CAPÍTULO 19

PRIMEIRA E ÚLTIMA VEZ

A goles atravessou o aro causando o estouro na torcida verde e um muxoxo da torcida amarela, azul e vermelha. Contudo, isso não diminuiu a animação dos jogadores que tinham mais da metade da escola torcendo contra eles. Novamente a bola atravessou o aro, causando mais uma explosão da torcida Sonserina e aumentando a emoção do jogo até que o apanhador da casa das serpentes finalmente avistou o pomo e encerrou a partida. A onda verde desceu ao campo e começou a parabenizar os seus jogadores, os carregando nos ombros e fazendo uma festa a caminho do castelo, pois finalmente, depois de anos desde a chegada de Harry Potter a Hogwarts, a Sonserina tinha ganhado um campeonato de Quadribol.

Dallas abriu caminho por entre a multidão formada pelos seus companheiros de casa e mais do que depressa se aproximou do pequeno grupo de corvinais que voltavam para o castelo.

- Bem, o importante é competir. – Tracey suspirou exasperada, enlaçando a sua mão na de Patrick. Desde o Baile de Halloween os dois começaram a se aproximar e finalmente no Baile de Natal eles se declararam um ao outro e desde então estavam juntos.

- E ganhar! – Dallas acrescentou com um sorriso maroto quando se integrou ao grupo, chamando a atenção de todos para si. Ela os destoava completamente com a sua gravata verde e prata e brasão sonserino nas vestes negras, não combinando em nada com o azulado e o branco da Corvinal. Poderia ser considerada um pássaro fora do ninho se já não ocupasse esta posição dentro da própria casa.

- Ah, tinha que vir aqui para jogar isso na nossa cara não é mesmo cobrinha ardilosa? Enfiar o dedo profundamente na ferida e esfregar a humilhação da derrota em nós. Certo srta. Winford? - Patrick completou com um tom sarcástico, dando uma careta infantil e foi retribuída quando Dallas torceu o rosto em uma expressão bizarra. – Deus, eu criei um monstro. – resmungou enquanto subiam as escadas do castelo.

- Não enche. – defendeu-se a garota, dando um tapa estalado no braço do amigo. – Há anos a Grifinória e a Corvinal estão compartilhando o hall da fama no campeonato de Quadribol, acho que estava mais do que na hora disso mudar. – cruzou os braços sobre o peito, o estufando em uma pose orgulhosa. Era um pássaro fora do ninho em sua própria casa, mas muitos concordavam, principalmente Patrick, de que ela estava começando a aprender o caminho de volta ao lar.

- E desde quando Quadribol é algo que te agrada? – perguntou o moreno com um brilho malicioso nos olhos que dizia claramente que não era propriamente o jogo que era de interesse da garota, mas sim os jogadores. Era uma Maria Lustra-Pomo, como o bruxo costumava brincar, o fazendo sempre receber como resposta vários tapas da menina.

- Namoro um jogador de Quadribol, então… – respondeu dando de ombros, Patrie precisaria de muito mais do que isso se esperasse que Dallas realmente fosse ceder nessa brincadeira deles de troca de acusações e frases de duplo sentido.

- Ah, mas aí não é o jogo que te agrada e sim o jogador. – Tracey brincou e Dallas rolou os olhos.

- Quem pode me culpar se eu tenho uma queda por homens altos, fortes e com pouca produção cerebral? – respondeu em um tom exasperado ao descrever o que seria o estereotipo dos populares jogadores de Quadribol de times de escola. Patrick abriu a boca para soltar um comentário, com certeza em relação ao Potter e o fato de que ele também foi um jogador popular, mas um olhar da menina o fez se calar em derrota. Quando chegaram as escadas moventes cada um tomou o seu caminho e Dallas rapidamente desceu os degraus indo em direção as masmorras, isto até que se deparou com a figura do professor de Poções.

- Srta.Winford. – os olhos negros pareceram perfurar a garota enquanto o homem cruzava os braços como um morcego fechando as asas em torno de si.

- Professor. – respondeu a jovem em um tom firme. Admirava Snape, mas às vezes, como todos os outros alunos, o homem lhe dava medo.

