror flagrou os jovens em um grande amasso no meio do treino da Resistência. E se Harry tinha reagido tão mal a um beijo, imagina o que ele faria quando soubesse que Davon estava pretendendo oficializar a relação?

-Você não gosta mais do Harry? - perguntou o rapaz.

-Eu… eu amo o Harry, Patrick, e acho que nada nem ninguém vai mudar este sentimento dentro de mim. Mas o que ele sente por mim é pura amizade, é amor fraterno. Quais serão as minhas chances de um dia ter mais do que isso com ele? Não posso viver toda a minha vida presa a um amor que não vou ter. Preciso seguir em frente.

-Que você precisa seguir em frente eu concordo, mas não precisava em um ato de desespero escolher o Yale para isso? – resmungou o garoto em um tom sofrido e Dallas riu um pouco, afagando os cabelos dele como se Patrick fosse uma criança birrenta.

-Não é um ato de desespero, e você fala como se eu já tivesse tomado a minha decisão quando na verdade eu ainda estou pensando – enfatizou, dando um largo sorriso para o amigo.

-É, - retrucou o corvinal em um tom de deboche. – eu esqueci que você ainda está pensando – pausou por alguns segundos. – e acho que nós poderíamos pensar juntos de barriga cheia, pois estou morrendo de fome. – e apontou para o Três Vassouras que começava a encher por causa do horário do almoço.

Entraram no pub em meio a uma conversa animada com um grupo de corvinais que encontraram no caminho e depois se separaram desse, procurando uma mesa em meio ao lugar cheio. Dallas rodou os olhos pelo salão para ver se encontrava um lugar vazio e esses caíram em uma pequena mesa onde duas pessoas estavam. O coração da jovem deu um salto ao ver quem era o casal. Harry estava no pub e parecia estar acompanhado da mesma morena que beijara no casamento dos Weasleys e, pela maneira como eles se olhavam e se tocavam, Dallas pôde perceber que eles pareciam muito mais íntimos do que no dia do casamento. Como se fossem namorados, e mal ela sabia que o motivo do sorriso brilhante que Lilá estampava no rosto era porque naquele momento Harry acabara de pedi-la em namoro.

Patrick ao perceber para onde a amiga tanto olhava, a puxou pelo braço e a tirou de sua intensa observação, a arrastando por entre as mesas para a que estava vazia no canto quase escurecido do salão. Assim que se sentaram a jovem começou a encarar as suas mãos sobre a madeira, com pensamentos pipocando em sua cabeça e a cena que presenciara a poucos segundos rodando em sua mente como um filme. Como conseguiria seguir em frente se a cada esquina que virava lá estava Harry com outra mulher se não ela. Era enervante e a garota começava a sentir raiva de si mesma cada vez que enfraquecia em suas resoluções de superar o Potter. Continuou a encarar a madeira da mesa em silêncio até que novamente o corvinal a tirou de seu devaneio.

-O que foi? – Patrick perguntou ao perceber a expressão triste da amiga, quando há minutos atrás ela tinha um grande sorriso no rosto e irradiava alegria. Como é que o Potter poderia afetar tanto a garota? Se não soubesse que isso pudesse magoar Dallas, o garoto iria até aquela mesa agora mesmo dizer umas boas verdades para aquele ex-grifinório extremamente míope.

-Nada. – respondeu num murmúrio, erguendo a cabeça e olhando pela vitrine do pub, apoiando o rosto com as mãos.

-Como nada? Você está chateada, percebo isso. Parece até aquela Dallas melancólica que eu conheci há quatro anos. – a jovem voltou os olhos para o amigo e o mirou com um pequeno sorriso forçado. Realmente a Dallas de onze anos não era nada parecida com a jovem de agora. A menina tímida e feiosinha estava dando lugar a uma mulher decidida e que estava surpreendendo a muitos que a conhecia. Porém, certas coisas da Dallas de onze anos ainda permaneciam na adolescente de quatorze. Resignada a garota apenas indicou com a cabeça o outro lado do salão dizendo para Patrick qual era o seu problema. O corvinal nem se prestou a olhar para a direção apontada, já sabendo o que encontraria lá. Com isso, soltou um pequeno ruído de depreciação diante do que acontecia. Queria bater no Potter, mas sabia que perderia a briga por mais que tentasse. Mas que ele merecia apanhar, isso merecia.

