Capítulo seis – O Fim do Começo
Assim que o chapéu sentenciou várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Haly ficou lívida e trocou um olhar com a mãe. Owen achou que fosse algum tipo de pesadelo e se beliscou. Dylan e os outros meninos da Sonserina bateram palmas enquanto Harry ficava de pé.
Harry esticou subitamente a mão para frente. Hermione ainda tentou segurá- lo mas não conseguiu impedir o amigo de pegar o Chapéu Seletor da cabeça do filho. Um burburinho enorme se formou no Salão. A professora McGonagall estava chocada da mesma forma.
Harry! – ela chamou a atenção do professor de Defesa Contra as Artes das Trevas mas foi em vão.
- Eu resolvo isso diretora – Hermione se prontificou.
Harry já estava na sala ao lado, levava o chapéu como se fosse um trapo velho. Visivelmente revoltado. Hermione foi atrás dele após alguns segundos de hesitação. Owen enquanto isso permaneceu no banco. Congelado e embaraçado demais para se mexer; Haly tinha afundado o rosto nas mãos e apenas Dylan sorria e chamava o amigo para se sentar ao seu lado, como se nada demais estivesse acontecendo.
Harry praticamente jogou o chapéu em cima da mesa.
Como pôde fazer isso com o meu filho? – gritou. O chapéu permaneceu calado. – Eu sei que ele é um grifinório. Sempre foi. Tem as cores da Grifinória enfeitando o quarto. Ele queria ir para a Grifinória... Ele...
- Não teve essa escolha, professor Potter. Infelizmente eu disse a verdade. A vontade dele não lhe será útil agora. Ele precisa ficar na casa que lhe fará desenvolver seus potenciais... – Harry apertou o chapéu pela aba, como se fosse possível estrangulá-lo. Hermione entrou na sala e ficou chocada.
- Harry? Assim você vai machucá-lo... – Harry não ouviu. Seria impossível matar um ser inanimado. O chapéu riu. Potter, Potter, Potter... Não me culpe. A responsabilidade não é de ninguém além de sua e da Weasley que escolheu para ser a mãe dele... – Harry largou o chapéu no chão, este foi colocado na mesa por um Hermione aliviada.
A professora McGonagall estava do lado de fora da sala, tentando contornar a balbúrdia formada. Neville estava parado de frente para Owen, sem saber o que dizer ao garoto.
Minha responsabilidade? De Gina? Impossível. Você está velho e desgastado demais para o meu gosto...
- Harry... – Hermione chamou sua atenção.
- Mione, eu não posso respeitar um pedaço de pano que faz uma coisa dessas com o meu filho. Meu filho é um grifinório. E é na Grifinória que ele vai ficar, certo, Mione? – Hermione mordeu os lábios.
Harry, eu não sei se... – o amigo se enfureceu.
- Não acredito que você confia mais no que um chapéu de trapos diz do que no seu sobrinho...
Não é isso Harry...
- Harry Potter... – Harry se calou. - Quando você foi selecionado você me pediu. Me pediu para não ir para a Sonserina. Você tinha essa opção. Seu filho nunca poderia ter o mesmo privilégio...
- Você quer dizer que por eu ter escolhido meu filho perdeu esse direito? Eu preciso apresentar o conceito de justiça a você... – debochou. O chapéu riu novamente.
- Não. Ele não tem o privilégio por que tem uma marca. Uma marca herdada por ambos pais – Hermione franziu a testa. – Potter, infelizmente tanto você quanto a mãe do garoto foram tocados por Você-Sabe-Quem. Tocados de tal forma que tiveram a alma e o corpo impregnados, respectivamente. Seu filho herdou a melhor parte de vocês mas também herdou a pior...
Harry ficou pálido, sabia que parte dos poderes de Voldemort haviam sido transferidos para ele quando ainda bebê e sabia o quanto havia sido doloroso para Gina ser possuída durante quase um ano e ainda assim sobreviveram para gerarem um filho. Um filho fruto de um amor imenso mas fadado a receber uma marca sinistra. Harry se deixou cair na cadeira mais próxima e ficou mudo, sentia culpa e medo. Como explicaria para Gina? E Owen? O que ele podia dizer a uma criança cheia de expectativas? Hermione não sabia como contornar a situação.
- Harry? – ela chamou o amigo, que finalmente ergueu os olhos.
- O que eu faço agora, Mione? Eu acabei com tudo. Estraguei tudo. Me comportei como um...