- Venha comigo senhorita. – a garota o acompanhou para as masmorras e lá chegando viu que em cima das mesas da sala de aula havia caldeirões borbulhando e soltando fumaças de várias cores diferentes, ingredientes e mais outras coisas para o preparo de poções.

- Professor, por que disso tudo? – perguntou ao aproximar-se de um caldeirão sobre o fogo crepitando, espantando a fumaça com um gesto de mão para poder observar melhor a solução cremosa e de uma cor verde musgo que estava dentro dele.

- A Ordem conseguiu descobrir uma fortaleza das trevas dentro de uma floresta ao leste da Escócia, é um ponto estratégico e um grande esconderijo. Pretendemos tomá-lo e para isso precisaremos fazer poções para os nossos agentes. Considere isso como parte do treinamento da Resistência. – respondeu o homem, pegando alguns livros em seu acervo pessoal e os abrindo sobre a mesa em frente a jovem.

- Okay. Por acaso isso vai me dar créditos extras para os NOM's? – brincou um pouco e como resposta recebeu um olhar de Snape que parecia perguntar 'você estava planejando fazer uma piada? Porque não funcionou'.

- Se fizer um bom trabalho quem sabe eu pense no seu caso. – disse em seu tom usualmente baixo e arrastado, sabendo que no fundo Dallas jamais precisaria de créditos extras em poções devido ao talento nato que possuía na área. E, é claro, que ele jamais confessaria tal coisa para a menina, mesmo que ela fosse uma integrante de sua casa.

- Sim senhor. – finalizou, apoiando-se sobre a mesa para poder observar melhor os livros que estavam abertos na sua frente.

- Precisamos de poções atordoantes, curativas, revigorantes, soníferos e derivados. Comece a recolher os ingredientes e a fazer o que eu mandar. – Snape começou a listar os ingredientes e Dallas os foi recolhendo para o preparo das poções.

Duas horas depois com os dois trabalhando em completo silêncio sendo interrompido apenas pelo tilintar dos potes e instrumentos, os caldeirões ferviam a fogo alto sob dois pares de olhos atentos.

- E então, quando nós finalmente poderemos ajudar nessa guerra, ajudar fora das paredes de Hogwarts? – perguntou a jovem, quebrando o silêncio que estava nas masmorras.

- Como? – Snape ergueu os olhos de uma poção que acabava de colocar em um pequeno frasco e os mirou no rosto sério da menina.

- Sabe professor eu aprecio ajudar no preparo de poções, mas gostaria de fazer mais do que isso.

- Está me dizendo que gostaria de trabalhar em campo?

- Er… sim?

- Você ainda está em treinamento e não tem aprendizado o suficiente para trabalhar em campo, seria morta em um piscar de olhos. Não é assim que as coisas funcionam srta. Winford e até o todo maravilhoso Potter teve que esperar para entrar de cabeça nas batalhas. – pronunciou o nome Potter com um tom de desdém. – Hunf! E do jeito que ele é tratado como herói e depois de todas as regras que ele burlou durante seus anos escolares me admirou muito que ele foi levado a treinamento. Pensei que o imbecil era acima dessas coisas mundanas. – finalizou dando as costas para menina e guardando vários frascos dentro de um armário.

- O senhor não gosta mesmo do Harry. – Dallas falou em um tom que misturava divertimento e frustração. Depois de todas as farpas trocadas entre o Mestre de Poções e Harry nas reuniões da Ordem que ela participava, ainda não sabia por que se surpreendia com as tiradas do professor.

Snape encolheu levemente os ombros diante da observação da garota e fechou a porta do armário com um leve estalo, lançando alguns feitiços contra intrusos sobre o móvel, antes de virar-se para poder encará-la novamente.

- E eu não sei por que você gosta dele. - retrucou Severo, lançando a garota um olhar significativo e a fazendo corar levemente diante das implicações das palavras do homem. Ele era observador demais para gosto dela, com certeza característica que ganhou com os anos de espionagem.

- Não me diga que está tão na cara assim? – fez uma careta de desagrado, achando que já que Potter nunca tinha notado seus sentimentos por ele, as outras pessoas também não tinham percebido. Porém, este era Severo Snape, e nada passava despercebido a ele. Claro, além do fato de seu treinamento na Resistência ter criado um certo vínculo de amizade entre os dois, incluindo também o fato de que ser uma ótima aluna em Poções e pertencer a Sonserina também tinha ajudado nesta aproximação.

