Capítulo 20

CEGO PERDIDO NO MEIO DE PENSAMENTOS

Quando Harry abriu os olhos novamente o calor não estava mais lá e somente restara uma sensação de vazio e uma mão morna sobre a sua. Virou o rosto esperando em um momento louco encontrar um par de olhos violetas, mas não foi isso que ele viu e não soube o porquê de ter ficado desapontado com a situação. Na verdade, o que viu foram os olhos brilhantes de Lilá que o miravam com ternura e preocupação. Sorriu um pouco para ela mesmo que não se sentisse com espírito para sorrir.

- Você nos deu um grande susto Sr. Potter. - a morena falou em um tom que o lembrou muito quando McGonagall os repreendia na época em que eram estudantes e isso fez Harry rir mais um pouco, embora tal ato ocasionasse dores incomodas em suas costelas. - Opa! Devagar rapazinho. - advertiu Lilá quando o viu tossir um pouco ao tentar se sentar.

- O que aconteceu? - murmurou com a garganta arranhando e presumiu que deveria ter ficado desacordado por um bom tempo, pois ela estava mais do que seca. - Conseguimos tomar o forte de Voldemort? - Lilá tremeu um pouco diante do nome enquanto lhe entregava um copo d'água.

- Conseguiram e quase morreram por causa disso. Não foi uma batalha fácil mas ao menos conseguimos vencer mais essa diante de tantas perdidas. – falou em um tom levemente animado enquanto encostava a borda do copo gelado contra os lábios secos do rapaz.

- Ainda bem. – sussurrou fracamente, afastando-se da bebida oferecida e fechando os olhos logo em seguida.

- Algo errado Harry? - perguntou a ex-grifinória quando percebeu que ele parecia tenso desde que acordara e a avistara ao seu lado. Havia notado isso desde o momento em que ele lhe lançou um certo olhar desapontado quando a viu. Sem contar que ele estava um pouco alheio à conversa o que era fora do habitual, pois normalmente Harry faria inúmeras perguntas sobre como foi o ataque e como foi é que ele acabou indo parar na enfermaria.

-Não, por quê? – disse em tom evasivo, desviando o olhar para uma das grandes janelas da enfermaria e vendo com desinteresse a brisa soprar e balançar as folhas de algumas das árvores mais altas da floresta da escola.

- Você me parece um pouco… preocupado. Pensativo eu diria. – falou a jovem suavemente, como se estivesse lidando com uma criança assustada enquanto tentava obter alguma resposta da mesma.

- Não é nada importante. Na verdade não é nada. - mentiu. Ainda não sabia direito se havia sido um sonho ou se realmente acontecera o que vira pela manhã na primeira vez que acordou. Ainda não sabia se era a Dallas que estava ao seu lado quando ele abriu os olhos ou apenas uma ilusão da sua mente perturbada por causa dos ferimentos, pois no momento tudo que ele poderia ter certeza era que havia gostado, e muito, de sentir o corpo dela perto do seu.

Sentir os braços magros o abraçando em torno de seu peito, transmitindo algum conforto e algo mais que ele não sabia descrever. Era estranho, todos esses pensamentos e sentimentos que de uns tempos para cá apossavam o seu corpo cada vez que via o rosto ainda saindo da infância lhe eram estranhos. Embora conseguisse reconhecer a sensação que a menina lhe forneceu ao dormir ao seu lado, ainda sim custava a admiti-la. Não queria jamais conceber que sua pele arrepiava-se ao toque dela e seus hormônios reagiam como se ele estivesse de volta a adolescência. Dallas ainda uma criança, uma criança que ele acolheu e aprendeu a amar como se fosse mais uma pessoa parte de sua família. E jamais iria aceitar sentir outra coisa além disso por ela.

- Harry? Harry? – Lilá tocou-lhe o ombro, o tirando de seus devaneios e o moreno piscou os olhos para a namorada.

- Hã, o quê? – disse confuso diante da expressão preocupada que ela ostentava.

- Novamente alheio. – o repreendeu suavemente.

