Capítulo 10 - Começar novamente
..
1 mês depois
Um mês tinha se passado desde que o portal para o Mundo Invertido foi selado, o que significava que Sam estava há mais de trinta dias longe de seus familiares. Neste meio tempo muita coisa tinha mudado, o Laboratório de Hawkins foi fechado e responsabilizado pela morte de Barbara Holland, o que não era uma inverdade já que eram sim os culpados por toda aquela bagunça. Hopper, com suas conexões, tinha conseguido uma certidão de nascimento e agora Eleven era legalmente Jane Hopper, sua filha; a menina, no entanto, ainda preferia ser chamada de El. Na noite em que o documento foi mostrado o trio fez uma pequena comemoração.
Sam continuava na cabana vivendo do favor do delegado. Eles continuariam com a mentira dela ser sua sobrinha até encontrarem um jeito de mandá-la de volta para casa, aparentemente apenas Joyce Byers conhecia Hopper o suficiente para questionar aquela ligação vinda do nada. Seu segredo continuou seguro apenas entre eles, enquanto não descobrissem o que estava acontecendo era melhor manter o silêncio. Ações imprudentes poderiam destruir o futuro como o conhecia. Não apenas casa e comida, agora tinha algumas roupas novas também. Era impossível dizer que estava acostumada com a nova vida, porém parou de relutar com tanto afinco. Acabou sendo um sentimento sazonal, às vezes explodia se sentindo injustiçada, perdia toda a fé em voltar para casa e se perguntava porquê ela entre tantas pessoas, em outros momentos corria até a biblioteca da cidade para pesquisar teorias sobre máquinas do tempo crente que conseguiria montar uma.
Suas tardes eram gastas ensinando El a ler e a escrever, sua habilidade de fala tinha melhorado muito com os exercícios diários. Além disso Hopper tinha admitido os mais novos na cabana agora que a menina não era mais um segredo, então após o horário de aula era normal que Mike, Dustin, Lucas e até Will estivessem lá. A mais nova adição ao grupo era a zoomer Max Mayfield, ela e Eleven tinham se resolvido e aparentemente era daquele ponto em diante que sua amizade começava. Crianças tinham dramas de ciúmes às vezes não tão diferentes dos que os adolescentes tinham, mas o que fez Sam se divertir com a história foi a garota ruiva afirmar com veemência que: "Nem ferrando eu me interessaria por Mike Wheeler! Ele tem cara de idiota". A única parte que a menina estava esquecendo era que o amor era cego, logo ela se apaixonaria por um garoto idiota como tantas antes dela.
Sentindo que podia fazer algo diferente, Sam pediu a autorização de Hopper para organizar a primeira festa do pijama para Eleven, depois de uma infância roubada achava que ela merecia passar por experiências que jovens normais tinham. A festa seria apenas com as três garotas, ainda assim o sorriso de orelha a orelha que recebeu fez o evento parecer algo maior do que realmente era. É claro que foi preciso que ela fosse até a casa dos Hargrove pedir a autorização para Max passar a noite de sábado em sua casa. Susan a recebeu com alegria aceitando sem pestanejar sua história de meias verdades. Foi quando estava saindo que ouviu uma voz masculina gritando uma pergunta de outro cômodo.
"Susan onde está aquele inútil?"
"Neil…", a mulher tentou argumentar parada em frente a porta com Sam. Neil, sabia que conhecia aquele nome.
"Não. Aquele menino nunca faz nada além de perder tempo com vagabundas. Billy vai me ouvir quando chegar em casa."
"Neil nós temos…", o homem apareceu. Olhar sério, bigode generoso e lábios crispados. Sua expressão suavizou assim que a viu. "visita."
O momento foi constrangedor, depois da rápida apresentação se despediu indo andando até a delegacia em busca de Hopper. Antes de partir ainda pôde ouvir a voz séria por trás da porta fechada dizendo que até Max fazia amizades mais decentes do que o filho, que a sobrinha de um delegado era bem melhor do que vadias no cio. Tanto a postura quanto o linguajar do homem a enojaram, nada justificava Billy aterrorizando as crianças, porém com um pai daqueles era melhor mesmo que Lucas e os outros garotos ficassem o mais longe possível.