- Como um pai, Harry. Você é um pai, e como um pai zeloso que é, é natural que queira proteger Owen – Harry concordou. – Mas você não vai poder protegê-lo de tudo. Ele é um sonserino agora. Você vai ter que aceitar isso ou ele mesmo não será capaz de fazê-lo... – Harry respirou fundo.
- Você tem razão. Eu só não sei como vai ser. Chegar em casa e contar isso tudo para Gina. Ela está grávida. Vive sensível e com os hormônios em fúria. Tem dias que ela está dócil como uma gatinha e outros que parece querer me comer o fígado... – Hermione riu.
- Ela vai aceitar muito bem. Ela é mãe, Harry. Agora vamos lá fora. O banquete já deve ter começado – ela presumiu pelo silêncio que agora reinava do lado de fora.
Quando os dois saíram tudo estava sob controle. Harry localizou Owen sentado ao lado do filho de Malfoy mas sorriu para o menino. Foi a deixa para que o apetite de Owen viesse à tona e começou a jantar. Ria, muito à vontade em meio aos outros alunos da Sonserina. Harry recebeu um olhar reprovador da diretora. Sabia que depois teria que se explicar pessoalmente com ela. Lançou um olhar furtivo a mesa da Grifinória e sorriu para Haly, dando tranqüilidade para que a menina comesse também. Aquele era para ter sido um dia de muita felicidade mas agora Harry voltava a ter velhas preocupações, ao ver o quanto seu filho parecia se entrosar com o menino Malfoy.
Não foi nada fácil dizer adeus a Nattalie. Draco e Nicolle se mantiveram sorridentes até os cabelos loiros da menina desaparecerem entre as centenas de alunos do semi-internato. Ela ficaria na escola por duas semanas antes de voltar para casa para o primeiro final de semana e seria a primeira vez que Draco e Nicolle ficariam sozinhos de novo em onze anos.
Ele ainda estava dormindo no escritório. Nas noites anteriores à partida de Nattie os três tinham dividido a cama mas Draco esperava a filha dormir e ia para o escritório. Não queria forçar nada e nem se precipitar desta vez. Sabia o preço que poderia pagar por um erro e não queria perder a família de novo. De manhã voltava e acordava junto às duas. Na última noite Nicolle havia feito menção de pedir a ele que ficasse mas não conseguiu dizer as palavras e ele então saiu, sem guardar mágoas.
Atravessaram o pátio agora vazio da escola e imaginaram que a filha estivesse sendo instruída em onde dormiria e com quem dividiria seu quarto. Draco esperava que fossem meninas educadas e comportadas, que não fossem perversas ou implicassem com a Nattie. Nicolle pensava o mesmo quando os dois se entreolharam.
Ela tinha os olhos rasos de lágrimas. Draco tentou sorrir para animá-la mas não estava nem um pouco mais feliz do que a mulher.
- Ela vai ficar bem, Nikki. Vai se adaptar... - disse sem a menor convicção.
- Eu sei... Mas e nós? Vamos? - perguntou com uma nota de ansiedade na voz.
Draco parou e esticou a mão para ela. Nicolle observou a mão por alguns segundos então, timidamente, estendeu a sua e a segurou. Os dois terminaram o caminho até o carro de mãos dadas. Do alto do prédio antigo da Academia, Nattalie assistiu a cena sorrindo.
Os primeiros dias foram os mais difíceis. Nicolle choramingava pelos cantos da casa, sobretudo quando arrumou a bagunça que a filha havia deixado no quarto, na pressa de sair. Draco foi compreensivo e manteve a distância, dando espaço a mulher. Era gentil e solícito o tempo todo, tentava animá-la e fazê-la sorrir, mas também estava se sentindo miserável.
Depois de uma semana o clima melhorou, faltava menos tempo agora e metade deste já havia se passado. Draco estava deitado em silêncio no sofá-cama do escritório. Pensava em tudo o que já havia vivido. Os anos em Hogwarts, a guerra que não tomara parte. O casamento fracassado e o que quase fracassou. Ou teria fracassado também? Ele não percebeu quando a porta foi entreaberta. Estava absorto em pensamentos, encarando o teto. Quando sentiu que havia alguém ali se virou para a porta.
Draco prendeu a respiração por alguns instantes. Era Nell. A elfa ficou desconcertada pela expressão decepcionada do patrão. Os olhos esbugalhados se encheram de medo. Draco tentou não deixar transparecer a raiva que sentia por não ser a esposa que tinha entrado ali. Sabia que a culpa era dele, não da pobre infeliz da elfa.
