Capítulo 23

Seguindo em Frente

Draco reprimiu a vontade que sentia de gritar bem alto na orelha daquela ruiva que tudo ficaria bem,enquanto ela continuava a falar e a dar instruções a ele de como cuidar da menina em seus braços.Isso era ridículo.Era a filha dele,por Deus!E ela agia como se ele não soubesse cuidar da própria filha.Gina continuou a falar,ignorando os bufos de frustração que o loiro soltava,até que o próprio resolveu parar com aquela palhaçada.

-Chega Gina!-Draco gritou,pegando Angela no colo e a menina sorriu para ele.-Vai ficar tudo bem,okay?Não é como se alguém fosse imaginar que a gente estaria lá.É um lugar seguro,e qualquer coisa eu volto imediatamente para casa.

-Eu ainda não gosto disso,Draco.Levar uma menina de um ano para passear no meio de uma guerra?Para ver um ex-Comensal da Morte fugitivo?

-Não é como se Lúcio fosse fazer algo contra ela.

-A questão não é essa e sim o fato de que não importa em qual lugar seja,se Lúcio estiver lá não é seguro.Há pessoas atrás dele.

-Gina!Ele precisa ver a neta ao menos uma vez.Nunca se sabe o dia de amanhã.Ele pode morrer amanhã.Ele tem esse direito.Vamos aproveitar agora que as coisas estão calmas.Sem contar que nós dois sabemos nos cuidar muito bem.

-Isso é verdade.-Gina deu uma longa pausa em seu discurso e depois se virou decidida para o marido.-Eu vou com vocês.-Sentenciou e Draco parou de fazer o que fazia,pendurar a bolsa de Angela no ombro,para mirar chocado a sua mulher.

-O quê?-Quase gritou.-Está maluca?De jeito nenhum.Daria muito na vista.Eu vou sozinho.

-De jeito nenhum.E se Angela precisar de algo?

-Acho que tudo o que Angela precisa está dentro dessa bolsa.Ela pode sobreviver sem a mãe por algumas horas.

-Mas…

-Pára a paranóia Virginia.Eu sei cuidar da minha filha.Caso você tenha esquecido esse detalhe,eu sou o pai dela.

-Mas…-A ruiva balbuciou,ainda incerta de deixar Draco levar a menina,nunca tinha se separado dela por muito tempo.

-Melhor eu ir antes que você fique mais paranóica ainda e não nos permita ir.Ele deve estar nos esperando.

-Certo.Se ela sentir sede tem sucos do lado interno da bolsa,na parte térmica.As fraldas estão do lado de fora,há alguns lenços caso ela se suje,roupas limpas dentro dos bolsos internos.A chupeta dela…

-Gina!-Draco gritou exasperado enquanto Angela ria divertida no colo dele,brincando com a gola da camisa do pai.-Chega!Eu sei onde está cada coisa nessa bolsa e sei quando usá-las.Aliás,você não tinha que ir visitar a Hermione?O que ainda está fazendo aqui?Vá logo.

-Certo…Mas não se esqueça…

-Até logo querida.-O loiro suspirou e desaparatou,antes mesmo que Gina dissesse mais alguma coisa e o enlouquecesse.

Draco aparatou do lado de fora de um zoológico e começou a caminhar para dentro do local.Pagou a entrada e tomou o caminho em direção a casas dos répteis,lugar perfeito para um encontro clandestino.Aquelas cobras e lagartos parados em troncos dentro de vitrines em um lugar quase escuro era totalmente tedioso e perfeito para não levantar suspeitas.Poucas pessoas iam lá desde um incidente de anos atrás.Parece que uma cobra havia fugido de sua jaula,sabe-se lá como,pois o vidro havia desaparecido misteriosamente.Entrou na casa e caminhou para o fundo dela,parando na frente de uma vitrine onde uma enorme jibóia estava enrolada em um pedaço de tronco.Angela riu no colo do loiro e apontou para o vidro,batendo com suas mãos pequenas nele.

-Que cena comovente.-Uma voz falou atrás deles e o loiro não se prezou em virar-se para ver quem era o intruso.-Pai e filha em um zoológico vendo as cobras…-O homem olhou com um certo desdém para a cúpula.-…não fazerem absolutamente nada o dia inteiro.Tedioso.

-Olá para você também,Lúcio.-O loiro olhou para o seu lado e viu o homem parado lá,olhando com desinteresse para o réptil a sua frente.

-Então,essa é a Angela?-O bruxo mirou seus olhos cinzentos na menina que estava no colo de Draco e torceu o nariz.-Ruiva?Maldito genes Weasley.Uma neta minha,com o meu sangue,ruiva.E com sardas.-Draco riu.Esse era o seu pai.

