CAPÍTULO 17

O BAILE DE HALLOWEEN

-Baile de Halloween? – Dallas parou no meio do caminho e mirou o quadro de avisos do hall de entrada do castelo. Pouco a pouco mais alunos aproximavam-se do mural, vindos de suas classes, e começaram a formar um grupo de pessoas no corredor. Algumas meninas já soltavam gritinhos extasiados enquanto alguns meninos rolavam os olhos em desgosto por ter que convidar alguém para o baile. Por que esses eventos sempre tinham que ser em par? Por que não sozinhos?

-E a fantasia! – uma voz disse atrás dela e a jovem nem se prezou a virar-se para ver quem era, pois já a conhecia muito bem.

-Já sabe quem vai convidar? – Dallas girou para poder encarar o melhor amigo, que soltou um longo gemido do fundo da garganta e começou a olhar para todos os cantos do corredor menos para ela. A morena apenas ergueu uma sobrancelha o incitando a falar.

-Bem… – o garoto ficou um pouco vermelho diante da pressão muda que estava sofrendo.

-O quê? – a sonserina perguntou já escondendo um sorriso sábio. Tinha uma vaga idéia do que ele iria dizer, de quem ele pretendia convidar para o baile. Afinal, ela ficou muito observadora com os anos e todos os sinais estavam claros cada vez que via Patrick olhar para uma certa pessoa.

-Eu estava pensando em convidar a Tracey. – terminou com o rosto baixo e os cabelos castanhos escondendo os olhos de mesma cor, mas não conseguindo esconder o rubor que tomou as bochechas do rapaz. Tracey Kalif era uma das colegas corvinal que sempre andava com eles dois durante os intervalos das aulas, uma companheira do mesmo ano que o deles e que Patrick parecia estar gostando.

-Pensando? Não vai convidar? – incitou matreira e o garoto ergueu a cabeça para poder encarar a amiga, olhando a sua volta para ver se não tinha ninguém dando uma de enxerido na conversa deles. Satisfeito, continuou:

-Acha que ela vai aceitar?

-Você nunca vai saber se não perguntar, não é? – deu de ombros.

-E com quem você vai? – perguntou querendo visivelmente mudar de assunto, pois falar de Tracey sempre o deixava envergonhado. Agora era a vez dela de zombar dele por tudo que ele zombou dela em relação ao seu amor por Harry. Certo que ela nunca se ofendeu com as brincadeiras de Patrick, mas, como amiga, tinha o absoluto direito de revidar. Um sorriso maroto surgiu rapidamente no rosto de menina e o garoto não gostou nada disso.

-Não mude de assunto sr. Gordon. Vai ou não perguntar a ela? – cruzou os braços sob o peito e bateu com um dos pés no chão de pedra, como se o estivesse repreendendo por alguma travessura.

-Eu já disse que não sei. Aliás, é uma péssima idéia a minha. Claro que ela nunca irá comigo, melhor eu ir sozinho. Os professores não vão me barrar na festa só porque eu não tenho um par.

-Isso é verdade, mas com certeza todo mundo vai levar um… portanto… HEI TRACEY! – Dallas deu pulinhos no lugar e começou a acenar para um grupo de corvinais que acabara de entrar no castelo. Patrick gelou no lugar.

-Sim? – respondeu a loira que havia se separado do grupo de amigas e estava dirigindo-se a eles.

-Patrick precisa falar algo importante com você sobre a festa do Dias das Bruxas. – disse Dallas de forma matreira e com um grande sorriso no rosto quando viu a jovem se aproximar.

-Verdade? – os olhos verde água da menina brilharam em expectativa, ainda mais depois do aviso que ela leu no quadro.

-Verdade. Vou deixar vocês a sós para conversarem melhor. – finalizou e a morena ia entrar no salão quando Patrick a segurou pelo braço.

-Vai me pagar por essa vergonha, Winford. – sibilou o rapaz, totalmente vermelho, para a amiga.

-Na verdade eu estou me vendo mais tarde sendo agradecida. – respondeu divertida, dando um beijo na bochecha dele e entrando no salão saltitante indo direto para a mesa de sua casa, pois sabia que jantar na mesa da Corvinal hoje, com um Patrick irritado, não seria muito seguro.

-Que agarração foi aquela na entrada? – Davon puxou Dallas pela cintura assim que ela sentou-se ao seu lado e depositou um beijo na curva do pescoço dela.

-Fala do quê? – perguntou em um tom inocente, encolhendo os ombros por instinto quando sentiu as cócegas subindo pelo seu pescoço.

-Você beijando o Gordon. – retrucou ainda a abraçando pela cintura.

