J~L


I had no choice but to hear you

Eu não tive escolha a não ser ouvir você

You stated your case time and again

Você apresentou o seu caso várias vezes

I thought about it

Eu pensei sobre isso

You treat me like I'm a princess

Você me trata como uma princesa

I'm not used to liking that

Eu não estou acostumada a gostar disso

You ask how my day was

Você pergunta como o meu dia foi

(Alanis Morissete - Head over feet)


Sua pequena mochila já estava preparada desde o dia anterior. Quando James deu a ideia de viajarem ao fim do jantar de ontem, ela simplesmente subiu para o quarto, desfez sua mala de Leeds e preparou uma mochila em tempo recorde. Parecia que quanto mais rápido tudo ficasse pronto, mais rápido ela partiria com ele. Mas que ledo engano.

A sexta-feira passou rastejando. James estava suspenso de Hogwarts até a próxima semana, então nem no café da manhã o viu. Geneviève os levou, mesmo James dizendo que poderia passar e levar os irmãos, mas a mãe estava contente em poder fazer aquilo. Segundo ela, "faz tanto tempo que não levo os meus filhos para a escola, que será uma nostalgia incrível".

Godric 's Hollow seria uma ótima surpresa, pois nunca teve o prazer de ir. A família Potter tinha uma casa no vilarejo a oeste da Inglaterra e Sirius já havia descrito o lugar como cheio de colinas, um centro pitoresco e pequeno, além de ser bem frio por conta da umidade das florestas ao torno. A piscina que os garotos se divertiam tantas vezes só ficava na imaginação de Lily, mas dessa vez ela poderia descobri-la com seus próprios olhos.

Olhou o relógio: 21h50. Seus nervos pareciam gritar. A mensagem de James no fim da tarde dizia que ele estaria ali às 22h. Esfregou as mãos juntas, querendo se acalmar.

Pegou a mochila, sua bolsa e celular, e foi até o quarto do irmão.

- Vocês têm um horário um pouco bizarro para se encontrarem para um fim de semana. - Sirius comentou quando abriu a porta e encontrou a irmã pronta para ir. - Tem certeza que vocês não querem que eu as leve em algum lugar? Eu já posso dirigir.

- Você é um amor quando quer, mas não precisa. Alice já está chegando. - Ela deu um beijo estalado na bochecha dele. - Só passei para dar tchau. Te vejo no domingo.

- Que horas você volta no domingo? - Ele perguntou se encostando no batente e cruzando os braços.

- Você me verá quando me ver, querido. - Ela enviou um beijo no ar. Sirius respondeu com uma careta.

- Estou indo para Oxford amanhã de manhã, mas vou estar aqui no fim de tarde de domingo.

- Então aproveite. Esqueça Londres e os problemas, e aproveite com Marlene.

Sirius deu um sorriso de lado e assentiu.

- Está nos meus planos.

- Ligue para Marlene neste exato momento, então. Diga que você irá nos primeiros raios de sol amanhã e vocês terão um bom café da manhã juntos...

- Na cama.

Ela revirou os olhos.

- Isso já não me interessa. - Ela resmungou. - Mande um beijo para a mamãe quando ela chegar.

- Pode deixar.

Passou na cozinha e pegou todos os remédios. Imaginava que não precisaria de muleta, então saiu de casa com tudo o que precisava. O quarto de Sirius ficava virado para os jardins de trás, então sabia que ele não poderia espiar dali. Além do mais, tinha certeza que ele estaria em uma conversa importante com Marlene naquele momento.

Saiu rapidamente pelo portão. No mesmo instante, os faróis de um carro acenderam a alguns metros distantes e o motor do carro de James foi o único ruído na rua. Ele se aproximou bem devagar, os pneus quase não fazendo barulho algum com o asfalto. Sem perder tempo, ela abriu a porta e jogou sua mochila para trás, entrando o mais rápido que podia, enquanto James olhava pela janela, tentando checar se ninguém espiava da casa.

- Oi! - Ela o cumprimentou com a maior felicidade do mundo. Aquilo era tão excitante que mal cabia em seu peito.

- Oi! - James respondeu baixinho e se aproximando dela, arrancou um beijo leve, mas cheio de promessas. - Está pronta?

- Desde que cheguei de Hogwarts.

Ele a beijou novamente. Era arriscado o que faziam, mas parecia que não existia nada mais no mundo, além deles naquele carro.

- Eu estou aqui há 15 minutos. Só pensava em pegar o carro e vir para cá o dia inteiro.

- Por que não me avisou? Eu fiquei enrolando esse tempo todo.

- Não queria te apressar. Eu sei que voce tem que fazer exercícios na piscina quando volta e teria que arrumar uma mala.

- Eu não fiz os exercícios hoje, não tive tempo por ter que enviar revisões para os professores.

- A piscina em Godric's Hollow vai estar pronta para você fazer, então.

Se afastaram da casa e, a partir daquele momento, não havia nada mais do que liberdade. Estava no carro de James novamente, apenas eles, a caminho de um fim de semana sozinhos. Como ela poderia imaginar aquilo algumas semanas atrás?

Olhou para ele, concentrado no trânsito, sempre tão bonito de um jeito que ela não entendia como nunca a balançou como balançava agora. Como nunca prestou atenção, como nunca caiu por ele antes?

- Se continuar me olhando desse jeito, eu vou ser obrigado a parar. - Ele disse dando uma rápida olhada para a ruiva. - Se comporte.

- Eu sempre me comporto.

- Não, você nem sempre se comporta, Lily Evans. Esse carro é testemunha do seu mau comportamento.

- Absurdo, eu nunca fiz nada. - Ela riu.

- Claro. Não foi aqui que você me atacou pela primeira vez, certo?

- Talvez...- Ela olhou para as unhas, indiferente. - Você me atacou de volta, se eu bem me lembro. Aliás, eu não te virei e joguei no banco, subindo em cima e fazendo tudo aquilo. Foi você.

- Eu estava apenas respondendo a altura do que você estava fazendo.

- Eu fui uma santa comparada a você.

Ele foi obrigado a rir.

- Você estava lá quando aconteceu, não é possível que tenha esquecido.

- Por um acaso, isso é uma reclamação, James Potter?

Pararam no semáforo e James pôde se virar para ela.

- Nem um pouco. Eu nunca reclamei e nem vou reclamar. Por favor, sinta-se à vontade para repetir.

Lily se empertigou por cima do console central e segurou o rosto dele.

- E você sabe que é a mesma coisa comigo, não é?

- Eu sei e vou fazer questão de aproveitar.

Ela o beijou rapidamente antes de voltar para o seu lugar. James sorria enquanto acelerava e, nem um segundo depois, Lily sentiu a mão dele em sua perna. Ele não tentou nada demais, apenas pousou-a ali.

E ali ficou a maior parte do trajeto, fazendo o coração de Lily o mais feliz daquela noite.

L~J

Quase duas horas de estrada depois, se encontravam em um caminho de terra. Não havia nada além de florestas ao redor, barulhos de grilos e eles. Tinham os vidros abertos, apesar do ar bem fresco do local, mas Lily adorava sentir aquele cheiro do interior, das folhas recém molhadas e o ar puro.

James parecia confortável com a estrada, parecendo saber exatamente para onde ir e quais locais deveria desviar, mesmo no breu.

- Quão longe estamos? - Ela perguntou.

- Uns 5km.

- Posso pedir um favor, então? - Ele assentiu. - Posso dirigir o resto do caminho?

Ele não a olhou, mas ela viu a surpresa em seu rosto.

- Você quer dirigir?

- Sim. Eu sinto tanta falta.

- Mas a sua perna...você não deveria dirigir.

- Ela está bem e por estar bem, eu queria saber como seria dirigir novamente. Testar, ver se sinto dor.

O carro começou a diminuir a velocidade, apesar de James não parecer convencido.

- Não sei se é uma boa ideia.

- Não se preocupe, eu não vou jogar o tratamento pela janela só por dirigir. Se eu sentir dor, eu vou parar. Não quero fazer isso para me torturar, sabe.

A velocidade diminuiu ainda mais, mas ele ainda parecia considerar o pedido.

- Se doer, você para. - James freou no meio da estrada de terra enquanto Lily dava pulos de felicidade. Ele riu e desligou o carro. - Espere aqui antes de sair do carro.

Lily concordou e James saiu. Ela o assistiu olhar ao redor, pela floresta, enquanto dava a volta e ia até o lado do passageiro.

- Não temos serial killers ao redor? Posso sair do carro? - Ela perguntou quando ele abriu a porta.

- Eu não estou preocupado com pessoas.

Aquilo a fez parar o movimento de sair do carro.

- Como é?

- Vamos, não quer ser atacadas por javalis, quer?

- Javalis?!

Ela saiu do carro e deu a volta por ele o mais rápido que podia, jogando-se no banco do motorista e fechando a porta. James já estava dentro do carro, rindo.

- Não precisava correr desse jeito.

- Você disse javalis e eu sei que eles podem atacar.

- Normalmente é a mãe com os filhotes que reage pior e aqui tem bastante, então prefiro não dar sorte ao azar lá fora. - James acendeu a luz acima deles. - Mas vamos lá, estamos quase chegando.

Esquecendo dos javalis, Lily começou a se arrumar no carro de James, um carro que nunca dirigiu antes. Seus pés não tocavam nos pedais de tão longe que o banco ficava, então o puxou para frente. Ajeitou os retrovisores por último e colocou o cinto.

- Desculpe, você é muito alto e eu tenho que arrumar tudo.

- Mude tudo para que fique bom para você. - Ele disse. - Como você não conhece a estrada, coloque o farol alto por conta dos buracos que tem que desviar.

- Farol alto. - Ela disse acionando-o. James desligou a luz central do carro e colocou o cinto.

- Estamos prontos.

Ao engatar a marcha e sentir o carro acelerando sob o seu comando, Lily sentia a liberdade voltando. Por meses dependia das caronas de tantos, ficando presa, prendendo as pessoas. Segurou no volante como se aquilo fosse o seu passe para uma nova fase da sua vida onde poderia ir para qualquer lugar, a qualquer hora, sem precisar de ninguém.

Seria a Lily Evans de antes, aquela que fazia o que queria.

- Ops! - Desviou de um buraco no último momento.

- Como está sua perna? - Ele perguntou.

- Ótima, não estou sentindo nada quando acelero. - Ela respondeu com um sorriso enorme. - Isso é tão bom. Eu sempre adorei dirigir e sentia tanta vontade de estar atrás do volante novamente.

O carro de James também era um prazer de dirigir. A direção e o acelerador eram leves, as marchas eram passadas com facilidade.

Olhou para ele ao seu lado, parecendo tranquilo, apesar de lançar um olhar e outro para a perna dela. Talvez fosse a primeira vez que tinha James como passageiro, não lembrava de ter dado carona para ele antes e era a primeira vez que ela dirigia um carro dele.

Era divertido ser a responsável em levá-lo para algum lugar, finalmente.

- Vire na próxima direita. - Ele anunciou.

Após a curva, eles pegaram uma estrada de terra íngreme. Lily teve que acelerar um pouco mais e sentiu que James olhou para ela, preocupado.

- Está tudo bem. - Disse, querendo tranquilizá-lo.

Ao fim da longa subida, mais um pouco de estrada de terra.

- Está vendo aquela placa? - James perguntou apontando.

Ah, claro. "Potter Cottage" estava escrito na placa de madeira e Lily não precisava de mais indicações para onde ir.

Parou na frente de um portão de madeira e James desceu para abri-lo.

- Vá até o fim do caminho, estou logo atrás. - Ele disse pela janela quando Lily parou ao seu lado, esperando que ele entrasse no carro novamente.

- Mas e os javalis?

- Está tudo bem, eu vou sobreviver.

Lily continuou. Havia um campo enorme ao seu lado direito e um jardim bem cuidado ao seu lado esquerdo. Não conseguia ver muito mais do que isso por conta da escuridão.

Os faróis altos finalmente chegaram até uma bela construção de pedra vermelha. Lily parou em frente a ela e se apoiou no volante para admirá-la. Havia muitas janelas, algumas delas bem pequenas no alto da casa. A porta de entrada era branca, bonita e bem grande, algo típico de uma casa de campo que Lily já vira algumas vezes.

Algo no retrovisor chamou sua atenção e viu que o caminho de pedras que havia passado, se iluminou com pequenas lâmpadas estancadas na terra ao redor. Viu James vindo pelo mesmo caminho e falando no celular, enquanto olhava ao redor, conferindo como tudo estava.

Lily saiu do carro. Teria melhor noção de tudo no dia seguinte, mas via muito espaço e muito verde, o que já adorava. Fechou o casaco e cruzou os braços. James não estava brincando quando disse para pegar roupas quentes, pois fazia uma noite bem fria por ali.

- Vamos entrar e acender a lareira. - Ele disse ao chegar até ela, colocando o celular no bolso e a abraçando pelos ombros.

E se ela ficou admirada pelo lugar apenas ao ver o lado de fora, não conseguia descrever o que era o interior.

Logo quando você passava pela bonita porta branca, dava de cara com um imenso cômodo que incluía a sala de televisão, a sala de jantar e a cozinha. Uma lareira bonita e grande estava na frente dos sofás que pareciam bem confortáveis; portas de vidro ocupavam toda a parede do outro lado do cômodo. A cozinha tinha uma grande ilha com spots de luz que estavam pendurados logo acima.

As paredes eram pintadas em branco, com pilares de madeira e uma decoração rústica. Euphemia tinha um dom para tudo aquilo e sabia como fazer os queixos caírem, como era o caso de Lily naquele momento.

O pé direito era tão alto, que Lily não arriscaria dizer quantos metros havia.

Uma escada bonita com madeira escura estava à esquerda e dava em um corredor no andar de cima que ia para ambos os lados da casa.

- Que lugar maravilhoso.

- Minha mãe iria gostar de ouvir isso. - James foi até a lareira e não perdeu tempo para começar a acendê-la. - Pode dar uma volta, se quiser.

- Eu irei.

Foi até a cozinha que misturava pedra e madeira em sua decoração. Voltou para a sala e subiu as escadas. No topo delas, decidiu virar à direita primeiramente. Olhou para a sala e viu James a assistindo enquanto acendia a lareira. Sorriu para ele antes de desaparecer pelo corredor.

Viu um escritório bonito na primeira porta e dois quartos depois. Um deles, ela tinha certeza que era dos pais de James, pois era bem grande e com muita personalidade. Não poderia ser simplesmente um quarto de visita, então não entrou.

Voltou pelo corredor e seguiu para o outro lado após a escada. Mais dois quartos bonitos e um banheiro depois, ela viu uma pequena escada de madeira no fim daquele corredor. Não sabia se tinha limites para visitar, mas subiu mesmo sim.

Estava logo abaixo do teto da casa em um quarto grande e muito acolhedor. Tinha uma pequena chaminé, várias clarabóias e uma cama que lhe dava a impressão de que sumiria entre as cobertas caso sentasse ali.

- Achou o quarto.

James estava parado na porta.

- Ficaremos aqui?

- É o meu quarto. - Ele deu de ombros. - A não ser que prefira um dos outros.

- Esse me parece perfeito.

Foi até uma cômoda e viu todas as fotos ali de James com os pais em diferentes anos, outras fotos com Sirius e Remus.

Tinha uma foto rasgada. Os três amigos estavam rindo e parecendo ter o momento mais divertido de suas vidas, mas era certo de que, originalmente, Peter Pettigrew também esteve na foto.

Lily pegou aquele porta-retrato. Eles não deviam ter mais do que 12 anos quando a foto foi tirada. Estavam em uma piscina bonita, com um lago ao fundo. Ela não conseguiu se impedir de sorrir ao ver a inocência - de certa forma, porque eles eram uns pivetes insuportáveis - e a felicidade que eles transmitiam.

Ela entendia que James quis mantê-la, cortando a parte podre.

- Essa foto é muito bonita.

- Eu gosto muito dela. - James concordou olhando por cima de seus ombros. - Ainda mais com a edição.

- Uma edição meio rústica, podemos dizer. Feita a mão. - Ela brincou.

- E com muita raiva. - Ele comentou, mas quis mudar de assunto rapidamente. - Se você é ok em ficar nesse quarto, eu vou pegar as nossas coisas no carro.

- Eu vou com você.

- Não precisa. - Eles desceram para o corredor principal do andar. - Por que não começa a se preparar para os seus exercícios, conhecer o lado de fora da casa?

James deu um beijo em seu pescoço fazendo Lily fechar os olhos.

Ele saiu na frente e Lily levou seu tempo para voltar para a sala e a lareira que crepitava devagar. Foi até as portas de vidros e abriu. Um pequeno deck de madeira estava na sua frente, assim como a piscina da foto dos três garotos.

Achou o interruptor e acendeu as lamparinas pelos jardins em volta da piscina. Apesar de não conseguir ver pelo céu encoberto e a hora, agora Lily sabia que havia um lago ao longe.

Se aproximou da piscina, que soltava fumaça.

- Piscina aquecida. - Disse para si mesma ao se abaixar e testar a temperatura da água. Estava perfeita.

Olhou para dentro e não viu James. Ou ele já estava no andar de cima com as malas ou ainda não tinha entrado na casa.

Sorrindo, ela tirou seu tênis, casaco, camiseta e os jeans. Sua pele se arrepiou com o frio que sentiu, então se apressou até a escada da piscina. Ele tinha razão que não precisava de biquíni e com a piscina estando aquecida - provavelmente pediu para a pessoa que tomava conta do lugar para já preparar -, aquele banho só estava esperando por eles.

Desceu os degraus e suspirou de prazer com a temperatura da água. Se soltou da borda e foi testando até onde poderia ficar em pé. Quando começou a ficar nas pontas deles, parou.

Os únicos barulhos que ouvia era o vento nas árvores ao redor, uma coruja ao longe que piava de vez em quando e, talvez, um ou outro pequeno animal que se aventurava ali por perto. De resto, era puro silêncio. Era tão calmo, tão perfeito. Sentia-se em um sonho que não queria acordar nunca, que lhe trazia uma paz de espírito que não sabia que estava precisando tanto.

Debruçou na borda, em direção ao lago, e fechou os olhos enquanto se deliciava com tudo aquilo.