-Angela…-O loiro chamou a filha que o mirou em reconhecimento.-…diga olá ao vovô.-Lúcio torceu ainda mais o nariz com essa história de avô.Angela virou-se para ele,prendendo seus grandes e brilhantes olhos cinzentos nos do homem mais velho,e sorriu mostrando seus poucos e recentes dentes.

-Vô…vô…-Gaguejou,esticando seus pequenos braços roliços em direção a Lúcio,que hesitou muito antes de pegar a menina no colo.

-Ela gostou de você.-Escarneceu Draco,quando viu o bebê brincar divertido com os cabelos longos e platinados de Lúcio.

-Vamos estabelecer uma coisa nanica…-Disse em desdém,mas mesmo assim um sorriso brincava no canto de sua boca.-…me chame de avô e você com certeza estará fora do meu testamento.-Falou altivo e Angela piscou,colocando seu dedão na boca e o chupando vigorosamente.Draco abafou uma risada enquanto via os dois em uma pequena guerra de olhares.Vendo isso o loiro resolveu se divertir um pouco.Inclinou-se e sussurrou algo na orelha da menina,que rapidamente largou o dedo e abriu um grande sorriso para Lúcio.

-O quê?-Perguntou o bruxo mais velho a menina.-O que você disse a ela?-Virou-se para o filho e foi pego de surpresa quando a garotinha deu um estalado beijo na bochecha dele.-Eca!-Eca?Aquilo definitivamente você não ouvia sair,todos os dias,da boca de Lúcio Malfoy,e Draco estourou em risadas.-Estou contaminado com os germes Weasley.

-Esqueceu que ela…é uma Malfoy?Confesse Lúcio.Você está orgulhoso.Seu legado vai ser continuado.

-Bem…-Lúcio olhou a menina em seus braços e depois olhou o filho,que ainda ria um pouco.Não conseguiu evitar o sorriso.Talvez o primeiro sorriso genuíno que dava em décadas.-…ela não é tão ruim.Olhando por esse ângulo…ela se parece um pouco com Narcissa.-Disse em um sussurro.

-É,parece.-Draco ficou sério e ambos caíram em um longo silêncio.

-Espero que o próximo venha loiro.-Resmungou o homem mais velho um tempo depois e Draco riu novamente.

-Está louco?Quase morri amaldiçoado quando Angela nasceu.Não quero ser azarado pela minha esposa novamente.Sem contar os irmãos dela…

-É por isso que eu sempre te disse para ficar longe dos Weasley.Mas você me ouviu?Não,nunca soube que tinha criado um filho com tendências masoquistas.Uma vergonha,devo dizer.

-Ah,cala a boca.-O rapaz ficou sério e dessa vez foi à vez de Lúcio rir.

* * * * *

A chuva caía intensamente no primeiro dia do novo ano letivo em Hogwarts.Os corredores pareciam mais silenciosos do que antes.A escola parecia estar mais vazia e mórbida.Depois que souberam que um aluno foi morto,depois que a notícia de que haveria Comensais iniciantes entre os alunos,os pais decidiram por si só – mesmo que tudo provasse que era um erro e que ainda podiam confiar na velha escola de magia - que Hogwarts não era mais segura.E que,mesmo que estivesse sob vários feitiços assim como o castelo,Hogsmeade seria o próximo alvo de Voldemort.Afinal,todo mundo sabia que a ambição suprema do bruxo era derrotar Dumbledore,Harry e derrubar o status de segurança que o castelo de mais de mil anos passava para o mundo mágico.

Dallas jogou sua mochila por cima de seu ombro e empurrou a estátua de entrada de sua sala comunal,saindo para seguir para o salão principal.Junto com ela,um grupo de setimanistas também saíra,com sorrisos escarninhos no rosto,parando em frente a ela quando alcançaram um dos corredores principais em direção ao hall.A menina apenas deu um relance para o grupo e seguiu em frente,ignorando os olhares em seus rostos,mas não conseguindo ignorar as palavras duras que vieram depois.

-Nisso que dá escolher o lado perdedor,sangue-ruim.-Até o momento isso não a tinha afetado.A jovem apenas balançou a cabeça de um lado para o outro em desgosto e seguiu o seu caminho.Porém,mais coisas vieram a seguir.-Aquele adorador de trouxas teve o que mereceu…-Dallas parou em seus rastros,de costas para o grupo,apertando com força a alça de sua bolsa.-Soube que ele se ajoelhou em frente ao Comensal e implorou como uma menina medrosa.Um idiota por ser mancomunado com sangues-ruins.-Era isso!Sem pensar duas vezes a garota largou a bolsa no chão e deu meia volta,avançando sobre o garoto que tinha falado as grosserias e arrancando o sorriso de desdém do rosto dele com um soco certeiro.