A noite de sábado foi barulhenta e cheia de risadinhas, o delegado provavelmente nunca mais deixaria algo como aquilo acontecer novamente. Max tagarelava incansavelmente sobre sua semana na escola, as coisas idiotas que os garotos faziam e o Baile de Inverno que estava se aproximando. Quando El saiu para ir até o banheiro a menina se aproximou de Sam.
– Eu queria te agradecer.
– Pelo quê? – perguntou curiosa.
– Pelas suas palavras. Sei que quando você me disse para enfrentar o Billy era no sentido figurado, mas no final deu certo.
– Então ele não te incomoda mais?
– Não. Temos nos ignorado bastante em casa.
– Então ele não anda mais tão irritado? – estava realmente curiosa em como ele estava seguindo depois dos últimos acontecimentos, muito da raiva dela tinha passado naquele um mês desde a casa dos Byers sobrando apenas decepção.
– Isso continua. Ele tem discutido bastante com o pai dele e... – Sam percebeu o tremor no lábio inferior dela durante o momento de hesitação. – Bom, é o Billy. Ele nunca faz o que as pessoas esperam dele de qualquer forma, ao menos nossa convivência está melhor.
El voltou para o quarto interrompendo a conversa. No resto da noite Sam ficou com a mente dando voltas, Billy ainda era uma incógnita que a intrigava mesmo depois de conhecê-lo pessoalmente.
A noite do Baile de Inverno tinha chegado, Hopper conseguiu burlar as próprias regras para que a filha pudesse participar. Sam tinha ajudado El com roupa, cabelo e maquiagem. A menina estava linda, provavelmente faria o coração de Mike errar muitas batidas. O delegado estacionou o carro próximo de onde a Sra. Byers estava parada indo até ela.
– Vem, vamos – Sam ofereceu a mão para a menina como forma de apoio.
– Será que ele vai gostar? – Eleven perguntou timidamente enquanto andavam em direção a entrada do ginásio onde o baile estava acontecendo.
– Só se ele for um bobão para não gostar.
– Bobão?
– Sim. Uma pessoa boba, que é idiota. Só alguém assim não te acharia bonita.
A menina ainda estava hesitante quando a deixou na porta. Se virando para voltar onde Hopper estava viu Steve dentro de um carro encarando a entrada, seguindo seu olhar encontrou Nancy. Um dia bom para o romance de alguns e péssimo para outros, dando de ombro decidiu ir até ele para cumprimentá-lo.
– Olá, babá Harrington. Trouxe qual dos pastinhas? – perguntou chamando atenção quando se aproximou da janela abaixada.
– Ei, babá Scott. Vim com o Dustin, o garoto precisava de algumas dicas.
– Ah, é claro. Noite do baile, garotas…
– Mais ou menos isso – Steve fez uma cara séria que não durou por muito tempo. – Não, é totalmente isso, garotas. E você? Eleven?
– Ela mesma. Foi aberta uma exceção essa noite.
A conversa morreu quando ouviram o som de uma porta de carro sendo fechada. Não foi como se a pessoa a tivesse batido com força, só que estava tão silencioso no estacionamento que seria difícil não ouvir. Olhando por entre os carros viu os inesquecíveis cabelos encaracolados cor de areia naquela parte.
– A Max deve mesmo ter botado medo nele – Steve comentou.
– Você acha?
– É isso ou a experiência bizarra com o Mundo Invertido teve o mesmo efeito nele que teve em mim no ano passado. Uma coisa é certa, meus treinos de basquete estão bem mais fáceis – percebendo que estava divagando o adolescente chacoalhou a cabeça. – Preciso ir. Foi bom te ver.
– Steve – chamou assim que ele fez o motor funcionar. – Você é um garoto legal.
Seria estranho simplesmente dizer "quem perdeu foi a Nancy" então um elogio aleatório não deveria fazer mal. Ele realmente era uma pessoa legal além de confiável, existia alguém, em algum lugar no mundo, que estava disposto a amá-lo com a sua mesma medida de entrega.
– Você também, Sam – com um aceno ele saiu do estacionamento indo embora.