-Só o estava ajudando na escolha de um par para o Baile de Halloween. Por que, está com ciúmes? – perguntou olhando diretamente nos olhos escuros. Davon apenas deu um sorriso escarninho como se considerasse essa pergunta muito estúpida. Quem ela pensava que ele era? Potter?

-Ah, você também viu aquele aviso idiota no mural? Baile, hunf! Que coisa mais sem nexo. Um baile para descontrair os alunos, aberto a todos os anos. Isto é muito imbecil, só vai ter pirralho nessa festa e não vai dar nem para batizar a bebida. – resmungou, voltando a sua atenção para a terrina na sua frente que tinha se enchido de comida.

-Você não vai ao baile? – Dallas o mirou surpresa. Davon vinha de uma tradicional família bruxa sangue-puro, que com certeza devem ter feito e freqüentado muitos bailes, então por que ele não ia? Mas se pensasse melhor, não deveria estar chocada, pois isso era coisa bem típica de Davon: ser anti-social. E quem a visse pensando assim riria. Ela mesma, há tempos atrás, conseguia ser mais anti-social do que ele. Claro que com um pouco mais de modéstia, diferente do moreno ao seu lado.

-Você espera que eu vá?

-Sim! Com quem eu vou se você não for? – fez um pequeno biquinho, mirando o prato na sua frente e escondendo os olhos com a franja, cutucando com a ponta do garfo um pedaço de bife.

-Arrume outro então, porque eu não vou nessa porcaria. – disse enfático, não se deixando abalar pelo olhar triste da menina. Não sabia se ela estava fingindo ou se estava realmente magoada. Dallas poderia ser muito coração mole, mas ainda sim era uma sonserina e como tal iria usar artimanhas para conseguir o que queria.

-Mas que tipo de namorado é você? Deveria fazer isso por mim. – choramingou, escondendo ainda mais o rosto com o cabelo. Os outros colegas de casa começaram a olhar de maneira estranha para o casal. Fazia algum tempo que eles desacostumaram a ver Dallas nessa posição frágil. Geralmente o que eles viam era uma garota soltando uma horda de insultos e azarações para o engraçadinho que a ofendeu.

-Oras, que tipo de namorada é você! Quando te pedi em namoro fiz isso porque achei você diferente dessas garotas todas cheias de frescuras. Vejo que me enganei.

-Não vai te matar se você for ao baile comigo. Eu nunca fui a um baile de Hogwarts.

-Não! – continuou enfático. Ainda de cabeça baixa, Dallas soltou um bufo irritado por ver que a sua tática de persuasão não estava funcionando. Talvez fosse hora de apelar. Erguendo o rosto com um sorriso misterioso nos lábios, a garota virou-se para o rapaz e deu-lhe um suave beijo na nuca, o que fez um arrepio descer pela espinha de Davon. Isso era golpe baixo, pensou o jovem, pois ela sabia que ali era uma área sensível de seu corpo.

-Por favor, faça isso por mim, como meu presente de aniversário. – deu mais um beijo e Davon estava quase se rendendo aos pedidos da jovem.

-Seu aniversário? – conseguiu perguntar em meio à sensação boa que os lábios dela estavam lhe dando.

-Sim, meu aniversário é no dia trinta e um. Por favor. – murmurou manhosa. Ainda não tinha se acostumado com a sua nova personalidade e modo de agir, além de ser a primeira vez que usava sedução para convencer alguém, logo ela que nunca se achou muito sexy, e estava vibrando por dentro ao perceber que estava funcionando. Poderia ser estranho, mas ao mesmo tempo era engraçado.

-Não! – respondeu veementemente quando ela finalmente o parou de beijar.

-Ótimo. – retrucou irritada. –Vou sozinha. – e voltou-se para o seu jantar. Longos minutos de silêncio se passaram entre os dois até que Davon desistiu de fazer jogo duro quando percebeu que ela tinha colocado um certo esforço para convencê-lo, e usado modos sonserinos para isso. Talvez ela merecesse o prêmio dessa vez. Resignado soltou um longo suspirou e falou:

-Certo, eu vou! – Dallas sorriu vitoriosa, mas rapidamente ocultou isso entre um gole e outro do seu refresco. A vida no momento era muito boa.