Se assustou quando ouviu um mergulho atrás de si. Não se mexeu, esperando, até James surgir atrás dela. Ele não disse nada, apenas a abraçou e apoiou o rosto em seu ombro.

Havia se enganado. Não era antes que sentia-se em paz, mas agora enquanto tinha os olhos fechados, apoiada na borda daquela piscina deliciosa, com James grudado em suas costas, os braços dele enrolados nela.

- Eu posso te ajudar nos seus exercícios, se você quiser. - Ele disse enquanto a apertava ainda mais contra ele.

- Obrigada, eu vou precisar. Mas daqui cinco minutos...eu quero aproveitar isso um pouco mais.

James assentiu e se aconchegou. Seu rosto ficando contra o seu, suas mãos soltando sua cintura, mas apenas para passear pelo seu corpo: da sua barriga, até a lateral. Depois descendo por suas pernas, depois subindo novamente.

Se aquilo fosse uma amostra do que seria aquele fim de semana, pediria para nunca mais irem embora.

Lily começou virar o rosto na direção dele, trocando carinhos com ele. James a beijou logo abaixo do ouvido, dando outro mais acima. Ele levantou uma mão e virou o rosto de Lily em sua direção, a beijando.

Como ela amava beijá-lo. Ele sabia exatamente como dosar o beijo, a vontade de ambos. Seus lábios iam vagarosamente com os dela, seus dedos passeavam por seus cabelos. Tudo aquilo fazia seu corpo arrepiar, mas não de frio dessa vez.

Se virando para ele, James a encostou contra a piscina e ela teve a chance de vê-lo com os cabelos molhados e bagunçados após o mergulho. Levantou as mãos até eles e bagunçou ainda mais os fios macios, fazendo James sorrir e ficando mais bonito ainda.

Ele se aproximou e a beijou novamente, tão doce como anteriormente. Eles se abraçaram com força, indo bem contrário a como se beijavam. Lily poderia dissertar em como o corpo de James era delicioso quando ficava contra o seu, principalmente quando usava apenas boxers, mas ali, naquele exato momento, só pensava em como se sentia bem nos braços dele. Seu coração parecia em uma festa, pulando com tanta alegria.

A saudade que acumulou nos últimos dias parecia se dissipar de vez naquele abraço, naquele beijo tranquilo que trocavam. As mãos dele não tentaram escorregar para lugar nenhum, apenas a seguravam, e com Lily não era diferente, fazendo daquele beijo algo inocente, sem muita malícia.

As bocas se separaram apenas para trocarem sorrisos.

- Está com frio? - Ele perguntou.

- Nem um pouco.

James a pegou nos braços e Lily enrolou as pernas em sua cintura.

- Me avise se a sua perna doer. - Ele pediu e Lily assentiu.

Se afastou da borda, com ela em seus braços.

Focou nos sons ao redor, que eram tão relaxantes, e nele. No rosto bonito de James que estava tão relaxado quanto o dela. No pequeno sorriso que ele carregava, nos fios dos cabelos que caíam um pouco em seu rosto. Lily passou os dedos por alguns deles, fazendo James fechar os olhos com o carinho e levantar a cabeça, como se pedisse por mais.

Soltou o pescoço de James e, com as duas mãos, passou nos cabelos dele novamente, mas não na intenção de bagunçá-los dessa vez. Depois desceu as pontas dos dedos pelo rosto, contornando os bonitos traços.

Passou pelos lábios entreabertos dele e recebeu um beijo na ponta do seu dedo.

Aquilo a fez conectar os olhos com os dele. Ficaram se encarando por alguns segundos, até Lily o ver sorrindo.

- O que foi? - Perguntou, curiosa e um pouco tímida pelo modo como ele a olhava.

- Nada. Por que a pergunta? - Ele jogou de volta ainda sem parar de sorrir.

- Você está com esse sorriso de lado.

- Você não gosta? - Ele perguntou achando graça.

- Eu gosto, apenas me perguntei o que estava passando pela sua cabeça.

James a puxou para mais perto, as pernas dela se apertando mais em sua cintura.

- Muitas coisas estavam passando pela minha cabeça.

- Tipo o quê?

Ele os abaixou mais para dentro d'água, cobrindo seus ombros completamente. As mãos dele subiram por suas costas, depois descendo, bem delicadamente.

- Primeiro, eu pensei que vir aqui foi a melhor coisa que poderíamos ter feito... - James começou, sua voz tão baixa e rouca. - ...porque precisávamos desse tempo sozinhos, longe de tudo. Apenas nós dois.

Ganhou um beijo leve dele ao fim da frase.

- Hmm. Você tem toda a razão nisso. - Ela quase cantou com a sensação boa que aquilo lhe trazia. - O que mais?

- Depois, pensei em como você é bonita. - Ele riu um pouco ao ver o quanto Lily ficou tímida. - Seus olhos brilham mesmo com pouca luz; suas sardas ficam mais aparentes na água, o que eu não entendo como.

- Sempre as minhas sardas. - Ela reclamou de brincadeira enquanto passava a mão pelas próprias sardas.

James segurou suas mãos e as tirou do rosto.

- Porque eu gosto muito, então eu sempre falo delas. - Ele a fitou, pesando por um momento. - Você quer que eu pare de falar sobre as suas sardas?

- Não. - Ela respondeu de imediato. - Eu gosto como você fala delas, como gosta delas...- Deixou a frase inacabada e James percebeu.

- Há algo mais?

- Eu gosto como você as beija também.

Aquilo pareceu trazer uma satisfação enorme para ele.

- Quais delas?

- Todas! - Lily encostou o rosto no dele. - Gosto quando você beija todas elas, em todos os lugares.

- Então você gosta quando eu beijo o seu rosto.

Ele disse e começou a beijar o rosto dela: suas bochechas, seu nariz.

- Sim. - Ela concordou, os olhos fechados enquanto deixava James beijá-la.

- Seus ombros. - Levantando Lily um pouco em seu colo, ele começou a beijar seus ombros. - O seu colo também.

Levantando-a ainda mais em seus braços, ele a beijava vagarosamente em seu colo, até passar para o outro ombro. Ela só podia sorrir e suspirar.

- Uhum.

- Você também tem umas bem aqui, acima dos lábios.

James a beijou com carinho.

Nossa senhora, ela merecia tudo aquilo? Conhecendo James por tantos anos, ela nunca pensaria que ele fosse daquele jeito com alguém que estivesse junto. Ela viu tanto os outros lados que tinha: o do amigo, o do chato, pentelho, incentivador...mas nunca o do lado do romance. Claro, ele não tinha motivos para mostrar aquele lado antes e ela só o viu algumas vezes com outras pessoas, mas se tivesse que adivinhar como ele era quando se tratava de romance, não o imaginava tão aplicado.

- Você sabe o que fazer e falar para ganhar uma mulher, James Potter. - Ela riu quando ele se afastou.

- Mas eu estou sabendo o que fazer e falar para você?

- Com certeza.

- Isso é o que me importa agora. - Ah droga. Seria difícil evitar a dor no seu rosto de tanto sorrir. - E depois, pensei que é melhor fazermos esses seus exercícios, antes de acabarmos deixando para lá.

Ele estava correto. Desde o momento que pediu cinco minutos para ele antes de começar os exercícios, ela já estava planejando não fazê-los e pular para a parte onde as roupas de baixo voariam para fora da piscina e tudo mais.

- Se você insiste.

Com dor no coração, ela o soltou e se aproximou da borda.

- O que eu posso fazer para te ajudar?

- Servir como suporte para a minha outra perna. - Ela disse segurando-se na borda enquanto James se posicionava ao seu lado. - Meu pé pode escorregar, já que não é uma piscina própria para exercícios, então se você puder colocar a sua perna e peso contra a minha perna de apoio, vai ser de grande ajuda.

- Assim?

Ele colou a perna contra a perna esquerda dela.

- Perfeito. - Lily respirou fundo e se posicionou melhor contra ele. - Vai ser um pouco entediante.

- Eu acho interessante.

- Você é estranho.

Dizendo isso, Lily levantou sua perna direita com os movimentos que aprendeu na clínica. Fechou os olhos quando forçou, tentando alcançar o seu limite. Sentiu a dor tão conhecida, então soltou a perna na água.

Espiou James ao seu lado e viu que ele prestava atenção em cada movimento dela. Ele levantou os olhos ao perceber ser observado.

- Tudo ok? - Ele perguntou.

- Tudo ok.

Virou para a frente e repetiu o movimento. Dessa vez, a dor veio lacerante, forçando-a a soltar a perna novamente. Respirou fundo e não ousou olhar para James de novo, mantendo os olhos fechados. Esperou alguns segundos, se reposicionou contra James e voltou com o movimento. Sua perna subia, a dor recomeçava e ela iria desistir novamente...

Sentiu a mão dele na sua cintura, segurando-a no lugar. Não tinha percebido que estava forçando o corpo e saindo de posição. Aquilo melhorou bastante a dor que sentiu, apesar de ainda estar ali, e permitiu que fosse além.

Soltou a perna, deixando-a voltar à posição normal lentamente.

Repetiu o movimento, apertando a borda da piscina. A dor voltou, ela trincou os dentes querendo vencer aquilo.

- Você está indo muito bem. - Ele disse segurando-a com mais firmeza ao ver que Lily começava a sair da posição de novo. Ela riu.

- Sempre bom ter um pouco de torcida.

- Quantas vezes precisa repetir?

- Quinze.

- Ok, vamos lá então. Mais doze.

Na oitava repetição, queria parar. Era tão bom viver sem dores, que ficar repetindo exercícios que as traziam de volta era um saco.

- Talvez vamos de dez repetições dessa vez. - Ela disse.

- Vamos tentar onze?! - Ele ofereceu.

- Ok, onze.

James também estava se apoiando na borda e, sem pensar, Lily moveu sua mão na dele.

- Vamos continuar, então. - Disse ele virando a mão para acomodar a dela. Sentiu a força que ele lhe dava com aquele gesto.

Refez o exercício duas vezes mais, chegando a dez repetições. Começou a décima primeira repetição, apertando a mão de James, tentando encontrar a força que precisava, e a encontrando. Soltou todo o ar enquanto a perna voltava à posição normal. Ficou de olhos fechados por um momento, respirando fundo. Sem fazer exercícios, sua perna não doía, mas havia aquele eco de dor após uma sessão.

- O que são dez repetições para Lily Evans, quando ela consegue onze? - A alegre voz dele estava perto de seu ouvido.

- Eu ia parar em oito.

- Mas não parou.

Lily soltou a borda e se virou para ele.

- Talvez você deva participar das minhas sessões de fisioterapia todas as semanas.

- Será que o tal Jon iria se importar?

- Não deveria, afinal, você me encoraja a continuar.

- Mais do que ele te encoraja?

- Muito mais.

James deu aquele sorriso maroto de lado e veio até ela. Lily estava pronta para o beijo que viria...

- Ótimo, então vamos continuar. Mais duas séries dessa, não? - Ele disse. Lily deixou a felicidade se misturar com a água da piscina, desaparecendo. - O que foi? Você disse que eu te encorajo, então vamos terminar esses exercícios.

- Mudei de ideia. Não te quero mais nas minhas sessões.

Apesar disso, Lily se reposicionou e James a seguiu, servindo de contrapeso.

- Objetivo: 15 repetições. Se você ficar com muita dor no caminho, a gente revê. O que acha?

Ela fez uma careta, mas concordou.

Duas sessões depois, uma de 11 repetições e outra de 12, o que a surpreendeu bastante, Lily largou-se na piscina, descansando. Sua perna estava pesada e rígida, precisando de uma boa pausa. No dia seguinte, poderia fazer o outro exercício indicado.

- Não foi tão ruim, foi? - Ele perguntou assistindo-a flutuar tranquilamente.

- Para você, deve ter sido bem tranquilo. - Ouviu a risada dele. - Mas poderia ser pior. As dores ainda estão aqui quando eu faço exercícios, mas melhoraram muito depois da clínica.

Os barulhos da floresta e do vento ficaram como protagonistas durante um tempo. Talvez aquilo era algo que também precisava para ajudar a se recuperar: natureza, tranquilidade.

- Como foi dirigir pela primeira vez depois do seu acidente? - A voz de James cortou o silêncio.

A pergunta a fez sair do estado flutuante, voltando com os pés no fundo da piscina, virando-se para ele.

- Normal. - Lily franziu o cenho. Nem passou nada pela sua cabeça na hora. Sem medo, sem trauma de voltar para trás do volante. - Nem me passou pela cabeça nada relacionado ao acidente. A única coisa em que pensava, era que eu me sentia livre de novo.

- Tem muita gente que fica com receio depois de um acidente como o seu, ainda mais quando você ainda tem sequelas.

- Acho que a minha cabeça não liga mais a sequela com o acidente, como se fossem coisas bem diferentes. As dores me tomam tanto, que só penso nelas como algo único. - Ela deixou a cabeça cair de lado. - Era por isso que você estava um pouco tenso?

- Também. - James admitiu. - Mas você parecia bem confiante, então achei que não era preciso me preocupar.

James Potter era um cara um pouco surreal. Era verdade que ela não tinha muitas experiências em relacionamentos, pois o único cara com quem ficou por alguns meses tinha sido Edgar e ele era um péssimo exemplo.

Podia pegar Frank como exemplo. Ele tratava Alice com muito amor e zelo desde o começo, assim como a amiga também fazia. Era um relacionamento saudável, algo normal, que Lily almejava para si. Porém, Edgar não entregou nada daquilo.

Mas agora, independente de estar naquela coisa com James, sentia como era estar com alguém normal e, às vezes, sua cabeça dava um tilt. Suas preocupações poderiam soar exageradas, mas então ela se pegava pensando que também tentaria ajudá-lo a ficar o mais confortável possível caso estivessem em posições trocadas. O fato de que ela estaria bem e ele com dores, a faria tomar cuidado e querer ajudá-lo a melhorar.

Não estava acostumada com os cuidados, mas era bom ter alguém que pensava em você também.

Olhou para ele e viu que James a observava, querendo acompanhar seus pensamentos, provavelmente.

Lily nadou até ele e foi recebida por um abraço.

- Algo errado? - Ele perguntou.

- Tudo está certo, na verdade.

O beijou sem querer falar mais. Agora, queria aproveitar um pouco o fato de estarem sozinhos e beijá-lo até não poder mais.

A sua cabeça gritava coisas que não queria ouvir. Ou não ainda. Seu coração batia de uma maneira que não queria que batesse. Não ainda. Mas Lily via que tinha perdido a batalha que mal tinha consciência que lutava. Estava se afundando no que James era, no que ele trazia para eles, em que ele tinha se tornado.

Era fácil com ele. Simples, agradável, leve e tão, mas tão bom.

Tão bom, que se perguntava onde se escondia o defeito enorme dele. Deveria ter, não era possível. Não dizia sobre os defeitos que ela conhecia como amigo, mas os defeitos naquele aspecto romântico.

Era obrigatório ter defeitos. Todos tinham, mas os dele estavam bem escondidos.

- Vamos subir. - Ele disse parando o beijo.

- Agora. - Ela concordou.

Lily se apressou até às escadas da piscina enquanto James subia pela borda lateral. Claramente nenhum deles queria perder tempo, já que muitos dias estavam entre o hoje e a última vez que puderam ter qualquer coisa além de beijos. A ruiva estava indo na direção de suas roupas, mas James balançou a cabeça.

- Amanhã você pega. Venha. - Ele ofereceu a mão e Lily aceitou, sendo levada para dentro da casa.

Entre a sala e as escadas, ela viu as roupas dele pelo chão e, assim como as dela, eles ignoraram e foram em direção aos degraus. Roubaram um beijo ou outro durante a subida, risadas foram trocadas quando batiam em uma parede ou tropeçavam, e levaram mais tempo para chegarem na porta do quarto do que para sair da piscina e subir as escadas.

- Por aqui! - Ele a puxou na direção da porta de frente para o quarto.

Era o banheiro que ela acreditava ser o dele. Uma luz fraca foi acesa atrás do grande espelho, logo acima da pia dupla. Ao fundo, uma ducha grande parecia chamá-la, porém, o espelho lhe chamou a atenção. Na verdade, o seu reflexo que mostrava o estado em que estava: seu cabelo todo bagunçado por sair da piscina com pressa. Estava prestes a rir e fazer uma piada, mas a risada ficou presa ao perceber o próprio sorriso e James parado logo atrás de si no espelho, a encarando.

E como em um filme, sua memória voltou algumas semanas atrás: os dois no seu banheiro em Londres, escondendo-se de Marlene, encarando-se pelo espelho, naquela mesma posição. Naquele dia, lembrava com exatidão o desejo que via na expressão de ambos, e que não era pequeno. Mas hoje...hoje era sobre algo diferente. Ela via o desejo nos próprios olhos, claro, mas havia outra coisa maior ali. Aquele brilho, a suavidade...e a força que tudo aquilo parecia ter.

Era além de desejo, além de querer uma noite, um beijo com ele. Era um sentimento, algo que nunca, nunca, pensaria sentir por James.

Tinha se apaixonado por ele e não podia mais negar. Tentou, realmente tentou levar aquilo de um outro jeito, mas quem diria que aquilo pudesse acontecer? Com James ainda por cima, o cara que esteve na sua vida por anos.

Meu deus, estava apaixonada. O quão ferrada estava?

Seu cérebro pareceu voltar para o banheiro, lembrando-a de que não estava sozinha, e voltou a ver James novamente. Com um sorriso tão bobo quanto o dela e...ela arriscaria dizer que seus olhos estavam menos selvagens do que da outra vez também.

Sim, havia algo ali também, algo além de desejo. Não saberia dizer o quê: carinho? Apego? Paixão? Não saberia dizer, mas seus olhos entregavam que ela não estava tão sozinha.

Ele se aproximou devagar por suas costas, os olhos ainda conectados. As mãos dele desceram por seus braços até uma delas segurar na sua. Finalmente os olhos se desconectaram do espelho, apenas para se encararem sem nada entre eles. James a puxava na direção do chuveiro, fazendo o coração dela pular de alegria.

A ducha foi aberta e ele a trouxe ainda mais para dentro, até o corpo dela ficar embaixo da água quente. Seus ombros agradeciam a pressão forte da água neles, relaxando-os como uma boa massagem.