- O que foi Nell? - perguntou o menos rude que conseguiu.
- Eu vim buscar a bandeja do jantar, Sr. Malfoy. Me desculpe, senhor... - disse de cabeça baixa. Draco respirou fundo e indicou a bandeja.
Nell se esgueirou, equilibrou a bandeja na enorme cabeça chata e se retirou em silêncio, deixando Draco sozinho no escuro de sua solidão. Depois de alguns minutos ele se virou na cama. Puxou as cobertas para cima e começou a lutar contra a sua mente, que não queria relaxar, para tentar dormir. Foi quando novamente a porta se abriu. Ele olhou cheio de esperança para a porta, mas era Nell de novo.
- O que foi agora, por Merlin? - a elfa quase choramingou.
Eu esqueci de levar os copos, senhor. Me desculpe Sr. Malfoy. Nell é má e insignificante. Não merece um mestre assim tão... - Draco a cortou.
- Tá. Tá. Ande logo com isso. Você me acordou - mentiu.
A elfa não se sentiu culpada pois sabia que era mentira. Nunca Draco havia acordado com nenhum dos elfos domésticos entrando em seu quarto para arrumar qualquer coisa. Então ela saiu o mais rápido que pôde, levando os copos de água e vinho e uma jarra vazia de suco de laranja.
Draco bufou e cobriu a cabeça. Estava irritado o suficiente agora para passar uma semana em claro. A frustração doía. Atormentava. Ele estava há uma semana sozinho com Nicolle e não havia conseguido sequer tocá-la.
Depois de dez minutos insones novamente a porta se abriu. Ele se sentou bruscamente no sofá-cama.
- Saia daqui. Não me interessa o que quer. Já chega - disse com raiva na voz para o vão que se entreabriu na porta do escritório.
- Desculpe - ele ouviu Nicolle responder num fio de voz. Deu um salto da cama.
- Nikki? Por Merlin, me perdoe - alcançou-a no meio do corredor. - Eu não achei que fosse você. Achei que fosse Nell – ela fez uma careta repreendendo-o, mas ele emendou. - Ia ser a terceira vez que ela entrava ali. Eu não sei como agüentei duas mas três... - ela esboçou um sorriso. Draco estava salvo.
- Bem, eu imagino que não agüentasse três vezes seguidas... - ela corou ao ver que tinha soado mal a frase. - Boa noite - disse após um silêncio constrangedor.
Draco a segurou pelo braço e percebeu que ela estava trêmula.
O que foi? Você está bem? Por que me procurou no escritório? - ela se esquivou do toque dele mas Draco viu que ela estava arrepiada.
- Eu não sei... Eu queria... Queria... - ele gesticulou, tentando fazer com que ela falasse.
- Queria? - perguntou ansioso.
- Falar com você sobre... Sobre... - suas bochechas estavam vermelhas e emanava calor agora ele percebia nitidamente.
Sobre? - prosseguiu perguntando, para deixá-la cada vez mais sem graça.
- Sobre nós, e saber se poderíamos... Poderíamos... - estava tendo dificuldades. Ele a conhecia o suficiente para saber o que ela queria mas queria ouvi-la dizer. Por azar dele a recíproca era verdadeira e ela percebeu a intenção.
- Draco, por favor. Não me obrigue... É difícil... - ela disse com a voz miúda. Ele sorriu.
- Tudo bem, vem cá, vem - segurou a mão dela. - Você pode se deitar comigo. Eu te conheço o suficiente para saber que teve um pesadelo - ela suspirou.
Ele ainda a conhecia como ninguém. Bem, talvez sua mãe a conhecesse tão bem assim também. Draco a acompanhou o quarto e a acomodou nos braços, enquanto fazia carinho em seus cabelos. O cheiro de Nicolle foi como uma benção para ele. Era o que estava fazendo falta para que ele pudesse dormir direito, sempre soube disso.
- O que você sonhou? - ele perguntou baixinho. Ela estava com os olhos já fechados e ele viu a sombra dos olhos azuis turquesa rolarem sob as pálpebras.
- Sonhei que nunca mais estaria aqui... - respondeu em meio ao sono.
- Onde? Em casa? - insistiu.
- Não... Nos seus braços - respondeu num sussurro e se aninhou mais ainda. Draco sorriu. Naquele instante ele teve certeza de que tudo ficaria bem.