As ruas de Hogsmeade estavam apinhadas de estudantes e professores durante a primeira vez na história de Hogwarts em que todos os alunos estavam aptos a visitar o vilarejo. Claro que isso foi feito em dois dias distintos, pois por causa do Baile de Halloween, o qual ele estava ouvindo falar a cada canto que virava – alunas excitadas comentavam a altas vozes na rua sobre o assunto – e pela boca de Dumbledore, era certo dizer que todos os alunos lotariam as lojas do lugar a procura de uma fantasia. E hoje era o dia da visita do quinto ano para cima. Harry andava pelas ruas da cidade com os olhos atentos a qualquer movimento suspeito. A cada canto ele podia ver agentes da Ordem circulando despercebidos pela multidão para garantir a segurança dos alunos e moradores, enquanto os mesmos, alheios a tudo, continuavam as suas compras e seguiam dirigindo os comércios que hoje iriam faturar mais do que no feriado de Natal. Porém, esse pequeno detalhe não importava ao moreno que acabara de sair da joalheria com uma pequena caixa em suas mãos. Dessa vez ele não esqueceu e resolveu se adiantar em comprar um presente para Dallas e, com certeza, ela iria adorar a jóia. Era uma singela corrente que tinha como pingente um D que estava preso dentro de uma estrela e mudava de acordo com as cores do arco-íris. Qualquer jovem adoraria ter algo como aquilo, mesmo uma jovem que sempre teve tudo o que o dinheiro poderia comprar. Mas ele aprendeu que, para Dallas, o que contava era a intenção. Afinal, todos os presentes que ela recebeu na vida eram apenas um meio de comprar o seu carinho e com a exceção dos mimos dados pelo pai e Monty nada do que ela ganhava era de coração, isso até que ele começou a dar presentes a ela também. Gostava de ver o sorriso se formar em seu rosto e que de tão luminoso poderia ser até detectado por um cego.

Misturou-se a multidão e estava quase voltando para casa quando viu uma figura familiar dentro de uma das lojas. Uma das menores lojas do vilarejo e coincidentemente a mais vazia. Sorriu e entrou no estabelecimento, fazendo soar o sino em cima da porta deste.

Dallas estava mirando-se no espelho com uma certa expressão de desagrado quando ouviu o sino da loja tocar. Virou-se e rapidamente abriu um grande sorriso para a pessoa que estava aproximando-se dela.

-O que faz aqui? – perguntou ao moreno, voltando-se novamente para o espelho e torcendo mais uma vez o nariz diante da roupa que vestia. Aquilo não parecia combinar muito com ela.

-Ah! Eu estava fazendo a ronda para garantir a segurança dos alunos nessa visita. Essa idéia de Dumbledore de baile está deixando Hogwarts polvorosa. – mentiu entre dentes. Não podia contar a jovem que na verdade estava comprando o seu presente de aniversário. Afinal, era uma surpresa.

-Ah. – foi tudo o que ela respondeu antes de entrar em uma das cabines com outro vestido na mão, um que parecia mais promissor que o atual.

-Presumo que se você está aqui fazendo compras é porque vai ao baile. – continuou Harry ao vê-la sumir por detrás da cortina de veludo de um dos cubículos, vendo apenas os tornozelos e os pés da garota por debaixo dos panos. A cortina mexia-se com os movimentos da jovem e o rapaz apenas observava interessado esse revoar do tecido.

-Presumiu certo. – retrucou enquanto vestia mais uma peça de roupa e a deslizada por sobre os quadris arredondados. Minutos de silêncio se passaram até que a jovem saiu da cabine com o novo vestido, sob o olhar atento de Harry que quase engasgou. Aonde ela pensava que ia vestida daquele jeito? Ao baile? Ele esperava que não.

A morena olhou-se no espelho, totalmente alheia a reação do amigo e as caretas que ele estava dando, e sorriu com o que viu. Agora sim tinha gostado da roupa, ela parecia combinar mais com a sua atual fase de vida. Virou-se para Harry, ainda com o sorriso, e lhe perguntou:

-E então, fiquei bem? – Harry piscou uma, duas, três vezes, como se estivesse tentando fazer sumir o efeito de um estupefaça ao mesmo tempo em que tentava encaixar o maxilar de volta no lugar depois da queda dolorosa que ele sofreu ao ver a figura a sua frente. Se ela tinha ficado bem? Perguntou-se, ela parecia ter envelhecido uns quatro anos naquele vestido e com certeza ele não seria o único a achar que a peça de roupa era extremamente encantadora, para não dizer reveladora.

-Está... está... fantasiada de quê? – balbuciou em meio a sua mente enevoada diante do choque. Era como se uma hora ele estivesse conversando com aquela menina franzina de onze anos e na outra, depois que ela entrou na cabine, a menina deu lugar a uma mulher desconhecida a Harry. Por um segundo considerou vasculhar o cubículo para ver se não havia nenhum feitiço de envelhecimento nele.

-A Dama de Vermelho. – Dallas retrucou marota e botou as mãos na cintura, dando uma pequena volta que fez Harry engasgar novamente. As costas do vestido tinha um enorme decote em v que ia até a base da coluna, sem contar o decote que tinha no colo e a fenda que se abria até a metade da coxa da perna esquerda. E ele precisava mencionar a cor vermelho sangue que chamaria a atenção até dentro de uma sala completamente escurecida? Não. Ela com certeza seria um ponto bem destacado na multidão do baile. Seria a sensação da festa.