Sem perder tempo, o puxou também, abraçando-o pelo pescoço.

- Eu gosto de como a sua cabeça tem pensado. - Disse a ele.

Ele riu de leve.

- E você nem sabe de tudo que eu tenho pensado.

- Gostaria de compartilhar?

- Gostaria de fazer, na verdade.

Os dedos dele deslizaram por suas costas até o fecho de seu sutiã, e o abriu. Lily soltou seu pescoço por um instante para ajudá-lo a tirar a peça, mas rapidamente voltou a abraçá-lo. Era infinitamente melhor o contato pele com pele de agora e era bem nítido o quanto ele gostava também.

- Só isso? - Ela o provocou.

- Nem um pouco. - Desta vez os dedos dele se enroscaram na lateral de sua calcinha e a puxou para baixo lentamente enquanto os lábios dele deslizavam pelo seu pescoço. - Eu sei que ficou óbvio no outro dia pelo telefone, mas apenas caso você tenha esquecido: eu senti muito a sua falta. - Ele disse deixando a peça escorregar o resto de suas pernas e aproximando a boca de seu ouvido agora.

Lily poderia ser julgada de estúpida, mas gostava de pensar que ele dizia que sentia falta dela e não do que faziam. Ou não apenas do que faziam. Em sua cabeça, eram coisas bem distintas, apesar da interconexão.

- Eu também. - Respondeu ao se livrar da peça caída em seus pés.

O banheiro já estava cheio de vapor com a temperatura e a forte pressão do chuveiro, quando Lily achou que era a hora de James contribuir para as faltas de roupas ali.

- Eu já volto. - Ele disse quando as mãos de Lily desciam pelo seu corpo e deixavam claro para onde iriam. - Eu não demoro.

James saiu e Lily decidiu aproveitar a ducha, molhando e domando os cabelos da piscina enquanto repetia em sua cabeça "estou ferrada, mas isso é tão bom". E ele não havia mentido, pois voltou um minuto depois, a abraçando por trás e a tirando da ducha.

Foi encostada de frente contra a parede gelada, se arrepiando toda, mas tendo o corpo quente dele em suas costas, sem sua boxer, e mais do que pronto para continuar de onde pararam.

Mas para a sua surpresa, ele a virou. Pensava que dificilmente ficaria surpresa ao vê-lo a partir de agora, só que não sabia o quanto estava enganada ao ver James embaixo do chuveiro, a água caindo em seus ombros, seus cabelos selvagens, seus olhos...apenas aquela cena era como uma preliminar para ela.

O beijou sem delicadeza, simplesmente precisando dele, de colocar toda aquela explosão de descobrimentos, de realização do que sentia por ele.

Queria mais. Sempre queria mais com ele, mas agora era quase vital o quanto queria, o quanto precisava. Só aumentava mais quando ele, finalmente, depois de tantos dias, a tocou. Sentiu saudades dele, mas também de como ele a tocava e sabia por onde ir e como.

Quando ela o tocou, James soltou um dos gemidos mais altos que já ouviu em todos esses tempos, o que só fez Lily ficar ainda mais louca.

- Alguém também estava esperando por isso tanto quanto eu. - Ela disse.

- Você não faz ideia. - Ele fez algo com a mão que a obrigou a ficar na ponta dos pés por um segundo com o desejo. - Mas você quer mais, eu sei.

- Sabe? - Perguntou já não tendo noção do que respondia, tão concentrada nele e em seus dedos.

- Você está longe de ser um mistério para mim agora.

Em um curto espaço de tempo e sem dar pistas para ela de como tudo se passou, Lily se encontrou com os pés não tocando mais o chão, sua perna esquerda enrolada na cintura dele enquanto a direita ficava livre. Ele manobrava tudo enquanto se encaixava nela e quase levando Lily para o céu.

Era a segunda vez deles, apenas o segundo sexo, e ela pensava que sentia falta daquilo...mas agora entendia que sentia mais falta do que pensava.

Sem delongas, assim que percebeu que ela estava confortável, ele começou a se mexer e era tudo diferente. James estava muito menos gentil dessa vez, um lado que ainda não conhecia dele, e estava adorando. Tentava se contentar em segurar os ombros dele, mas as sensações que estava recebendo faziam Lily quase não ter controle sobre o próprio corpo. Sabia que estava deixando bem claro e alto o quanto estava gostando, mas não podia estar mais feliz em poder fazer o barulho que quisesse sem se preocupar com alguém ao redor.

Quando percebeu que estava se segurando nas paredes com todas as suas forças ao invés dos ombro dele, entendeu que sua mente estava apenas focada nele dentro dela, os movimentos de James, seus braços a segurando... era tudo tão bom e novo.

- Eu adoro essa versão nova sua. - Conseguiu falar entre gemidos.

- Ela não é nova...

Com cuidado, ele a colocou de volta no chão, mas a virou contra a parede novamente. A diferença de temperatura nem a incomodou dessa vez.

James segurou seus cabelos com uma mão e a puxou um pouco para trás.

- ...e nem difícil de vir à tona. Basta você querer.

Terminou a frase enquanto se encaixava nela de novo, mas mantendo-a de costas.

- Eu quero. - Lily se viu dizendo ao espalmar o vidro da ducha e a parede ao lado.

Era tão perfeito, tão bom, que não queria mais sair dali, nunca terminar. Jogou a cabeça contra o peito dele e James a segurou sem parar nem por um segundo os movimentos. A outra mão subiu até o seio dela e Lily já começava a ver o fim tão próximo. Não conseguiria segurar nem um pedacinho daquele orgasmo que estava vindo.

Os gemidos começaram a ficar mais descontrolados e altos. Seus dedos pressionavam as superfícies que tocavam.

- Eu gosto tanto de te dar mais. - Ele disse talvez percebendo que já era hora para ela.

A frase dele fez a hora ser ainda mais cedo.

Abriu a boca, mas tinha consciência de que nem um som estava saindo. Simplesmente ficou muda enquanto tinha um orgasmo enorme, deixando seu corpo todo entregue para ele. Sentiu os braços de James a mantendo em pé e em posição enquanto ele mesmo se deixava chegar, finalmente.

James os virou, sem toda a agilidade de antes, quase em câmera lenta, se deixou cair de costas contra a parede e deslizou até o chão com Lily em seus braços. A ruiva estava contra o seu peito, tentando recuperar o fôlego enquanto assistia a água atingir suas pernas. A pressão estava boa em seu joelho machucado, então estava duplamente satisfeita agora.

Sentia o quanto ele estava sem fôlego. Talvez o banheiro estivesse muito quente, muito abafado, fazendo-o mais letárgico.

- Eu vou desligar o chuveiro. - Ela anunciou tentando se levantar, mas James a segurou com mais força.

- Não saia daqui, por favor. Está tão bom...

Se esticando, James conseguiu desligar o chuveiro e mantê-la com ele. Os dois tomaram seu tempo para se recuperar, acalmando a respiração e deixando as mãos sempre inquietas e no corpo um do outro.

James chegou até a sua perna, quase como uma pergunta muda sobre como ela estava, e Lily apenas cobriu a mão dele com a sua, garantindo que tudo estava bem.

Tudo estava maravilhosamente bem.

Conseguiram sair daquela posição depois de alguns minutos curtindo a sauna que o banheiro virou, mas quando começaram a ficar com frio, tomar um banho de verdade soava como uma ótima ideia.

- Você deveria adotar esse estilo. - James brincou com os cabelos dela cheios de shampoo e um penteado que ela imaginava que a deixava ridícula. - Combina com você.

- Não posso dizer o mesmo. - Disse ela ao terminar de repartir os cabelos dele ao meio. - Nunca faça esse tipo de penteado.

James olhou pelo vidro e não parecia impressionado com o trabalho dela.

- Eu faço um penteado legal em você e eu recebo isso em troca?

- James, eu sinto que você fez um moicano horrível em mim.

- Não está horrível, mas uma obra-prima.

- Então eu deveria adotar? Ir para Hogwarts assim?

Ele a abraçou, sorrindo daquele jeito nada inocente dele.

- Eu não me importaria.

- Claro que não. - Ela revirou os olhos.

- É só eu fechar os olhos e tudo fica igual. - Ele brincou fechando os olhos e tentando beijá-la, mas Lily desviou.

- Se você não me quer na luz com esse estilo, também não vai ter no escuro.

Ele riu um pouco e desfez o penteado dela, recomeçando outro.

- Então assim está melhor: uma versão de Princesa Lea e Chun Li, as duas mulheres que eu sempre sonhava durante a infância.

- Princesa Lea e Chun Li? Sério?

- Você entenderia caso gostasse do que eu gosto. - Ele deu de ombros. - Posso te beijar agora?

- Só para você satisfazer o seu desejo de beijar alguém com o mesmo penteado das suas crushes da infância? - Lily levantou uma sobrancelha.

- Também. Mas também porque você está no banho comigo...não é como se eu ficasse totalmente casto só por ter transado com você há alguns minutos, sabe?

Eles estavam abraçados e ela entendeu bem claramente o que ele falava.

- Então acho melhor...- Lily desfez o penteado dele, bagunçando seus cabelos e trazendo um pouco do James de volta, com seus fios apontando um pouco para todos os lados. - Assim está melhor.

- Posso te beijar agora?

- Não vai desfazer o meu penteado?

- Agora não. - Ele não parecia sentir-se culpado. - Mas ele vai se desfazer sozinho em alguns segundos.

Neste caso, James deveria ter dito que não duraria nem mais um segundo, pois as mãos dele se embrenharam em seus cabelos, desfazendo o tal penteado, enquanto Lily era atacada por um beijo de tirar o fôlego.

A sua velha amiga, a parede fria do banheiro, reencontrou suas costas enquanto o beijo dele mudou para o seu pescoço, depois seus ombros, seu colo...

Já estava claro para o que ele estava indo e ela ficou entre o sorriso e a respiração descompassada enquanto ele continuava a descer, passando por sua barriga e se colocando em um joelho em frente a ela.

A sua perna direita foi posicionada por cima do ombro dele e Lily teve que se segurar onde pôde - no ombro dele e em seus cabelos - quando James finalmente tirou seus lábios da parte interna da sua coxa e a beijou para valer.

A ruiva soltou um palavrão, algo bastante incomum nessas situações, mas foi mais forte do que ela, tão natural, que não se importou. O que contava ali era que, cada vez que James fazia sexo oral nela, mais ela achava que ele tinha um talento maravilhoso que nem todos poderiam saber.

Algumas pessoas devem já saber, mas isso também não importava.

Os braços dele se apertaram em volta de seu corpo, impedindo-a de se mover. Não que ela quisesse sair dali por qualquer motivo, pois...honestamente...sua cabeça estava apenas focada no que a língua dele fazia. Ainda sim, o fato dele apertá-la mais contra sua boca só melhorou ainda mais a coisa toda.

- Jam...- Mal percebeu que tentava falar o nome dele ao sentir que as coisas não demorariam para chegar.

Ele apenas assentiu, sem parar o que fazia. Lily abriu os olhos - não sabia que os tinha fechados com tanta força - e arriscou olhar para baixo, apenas para encontrar os olhos dele diretamente nos dela.

O olhar de James, combinado com toda aquela visão que tinha dele entre suas pernas, obrigou a ruiva jogar a cabeça para trás e se segurar nas paredes laterais enquanto tinha um orgasmo digno do paraíso. Diferente do que teve minutos atrás, dessa vez ouviu a própria voz ecoando por todo o banheiro. Quiçá, os vizinhos também ouviram.

No final, quase caiu para frente, se não fosse James levantar no mesmo momento e servir de apoio.

- Acho que fazer isso com você em pé não é uma boa ideia. - Ele disse, rindo.

- É uma ótima ideia. Sempre. - Respirou fundo, tentando se recuperar. - Não se esqueça disso: é sempre uma ótima ideia.

Era tão louco o que ele fazia com ela que, ao invés de se acalmar após um orgasmo daqueles, ela precisava de mais.

O puxou para baixo com urgência, fazendo o sentar. Ela se colocou sobre seu colo e o beijou, deitando-o em seguida.

Se afastou dele e segurou suas duas mãos, prendendo-as no chão. O olhar surpreso dele quase a fez rir.

- Então é assim que funciona? - Ele perguntou longe de parecer incomodado.

- Exato.

Apesar de tudo, ele quem levantou a cabeça para chegar até sua boca e iniciar o beijo. Lily anotou em sua cabeça que seria a última manobra decisiva dele naquele momento.

Começou a provocá-lo com movimentos lentos, indo para cima e para baixo por todo o comprimento dele, mas não o encaixando dentro de si ainda. Parecia estar agradando, já que ele não estava tão silencioso quanto antes.

As mãos dele lutaram involuntariamente contra as suas, que ainda as seguravam, mas James não forçou se soltar. A maravilha de estar preso era aquilo: querer se ajudar, mas não conseguir, deixando tudo na mão do outro. Ele raramente parecia aproveitar o tanto quanto ela fazia, então merecia receber mais atenção.

- Você tem que me deixar te dar mais. - Lily sussurrou. James mordeu a boca.

- Você me dá.

- Mais do que já tem. Quero te fazer sentir como você me faz sentir.

Abaixou contra o peito dele, fazendo seu seio o provocar também. Os dedos dele se fecharam com mais força.

James olhou para ela carregado de desejo. Era uma das imagens mais perfeitas que existiam.

- Mas te fazer tudo isso me faz tão bem, você não faz ideia. - Ele gemeu no fim da frase quando Lily mudou os movimentos contra ele. - Eu gosto de te ver sem rumo, sem força, gritando, não conseguindo gritar, me arranhando...

- Você tem que aprender que me faz bem também te dar tudo isso.

Lily conseguiu se encaixar nele sem soltar as mãos e desceu por completo nele. Nunca se cansaria daquilo. Eles eram perfeitos juntos, mesmo com a grande diferença de altura - e certos tamanhos por aqui e ali - tudo se encaixava com perfeição.

Percebeu que o corpo dele lutava para não forçar a se soltar, porque ele poderia fazer isso facilmente. Lily não o segurava com força e ele era mais forte que ela, mas ele a deixou fazer o que queria.

Lily também sabia que não aguentaria muito tempo ali por conta das dores, então antes que sua perna resolvesse dar o ar da graça e acabar com tudo, ela acelerou o quanto pôde.

- Você primeiro. - Ele gemeu.

Manteve o ritmo por mais alguns segundos, os dois entrelaçando as mãos no chão e usando suas forças.

Era tão fácil com ele, que simplesmente o orgasmo chegou quase de surpresa, ou como se ele tivesse um botão que conseguia apertar e fazê-la chegar ali com facilidade. Ouviu que James conseguiu alcançar o dele ao mesmo tempo, então ficou aliviada. A última coisa que queria, agora, era vê-lo parar por ela ter sido mais rápida.

Deixou o corpo cair nele, aliviando o peso em seus joelhos. Céus, eles devem ter usado toda a água da Inglaterra naquele banho.

- Merda!

Ela levantou o rosto e olhou para James, que tampava os olhos, descrente.

- O que foi?

- A gente não usou preservativo dessa vez.

Não? Merda, claro que não. Ela não deu tempo para nenhum dos dois pensar em pegar.

- Calma, está tudo bem. -. Respondeu enquanto fazia algumas contas. - Eu não estou no mal momento do mês para isso.

- Tem certeza?

- Sim. Na verdade, foi o fim de semana perfeito, porque a partir de Domingo à noite, eu estarei interditada e teremos que dar uma pausa.

Aliviado, James soltou todo o ar que segurava.

- Não sei se estou feliz ou triste de ouvir isso. - Ele bagunçou os cabelos. - Acho que considerando a situação, vamos ficar felizes.

- Isso.

Conseguiram finalizar aquele banho infinito o qual eles deveriam ser condenados por ambientalistas. James desceu para comer algo rápido, enquanto Lily ia para o quarto.

Estava tão aconchegante. A casa toda estava aquecida no ponto certo e as cobertas bem afofadas chamavam por ela. Já estava bem tarde e a viagem tinha sido longa o bastante, e isso porque ela nem dirigiu todo o caminho. James devia estar exausto.

Pronta para a cama, ela se jogou e se perdeu nela, assim como imaginava que seria ao vê-la pela primeira vez. Com certeza era uma das mais confortáveis em que já dormiu. Ouviu quando James subiu e foi se preparar para a cama também.

Os olhos verdes já piscavam bem lentamente quando o viu entrar no quarto e apagar as luzes. As clarabóias traziam a luz da lua por todo o cômodo, dando a ideia que teria um nascer do sol maravilhoso dali.

Aquele lugar era incrível.

- Tudo o que eu precisava agora. - Disse ele se enfiando ao seu lado na cama.

Em conjunto, eles se enrolaram um no outro e rapidamente caíram no sono que mereciam, com o coração de Lily feliz ao sentir-se tão bem com ele.


Não errou quando pensou que teria um nascer do sol maravilhoso.

Lily já estava acordada por 10 minutos assistindo as cores brincarem no céu e colorirem o quarto. Começou com um tom avermelhado, passando por laranja e que, agora, já quase virava amarelo. Mas percebia que não iria durar muito, já que via muita neblina chegando.

James estava completamente desmaiado ao seu lado. Deveria estar mais do que acostumado com manhãs ali ou estava cansado o suficiente para nem se importar com a luz. Tentou não assisti-lo dormir por muito tempo, não querendo que ele acordasse e a descobrisse, mas dava uma espiada de tempos em tempos. Era difícil ignorar por muito tempo quando aquele cara tão bonito dormia tão pacificamente ao seu lado.

Sentiu um gelo na barriga. As coisas não deveriam ter ido por aquele lado, era para ter sido apenas alguns amassos. No começo, Lily queria apenas um beijo, experimentar e confirmar que ele tinha um beijo perfeito. O que era o caso, aliás.

Mas se apaixonar? Nunca esteve em seus planos. Era complicado demais.

Mas não teve jeito. Não querer aquilo não foi o suficiente.

Voltou até ele, querendo pegar no sono e parar de pensar naquilo. Ainda adormecido, James a abraçou e enfiou o rosto entre seu ombro e pescoço, se acomodando nela. Só percebeu que tinha adormecido novamente quando acordou duas horas depois com carícias na sua mão. James estava deitado de frente a ela e sorriu ao ver os olhos verdes se abrindo lentamente.