Assim que o chapéu sentenciou várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Haly ficou lívida e trocou um olhar com a mãe. Owen achou que fosse algum tipo de pesadelo e se beliscou. Dylan e os outros meninos da Sonserina bateram palmas enquanto Harry ficava de pé.
Harry esticou subitamente a mão para frente. Hermione ainda tentou segurá- lo mas não conseguiu impedir o amigo de pegar o Chapéu Seletor da cabeça do filho. Um burburinho enorme se formou no Salão. A professora McGonagall estava chocada da mesma forma.
Harry! – ela chamou a atenção do professor de Defesa Contra as Artes das Trevas mas foi em vão.
- Eu resolvo isso diretora – Hermione se prontificou.
Harry já estava na sala ao lado, levava o chapéu como se fosse um trapo velho. Visivelmente revoltado. Hermione foi atrás dele após alguns segundos de hesitação. Owen enquanto isso permaneceu no banco. Congelado e embaraçado demais para se mexer; Haly tinha afundado o rosto nas mãos e apenas Dylan sorria e chamava o amigo para se sentar ao seu lado, como se nada demais estivesse acontecendo.
Harry praticamente jogou o chapéu em cima da mesa.
Como pôde fazer isso com o meu filho? – gritou. O chapéu permaneceu calado. – Eu sei que ele é um grifinório. Sempre foi. Tem as cores da Grifinória enfeitando o quarto. Ele queria ir para a Grifinória... Ele...
- Não teve essa escolha, professor Potter. Infelizmente eu disse a verdade. A vontade dele não lhe será útil agora. Ele precisa ficar na casa que lhe fará desenvolver seus potenciais... – Harry apertou o chapéu pela aba, como se fosse possível estrangulá-lo. Hermione entrou na sala e ficou chocada.
- Harry? Assim você vai machucá-lo... – Harry não ouviu. Seria impossível matar um ser inanimado. O chapéu riu. Potter, Potter, Potter... Não me culpe. A responsabilidade não é de ninguém além de sua e da Weasley que escolheu para ser a mãe dele... – Harry largou o chapéu no chão, este foi colocado na mesa por um Hermione aliviada.
A professora McGonagall estava do lado de fora da sala, tentando contornar a balbúrdia formada. Neville estava parado de frente para Owen, sem saber o que dizer ao garoto.
Minha responsabilidade? De Gina? Impossível. Você está velho e desgastado demais para o meu gosto...
- Harry... – Hermione chamou sua atenção.
- Mione, eu não posso respeitar um pedaço de pano que faz uma coisa dessas com o meu filho. Meu filho é um grifinório. E é na Grifinória que ele vai ficar, certo, Mione? – Hermione mordeu os lábios.
Harry, eu não sei se... – o amigo se enfureceu.
- Não acredito que você confia mais no que um chapéu de trapos diz do que no seu sobrinho...
Não é isso Harry...
- Harry Potter... – Harry se calou. - Quando você foi selecionado você me pediu. Me pediu para não ir para a Sonserina. Você tinha essa opção. Seu filho nunca poderia ter o mesmo privilégio...
- Você quer dizer que por eu ter escolhido meu filho perdeu esse direito? Eu preciso apresentar o conceito de justiça a você... – debochou. O chapéu riu novamente.
- Não. Ele não tem o privilégio por que tem uma marca. Uma marca herdada por ambos pais – Hermione franziu a testa. – Potter, infelizmente tanto você quanto a mãe do garoto foram tocados por Você-Sabe-Quem. Tocados de tal forma que tiveram a alma e o corpo impregnados, respectivamente. Seu filho herdou a melhor parte de vocês mas também herdou a pior...
Harry ficou pálido, sabia que parte dos poderes de Voldemort haviam sido transferidos para ele quando ainda bebê e sabia o quanto havia sido doloroso para Gina ser possuída durante quase um ano e ainda assim sobreviveram para gerarem um filho. Um filho fruto de um amor imenso mas fadado a receber uma marca sinistra. Harry se deixou cair na cadeira mais próxima e ficou mudo, sentia culpa e medo. Como explicaria para Gina? E Owen? O que ele podia dizer a uma criança cheia de expectativas? Hermione não sabia como contornar a situação.
- Harry? – ela chamou o amigo, que finalmente ergueu os olhos.
- O que eu faço agora, Mione? Eu acabei com tudo. Estraguei tudo. Me comportei como um...
