CAPÍTULO 21
BATENDO NAS PORTAS DO CÉU
A morena olhou a sua volta com os olhos largos em choque. Madri? Estavam em Madri? A milhares de distância da Inglaterra. No continente? Na…
- Espanha? Harry! - virou-se para o rapaz soltando um grito que chamou a atenção de alguns passantes que rapidamente ignoraram os dois e continuaram a seguir o seu caminho ao ver o casal acima de qualquer suspeitas. Harry apenas sorriu travesso para ela e a apertou mais em seu abraço, aproximando os seus lábios da orelha dela.
- O que foi? Não gostou? – sussurrou com a voz um pouco rouca e afastou-se, ainda com um sorriso no rosto.
- Não! Quero dizer, sim! Eu gostei. Mas não pode ser arriscado? Os seguidores de Voldemort estão se espalhando pela Europa, podemos ser reconhecidos. – falou alarmada e apenas para assegurar-se, percorreu os olhos pela multidão que rodava pela cidade aproveitando a vida noturna da mesma, achando que do meio daquele bando de pessoas iria pular um grupo de Comensais da Morte gritando histericamente e lançando feitiços a torto e a direito.
- Não no meio de uma multidão trouxa. Não na Espanha em um meio de semana. Aliás, ninguém sabe que estamos aqui. Ninguém sabe que saímos de Hogwarts, exceto Dumbledore e mais ninguém. Além do mais temos as nossas varinhas e sabemos nos defender. Ou você está com medo de passar uma noite comigo?
- Não! – falou em um tom de pânico diante da insinuação dele. Era ridícula a idéia de que ela estava com medo de passar uma noite se divertindo com Harry, porém, ainda sim, precisava ser cautelosa. Só porque tinha uma varinha não queria dizer que poderia usá-la, pois ainda era menor de idade. Entretanto, se Harry continuasse a abraçá-la daquele jeito ela esqueceria toda a sua cautela e iria ao inferno com ele se fosse preciso.
- Então vamos. Consegui reservas em um interessante restaurante das redondezas. – declarou e Dallas arqueou as sobrancelhas ao ouvir isto. Não sabia que o rapaz tinha tantos contatos assim ao redor do mundo.
- Como você fez isso?
- Tenho os meus métodos. – respondeu com uma piscadela marota e tirou a mão da cintura dela, apenas para poder deslizá-la para a mão pequena da menina e a segurar com força, começando a guiá-la pelas ruas da cidade.
- Certo, agora que estamos aqui o que fazemos?
- Eu já disse, vamos jantar. - retrucou, andando lado a lado e com as mãos ainda entrelaçadas. Dallas não protestou muito, ao contrário, estava gostando muito daquela idéia louca de Harry. Quem visse diria que eles estavam quase tendo um encontro. E quase era a palavra de ordem, pois se para ela esta saída poderia ser interpretada como um encontro de um casal apaixonado, para ele, no entanto, não passava de uma saída entre amigos. E isso realmente era frustrante.
- E eu ouvi. Mas a menos que você saiba falar espanhol… eu não sei. Quero dizer… fora o inglês a única língua que eu domino é o francês.
- Você sabe falar francês? - Harry virou a cabeça brevemente para encará-la. Disso ele não sabia, pois se soubesse teria sido muito mais prático levá-la para a França onde não ficariam tão perdidos visto que a garota conseguiria se comunicar melhor do que ele. No entanto, sempre achou que Madri fosse o lugar perfeito para passar uma temporada e não pensou duas vezes em trazê-la quando teve a idéia maluca de "seqüestrá-la" da escola.
- Você sabe falar espanhol?
- Er… um pouco. O básico do básico. Aprendi no tempo que estive no México. Vai dar para a gente se virar. Mas você realmente sabe falar francês? Fluentemente? – continuou, focando a conversa nela. Eram amigos, se falavam, mas desde que se formara em Hogwarts os contatos eram cada vez mais escassos. Sabia sobre a vida de Dallas, seus problemas com a avó, suas dificuldades na escola, mas as coisas simples, as mais mundanas, lhes eram desconhecidas.
Simples perguntas como: qual era a comida favorita dela? A cor? O que ela gostava de fazer no final de semana? Tinha algum hobby? Algum talento? Isso não saberia responder.
- Oui. Grâce à ma grandmère. – respondeu com um biquinho que Harry achou adorável no rosto dela.
- O quê? – disse abobado e Dallas riu.
- Lequel est le problème? Est-ce que vous ne pouvez pas comprendre l'un l'autre? - outro sorriso, desta vez extremamente maroto ao ver a expressão confusa do moreno ao seu lado.
- Muy divertido. – Harry resolveu entrar no jogo e divertiu-se ao ver uma fina sobrancelha ser erguida em confusão.
- Le quelque chose?
