- Dylan! - Nicolle deu um pulo da cama e se agarrou à cintura do menino. - Você está bem meu amor? - perguntou enquanto examinava o filho, que não tirava os olhos do pai.
- Você está bem? - Draco perguntou, sério, enquanto também se aproximava.
Dylan permaneceu estático. Nicolle o mantinha entre seus braços.
- Meu amor, eu estava apavorada. Sentimos tanto sua falta. Achei que eu e seu pai fôssemos morrer. Eu não podia suportar... - ela completou entre soluços.
- Você está bem? - Draco perguntou novamente. Antes que pudesse tocar o menino ele se esquivou.
- Estava... Estou - completou com um olhar gelado que atravessou a alma do pai. Olhou para a mãe e emendou. - Vou para o meu quarto.
Nicolle não sabia o que dizer. A emoção havia sido tão grande que simplesmente ficou ali, sentada no chão. Draco se abaixou e amparou a mulher.
- Ele voltou, meu amor... - ela disse sorrindo. Draco forçou um sorriso para ela.
- É, Nikki. Ele voltou sim... - disse em tom monótono.
Nicolle afundou o rosto em seu ombro e ele franziu a testa. Realmente o filho havia voltado e às custas da vida de sua mãe, jamais poderia ser tirado deles novamente. Mas, mesmo assim, de alguma forma, não sabia dizer se isto era bom ou ruim. Não tinha mais a certeza de que o sacrifício de sua mãe havia de fato salvado o fruto do amor dele e de Nicolle.
- Precisamos buscar Nattie, Draco. Ela vai ficar feliz de ter o irmão de volta... - Nicolle disse com a voz fanhosa após alguns minutos abraçada ao marido.
Draco acenou com a cabeça mas temia agora pela segurança da filha. Não sabia o que duas semanas com Lúcio Malfoy poderiam ter feito a Dylan.
- Haly está bem? - Rony perguntou de manhã. Mione sacudiu a cabeça e continuou a colocar a mesa do café.
- Leite? - ela ofereceu. - Não é de cabra mas... - Rony fez uma careta e ela se calou na mesma hora.
- Bom dia mãe. Pai... - Halyssa sentou à mesa e bocejou.
- Você tem aula hoje? - Hermione perguntou.
- Tenho sim mãe - Rony ficou indignado.
- Como assim? Aula? É sábado, pelo amor de Deus... - as duas riram juntas.
As risadas tinham o mesmo timbre, exceto pelo tom mais agudo e infantil de Haly.
- Eu vou DAR a aula, pai... - Rony engasgou com o café.
- Como assim? Ninguém me diz nada nessa casa não? - reclamou, cruzando os braços. A filha riu.
- Ela avisou, Ron. Semana passada, mas você estava ocupado ouvindo o jogo do Chudley na rádio bruxa. Ela vai passar o dia com Owen. Ele precisa de ajuda com a caligrafia. Tem a mesma letra miserável de todos os Weasley machos... - o marido se ofendeu.
- Agora você falou como se fôssemos animais, Mione... - ela deu um sorrisinho maroto.
- Bem, quem mama em animal é o quê? - Rony ficou furioso e Haly não entendeu nada.
Halyssa, que já estava acostumada com os pais, se despediu discretamente deles. Harry viria buscá-la logo e precisava se arrumar ainda. Subiu as escadas e quando estava quase pronta se sentiu mal. Olhou no espelho e viu um clarão rodar no centro deste. Piscou com força e esfregou os olhos. Repentinamente ficou melhor. Lavou o rosto e desceu.
- Tio Harry! - cumprimentou animada.
Harry a ergueu do chão e beijou-lhe a testa.
- Está ficando pesada, mocinha - Haly riu. - Hey, Mione. Por que o Ron está tão quieto? Que bicho mordeu ele? - ela deu um muxoxo.
- Talvez fosse melhor você perguntar que bicho ele mordeu... - Harry não entendeu nada mas preferiu não perguntar. Dificilmente alguém saía vivo ao se intrometer numa briga entre os dois. - Alguma novidade? E Gina? Owen está bem? - Harry sorriu timidamente para a amiga.
- Bem, eu não sei se eu devia contar, mas Gina e eu vamos ter outro bebê... - ele respondeu, coçando a cabeça e encarando o chão.
Rony pareceu se animar e veio falar com o amigo.
- É sério isso? - ele perguntou. Haly ficou animada também.
- É sim... - Harry respondeu olhando o amigo. - Owen vai ganhar um irmão, ou irmã, e você, mocinha - virou-se para Haly e fez cócegas na menina. - Vai ter uma bonequinha de verdade para brincar - ela riu.
Mione deu um abraço em Harry e cochichou em seu ouvido.
- Você quer uma filha, né? - ele corou.
- Dá para perceber tanto assim? - a amiga riu.
- Digamos que eu tenho instintos de bruxa - todos riram. Logo depois Harry levou a sobrinha para casa.
- Olá, Haly - Gina disse sorridente.
- Oi, tia "G" - respondeu abraçando a tia, e quando esta estendeu o rosto a menina lhe beijou a bochecha e a barriga. Ela fez uma cara feia para Harry mas ele disfarçou. - Onde está o Owen? - perguntou curiosa e a tia riu.