Ela olhou para sua mão que recebia o carinho e a levantou, correspondendo. James tinha mãos bonitas, assim como cada pedaço do corpo. Chegava a ser irritante agora. Seus dedos passearam bem levemente pela palma da mão dele, depois subindo e descendo por cada dedo.

Olhou para ele e o viu com o olhar fixo em suas mãos. Parecia pensativo, tão concentrado. Sua expressão não entregava nada, apesar de haver uma pequena, bem leve, ruga entre suas sobrancelhas.

Quando ela pensou que ele não estava gostando, tudo inverteu e ela foi o alvo do carinho dele. Seu corpo todo correspondia às pontas dos dedos dele na sua pele, trazendo aquele gelo na barriga novamente. Voltou a olhá-lo e o sorriso dele estava de volta. Aparentemente, o que o deixava preocupado alguns segundos atrás não o incomodava mais.

Queria perguntar se estava tudo bem, mas sentia que independente do que estivesse na cabeça dele, não era algo que se compartilhava.

- Dormiu bem? - Ele perguntou.

- Muito bem. - Respondeu sinceramente. - Você?

Preguiçosamente, ele sorriu e a abraçou. Lily entendeu como uma resposta positiva.

- Desculpa caso eu tenha me mexido muito. Eu não fico muito quieto durante a noite. - Ele disse com o rosto perdido em seus cabelos.

- Eu não percebi nada. Você pareceu bem tranquilo, assim como foi na sua casa.

- Hmm, estranho. Mas melhor assim do que eu te jogar para fora da cama.

- Corro esse risco?

- Se não foi o caso na primeira vez e nem nessa, então acho que está segura.- As pontas dos dedos dele voltaram a lhe causar arrepios, fazendo Lily desejar acordar daquele jeito todas as manhãs. - Hoje à noite eu quero te levar para algo no centro da cidade. Há um festival todos os anos e nós sempre gostamos de vir...apesar da última vez ter sido há tanto tempo, que mal lembro.

- Adoro festival! - Respondeu com empolgação.

- Calma, não é nada muito grande.

- Não tem problema, tenho certeza que já muda da atmosfera de Londres.

Tirando a viagem para Southend-On-Sea, nunca teve um saída com um cara nesse estilo. Edgar só pensava em se encontrar para coisas íntimas e, apesar dele ter querido assumir a relação deles, assim que fizeram, logo em seguida estavam em casa, trancados no quarto. Depois, na festa de Dorcas - que ele foi com os amigos ao invés de ir com ela - e só apareceu para levá-la para um quarto e trazer uma garota aleatória.

Maldito fosse aquele tonto.

Se virou para ele.

- Eu mal posso esperar. - E era verdade.

James pareceu contente com a empolgação dela.

- E até lá, você diz o que quer fazer.

- Que tal você me levar até o lago?

- O tempo parece bom. - James se apoiou em um braço e olhou pela janela. - Boa ideia, mas antes...

- Comida! - Ela completou erguendo os braços no ar.

Preparar o café da manhã com James era um prazer à parte. Era algo tão simples, mas convivial. Eles trabalhavam bem em equipe, nenhum dos dois hesitando para qualquer tarefa.

Gostava também de como ele era carinhoso sem nem perceber. Um toque ou palavra, um beijo ou até uma risada.

- É bom mudar um pouco. - Ela disse ao deixar as frutas de lado e preferindo preparar algumas panquecas.

- Não se acostume tanto, porque em Londres eu conto com as suas frutas todas as manhãs.

Ele deu um beijo em seus cabelos enquanto levava mel e chocolate para as panquecas até a mesa da sala.

Comeram tranquilamente. Era um momento sereno onde o crepitar da chaminé e os pássaros - que tinha aos montes - eram mais presentes do que as conversas, pois pareciam dois esfomeados e comiam em silêncio. Entre eles, havia mais o toque, o olhar. Coisas que em um café da manhã normal não seria possível fazer.

Estava ensolarado, mas longe de estar quente. Foi obrigada a pegar uma jaqueta e uma calça, além de meias mais grossas.

Ao lado da área da piscina, havia um pequeno portão de madeira que James abriu, dando em um corredor na lateral da casa. Havia largos degraus de pedra que seguiram por alguns metros, até chegarem na planície do lago.

Não poderia dizer quão grande era o tal lago, mas perdia de vista. Alguns decks estavam ligados do outro lado da margem e apenas um do lado deles.

- Você costuma nadar aqui no verão?

- Pode acontecer. - Ele respondeu. - Quando venho com Sirius e Remus, ficamos mais na casa ou explorando a floresta.

- Se perdendo, eu imagino. Fazendo seus pais arrancarem os cabelos de preocupação, provavelmente.

James deu de ombros, um pouco culpado.

- Nos perdemos uma vez e levei a bronca da minha vida, mas teve coisas piores que nem eles sabem.

- Como por exemplo...?

Ele parecia relutante para falar, acendendo um pequeno alerta na cabeça da ruiva.

- A razão de não irmos tanto ao lago: Sirius quase se afogou aqui um dia.

Lily arregalou os olhos.

- O quê?! - Quase engasgou com a informação.

- A perna dele ficou presa em uma raiz. No começo, pensávamos que ele estava brincando e ignoramos. - Lily sentiu um bolo no estômago ouvindo aquilo. Olhou para o lago e imaginou o seu irmão tentando escapar. Teve um arrepio na espinha apenas em imaginar a cena.

- Como ele conseguiu se soltar?

- Você conhece o seu irmão melhor que ninguém. Com ele brincando toda hora, fica difícil saber quando é verdade, mas tem algo que sempre o denuncia...

- Sim. Os olhos dele sempre vão te dizer o que ele está passando. - Lily completou. Sirius tinha olhos muito expressivos, os quais te entregavam muito e quase tudo. Para mentir, ele tinha que fazer um esforço absurdo para não demonstrar. Ao mesmo tempo, você teria que conhecê-lo bem para entender o que se passava nos olhos cinzas.

- Exato. Foi Remus quem percebeu que ele estava longe de brincar e a gente pulou atrás dele. - James balançou a cabeça com a lembrança. - Tínhamos dez anos, acho. Poderíamos ter nos afogado tentando salvá-lo, mas a gente conseguiu. Nenhum adulto soube.

Lily tinha certeza que aquela vez não foi a primeira em que suas vidas ficaram em perigo. As incontáveis vezes que o irmão chegou em um estado deplorável em casa talvez fossem algumas.

- Obrigada por ter salvado a vida do meu irmão.

- Era o mínimo que eu podia fazer. Ele teve chance de me pagar, aliás, mas não vale a pena contar essa história.

Lily riu sem acreditar no que ouvia. Eram informações que não sabia se queria ter, na verdade, pois mesmo já estarem no passado, fazia seu estômago revirar.

Pelo menos poderia se apegar a algo: eles tinham se acalmado quanto as loucuras que faziam.

O que um pouco de maturidade não fazia, não é?

- Espero que suas aventuras estejam mais calmas hoje em dia.

- Um pouco. - Ele concordou quando chegaram até o deck e subiram. - Hoje em dia, mesmo em situações um pouco complicadas, a gente aprendeu a prestar mais atenção.

- Sabe, acho que é por essa razão que vocês têm uma amizade tão forte e bonita. Não é todo mundo que aprende com os erros e, por mais pestes que vocês são, parecem aprender com as merdas que fazem. Acabam formando um vínculo forte, uma cumplicidade e confiança enorme. Tenho certeza que, apesar desse episódio, meu irmão confia em vocês de olhos fechados para salvar a vida dele, caso precise.

- Assim como nós confiamos nele. - James assentiu.

Pararam na ponta do deck e Lily pegou aquele momento para admirar a vista espetacular. O sol tinha um reflexo bonito na superfície, os pássaros em volta estavam bem entusiastas com a cantoria.

Serenidade era o que estava encontrando ali. A vida parecia ter diminuído a velocidade enquanto observava a natureza, enquanto fazia parte dela.

Talvez essa era a razão de Euphemia gostar tanto de flores e plantas em geral, como transformava a casa dos Potter em Londres em cada estação. Ela parecia querer trazer um pouco de Godric's Hollow para lá e, honestamente, ela não desapontava. E Lily não a julgava por querer tal coisa, pois quase queria guardar aquele vilarejo em um pote e levar embora.

Queria levar embora a paz que aquele lugar lhe dava. Ali, parecia esquecer dos problemas, das situações em que se encontrava, das complicações...

- Eu não quero ficar no meio dessa amizade. - Lily soltou de repente, pensando em uma das tais complicações. Sentou na ponta do deck, seus pés quase encostando na água. James sentou-se ao seu lado, mas mais virado para ela, tomando cuidado para não enfiar a perna inteira dentro d'água.

Ele colocou alguns fios dos cabelos ruivos para trás.

- Não vamos voltar nessa história velha. Você não está ficando entre pessoas, porque não há disputa. A gente já resolveu isso entre nós, não?!

A ruiva concordou com a cabeça.

- Eu sei.

- Estamos apenas em uma situação complicada, sem ninguém disputar por ninguém. Eu não estou pedindo para você escolher entre o seu irmão e eu. - Ele riu um pouco. - O que seria bem idiota da minha parte, aliás. E nem há disputa com qualquer outra pessoa. - Ele fez uma pausa, pensando sobre o assunto na quietude da cabeça dele, antes de se virar para ela novamente. - E mesmo se houvesse disputa, eu iria ganhar. - A voz presunçosa dele fez uma sobrancelha de Lily levantar.

- Ah é?

- Sim, sabe por quê? - Ela meneou a cabeça. James se curvou até ela. - Porque boa parte das vitórias se deve a vontade que você tem e a vontade que eu tenho sobre esse assunto é bem absurda.

Aquilo a obrigou a sorrir.

- Você acha que venceria qualquer um então?

- Eu tenho certeza.

Esse cara iria acabar com ela de pouquinho em pouquinho.

- Mas que bom que não estamos em uma disputa mesmo assim.

- Não estamos. - Ele encostou o rosto no dela. - E mesmo não estando, ainda sim, eu estou ganhando bastante.

Ele a beijou suavemente, indo ao contrário do coração de Lily que estava quase escapando de seu peito.

- Parece que eu também. - Ela disse.

Foi a vez dele sorrir, a puxando para perto e servindo como apoio para Lily, enquanto se mesclavam na paisagem do lago de Godric's Hollow naquele ensolarado fim de manhã de Sábado.

Lily arriscou tirar os sapatos e mergulhar os pés no lago. Depois da história sobre o irmão quase se afogando, não arriscaria um mergulho, mesmo se o sol estivesse mais forte. Porém, poderia mergulhar uma parte de seu corpo.

Enquanto balançava os pés, contente, James deitou ao seu lado, os braços atrás da cabeça e os olhos fechados.

Aquele era um James que nunca viu após tantos anos: calmo. Não que ele fosse nervoso ou estressado, mas poderia ser bem agitado.

Sem resistir, ela pousou uma mão pelos cabelos dele, fazendo James quase ronronar como um gato.

- Este lugar parece te fazer bem. - Disse ao ver o pequeno sorriso dele.

- Para ser honesto, não é sempre que estou tão tranquilo. - Ele abriu um olho para ela. - Acho que é a companhia. Não é como se você fosse me acordar aos gritos, agitando o café da manhã e me arrastando para fazer mil coisas ao mesmo tempo...além de se perder na floresta comigo.

- Se você quiser, eu posso fazer tudo isso.

- Estou melhor assim.

Ele se deslocou e deitou a cabeça em seu colo. Seus dedos voltaram para os cabelos macios e rebeldes, arrancando um sorriso de puro contentamento dele.

Então era aquilo algo chamado "saudável". Não havia brigas desnecessárias, ataques, nenhum deles querendo sair por cima em um assunto. Aquilo era bom, lhe entregava algo são. Sua cabeça ficava tranquila, seu corpo estava relaxado. Talvez também seja a razão de responder tão bem sexualmente a ele, independente dele ser tão bom no que fazia, pois ela estava confortável e segura com James sobre esse tópico, não fazendo a cabeça dela explodir com preocupações idiotas, inseguranças.

- Está ouvindo isso? - Ele cortou seus pensamentos.

- O quê, exatamente?

- Passos. De javali.

Instintivamente, ela quase pulou em pé, mas James a segurou no lugar, ainda sem sair de seu colo.

- Eu não quero ser comida por uma mamãe javali. - Tentou se desfazer do agarro dele, enquanto James ria.

Ela se debateu, mas perdeu na força. No final, estava deitada no deck com James em cima dela, ainda rindo.

- Era brincadeira, Lily, se acalma.

Deixou a cabeça cair contra a madeira, xingando-o mentalmente.

- Sabe, você estava em ótimos pensamentos segundos atrás, mas agora eu mudei de opinião.

Os olhos dele brilharam.

- O que você estava pensando sobre mim?

- Nem lembro mais, mas não importa. Você está fora dos meus pensamentos a partir de agora.

- O que eu posso fazer para voltar para eles e te ajudar a lembrar? - Lily recebeu um beijo no pescoço com direito a uma leve mordida.

- Nada.

- Hum, eu não tenho certeza sobre isso. Acho que posso te convencer.

James tentou beijá-la, mas ela desviou, rindo.

- Não, nem pense em usar suas armas.

- Não?! Ok.

Ele se afastou mas Lily o segurou pela blusa.

- Você desiste fácil assim?

- Você disse "não" para os meus beijos, então...

- Está autorizado a tentar mais.

O puxou para baixo e o beijou. A mão dele espalmou em sua coxa de tal maneira, que tudo ficou mais quente. Ainda mais quando ele subiu e a espalmou em seu quadril, apertando-a contra o corpo dele.

- Está se lembrando?

- Me lembrando...?

James a apertou mais ainda contra si.

- Do que você estava pensando sobre mim.

Ah! Nossa, mal se lembrava do que falavam dez segundos atrás. Neste momento, ela só pensava em como ele estava com aquela mão em seu corpo.

- Ainda não. Acho que você precisa se empenhar mais.

Foi calada com um beijo tão inesperado, tão loucamente bom, que provavelmente não lembraria nem do próprio nome depois. James se enfiou entre suas pernas, suas mãos entraram pela blusa dela, subindo por suas costas.

- O que estava pensando sobre mim? - Ele perguntou trazendo sua mão para frente. Lily já estava na espera do toque dele, mas não aconteceu. Ele parou alguns centímetros ao lado de um dos seus seios. - E então?

- Preciso de mais incentivo.

- Eu acho que você está tendo bastante incentivo. Está na hora de me dizer algo.

Lily queria arrancar sua blusa e jaqueta com o calor que estava sentindo e só conseguia pensar nisso, além de querer tirar a blusa dele também.

Mas não iria muito longe. James não iria entregar o ouro tão fácil enquanto ficava esperando por uma resposta dela.

- Eu estava pensando que eu gosto de estar aqui. Com você.

Os olhos tão selvagens dele estavam em contraste com a expressão satisfeita. James ainda estava no momento anterior, assim como ela, mas um lado seu parecia estar aproveitando o que ela havia dito.

- O quanto você está gostando?

- Bastante.

- A ponto de não querer ir embora?

- A ponto de querer tomar café da manhã na sua camiseta naquela cozinha para sempre.

Ele abriu aquele sorriso maroto, mas com um toque de timidez incluso, que fazia Lily perder a cabeça.

- Você me fez um cara bem feliz neste momento. Tenho a intenção de te devolver em dobro agora.

Não era preciso confirmar que ele cumpriu a promessa, ainda que discretamente - mãos podiam fazer milagres em certas circunstâncias -, mesmo estando no deck do lago e correndo o risco de serem pegos.

Lily não se importava com nada naquele dia. Só queria fechar os olhos e aproveitar das coisas boas que a vida lhe trazia.

Como James Potter que adorava lhe dar orgasmos.


Your love is thick and it swallowed me whole

O seu amor é pegajoso e me engoliu por inteira

You're so much braver than I gave you credit for

Você é muito mais corajoso do que eu imaginava

That's not lip service

E isso não é da boca para fora

James estava na porta da sala, observando Lily parada ao lado da piscina, em uma cena que iria se lembrar por muito tempo: ela estava com um vestido bonito, assistindo ao pôr do sol. Era uma cena considerada relativamente simples, mas que estava mexendo com ele de uma maneira inesperada. Talvez fosse o fato de que aquele lugar significava tanto para ele, ser a garota que ele esperou ter e ela estar tão bonita.

Naquela manhã, sua cabeça estava tão acelerada quanto seu coração enquanto se via na cama com ela, pensando se aquilo seria algo que poderia ocorrer várias outras vezes no futuro ou se seria algo que acabaria logo. Honestamente, se fosse a segunda opção, seria um golpe duro de se recuperar, mas seria obrigado a encarar. Mas caso fosse a primeira opção...

Lily se virou para ele e sorriu. Se fosse a primeira opção, pelos céus, ele seria um cara feliz.

Resolveu se mexer e foi até ela, deixando o seu coração acelerar a cada passo mais próximo. Tinha a impressão que a encarava com muita intensidade, pois viu as bochechas dela avermelharem, combinando com o seu batom.

- Quem diria que você era o cara que demora tanto para ficar pronto?! - Ela brincou quando ele parou em sua frente.

- Eu não demorei, apenas fiquei pronto depois de você...que saiu do chuveiro primeiro, aliás. - Segurou a cintura dela e não resistiu selar seus lábios, tomando cuidado para não borrar seu batom. - Vamos?

Após pegarem seus pertences, saíram da casa em direção ao festival. James foi em direção ao carro, enquanto Lily passava por ele e pegava o caminho em direção ao portão.

- Hey, onde está indo? - Ele perguntou. Lily se virou para ele e parou.

- Você disse que o centro da cidade não era longe daqui, então podemos ir a pé.

- Mas ainda está longe para você.

Ela revirou os olhos.

- Não está, tenho certeza. - A ruiva continuou a andar.

Ah, aquela teimosia de família que o deixava maluco da vida.

- Eu te deixo dirigir. - Estava na hora de barganhar.