- ¿Te gusta eso? - terminou e os dois caíram na gargalhada. Era hilário ver dois jovens discutindo no meio das ruas da Espanha em línguas as quais eles não estavam habituados a usar e praticamente sem se entenderem.
Logo depois ambos ficaram em silêncio, continuando a fazer o seu caminho até que uma Dallas séria encarou o rapaz ao seu lado e em um suspiro soltou:
- Je t'aime Harry. – falou e Potter a encarou com uma expressão curiosa. Não compreendera o que ela disse, mas tinha a sensação de que era extremamente importante.
- O que você disse? – pediu e a menina sorriu docemente para ele.
- N'importe quoi.
- Hã?
- Ops, desculpe. Eu disse "nada". Não falei nada importante. – completou e sentiu seu coração apertar. A única vez que tinha encontrado coragem para se declarar, o fez sem o outro saber sobre o que estava falando. Não era a toa que não caíra na Grifinória como pretendia quando entrou na escola. Sua covardia seria uma desgraça para a orgulhosa casa dos bravos leões.
- Mas pareceu que sim, do jeito que você ficou séria. – insistiu o rapaz e Dallas sacudiu a cabeça em negativa.
- Eu poderia estar te xingando e você nem saberia. - retrucou com um sorriso. Pensou que ele não perceberia a seriedade da frase dentro da brincadeira deles e graças a tudo que era mais sagrado que ele não sabia falar francês.
- Você não ousaria. – o moreno rebateu com uma expressão ofendida e a abraçou pela cintura, parando a caminhada de ambos e a trazendo para perto de seu corpo, usando uma de suas mãos livres para erguer o rosto dela e fazer os olhos azul-violeta mirarem os seus. - Dallas… - sussurrou de maneira quase inaudível, fazendo as pernas da menina perderem a força diante de tamanha proximidade. Aquilo era tortura, tê-lo tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Se Harry soubesse o que fazia com ela com certeza não estaria tão próximo.
- Oui?
- Vamos comer! – e a soltou, sorrindo de orelha a orelha e pegou novamente na mão dela, a guiando por entre a multidão que passava pelas ruas naquele fim de tarde quente.
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- Venci! - gritou com entusiasmo e quase dando pulinhos no lugar, porém não o fazendo pois poderia chamar a atenção de quem estava em volta. A jovem ao seu lado o olhou com desagrado e quase chutou a estúpida máquina que estava na sua frente. Como ele poderia ter ganhado se fazia meses que não praticava? Enquanto ela vinha quase todos os finais de semana na loja de games para poder se tornar uma expert nesta fantástica máquina de entretenimento trouxa? Isso era muito injusto.
- Maldita máquina trouxa! Você está o favorecendo. - a mulher exclamou ultrajada, apontando furiosamente para a máquina enquanto Patrick escondia um sorriso por detrás da mão. Sua irmã não suportava perder, ainda mais em seu passatempo favorito: o Vídeo Game.
- Vamos Charlie, assuma que eu sou muito melhor do que você. – a cutucou nas costelas e Charlie lançou um olhar irado ao caçula antes de soltar um longo bufo contrariado.
- Não! Você não é! E não vai ser agora que vai começar. – retrucou ainda irritada e gesticulando largamente e Patrick riu mais ainda.
- Má perdedora. Você apenas não agüenta a derrota. – a provocou, rodando sobre os pés e retornado a mesa onde estavam os seus pertences, pois além de ser uma casa de jogos aquele lugar também era uma lanchonete dentro de um shopping onde a maioria dos adolescentes trouxas gastava seu tempo nas férias. E também alguns adolescentes bruxos.
- Sorte de principiante, isso sim! – defendeu-se, juntando-se ao irmão e começando a beber o milk-shake que estava quase quente e ainda ostentando o bico injuriado por causa da perda.
- Hah! Está bem, sorte de principiante! Admita, você perdeu feio, apenas isso. – continuou apenas porque estava adorando ver a expressão contrariada da mulher e com um sorriso extremamente largo acomodou-se na cadeira.
Não era sempre que tinha a oportunidade de passar um tempo com a sua família e entre Hogwarts e o fato de que seus irmãos estavam muito ocupados com o trabalho ou qualquer coisa relacionada à guerra contra Voldemort, ele quase não os encontrava. E sentia saudades, saudades do tempo em que tudo o que eles faziam era relaxar e aproveitar um dia sem preocupar-se em olhar por sobre o ombro para ver se não tinha nenhum louco prestes a lançar um feitiço contra eles.
- Cala a boca. – resmungou a mulher, apoiando um braço sobre a mesa e a cabeça na mão, sugando mais do shake pelo canudo dentro do copo. Patrick apenas continuou importunando a irmã, dizendo que ela não era boa o bastante, até que a própria cansou-se das zombarias do garoto e levantou-se bruscamente da cadeira com uma expressão determinada no rosto.