- Está brilhando em sua testa como néon. – respondeu o homem em um tom seco. Ainda não sabia o que o Potter tinha para atrair tanta atenção das garotas, fora, é óbvio, aquela cicatriz horrorosa que o tornava famoso. – Todos vêem.

- Mas quem deveria ver é tão cego quanto um morcego. – respondeu Dallas um pouco cabisbaixa e Snape balançou a cabeça de um lado para o outro em resignação.

- É uma aluna brilhante srta. Winford, em alguns quesitos você é brilhante…

- Em apenas um quesito professor. – interrompeu a garota. – Eu só sou boa aluna em poções, porque no restante. – fez uma careta de desagrado ao lembrar-se de suas notas em algumas matérias como Defesa Contra as Artes das Trevas e Transfiguração. Um sorriso torto surgiu na face de Snape.

- Por isso mesmo. Como alguém que consegue compreender tão belamente a arte das poções pode vir a sentir algo por aquele cabeça de cicatriz do Potter? – seu tom realmente deixava claro que ele queria entender esta impossibilidade. Com certeza na mente de Snape uma pessoa com talentos como Dallas jamais teria algo em comum com um Potter. A menina sacudiu a cabeça em uma negativa e riu um pouco. Poderia ter ficado ofendida com o comentário do professor, mas o tom que ele usava em relação a ela parecia mais um tom paternal, o que poderia surpreender e assustar alguns. E, ao contrário de muitos alunos, ela gostava de ficar na presença de Snape. Sem contar que este era o que mais a encorajava, a sua maneira é claro, lhe dizendo que ela era uma grande bruxa e por isso estava merecidamente colocada na Sonserina.

- Nem sempre a inteligência atinge o coração. – rebateu para novamente ficarem minutos em silêncio.

- Parece que está pronta. – Severo quebrou a quietude da sala. – Um bom trabalho srta. Winford, acho que daqui para frente eu posso resolver sozinho. Está dispensada. – terminou com um aceno de mão, não desgrudando os olhos do caldeirão fumegante.

- Okay. Até amanhã então professor. – despediu-se e saiu da sala, fechando a porta silenciosamente atrás de si, tomando o caminho para a sala comunal de sua casa. Porém, novamente foi interrompida durante o percurso quando cruzou com uma figura familiar no corredor, ainda vestida com os trajes verde e prata do uniforme de Quadribol da Sonserina.

- Onde você se enfiou? – Davon perguntou ao aproximar-se dela e a segurando pelo braço a trazendo para dentro de uma sala vazia, uma antiga sala de troféus visto que havia algumas taças velhas, empoeiradas e rachadas atulhadas a um canto do lugar.

- Eu estava com o professor Snape preparando algumas poções. Por quê? – Dallas soltou seu braço das mãos de Davon e o cruzou sobre o peito.

- Oras, como por quê? Nossa casa vence o campeonato e é justo eu querer comemorar a vitória com a minha namorada! – o jovem sorriu marotamente e Dallas sorriu de volta permitindo ser enlaçada pela cintura e puxada para junto do corpo dele, retribuindo o beijo que ele lhe deu.

- Se quiser comemorar vamos para a sala comunal, pois com certeza os nossos colegas estão fazendo uma festa. – retrucou a garota enquanto sentia os lábios dele escorregarem para a sua nuca e uma de suas mãos soltar os primeiros botões de sua camisa branca do uniforme e revelar um pedaço de seu ombro, depositando um beijo lá. - O que você está fazendo? – perguntou, sentindo um arrepio de prazer e insegurança atravessar o seu corpo quando percebeu que as carícias do rapaz estavam ficando mais ousadas. Davon parou de beijá-la e a encarou fixamente.

- Eu estou… - hesitou um pouco. – tentando levar comigo uma lembrança boa de Hogwarts. - falou com seriedade.

- O quê? – Dallas arqueou as sobrancelhas, desvencilhando-se dos braços do namorado e afastando-se um pouco dele para poder olhá-lo melhor.