Sem parar, ela simplesmente virou e começou a voltar até ele.

- Ida e volta? - Perguntou com empolgação.

- Ida e volta, caso você esteja ok.

Lily fez um barulho de excitação e quase arrancou as chaves do carro da mão dele, fazendo-o rir. Ela se jogou dentro do carro, já girando a chave na ignição antes mesmo de James chegar do lado do passageiro, então ele se apressou antes que ela acelerasse sem ele dentro do carro.

O pequeno centro de Godric's Hollow estava a 2km da casa e sempre que estava de férias ali, seja com os amigos ou apenas os pais, eles sempre iam a pé, aproveitando a vista do lago e do ar limpo e fresco das florestas. Era um vilarejo bonito e pitoresco, com suas casas centrais datando de muitos séculos, com um dos bares mais antigos da Inglaterra e um dos melhores restaurantes em que James teve a chance de ir.

Porém não iria arriscar Lily voltar com dores. Eles já iriam andar pelo vilarejo durante o festival, então era melhor evitar.

Olhou para ela, feliz como nunca atrás do volante. Aqueles pequenos prazeres eram o ponto alto, podendo assisti-la sorrir e sentir-se bem com algo tão simples.

- Pegue a esquerda. - Disse ele ao saírem pelos portões da propriedade.

Iam devagar, com Lily tomando cuidado com a estrada de terra. De tempos em tempos, ele tentava olhar disfarçadamente para a perna dela, querendo ver o menor sinal de que as coisas não estavam indo bem. Sabia que ela poderia ser orgulhosa demais e não falar caso estivesse com dor, apenas para continuar a dirigir.

Dali, já começavam a ouvir as músicas e algumas crianças se divertindo. Aquilo o lembrou quando foram até Southend-On-Sea. Os gritos, as músicas e Lily...ambos no píer, no escuro, ouvindo todo o parque ao fundo enquanto conversavam sobre o que fariam sobre eles. Se aquele James apenas soubesse que algumas semanas depois, os dois estariam passando um fim de semana em Godric's Hollow e com a situação tão bem resolvida - ou o máximo que podiam -, provavelmente acharia que era a coisa mais louca do mundo.

Lily freou de repente, trazendo-o para o presente.

- O que foi? - Ele perguntou preocupado.

- Nada, mas olha essa vista.

Ela olhava pela sua janela: o sol já havia se posto, mas o céu estava exibindo seus últimos raios laranjas e vermelhos, espelhados no lago. E ali estava uma das belezas do lugar e o porquê os pais se recusavam a vender a casa, mesmo recebendo tantas propostas ótimas.

Faltava menos de 500 metros até o centro, então ele desatou o cinto.

- Quer continuar a pé? Não estamos longe. Você pode estacionar ali. - James apontou para um recuo de terra mais a frente.

Lily estacionou onde ele indicou e eles saíram do carro, parando por alguns segundos para admirar a vista.

- Esse lugar é quase mágico. - Ela disse mais para si do que para ele.

- Vem, vamos andando e admirando ao mesmo tempo.

James ofereceu sua mão. Lily olhou para a mão estendida de James e depois para ele. Em seguida, a segurou. Retomaram o mesmo caminho de antes quando no carro, mas a pé agora.

De mãos dadas.

A mão dela se apertou contra a sua, se aconchegando, e James teve que segurar a vontade de sorrir. Voltando a falar das pequenas e simples coisas que te trazem sorrisos, aquela era uma das que era difícil de entender que ocorria.

Mas não precisava entender. Estava deixando tudo em aberto, apostando suas fichas e apenas esperando pelo resultado positivo.

Realmente esperando pelo resultado positivo.

L~J

Um pouco de caminhada depois, chegaram no centro de Godric's Hollow. Se o que Lily tinha visto antes já era lindo, estava ainda mais impressionada com o que via agora.

As casas ali pareciam centenárias, feitas de pedra e madeira, dando um ar medieval. Muito bem conservada, era claro que os moradores tomavam extremo cuidado e tinham muito zelo pela cidade. Falando nos moradores, todos pareciam muito simpáticos. As pessoas sorriam para você, acenando, te acolhendo mesmo não tendo a mínima ideia de quem você era.

A praça principal era impressionante. Era rodeada pela mesma estrutura da cidade, mas havia uma enorme fogueira ao meio.

- Faz parte das comemorações. Normalmente, temos uma fonte no lugar dessa fogueira. - Explicou James quando Lily parou seu caminho para admirar.

Em volta da praça, estava a feira do festival. Havia muitas tendas: comida, lembranças, jóias, brincadeiras e cartomantes. Eles compraram alguns tickets para usarem nas brincadeiras enquanto cumprimentavam algumas pessoas.

- Está com fome? - James perguntou.

- Quase o suficiente. Podemos dar uma volta na feira e depois voltar para comer, o que acha?

- Claro. Vamos começar ali?

Ele apontou para o lado das tendas dos jogos. Lily se empolgou e se apressou até lá, com James tentando acompanhá-la. No meio do caminho, uma mulher vestida com bonitos panos a parou.

- Olá, gostaria de ler o seu futuro?

- Ah, não, mas obrigada pela oferta.

- Tem certeza?

- Sim, obrigada.

A ruiva desviou da gentil mulher e virou para James, pedindo para ele se apressar.

A primeira tenda era de tiro ao alvo: com uma arma de água, você deveria preencher um recipiente até a linha vermelha antes do tempo estipulado. Eles esperaram por algumas pessoas jogarem, antes de se posicionarem.

- E que vença o melhor, Potter. - Ela disse pegando a sua arma de água e a preparando.

- Então vai ser uma competição? Eu pensei que era apenas para eu tentar o meu melhor para conseguir um bicho de pelúcia para você.

- Isso não é um filme romântico, querido. Aqui é guerra!

Ouviu a risada dele, mas não se virou para admirar - pois ele tinha, de fato, uma risada bonita de se ver tanto quanto ouvir - e apenas se concentrou.

- Então é guerra, Evans!

O garoto da tenda esperava pelos dois. Assim que preencheram as armas de brinquedo, os dois se posicionaram, ambos com o olhar focado no recipiente.

- Vocês, sei lá, querem que eu peça para darem as costas e conte dez passos? - O garoto perguntou vendo a seriedade de ambos.

- Apenas o "3,2,1'' está ótimo. - James respondeu sem se mexer.

- Bom, então ai vai:...3...- Lily apertou a arma na mão. - ...2...- Achou a mira e colocou o dedo no gatilho de plástico. - ...1...- Comprimiu os lábios. - Agora!

Os dois apertaram o gatilho, cada um acertando a mira e ajeitando-a para acertar o recipiente. Lily se remexeu no lugar ao ver que o recipiente de James ia mais rápido, pois ele era mais alto e o jato d'água fazia uma curva perfeita. Já o dela acertava a boca do recipiente de vez em quando, perdendo algumas gotas preciosas.

- Isso não é justo. - Ela reclamou apertando com mais força no gatilho, como se aquilo fizesse a água sair mais rápido.

- Má perdedora. - James riu, fazendo-o perder a mira. - Ah, inferno.

O tempo passava e eles estavam um pouco mais da metade completos. Estavam quase empatados, com James 2 centímetros à frente.

- Ah, o pequeno Potter está aqui.

Uma voz vindo de suas costas fez James se desestabilizar, apesar dele não parar a competição.

- Talvez Fleamont e Euphemia estejam por aqui também. - Outra voz, agora masculina, respondeu.

- Droga, fiquem quietos. - James resmungo baixo o suficiente para apenas Lily ouvir. Ela riu.

Estavam empatados. O tempo estava chegando ao fim e ambos também chegavam até a marca no topo do recipiente.

- Você está perdendo, pequeno Potter.

- Cala a boca, Lily Evans.

O fim do tempo soou com uma campainha e eles levantaram as armas d'água. Era fato de ambos tinham atingido a marca vermelha, mas não era possível ver quem tinha preenchido mais o recipiente. O garoto da tenda foi até ambos os recipientes e olhou para dentro. James e Lily esperavam, ansiosos.

- Você pode ficar feliz, cara...- O garoto disse, olhando para James, que largou a arma e comemorou. -...porque a sua garota acabou de ganhar uma pelúcia para te dar.

James parou um dos braços no ar, Lily começou a gargalhar e bater palmas, contente.

- Não, não é possível. - James reclamou. - Confere de novo.

- Ela te venceu por um centímetro. Mas você também ganhou um prêmio, porque atingiu a marca.

Lily comemorava enquanto James cruzava os braços, emburrado até a centésima potência.

Nas prateleiras, muitos bichos de pelúcia pareciam representar a região, já que até um javali tinha.

- Eu quero aquele. - Ela apontou para um cervo de pelúcia. O garoto entregou para ela.

- O que eu tenho direito? - James perguntou.

- A tudo desta prateleira.

Eram chaveiros. James bufou ao seu lado.

- Sei lá, cara, qualquer um. - Ele reclamou.

O garoto pegou um chaveiro e entregou para James, que o colocou dentro do bolso e saiu. Rindo com vontade, Lily agradeceu o garoto e se apressou até James.

- Que péssimo perdedor você é.

- Eu estava distraído, só por isso. Estava ganhando desde o começo.

Se colocou na frente dele, fazendo-o parar. Segurou seu rosto e o puxou para um beijo que ele não recusou.

- Não fique irritado, pequeno Potter. - Ela pegou a pelúcia debaixo do braço e entregou para ele. - Consegui para você uma pelúcia, não é fofo?

James pegou a pelúcia do cervo e parecia segurar o sorriso.

- Obrigado. - Colocando a mão no bolso, ele tirou o chaveiro. - Eu só consegui isso para você.

Pegando o chaveiro, ela viu que era uma corsa.

- Ah, veja, ele escolheu algo que combinasse com a sua pelúcia.

- Nem de perto legal o suficiente.

Lily iria tentar consolá-lo, mas um casal parou ao lado deles, fazendo-os se virarem, assustados.

- Ah, é o pequeno Jamie. - A mulher por volta dos seus 60 anos disse. - Meu querido, tanto tempo passou desde que nos vimos.

Ela o segurou e o puxou para um abraço. James foi pego de surpresa no começo, mas abraçou a mulher de volta.

- Olá, Sra. Bagshot. - James respondeu.

- Veja, querido, como ele cresceu. Você deve estar tão alto quanto seu pai. - A Sra. Bagshot dizia para o senhor ao seu lado. Lily imaginava ser o seu marido.

- Meu pai ainda está ganhando por três centímetros. - James riu.

- Sempre perdendo por centímetros, hein?! - Lily brincou, fazendo James revirar os olhos.

- Essa é Lily Evans. - James a apresentou. - Esses são os Bagshot, vizinhos de terreno conosco.

- Nossas famílias compraram terrenos no vilarejo ao mesmo tempo no começo do século. Desde então, somos as mais tradicionais daqui, apesar de apenas passarmos férias ou fins de semana.- O sr. Bagshot se fez presente pela primeira vez na conversa. - Falando nisso, seus pais estão por aqui também?

- Não, eu vim sozinho dessa vez. Digo, não sozinho. - James olhou para Lily e sorriu.

- Ah, certo. Bom, eu precisava falar com Fleamont. Há um pequeno problema na cerca e queria saber se ele se importaria se eu arrumasse.

- Um problema? - James perguntou.

- Nada demais, não se preocupe, mas queria arrumar antes de ter javalis e raposas invadindo o terreno e fazendo uma bagunça na horta.

- Eu posso vir amanhã de manhã e conferir, se quiser. - James ofereceu. - Se tiver algo que eu possa fazer do nosso lado, eu ajudo.

- Atencioso da sua parte, querido, mas não há necessidade.

- Me parece que há. Estarei lá às 10h amanhã.

Após trocarem mais algumas palavras com o simpático casal, eles acenaram e se afastaram.

- Vamos naquele agora! - James apontou para a tenda mais ao fundo.

Lily queria rir com a indignidade dele ao ter perdido. Ele não costumava ter um ego tão frágil assim, mas aparentemente podia acontecer.

Naquela tenda, uma pilha de copos estavam dispostos em forma de pirâmide, prontos para serem acertados por pequenos sacos de tecido preenchidos com areia.

- Boa noite. - O senhor responsável pela tenda os cumprimentou. - O casal joga ou apenas um de vocês ?

- O casal. - Lily respondeu já arregaçando as mangas. Ao seu lado, James fez o mesmo. O senhor olhou de um para o outro, assistindo a rivalidade dos dois explodindo.

Entregaram seus bilhetes e se prepararam para receber os pequenos sacos de areia. Lily estava pronta para dar o seu melhor, mesmo sabendo que era muito ruim nesse tipo de jogo. James já tinha todo o encorajamento e o ego ferido, mais preparado para aquilo do que ela.

Porém, isso não a impediria de provocar.

- Pronto para me dar um outro chaveiro? Ou será que você nem conseguirá derrubar um copo e eu irei embora de mãos vazias ?

Recebeu um olhar bem torto e enviesado como resposta.

- Prontos? - O senhor perguntou.

- Com toda a certeza. - James respondeu. - A não ser que a senhorita ao lado precise se preparar ainda.

- Estou mais pronta do que você. Eu nasci pronta para acabar com o seu jogo, Potter, e olha que eu nasci primeiro.

- Então já estávamos destinados, hein?! Que romântico!

- Na verdade, eu penso que se nossas almas estavam em outro lugar antes de virem para a terra, você me enchia o saco desde então e apenas me seguiu até aqui.

O senhor da tenda continuava sem saber como agir. James deu um passo até Lily e, para a surpresa do senhor, deu um beijo rápido nela.

- Tenho certeza disso. - Ele disse voltando ao seu lugar. - Pronta para perder, Lily Evans ?

- Pronta para acabar com você, James Potter.

- Que vença o melhor, certo ? Primeiro os perdedores...digo...as damas.

Ignorou a piada e se posicionou em frente à sua pirâmide. Testou o peso do saco de areia por um momento antes de mirar e jogar.

Derrubou três copos do topo. Nada mal para alguém que era ruim naquilo.

James pegou o seu saco de areia e se posicionou enquanto sorria zombeteiramente dela, o infeliz. Ele também testou o peso da areia antes de mirar e lançar com tanta força, que o senhor da tenda deu um pulinho para trás.

Acertou a fileira da base, derrubando a maior parte dos copos. Lily fez o máximo para esconder sua surpresa.

- Poderia ter sido melhor. - Ela comentou se posicionando novamente em frente da própria pirâmide quase inteira. - Dificilmente vai derrubar tudo com 4 sacos de areia restantes.

- E você vai fazer muito mais com a sua pirâmide ainda em pé e apenas 4 chances, não é mesmo? - Ele zombou.

Lily deu de ombros e pegou o saco de areia. Mirou e jogou...e aquele inferno passou raspando por um dos copos, atingindo o fundo da tenda sem derrubar nenhum.

- Estou apenas querendo dificultar, senão eu vou ganhar muito rápido. - Explicou quando viu James segurando a risada e quase falhando.

- Aposto que sim. - Ele respondeu pegando um saco de areia.

Desta vez, James se posicionou um pouco mais para o lado, ficando desalinhado com a pirâmide. Com um pouco mais de calma e menos força do que a primeira vez, ele lançou o saco de areia, acertando a outra parte da fileira de base, derrubando quase todos os copos, deixando alguns - que estavam no topo - e que caíram em pé na madeira.

Restavam apenas 3 copos para ele e 3 chances ainda.

A ruiva fingiu que não recebeu um olhar satisfatório dele e foi até a sua pirâmide.

- Sorte de principiante. - Resmungou enquanto pegava o seu saco de areia.

- Principiante ? - Ele ralhou. - Quem, você ?

Não respondeu. Iria usar o truque dele e acertar a fileira de base, mas já desalinhada, tentando acertar a fileira de lado. Lhe soava como uma boa estratégia.

Lançou a areia e sua pirâmide veio abaixo, restando apenas 2 copos em pé.

Jogou os braços para cima em comemoração, enquanto via James de boca aberta, encarando os copos restantes.

- Que porr... ?

Sem perder tempo, ele pegou sua areia e jogou. Dois copos se foram, restava 1 agora.

- Nervoso, Potter ? - Perguntou enquanto pegava a areia.

- Indignado. Isso sim é sorte de principiante, você mal mira e acerta.

- Mau perdedor. Está com medo que eu acerte tudo agora e você perder...de novo.

- Eu não vou perder. Joga logo essa porcaria, Lily.

Ela riu ao se virar para os 2 copos em pé. Estavam muito longe um do outro e mesmo jogando de lado, não conseguiria acertá-los juntos. Ou talvez existisse uma maneira e ele sabia como, por isso estava tão tenso com a possibilidade dela ganhar.

Se tivesse a possibilidade de ganhar, ela gostaria. Não para deixá-lo nervoso, mas por ela mesma.

Mudou de posição, tentando ver o que ele poderia estar vendo. Foi para o lado esquerdo, depois para o lado direito. Se abaixou, tentou se apoiar na bancada em sua frente. Impossível acertar os dois copos. Teria que usar as duas chances que lhe restava e tentar acertar um de cada vez.

- Vai na lateral da tenda. De lá, você joga o saco de areia mirando a plataforma de madeira onde estão os copos com intuito de deslizar o saco de areia por lá. Joga com força e ele vai derrubar os dois copos.

Olhou espantada para James, que estava de braços cruzados ao seu lado. O rosto dele estava contorcido com desgosto por não ter se segurado e entregar de bandeja a vitória para ela.

Foi até a curva da tenda, se espremendo contra o poste que a mantinha em pé. Ok, ela podia ver o que ele dizia. Se o saco de areia deslizasse com força o suficiente, derrubaria os dois copos. Ainda sim, não era tão fácil quando soava.

- Mira um pouco mais para cima. - Ele disse atrás dela. Lily levantou mais o braço. - Se for muito para baixo, você vai acertar o tablado de madeira, então melhor acertar apenas 1 copo do que nenhum.

- Certo.

- Vai ter que lançar com força, não esqueça. Esse é o saco de areia mais leve dos que sobraram ?

- Me parecia que sim.

- Então estamos bem. Você está pronta, mas não esqueça : força. Você quer que ele deslize, não quer que ele pare assim que pousar na plataforma de madeira.