- Desculpe. – com um suspiro resignado, Lilá sentou-se ao lado dele na cama e depositou novamente uma mão sobre a do ex-grifinório. E embora o gesto fosse confortante, ainda sim não chegava nem perto do que sentiu pela manhã.

- Harry, meu querido Harry, ou você está com muitas preocupações na cabeça ou… - hesitou um pouco, mordendo o lábio inferior em um gesto apreensivo.

- Ou o quê? – a incitou a continuar e a jovem deu um pequeno sorriso que logo morreu em seus lábios ao depositar uma mão sobre o peito enfaixado dele.

- Ou está com muitas preocupações aqui. - e indicou o coração que palpitava descompassado sob a palma da mão dela.

- Do que você está falando? – acusou em um tom temeroso, preocupado de que ela tivesse percebido que ultimamente uma certa jovem de olhos azul-violeta não saía de sua mente.

- Não sei, me diga você. O que está te afligindo Harry? O que você tem? Se eu não soubesse bem diria que o seu problema é uma mulher. - Harry engoliu em seco e arregalou momentaneamente os olhos. Lilá, que havia sorrido com a brincadeira, rapidamente ficou séria ao ver a reação dele. - É isso, não é? – disse com a voz trêmula.

Não era perdidamente apaixonada por Harry Potter, longe disso. Sentia atração por ele, carinho até, e confessava que tê-lo como namorado fazia bem as vistas alheias. Poderia dizer que gostava de exibi-lo um pouco, mas não o amava a ponto de sentir-se tão abalada com tal revelação. No entanto, saber que a pessoa com quem você estava tendo um relacionamento vivia em negação em relação aos seus sentimentos por outra mulher ainda sim era um pouco ofensivo, mas não o suficiente para causar um escândalo. Não era esse tipo de pessoa e não seria agora que começaria a ser.

- O quê?

- Uma mulher. Venho notando que há algum tempo você tem andado estranho. Acho que desde depois que o Malfoy foi seqüestrado. É isso? Você tinha esperanças que o Malfoy morresse? – perguntou incerta. Não era segredo algum que Draco e Harry nunca se entenderam, mas chegaram a um consenso em algum ponto do sexto anos deles em Hogwarts, e depois até que começaram uma amizade estranha e engraçada na visão dos outros. Isto até que o herdeiro dos Malfoys resolveu se apaixonar pela pessoa errada.

- O quê? Para que eu iria querer que o Draco morresse? – exclamou Harry ultrajado. Malfoy era um pé no saco na maioria das vezes, mas ainda sim era um pé no saco útil. Certo que eles mais brigavam do que se entendiam, mas ainda sim o humor ácido do loiro sempre ajudava Potter a aliviar um pouco a tensão quando enquanto a guerra ficava ainda mais sangrenta. - Sei que temos uma relação muito estranha, mas ele é meu amigo!

- Ah, com certeza, ele era o seu amigo até ele começar a namorar a Gina. – esclareceu em tom de descrença.

- Do que você está falando? – Harry estreitou os olhos em desagrado, não gostando nada do rumo que esta conversa estava tomando. O que sentira pela Gina no passado era uma página virada no livro de sua vida e não gostava de ficar relembrando este fato.

- Todo mundo sabe que você teve uma queda pela Gina. Todo mundo notou que você finalmente havia reparado nela depois de anos quando ela finalmente te esqueceu e resolveu ficar com o Malfoy. – Lilá explicou-se, esperando pacientemente a explosão que viria logo em seguida.

- Isso é ridículo! A Gina é como uma irmã para mim. – defendeu-se calorosamente. A morena poderia ter um pouco de razão, ele realmente ficou meio frustrado quando notou que Gina tinha deixado de gostar dele para se apaixonar pelo Malfoy quando ele finalmente a notara ser alguém além da irmã do melhor amigo. Porém, mais tarde e depois de vários copos de Whisky de Fogo para afogar as mágoas, ele percebeu que ele apenas estava decepcionado. Achou que sempre teria aquele amor que a ruiva nutria por ele e aquilo lhe dava uma erguida no ego.

