- Parabéns para você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida... – o coro desafinado de familiares e amigos cantou para a pequena Victória Weasley Potter.
A menina soprou as quatro velhinhas com a ajuda indesejável do irmão e dos vários primos, a grande maioria ruiva e desobediente como ela.
Gina a segurou no colo e a fez descer da cadeira enquanto Hermione a ajudava a cortar o bolo em vários pedaços. As duas pareciam entretidas em algum assunto sério. Vitória saiu correndo atrás do filho mais novo de Lisa e Gui e não pareceu se importar em comer o doce que a mãe havia separado para ela.
- Ela é terrível... – Hermione comentou enquanto cortava mais uma fatia de bolo para Rony, que já estava perturbando há algum tempo.
- Não sei a quem ela pode TER puxado... – Gina disse, olhando séria para o irmão, que saiu de fininho. As duas riram e foram se sentar com os outros adultos enquanto as crianças brincavam no quintal.
- Então? – Arthur perguntou para Harry e Rony. – Animados com a ida das crianças para Hogwarts?
- Sim e não – os dois disseram juntos e se olharam espantados.
- Bem treinadinhos eles, não? Andam fazendo jogral? – Fred disse, aproximando-se com um prato cheio de picles, pão e bolo de aniversário.
- Você come que nem uma grávida, maninho – Jorge implicou, aproximando-se também. – E o que tem a dupla dinâmica aí? – apontou para Harry e Rony.
- Eles estão ainda na dúvida se se animam ou não com a ida dos filhos para a escola – Molly respondeu, olhando horrorizada para o prato do filho.
- Por quê? – Arthur perguntou, pegando uma das cenouras em conserva do prato de Fred.
- Arthur, isso te dá azia... – Molly disse. Ele ignorou de início mas depois entregou a agora meia cenoura para a mulher. Harry riu. Era sempre agitado qualquer encontro com os Weasley, ainda mais em festas, onde todos geralmente estavam presentes.
- Eu acho que vou sentir falta de Haly – Rony respondeu, corando.
- Ou vai ficar com medo de não dar conta da mulher sozinho... – Carlinhos falou, puxando a cadeira mais para perto. Molly lhe deu um tapa no braço enquanto os outros riam. Ele ignorou.
- Bem, Harry e Hermione podem ver as crianças em Hogwarts e Harry e Gina têm a pequena Victória para encher a casa. Eu acho que vou sentir falta da confusão que uma criança traz a uma casa... – ele emendou sincero. Hermione e Gina sorriram e se entreolharam.
- Isso responde a sua dúvida, Mione? – Gina disse, piscando o olho para a cunhada, que confirmou.
- Ron... – ela chamou a atenção do marido, que virou o rosto corado para ela. – Nós não vamos ficar sozinhos... Bem, apenas por algum tempo... – o ruivo arregalou os olhos. Arthur e Molly abriram um sorriso e os gêmeos engasgaram com cerveja amanteigada.
- Nós vamos ter outro bebê? Tem certeza, Mione?
- Aham... – ele levantou da cadeira e abraçou e beijou a esposa cheio de paixão.
- Eu quero a atenção de todos – ele disse alto. – Eu proponho um brinde ao novo membro da família.
Todos ergueram copos e taças e brindaram ao futuro Weasley. Harry e Gina sorriram um para o outro. Ela sinalizou para irem para o jardim. Harry se levantou alguns segundos depois dela, enquanto Fred e Jorge estavam implicando com Rony sobre ele estar fora de forma para ser pai.
Do lado de fora, Harry enlaçou Gina pela cintura. Ela estava olhando as crianças correrem em volta do lago pensativa.
- Você acha que vai dar tudo certo? – ela perguntou de súbito. Harry respirou fundo.
- Eu acho que sim. Rony e Hermione vão ter que se acostumar com fraldas de novo mas...
- Não. Não eles. Owen, Halyssa. Hogwarts... - Harry pensou por alguns minutos.
- Eu vou estar lá. E Mione também. Pelo menos por um tempo, até que ela receba licença maternidade. E Neville...
- Harry, a presença de Dumbledore nunca te impediu de entrar em apuros. Eu tenho medo. Eu não gosto da idéia do nosso filho longe de casa... – Harry segurou o rosto dela entre as mãos e olhou dentro dos olhos castanhos que amava.
- Eu não vou deixar nada acontecer com ele, Gina. Nada... – ela abaixou o olhar.
- Aquele sonho que ele teve. Eu não esqueço. Já faz quatro anos mas eu não me esqueço...
- Foi apenas um pesadelo, Gina.
- Eu sei. E você se lembra dos seus? Do que eles significavam... – Harry suspirou.
- É diferente. Owen não tem nenhuma ligação com Vol...demort – ele disse devagar, para não alarmar a esposa.
- Harry, ele falou língua de cobra aquele dia...
- Gina, isso não deve ser nada. Ele apenas sonhou. Foi alguma coincidência... – ela sacudiu a cabeça.
- Eu não sei... Espero sinceramente que tenha sido... Espero que isso seja apenas ansiedade por uma nova rotina...
- Fique tranqüila, meu amor. Eu vou fazer qualquer coisa para proteger você e as crianças. Qualquer coisa... – ele disse, encarando o horizonte.
- Eu já disse mais de mil vezes para você ir dormir na sala. Não vou repetir - a porta do quarto se abriu e bateu violentamente.
Nattalie ouviu o clique da chave sendo virada na fechadura.
- Trancar pra quê? Como se eu quisesse entrar aí - ele gritou. - Se eu quisesse entrar não seria uma tranca idiota que me seguraria... - murmurou para si mesmo.