Após sua sessão com o expert, ela se firmou mais contra o poste da tenda. Manteve sua mira como James explicou e jogou com força seu saco de areia.

Os 2 copos caíram.

- AH!

Ela gritou e pulou nele, o abraçando pelo pescoço.

- Sorte de principiante. - Ele disse quando ela o soltou.

O assistiu pegar o saco de areia e jogar contra o copo restante da sua própria pirâmide, o derrubando.

- Nós dois ganhamos! - Ela anunciou.

- Não, você ganhou por ter derrubado tudo primeiro. - A corrigiu.

- Mas por você ter me falado como ganhar. Se não tivesse me dado a dica, você teria ganhado primeiro. - Lily se virou para o senhor da tenda. - Não estou certa?

- Me parece que o jovem ganhou duas vezes. - Ele respondeu.

James não parecia muito satisfeito com a vitória.

- Tanto faz.

- Escolha o seu presente. - O senhor apontou para a prateleira no fundo da tenda.

- Da esquerda, na prateleira de cima.

Um cachorro que parecia com Snuffles, o seu cachorro de pelúcia que sumiu na Cornualha quando era criança, foi entregue para ele. Lily encarava o cachorro com um aperto no peito, uma saudade de algo tão longínquo.

- Um cachorro bem grande, maior do que o meu cervo. Pelo menos nisso eu ganhei. - Ele se vangloriou.

Lily estava completamente distraída com o cachorro, o recebendo de James. Eles não se conheciam muito bem quando ela o perdeu e nem devia ter ideia que o Snuffles existiu, então não deveria estar entendendo os olhos marejados dela.

- Obrigada.

- Você quer trocar? - Ele perguntou com o semblante um pouco preocupado.

- Não! Não, de jeito nenhum. Eu amei.

James e o senhor da tenda trocaram olhares rápidos, um pouco confusos.

- Você também tem o direito de escolher um, senhorita. - O senhor indicou a prateleira.

Ela apontou para o que queria.

- Agora nós dois temos um chaveiro e uma pelúcia. - Dizia ela ao entregar um chaveiro de uma taça dourada para ele.

- Me parece justo. Obrigado - Foi abraçada pelos ombros e recebeu um beijo de agradecimento. - Toda essa competição me deu fome. O que você acha de comer agora? - Ele sugeriu.

- Sim, comer!

Escolheram uma tenda e pediram uma porção de raclete para cada um com boas quantidades de batatas, queijo e frios. Enquanto comiam, James ligou para o pai sobre o problema da cerca com os Bagshot e Lily ficou observando a feira. Muitas pessoas pareciam se conhecer, pois a cada metro, se cumprimentavam com entusiasmo.

Também começou a prestar atenção à grande fogueira posicionada no meio da praça. Parecia que não demoraria para algo acontecer, já que as pessoas começaram a estacionar e tentar achar um lugar por ali.

A mesa alta que pararam para comer tinha uma vista privilegiada, então talvez não se mexeriam até o que for que fosse acontecer, acontecesse.

- Você se importa se eu pegar 1h para checar isso com os Bagshot pela manhã? - James perguntou ao colocar o celular de volta ao bolso.

- Claro que não, sem problemas.

James desceu do banco e conferiu a praça e a grande fogueira.

- Bom, não vai demorar para começar. Você quer algo mais para comer?

- Não, estou satisfeita.

Ele jogou todas as embalagens fora e voltou até ela, mas ao invés de pegar o seu banco novamente, James se posicionou atrás de Lily, os braços sendo apoiados na mesa. O peito dele estava grudado em suas costas, os braços dele estavam colados nos seus em cima da mesa e suas mãos estavam sendo cobertas pelas dele.

Fechou os olhos, deixando aquela sensação de bem estar e cuidado que sentia lhe tomar por inteira.

Era tão bom, tão confortável... de um jeito que nenhum outro tipo de abraço era. Porque era carinhoso, quente, atencioso. Os dedos dele acariciavam os seus sem James nem perceber, porque era simplesmente algo dele, seu jeito de ser, de agir.

- Primeiro, vão começar com um cântico. - Ele disse em seu ouvido quando algumas pessoas com roupas típicas iam até a fogueira.

- De onde?

- Daqui. Tem essa lenda que bruxos poderosos moravam aqui séculos atrás. Há muita história sobre isso e eles mantêm essa tradição desde então.

E como se tivesse sido combinado, o lugar inteiro caiu em silêncio. Devia ter 300 pessoas por ali e todas elas ficaram em absoluto silêncio apenas ao verem uma garotinha caminhar até a praça. Ela foi colocada logo ao lado da fogueira, ainda apagada, e toda a atenção foi voltada para ela. E então, ela começou a cantar. Como um pequeno anjo, mas em uma língua que Lily não podia compreender.

- Você consegue entender algumas palavras, porque tem um pouco de inglês, mas boa parte é galês. - James respondeu seus pensamentos.

A voz daquela garotinha ecoava pela praça e Lily tinha a impressão de que poderia ser ouvida por todo o vilarejo. Seus braços estavam arrepiados com a doçura do cântico e do talento.

- Sobre o que é a música? - Ela sussurrou para ele.

- Sobre três irmãos bruxos que moravam aqui. Cada um deles tinha um poder diferente: a invisibilidade, o de trazer os mortos de volta e uma poderosa arma, capaz de vencer qualquer outra.

Queria poder entender galês e entrar naquela história, parecia muito interessante e mística.

O cântico acabou e Lily estava prestes a aplaudir até a semana que vem, mas James segurou suas mãos. Lily olhou para os lados e viu que ninguém aplaudia.

- Espere. - James pediu.

Alguns adultos também vestidos a caráter, como a garotinha, se aproximaram e a tiraram de lá. Logo depois, acenderam a fogueira. As madeiras pegaram fogo tão rápido e com tanta força, que Lily se jogou para trás com o susto. Ouviu James rir e deu uma cotovelada em sua barriga, fazendo-o arfar.

Todas as pessoas que participavam do número, se reuniram na frente da fogueira e começaram a cantar novamente. Lily diria que não era a mesma música de antes, mas como não sabia galês, era difícil ter certeza. A garotinha continuava no centro deles, sua voz se destacava entre todas e, no final, ela fez um solo que trouxe lágrimas de emoção.

Todos começaram a aplaudir e Lily não ficou de fora.

- Isso foi maravilhoso. - Ela dizia enquanto aplaudia.

Algumas pessoas foram até os responsáveis para lhe cumprimentar. A garotinha era a maior artista, sendo bajulada por todos.

- Antigamente, havia uma peça de teatro com a história, mas quando o último membro de uma das primeiras famílias a morar aqui morreu, eles não quiseram mais continuar. Agora só há o cântico, que passa de gerações. - James apontou para a garotinha. - Ela é de uma família muito antiga de Godric's Hollow. A mãe, do lado dela, cantava antes. A mãe dela cantava antes dela e assim vai.

- E se nascer um menino?

- A mesma coisa, mas eles dão preferência para o sexo feminino da família.

- E se a pessoa cantar mal?

Ele riu.

- Boa pergunta. Talvez entrem em aulas de canto desde pequenos, porque eu nunca vi alguém cantar mal. - Ele deu de ombros. - Está pronta para continuar a conhecer a feira? - James perguntou.

- Sim.

Ele a ajudou a descer do banco e, novamente, pegou sua mão e a entrelaçou. Passaram perto da fogueira apenas para admirarem o trabalho feito pelos moradores.

- Que tal uma sobremesa? - Ela apontou com a cabeça para uma tenda com fondue de chocolate. Nem esperou pela resposta dele e já o puxou até lá. - Um espeto de morangos com chocolate ao leite e chocolate branco, por favor. - Lily pediu já quase salivando. - O que você vai querer?

- Vou pegar um pequeno com chocolate.

James fez o seu pedido e Lily segurou a carteira dele.

- Você pagou o jantar, agora é a minha vez. - Ela disse pagando pelas duas sobremesas.

Pegaram seus respectivos pedidos e começaram a andar pela feira enquanto comiam, parando em algumas tendas de lembrancinhas ou jóias.

- Gostaria de ver o seu futuro agora?

A cartomante de mais cedo a parou novamente. Com tantas pessoas ao redor, ela se lembrava de já ter parado Lily?

- Não, obrigada.

- Eu faria, se fosse você. Quando passou aqui pela primeira vez, eu virei A Raposa. - A mulher mostrou a carta de uma raposa. - Isso quer dizer que inimigos próximos estão prontos para golpear na primeira oportunidade.

Lily olhou para a mulher.

- Você tirou uma carta apenas me vendo passar?

- Eu apenas senti a sua energia. Estava gritando aos ventos.

- Obrigado por isso. - James se intrometeu. - Estamos atrasados.

Ele começou a conduzir Lily para longe da mulher, mas a ruiva parou novamente.

- E qual carta você acha que viraria agora?

A mulher nem pestanejou e levantou uma carta com a figura de um Urso.

- Hum, interessante. - A cartomante comentou. - Considerando a Raposa de antes, que prevê alguma apunhalada, o Urso traz falsidade, mas também tristeza, brigas e discussões.

- Um futuro trágico, pelo o que vemos. - Lily comentou sem se abalar.

- Obrigado novamente, mas precisamos ir. - James insistiu.

- Eu poderia virar para você também, jovem. - Ela disse olhando diretamente para James. - Vejamos...ah, o Lírio. - James e Lily soltaram risadas pelo nariz. - Simboliza a inocência e a virgindade, mas ao contrário, também a tentação da paixão e da excitação sexual.

- Uhul! - Ele murmurou, apenas Lily o ouvindo.

- E depois temos...A Carta. Hum...está ligada à reflexão, à consideração, ao estabelecimento de limites e testes. Se não está acompanhada de algo ruim, pode ser considerada boa.

Era completamente descrente, por isso não aceitou ver a cartomante desde o começo, mas aquele tipo de coisa lhe dava calafrios às vezes.

James tirou um ticket do bolso e entregou para a mulher. Não pediram pela leitura, mas já que foi feita, melhor pagar a mulher de qualquer forma.

- Obrigado. - Ele agradeceu ainda contrariado pelas palavras da mulher, que apenas assentiu e se afastou, abordando um grupo de idosos.

- Tenho que rever minha lista de inimigos e ficar de olho neles. - Ela brincou dando uma mordida em seu morango com chocolate logo depois.

- Ah sim, sua imensa lista de inimigos. São tantos...- James bufou sem paciência. - Não dê ouvidos a isso. Todo mundo pode se ver e se encaixar nessas condições.

- Eu não dou bola, não se preocupe.

Terminaram suas sobremesas e já chegavam até o fim da feira. Na última tenda, Lily viu um bar em uma antiga construção. A música era bem alta e parecia que os jovens da cidade se refugiaram ali após todo o cântico.

Estava virando para voltarem para a feira, mas James não a acompanhava, fazendo seus braços esticarem. Ele olhava para o bar, pensativo.

- O que foi? - Ela perguntou.

- Tem algo que eu queria fazer...- Ele disse ainda olhando para o bar. - Tem cinco minutos para me emprestar? - Perguntou ele ao se virar para ela.

- Claro.

Ele a puxou na direção do bar. Bem, aquilo não estava em sua mente como atividade e pensava que na dele também não, mas havia algo diferente na maneira que ele se dirigia até lá.

O segurança os deixou passar e Lily apenas era puxada por James entre todas as pessoas, indo até a pista de dança.

- Apenas quero fazer algo que nunca podemos...

James a puxou e a beijou no meio da pista de dança, entre todos os outros que dançavam e cantavam. Ela sorriu entre seus lábios e o abraçou, correspondendo o beijo.

Se imaginou no Três Vassouras, com todos os seus amigos e Sirius em volta, e podendo fazer aquela mesma coisa sem se preocupar. Se encontrar às escondidas era excitante, legal, mas poder beijar James na hora que quisesse era ainda melhor.

- Isso é tão bom. - Ele disse contra a sua boca. - Estar no meio de tanta gente e te beijar.

- Então não desperdice essa chance.

Continuaram a se beijar, querendo tirar proveito daquele momento o máximo que podiam.

Sem preocupações, sem correria.

Dez minutos depois, eles saíram do bar. O segurança olhou para eles, sem entender, mas não comentou nada.

Aquela tinha sido uma noite deliciosa, completa e que estaria em suas lembranças por muito tempo. Mas agora sentia sua perna reclamar um pouco. Não era muita dor, mas sentia que estava passando do limite que aguentaria.

- Acho que preciso descansar um pouco. - Anunciou.

- Sua perna está doendo?

- Não exatamente, mas está reclamando.

- Vamos para casa, então.

Percebeu que ele diminuiu o passo e ela agradeceu, mesmo não sendo necessário ainda. Era melhor prevenir e evitar uma dor excruciante depois.

- Então, você queria me beijar em um bar lotado. - Ela comentou com um pequeno sorriso malandro.

- Sim, eu queria.

- Eu gostei. Não sabia que queria isso até estarmos lá. - Disse ela. James apertou sua mão, parecendo feliz pela concordância. - Provavelmente queremos muitas coisas em comum.

Estavam pegando um atalho pela calçada, atrás da feira, evitando a multidão. James parou, fazendo-a parar também.

- Eu tenho a impressão que sim.

Eles se encararam por um longo tempo e ela sentiu que uma pergunta surgiu e ficou pendente ali. Lily tentava pedir para o seu coração bater mais devagar, antes que começasse a própria apresentação no festival, chamando a atenção de todos, querendo que ela desse o passo para jogar a pergunta no ar.

O rosto todo dele tinha um brilho único, o sorriso era leve e tão puro. Passava uma mensagem boa, tranquila - algo que ela sempre procurou e que sempre esteve logo abaixo do seu nariz -, além de lhe dar toda a coragem e sossego para atender o seu coração e peguntar:

- Então o que você quer, James?

- Te beijar. - Ele a beijou, mas na bochecha. Aquele beijo gostoso foi tão bom quanto um na boca. - E beijar mais, e ficar perto de você, te ver e te levar em casa quando precisar. - Ele sorriu. - Te ter apenas com a minha camiseta no café da manhã, no almoço e no jantar também. Suas mãos me segurando forte, deslizando pelos meus cabelos como só você sabe fazer ou por qualquer outra parte do meu corpo que quiser. Te dar bronca por conta da sua perna...- Ele a agarrou pela cintura e começou a empurrá-la gentilmente para trás, até Lily estar contra a fachada de vidro de uma loja. - E tomar conta dela também, fazer massagem e compressas de gelo...- Ele a beijou no pescoço, fazendo Lily se arrepiar por inteiro. -...tomar conta de você. - Ele finalizou a frase em seu ouvido.

- Esse final soa tão "homem das cavernas". - Ela respondeu com a voz fraca de desejo.

- Mas não deveria, porque eu disse tudo isso na esperança de que você queira tomar conta de mim também.

Sua perna fraquejou, mas não foi de dor dessa vez. Ainda bem que se segurava nele e James a tinha firma contra uma parede, ou teria falhado em se manter ereta.

- Eu posso dizer com todas as letras que temos tudo em comum sobre o que queremos. - Respondeu baixinho enquanto olhava para a boca dele tão perto da sua.

Ele abriu aquele sorriso imenso e perfeito dele, deixando-a ainda mais fraca.

- Era exatamente o que eu precisava ouvir. - James fechou os olhos enquanto ainda a provocava com um beijo não dado, mas não longe de ocorrer. - Que tal eu te jogar nas minhas costas e a gente voltar para casa mais rápido? - James pediu.

- Lidere o caminho, estou logo atrás de você.

Se colocou na frente da ruiva e Lily pulou em suas costas.

Sua perna agradeceu de imediato e, para repassar o agradecimento, Lily abraçou James e pousou sua cabeça contra a dele em um gesto carinhoso. Ele se virou um pouco para ela e a beijou.

E ali ela sentia-se em paz.


You are the bearer of unconditional things

Você é o detentor de coisas incondicionais

You held your breath and the door for me

Você segurou a respiração e a porta para mim

Thanks for your patience

Obrigada pela sua paciência

James voltou dirigindo e ela não se atreveu a argumentar. A vida é feita de pequenas vitórias e tentar dirigir depois de anunciar que a sua perna estava cansada, seria apenas uma discussão boba.

Ao chegarem na casa, ele foi até a lareira central para acendê-la. Aquela noite fazia mais frio do que a anterior e, apesar de não fazer frio ali dentro, uma lareira acesa parecia perfeita para o momento.

Estava na cozinha bebendo um pouco d'água quando ele apareceu na sua frente, um sorriso leve nos lábios.

- Pode vir até aqui um momento? - Pediu.

Ela saiu da cozinha e foi até ele, na frente da lareira. James sentou no sofá e pediu para ela sentar-se ao seu lado, o que ela fez.

- Você está estranho. O que foi?

- Eu só queria conversar com você por um momento.

Oh. Aquilo deveria ser algo bom? Aquela frase nunca antecede algo bom.

Mas como poderia ser algo ruim depois de tudo o que aconteceu no festival até poucos minutos atrás?

- Ok, estou ouvindo.

- Primeiro, quero te pedir para me ouvir até o fim antes de reclamar. - Aquilo só piorava. Seu peito apertava cada vez mais com cada palavra dele. - Tudo bem para você?

- Claro.

Ele deslizou os dedos pelos cabelos dela, colocando alguns fios para trás. Aquela demora estava sendo uma tortura. Por que ele não falava logo o que era?

- Nós já conversamos sobre isso, mas acho que foi em um momento diferente. Eu diria que tudo mudou desde então. - James sorriu vendo a tensão dela.

- Se você esta dizendo, então provavelmente sim. - Respondeu vagamente. Se soubesse do que estavam falando, seria mais fácil concordar ou discordar dele.

James riu um pouco com o nervosismo dela e parecia não querer se prolongar no suspense, pois respirou fundo um segundo antes de jogar a bomba:

- Lily, eu...eu quero falar com Sirius.

A boca dela caiu no mesmo instante.

- James...!

- Espere, me deixe terminar. - Ele pediu, tranquilo, já imaginando que ela reagiria assim.

Lily fechou os olhos por um segundo e assentiu.

- Ok, continue.

