Título: A farsa

Autora: Bélier

E-mail: belier.aries@bol.com.br

Categoria: Romance Yaoi

Retratação: Eu não possuo Saint Seiya/Cavaleiros do Zodíaco. Infelizmente (ou felizmente) eu não os possuo, pois do contrário eles teriam namorado mais do que lutado... De qualquer forma, eles são propriedade de Kurumada, Toei e Bandai.

Resumo: Para se livrar de um admirador fervoroso, Shaka pede ajuda ao seu melhor amigo.

Capítulo 4

Após deixarem a festa, Mu acompanhou Shaka até a sexta casa. Nenhuma palavra foi trocada, ambos estavam com medo de se manifestar sobre o que tinha ocorrido.

É lógico que eles podiam fazer de conta que não era nada demais, Shaka pensou, e usar a desculpa da farsa para justificar seu beijo ardente e suas carícias íntimas... Mas algumas coisas tinham ficado bem claras durante a festa.

Primeira: Mu tinha ciúmes dele, pela maneira como reagira diante da investida de Saga.

Segunda: Mu sentia-se atraído por ele. Fingir um beijo era fácil. Fingir "aquele" beijo, definitivamente, não era.

Terceira: Droga, - ele - estava atraído por Mu. Agora mesmo seu corpo queimava de vontade de voltar aos braços quentes do amigo. Beijá-lo tinha sido a coisa mais deliciosa que já experimentara em toda a sua vida, como seria então tê-lo em sua cama, só para si? Enrubesceu ao pensamento, virando o rosto para que Mu não notasse.

O que ele deveria fazer, agora?

Enquanto isso, Mu caminhava ao seu lado, também absorto em pensamentos.

Ele nunca imaginou que aquilo pudesse acontecer com os dois. É claro que sempre gostara da companhia de Shaka, mais do que de qualquer cavaleiro do Santuário, desde quando lá chegara, ainda criança. Mas daí a protagonizar uma cena dessas com o amigo existia uma grande diferença.

Ou talvez não. Mu deveria ter percebido antes que o contato com Shaka sempre fora fácil demais para ele: abraçá-lo, tocá-lo... Beijá-lo foi apenas um passo mais longo. Seu coração disparou ao se lembrar de como Shaka havia reagido ao seu beijo e a suas carícias. Ele tinha certeza agora de que o amigo estava gostando daquele jogo tanto quanto ele. O único problema seria convencê-lo disso...

Ao chegarem à casa de Virgem, o desconforto dos dois cavaleiros aumentou. Shaka parou no meio do templo escuro, sem saber o que dizer. Mu observou o rosto do loiro na penumbra, e ergueu uma das mãos, hesitante, para tocá-lo, ansiando loucamente por um beijo de boa-noite. Para o seu desapontamento, Shaka afastou-se ligeiramente, desviando-se do seu toque, e ele abaixou a mão, frustrado.

- Boa noite, Mu. - Shaka disse, sua voz traindo seu nervosismo.

Mu suspirou. Sua vontade era segurar o loiro e roubar-lhe o beijo que tanto queria, pois sabia que ele ia corresponder. Mas não ia fazer isso, primeiro, pela consideração que tinha pelo amigo, e depois, por não saber se ia conseguir ficar só no beijo...

- Boa noite. - Virou-se rapidamente e saiu do templo, antes que mudasse de idéia.

Shaka observou-o partir, e sentiu um grande vazio. Seu corpo reclamava, insatisfeito, ao passo que sua mente tentava convencê-lo de que era melhor assim.

Mu, por sua vez, começou a descer as escadas, chateado. Como ele pôde deixar a situação chegar naquele ponto? Shaka procurava fugir de um tarado inconveniente, e agora ele demonstrava a mesma fixação de Saga pelo belo loiro. A única diferença nessa história era que Shaka parecia aceitá-lo melhor do que ao cavaleiro de Gêmeos, mas isso não significava que Virgem queria se envolver com ele.