- Vamos ver quem é o perdedor então! – bradou em tom altivo e apontou um dedo ferozmente para ele. - Eu te desafio para mais uma rodada. - e virou-se bruscamente em direção ao caixa, comprando mais fichas e voltando rapidamente para a mesa, puxando um Patrick surpreso pela mão e o levando até a máquina de fliperama mais próxima.
- Isso é perda de tempo, você sabe muito bem que correr é o meu forte. Afinal, eu sempre voei melhor do que você. – ele riu ao ver o jogo para o qual foi guiado e arqueou as sobrancelhas para a morena ao seu lado que tinha inflado como um balão diante do orgulho ferido.
- Isso é o que veremos. - Charlie respondeu com um sorriso maldoso no rosto e colocou a ficha na fenda da máquina, sentando-se em seu lugar e lançando um longo olhar de triunfo para Patrick que sorriu e sacudiu a cabeça em desaprovação e acomodou-se em seu lugar.
Quando o jogo estava iniciando na tela diante dos olhos expectantes dos dois irmãos, um burburinho começou a preencher o local e aos poucos atraindo a atenção dos jovens bruxos ao perceberem uma certa agitação a sua volta. Parecia que as pessoas estavam saindo da loja para olhar algo que estava acontecendo no hall principal do shopping.
Dando de ombros, ambos ignoraram a movimentação e continuaram a sua disputa até que um grito horrorizado os fizera pular na cadeira e olharem um para o outro em surpresa.
- O que foi isso? - Charlie perguntou ao irmão intrigada, sentindo um tremor percorrer a sua espinha.
- Não sei. Parece que alguém se assustou com algo ou se machucou, pois o grito parecia de dor… - explicou-se quando outro grito chegou aos ouvidos deles e eles rapidamente puseram-se de pé e viram um dos clientes que havia saído da loja para ver o que acontecia no primeiro piso do shopping voltar branco feito um papel e gaguejar algo como se tivesse visto um monstro. Alguns atendentes o rodearam, tentando acalmá-lo, enquanto ele ainda balbuciava coisas desconexas e apontava para o corredor loja afora com um braço trêmulo.
- Chamem a polícia… - conseguiu dizer depois de um tempo. -… tem um grupo muito estranho lá embaixo… estão matando as pessoas. Muitas pessoas… Deus… estamos presos aqui e tem algo pairando no teto do shopping… - foi à última coisa que disse antes de desmaiar de pavor.
Patrick lançou um olhar desconfiado a irmã e não pensou duas vezes antes de sair correndo da loja e ganhar as áreas de comum acesso do shopping, deslizando brevemente sobre o piso liso e amparando-se no parapeito do corredor para ver com temor sobre o que o homem tanto falava. Segundos depois Charlie apareceu ao seu lado, seus olhos castanhos alargando-se gradativamente e levando uma mão a boca para abafar um grito de medo.
- Patrick… A… - tentou dizer, mas a sua voz ficou entalada na garganta quando mais gritos ecoaram por todo o local. Gritos de agonia, gritos de pavor, gritos de dor e a tensão da morte e o cheiro de carnificina invadiam o ambiente fechado e desesperador.
- A Marca Negra! - o garoto completou, debruçando-se sobre a grade do corredor para mirar a praça central que ficava no primeiro piso. Havia dezenas, centenas, ele não conseguia contar em meio ao seu nervosismo, de Comensais da Morte. Matando, rindo dos trouxas que tentavam fugir desesperados, rindo do medo deles, os torturando, cometendo as maiores atrocidades que alguém poderia cometer a um ser humano.
E por que os Comensais estavam fazendo isso era o que passava na cabeça dos dois bruxos naquele momento. Que vantagens eles teriam de atacar um local de lazer em plena luz do dia, um ponto não estratégico, era o que eles indagavam e a resposta veio de maneira abrupta e chocante.
Eles estavam fazendo isto apenas por prazer.
Alarmado, o moreno avistou uma menina que assistiu a mãe morrer em frente aos seus olhos e quando o corpo da mulher bateu inerte no chão, o Comensal virou-se pronto para acabar com a garotinha que chorava copiosamente e agarrava-se ao corpo morto da mãe a procura de algum consolo. Seu sangue ferveu diante da covardia daquela criatura e antes que pudesse racionalizar o que fazia, virou-se abruptamente para a irmã.
- Vá ao Ministério Charlie, chame ajuda! – pediu e os olhos escuros da mulher alargaram-se.
- Mas e você? – perguntou com medo do que iria ouvir como resposta.
- Eu vou tentar ajudar. – disse decidido e Charlie o segurou com força pelo braço.
- Não! – falou em tom veemente e com uma expressão séria no rosto. - Isso é loucura! Você não é nem um bruxo formado, como pode combater tantos?
- Ao menos eu vou tentar, sou um ótimo aluno em DCAT. – argumentou, conseguindo soltar o braço do aperto da irmã.
