Era difícil continuar, mas ainda havia pessoas e vidas que tinham valor em todo o universo. Por isso, Sigyn focava em um dia de cada vez, encontrando nos filhos e no trabalho sua razão para continuar. Ver Nova Asgard prosperando também era gratificante. Ainda assim, ela tinha que encontrar sua maneira de honrar seus mortos.

-A história que eu vou contar hoje é como o seu pai me tirou para dançar num grande banquete para honrar nossos guerreiros - começou Sigyn mais uma vez, contando histórias de Loki, Asgard e o que um dia tinha sido tudo isso, aos seus meninos, que agora já tinham quatro anos de idade.

Sigyn construía elaboradas figuras mágicas toda vez que contava suas histórias, se concentrando na figura marcante do marido, seu andar elegante e esguio, o rosto fino e astuto, o cabelo escuro esvoaçando ao vento, suas mãos precisas conjurando magia. Não queria que Narfi e Vali esquecessem como era o rosto do pai.

Os meninos ficavam atentos à história e naquela ocasião em especial, receberam um convidado a mais, inusitadamente. A porta foi batida na calada da noite, deixando Sigyn alerta.

-Eu volto para terminar a história, só fiquem aqui, quietinhos - ela recomendou aos filhos.

Ao abrir a porta se deparou com quem menos esperava no momento, mesmo assim, não era uma surpresa tão grande vê-lo ali.

-Olá, Thor, o que faz por aqui? - ela foi gentil e prestativa como sempre, apesar de cansada do dia cheio que teve.

-Não conseguia dormir, já faz um bom tempo que isso acontece - ele se explicou rapidamente.

Sem esperar convite, foi entrando a passos lentos na casa da cunhada, ela o compreendeu, vendo claramente como ele andava abatido, embora tentasse disfarçar, fosse jogando ou comendo. Tirá-lo desse estado era um verdadeiro desafio, Sigyn tinha perdido as contas de quantas vezes tinha tentado fazer com que ele reagisse, mas entendia que era difícil. Talvez ele procurá-la daquela maneira repentina fosse um bom sinal.

-Tem pesadelos com ele? - ela tocou diretamente no assunto, mesmo tentando ser delicada.

-É, você não estava lá, não faz ideia do quanto foi doloroso, eu sei que dói muito, a perda é igual pra nós dois, mas ver a vida dele se esvair na minha frente sem que eu pudesse fazer nada, num conflito em que não estávamos um contra o outro, isso me assombra, eu... o vinguei, mas ainda há esse tormento na minha cabeça - ele confessou o que estava acontecendo.

-Entendo, quer dizer, você tem razão, eu não vi, e ouvir você falar disso me faz imaginar como aconteceu de uma maneira ainda pior, se isso é possível, mas sabe o que me consola? Ele morreu tentando fazer a coisa certa afinal de contas, tentou defender seu povo como pôde e, por mais que doa, ainda ficam as lembranças boas - Sigyn tentou se apegar ao que ainda era bom sobre Loki, mesmo com sua ausência, consolando tanto o cunhado como ela mesma.

-Lembranças boas, será que isso é possível com o Loki? - Thor deu uma risada amarga.

O som de sua voz despertou seus sobrinhos, que decidiram meio que desobedecer a mãe e irem checar se seu visitante era mesmo seu tio.

-Meninos, eu disse para vocês esperarem! - Sigyn disse depois que os viu correr até a sala.

-Nós ouvimos o tio Thor, queria ver se era ele mesmo - Narfi se justificou.

-Tudo bem, acho que podem ficar - ela decidiu.

-Ah não foi minha intenção perturbar a hora de sono de vocês, sabe, meninos, é muito importante dormir bem, é bom vocês fazerem isso - Thor recomendou, sabendo bem do que estava falando.

-Não podemos dormir enquanto não ouvirmos uma história - Vali cruzou os braços e exigiu.

-Ah ok, eu posso contar uma das minhas histórias, o que querem ouvir? Quando enfrentamos os guerreiros em Alfheim? - ele sugeriu seu próprio repertório.

-Não, mamãe estava contando sobre o papai, sobre um banquete e um baile, algo assim - Narfi mencionou,

-É o baile que estou pensando? - Thor olhou de relance para Sigyn, para confirmar se se tratava realmente disso, ela apenas assentiu e deixou que ele prosseguisse - bom, estávamos em festa nos salões de Asgard, os mais dourados que podem imaginar, eu e seu pai e a sua mãe também éramos mais jovens, mas o seu pai sempre amou muito a sua mãe e esse dia ele ficou muito irritado.

-Irritado por que? - Vali quis saber.

-Um outro rapaz foi mais rápido que ele em me tirar para dançar e ele ficou bravo com isso - Sigyn explicou rapidamente, com medo da versão que Thor poderia contar, não precisava que os meninos soubessem que ela já tinha gostado de outro, ou ao menos, era isso que ela pensou na época.

-E ele acabou te chamando pra dançar do mesmo jeito - Narfi entendeu.

-Pra vocês verem como o pai de vocês era insistente quando queria uma coisa, quase ninguém podia fazê-lo mudar de ideia - Thor acabou deixando transparecer um sorriso leve com a lembrança.

-Talvez você conseguisse - Sigyn reforçou, acreditando nisso.

-Eu? Depois de muito custo, sabe que ele tinha os próprios planos dele, sobre tudo - Thor reclamou, ainda mantendo o mesmo sorriso.

-Mesmo assim, ele amava nós dois, nós quatro - ela reafirmou, sabendo que era verdade.

-Éramos a família dele, mesmo que demorando pra ele perceber isso - Thor concordou.

-O papai era alguém ruim? Vocês ficaram tristes falando dele - Narfi comentou, percebendo o sentimento aparente nos adultos.

-Não, meu amor, não é isso - Sigyn tentou explicar.

-De jeito nenhum, é que todos nós podemos cometer erros, alguns mais, outros menos, mas o fato é que amamos o seu pai e vamos sempre amar, ele estando aqui ou em Valhalla -seu tio esclareceu, claramente emocionado.

-É bom vocês contarem sobre ele, parece que a gente conheceu ele, de algum jeito - observou Vali.

Seu tio e sua mãe trocaram um olhar emotivo, era exatamente a intenção dela com todas essas histórias, Talvez se agarrar às boas lembranças era a melhor maneira que encontraram de superar o luto e manter Loki vivo, através de suas histórias.