Sam também deveria encontrar seu caminho, voltar para seu guardião e esperar que a noite mágica dos pirralhos acabasse. Mas havia aquele peso em seu coração que a deixava inquieta, algo que a impulsionava a fazer o que era certo, não o que era fácil. Suspirando alto foi em direção a fumaça que via subir para o céu noturno. Encontrou Billy escorado em seu carro, jeans apertados, camisa azul, um cigarro entre os dedos e um rock baixo saindo de seu rádio. Ele pareceu surpreso ao vê-la se aproximar, o que era normal depois da forma como se separam.
– Você curte Metallica – admitia que às vezes ela era saudosista, antigos diálogos simplesmente explodiam em sua mente e vazavam por sua boca. Há não muito tempo estavam dentro daquele carro discutindo AC/DC, mas parece que foi em outra vida.
– Surpresa? – a pergunta veio acompanhada de uma nova baforada de fumaça.
– Nem um pouco. Metallica se parece com você.
– Não são apenas músicas com noites selvagens de sexo que me representam.
Foi impossível não engolir o nó que sentia apertar sua garganta. Ride the Lightning tinha uma sonoridade boa, porém uma letra que não deveria representar ninguém.
– Não está mais com raiva de mim? – a pergunta dele veio à queima roupa. Os olhos claros de Billy a encararam em uma expressão difícil de ser lida.
– Um pouco, e decepcionada.
– E por que veio até aqui? – a pergunta foi genuína, não havia deboche ou censura, apenas a curiosidade de quem sabia que estava errado misturada ao falso tédio de quem fingia estar acostumado a ser deixado para trás.
– Por que não vir? – agora Sam virou todo seu corpo na direção dele, se estava fazendo aquilo então que fosse da maneira certa. – Sobre aquela noite eu continuo não concordando com o que aconteceu, mas não acho que raiva é a melhor forma de lidar.
– Não poderia te culpar se decidisse me odiar, eu nunca faço nada direito de qualquer forma – uma nova baforada de fumaça foi lançada para o alto, o cigarro já quase queimando o filtro.
Por mais que as palavras tenham sido ditas por ele, parecia que tinham saído de outra pessoa. Uma mais grosseira e de bigode, a pessoa que julgava e condenava com punhos de ferro. Não existia misericórdia naquela sentença. Sam poderia argumentar dizendo as coisas certas que ele fez no último mês, sendo a maior delas salvar a humanidade do caos total, mas para uma pessoa que não queria ser conhecida como herói seriam palavras desnecessárias.
– Não está na minha natureza odiar as pessoas, muito menos você. Não precisa de mágoas, raiva ou dedos apontados. Não é como se estivéssemos no Velho Oeste e Hawkins fosse pequena demais para nós dois – brincou tentando aliviar o clima pesado. Billy parecia totalmente aberto para o que ela escolhesse e se dissesse que não queria mais vê-lo assim seria, sabia disso porque no último mês ele não a procurou em momento nenhum depois da última discussão.
– Até porque eu seria expulso da cidade, você é a sobrinha do xerife.
– É, mais ou menos isso – ignorando a música que saía do carro bateu com o pé no chão ao ritmo de Cyndi Lauper que tocava dentro do ginásio. Era hora de mostrar que se ele ainda tivesse uma bandeira branca estendida iria aceitá-la. – Passamos por coisas o suficiente para sermos amigos, certo?
Billy jogou a bituca de cigarro no chão pisando na ponta para apagar, se virou para ela e apoiou o cotovelo no teto do carro. A aparência desleixada se intensificou quando ele tombou a cabeça para o lado.
– Aceito a proposta de amizade – o sorriso que ele abriu repuxou o canto esquerdo da sua boca, era o sorriso ferino que conviveu durante todo o tempo em que passaram juntos. – Mas que fique claro que ainda quero descobrir o seu gosto, Samantha. De um jeito que amigos não deveriam saber.
De certa forma não podia dizer que estava chocada. Pega de surpresa sim, porém as investidas descaradas faziam parte de quem ele era e por este motivo sua risada saiu alta. Sam precisou colocar a mão na barriga e secar uma lágrima dos olhos antes de conseguir se controlar novamente.