-Você não vai fantasiada assim, vai? Quero dizer, você só está experimentando, não pensa em comprar isso, pensa? – perguntou com uma mistura de incredulidade e temor. Ele nunca pensou que a jovem ousaria usar uma roupa daquelas, porém o olhar dela denunciava que sim, ela estava pensando em usar aquele vestido. Aquele vestido que tinha buracos demais em um corte de tecido, que a cor vibrante destacava por completo a pele alva e trazia uma brusca atenção para os olhos exóticos. O salto a deixava mais alta, parecendo alongar as pernas que somente agora ele notou eram torneadas e aparentemente tentadoras. Um conjunto que deixava a sonserina extremamente… sexy.

Harry arregalou os olhos ao terminar a sua avaliação. Ele não poderia estar pensando isso de uma garota que até ontem ele consolava porque seus colegas de casa a chamavam de sangue-ruim. De uma menina que ele pediu ao Malfoy para proteger porque tinha se apegado a ela como um irmão mais velho. Ficou tentado a bater-se diante dos pensamentos incestuosos, mas a voz de Dallas interrompeu qualquer autopunição.

-O que há de errado com a roupa? Eu gostei, e acho que o Davon também vai gostar. Ele me disse que se era para ir ao baile comigo que ao menos eu deveria fazer jus a isso e ir fantasiada como uma verdadeira sonserina. Acho que foi isso o que ele quis dizer. – e apontou para o vestido enquanto o moreno a sua frente fazia uma expressão estranha como se estivesse prestes a vomitar um balde de lesmas. Ela ia ao baile com o Yale?

-Vai ao baile com o Yale? – perguntou com um franzir de sobrancelhas.

-Vou. – respondeu Dallas displicente enquanto voltava a se olhar no espelho, virando o corpo de um lado para o outro para ver como o tecido tinha se ajustado nas suas curvas adolescentes.

-Por quê? – continuou em um tom cortantemente seco.

-Porque sim. – retrucou a garota de maneira evasiva e Harry achou que aquilo não era uma resposta que prestasse e sentia que ela estava escondendo algo.

-Não creio que o Yale mereça essa produção toda. – sentenciou e a boca de Dallas abriu como se para retrucar o comentário amargurado de Harry, mas calou-se e o olhou por cima do ombro longamente, voltando a se mirar no espelho. –Portanto, acho que não seria sábio ir vestida assim, ele não é tão importante a esse ponto. – concluiu, mas rapidamente arrependeu-se do que falou diante do que ouviu a seguir.

-Na verdade ele é, e acho que como namorado ele merece tal esforço. – Dallas respondeu em um tom desinteressado, mas, quando se deu conta do que tinha dito, arregalou os olhos e rapidamente tapou a boca com as mãos, virando-se com uma expressão horrorizada para o homem que parecia ter sido atingido certeiro por um raio durante uma partida chuvosa de Quadribol. Harry não sabia que ela estava namorando. Ainda não tinha reunido coragem para contar a ele, bem, não tinha até agora. Ela se lembrava muito bem da vez que ele lhe falou que quando arrumasse um namorado ele iria querer conhecer, porém, Harry e Davon não morriam de amores um pelo outro desde que se conheceram e a sua boca grande apenas piorou a situação.

-Não gostei da roupa. – rebateu Harry extremamente azedo em um tom que lembrava muito o professor Snape depois de uma aula particularmente cabulosa com a Grifinória, interrompendo a confissão dela como se não tivesse ouvido o que a jovem havia dito. –Está muito justa, muito decotada e não combina com você.

-Mas eu gostei. – a sonserina protestou, virando-se novamente para o espelho. –E é essa que eu vou levar. – terminou decidida, caminhando de volta para o cubículo, mas sendo parada pela voz contida de Harry, como se ele estivesse se esforçando em prender um urro de dor dentro da sua garganta.

-Não, não vai! – sibilou de uma maneira que fez o moreno por um breve momento se questionar se não estava usando a língua das cobras para repreender a garota. –Você não vai andar pelos salões de Hogwarts usando isso. – e apontou o acusado vestido como se fosse uma peça antiga que fora usada pelo próprio Voldemort. Embora Voldemort de longe não teria a mesma graça e elegância que Dallas tinha ao empunhar o vestido.

-Por que não? – cruzou os braços de maneira relaxada e prendeu o lábio inferior entre os dentes, tentando entender o porquê da atitude hostil do auror.

-Este vestido e o nada são a mesma coisa. – Harry finalmente pareceu soltar o grito que estava entalado em sua traquéia. –Tem mais decote nessa coisa do que pano. Ele é ousado demais, decotado demais, chegando ao ponto de ser vulgar. – seu rosto adquirira estranhos tons púrpuros e ele se perguntava por que estava perdendo a calma desta maneira. Seria pelo vestido em si ou o fato de que outro homem teria o prazer de tocar Dallas naquele vestido que inspirava convites que requeriam a ausência do tecido?