- Estou me formando Dallas e o meu treinamento na Resistência está chegando ao fim, logo entrarei no campo de batalha e ele é bem diferente dos feitiços que lançamos dentro da sala de treinamentos. Sei que perderei a minha alma nessa guerra como muitos já perderam e ao menos quero ter uma lembrança boa para me manter em pé. Algo que me incite a continuar. – terminou num fiapo de voz.

- E eu serei a sua lembrança boa?

- Sim. – respondeu num sussurro e um tremor percorreu o corpo de Dallas. O que ela via nos olhos de Davon ao mesmo tempo em que a deixava lisonjeada e deixava assustada. Será que estava pronta para se entregar dessa maneira no seu relacionamento com o rapaz. Certo que eram namorados, mas, de uma certa maneira, Dallas sempre impediu-se de aproximar-se demais. O amor que nutria por Harry a impedia, inconscientemente, de entregar-se completamente e agora cá estava Davon, pedindo que ao menos por um momento ela fingisse que realmente gostava dele acima de tudo.

- Está querendo me dizer Davon que… que você está apaixonado por mim? - o rapaz corou um pouco e deu um raro sorriso doce a ela.

- Não pude evitar, quando começamos o nosso relacionamento para mim era apenas diversão, mas que homem consegue passar um tempo com você sem se apaixonar? – perguntou divertido e Dallas fechou os olhos por um breve momento, não querendo ver a expressão perdida no rosto do sonserino. Bem, ela conhecia um homem que lhe era próximo e não era apaixonado por ela. Harry conseguia passar anos com ela sem sentir nada além de um carinho irritantemente fraternal, ou ao menos era isso que ela achava, porque depois do Baile de Halloween as coisas tornaram-se um pouco confusas e os dois ainda nem tiveram tempo de discutir o ocorrido… Ou o que quase ocorreu. Talvez fosse algo para não ser discutido, mas sim esquecido.

- Davon eu gosto de você, realmente gosto. Confesso que no começo te detestava, você era tão arrogante e autoconfiante. Bem, você ainda é arrogante e autoconfiante, mas depois de todo esse tempo que passamos juntos sem eu querer te matar eu aprendi a te ver com outros olhos, a gostas realmente de você. Mas…

- Você não me ama da maneira que eu te amo. – Dallas mordeu o lábio inferior sem saber como reagir. Por fora Davon aparentava não se importar muito com essa declaração, mas ela tinha a sensação de que por dentro o rapaz não se sentia tão seguro quanto aparentava. - Não se preocupe, não vou me descabelar por causa disso ou ter uma crise ou coisa parecida. Ainda sou um sonserino e tenho o meu orgulho, mas ao menos esta noite você poderia fingir que me ama? Sei que pode soar estranho, nunca fui de te pedir nada, mas desta vez eu estou pedindo… finja que me ama.

-Davon… fingir te amar não vai mudar o fato de que amanhã esse sentimento não vai existir. É isso mesmo que você quer? Uma noite de mentiras? – soltou um longo suspiro, abraçando o próprio corpo como se para se proteger de um frio que não existia naquela sala.

- Olha… – o jovem começou a se afastar em direção a porta. – Tem razão, é uma proposta maluca mesmo! - deu um sorriso sem graça a ela. – Somente eu para propor uma coisa dessas mesmo. Não precisa fazer isso, não vou te forçar a nada, nós podemos sentar aqui e conversar apenas. O que acha?

- Davon. – Winford deu um passo a frente antes que ele pudesse fugir e depositou um dedo suavemente sobre os lábios do rapaz. Que fosse para o espaço a moral e o bom senso que a sua avó a ensinou por anos, que fosse para o espaço a sua razão que lhe dizia que seria um grande erro fazer isso. Esta noite ela não agiria racionalmente. Afinal, ela também queria, queria saber o que era ser amada de verdade, amada por um homem, pois sabia que jamais teria isso de Harry. E, além do mais, gostava muito de Davon, se sentia atraída por ele, não estava apaixonada é claro, mas isso não queria dizer que eles não poderiam tentar pela primeira e última vez. Isso não a impedia de ser um pouco feliz e dar, por tabela, um pouco de felicidade ao rapaz a sua frente.

- Cala a boca! – murmurou, o interrompendo antes que ele desembestasse a falar, dando um rápido beijo no canto da boca dele. – Eu não lembro de ter dito não.