- Eu sei que você não quer falar para ele para poder evitar drama ou o que for, mas será que haveria? Não é como se eu fosse o pior cara da vida para se ter algo, não?

- Claro que você não é.

- Talvez ele pense o mesmo, caso souber. Sirius, claramente, não cogita isso, mas talvez veja pelo lado bom.

Aquilo lhe fazia ter quase um surto. Apenas pensar em contar para o irmão que está saindo com o melhor amigo dele...

- Eu não sei, James.

- Vem aqui. - Ele pediu. Lily se aproximou mais dele, deitando em seu ombro. - Feche os olhos e vamos pensar em algo juntos. Uma sexta-feira. Você e Alice saíram para fazer algo: cinema, Três Vassouras, não importa. Eu estou com os caras, talvez jogando na sua casa. Você volta e vai dormir. Eu termino a noite com os caras e, ao invés de pegar o carro e ir embora, eu subo até o seu quarto, me enfio nas suas cobertas e a gente dorme até tarde no dia seguinte.

Aquilo soava como um pequeno sonho.

- Isso parece bom.

- Ou uma outra probabilidade: você já está bem para dirigir, pega o carro e vai até a minha casa. A gente vai assistir todo e qualquer filme que você quiser, enrolados no sofá. - Ele a observou, talvez tentando adivinhar o que ela pensava sobre aquilo. - Tudo isso, as duas cenas, acontecendo naturalmente, porque Sirius sabe, todo mundo sabe. Sem correr, sem se esconder.

- Isso parece bom na teoria.

- E pode ser na prática também. - James suspirou. - Eu sei que não vou te fazer mal e eu sei que você também não. Então, se acabarmos indo cada um para um lado no futuro, a gente continua como era antes: amigos.

Um dos problemas em se envolver com alguém que tinha uma grande conexão com um outro alguém da sua vida, era isso: e o depois? E se algo acontecesse?

Poderia acreditar que James não fosse um idiota com ela, mas até então...ele era homem. Dá pra esperar muito deles, ou pouco, dependendo do ponto de vista. Mas a questão aqui não era essa, mas sim Sirius. Sobre como as coisas poderiam ir, as brigas. Ele poderia aceitar tranquilamente - com um pouco de choque-, mas podia. Ou não.

- Ele disse que não queria saber das coisas que eu ando fazendo.

- Ele quer, só não quer passar pelo processo. - Ele continuava a fazer carinho em seus cabelos e Lily relaxava cada vez mais. - Eu posso falar com ele, sozinho. - James continuou após o longo tempo de silêncio. - Explicar as coisas.

- Acho melhor estarmos juntos. Acho que cada um de nós evoca algo nele, que pode ajudar.

- Então isso é um sim?

Com dificuldade, ela levantou a cabeça para olhar para ele.

- Acho que você apresentou bem o seu caso. Eu posso pensar um pouco sobre isso?

- Claro. Eu não quero te forçar a isso, Lily. - Ele sorriu, querendo tranquilizá-la. - Se você decidir por não falar, a gente não fala. Eu só queria que pudéssemos ter isso...- Ele abriu os braços. - ...sempre.

- Você me traria para Godric's Hollow com mais frequência? - Ela brincou.

- Se você quisesse, sim. Mesmo se você decidir por continuar dessa maneira, nós ainda podemos vir.

- Que bom. - Lily olhou em volta. - Eu me apaixonei por esse vilarejo.

James posicionou sua mão em seu queixo e virou seu rosto devagar, fazendo-a encará-lo. Os narizes se tocavam delicadamente enquanto ele a acariciava.

- Você se apaixonou pelo vilarejo? - Ele perguntou.

- Sim.

- O que esse vilarejo fez de tão bom?

Os lábios dele brincavam com os seus, fazendo Lily sentir um calor intenso em todo o seu corpo.

- Tantas coisas.

- Hmm. - Ele a observou por um momento. - Que vilarejo sortudo.

Ele não a deixou responder, beijando-a daquele jeito que só ele sabia fazer: intenso, mas devagar. Trazendo-a para a beira do precipício da vontade, da loucura, mesmo beijando-a tão lentamente.

James se mexeu e saiu do sofá, trazendo Lily com ele, mas não para qualquer outro cômodo na casa, mas para o tapete, logo a frente da lareira. A ruiva se deitou, ainda sem parar o beijo, com James ao seu lado.

Ela logo colocou suas mãos por dentro da camiseta dele, com toda a vontade de sentir a sua pele, o corpo. Lily puxou a peça, ajudando James a tirá-la e jogando-a para o lado. O beijou com mais intensidade, o puxando para mais perto.

Enquanto ele a beijava pelo pescoço, se pegou pensando na conversa anterior. "Que vilarejo sortudo" foi o que disse, mas será que ele pensaria assim caso...caso ela dissesse que era por ele? Caso ela dissesse que, quando encarou o reflexo de ambos no espelho ontem, ela viu algo parecido em seus próprios olhos? Algo que ela nunca tinha presenciado ou sentido antes.

E não era pelo vilarejo.

Aquele pensamento a fez segurar os cabelos dele com força, tendo como resposta uma mordida em seu colo. Seu vestido começou a sair de seu corpo por etapas, com cada área que James cobria com beijos. Ele tirou uma alça enquanto beijava um ombro, depois partiu para a outra.

Havia algo diferente acontecendo e não era pelo fato de James estar levando o seu tempo e acabando com a sanidade de Lily. Era a maneira como ele estava beijando, o jeito como a estava segurando. E, claro, Lily reagiu diferentemente também: suas mãos passeavam e apertavam cada pedaço dele que conseguia alcançar, seus gemidos pareciam menos sensuais em sua cabeça e mais...sentimentais, se é que ela poderia explicar daquela forma.

Mas era simplesmente o fato de como James a fazia sentir: não só desejada, mas querida. Era um cuidado diferente, um envolvimento diferente. Nunca sentiu-se mal com ele, em momento algum, mas...havia algo diferente de ambos os lados naquele momento.

Quando o seu vestido foi tirado finalmente, Lily se ajoelhou e puxou James com ela. Seus dedos se enroscaram no cinto, depois no botão e no zíper dos jeans dele. Tudo isso sem tirar os olhos de seu rosto iluminado pela lareira e seus olhos brilhantes. O beijou carinhosamente, querendo que ele também sentisse que ela não estava indiferente quanto aquela mudança.

- Eu acho que o vilarejo não é tão sortudo, afinal. - Ele disse com a boca colada na dela. - Porque ele não pode ter você assim.

- Só você pode. - Ela concordou.

Aquilo deve ter ligado algo nele, pois James a abraçou e beijou com força. As mãos deslizaram das costas da ruiva até seu quadril, a puxando contra ele.

A delicadeza misturada com a intensidade que as coisas pareciam acontecer agora, lhe deixavam quase desorientada. Apenas a maneira como foi colocada no tapete, com tanto cuidado, a fazia se esquecer de onde estava. O jeito que ele a estava beijando, com tanta dedicação, com tanto...com algo a mais do que apenas sexo.

Se ela tivesse qualquer duvida de por onde seus sentimentos se dirigiam, ali ela os descobriria. Porque desde o momento que eles começaram aquele sexo, passando por tantas respirações entrecortadas, olhares tão significativos, as mãos se conectando por muitas vezes, segurando-se como se nenhum dos dois quisesse que o outro partisse...até o momento em que terminou e James deitou sobre ela, os dois tentando encontrar o norte depois daquele momento tão diferente dos outros...aquilo não podia ser considerado banal.

James a levava ao melhor lugar que podia existir sem nem precisarem sair de onde estavam. E o melhor: ali eles ficavam. Não tinha lugar ou momento ruim entre eles e ela tinha a certeza absoluta de que não queria perder aquilo.

Não podia perder aquilo.


You're the best listener that I've ever met

Você é o melhor ouvinte que eu já encontrei

You're my best friend...Best friend with benefits

Você é o meu melhor amigo...Melhor amigo colorido

What took me so long?

O que me fez demorar tanto?

-/-

I've never felt this healthy before

Eu nunca tinha me sentido tão bem assim

I've never wanted something rational

Eu nunca quis algo racional

I am aware now

Eu sei disso agora

Acordar com o canto dos pássaros não era algo recorrente em sua vida, mas era algo que poderia se acostumar.

Acordar com o barulho da chuva era até recorrente, mas não daquela maneira, não tão acima de sua cabeça e tão relaxante.

Acordar com um par de pernas enroladas nas suas, dois braços a segurando e um rosto colado em seu pescoço não era nem um pouco recorrente, mas tão bom quanto os outros dois acima.

James não dormia mais, pois seus dedos brincavam com os cabelos ruivos. Lily também não, mas se impediu de sair daquela posição, pois o carinho era bom demais. Nenhum deles disse algo ou deu a entender que sabia que o outro estava acordado, apenas ficaram naquela mesma posição por um bom tempo.

A chuva diminuiu e aumentou. Uma vez ou outra, ouvia-se um trovão ao longe. Lily abriu um pouco os olhos por um momento e viu que tinha uma neblina baixa, impedindo de ver qualquer coisa além da janela, lhe dando a vontade de ficar na cama para sempre.

- Café da manhã? - Disse ele contra sua pele após uma boa meia hora daquilo tudo.

- Sim.

As mãos dele mudaram, descendo pelo seu corpo, chegando até a sua cintura.

- Daqui cinco minutos.

Lily riu.

- Talvez dez.

- Isso, dez minutos.

A ruiva se virou na cama para ficar de frente a ele. Seus cabelos estavam uma loucura e era tão fofo. Ela o trouxe para mais perto, fazendo James deitar em seu peito e ser a sua vez de receber o carinho.

Ele quase ronronava enquanto Lily passava as mãos por seus cabelos, nuca e costas. As pontas de seus dedos iam livremente, sem um plano, apenas seguindo as reações.

- Talvez quinze minutos. - Ele murmurou.

- O quanto você quiser.

James reclamou um pouco

- Bem que gostaria, mas tenho que ajudar o .

- Tudo bem, teremos tempo para mais depois.

Levantando o rosto, James a beijou pelo seu colo, antes de beijar seus lábios rapidamente.

- Vamos tomar esse café da manhã. - Disse levantando-se logo em seguida e deixando Lily com aquela sensação de vazio em seus braços. - Normalmente a chuva vai parar em uma hora, mas a neblina vai ficar a manhã toda.

As duas mãos dele estavam esperando por ela, então, com muita preguiça, ela as aceitou e se deixou ser levantada.

Viu a blusa de mangas compridas dele no chão e foi direto nela, a vestindo. Saiu do quarto acompanhado dele, que lhe deu um beijo na têmpora...provavelmente feliz por tê-la visto com sua blusa.

Ao chegar no topo das escadas e ter uma visão privilegiada das janelas do grande cômodo logo abaixo, Lily teve a impressão de que estavam em uma bolha com tanta neblina. Nem a piscina era visível e ela estava a poucos metros da entrada da sala.

- Eu preparo as frutas e você as bebidas? - Ela comentou ao chegarem na cozinha.

- Combinado. Chá?

- Sim, por favor.

Em sintonia e um bom ritmo, cada um se ocupou de sua parte do café da manhã, o que não demorou para que eles terminassem e logo se acomodassem.

Lily podia dizer com toda a certeza do mundo: depois desse fim de semana, sentiria falta daquela rotina de cafés da manhã com James, sendo preparados juntos. Olhou para ele, que tomava um gole de café. James sentiu-se observado e se virou para ela.

- Por que está me olhando assim e sorrindo? - Ele perguntou.

- Nada, apenas admirando a vista.

Que era muito boa, já que ele não estava usando nada na parte de cima do corpo.

- Fique à vontade então.

Ele se levantou e foi até a máquina de café, pegando mais uma meia xícara. Lily bebericava de seu chá enquanto, de fato, admirou a vista.

- Você vai encontrar com o às 10h, certo?

- Sim. - Ambos olharam para o relógio, marcando 9h30. - Não é longe daqui, cinco minutos de caminhada.

- Ok. Eu estava pensando em ir até o lago, se a chuva realmente parar.

- Então você vai precisar de algumas coisas. - James sumiu por uma porta no fundo da cozinha, que aparentemente dava na lateral da casa. Ele voltou com um par de galochas e um cobertor. - Vai estar com lama para todos os lados e talvez algumas poças. Com isso, você terá menos risco de escorregar também. - Ele parou por um momento, pensando. - Tome cuidado para não escorregar, aliás. Leve o seu telefone, assim pode me ligar caso algo aconteça. E isso...- Ele levantou o cobertor. - É impermeável, então você pode colocar em qualquer lugar para sentar.

- Uau, você pensa rápido.

- Minha mãe adora ir até o lago, então ela tem todo um kit para isso.

Lily agradeceu e James parou ao seu lado, terminando a sua xícara. A mão dele casualmente parou na cintura dela enquanto lia um jornal antigo em cima do balcão da cozinha.

Aquelas pequenas coisas, gestos, faziam Lily ter borboletas no estômago.

Ele não demorou para se arrumar e sair da casa, com um beijo de despedida. Lily subiu para um banho rápido e se trocou, colocando roupas quentes. A chuva demorou meia hora para ir embora, mas a neblina ainda estava ali, o que não a impediria de ir até o lago.

Vestiu as galochas, pegou o cobertor impermeável, uma garrafa térmica com chá e saiu. Passou pela piscina e foi até o pequeno portão lateral que dava acesso a escada com degraus largos e seguros. Bom, aquela parte do caminho ela não precisava se preocupar, pois já conhecia. Ao final das escadas, havia apenas grama e muita lama, de fato, mas dava para desviar.

Caminhou em seu ritmo, tentando apreciar a pouca vista que a neblina lhe proporcionava, mas que já era maravilhosa. Foram dez minutos de caminhada bem agradável, com um vento um pouco chatinho, mas que parecia ajudar a levar a neblina embora de pouquinho a pouquinho.

Parou em frente ao lago. Tirando a natureza, que estava tão ativa naquela manhã, era tão silencioso e pacífico, o ar era tão puro...

Colocou o cobertor no chão e sentou, assistindo a neblina passar suavemente pela superfície da água, alguns peixes parecendo disputar comida uma vez ou outra.

Precisava pensar e ali seria o lugar perfeito. Tinha todas as informações sobre o caso e agora precisava colocar tudo junto e tomar uma decisão.

"Caso: James Potter" estava em pauta agora. Sozinha, podia pensar com mais clareza ou pelo menos achava.

James era um cara que não namorava, segundo algumas pessoas. Para ser sincera, James nunca falou nada sobre isso, apenas ouviu do irmão. O quão verdadeiro era aquele tópico? Era certo que Lily nunca o viu namorando e que ele tinha comentado dias atrás que tinha se relacionado com uma garota mais velha por alguns meses, a qual Lily nunca viu, e disse que não tinha sido um namoro. Aquele tópico era um pouco confuso para ela e a culpa era toda dela que nunca perguntou nada para ele, apenas juntou informações de pessoas diferentes.

Não que ela quisesse perguntar na lata se ele namorava ou não. Se fossem só amigos, como antes, não teria problema em perguntar, mas agora a coisa era diferente.

Deixando essa parte de lado, estava na hora de pensar na coisa mais importante de tudo aquilo e que botava mais medo nela do que qualquer outra coisa: o fato inegável de que estava apaixonada por ele.

Não, não era só tesão, não era apenas uma queda. Ela teve tudo isso antes e não era a mesma coisa. Tudo o que sentia, era diferente. Seu corpo reagia diferentemente com ele e não apenas quando se tratava de sexo: os simples toques lhe deixavam bem, os olhares dele lhe faziam sorrir, o sorriso dele lhe dava borboletas no estômago, a sua ausência era sentida em demasiado. Era tudo, simplesmente tudo o que ele fazia, era e representava. Não podia mais negar ou evitar pensar ou fingir.

Lily tinha se apaixonado por ele e ela estava ferrada.

Ferrada por não saber o que ele sentia, ferrada por conta de Sirius, ferrada por sentir-se medrosa o bastante para enfrentar aquilo.

Não iria perguntar para James o que ele sentia. Primeiro: não achava que deveria. Quem em sã consciência chegaria no cara que está vendo e perguntaria "hey, o que sente por mim?", Assim, do nada. Não, definitivamente não iria perguntar aquilo. Mas...honestamente? Não era possível que ele fosse indiferente, que não sentisse alguma coisinha que fosse. Certo? James não apenas ficava em cima dela querendo sexo toda hora e apenas isso. Ele era atencioso com outras coisas, ligava e mandava mensagens enquanto estavam longe, disse coisas e de certas maneiras que a fazia pensar que ele não era indiferente.

Tinha o fato de que ele sempre foi atencioso antes, mas havia uma diferença entre o James-Amigo e o James de agora. Então acreditava que talvez não estivesse tão sozinha quanto podia pensar. Não poderia dizer a intensidade da coisa, do que ele sentia, nem mesmo nomear, mas havia algo.

E a segunda coisa mais importante de tudo: Sirius. E com um adendo: James querer falar com ele sobre tudo.

Lily respirou fundo e decidiu tomar um gole do chá antes de entrar naquele tópico.

Falar com Sirius era ótimo e péssimo.

Seria ótimo não estar mais escondida, mas tinha tanto medo de causar mal ao tratamento que ele estava seguindo agora. Sabia o motivo dele ser protetor, mas Lily sempre teve a impressão de que havia algo a mais ali. Não que um abuso não fosse o suficiente para traumatizá-lo, ainda mais vindo de seu melhor amigo, mas sentia que havia um peso em suas costas e que ela não conseguia ajudá-lo. Algo que talvez ia além dela e dos caras que ela se relacionava.

De qualquer maneira, também não podia viver sob o trauma dele. Sua vida não podia esperar pelo irmão se resolver com os próprios fantasmas para ela começar a viver. Tinha tanto pela frente, tanta coisa que queria fazer e viver...

...com James.

Lily deitou na coberta impermeável. Era tão fofinha e quente, que poderia cair no sono a qualquer hora com aquela calma e solitude. Não conseguia imaginar o porquê dos Potter não virem mais frequentemente ali, se é que não vinham. Sabia que James vinha duas ou três vezes ao ano, as vezes com os caras também.

O toque "Hey Brother" começou a soar e Lily tateou o cobertor, tentando achar o celular sem precisar sair da posição. Falando no diabo...