-Não seja estúpido Harry! – reprimiu a garota em um tom que fez o moreno se lembrar de Hermione e gradualmente acalmar-se. –É só um vestido! E não vai ser você a pagar por ele então… – entrou na cabine e minutos depois saiu dessa com o vestido e o dinheiro nas mãos, para muito contragosto de Harry.


Pela primeira vez podia-se ver aquele QG calmo, como se ali não fosse o ponto de concentração de todos os que lutavam pela luz contra Voldemort. Naquela noite de Dia das Bruxas, naquele feriado, muitos de seus integrantes aproveitaram a paz momentânea que a guerra estava proporcionando e foram para casa passar o dia com a família. Os poucos gatos pingados que ficaram eram aqueles que, ou eram viciados demais no trabalho ou a única coisa que lhes esperava em casa era uma cama vazia ou cômodos silenciosos. E esse era o caso de Harry naquela noite. Com Lilá fora da cidade tudo o que ele pode achar para se distrair no feriado foi trabalho.

O moreno estava em sua sala dentro da Casa dos Gritos, sendo iluminado apenas pela luz do pequeno abajur em cima da mesa enquanto avaliava papéis e mais papéis sobre os relatórios das missões mais recentes, tudo para ver se encontrava uma certa linearidade nos ataques de Voldemort para ver se isso os fazia ficar um passo a frente dele ao menos uma vez sequer já que, depois da morte de seu Informante e com a descoberta de que os espiões estavam começando a correr um certo perigo e por isso foram tirados da ativa por uns tempos, essa era a única coisa que eles tinham no momento como arma. Claro que essa função de analisar algum ponto em comum nos ataques era papel do gênio do QG, ou seja, da Hermione, mas essa andava ultimamente tão cansada que Harry teve pena da amiga e a mandou para casa passar o feriado com o marido.

O auror continuava a avaliar os papéis com atenção, contudo as letras pareciam borradas diante de seus olhos. Era inútil ler tudo aquilo se a sua cabeça estava à milhas dali. Melhor dizendo, não tão longe dali, mas sim há apenas um túnel e um jardim de distância. Tirou os seus óculos e esfregou os olhos, pensando novamente na frase que martelou na sua cabeça o dia inteiro desde que encontrou Dallas na loja de roupas.

"… acho que como namorado ele merece tal esforço."

Namorado. A palavra entrou como um espinho no cérebro de Harry. Dallas estava namorando, e logo o garoto a quem ele jurava que ela detestava. Porém, não deveria se surpreender, ao menos não depois daquele beijo que viu eles dois dando nos jardins da escola durante o treinamento da resistência, aquele beijo que era outra farpa que ainda estava enterrada em sua mente, e no fim ela ainda teve a audácia de lhe dizer que o sonserino a agarrara. Que grande mentira! Se Davon realmente a tivesse beijado contra a sua vontade ela não o estaria namorando agora, estaria? Mas o pior de tudo era pensar no que mais eles fizeram visto que os dois passaram dois meses sozinhos dentro da sala comunal da Sonserina durante o verão. E, com certeza, deve ser bastante tentador fazer coisas impróprias dentro da sala quando ela está totalmente livre de alunos curiosos e curvada as suas vontades. Sacudiu a cabeça para espantar os pensamentos desagradáveis. Não deveria se importar tanto com a vida amorosa da jovem, mas se importava. Ela era a sua amiga, sua pequena irmã adotiva (embora ultimamente tal convicção estivesse enfraquecendo dentro de seu ser) e não iria deixar nenhum idiota machucá-la. Jogou os papéis em cima da mesa e soltou um suspiro exasperado. Não conseguiria nada esta noite se continuasse com a sua cabeça longe e, com isso, levantou-se de sua cadeira e pegou a sua capa, daria uma pequena passada em Hogwarts para ver como andava o Baile de Halloween, apenas para se distrair. Ou ao menos era isso que ele tentava dizer a si mesmo para se convencer que, na verdade, o motivo da visita era outro. Um motivo de cabelos mel e lindos olhos azul-violeta.