A menina escutou os passos do pai, provavelmente descalço, no corredor. Entreabriu a porta e viu Draco passar com um travesseiro debaixo do braço. Fechou a porta e suspirou. As brigas estavam cada vez mais freqüentes. Não se lembrava mais da última vez que havia visto um gesto de carinho entre os pais.
Dylan parecia cada vez mais alheio a tudo. As discussões não o afetavam em nada. Ele parecia satisfeito em ver as olheiras do pai aumentarem.
Draco, por sua vez, estava tão desgostoso que havia perdido uma enorme quantidade de clientes influentes no banco e a viagem em família que havia sido planejada para o final do ano foi novamente adiada.
Nicolle estava uma pilha de nervos e não estava conseguindo cumprir as metas de sua editora. Já havia recebido um ultimato: se não terminasse o livro perderia a maior parte dos lucros das vendas do mesmo.
O clima estava pesado. O irmão mal trocava algumas palavras com ela e os pais. Ela se sentia só e triste. Mas naquele momento sabia que seu pai estava bem pior. Então tomou fôlego, enxugou as lágrimas e abriu a porta. Caminhou na ponta dos pés até a sala. Draco estava sentado no sofá, a cabeça baixa, entre os joelhos, e as mãos na nuca. Estava visivelmente desamparado. Ela tossiu duas vezes mas ele não saiu do estupor em que se encontrava, então ela chamou.
- Pai? - ele ergueu os olhos cinzentos para a filha. Não havia nenhum brilho neles mais.
- Oi filha. Há quanto tempo você está aí, coelhinha? - ela forçou um sorriso. Ele ainda a chamava assim, mesmo ela estando agora com quase onze anos.
- O suficiente para saber que não está nada bem... - disse, lamentosa, enquanto se aproximava.
Ele bateu a mão no sofá, chamando-a para lhe fazer companhia. A menina deu de ombros e sentou ao seu lado. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes; coçaram a cabeça juntos. Nicolle sempre dizia que Nattie havia herdado alguns trejeitos do pai. Este era um deles.
- Não consegue dormir? - os dois perguntaram ao mesmo tempo.
Riram. Ela ainda podia reconhecer o pai em momentos de descontração como aquele mas era só. No resto do tempo ele era muito diferente. Triste, furioso ou ambos - na maioria das vezes - eram os estados naturais dele nos últimos anos.
- Não consegui papai - ela respondeu tristemente.
- Foi porque eu, nós... - ele apontou desajeitado para o corredor escuro, referindo-se aos gritos, e Nattalie meneou a cabeça.
- Não papai. Eu já estava acordada. Não me atrapalhou - ela parou, ainda na dúvida se deveria continuar. - Mas me preocupou - emendou de forma delicada. Draco deu um sorriso com o canto dos lábios.
- Bela forma de concluir que seu pai está na maior mer... - ela arregalou os olhos azuis. - Na maior maré de azar da sua vida inteira... - ela ficou parada por algum tempo e em poucos segundos os dois riram da própria desgraça.
- O que você vai fazer a respeito, papai? - ela perguntou quando já estavam mais calmos e ele deu de ombros.
- Sinceramente não sei, coelhinha. Em duas semanas vocês fazem onze anos. Dylan irá para Hogwarts. Eu não sei como vão ficar as coisas e...
- Melhores - ela respondeu séria, Draco apertou os olhos.
- Melhores? Por que melhores, Nattie? - ela parou e olhou o corredor, não sabia se deveria falar ou não mas estava cansada de ter dúvidas.
- Pai, é possível alguém mudar uma pessoa com magia? – ele franziu a testa.
- Como assim? Mudar como? Transfigurar o rosto dessa pessoa? - Nattie sacudiu a cabeça negativamente.
- Não papai. Fazer uma pessoa mudar. Se tornar diferente. Agressiva, irritada... É possível que Dylan esteja manipulando a mamãe? - perguntou secamente e o pai quase engasgou.
- Filha, isso que você está dizendo é...
- A pura verdade, não é? E você sabe. Você só não impediu porque tem medo que ele mude de tática, não é? Você tem medo que ele faça perdê-la de uma forma irreversível. Você tem medo de que ele a mate - ela terminou em um sussurro. - Eu também - confessou com a voz fanhosa, as lágrimas escorriam pela face pálida -, foi por isso que eu não falei antes, pai. Me desculpe ter te deixado sozinho...
Draco ficou comovido, limpou as lágrimas dela com as costas da mão e abraçou a filha com força.
- É exatamente isso filha - respondeu seriamente. - Mas as coisas vão melhorar. Em duas semanas... - ele se sentia mal de querer ver o filho longe mas sabia que era o único jeito de ter paz. - Quando ele for... - não sabia o que dizer e Nattie tentou sorrir.
- Mamãe vai voltar ao normal? - Draco passou a língua sobre o lábio inferior.
- Eu não sei Nattie. Ela ficou muito tempo dominada por algo que eu não sei o que é, que eu não soube como reverter... Eu espero que sim. Eu creio que sim. Eu... Preciso que sim. Foi o que me manteve aqui esses anos infernais. Eu prometi a ela que nunca a machucaria. Eu a amo, Nattie - disse com um certo brilho no olhar; a menina ficou feliz em ouvir aquilo.
- Então lute por ela, pai. Diga isso pra ela. Ela vai gostar de ouvir. Toda mulher gosta... - ela sorriu. - Boa noite, papai. Obrigada pela conversa... - ela já ia saindo quando ele deteve sua mão.
- E o meu beijo, coelhinha? - ela riu e deu um beijo estalado na bochecha do pai. - Nattie? - chamou antes que ela sumisse no escuro do corredor. A menina se virou. - Obrigado também filha. Por me fazer lembrar disso - Nattie sacudiu a cabeça e voltou para seu quarto.
Foi uma das primeiras noites repousantes para ambos em muito tempo.