-Que novidade! Se eu não soubesse que ia perder a briga, batia nele. – falou resoluto, socando a palma de sua mão com o punho fechado da outra. – E o que ele viu naquela morena aguada?

-Ela é bonita. – respondeu Dallas sacudindo os ombros, dando mais um relance para a mesa de Harry e vendo o quanto os dois estavam se divertindo entre goles de bebida e risadas. Com isso abaixou a cabeça e voltou a encarar a mesa, tentando ignorar o feliz casal.

-Você também é bonita, muito mais bonita que ela por sinal. Aquela mulher é tão simpleszinha, cabelos escuros, olhos escuros, pálida e meio magrela. Você é muito mais interessante com esses grandes olhos azul-violeta e cabelos mel, que, aliás, são muito mais bonitos que o dela. – e Patrick começou a relatar uma lista de diferenças que tornava Dallas muito mais interessante que Lilá. A garota ergueu a cabeça em um rompante e corou fortemente. Patrick sempre foi uma pessoa que dizia o que pensava, e dizia sem dó, e pela maneira com que ele falava aquilo era a opinião dele e não palavras de consolo de um amigo. Ele realmente a achava bonita.

-Você acha que eu sou bonita? – perguntou em um tom mínimo e desconfiado.

-Merlin! Não tem espelho na sua casa não? – retrucou o garoto irritado não acreditando no que estava ouvindo. Estava perdendo a paciência não só pelo fato de que Harry estava fazendo a sua melhor amiga sofrer sorrindo e conversando felizmente com aquela morena sem sal – na sua sincera e mais completa opinião – mas também estava fazendo Dallas voltar a agir como aquela menina retraída e insegura que conheceu no trem a caminho de Hogwarts. Certo que às vezes ela tinha essas recaídas, mas não era sempre e geralmente ocorria quando Harry era o assunto, mas mudaria isso agora mesmo. Resoluto levantou-se da mesa e segurou a amiga pelo pulso, a puxando para pô-la de pé. Um segundo depois começou a arrastá-la por entre as mesas, olhando a sua volta a procura de alguém que pudesse enfiar na cabeça dura da sonserina que ela podia muito mais do que achava. Foi quando numa pequena avaliada ao seu redor ele divisou uma mesa cheia de garotos do sexto ano da Grifinória. Sorriu de maneira feral e arrastou Dallas para perto dos meninos, ignorando os protestos e o rosto rubro da garota.

-Me digam – começou Patrick, interrompendo a conversa do grupo mais velho e atraindo a atenção deles para o jovem casal. – com toda a sinceridade: vocês acham essa menina bonita? Vocês a namorariam e a exibiriam pela escola como pavões orgulhosos e diriam para todo mundo que conseguiu sair com a menina mais bonita de Hogwarts, se tivessem a chance? – emendou com um sorriso, erguendo uma sobrancelha e puxando Dallas pela mão, a colocando em frente aos garotos. A sonserina não sabia onde se esconder diante da vergonha que estava passando e depois de tudo o que o amigo tinha falado para os rapazes. E o pior de tudo era que entre o grupo ela tinha reconhecido o capitão do time de quadribol da casa, um rapaz bem popular entre as garotas. Será que Patrick tinha feito isso de propósito? E a coisa somente piorou quando foi o próprio capitão que respondeu depois de dar uma longa olhada para Dallas dos pés à cabeça.

-Com certeza. Quantos anos você tem? Está disponível para o próximo final de semana no vilarejo? – respondeu o rapaz com um tom de flerte e a menina arregalou um pouco os olhos, não acreditando no que estava ouvindo. Patrick sorriu vitorioso e rapidamente retrucou:

-Desculpe rapazes, mas no momento ela está meio comprometida. – respondeu e a levou rapidamente de volta para a mesa onde estavam.

-Que vergonha. – resmungou Dallas contrariada assim que voltaram à mesa, cruzando os braços sobre o tampo e escondendo o rosto vermelho sobre eles, ainda não assimilando o que tinha acabado de acontecer.

-Bem, eu encerro o meu caso depois dessa. Quem sabe assim você pare de se diminuir. Pensei que já tivesse superado isso. – resmungou e um som abafado pelos braços foi à única resposta de Dallas.