O dedo apertava os botões do controle remoto e o rosto mostrava uma expressão tediosa. E era isso o que Draco estava sentindo: tédio. A Ordem mandou que todos os seus espiões ficassem fora da ativa por uns tempos, pois eles souberam que Voldemort os estava caçando atrás da identidade deles, e ele teve que obedecer, muito a contragosto, mas teve que obedecer a isso. Agora cá estava o loiro na sala escurecida de sua casa com apenas a luz do aparelho de TV para iluminá-la, tentando achar algo de bom para se ver naquela inútil máquina trouxa. No andar superior estava Gina, com certeza deitada na cama e ninando Angela, enquanto ele tentava se distrair com os programas noturnos. Sorriu diante disso. Pensar na cena da sua mulher ninando a sua filha sempre o fazia rir feito um idiota, como o bom pai babão que era. Vendo que na TV ele não acharia nada que o distraísse, achou melhor subir e fazer companhia a sua esposa. Ao menos ficar observando as duas mulheres da sua vida dormindo era muito mais prazeroso do que aquela máquina estúpida.

Desligou o aparelho e subiu as escadas da casa, alcançando o quarto principal e entrando silenciosamente nesse. O que viu fez outro sorriso surgir em seu rosto: lá estava Gina deitada na cama e com seus fartos cabelos ruivos contrastando intensamente com o branco dos lençóis e ao seu lado, envolta por almofadas, estava Angela deitada de bruços segurando uma mecha do cabelo da mãe com uma expressão no rosto de bebê que indicava que estava se divertindo muito com o seu novo brinquedo. O homem aproximou-se da cama vagarosamente e pegou e pequena no colo, que sorriu ao mirar seus olhos acinzentados nos olhos do pai. Draco sorriu de volta para a menina e caminhou através do quarto, sentando na cadeira de balanço que esse tinha para botar a criança para dormir, mas, assim que se acomodou na cadeira uma sensação estranha o abateu: um frio correu a sua espinha e ele rapidamente levantou-se de seu assento e caminhou até a janela, erguendo levemente a cortina e olhando para a rua escura do lado de fora. Nada parecia fora do normal, mas ele sentia que algo estava errado. A luz de um dos abajures que estava ao lado da cama começou a piscar uma cor fraca de vermelho e o sangue de Draco gelou. Havia sido descoberto. Rapidamente ele catou uma coberta no armário e envolveu Angela com ela e a passos largos cruzou o quarto em direção a cama, começando a sacudir levemente os ombros de Gina que aos poucos foi acordando e mirando seus olhos sonolentos no marido.

-Draco o que…

-Shhh. – chiou para poder calá-la e colocou o bebê nos braços da mulher. –Pegue Angela e vá direto para o QG. Avise o que está acontecendo.

-Mas o que está acontecendo? – a mulher o mirou confusa, sentindo o corpo começar a tremer. Nunca vira Draco tão sério em todo o tempo que estava com ele.

-Fomos descobertos.

-O meu… – ela não conseguiu terminar, pois barulhos começaram a vir do piso inferior da casa e a luz do abajur começou a piscar mais intensamente, sendo refletida no rosto apavorado de Gina e nos olhos brilhantes de Angela. Um pequeno apito de alerta começou a soar no quarto em virtude dos intrusos e num estalo Draco apontou a varinha para a porta e a trancou, tentando ganhar mais tempo para a fuga da esposa e da filha.

-Vá! – ordenou com uma voz firme e em um pulo Gina pôs-se de pé com o bebê abraçado firmemente pelos seus braços.

-Draco, eu não vou te deixar! – protestou de maneira teimosa e orbes cinzentos viraram-se frios e nebulosos para a jovem, ordenando de forma muda que ela o obedecesse. Se fosse outra hora Draco ainda se permitiria uma discussão para poder ver quem tinha mais poder naquela casa, mas o momento não pedia por isso. O loiro não estava ordenando que a mulher trocasse as cortinas da sala porque elas eram de mau gosto, mas sim fugir por causa de Comensais da Morte.

-E quem vai cuidar da nossa filha? – sibilou impaciente visto que a luz do abajur já ganhava um tom vermelho sangue, indicando que o inimigo estava se aproximando do esconderijo deles. Através da madeira da porta o auror podia ouvir xingamentos e maldições, com certeza dos Comensais pegos pelos vários feitiços espalhados pela casa contra intrusos. Ao menos deveria ter umas quinze azarações das Gemialidades Weasley no correndo entre a escada e a porta do quarto do casal.

–Anda Virginia! – um estrondo estremeceu a porta do quarto e ambos os adultos entreolharam-se, o inimigo agora estava perto demais para o gosto do loiro e Gina ainda nem tinha saído do lugar. Angela começou a chorar entre os braços da mãe, como se pressentisse o perigo que estava ao seu redor, e isso pareceu ter acordado a mulher para o risco que corriam e para o que o marido estava fazendo. Será que foi assim que Tiago Potter se sentiu quando há anos atrás Voldemort invadiu a casa deles para poder matar Harry? Perguntou-se a ruiva que por várias vezes ouvira a história dos pais do melhor amigo, mas nunca pensou que um dia se veria em uma situação parecida com a dele. A expressão do Potter pai naquela fatídica noite de Dia das Bruxas com certeza deveria ser a mesma que Draco estava fazendo neste exato momento.