- Estou viva. - Ela respondeu.

- Se eu não me preocupo, você tá pouco se importando. - Sirius respondeu.

- Eu te mando mensagem sempre.

- Eu não tenho notícias suas desde sexta à noite.

- Porque você disse que iria até Marlene. Não vou ficar enchendo o seu saco quando você pode aproveitar com ela.

- Marlene não se importa. E se você liga em um mau momento, eu só não vou atender. - Sirius parou e tampou o microfone, falando com alguém ao fundo antes de voltar para ela. Lily ouviu algo como "pagar o quarto depois". Eles tinham ido para um hotel? Mas Marlene tinha o próprio apartamento. - De qualquer maneira, eu vou sair daqui no meio da tarde. Você quer que eu te busque?

Godric's Hollow estava levemente fora da rota de Oxford. E mesmo se não estivesse...

- Não precisa, eu tenho carona.

Poderia dizer que sua carona era Alice, mas talvez fosse melhor deixar o mistério no ar. Ele tinha que se acostumar.

- Hmm. Como está Alice?

- Alice está ótima. - O que não deveria ser mentira. Se a amiga estivesse mal, não hesitaria em ligar.

- Ok. Bom, eu vou indo. Me liga se você precisar que eu venha.

- Obrigada, mas agora vai aproveitar com a sua namorada que você não vê há dias.

- Claro.

A voz dele soou estranha, alertando-a.

- Está tudo bem?

- Sim, tudo bem. A gente se fala mais tarde.

Ele desligou. Por reflexo, Lily olhou para a tela do celular, confusa.

Algo tinha acontecido. Ligou para ele, mas Sirius não atendeu. Droga. Tentou de novo e nada.

- Atende, caramba. - Resmungou quando tentou pela terceira vez. Que infeliz! Estava ignorando de propósito.

- Algum problema?

Sentou e olhou para trás. James tinha o celular na mão, talvez verificando se não era para ele que Lily tentava ligar.

Ele tinha o seu casaco todo molhado nos ombros e braços, e parecia estar com frio pela maneira que estava todo retesado.

- Não sei se há... Hey, tira o seu casaco e venha aqui.

James sentou ao seu lado enquanto tirava o casaco. Ela os deitou, jogou o casaco dele por cima de ambos e o abraçou, friccionando suas mãos em seus braços, tentando esquentá-lo.

- Isso é bom. - Ele murmurou.

- Acho que temos que voltar para a casa. Você vai acabar ficando doente.

- Não, aqui está bom.

Ele se aconchegou mais nela, encostando o nariz gelado em seu pescoço. Lily o abraçou ainda mais forte, querendo passar o seu calor para ele.

- Foi tudo bem com o Sr. Bagshot?

- Tudo bem, a cerca está concertada. - Ele rodou os braços na cintura dela e a apertou contra o próprio corpo. - E agora meus pais sabem que estou com uma ruiva muito bonita em Godric's Hollow, já que nossos queridos vizinhos ligaram para eles essa manhã sobre a cerca. Eles não sabiam que eu estva vindo com você.

- Ah! - Ela se afastou para olhar para ele, mas James a puxou novamente, impedindo-a de sair da posição.

- Não se preocupe, não é como se fosse segredo para eles. Digo, minha mãe teve que falar para o meu pai que havia algo, porque ele ficou confuso no jantar de quinta-feira.

Muita gente já estava sabendo e aquilo lhe deixava desconfortável por ter que esconder de Sirius e apenas dele. Sentia uma traição enorme contra o irmão, contra alguém que ela ama tanto, e que não merecia ser o único deixado de lado.

Brincava com alguns fios molhados dos cabelos rebeldes enquanto pensava e repensava na sua decisão.

- Vamos falar com Sirius. - Lily simplesmente disse após algum tempo.

James olhou para ela, completamente surpreso.

- Sério?

- Eu não quero que isso continue indo para um mal caminho. Todo mundo sabendo e ele no escuro. Não queria as coisas desse jeito.

- Tem certeza? Você pensou bem desde ontem? Eu também não quero que você decida no impulso.

- Eu pensei be melhor opção.

Tinha certeza que James não percebeu o sorriso leve que apresentava. Lily nunca imaginaria que falar com Sirius era algo que ele esperava tanto fazer, que queria tanto. Sabia que era mais fácil não esconder nada de ninguém, mas a felicidade que ele apresentava agora era surpreendente.

Ele se aproximou, acariciando seus cabelos por um momento, depois segurou seu rosto e deu um beijo em sua testa, fazendo-a sorrir dessa vez.

- Podemos fazer isso essa semana, depois de Hogwarts. Eu venho até a sua casa e conversaremos com ele.

Um nó em seu estômago se formou, uma ansiedade e receio. O que aconteceria depois? Como o seu irmão iria reagir? Não queria brigas ou dramas...teria que pensar bem no que dizer.

- Depois de amanhã, na terça-feira. - Ela anunciou. - Assim nos dá tempo de pensar no que falar.

- Você quer formar um plano todo do que vai falar para ele? - Ele riu um pouco.

- Não um plano, mas escolher as palavras.

- Ok, como você quiser.

Lily abriu os olhos novamente. James continuava com aquele sorriso malandro e feliz.

- Vai dar certo, não vai? - Ela perguntou.

- Nós estaremos fazendo algo certo. Não podemos prever a reação dele, mas tenho certeza que Sirius vai ver as coisas pelo lado bom...eventualmente.

- É o "eventualmente" que me estressa.

- Pensa em como pode ser depois.

Não tinha dúvidas que as coisas ficariam melhores e que era o melhor a se fazer, mas o drama lhe deixava nervosa. Mas passaria. "Eventualmente", como James mesmo disse. Seria algo passageiro, turbulento, mas passageiro.

A maneira como a sua vida iria mudar lhe dava coragem. O fato de que James queria aquilo também lhe dava muita coragem. A maneira como ele a olhava neste momento, lhe entregava tudo o que ela precisava.

- Vamos fazer isso então. - Respondeu.

Uma chuva fina começou a cair. Tão fina, que mal sentia em seu rosto. A grande copa da árvore em que estavam logo abaixo ajudava na proteção.

Para muitos, aquele tempo era a pior coisa do mundo, mas para Lily era como um abraço bem acolhedor. Quase tão bom quanto o que recebia de James naquele mesmo momento.

- Você quer entrar? - Ele perguntou.

- Ainda não. A chuva está tão fina...- Ela olhou para ele. - Você está com frio, não?

- Não mais. - James a beijou de leve. Estava tão confortável ali, que apenas a ideia de entrar na casa lhe dava preguiça. Ou pior: voltar para Londres em algumas horas. - Por que está suspirando?

Ela tinha suspirado? Nem percebeu. Riu por um breve momento.

- Apenas pensando que vamos embora hoje.

- Você gostou mesmo daqui, mesmo com esse tempo horrível.

- Adorei.

- Hum, não foi isso que você disse ontem à noite.

Ele tentava não sorrir e Lily investigava cada canto de seu rosto, querendo ler tudo o que ele estava sentindo.

- Não, ontem eu disse que estava apaixonada.

- Como foi de "apaixonada" para "adorei"?

- Não fui. Eu continuo apaixonada.

Aquela conversa estava tomando um outro caminho e não sabia como reagir. Será que ele pensaria em outra coisa?

Ela queria que ele pensasse?

Não tinha as respostas, apenas a expressão leve e descontraída de James. Seus olhos não deixando os seus, o abraço dele tão firme quanto antes.

- O vilarejo mais sortudo do mundo. - Ele respondeu como ontem. Recebeu um beijo dele e o agarrou, querendo ainda menos sair dali.

- Para ele ser o mais sortudo, você também teria que ser ou estar apaixonado...por ele. - Ela adicionou rapidamente o final.

James se afastou por um momento para olhá-la.

- Eu sou apaixonado por esse vilarejo também.

Ele não deu tempo para Lily reagir ou sequer pensar muito, pois a beijou em seguida e a ruiva apenas deixou todos aqueles sentimentos se misturarem naquele momento.

Ela estava tão ferrada.


You've already won me over in spite of me

Você já me ganhou mesmo contra a minha vontade

And don't be alarmed if I fall head over feet

E não se assuste se eu me apaixonar da cabeça aos pés

And don't be surprised if I love you for all that you are

E não se surpreenda caso eu te ame por tudo o que você é

I couldn't help it

Eu não pude evitar

It's all your fault

É tudo culpa sua

Um almoço com direito a lasanha foi preparado por Lily, enquanto James ajudava com uma coisa ou outra, mas ficando mais encarregado de deixar a lareira bem abastecida, arrumar a mesa e servir alguns aperitivos. Além de alguns beijos ocasionais.

Enquanto esperava a última parte do preparo no forno, Lily ligou para o irmão de novo e ele, finalmente, atendeu.

- Por que você está me ignorando esse tempo todo? - Perguntou assim que ele respondeu. Apesar de tudo, sua voz estava mais preocupada do que irritada.

- Estava resolvendo algumas coisas em Oxford.

- Em um Domingo?!

- Sobre o que eu precisava resolver, posso fazer em qualquer dia.

- E o que estava resolvendo?

- Assuntos que você não precisa se preocupar. - Sirius parecia estar na rua com todo o barulho ao fundo. - Você me ligou para pedir carona?

- Não, Sirius! Eu liguei para saber como você está. Alguma coisa aconteceu, eu sei.

- Se ligou para isso, então está perdendo o seu tempo. Tudo está bem.

- Teu nariz que está.

Viu James parado do outro lado do balcão, a assistindo com uma expressão preocupada.

- Bom, Lily. Estou ocupado. A gente se vê mais tarde, ok?

- Me fale o que aconteceu!

Ele desligou. Mas que infernos!

- O que está rolando? - James perguntou.

- Não sei, mas tenho a impressão de que há algo sobre Marlene.

Pegando o próprio celular, ele conferiu se havia alguma mensagem ou ligação.

- Estranho. Você não acha que Sirius falaria se algo tivesse acontecido?

- Normalmente sim.

- Eu vou ligar para ele em uma hora.

- Ou talvez melhor hoje à noite, assim não fica óbvio. - James fez uma careta, mas sorriu. Foi até ele e o abraçou. - Semana que vem isso vai mudar e poderemos chegar em casa juntos, ligar para Sirius quando quisermos...

Ele deu um beijo em sua testa.

- Eu sei. Alguns dias não vão nos matar, não é?! - Ele respondeu.

- Não, não vão.

Ela assim esperava.

L~J

O resto da tarde foi passada tranquilamente no sofá, assistindo filmes, conversando e rindo. James compartilhou com ela as suas preocupações quanto às universidades e cursos para seguir e a decisão que precisava ser tomada em poucos dias. Aquele foi o momento que Lily o viu com o semblante sério, que era quase raro para ele. O peso do que o resultado parecia fazer em seus ombros era muito pesado. Ele reclamava do fato de estar reclamando de algo tão não fatal, mas não cansou de repetir que não queria decepcionar seu pai.

Foi ali que ela percebeu que aquela pequena viagem no fim de semana fez diferença para ele, deixando-o mais relaxado e sem precisar pensar naquilo por tanto tempo, dando atenção apenas à eles.

Partiram um pouco mais cedo de Godric's Hollow do que previsto, mas querendo evitar o mau tempo. Lily assistiu o vilarejo ficar para trás, junto com a vontade de nunca ir embora e poder viver aquela vida para todo o sempre.

A volta foi tranquila, dando uma sensação de saudade dos momentos que tiveram juntos, misturado com a satisfação por terem tido aquela oportunidade. Ao chegarem à Londres, era como se uma pequena tensão voltasse, mas Lily estava mais confiante. Terem decidido falar com Sirius foi uma ótima ideia, que fazia aquela tensão ser passageira.

Se não podiam viver o que Godric's Hollow foi, então poderiam tentar trazer aquela paz para Londres. Era o mínimo que poderiam tentar.

Duas horas de estrada depois, James parou na mesma esquina em que esperou por ela na sexta-feira, longe das vistas de qualquer um dentro da casa dos Black-Evans.

Já tinha seu cachorro de pelúcia e sua mochila em mãos, pronta para ir embora.

- Foi um fim de semana incrível. Obrigada.

- Não agradeça, porque você também foi responsável pelo fim de semana ter sido incrível. - James acariciou o rosto dela.

Eles se inclinaram para um beijo de despedida. Quase doía ter que se afastar dele agora depois de todos aqueles dias juntos.

- Eu te vejo amanhã? - Ela perguntou ainda próxima dele.

- Com certeza me verá amanhã. Deixa o seu café da manhã pronto.

- Estará.

Lily sabia que estava enrolando para ir, mas teria que agir logo.

Deu um último beijo nele e abriu a porta. Quando estava para sair, James segurou seu braço, fazendo-a se virar para ele.

Era óbvio que ele queria dizer alguma coisa, mas aquela coisa estava travada em sua garganta.

- James? - Ela tentou ajudá-lo a falar. Ao invés de botar aquilo para fora, ele apenas sorriu e deu um beijo em sua mão.

- Até amanhã, Lily.

Sorriu para ele, ainda relutante para sair, mas, eventualmente, o fez. Caminhou até a casa, enquanto James esperava na esquina. A ruiva abriu o portão e acenou para ele, que acenou de volta antes de partir.

Os carros de Geneviève e Sirius estavam ali, indicando que a família toda estaria em casa naquela noite de Domingo. Lily deixou a pequena mochila e o cachorro de pelúcia perto da escada e foi até a cozinha, onde ouvia conversas.

- Ah, aí está ela. - Geneviève sorriu assim que viu a filha entrando. Ela estava apoiada no balcão comendo uma sobremesa. - Boa noite, querida. Como foi com Alice?

Sirius estava sentado na mesa de jantar e assim que o viu, ela teve a confirmação de que algo muito errado estava acontecendo.

- Foi bom. - Respondeu e se encaminhando até o irmão. - Você vai falar agora o que aconteceu?

Ele levantou o olhar desgostoso para ela.

- Nós terminamos.

Seu irmão estava tão letárgico, que Lily demorou alguns segundos para reagir.

- Você e Marlene? Mas...Por quê? - Foi a primeira coisa que saiu de sua boca.

- A gente brigou. Ciúmes da minha parte, claro, e Marlene não gostou do que aconteceu.

- E ela terminou com você por isso? Não que "isso" seja pouco, porque eu ainda não sei o que você disse ou fez.

- Não. - Sirius sentou ereto, mas baixou a cabeça. - Brigamos por uma idiotice sem tamanho da minha parte. No final da briga, eu disse "eu te amo", entrei em pânico e disse que estava tudo terminado. Sai do apartamento e não falei mais com ela.

A ruiva olhou para a mãe, ainda no balcão, que respondeu com uma expressão de pesar, indicando que já estava ciente do que havia acontecido.

Estava perdida, ao mesmo tempo que não estava. Sirius tinha um bloqueio sobre se declarar, mas não imaginava que era tão grande assim.

- Mas...- Não sabia o que falar, para ser sincera.

Então ao invés de balbuciar qualquer coisa incoerente, ela sentou ao seu lado e o abraçou. Seu abraço foi bem-vindo, com Sirius a abraçando de volta.

- Eu sei que fui um idiota. - Ele disse.

- Não foi, você só tem algumas coisas para resolver antes e não pode dar um passo maior que a sua perna.

Ele riu ironicamente.

- Eu senti que foi um passo maior do que minhas duas pernas juntas.

Lily o soltou e o fitou.

- De onde veio essa declaração no meio de uma briga?

- Não sei. Só estava ali, na ponta da minha língua, por tanto tempo...e quando estávamos discutindo, um lado meu dizia que eu tinha que soltar, que ela tinha que saber. E quando eu fiz, outro lado meu só disse que eu tinha que correr e nunca mais voltar... antes que Marlene me destrua.

Não poderia dizer para ele que Marlene nunca o destruiria, porque era muito abrangente. Sirius poderia se machucar, assim como qualquer pessoa pode, ainda que Lily duvidasse que Marlene o deixasse um dia.

- Ela tentou entrar em contato? - Perguntou, ao invés.

- Sim, mas eu não atendi. Eu não sei o que fazer, o que falar.

- Então você deve descobrir antes o que você quer. - Lily olhou para a mãe novamente, que apenas os assistia, procurando uma concordância. - Por que não manda uma mensagem para ela pedindo uns dias, dizendo que você só precisa colocar a cabeça no lugar? Assim ela não fica sofrendo tanto te vendo ignorar as ligações e mensagens.

- Foi a mesma coisa que a mãe disse para fazer. - Foi a vez dele olhar para a Geneviève.

- Faça o que achar melhor, querido, mas tente acalmá-la...vocês se amam e brigas e desentendimentos acontecem sempre. - A mãe disse se aproximando dos filhos. - Mas se você precisa do seu tempo para digerir o que houve, tenho certeza que ela vai entender.

- E se ela não entender?

- Eu acho que ela vai. - Disse Lily.

Falando nisso, o celular de Sirius começou a tocar na mesa e todos viram o nome de James e uma foto de anos atrás onde os dois amigos riam.

- Bom, acho que vou ter que informar o primo dela antes. Vou tomar um esporro enorme agora.

Ele pegou o celular e atendeu, saindo da cozinha.

As duas ruivas que ficaram, se entreolharam.

- Você está bem, filha?

- Sim, tudo bem. - Ela suspirou.

Pegou o celular do bolso e abriu as mensagens.

(21:35) Lily: Acho que temos que nos reagrupar e replanejar tudo.

Enviou.

Como poderia dizer algo para o irmão agora? O quanto ele iria entrar em parafuso por ter um agravante daquele tamanho? Seria jogar sal na ferida e, talvez, fazendo Sirius reagir ainda pior do que seria normalmente.

Quando tudo parecia estar se encaixando, todo o quebra-cabeça se desfazia, deixando as peças misturadas e confusas.

Aquelas cenas dos dois aproveitando a vida normalmente na frente de todos ficou um pouco embaçada, indo para o fundo da mente, na espera de poder vir à tona novamente.

Tinha que dar um jeito em todos aqueles problemas o mais rápido possível.


N/A:

Próximo capítulo: 31 de Outubro :D

Beijos!