-O que foi aquilo? – uma nova voz soou junto a mesa do casal e Patrick virou-se com uma expressão contrariada para ver Harry parado ao lado deles e de mãos dadas com a morena com que estava almoçando.

-Aquilo o quê? – respondeu o rapaz de modo inocente, intercalando o olhar entre Dallas e Harry. A menina ainda escondia o rosto entre os braços, como se não tivesse reconhecido a presença do homem perto da mesa deles, mas o corvinal sabia que o motivo de ela ainda estar nessa posição era para não ver o Potter todo feliz na companhia de uma outra mulher.

-Você a arrastando para a mesa daqueles grifinórios. Por que fez isso? Algum problema?

-Não, problema nenhum. Eu só estava testando uma teoria minha, tentando convencer um certo alguém. – lançou um longo olhar a sonserina que agora tinha erguido a cabeça, mas olhava novamente vitrine afora de maneira desinteressada, ignorando veementemente a nova companhia deles. –Está tudo perfeito. – concluiu, erguendo uma sobrancelha para a garota quando ela lhe deu um relance, e depois voltou a olhar para as ruas movimentadas do vilarejo.

-Você não foi à dama de honra no casamento da Mione e do Rony? – Lilá entrou na conversa quando reconheceu a jovem que estava na mesa e ainda alheia a presença deles

-Foi. – Patrick respondeu pela amiga que parecia mais do que decidida a não reconhecer o casal perto deles, como se eles não fossem nada mais do que ar.

-Você cresceu. – a mulher continuou em uma vã tentativa de chamar a atenção da garota para o assunto. Quando a menina nada respondeu e continuou a olhar a rua, Harry resolveu intrometer-se diante dessa reação indiferente da jovem e extremamente anormal.

-Dallas? – chamou com um tom firme e com um suspiro sofrido ela virou-se para poder olhar o casal.

-O que foi? – perguntou em um tom seco, apoiando a cabeça em uma das mãos e lançando um olhar desinteressado a eles, foi quando seus olhos recaíram nas mãos entrelaçadas dos dois ex-grifinórios e os seus lábios deram uma leve torcida em desagrado. –Namorando Harry? – perguntou, apontando para as mãos entrelaçadas e o auror ergueu a sobrancelha, demorando alguns segundos para a ficha cair.

-Ah, sim! – respondeu com um sorriso, virando-se para encarar a mulher ao seu lado. –Dallas, Patrick, essa é a Lilá.

-Olá. – cumprimentou Lilá os dois adolescentes. Patrick apenas deu um aceno de cabeça e depois lançou um olhar significativo a Dallas, como se esperando que ela pulasse no pescoço da mulher a qualquer momento, mas tudo o que a jovem fez foi retribuir o olhar com as sobrancelhas arqueadas e depois dar um sorriso escarninho para o amigo, sabendo exatamente o que ele estava pensando. O corvinal soltou um bufo de desagrado e cruzou os braços em uma clara indicação de que estava chateado, pois Dallas tinha acabado de tirar sarro da cara dele no momento em que o desmentiu quanto as suas atitudes. Harry apenas observou calado aquela troca de cumplicidade entre o casal e comprimiu um pouco os lábios em um gesto pensativo. Tinha alguma coisa que o Patrick sabia sobre Dallas e que a mesma não havia lhe contado. Silêncio imperou no local por alguns segundos, com a sonserina voltando a encarar a rua. Quando Patrick abriu a boca para falar alguma coisa, Dallas foi mais rápida do que ele.

-Eu tenho que ir. – disse a garota de olhos violetas, dando um último relance para a rua como se para se certificar de algo.

-Aonde vai? Ainda nem almoçamos! – chamou Patrick quando percebeu para o que Dallas tanto olhava na rua e se desesperando com o que poderia estar passando na cabeça da jovem neste momento.

-Eu volto em um instante. – falou com um pequeno sorriso e saiu correndo do pub, deixando um Patrick injuriado para trás acompanhado de um Harry intrigado e uma Lilá confusa.