- Vai aceitar a minha proposta maluca? – o jovem alargou os olhos, incrédulo. Dallas sempre tinha sido muito certinha e ele confessava que durante o seu discurso ele mesmo tinha achado a idéia ridícula, que a garota jamais iria aceitá-la.

- Considere isso um gesto particularmente não sonserino, já que você mesmo sempre disse que eu era recatada demais para estar nesta casa, não é mesmo? - ambos sorriram e se abraçaram, logo desfrutando de um longo beijo passional. Minutos depois a única coisa que fazia companhia aos troféus velhos naquela sala eram peças de roupas largadas, dois adolescentes afogados em sensações e gemidos e uma noite que nunca sairia de suas lembranças.

Quando acordou no dia seguinte envolta em capa da escola dentro de uma sala vazia, a única coisa Dallas achou como vestígio da presença de naquele lugar Davon, e prova de que a noite anterior realmente aconteceu, foi um pequeno bilhete e uma rosa.

Espero que tenha sorte com aquele que ama. Obrigado por tudo.

Davon.


O barulho de aparatações quase poderia ser ouvido a quilômetros de distância pelo fato de aquele lugar ser silencioso demais. Os corpos moveram-se nas sombras que a folhagem do pequeno bosque proporcionava, escondendo-se entre arbustos e atrás de árvores.

Dino abaixou-se atrás de um arbusto e olhou para a mansão de pedra ao longe. Parecia um pequeno castelo que se erguia solitário sobre a colina. Ao seu lado estavam Draco, Harry e Rony, com os dois últimos olhando com repreensão os dois primeiros, pois estes mal haviam se recuperado do seqüestro e estavam em missão novamente, arriscando seus pescoços mais uma vez. Não precisa dizer que Gina teve uma crise quando soube que o marido iria caçar Comensais novamente na companhia do louco do seu irmão e desequilibrado do Harry, não querendo nem considerar o fato de que eles dois também estavam se arriscando. Mas, diferente de Draco e Dino, a sua saúde estava em melhores condições do que a deles. Rony ainda sentia o ouvido zunir por causa dos longos sermões que recebeu da irmã o ameaçando a ficar de olho em seu marido.

Por ele, Malfoy poderia se explodir que ele não estava nem aí. Ou ao menos este era uma coisa que ele costumava pensar a alguns anos atrás. Mesmo que não admitissem em público, e muito menos um ao outro, os dois se tornaram tão amigos quanto Draco e Harry, mas certos costumes como brigas por coisas fúteis, troca de ofensas e feitiços não poderiam ser deixados para trás. Era uma tradição chamar Ron de doninha e ser chamado em troca de furão.

Sirius juntou-se ao grupo - agora que era um homem livre poderia trabalhar melhor para a Ordem – e olhou os jovens ao seu lado. Era estranho, pois Harry e os outros eram muitos jovens para estarem no meio dessa confusão, mas, ao mesmo tempo, maduros o suficientes para estarem ali, como ele e seus amigos foram quando entraram para a Resistência na primeira aparição de Voldemort. Por mais que Harry alegasse que era diferente de seu pai, em muitos aspectos eram extremamente parecidos. Tiago não hesitou em entrar de cabeça na guerra quando teve a oportunidade e Harry parecia também bem determinado em acabar com toda essa história. Sirius não o culpava, com todo este derramamento de sangue esta história também o estava cansando.

- Escute o que vamos fazer. – o animago virou-se para o pequeno grupo que ele lideraria na invasão. O outro grupo, o que faria o ataque frontal, seria guiado por Olívio Wood. - Não quero nenhum ato de heroísmo. O que eu quero é que entrem e derrubem os Comensais. Capturem, atordoem, tomem o lugar e saíam de lá vivos.

- Oras, mas assim você tira toda a diversão da coisa. - Draco murmurou em desdém, seus olhos claros ganhando tons cinza chumbo.

- Do que você está falando Malfoy? - Sirius rebateu, fazendo-se de desentendido e estreitando os olhos para ele.

- Não podemos matar nenhum Comensal? – respondeu o loiro com um sorriso maldoso em seu rosto e os olhos brilhando maliciosos como dois faróis de neblina.