Saber que alguém gostava de você da maneira que ela gostava era animador, ainda mais diante da devoção que ela empregava em agradar ou chamar a atenção de Harry. Contudo, nada disso era relacionado a um coração partido e ele tinha certeza disso. Não mentia quando dizia que Gina era apenas uma irmã para ele. Ao menos, agora, ela era apenas uma irmã.

- Se não é a Gina… - disse depois de olhar profundamente naqueles olhos vivamente verdes. - é quem então? – se a Weasley era passado para Harry no momento e ela poderia ver que apesar de todos os protestos ele dizia a verdade, então quem era a mulher que parecia estar fisgando o inalcançável Harry Potter?

- Ninguém. O que a faz pensar que o meu problema é uma mulher? O que a faz pensar que o meu problema é uma outra mulher? Eu estou com você, esqueceu? – defendeu-se ferozmente. Não queria que Lilá trouxesse a tona todas as dúvidas e incertezas que estava tendo no momento que finalmente tinha decidido enterra-las em um fundo obscuro da sua mente.

- Mas isso não o impede de vir sentir algo por outra. Eu não sou idiota Harry, está claro que o que está realmente te incomodando é uma mulher. Quanto mais você nega mais se denuncia. E está claro que essa mulher não sou eu. – Harry rangeu os dentes diante da persistência dela. Se soubesse que ter acordado depois de um ataque lhe daria uma dor de cabeça mais dolorosa que os seus ferimentos, teria continuado inconsciente. O que o incomodava no momento não era uma mulher, na verdade não passava de uma menina, mas não diria a Brown esse tipo de informação.

- Não seja imbecil. - rebateu, começando a demonstrar seu famoso temperamento curto. Ele não estava se interessando por ninguém e muito menos por Dallas Winford, e recusava-se a acreditar que estava atraído por ela. Lilá recuou um pouco diante da grosseria dele e lhe lançou um olhar magoado.

- Certo então. Não vou perder meu tempo tentando colocar algum senso dentro dessa sua cabeça dura. Parece que seja quem for essa mulher você está em completa negação em relação a ela. Quando você se acalmar e refletir um pouco me procure e me diga se eu tenho razão ou não. – Lilá levantou-se da cama bruscamente e deu-lhe um leve beijo na testa, saindo logo em seguida da ala hospitalar e deixando um Harry mais confuso ainda para trás. O que, afinal, ele sentia pela Dallas?


Quando finalmente conseguiu ser liberado por Madame Pomfrey, Hogwarts já estava em férias e os únicos alunos remanescentes foram aqueles que treinavam para a Resistência. Harry desceu as escadas moventes, entrando mais afundo no castelo e alcançando a área sombria das masmorras. Caminhou pelos corredores quase escurecidos e frios sem saber direito para onde ia e apenas deixando seus pés o levarem pelos caminhos mais que familiares. Ao chegar à área das salas de aulas olhou a sua volta um pouco desnorteado até que ouviu vozes, o que o incitou a segui-las.

- Por que eu não estou surpreso ao ver que você sabe tão complexa poção? - ouviu a voz tão familiar de Snape ribombar pelas paredes com um tom de contentamento. - Finalmente me mandaram ensinar alguém de talento e não as cabeças ocas usuais. - Harry poderia jurar que mesmo sem vê-lo o professor estava dando aquele seu usual sorriso medonho que intimidava todos os alunos de todos os anos da escola.

Logo depois de Severo ter dito tal frase, uma risada cristalina ecoou pelas masmorras frias e o moreno franziu o cenho. Snape tinha feito alguém rir com um comentário que estava longe de ser um elogio? Isto era um marco. E quem era a insana pessoa que conseguia ver graça no gélido Mestre de Poções?

- O mérito não é apenas meu Severo, eu apenas tive um excelente mestre. – Harry retesou os ombros ao reconhecer a voz e perguntou-se desde quando ela ria do que Snape dizia e o chamava de Severo de uma maneira tão íntima? Algo estranho pareceu borbulhar em seu peito ao atestar tamanha proximidade entre professor e aluna e mesmo que não pudesse vê-los, podia imaginar apenas ao ouvir as vozes dele a cena que se apresentava dentro daquela sala.