- Como um pai, Harry. Você é um pai, e como um pai zeloso que é, é natural que queira proteger Owen – Harry concordou. – Mas você não vai poder protegê-lo de tudo. Ele é um sonserino agora. Você vai ter que aceitar isso ou ele mesmo não será capaz de fazê-lo... – Harry respirou fundo.
- Você tem razão. Eu só não sei como vai ser. Chegar em casa e contar isso tudo para Gina. Ela está grávida. Vive sensível e com os hormônios em fúria. Tem dias que ela está dócil como uma gatinha e outros que parece querer me comer o fígado... – Hermione riu.
- Ela vai aceitar muito bem. Ela é mãe, Harry. Agora vamos lá fora. O banquete já deve ter começado – ela presumiu pelo silêncio que agora reinava do lado de fora.
Quando os dois saíram tudo estava sob controle. Harry localizou Owen sentado ao lado do filho de Malfoy mas sorriu para o menino. Foi a deixa para que o apetite de Owen viesse à tona e começou a jantar. Ria, muito à vontade em meio aos outros alunos da Sonserina. Harry recebeu um olhar reprovador da diretora. Sabia que depois teria que se explicar pessoalmente com ela. Lançou um olhar furtivo a mesa da Grifinória e sorriu para Haly, dando tranqüilidade para que a menina comesse também. Aquele era para ter sido um dia de muita felicidade mas agora Harry voltava a ter velhas preocupações, ao ver o quanto seu filho parecia se entrosar com o menino Malfoy.
Não foi nada fácil dizer adeus a Nattalie. Draco e Nicolle se mantiveram sorridentes até os cabelos loiros da menina desaparecerem entre as centenas de alunos do semi-internato. Ela ficaria na escola por duas semanas antes de voltar para casa para o primeiro final de semana e seria a primeira vez que Draco e Nicolle ficariam sozinhos de novo em onze anos.
Ele ainda estava dormindo no escritório. Nas noites anteriores à partida de Nattie os três tinham dividido a cama mas Draco esperava a filha dormir e ia para o escritório. Não queria forçar nada e nem se precipitar desta vez. Sabia o preço que poderia pagar por um erro e não queria perder a família de novo. De manhã voltava e acordava junto às duas. Na última noite Nicolle havia feito menção de pedir a ele que ficasse mas não conseguiu dizer as palavras e ele então saiu, sem guardar mágoas.
Atravessaram o pátio agora vazio da escola e imaginaram que a filha estivesse sendo instruída em onde dormiria e com quem dividiria seu quarto. Draco esperava que fossem meninas educadas e comportadas, que não fossem perversas ou implicassem com a Nattie. Nicolle pensava o mesmo quando os dois se entreolharam.
Ela tinha os olhos rasos de lágrimas. Draco tentou sorrir para animá-la mas não estava nem um pouco mais feliz do que a mulher.
- Ela vai ficar bem, Nikki. Vai se adaptar... - disse sem a menor convicção.
- Eu sei... Mas e nós? Vamos? - perguntou com uma nota de ansiedade na voz.
Draco parou e esticou a mão para ela. Nicolle observou a mão por alguns segundos então, timidamente, estendeu a sua e a segurou. Os dois terminaram o caminho até o carro de mãos dadas. Do alto do prédio antigo da Academia, Nattalie assistiu a cena sorrindo.
Os primeiros dias foram os mais difíceis. Nicolle choramingava pelos cantos da casa, sobretudo quando arrumou a bagunça que a filha havia deixado no quarto, na pressa de sair. Draco foi compreensivo e manteve a distância, dando espaço a mulher. Era gentil e solícito o tempo todo, tentava animá-la e fazê-la sorrir, mas também estava se sentindo miserável.
Depois de uma semana o clima melhorou, faltava menos tempo agora e metade deste já havia se passado. Draco estava deitado em silêncio no sofá-cama do escritório. Pensava em tudo o que já havia vivido. Os anos em Hogwarts, a guerra que não tomara parte. O casamento fracassado e o que quase fracassou. Ou teria fracassado também? Ele não percebeu quando a porta foi entreaberta. Estava absorto em pensamentos, encarando o teto. Quando sentiu que havia alguém ali se virou para a porta.
Draco prendeu a respiração por alguns instantes. Era Nell. A elfa ficou desconcertada pela expressão decepcionada do patrão. Os olhos esbugalhados se encheram de medo. Draco tentou não deixar transparecer a raiva que sentia por não ser a esposa que tinha entrado ali. Sabia que a culpa era dele, não da pobre infeliz da elfa.