- Haly, você sabe como o seu primo é calmo, não é? Deve estar dormindo ou fazendo algo entediante como polir as cerdas da vassoura que ganhou de Natal - Harry franziu a testa e respondeu enquanto a sobrinha subia as escadas.
- Hey, não é entediante polir as cerdas. É útil e... - Haly deixou de ouvir a voz do tio assim que virou o corredor.
- Owen? - ela bateu na porta do primo e não houve resposta. - Owen? - ela chamou de novo antes de entreabrir a porta.
- Haly. Olá - ele disse timidamente. Ela espichou o pescoço e percebeu que ele estava fazendo alguma coisa diferente.
- O que você tem aí? - ela perguntou curiosa. Ele encostou a porta e mostrou para a prima o que tinha guardado debaixo da cama. – Owen! - Halyssa ficou espantada de ver o que tinha debaixo da cama. - Que coisa mais horrorosa - o menino ficou desapontado. - Que bicho depenado é esse?
- É uma fênix, Haly. É um filhote ainda. Depois ela vai ficar bonita de novo. Hagrid me mandou para cuidar dela. Disse que está com um novo tipo de gatinho em casa e que seria um risco para ele ficar por lá - a menina se aproximou e o bicho deu um guincho tão feio quanto ele. Muito diferente da música de fênix. Ela já havia lido sobre isso.
- Sabia que fênixes são criaturas lendárias? Podem carregar cargas enormes e suas lágrimas têm poderes de cura? E que...
- Sei, sim, "tia Mione". Eu li "Hogwarts, Uma História - Edição Revisada e Atualizada". Você me obrigou, lembra? - Haly riu. - Sabia que ele se chama Floftys? – ela franziu a testa.
- Ah, por favor. Diga que Hagrid não tirou a dignidade desse pobre ser depenado. Vire cinzas querido, quem sabe na próxima você ganhe um nome melhor... - Owen riu da prima.
- Você veio fazer o que aqui tão cedo? - Haly cruzou os braços.
- O que você acha? Vim te alfabetizar - Owen riu.
- Você já fez isso quando éramos menores, Hall. Minhas orelhas que o digam. Poxa, você levava a sério o papel de professora - a menina fez uma careta.
- E você o de aluno mal comportado. Francamente Owen. Do jeito que você é corre o risco de ir para na Sonserina - ela riu mas o menino ficou subitamente sério.
- Não diga isso nem brincando, Hall. Eu não teria amigos. Não confio em sonserinos... - ele disse baixinho. Mal sabia que por muito pouco seu pai não fora mandado para aquela casa.
- Sombra. Algo estranho com um nome igualmente estranho. Intocável mas ainda assim pode nos cobrir. Impalpável mas ainda assim pode trazer um enorme peso e fazer nossos corações sucumbirem. Não pode ser pesada, guardada. Sobretudo não pode ser evitada. Um dia ela cairá sobre todos e cada um de nós. E nos levará até a noite, após um belo dia de luz...
Draco ouviu as palavras do padre em silêncio. Não derramou nenhuma lágrima. Sabia agora que a vontade de sua mãe havia sido respeitada. Ela pedira um enterro cristão. Ele não sabia por que mas tinha sido uma das coisas que ela havia deixado para ele em uma carta.
Nicolle estava ao seu lado. Nattalie e Dylan sentados em duas cadeiras, ao lado dos pais de Nicolle. Nicolle entrelaçou a mão à sua quando todo o funeral terminou mas Draco estava imóvel. Ela percebeu que o marido queria ficar sozinho e após receber junto com ele os pêsames dos poucos presentes foi esperá-lo no carro.
O sol se punha vermelho no horizonte. Draco colocou a mão no bolso e retirou a carta que a mãe havia deixado para ele do bolso do casaco.
"Meu filho querido,
Não lembro de ter sentido tanto orgulho de você desde que se formou. Quando eu descobri que havia amor em você. Hoje eu sei que meus sacrifícios nunca foram em vão. Eu sei que o que quer que Lúcio tenha feito a você não foi capaz de destruir a sua alma. Você não se perdeu.
Acredito em você acima de tudo e se acha que pode salvar o meu neto... Eu acredito em você.
Eu acredito tanto em você que quero fazer parte disso. Eu amo você, meu filho, e nunca pude ser sua mãe. Não me deixaram.
O preço sempre foi a sua vida, a sua segurança, o seu bem estar...
E eu sacrifiquei a única coisa que fazia sentido para mim para te manter vivo. E eu faria tudo de novo. E vou fazer agora.
Não se sinta culpado. é uma escolha minha. Minha vida: minha decisão.
Eu não vivi a minha vida, filho. Nem pude proteger sua infância. Mas agora eu posso garantir sua vida. E eu vou fazer isso feliz. Pelo menos para alguma coisa o sobrenome que eu tanto reneguei vai me servir. Eu te dei à luz, à vida e o meu sangue. Agora vou dar isso tudo de novo.
Adeus. Não se esqueça de que nada é o que parece e tudo pode ser mudado.
De quem sempre te amou,
Narcisa"
Draco releu a carta pela última vez e a transfigurou numa rosa branca. Beijou as pétalas delicadas e a repousou sobre o túmulo. Caminhou até o carro de costas para o sol e não olhou para trás.