-Draco. – falou com a voz embargada e desesperada. O loiro virou-se para a esposa e segurou o rosto dela com ambas as mãos, a beijando de maneira passional.

-Vá meu amor… vá. – e com um último beijo de despedida na testa do bebê choroso, afastou-se da ruiva. Outro estrondo estremeceu o quarto e fez um arrepio descer pela espinha do auror. Quantos Comensais deveriam estar do outro lado da porta? Perguntou-se com as sobrancelhas franzidas e apertando a varinha firmemente entre os dedos, dando um último relance a Gina que retribuir o olhar, com os orbes castanhos transbordando em lágrimas, e com um sorriso confiante deu uma girada de corpo e desaparatou com a filha do casal, tendo como última visão antes de sumir a porta do quarto estourando em milhares de pedaços e com Draco erguendo a varinha e lutando com força contra uma dúzia de Comensais. Todos com a mesma determinação emanando de seus gestos, todos querendo matar o espião que ajudou a Ordem a destruir boa parte dos planos de Voldemort.


A girou novamente a exibindo como se fosse um troféu, mas com certeza não a estava mostrando para os alunos que estavam no salão. Na verdade, a jovem tinha a sensação de que ele a estava mostrando para alguém em particular, como se quisesse provocar este certo alguém dizendo que ela era dele. Isso era estranho. A sonserina olhou a sua volta e não viu nada de anormal em ninguém do salão, ninguém os olhava diferente diante desse pequeno show do Davon de ficar girando-a para lá e para cá durante a música. Porém, quando o rapaz deu mais uma girada de corpo é que ela sentiu, sentiu que alguém os observava intensamente. Corrigindo, alguém a observava intensamente pelo simples fato de que sentia os pêlos de sua nuca se arrepiarem diante do misterioso olhar. E foi quando novamente eles se mexeram durante o bailar é que ela viu, viu um par de olhos verdes a mirando fixamente como se quisesse desvendar a sua alma com aquele simples olhar. Não pode evitar o tremor que percorreu o seu corpo diante disso, pois aquele olhar era extremamente intenso e ela nunca vira aqueles orbes verdes vivos a mirarem assim, chegava a ser um pouco assustador.

-Parece que o seu amigo não está gostando de nos ver juntos. – Davon murmurou perto de sua orelha e isso a obrigou a quebrar o contato visual com Harry para poder encarar o namorado. O moreno sabia de sua amizade fraternal – para o completo desprazer de Dallas em relação ao fraterno – com Harry e isso o levava a agir de um modo muito estranho perto do Menino-Que-Sobreviveu, como se quisesse mostrar algo a ele, irritá-lo. O que, na maioria das vezes, funcionava com perfeição.

-Não ligue para o Harry, ele é um pouco possessivo em relação a mim. Sentimentos de irmão mais velho. – disse com um suave tom de desdém ao entoar a última parte.

-Será? – Davon retrucou com um brilho malicioso no olhar e Dallas ergueu a sobrancelha em confusão até que viu o brilho ser acompanhado por um sorriso de igual classificação.

-Por que está sorrindo assim? – perguntou desconfia e o jovem sorriu mais ainda. Às vezes Dallas poderia ser tão ingênua, mesmo depois de cinco anos na Sonserina, ainda sim poderia ser ingênua em certos aspectos. Pois, se o Potter era cego em relação a certos sentimentos, Dallas era míope quando o assunto era o modo de agir do seu tão estimado amigo.

-Será que eu posso? – uma terceira voz penetrou o pequeno mundo deles dois dentro daquela pista de dança e Dallas olhou para o lado, vendo Harry parado ali os encarando. O mesmo olhar intenso de antes estava no rosto do auror e Davon apenas sorriu debochado, entregando a mão da garota ao homem mais velho, mas não sem antes de dar um longo e profundo beijo na jovem. Os olhos de Harry escureceram por um momento, mas assim como essa mudança veio ela foi-se rapidamente. Realmente não gostava daquele garoto e nem sabia bem o que ele estava fazendo na Resistência, pois ele não passava de um riquinho mimado, provindo de uma família de sangue puro que não tinha escolhido nenhum dos lados nessa guerra. Poderia se dizer que era uma família neutra diante dessa confusão, mas não menos suspeita. Tinha que manter o olho nele, pensou Harry, pois se sabe lá Deus o porquê de ele ter se aproximado de Dallas.

-Harry? – a voz da garota o trouxe de volta ao mundo terreno e ele piscou, não se dando conta de que ficou um longo tempo a encarando com ambos parados no meio do salão.

-O quê?