Era de conhecimento geral que Dallas havia tomado o lugar que era de Draco dentro das graças de Snape e entrado para o topo da lista de alunos favoritos do professor – uma lista que, convenhamos, era extremamente curta - mas quando foi que Snape se tornou Severo para ela? Isso não era burlar as regras de Hogwarts sobre a relação mestre e aprendiz? Indagou-se amargo.

- Modéstia sempre foi uma qualidade rara em alunos com tamanho brilhantismo. - aquilo na voz dele era um tom de orgulho? Snape estava sentindo orgulho de um aluno? Uma aluna nascida trouxa, mesmo que fosse da Sonserina, ainda sim trouxa? Isso realmente era de se surpreender. Por um breve momento sentiu-se tentado a olhar janela afora para ver se o mundo não estava acabando até que se lembrou que a área das masmorras não possuía janelas.

- Não sou tão brilhante assim, pois ainda não sei como consigo passar em DCAT. – suspirou resignada e Severo rolou os olhos.

- Não se pode ser bom em tudo, embora não entenda como você não consiga compreender certos aspectos dessa matéria e ao mesmo tempo ser tão boa em duelos e combater feitiços hostis. Contudo você me surpreendeu aos extremos para uma aluna… - o homem pausou por um momento e Dallas deu um meio sorriso a ele, arqueando uma sobrancelha.

- Sangue–ruim? - completou em um tom de pouco caso. Disse em um sussurro. Tinha certeza que o professor estava pensando nessa palavra neste momento para descrevê-la e mesmo que não fosse mais chamada assim por seus colegas de casa há um bom tempo, ela ainda captava os olhares acusadores de alguns agora que Davon havia se formado Dallas não era a inocente ao ponto de crer que o silêncio e aceitação dos outros era resultado de algum respeito que eles adquiriram por ela, mas sim o fato de que era fora a namorada de Yale e ninguém atrevia-se a contrariá-lo. Mas agora que ele fora embora, teria que re-aprender a se defender sozinha. E, além do mais, não poderia ficar se escondendo na sombra alheia para o resto da vida, não era uma atitude digna de uma sonserina.

-… nascida trouxa. - enfatizou com certa severidade embora tenha usado várias vezes essa palavra no passado. Admitir o que era apenas faria Winford retornar ao modo submisso que sempre fora desde que entrara na escola e o que ele menos precisava era de uma garota fraca na resistência. Decepcionar-se ao ver que o potencial que tinha enxergado nela não existia.

E ele tinha razão quando dizia que ela era uma jovem brilhante e que nem mesmo bruxos sangues puros chegavam ao nível que ela estava no momento. Parecia até que os nascidos trouxas tinham mais habilidades para serem vencedores ou talvez fosse pelo fato de serem nascidos trouxas que eles se empenhassem mais para assim provarem o seu valor. Gostaria que todos os seus alunos fossem assim, sem exceção. Claro que ele nunca diria isso a ninguém e morreria antes de admitir tal fato.

- Já disse isso uma vez a você Dallas, nunca deixe ninguém dizer que você nunca será boa o bastante. Atitudes assim causam vergonha a Sonserina. – e apontou para o emblema no uniforme dela e Dallas deu um meio sorriso.

- Professor, se alguém ouvir o senhor dizer isso vão achar que está amolecendo. - brincou e Snape deu um raro sorriso verdadeiro à aluna, mas que sumiu rapidamente quando viu quem estava na entrada da sala.

- Perdido Potter? - perguntou em um tom seco.

- Não senhor… só passando. - às vezes o Mestre de Poções fazia Harry se sentir como o aluno de primeiro ano em seu primeiro dia de aula naquelas masmorras.

- Irei buscar alguns ingredientes na minha sala. Vigie o caldeirão Winford. – ordenou e lançando um último olhar de desprezo ao jovem na porta sumiu por entre a mesma e Dallas teve certeza que ele fez isso de propósito: os deixou sozinhos intencionalmente. Começava a achar que o Snape estava tornando-se muito alcoviteiro.