- Você é apenas uma criança! – a mulher gritou desesperada, tentando sobrepor-se aos gritos que ficavam ainda mais altos e agoniados. Não iria deixar o caçula da família nas mãos daqueles abutres. Jamais.
Entretanto, o olhar firme de Patrick ao mirá-la, o modo como o rosto adolescente ganhou traços sérios e tão maduros a fez perceber de maneira assustadora que não poderia protegê-lo para sempre. Não poderia mantê-lo em uma redoma impenetrável. A guerra já o tinha afetado de uma maneira ou de outra e nada do que fizesse poderia mudar este fato.
- Anda Charlie. - ordenou com uma voz firme e sem brechas para discussão e sacou a sua varinha, que sempre carregava consigo para ocasiões como essa, prontamente correndo em direção a menina que estava prestes a ser morta antes que Charlie pudesse o impedir.
O coração dela veio à boca ao ver o caçula duelando contra um Comensal crescido, mas percebeu neste momento que nada poderia fazer a não ser pedir ajuda, pois se ficasse poderia apenas piorar a situação. E antes de desaparatar, seu último pensamento foi um desejo de boa sorte para o menino que com certeza seria a causa de todos os seus cabelos brancos, mas que, ao mesmo tempo, de todo o seu orgulho. E com isso, sumiu em busca de resgate.
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- E então? Não é tão ruim assim. - Harry riu quando Dallas fez uma careta ao comer algo muito picante.
- Queima. - murmurou, bebendo um longo gole da taça de vinho em frente a si.
- Oh, desculpe, mas eu esqueci de lhe avisar sobre isso. – falou e recebeu como resposta um olhar atravessado da garota.
- Traidor. – murmurou desgostosa e Harry gargalhou, o álcool começando a fazer um grande efeito em seu sangue. - Acho que alguém está um pouco alto. – continuou em tom de deboche, dando mais um gole de sua bebida e surpreendendo-se pelo fato de que o lado "irmão-super-protetor" do grifinório não tivesse aflorado. Afinal, já estavam há umas duas horas naquele restaurante e entre comer e conversar, Dallas havia ao menos consumido umas três taças de vinho e em vez de dizer qualquer coisa, o rapaz apenas tinha pedido uma para ele também.
- Eu sempre fui alto. Quero dizer, ao menos mais alto do que você. Ron sempre conseguiu ser mais alto do que eu. E ainda me pergunto o que ele come para ser tão alto. – balbuciou desconexo e a garota soltou uma risadinha antes de sacudir a cabeça em divertimento. - Bem, do jeito que ele come não me admira que seja alto. - dessa vez Dallas gargalhou, atraindo a atenção de alguns clientes e com uma tossida e um rubor nas bochechas pediu desculpas para eles. - Opa… parece que alguém exagerou no vinho também. – Harry completou em provocação.
- Está muito enganado senhor Potter. – a morena fez um movimento largo com a mão que quase derrubou o líquido da taça no chão da varanda do restaurante onde estavam e com uma expressão sapeca colocou o copo novamente sobre a mesa. - Eu fui perfeitamente educada para apenas beber socialmente, nada mais. Além do mais, um Winford nunca fica bêbado… é uma falta de classe. – disse na melhor imitação que conseguiu fazer de sua avó enquanto o vinho deixava seu cérebro e suas idéias dormentes.
- Uhh, alguém é fraca para bebidas... Alguém está bêbada. – Potter provocou e a sonserina estreitou os olhos para ele em uma expressão de desagrado.
- Allez à l'enfer. – soltou em um tom seco e o ex-grifinório teve que engolir uma gargalhada diante da cara que ela fez. Confessava que ele também já estava fugindo um pouco do estado sóbrio, o que com certeza mandava as favas todas as suas inibições e alto controle sobre como agir ou não agir na presença da menina ultimamente.
- Hum, pelo tom que você usou com certeza não veio nenhuma frase bonita como: eu te adoro Harry, dessa linda boquinha. – ele fez um biquinho ofendido e Dallas apenas franziu as sobrancelhas, estufando o peito em uma pose arrogante.
- Tem razão, não veio mesmo. Eu acabei de te mandar para o inferno. – esclareceu e tomou mais um gole de sua bebida, a virando por completo e esvaziando a taça.
- Mas como você pode ter feito tamanha atrocidade comigo… - Harry puxou a sua cadeira e sentou-se ao lado dela. -… se eu estou quase chegando ao céu essa noite. - mesmo inebriada Dallas corou intensamente ao notar o olhar que ele lhe lançava, pois era um olhar diferente, um olhar faminto, misturado com desejo e flerte, coisa que ele nunca lhe dispensou antes.
Talvez o álcool estivesse começando a dar a Harry certas reações perigosas com as quais ela pudesse não saber lidar. Ou talvez, como de costume com qualquer ser humano, o álcool estivesse fazendo o rapaz agir de maneira fora do seu normal. Entretanto, se ele estava agindo assim por causa do álcool, tinha a certeza de que esse jogo poderia ser jogado por dois. Poderia não saber o que ele estava pretendendo diante dessas insinuações, mas talvez essa fosse a sua única chance de ter Harry a olhando daquela maneira ou o fazer compreender de que ela queria muito mais do que uma simples amizade.