- Não somos assassinos. – o auror mais velho estufou o peito e olhou arrogante para o rapaz, sabendo de onde estava vindo toda esta raiva.

- Mas eles são e tem que pagar por isso. Comensais lutam até a morte Black e eu soube que Crabbe está lá dentro. – o loiro cuspiu o nome como se fosse alguma bebida amarga e rangeu os dentes de raiva. Há pouco tempo havia descoberto que Vincent Crabbe fora o responsável pela morte de Blaise e ele estava doido atrás de vingança. Não deixaria aquele desperdício de gente achar que poderia eliminar um amigo de um Malfoy e sair impune disso. O julgamento do Ministério seria pouco para o que Draco tinha planejado para aquele idiota e quando terminasse, Crabbe estaria implorando por um beijo de Dementador.

- Mortes apenas se for necessário e inevitável. Nem todos que estão lá estão fazendo isso por livre e espontânea vontade. - Sirius disse, lembrando que muitos Comensais capturados estavam sob o Império e Draco soltou uma risada de escárnio. Como é que o Ministério ainda caía nessa palhaçada de "não era eu, era o Império que Você-Sabe-Quem usou em mim". Por Merlin, seu próprio pai tinha usado esta desculpa fajuta no passado para escapar da punição do governo. No entanto, por outro lado, realmente em um ponto Black tinha razão. Havia muitos Comensais que eles capturaram que realmente estavam sob a maldição, coisa que eles atestaram depois de longos e cansativos todos. Parecia que Voldemort não estava conseguindo tantos aliados espontâneos como antigamente.

- Tudo bem, mas não garanto nada quando o pegar. – Draco respondeu e Sirius não pôde culpá-lo, na verdade o compreendia muito bem. Quantas vezes quis esganar Pettigrew por sua traição? Quantas vezes já tentou matá-lo por simples vingança? - Rony, Dino e Malfoy vocês serão a força um e cobrirão a retaguarda. Harry e eu atacaremos de frente. – instruiu e todos assentiram com um leve balançar de cabeça antes de um sinal de alerta ser dado pelo outro grupo do outro lado do bosque, indicando que era hora de menos conversa e mais ação. Com um último olhar para os seus companheiros os bruxos saíram dos seus esconderijos e atacaram a mansão.


Em um pulo a jovem sentou-se na cama ofegante e com o coração disparado. Suor escorria pelo seu rosto e uma sensação sufocante inundava o seu ser. Havia alguma coisa de errado. Acontecera alguma coisa e isso era relacionado ao sonho estranho que teve. Parecia até que era um aviso, um chamado. Alguém estava lhe chamando. Mas quem? Com um murmúrio um nome foi pronunciado pelos seus lábios e chutando as cobertas para fora da cama, ela levantou-se e saiu de seu dormitório.

Abriu lentamente a passagem guardada pela estátua e espiou ao longo do corredor das masmorras. Era madrugada e no máximo o que deveria haver eram alguns fantasmas rondando pelo castelo. Filch provavelmente já estava na cama, assim como os outros professores então talvez realmente fosse seguro sair para uma caminhada já que o pesadelo havia tirado todo o seu sono.

Alcançou o corredor e começou a subir as escadas levemente, com medo de que qualquer barulho provocado pelos seus pés contra a madeira rangente dos degraus acordasse os quadros que dormia nas paredes. A ponta de sua varinha emitia uma luz fraca, iluminando o seu caminho enquanto saía da área das masmorras. A idéia inicial era dar uma volta pelo castelo, talvez uma passada pelos jardins, mesmo que a noite estivesse fria. Porém, algo lhe dizia para não seguir este percurso, mas sim outro. Continuou caminhando, seus passos leves mal ecoando pelas paredes antigas, quando chegou ao destino o qual seus instintos lhe haviam guiado: a enfermaria. Por que ela estava ali não saberia dizer, mas sentia que deveria entrar lá.