- O que foi Nell? - perguntou o menos rude que conseguiu.
- Eu vim buscar a bandeja do jantar, Sr. Malfoy. Me desculpe, senhor... - disse de cabeça baixa. Draco respirou fundo e indicou a bandeja.
Nell se esgueirou, equilibrou a bandeja na enorme cabeça chata e se retirou em silêncio, deixando Draco sozinho no escuro de sua solidão. Depois de alguns minutos ele se virou na cama. Puxou as cobertas para cima e começou a lutar contra a sua mente, que não queria relaxar, para tentar dormir. Foi quando novamente a porta se abriu. Ele olhou cheio de esperança para a porta, mas era Nell de novo.
- O que foi agora, por Merlin? - a elfa quase choramingou.
Eu esqueci de levar os copos, senhor. Me desculpe Sr. Malfoy. Nell é má e insignificante. Não merece um mestre assim tão... - Draco a cortou.
- Tá. Tá. Ande logo com isso. Você me acordou - mentiu.
A elfa não se sentiu culpada pois sabia que era mentira. Nunca Draco havia acordado com nenhum dos elfos domésticos entrando em seu quarto para arrumar qualquer coisa. Então ela saiu o mais rápido que pôde, levando os copos de água e vinho e uma jarra vazia de suco de laranja.
Draco bufou e cobriu a cabeça. Estava irritado o suficiente agora para passar uma semana em claro. A frustração doía. Atormentava. Ele estava há uma semana sozinho com Nicolle e não havia conseguido sequer tocá-la.
Depois de dez minutos insones novamente a porta se abriu. Ele se sentou bruscamente no sofá-cama.
- Saia daqui. Não me interessa o que quer. Já chega - disse com raiva na voz para o vão que se entreabriu na porta do escritório.
- Desculpe - ele ouviu Nicolle responder num fio de voz. Deu um salto da cama.
- Nikki? Por Merlin, me perdoe - alcançou-a no meio do corredor. - Eu não achei que fosse você. Achei que fosse Nell – ela fez uma careta repreendendo-o, mas ele emendou. - Ia ser a terceira vez que ela entrava ali. Eu não sei como agüentei duas mas três... - ela esboçou um sorriso. Draco estava salvo.
- Bem, eu imagino que não agüentasse três vezes seguidas... - ela corou ao ver que tinha soado mal a frase. - Boa noite - disse após um silêncio constrangedor.
Draco a segurou pelo braço e percebeu que ela estava trêmula.
O que foi? Você está bem? Por que me procurou no escritório? - ela se esquivou do toque dele mas Draco viu que ela estava arrepiada.
- Eu não sei... Eu queria... Queria... - ele gesticulou, tentando fazer com que ela falasse.
- Queria? - perguntou ansioso.
- Falar com você sobre... Sobre... - suas bochechas estavam vermelhas e emanava calor agora ele percebia nitidamente.
Sobre? - prosseguiu perguntando, para deixá-la cada vez mais sem graça.
- Sobre nós, e saber se poderíamos... Poderíamos... - estava tendo dificuldades. Ele a conhecia o suficiente para saber o que ela queria mas queria ouvi-la dizer. Por azar dele a recíproca era verdadeira e ela percebeu a intenção.
- Draco, por favor. Não me obrigue... É difícil... - ela disse com a voz miúda. Ele sorriu.
- Tudo bem, vem cá, vem - segurou a mão dela. - Você pode se deitar comigo. Eu te conheço o suficiente para saber que teve um pesadelo - ela suspirou.
Ele ainda a conhecia como ninguém. Bem, talvez sua mãe a conhecesse tão bem assim também. Draco a acompanhou o quarto e a acomodou nos braços, enquanto fazia carinho em seus cabelos. O cheiro de Nicolle foi como uma benção para ele. Era o que estava fazendo falta para que ele pudesse dormir direito, sempre soube disso.
- O que você sonhou? - ele perguntou baixinho. Ela estava com os olhos já fechados e ele viu a sombra dos olhos azuis turquesa rolarem sob as pálpebras.
- Sonhei que nunca mais estaria aqui... - respondeu em meio ao sono.
- Onde? Em casa? - insistiu.
- Não... Nos seus braços - respondeu num sussurro e se aninhou mais ainda. Draco sorriu. Naquele instante ele teve certeza de que tudo ficaria bem.