O fazer compreender que ela não era mais a menina assustada que conheceu em um dos corredores de Hogwarts anos atrás.
- Ao céu? Meu caro Harry, se você quiser realmente ver como é o céu… deixe-me então guiá-lo em seu caminho. – provocou e diante desta tirada Potter subitamente ficou sério, voltando ao seu lugar e Dallas perguntou-se se havia dito alguma besteira. Se havia passado dos limites rápido demais e encerrado o jogo antes desse começar.
Longos minutos de silêncio tenso se passaram, com ela desejando retirar cada palavra dita, quando ele finalmente esboçou uma reação e lhe sorriu de um jeito traquinas.
- Isso é uma proposta indecente srta. Winford? - perguntou inocente e com um arquear de sobrancelhas enquanto tomava mais um gole de seu vinho.
- Oras… não fui eu que tive a idéia de passarmos uma noite de comes e bebes em Madri… sozinhos. – enfatizou e o bruxo riu longamente.
- Oh, mas a noite ainda não terminou. - o jovem ergueu um braço, chamando o garçom e ordenando a conta. - Na verdade ela apenas está começando. – completou, entregando o dinheiro ao garçom assim que o mesmo trouxe o recibo da conta e ergueu-se da cadeira, estendendo uma mão para Dallas que a aceitou, saindo rapidamente do restaurante.
A lua estava alta no céu, com as estrelas brilhando a sua volta como pequenos pontos prateados, quando os dois alcançaram uma praça a algumas quadras de distância do restaurante onde estavam, rindo por nada e quase caindo no chão pela falta de equilíbrio.
Dallas aproximou-se de uma árvore e sentou-se na grama sob ela e entre grossas raízes que brotavam do chão, ainda rindo e com o rosto rubro. Harry prontamente ajoelhou-se em frente a garota e gargalhada no mesmo estado de embriagues que a jovem. Os dois tinham alguma consciência de que pareciam dois loucos andando pela noite, rindo por causa de nada em meio a árvores flores e casais que passeavam de mãos dadas pela madrugada morna da Espanha.
Riam como se quando voltassem para a Inglaterra, Harry ainda não tivesse uma guerra para ser vencida ou Dallas tivesse treinos da Ordem para participar. Ou então que ela não fosse a herdeira da maior fortuna da Grã-Bretanha e tivesse essa responsabilidade pesando em suas costas. Nessa noite estrelada eles eram apenas Harry e Dallas. Dois jovens ingleses, perdidos nas ruas espanholas ,rindo feito uns loucos da vida e sendo apenas normais.
- Qual é a graça? - Dallas perguntou quando conseguiu parar de rir e encarou Harry que tinha os olhos brilhando numa mistura de felicidade estrangeira e por causa do vinho percorrendo em seu sangue.
- Eu não sei. - retrucou o rapaz e novamente caíram na gargalhada, com ex-grifinório jogando o seu corpo na grama e deitando-se de lado, apoiando-se em um dos cotovelos para poder encarar melhor a adolescente sentada perto de si. Quando finalmente as risadas cessaram pela segunda vez n aquela noite é que eles pararam para aproveitar o silêncio que os rodeava.
- Sabe… eu sempre gostei muito das estrelas. - começou Dallas em um tom cúmplice. - Elas parecem tão distantes e tão belas lá em cima, quando na verdade não passam de bolas de fogo. E é engraçado, porque o fogo é meio alaranjado e as estrelas são pratas. Se elas são fogo queimando não deveriam ser laranja? O sol é laranja e ele é uma estrela. Então elas são vários sóis, logo são prata. Então o sol não deveria ser prata?
- Dallas. - a jovem virou-se e mirou o rapaz que estava deitado ao seu lado.
- O quê? – falou com uma sobrancelha erguida diante da interrupção.
- Você não está falando coisa com coisa.
- Eu sei. – e começaram a rir novamente, só que dessa vez com menos intensidade do que antes.
- Harry… posso lhe fazer uma pergunta?
- Você já fez. – provocou e a garota rolou os olhos.
- Okay, posso fazer duas perguntas?
- Claro. – respondeu divertido, deitando-se de costas na grama e colocando os braços sob a cabeça, mirando o céu.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Eu nunca entendi muito bem isso sobre você querer me proteger das coisas. Quero dizer… Quando entrei em Hogwarts éramos de casas diferentes e você não tinha nenhuma responsabilidade para comigo e com certeza não foi a primeira nem a última vez que uma trouxa foi parar na Sonserina.
- Eu sei. Mas é que quando eu vi você, você me parecia tão assustada que lembrou um pouco a mim quando tinha a sua idade. Além do mais, temos muito em comum. Sem contar que você é uma grande amiga. – falou dando de ombros, fechando os olhos por um momento e soltando um longo suspiro.