– Continua rindo – Billy arqueou uma sobrancelha. – Quando você perceber que está louca por mim já vai ser tarde demais.
– Como você quer que eu não ria? – perguntou jogando a cabeça para trás, agora que tinha resolvido aquela questão sentia seu coração mais leve. – Se bem que não seria você se desistisse assim tão fácil. Nunca mude, Billy Hargrove, apenas quando for para ser a melhor versão de você.
Uma nova melodia começou no ginásio enquanto no carro Matallica contrastava com tons mais pesados. O garoto se afastou do automóvel estendendo uma mão para a Sam.
– Que tal uma dança?
– Sério? Ao som de uma música chamada Creeping Death? – não que ela fosse recusar a oferta, só que aquela não era a melhor música para dançarem no meio de um estacionamento durante a noite.
– Lá dentro está tocando uma música mais calma – a réplica de Billy veio acompanhada de uma sobrancelha arqueada enquanto ainda mantinha a mão estendida.
– Ah, qual é, Every Breath You Take é bizarra. O cara não passa de um perseguidor esquisitão.
Ambos estavam rindo agora. Por mais que a música da The Police soasse bonita, a letra era mesmo um pouco perturbadora. O que será que Sting tinha na cabeça quando a compôs?
– Você é mesmo dura na queda, mas eu também não desisto fácil – se virando para o carro, Billy abriu a porta do passageiro entrando com metade do corpo. Por cima de seus ombros o viu pegar uma fita cassete no porta-luvas, colocar no tocador e voltar para fora. Still Loving You começou a soar. – Melhorou?
– Eu nunca digo não para Scorpions – dessa vez ela aceitou a mão estendida com um sorriso nos lábios.
Cada movimento dele era calculado para encantar, para flertar. Os dedos masculinos correram por seus braços cobertos por uma blusa de lã direcionando suas mãos até seu pescoço. Sam prendeu os dedos atrás da nuca dele sentindo os cachos fazerem cócegas na sua pele, as mãos de Billy foram até o seu quadril mantendo pressão o suficiente para guiar seus passos. Havia certa ironia na escolha da banda, era Scorpions que ela estava ouvindo quando encontrou Max no transe do Vecna em 1986 e era Scorpions que ouvia agora com o seu meio-irmão. Não parecia ter alguma ligação profunda com a viagem no tempo, entretanto era curioso. Relaxando os braços viu o exato momento em que ele se encolheu parecendo sentir dor, a gola da camisa se mexeu alguns centímetro e com dificuldade pôde ver uma mancha escura na pele bronzeada. Seria um hematoma?
– Desculpa – pediu parando os movimentos e retirando as mãos.
– Não foi nada – diligentemente Billy voltou a pegar suas mãos, agora ao invés da nuca as posicionou em seu peito. A nova posição na dança os deixou ainda mais próximos um do outro, estava presa em seu abraço e isso estranhamente não a assustava.
Deitando a cabeça no peito dele sentiu um alarme soar na sua cabeça. Se fosse realmente um hematoma estava fresco demais para ser dar noite em que o portal foi selado, não era obra de democães, vinhas ou do Steve. Um calafrio subiu por sua espinha com o rumo dos seus pensamentos. Enquanto isso, Billy apenas sussurrava a letra que embalava os seus movimentos, havia muito mais sobre ele do que a superfície rasa demonstrava. Quem sabe ela conseguisse descobrir antes de voltar para casa?
..
Olá, pessoal.
Ok, o Billy entrou para a minha listinha de "personagens que não valem nada, mas que tenho uma queda" e não tenho nem como me defender disso hahaha
Esse é o fim da primeira parte de Perdidos no Tempo e por enquanto vou deixar a estória como concluída, a segunda parte já começou a ser escrita e assim que tiver um bom número de capítulos começarei as postagens. Ela vai se passar um pouco antes da terceira temporada indo até o final dela, assim como essa pretendo mudar algumas coisas, manter outras e quem sabe devolver a Samantha para o tempo dela? Espero que tenham gostado até aqui e nos vemos em breve.
* A segunda metade será postada aqui dentro também.