- Er… então… - a garota disse sem jeito e rapidamente voltou os seus olhos para o caldeirão borbulhando. Ainda se lembrava claramente da noite em que ela teve a idéia maluca de dormir com Harry e sabia que se o olhasse nos olhos com certeza ficaria extremamente vermelha e isto levantaria as suspeitas do rapaz. Portanto era melhor nem arriscar. -… quando foi que você saiu da ala hospitalar? – finalmente conseguiu perguntar.

- Como você sabia que eu estava lá? - Dallas mordeu a língua diante da gafe. Ninguém sabia da sala secreta na ala hospitalar e isto incluía os membros em treinamento da Resistência. Lentamente ela apontou para a porta onde Snape havia desaparecido como se este gesto explicasse tudo.

- Ele me pediu auxílio há um tempo atrás para o preparo de algumas poções para uma batalha que ocorreria. Presumi que você estivesse envolvido e como faz tempos que eu não tenho notícia de você eu perguntei a ele e você… ah você sabe o que deve ter acontecido. – deu de ombros, lhe dando as costas e recolhendo alguns vidros no armário atrás de si.

- Certo. - então as poções que ele usou para combater os Comensais eram dela? - Obrigado. – completou um tempo depois.

- Pelo quê? – Dallas virou-se abruptamente e mirou diretamente nos olhos vivamente verdes do rapaz, o que a fez corar e abaixar a cabeça em um estalo.

- Suas poções salvaram a minha vida durante a batalha. – explicou, aproximando-se hesitante de onde ela estava, ficando a apenas poucos centímetros de distância e com apenas o caldeirão fumegante os separando. Winford dedicou todo a sua atenção em remexer o líquido que borbulhava a encarar o homem na sua frente. Ainda mais que lembrava-se de sentir o corpo deste mesmo homem contra o seu esta manhã.

- Essa era a intenção. – murmurou em resposta afinal, havia feito as poções com cuidado com esse fim. Sabia que Harry estaria em meio ao ataque e tinha que protegê-lo de alguma forma, mesmo que não estivesse presente fisicamente ao seu lado, ter o conhecimento de que uma de suas poções foi capaz de trazê-lo são e salvo para ela, era o bastante.

- E então… - Harry falou sem saber muito o que dizer, notando que pela primeira vez ela não usava os tradicionais uniformes de Hogwarts, com exceção da capa com o emblema da Sonserina. As roupas tipicamente trouxas e que era moda entre os adolescentes abraçavam todas as curvas de uma menina que aos poucos se mostrava ser cada vez mais uma mulher. Deu um meio sorriso ao perceber o quanto ela tinha crescido em tão pouco tempo e perguntou-se como é que o tempo poderia passar tão rápido, pois ainda podia se lembrar da garotinha assustada com quem cruzou em uma manhã no corredor da escola -… uma poção? – sentiu-se um idiota diante da pergunta estúpida, mas é que no momento as palavras pareciam fugir da sua boca. Quando foi que ficara desconfortável na presença de Dallas

Quando foi que a sua habilidade de começar longas e produtivas conversas do a garota tinha sumido, deixando em seu lugar apenas silêncios incômodos e monossílabos para preencherem as lacunas que surgiam e alargavam-se entre eles? Quando viu que os olhos exóticos o miravam como se ele fosse uma espécie rara de inseto, Harry sentiu um calor estrangeiro subir pelo seu corpo e estacionar em suas bochechas.

- Hum… é? - Dallas parecia não saber o que falar na presença dele também e não conseguia buscar em nenhum canto da sua mente algo inteligente para dizer, além de tentar a todo custo evitar olhar para ele.

- Dallas… faz tempo que a gente não conversa. - Harry enfim sentou-se em frente a ela em um dos bancos altos usados para os bruxos acomodarem-se enquanto esperavam as poções cozinharem. – E parece que com isso nossos assuntos andam ficando escassos.

- Talvez seja porque andamos um pouco ocupados. – esclareceu a menina em um tom que mesclava descaso e acusação. Harry nunca tinha tempo para ela ultimamente, sempre se dedicando a perseguir, capturar o derrotar Comensais da morte. Sabia que não podia ser egoísta, pois o homem tinha um papel importante da guerra, mas ele não morreria se tirasse ao menos m dia de folga. O mundo não iria acabar se isso acontecesse.