Mu atravessou a quinta casa despreocupado, sabendo que Aioria e Marin ainda estavam na festa. Em tempos de lutas, era extremamente proibido atravessar as casas sem se anunciar, da mesma forma que era proibido o protetor da casa abandoná-la, mas como estavam em épocas de paz, a coisa havia relaxado um pouco.

Ao chegar à casa de Câncer, entretanto, Mu passou vergonha, e teve certeza de que deveria ter se anunciado, antes de entrar... Pegou Afrodite e Máscara da Morte em uma situação extremamente comprometedora. Máscara estava sentado sobre uma coluna caída (resquícios de lutas passadas...) e Peixes estava no seu colo, já sem camisa. O pior de tudo foi que os dois, tão envolvidos que estavam, não notaram sua presença, e continuaram se beijando e se acariciando.

Mu ficou tão sem graça, que não sabia o que fazer. Para passar direto, tinha certeza de que ia ser notado. Para retornar, Shaka ia achar que ele tinha mudado de idéia (não que ele não quisesse voltar...).

Felizmente, Afrodite resolveu o impasse, pressentindo o cosmo de Áries. Interrompeu o beijo, assustado, e olhou a sua volta, deixando Máscara sem entender nada. Logo avistou Mu, hesitante na porta do templo.

- Mu!!! Tenha dó, você deu de ficar espiando os outros agora?!? - Afrodite cobriu o tórax com os braços, como se tivesse alguma coisa para esconder.

Máscara da Morte ficou mais bravo ainda, por ter seu segredo descoberto. Afinal, todo mundo sabia que Afrodite vivia atrás dele, ninguém sabia era que ele correspondia... - Droga, Mu, o que é que você tá fazendo aqui, afinal de contas?!? Não ficou lá com o seu amante, não?!? Eu tinha certeza que ninguém mais ia passar por aqui, hoje!!!

Afrodite, se recuperando do susto, falou maliciosamente. - Que foi, hein, o loirinho está se fazendo de difícil, é? Não acredito que ele não quis dormir com você, depois daquele beijo, lá na festa... Apesar de nós não termos ficado pra ver até o fim, vocês estavam bem animados quando saímos...

Mu não sabia onde enfiar a cara. Além da vergonha de ter pego os dois companheiros em flagrante, ainda teve que escutar umas verdades. Sem perder mais tempo, atravessou rapidamente o templo, desculpando-se. - Sinto muito, já estou saindo... Podem continuar o que estavam fazendo...

Mu sumiu pela entrada do templo, o mais rápido possível, não sem antes escutar o último comentário de Peixes, dirigido a ele.

- Tolinho, você devia ter encostado o Shaka na parede... Ele não ia resistir por muito tempo! - Afrodite riu alto, fazendo Máscara da Morte ficar envergonhado, também.

- Pára com isso, seu escandaloso! - Máscara chamou a atenção do outro.

- Sou escandaloso, é?! Vem me fazer parar, então, vem...

Mu ficou mais chateado do que já estava. Primeiro, por saber que Afrodite estava certo. Ele é que não teve coragem suficiente para arriscar uma chance com Shaka. Afinal, até mesmo Máscara da Morte, machão que era, tinha aceitado as investidas de Afrodite. Segundo, por ser a próxima casa a de Gêmeos, e ele não estava com um bom pressentimento.

Ao se aproximar da terceira casa, Mu teve certeza de que alguma coisa ia acontecer. Saga já havia pressentido o seu cosmo, e esperava-o na saída do seu templo.

- Ora, ora, então eu não me enganei, é você mesmo que vem vindo, Áries... O que aconteceu, Shaka dispensou seus serviços?

Mu tentou se manter calmo, mas o sangue já estava começando a lhe subir à cabeça...

- Olha, Saga, acho bom você deixar o Shaka em paz. O que eu e ele fazemos não é da sua conta.

- É da minha conta, sim, se eu achar que estou sendo enganado!

- E porque você insiste nisso, hein? Você sabe que estamos juntos. - Mu respondeu, nervoso. Os dois cavaleiros já estavam se enfrentando cara a cara, nesse ponto da conversa.