-Repete.-Bufou,o rosto vermelho de raiva e o punho manchado com o sangue do nariz quebrado do companheiro de casa.-Repete se for homem,seu projeto de Comensal!-Gritou,partindo para cima dele e começando mais uma chuva de socos e chutes.Os outros do grupo avançaram para a menina e a seguraram pelos braços,a afastando do sujeito.

-Oras sua vadia!-O sonserino levantou-se,com marcas roxas aparecendo no rosto e o nariz sangrando mais ainda,e caminhou a passos furiosos em direção a garota.

-Sr.Jones!-A voz rouca ecoou pelo corredor e o menino parou seus passos,enquanto seus colegas soltavam os braços de Dallas.-Sugiro ao senhor que vá para a ala hospitalar antes que eu lhe dê um bom mês de detenção.-Falou Snape e com um resmungo,o garoto seguiu para a enfermaria sendo acompanhado pelos seus amigos.-Srta.Winford,quero que venha comigo.-Dallas bufou mais uma vez e recolheu a sua bolsa do chão,seguindo o professor de poções até a sala deste.

-Professor,ele que…-Severo ergueu uma mão para calá-la.

-Não quero saber srta.Winford.Desde que isso não se repita.-Retrucou,indicando uma cadeira para ela se sentar,puxando outra para sentar-se ao lado dela.Dallas fez o que foi pedido e sentou-se,deixando a sua mão ser levada pela do professor,enquanto esse avaliava o punho que ganhava tons arroxeados em meio ao sangue,devido ao soco.

-Não deu para me controlar.Aquele imbecil não tinha o direito de insultar a memória de Patrick de tal maneira.Ele nem o conhecia.

-Você está se provando uma jovem difícil de se lidar,Dallas.-Snape soltou a mão dela depois de avaliar que ela tinha feito mais estragos no rosto do colega do que em si mesma,cruzou os braços e as pernas e recostou-se na cadeira em que estava.-Quando você chegou aqui,eu lembro que você era uma menina bastante calada.Mas depois daquele pedido do sr.Potter…-Ele torceu o nariz ao se lembrar da conversa que tivera com o Harry sobre a aluna trouxa em sua casa que estava tendo problemas com os colegas.-…eu resolvi ficar de olho em você e digo com um certo orgulho que você superou as expectativas.

-O que o senhor quer dizer,professor?

-Nesses dois anos de treinamentos,Dallas,você,assim como outros alunos,avançou muito nos resultados.Por isso decidimos que está na hora de você ir um pouco mais além.

-Professor?

-Vou ser sincero srta.Winford.Estamos perdendo.-Disse o mestre de Poções,levantando-se de seu assento e caminhando até um canto da sala,ficando de costas para ela.-Estamos perdendo homens,estamos perdendo aliados,estamos perdendo a esperança.Mesmo que muitos chiem em relação a isso…-E lembrou-se dos protestos de Black em relação a essa decisão.-…decidimos que está na hora de vocês deixarem de ser Agentes em treinamento,para se tornarem Agentes ativos.

-Está querendo dizer que iremos para o trabalho de campo?-Dallas abriu um sorriso e levantou-se de supetão.Era tudo o que ela queria.Agora,depois da morte de Patrick,era o que ela mais queria,combater Comensais e ver se assim conseguiria ajudar a por um fim na guerra.Como todo novo Agente tinha a esperança de fazer.

-Não tão rápido.-Snape virou-se para ela quando sentiu o entusiasmo em sua voz.Os jovens eram sempre assim,cheios de vida,isso até que viam a realidade em que o mundo estava lá fora e o brilho em seus olhos desaparecia instantaneamente.-Participará de algumas reuniões da Ordem.Ficará a par do que está acontecendo.Mas trabalho de campo são outros quinhentos.Talvez a proteção do vilarejo,algumas missões simplórias nas férias,mas nada mais.Você ainda é uma bruxa em fase escolar,e Voldemort não sabe que temos Agentes dentro do corpo estudantil,assim como ele tem Comensais.Jogar você dentro do campo de batalha será entregar o ouro a ele.E como você é a única Agente dentro da Sonserina…isso pode ser muito mais arriscado.

-Entendo.

-Isso é bom,ainda mais no seu caso.

-Que caso?-Dallas estreitou os olhos e sentou-se novamente em sua cadeira.Já tinha uma vaga idéia do que viria a seguir.