Dallas e ele com certeza tinham várias semelhanças. Considerados diferentes por todos, cresceram sem amigos, isolados e aos onze anos descobriram que eram bruxos. Talvez o único detalhe que os separasse fosse o fato de que a menina, apesar dos pesares, ainda tinha a sua família, mesmo que a avó dela fosse mandona e o pai um pouco ausente.
- Uma grande amiga. - repetiu a frase em um murmúrio triste, chamando a atenção de Harry para o tom deprimido que ela usou, o fazendo abrir os olhos e sentar-se na grama para poder encará-la melhor.
- O que foi? – perguntou curioso diante de tal atitude cabisbaixa quando há poucos minutos ela ria por nada e por tudo e Dallas apenas fez um gesto de dispensa com a mão, desviando o olhar dos orbes verdes que a encarava e mirando seus olhos nos casais que caminhavam pela trilha despreocupados.
- Nada, por quê? – respondeu depois de segundos em silêncio pensativo.
- Me parece um pouco… desapontada com algo. – continuou Harry, inclinando-se um pouco para tentar ver qual era a expressão no rosto dela, mas nada conseguindo.
- Não estou… verdade. – virou-se para poder encará-lo. – É só que… - soltou um longo suspiro. Não teria coragem de dizer a verdade, como sempre, e sabia disso. Morreria sem nunca ter confessado a Harry o que realmente sentia. Era uma frouxa. Nessas horas tinha que dar razão a sua avó.
- O quê?
- Eu apenas queria… - falou em um tom extremamente baixo.
- O quê? - repetiu o auror, aproximando-se cada vez mais da sonserina, tentando não apenas compreender o que ela falava, mas estranhamente fascinado pelo modo como a luz da lua refletia na pele pálida dela, lhe dando um brilho quase etéreo. Como deveria ser ver as estrelas refletidas nos belos olhos exóticos? Com certeza deveria ser lindo, pensou.
- Eu só queria um pouco mais. – disse por fim, prendendo a respiração brevemente ao ver o quão perto ele estava, o que fez o seu corpo ficar completamente paralisado de medo e expectativa.
- Mais de quê? – sussurrou com os seus lábios próximos ao dela.
- Mais de você. – respondeu também em um sussurro e automaticamente fechou os olhos, esperando o próximo passo de Harry e dessa vez não ficou desapontada.
O rapaz encerrou a distância entre os dois e a beijou. Dallas soltou um ofego surpreso diante deste gesto inesperado de Harry e o moreno aproveitou a brecha para explorar com a língua a boca quente da jovem. O coração da sonserina pulava contra o seu peito de maneira enlouquecida, sem ela saber que o coração do ex-grifinório fazia o mesmo dentro do peito dele. Lentamente o moreno passou os braços pela cintura da jovem, a trazendo para mais perto de seu corpo, querendo aproveitar o calor gostoso e o cheiro inebriante que ela emanava. Algo lá no fundo de seu cérebro, na parte onde a racionalidade ainda estava, lhe dizia que o que ele fazia era errado. Extremamente errado.
Dallas era uma amiga, uma criança, a garotinha que ele acolheu sob as suas asas e do qual ele apiedou-se desde o primeiro momento que a viu tão perdida nos primeiros dias de aula de seu último anos. Entretanto, ao apertá-la mais contra si, ao sentir as curvas de um corpo que estava longe de ser infantil, essa racionalidade era abafada pelos instintos que o dominavam e pelo gosto doce do vinho que penetrava na sua boca por causa do beijo.
Timidamente os braços da jovem subiram pelos seus, as mãos delicadas percorreram os seus ombros até dedos longos e pálidos embrenharem-se entre mexas negras e rebeldes de cabelo, os puxando, buscando por mais contato. O ar aos poucos foi tornando-se escasso e sem fôlego os dois se separaram apenas para mirarem-se intensamente um dentro do olho do outro e se verem refletidos nas íris coloridas.
- Harry… eu… - tentou dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não pôde terminar, pois novamente os lábios dele estavam sobre os seus a entorpecendo mais que o vinho e sentindo-se estranhamente aquecida mesmo com os arrepios que estavam dominando o seu estômago. Sem contar que podia sentir que Harry não ficava para trás em relação à reação de seu corpo as suas carícias e beijos. Pôde perceber o quanto o beijo não apenas a afetava, mas também o afetava quando o auror a puxou rapidamente para poder sentar-se em seu colo.
Sentiu um calor subir pelo seu corpo e acumular-se em suas bochechas em uma mistura de vergonha e êxtase, mas o ignorou ao perceber que as mãos em sua cintura agora pediam caminho por sob a blusa que usava, tocando a sua pele quente e causando-lhe tremores de prazer. Ficou estarrecida ao perceber que em todo o tempo que namorou Davon, jamais que os beijos do ex-sonserino lhe causaram tantas sensações diferentes como este beijo estava lhe causando e percebia que se não parassem agora, fariam algo fora das boas regras de conduta em público.