- Se vocês estão juntos, o que você está fazendo aqui? Porque não está lá com ele, hein? - Saga respondeu, querendo provocar mais ainda o pacato cavaleiro, para ver se conseguia arrancar alguma coisa.

- Porque simplesmente não sou um tarado como você! - Mu encostou o dedo em riste na cara do outro. Saga estava quase conseguindo o que queria: tirar Mu do sério.

- Ora, seu... Vou te mostrar uma coisa! Vou acabar com você! EXPLOSÃO GAL...

Antes que Saga pudesse desferir seu golpe, levou um belo soco na cara. Apesar do outro cavaleiro ser bem mais alto, Mu não teve dúvidas: fechou a mão e deu com força. Saga chegou a cair sentado no chão, devido ao impacto. Ele olhou surpreso para Áries, esfregando o queixo. Nunca imaginou que o outro fosse fazer isso.

Mu respirava fundo, tentando se acalmar. - Não estou a fim de brigar com você, Saga, mas se tiver que acontecer, vamos lutar como homens normais, nada de golpes especiais! - Ele se colocou na defensiva, observando a reação do cavaleiro de gêmeos, que se levantou lentamente.

- Se é isso que você quer... Vamos ver quem pode mais, então! Quem ganhar fica com o Shaka, que tal?

- De modo algum! Você está pensando que ele é algum objeto para ser disputado assim?! - O comentário infeliz de Saga deixou Mu fora de si.- Não vou desistir dele de forma alguma! - E avançou para cima de Saga, que era grande, mas não era dois...

Nesse momento, chegou Aldebaran, bufando como um touro. Assim que pressentiu as cosmo-energias se chocando, ele subira para o templo de Gêmeos o mais rápido que seu enorme corpo lhe permitia. Desde o confronto entre Mu e Saga durante a festa, ele tinha ficado alerta, achando que não ia ficar só naquilo. E ele tinha razão! Chegou a tempo de plantar suas enormes mãos no peito dos dois cavaleiros, impedindo-os de continuarem.

- Droga, vocês dois, parem já com isso! - Aldebaran, que já tinha virado o separador oficial de brigas do Santuário, já estava acostumado a lidar com essas situações... Ele só nunca imaginara ter que segurar Mu... O que o amor não fazia... - Vocês não têm vergonha, não?

- Foi ele que começou, Aldebaran! - Mu se defendeu, irritado com a interrupção.

- Eu imagino, Mu... Agora, vai embora, vai, que eu converso com o Saga, tá? - Aldebaran implorou com o olhar que Áries fizesse o que ele estava pedindo.

O discernimento de Áries pareceu falar mais alto do que sua ira. - Eu vou, mas que ele fique avisado: Shaka é só meu! Não se atreva a incomodá-lo de novo! - e foi embora relutantemente, querendo ainda uma chance de acertar Saga mais uma vez.

Ao ficarem sozinhos, Aldebaran soltou Gêmeos. - Eu acho melhor você fazer o que o Mu disse e desistir do Shaka, Saga. Se ele quisesse ficar com você, ele ficaria, você não acha que é besteira ficar se humilhando?

- Não tenho tanta certeza assim de que os dois estejam juntos... - Saga ainda insistiu.

- Não seja tão cego assim! Todo mundo percebeu que os dois começaram com uma brincadeira, e acabaram perdendo o controle... Está na cara que eles se gostam, você não vê? - Aldebaran não se conformava que Gêmeos fosse tão egocêntrico, ao passo de não perceber o que acontecia ao seu redor.

- Você acha? - Saga perguntou, desconfiado.

- Claro! Esses dois estão comprometidos desde o dia em que chegaram ao Santuário, só demorou um pouco para eles descobrirem...

Saga acabou concordando. Aldebaran passou um braço pelo ombro do amigo. - Escuta, você não tem nada aí não no seu templo pra gente beber? Sei que você deve estar a fim de afogar as mágoas, e me deu a maior sede de vir correndo até aqui!

Saga acabou rindo do cavaleiro de Touro. - Você não tem jeito mesmo, sempre pensando em bebida!

- Cada um com o seu vício, meu caro... - O outro respondeu, divertido.

Continua