Davon andava pelas ruas de Hogsmeade acompanhado dos colegas de seu ano que falavam futilidades a sua volta enquanto ele ficava alheio a tudo isso. Na verdade seus pensamentos estavam voltados para as férias de verão passadas, as revivendo de maneira extremamente prazerosa. Aquilo sim que havia sido férias. Não que a companhia de Dallas sempre o ameaçando azarar fosse a melhor coisa do mundo, mas com certeza seus beijos eram. Tocar nela era a melhor coisa que havia, sentir a pele dela sob os seus dedos era muito bom, sem contar os gemidos que ela dava entre um beijo e outro. Bastava apenas pressionar os botões certos e a jovem de furiosa se tornava uma gatinha manhosa em seus braços. E não, antes que alguém pensasse besteira, ele não estava apaixonado. Na verdade a melhor palavra para definir o que sentia era atração, atração por aquela morena que de patinho feio estava virando um cisne, um belo cisne por sinal, e que estava começando a chamar a atenção das pessoas e a abrir as asas, um cisne do qual ele poderia ter o privilégio de dizer que já possuiu. Sorriu de maneira maliciosa quando mais uma imagem das férias veio a sua mente, o rosto rubro dela depois de uma discussão e ele a pegando pela cintura e a jogando sobre o sofá da sala comunal e a calando com mais um beijo. O modo como ela resistiu e as marcas de arranhões que ele ainda tinha no braço diante da luta da garota, e uma azaração que o mandou direto para Pomfrey. Brigar com ela era tão divertido quanto assediá-la.

-Olha quem vem lá, a esquisitinha! – um dos companheiros de Davon falou o arrancando bruscamente de suas tão agradáveis lembranças. Torceu um pouco o nariz diante do apelido do rapaz, mas antes isso do que o famigerado apelido que foi a causa de muitos narizes quebrados na casa da serpente. Afinal, ninguém mais na Sonserina ousava chamá-la de sangue-ruim, não depois que ela arrumou aquela briga que a levou a uma detenção. No máximo a chamavam agora de coisas como: esquisita, aberração e derivados. Coisas que ela estava deixando de ser a muito tempo. Sem contar que o único que ainda tinha o direito de chamá-la de sangue ruim – e sair vivo depois – era ele, apenas para vê-la se irritar e tentar saber do que ela seria capaz quando alguém pisava em seus calos. Afinal, se estava na Sonserina algum talento ela deveria ter, e ele estava convencido de que faria de tudo para descobrir esse talento escondido. E a menina não seria o que é hoje – no que estava se tornando, com a personalidade amadurecendo – se não fossem as adversidades que seus colegas impunham a ela.

-Winford! – chamou quando a viu vir em sua direção – O que quer? – Davon parou de caminhar e mirou intensamente a jovem.

-Preciso falar com você Yale – falou e viu que os amigos do rapaz a olhavam com extremo interesse. – em particular. – concluiu e voltou seus olhos violetas para o garoto, que com apenas um aceno de cabeça para os amigos fez eles se debandarem.

-Fale.

-Eu pensei sobre a sua proposta e finalmente cheguei a uma conclusão.

-E qual seria essa? – Davon cruzou os braços sobre o peito com um sorriso vitorioso dançando em seus lábios.

-Eu aceito. – o sorriso do rapaz alargou-se com essa resposta e rapidamente ele passou um braço pela cintura da garota, selando o novo compromisso deles com um beijo no meio da rua, atraindo novamente a atenção dos passantes e ganhando uma grande ovação deles.

-Eu não acredito que ela fez isso. – Patrick em seu lugar na mesa do Três Vassouras depois de presenciar a cena do beijo pela janela do pub, segurando a vontade de enterrar a cabeça entre as mãos e balançá-la freneticamente em sinal de negação. Dallas tinha perdido todos os parafusos neste exato momento, com certeza.

-Fez o quê? – Harry perguntou quando viu a expressão desacreditada do garoto, puxando uma cadeira e sentando-se com ele na mesa, trazendo Lilá junto como companhia, enquanto esperavam o retorno de Dallas de onde quer que ela tenha ido. Patrick deu um sorriso fraco para o homem mais velho, agradecido que ele não presenciou a cena de agora pouco.

-Nada. – respondeu o corvinal com o seu melhor ar de: coisa sem importância e engajou os dois visitantes em uma conversa fútil para divergir a atenção deles do que acontecia na rua principal do vilarejo, além de divergir os seus pensamentos da loucura que amiga tinha acabado de cometer.