- É… - Potter captou nas entrelinhas a acusação dela e não pôde tirar-lhe a razão - por isso e por…

- O quê? - levantou a cabeça para encará-lo fixamente esperando por uma resposta direta e justa e sentindo-se vitoriosa por não estar ruborizando.

- Sobre o que aconteceu no baile… - começou a justificar-se e foi rapidamente cortado.

- Ou o que não aconteceu. - rebateu seca. Não conhecia Draco Malfoy tão bem assim, pois ele apenas fora seu monitor por um ano, mas naquele dia sentiu ímpetos de esganá-lo. Ela tinha quase beijado Harry Potter!

- É. Veja bem… - continuou ainda sem jeito. Além de não saber como se explicar, ainda não queria magoá-la.

- Passado Harry. – o interrompeu rapidamente, pois descobriu que não estava a fim de falar sobre este assunto além de pressentir uma dispensa entre as linhas. - Deveria ser efeito da bebida.

- Eu não bebi, você bebeu? – perguntou desconfiado e não gostando da idéia dela ter ingerido qualquer coisa com alto teor alcoólico.

- Er… não. – fez um gesto de mão como se dispensando este detalhe. - Apenas esqueça.

- Como você quer… - como ela queria que ele esquecesse se estranhamente ele tinha vontade de continuar o que começou naquele baile aqui mesmo dentro dessas masmorras sem se importar se Snape pudesse aparecer ou não. - Argh! - resmungou diante do rumo que seus pensamentos estavam tomando... Novamente. - Você tem razão. Passado, morto e enterrado. Somos amigos e coisas como essas não deveriam nos afetar.

- Isso mesmo. - Dallas sorriu um pouco embora não se sentisse completamente feliz. Na verdade não queria colocar nada no passado, queria era continuar de onde pararam.

- E como amigos devemos comemorar o retorno da nossa amizade. – completou Harry com animação.

- Eu nem sabia que ela tinha terminado para ter um retorno. – a garota disse em tom divertido. - Quero dizer, ficamos um tempo sem nos falar, mas isso não significa que ficamos menos amigos.

- Isso não vem ao caso agora. O que vem ao caso é que eu estou te convidando para sair comigo hoje à noite. Vamos jantar. Você já fica nesse castelo o ano inteiro, vamos sair para espairecer.

- Mas… mas por acaso é seguro? Quero dizer, sair à noite para ir a Hogsmeade. - Harry deu um sorriso enigmático do qual Dallas não gostou muito.

- Quem disse que iremos a Hogsmeade? Eu acabei de vir de uma batalha e mesmo que estejamos em guerra eu acho que um momento de descontração é válido. Por isso, fora de Hogsmeade seria mais interessante. - Potter não sabia de onde estava tirando aquelas idéias malucas, mas a simples possibilidade de se afastar um pouco dessa loucura e em boa companhia o agradava muito.

- Não creio que o diretor vá permitir que nós… quero dizer… no máximo ele permite visitas a Hogsmeade mas sempre sob a supervisão de alguém.

- Do Dumbledore cuido eu e acho que ele não irá se opor em eu te levar um pouco para fora deste castelo. Além do mais, - Harry levantou-se e aproximou-se dela, ficando apenas a um passo de distância de seu corpo. Podia quase sentir a respiração quente dela em seu rosto e isso pareceu arrepia-lo por inteiro. - você estará em boas mãos. – disse em um sussurro rouco que quase fez Dallas suspirar de prazer. - Por isso esteja pronta no hall de entrada as oito em ponto. - sorriu abertamente para ela e saiu rapidamente das masmorras para começar a colocar suas idéias em prática, além de tentar acalmar seu coração que parecia querer sair pela boca de tão forte que batia. Afinal, o que havia de errado com ele?