O problema era que ela não queria parar, não podia parar. Era um sonho se realizando. E pelos Deuses, por quantos anos desejou que isto acontecesse? Vários. E agora que tinha o que queria, gostaria de poder saber como fazer o tempo parar.
Não soube dizer por quanto tempo se beijaram, talvez tenha sido segundos, minutos, horas, mas assim como subitamente começou ele se encerrou. Harry afastou-se de seus lábios de maneira estranhamente hesitante e a mirou longamente. Os olhos verdes não pareciam tão embriagados como antes e o rosto dele continha uma expressão que era uma mistura de surpresa e pavor.
- O que foi? – perguntou ao perceber que ele estava estranhamente sério, embora sua cabeça ainda girasse por causa do beijo.
- Melhor irmos, está tarde… ou cedo. – respondeu o rapaz, dando uma breve olhada em seu relógio e erguendo-se da grama, trazendo a jovem consigo enquanto retirava algo de seu bolso.
- Harry… - chamou temerosa ao perceber que ele evitava olha-la e falava de uma maneira como se nada tivesse acontecido a minutos atrás.
- Toque na moeda Dallas, precisamos voltar. – ordenou e uma vontade súbita de dar um tapa no meio da cara dele apoderou-se de Dallas, mas refreou-se a tempo e com uma expressão contrariada ela apertou com força a alça de sua bolsa e tocou na maldita moeda.
Novamente a sensação de ter sido fisgada pelo umbigo e seus pés saírem do chão a apoderou e quando se sentiu em terra firme mais uma vez, viu que havia retornado ao hall de entrada de Hogwarts, de onde eles partiram mais cedo.
- Bem… melhor irmos dormir, está tarde. – Harry continuou, sem ainda encara-la nos olhos e usando o mesmo tom de descaso de antes.
- Melhor mesmo. - murmurou Dallas entre dentes ao sentir a raiva apoderando-se de si a cada segundo, pois ainda não conseguia compreender o que havia acontecido de errado. Sem dizer mais nada, ela deu as costas ao auror, afastando-se dele e encaminhando-se para as masmorras batendo o pé como uma criança mimada.
Estático, Harry apenas a observou ir embora em silêncio, a vendo sumir nas escadas moventes e soltou um longo suspiro, esfregando o rosto com as mãos e depois desalinhando os cabelos com as mesmas, como se este gesto fosse capaz de colocar seus pensamentos no lugar.
O que fizera fora estupidez e ele não sabia nem dizer se foi o vinho ou ele mesmo que o incitou a agarrar a jovem em praça pública e beijá-la daquela maneira. A única coisa que ele sabia dizer é que esta noite seria mais uma noite mal dormida com pensamentos o atormentando diante do que aconteceu e com o gosto de Dallas ainda remanescente em sua boca.
- - - -
Rolou na cama e gemeu um pouco, sentindo a sua cabeça latejar no momento que abriu os olhos e foi cumprimentada pela claridade que invadia o quarto. Como é que as masmorras poderiam ter tanta luz se ficavam no subterrâneo do castelo? Pensou contrariada. Tentou sentar-se na cama, mas isso provou ser inútil além de piorar ainda mais a sua situação. No fim, deixou o corpo cair molemente contra o travesseiro e novamente a sua cabeça rodou, com direito a alternâncias de voltas para a esquerda e direita, fazendo o cenário a sua frente ficar extremamente difuso.
Fechou os olhos com força para assim ver se conseguia espantar a náusea e ficou feliz ao notar que sua refeição da noite anterior permaneceu quieta em seu aparelho digestivo. Minutos depois piscou, tentando abrir os olhos sem despertar a sensação de colocar tudo para fora e percebeu que foi bem sucedida.
- Maldita ressaca. - resmungou, esperando que a ressaca ao menos lhe desse algo de bom… como a amnésia, por exemplo, mas como as coisas não estavam favoráveis para ela nos últimos dias, a única coisa que lhe dera fora uma enxaqueca. - Nunca mais bebo. – completou em tom sofrido.
- Isso seria um bom começo. – uma voz grave comentou e um copo d'água surgiu em frente aos seus olhos , o qual ela rapidamente o pegou, o bebendo em um gole só. Quando sentiu parte de seu enjôo diminuir, atreveu-se a sentar-se mais uma vez, sendo bem sucedida nesta tentativa, apenas para ver-se debaixo do olhar contrariado do professor de Poções.
- Professor Snape. – disse com um sorriso sem graça ao devolver o copo para ele. - Colocou algo na água?
- Não. – falou seco. Nunca apreciou as atitudes estúpidas de um adolescente e por isso sempre teve pouca paciência em lidar com os mesmos, mas havia exceções a regra que o surpreendia. Dallas era uma dessas exceções que nesta manhã virara uma regra quando a encontrou de ressaca.