Novamente silenciosa como um gato a jovem abriu a porta da grande enfermaria, entrando no local vagarosamente e fechando a porta levemente atrás de si. Um ou dois alunos estavam adormecidos na cama, novatos que com certeza foram atendidos por Madame Pomfrey depois de terem feito alguma besteira nas aulas. Porém não eram aqueles alunos que a chamavam, porque agora ela tinha certeza de que alguém a chamava. Continuou andando pelo local até que chegou ao fundo do grande salão onde havia um enorme quadro adormecido na parede. Um quadro do que parecia ser um médico, visto que usava uma longa bata branca com o osso e a varinha cruzados sobre o bolso do peito, o símbolo do St. Mungus.

Parou em frente a ele e o observou intensamente, até que ele lhe devolveu o olhar a dando um pequeno susto. Estava acordado e às vezes ela se esquecia que os quadros tinham vida naquele lugar, e talvez essa fosse a melhor parte da escola. Ela adorava conversar com os quadros, eles sempre tinham grandes histórias para contar sobre gerações passadas de alunos.

-Q uer alguma coisa minha filha? – a pintura perguntou e Dallas piscou para espantar o sono e tentar pensar em uma resposta. O que ela realmente queria? Nem sabia direito por que estava ali.

-Eu… eu… - mordeu o lábio inferior, não sabendo o que dizer. Tinha deixado o seu sexto sentido levá-la até ali, mas agora que estava ali, o que iria fazer?

- Veio visitar alguém? – perguntou novamente.

- Sim. - respondeu sem nem ao menos saber o que estava dizendo. Ela não conhecia ninguém que estivesse na ala hospitalar neste exato momento.

O quadro sorriu, parecendo captar o seu dilema, e mexeu-se, dando cedendo passagem. Dallas entrou pelo buraco revelado na parede e o quadro fechou-se assim que ela passou. Olhou ao seu redor e surpreendeu-se, o lugar era exatamente como a sala que tinha do outro lado do quadro, mas um pouco menor. Parecia ser uma segunda enfermaria, uma enfermaria secreta que possuía uma estrutura que com certeza comportava muito menos gente do que a enfermaria da escola. Havia uns três ou quatro corpos deitados nas camas, mas claramente não eram de alunos, adolescentes, mas sim de adultos. Andou por entre as camas e olhou a expressões serenas nos rostos dos pacientes, embora pudesse perceber que isso era apenas fachada, que para estarem ali escondidos com certeza eles deveriam estar com grandes ferimentos ou muito doentes. E foi olhando para os pertences que estavam perto de um dos pacientes que ela percebeu que eles eram agentes da Resistência. Continuou andando por entre as camas até que parou na última e olhou com espanto para quem estava lá.

Sobre os lençóis claros estava Harry, com o torso nu e enfaixado com várias ataduras. Havia escoriações pelos seus braços e rosto e arranhões aqui e acolá, mas, mesmo assim, ele parecia não sentir dor, pois o seu rosto também estava sereno. Parecia que pelo estado que o rapaz se encontrava dava a entender que a última missão da Ordem não foi muito vitoriosa. Aproximou-se mais da cama e sentou-se na beirada dela e num ato de coragem – que surgiu por ele estar inconsciente – deitou-se ao seu lado, aconchegando-se lentamente contra o seu corpo para não feri-lo mais ainda. Ficou por um longo tempo observando seu rosto adormecido até que ela mesma caiu no sono.

Quando os primeiros raios de sol começaram a quebrar a negridão da noite Harry abriu os olhos lentamente, piscando várias vezes para se acostumar à claridade. Remexeu-se um pouco, mas o seu corpo protestou com a dor e por isso resolveu ficar quieto e foi quando percebeu que havia algo, melhor, alguém ao seu lado. Um calor bom era passado para o seu corpo assim como uma sensação de conforto. Abaixou os olhos e ofegou brevemente quando viu quem era a sua companhia. Dallas estava deitada ao seu lado e o abraçava levemente pela cintura, a cama estreita apenas obrigava seus corpos a ficarem mais próximos do que jamais Harry permitiria e o moreno gemeu suavemente diante da sensação boa que a presença dela estava causando, do corpo pequeno contra o seu e da pele quente de encontro a sua. Uma sensação boa demais para o seu gosto. Porém não ficou muito tempo se repreendendo por isso ou por esses novos sentimentos que giravam como um turbilhão dentro de si, pois novamente permitiu que a inconsciência o dominasse deixando qualquer pensamento proibido para trás.