-Diga-me você. Pensei que tinha me tirado para dançar. – o moreno piscou mais ainda e olhou a sua volta, vendo que todos se mexiam de acordo com a música lenta que tocava.

-Ah sim! – prontamente a envolveu pela cintura e a trouxe para mais perto do seu corpo, percebendo que ela parecia estar mais alta que da última vez que a teve tão perto de si. Olhou rapidamente para os pés da garota e viu que eles calçavam o salto que ela usava no dia que comprou o vestido, mas mesmo assim essa pequena mudança não fazia muita diferença, já que o auror continuava maior do que ela. Porém, era mais uma clara indicação de que estava crescendo, de que a menina era passado e que estava dando lugar a uma mulher, coisa que ele pôde sentir quando os seus dedos deslizaram pelas curvas da cintura dela, que eram abraçadas pelo vestido justo, e fecharam-se sobre a pele macia. Ergueu o rosto para evitar olhar para as partes que a roupa deixava o corpo da garota a mostra e fechou os olhos fortemente por um breve momento para poder se livrar de certos pensamentos inapropriados. Realmente não gostava daquele vestido, ele era muito revelador e deixava pouco para a imaginação. Sem contar que Harry reparou que não foi apenas único no salão que tinha atentado para o fato de que Dallas havia crescido, e não gostou nada dos olhares masculinos que ela estava atraindo.

-Algo errado? – a jovem perguntou com um sussurro que, estranhamente, enviou calafrios por sua espinha quando o hálito quente dela tocou a sua pele. Ao ouvi-la, ele terminou uma disputa muda de olhares com os outros homens e virou-se, mirando seus orbes verdes nos violetas, o fazendo prender rapidamente a respiração. Nunca os tinha visto com uma cor tão brilhante como eles estavam essa noite, era impressionante, era como estivessem mergulhados em magia… e eram lindos.

-Não. – Dallas franziu um pouco o cenho diante da resposta seca, mas nada disse. Claro que havia algo de errado somente por causa do olhar sério que ele lançou através do salão há poucos segundos atrás. –Vejo que apreciou o meu presente. – o moreno mudou de assunto quando os seus olhos quebraram o contato com os dela e miraram o pescoço alvo da sonserina. Dallas deu um sorriso e tocou o cordão preso em seu pescoço.

-É lindo, obrigada. – retrucou, dando um beijo estalado na bochecha do ex-grifinório e depois se afastando vagarosamente.

Harry sentiu um calor subir das pontas dos seus pés até as suas orelhas diante desse gesto tão simples e ingênuo e prendeu a respiração quando a garota se afastou, o encarando com grande intensidade dentro dos seus olhos. Parecia que eles queriam ler a sua alma e estavam quase o hipnotizando e o atraindo para eles como um marujo sendo atraído por uma sereia para um fim trágico nos rochedos. Tão fascinado estava que nem percebeu quando os seus rostos começaram a se aproximar por instinto. Algo no fundo da mente de Harry dizia que não era para ele fazer isso, que era errado, que estava abusando de uma menina inocente e que estava brincando com os sentimentos dela, mas o auror afogou essa voz quando viu os lábios vermelhos tão perto dos seus e um cheiro gostoso de morango penetrou os seus sentidos. Era como se fossem dois pólos se atraindo e não havia força suficiente que pudesse afastá-los agora. Seus lábios formigavam, sua mente estava enevoada e quando viu que estava próximo de saciar aquela pequena luxúria, seu interior começou a festejar. Tão perdido estava que não foi surpresa quando um enorme estrondo não fez apenas eles, mas muitos outros no salão, pularem de susto diante do barulho.

Harry afastou-se aos tropeços da jovem, seus olhos se alargando diante da surpresa que o seu cérebro estava registrando. O que ele pensava que estava fazendo? Ele realmente iria beijar a garota? Estava enlouquecendo, com certeza, recebeu muitos feitiços na cabeça para poder considerar fazer isso. Seus olhos vagaram pelo salão enquanto o seu coração batia tão forte que queria sair pela boca, e os orbes verdes caíram na figura de Katie Bell que entrava afobada e ia a passos rápidos na direção dos professores Dumbledore e McGonagall. A jovem cochichou algo para o diretor, que rapidamente lançou um olhar significativo a Harry que respondeu com um aceno de cabeça.

-Tenho que ir. – murmurou num ofego para Dallas e ela assentiu, ainda tão aturdida quanto ele. Sem mais demoras o auror saiu às pressas do salão acompanhando os outros. Quanto às portas de entrada se fecharam à música voltou a tocar e a festa continuou normalmente mesmo depois dessa pequena interrupção. Porém, para a jovem sonserina ainda parada no meio da pista de dança, depois do que aconteceu – ou quase aconteceu – entre Harry e ela, a noite a partir daí ficou longe de ser normal.