Às oito horas da noite pontualmente Harry desceu as escadas para o hall de entrada e viu que Dallas já estava lá o esperando olhando distraída para algumas pinturas em algumas paredes. Parou a meio caminho de tocar o chão e enquanto ela ainda não tomava consciência de sua presença começou a apreciar a figura que lá se encontrava. A jovem tinha parte dos cabelos longos e castanhos presos em uma trança além de parecer maquiagem bem leve e de tons claros. Usava uma longa saia branca de algodão que ia até os joelhos e possuía pequeninas flores azuis desenhadas, além de uma barra azul. Uma camisa rendada branca completava a produção e por cima da mesma havia uma jaqueta jeans. Sandálias de tiras e salto adornavam os pés delicados e fazendo parecer uma bonequinha.

Harry tinha que admitir que ela estava linda e ao seu ver e lhe agradava saber que toda aquela produção era para ele e apenas ele. Terminou de descer as escadas e Dallas rapidamente virou-se em direção a ele com um grande sorriso no rosto.

- E então? Dumbledore nos permitiu sair? – disse ao aproximar-se lentamente do rapaz.

- Sim. – o ex-grifinório sentiu-se tentado a fechar os olhos e suspirar quando a fragrância suave do perfume dela atingiu seu olfato. - Não foi muito difícil convencê-lo e por algum motivo ele parecia bem entusiasmado com isso. - lembrou-se quando viu os olhos do diretor brilharem daquela maneira que sempre brilhavam quando ele sabia de alguma coisa que os outros desconheciam quando pediu autorização para levar Dallas para um jantar fora de Hogwarts. Será que os olhos dele brilhariam assim se soubesse para onde eles estavam realmente indo? Ou talvez ele soubesse, como sempre.

- E para onde nós vamos? - novamente o sorriso enigmático que fez Dallas franzir as sobrancelhas a ficar com a sensação de que estava se metendo em uma fria. Mas era Harry que a estava guiando, então tinha que confiar nele.

O rapaz remexeu em algo dentro de seu bolso e somente agora ela reparou que ele usava roupas trouxas - geralmente estava acostumada a vê-lo em vestes bruxas – e retirou uma moeda de lá de dentro. Dallas não poderia ser perita nisso, mas tinha certeza que aquilo era uma moeda espanhola.

-O que é isso? – perguntou apontando para o objeto na mão de Harry.

- Nossa passagem para irmos jantar. – Potter sorriu marotamente e estendeu a peça para ela e a sonserina fez uma expressão descrente.

- Uma moeda? – falou em tom de deboche. – E o que você vai fazer com ela? Pagar o jantar? – completou com escárnio e Harry permaneceu inabalado diante das provocações dela.

- Mais ou menos. É uma chave de portal. - Dallas soltou um suave "ah" e ficou quieta. Já tinha lido e ouvido falar de chaves de portal, mas nunca usara uma.

- E para onde ela vai nos levar? – continuou, pensando que para o moreno querer usar uma chave de portal e não o Noitibus Andante ou outro meio mágico ou trouxa era porque à distância para o local onde eles iriam seria grande. E pelo sorriso no rosto dele, ela tinha certeza que seria uma senhora viagem.

- Isso você só vai saber quando tocá-la, pois já está quase na hora. - Harry deu um passou largo e envolveu a cintura dela com um de seus braços, colando o corpo menor da jovem no seu e estendendo a moeda a ela. Dallas sentiu que não apenas seu rosto, mas seu corpo inteiro estava ficando vermelho diante do gesto ousado dele e da proximidade deles. Já tinha abraçado Harry antes, mas dessa vez parecia que havia algo mais nesse abraço. - Toque na moeda, pois ela vai se ativar daqui a trinta segundos. - sussurrou perto da orelha dela e a jovem tremeu, levando uma das mãos a moeda.

Quando os trinta segundos se passaram ela sentiu como se seu umbigo tivesse sido fisgado e seus pés deixarem o chão. Fechou os olhos e escondeu o rosto no peito de Harry diante do susto causado pelo solavanco e quando finalmente sentiu seus pés tocarem o chão novamente é que reabriu os olhos e observou a sua volta, percebendo que não estava mais no salão de Hogwarts, mas na rua de alguma cidade bem movimentada e com um clima alegre.

- Bem vinda… - Winford virou-se e se deparou com aqueles olhos extremamente verdes brilhando em sua direção e os lábios vermelhos pertos dos seus. -… a Madri.