- Mas eu me sinto melhor. – argumentou a jovem.
- A água tem muitos elementos mais eficazes que poções em certos casos… como o seu, por exemplo.
- E como o senhor sabia que eu estava de ressaca? – perguntou curiosa.
- Vi o Potter esta manhã e entre as frases incoerentes que ele falava havia coisas como: "Dallas, vinho… Eu sou um estúpido". Da última eu não discordo. Ele fez algo a você? – continuou em um tom mais grave de desagrado.
Nunca aprovara desde o primeiro segundo essa amizade entre a jovem Winford e o idiota do Potter, e agora parecia estava começando a acertar em suas conclusões sobre Potter ser apenas um atrai desgraça para vida alheias. E embora ele adorasse estar certo em tudo, neste caso ele preferia estar errado.
- Me deu um beijo e depois agiu como se nada tivesse acontecido. – falou ácida, não notando a expressão azeda que o professor fez. - Típico de homem. Mas ao menos ele tem a desculpa de que estava bêbado. Se isso pode ser usado como desculpa. – resmungou incoerente.
- Ah! – foi tudo o que Snape conseguiu dizer em meio à revelação. Por um lado deveria estar surpreso, por outro não. Não era tolo, ser observador foi o que o fez ser um ótimo espião e percebera antes mesmo do idiota do Potter o que andava acontecendo entre ele e a sua aluna.
- Isso não foi muito eloqüente vindo do senhor. – Dallas comentou com estranheza. Ao menos esperava um sermão visto que Harry era a pessoa menos favorita na lista de Severo, que era extremamente longa. - Veio aqui para ver se eu estava emocionalmente arrasada ou fisicamente acabada? Porque a minha cabeça ainda está rodando se isso conta de alguma coisa.
- Se ela está rodando é melhor sentar-se, porque eu não tenho boas novas. - rapidamente Dallas, que voltara a se deitar e estava meio dormindo, meio acordada, despertou e mirou o professor com uma expressão preocupada, sentando-se novamente na cama.
- O que aconteceu? – indagou ao ver que ele hesitava, o que era raro. Severo Snape jamais hesitava ao dizer algo. Não era do feitio dele.
- Houve um ataque ontem. – começou o professor lentamente, puxando uma cadeira e sentando-se ao pé da cama para encarar melhor a garota. - Voldemort em sua amostra de poder e seus Comensais descontrolados e sedentos por sangue atacaram um shopping trouxa. – Dallas franziu as sobrancelhas. O que isso se relacionava a ela? Não tinha muitos amigos trouxas, na verdade não tinha nenhum e a sua família jamais freqüentaria um shopping. Grifes populares estavam muito abaixo dos gostos refinados de sua avó. - Muitas mortes, os aurores chegaram a tempo porque havia alguns bruxos dentro do shopping que aparataram pedindo ajuda.
- Voldemort já atacou lugares públicos trouxas antes e o senhor nunca veio me falar sobre isso. E a não ser que por um acaso do destino minha avó decidiu juntar-se a plebe nas compras… - soltou uma risada diante do absurdo, mas essa morreu ao ver a expressão séria do homem. – Por Deus, não me diga que foi isso? – falou alarmada, seu coração começando a pular freneticamente em seu peito. Justamente neste dia Amélia decidira fugir dos padrões? – Não, Amélia nunca faria isso. – pensou mais calma. Entretanto o seu pai… - Não me diga que foi o meu pai? – continuou desesperada. A perda de Amélia seria dolorosa, mas não tanto. Seu pai no entanto… não conseguiria suportar saber que o perdeu.
- Ninguém da sua família… aparentemente. - tentou tranqüiliza-la, mas sem muito sucesso.
- Então quem?! – gritou a beira da histeria. Detestava suspense e o professor não estava ajudando ao hesitar em dar a notícia atrelada a aquela cara de enterro.
- Patrick Gordon. – declarou e a jovem sentiu como se tivesse levado um soco no estômago, lhe tirando todo o ar. - Eu sinto muito Dallas. – tentou consola-la, mas ela não o ouviu a não ser o sangue que corria para a sua cabeça, a fazendo latejar ainda mais, ao mesmo tempo em que seu coração acelerado parecia que ia explodir do peito. Lágrimas quentes já rolavam de seus olhos e com um simples sussurro ela pronunciou uma única palavra:
- Patrie… - disse com pesar ao perceber que perdera um amigo, o único e primeiro amigo que fizera na vida. Com um soluço e um grito sofrido ela enterrou o rosto nas mãos, chorando copiosamente, sem perceber que a mão calejada do professor lhe afagava os cabelos em um gesto piedoso.
Mas isso não importava, nada mais importava. Estava sozinha de novo no mundo e saber disso era o que mais doía.
Continua…