-Você acabou de perder uma pessoa querida e isso leva a alguns pensamentos e sentimentos que podem te destruir.Você ainda tem que aprender a pensar com a cabeça e não com o coração nessa guerra.

-Mas eu penso com a cabeça.-Protestou de maneira infantil.

-E quanto aquele soco no sr.Jones agora pouco?

-Aquilo foi um ato reflexo proporcionado pelo meu cérebro.Então,foi pensar com a cabeça.-Snape deu um pequeno sorriso malicioso à aluna.

-Muito esperto srta.Winford.

* * * * *

Os olhos azul-violeta miraram a mesa do outro lado do salão com uma certa tristeza.Olhá-la de longe assim,sem estar no meio daqueles alunos era um pouco deprimente.Mesmo que ela ainda possuísse muitos amigos dentro da Corvinal,sentar à mesa da casa não era o mesmo sem o Patrick.As risadas,as piadas,tudo era diferente sem ele.As caminhadas para as aulas,as brincadeiras na aula de Adivinhação,as conversas nos intervalos.Até as provocações dele sobre a sua paixão por Harry…Ah como ela sentia falta do amigo.Fazia mais de um mês que as aulas haviam recomeçado e novamente a sensação de solidão da qual ela já tinha desacostumado – desde que chegara a Hogwarts nunca mais soube o que era ser só - voltou a abatê-la.Quando estava no castelo nas férias poderia suportar a falta dele por causa dos treinamentos exaustivos.Mas assim que a rotina retornou,doía ver que nada seria o mesmo.

Percebeu que alguém sentara ao seu lado mas não virou a cabeça para ver quem era o novo integrante da mesa de sua casa,não até essa pessoa falar com ela.

-Eu também sinto falta dele.-Dallas virou-se e se deparou com a face de Tracey.Ela,com certeza,deveria sentir tanto quanto ela a perda de Patrick.Afinal,eram namorados.

-Ele foi o primeiro amigo que eu tive.O primeiro amigo em toda a minha vida.Meu melhor amigo.-Os ombros da morena tremeram um pouco e ela apoiou o rosto com uma das mãos,voltando a mirar a mesa da Corvinal.

-Está tudo bem Dally.-Tracey colocou uma mão no ombro dela.-Você pode chorar.Faz bem.

-Eu não tenho mais lágrimas para chorar Tracey.Nunca chorei em toda a minha vida e por tanto tempo.A única coisa que restou agora foi o vazio e a saudade,mais nada.E a raiva,mas isso eu não posso extravasar.

-Como não?E o soco que você deu no Jones?-Dallas voltou a mirar a garota com os olhos largos.

-Como…

-O colégio inteiro sabe.Você foi eleita a sonserina preferida de todos por causa disso.

-Tracey,eu sou a única sonserina com quem as outras casas interagem.Portanto acho que não tenho muita concorrência.

-Bem,você sabe que se precisar de qualquer coisa pode contar conosco.Você pode ter perdido seu melhor amigo,mas ainda tem amigos na Corvinal.E a nossa mesa estará sempre aberta a você…-A garota inclinou-se para sussurrar no ouvido da morena.-…até porque,é extremamente desagradável ficar aqui,no meio dessas cobras pegajosas.Sem ofensas.-Dallas riu e acenou com a cabeça para a jovem,que se levantou e voltou para a sua mesa.

O ruflar de asas interrompeu o café e muitos ergueram as cabeças para ver o correio chegar.Dallas viu Osíris planar sobre si e pousar a sua frente,beliscando um pouco de seus ovos e suco de abóbora,para depois estender a sua pata com a carta atada a ela.A jovem retirou a carta da pata da coruja e acariciou as penas dela.A ave piou alto e com uma bicada carinhosa na ponta do dedo da garota,voou para o corujal.A morena abriu a carta para ver o seu conteúdo.Havia mandado no verão uma carta ao pai dizendo o que havia ocorrido e como estava seu curso de verão em Hogwarts.Bem,o curso de verão era apenas uma fachada aos pais dos alunos para o treinamento da Resistência.Era mais seguro que quanto menos gente soubesse melhor.

Querida Dallas

Sinto pelo que aconteceu ao seu amigo,sei que você deve estar sofrendo,mas seja forte.Pois eu sei que você é uma garota forte e vai conseguir superar isso,assim como superei a dor de ter perdido a sua mãe no passado.Com o suporte daqueles que queriam o meu bem e eu tenho certeza que você tem esses tipos de pessoas olhando por você aí na escola.Continue firme e gostaria de saber se você vem para o Natal esse ano.(Quer um conselho?Melhor não,sua avó está intragável desde que você resolveu dar uma joelhada em um certo alguém.)Amor,papai.