Harry entrou em casa na ponta dos pés, Gina provavelmente estaria dormindo àquela hora. Queria adiar ao máximo a conversa que teria sobre a seleção de Owen mas infelizmente as coisas não saíram como planejava.
- Por que você está entrando em casa sorrateiramente desse jeito? - Gina estava saindo da cozinha com um copo de leite numa mão. A outra, repousada na cintura, em uma postura inquisitora, dava a exata noção do quanto estava aborrecida.
- Eu... Eu... Eu... - ele gaguejou; Gina puxou uma cadeira e se sentou à mesa da sala de jantar.
- Você o quê, Harry? Como foi a Seleção?
"Droga, por que ela tem que ser tão direta?", pensou enquanto puxava uma cadeira e se sentava à frente da esposa.
- E você, como passou o dia? - Gina ergueu as sobrancelhas e riu.
- Então? Ele foi pra Sonserina mesmo, não é? - Harry quase caiu para trás na cadeira.
- Como... Como você... Gina? - ela deu uma gargalhada.
- Harry, definitivamente, um dos motivos pelos quais em me apaixonei por você não foi a sua articulação com as palavras... - ela sorriu. - Você não achou que a professora McGonagall não fosse me avisar imediatamente sobre para qual casa o meu filho tinha sido selecionado, achou? Você, como professor, devia saber que o procedimento padrão é enviar uma coruja para os responsáveis do aluno, no caso só eu estava em casa... Eu e Victória... - Harry torceu o lábio.
- Eu estava tentando apenas...
- Eu sei o que você estava tentando, Harry, mas você não pode me proteger de tudo. E nem ao Owen...
- Mione disse o mesmo... Eu fiquei com medo de que você não pudesse suportar isso... - Gina sorriu.
- Harry, Owen é nosso filho. É indiferente a casa em que ele estude. Nós o orientamos muito bem. Ele não vai ter problemas... - Harry abaixou a cabeça e suspirou.
- Ele fez amizade com Malfoy - Gina perdeu a fala, o copo de leite escorregou por entre seus dedos e se espatifou no chão, fazendo um enorme barulho.
Victória, no andar de cima, se assustou e gritou mas logo ficou quieta. O casal ficou alguns minutos em silêncio, encarando o teto até que perceber que a menina havia voltado a dormir.
- Harry... Como? Você quer dizer... - ele sacudiu a cabeça.
- É isso mesmo que você ouviu "madame articulada". Nosso filho passou o jantar inteiro rindo e conversando com o filho do Malfoy. Imagine as possibilidades... - Gina ficou em silêncio, olhando para os cacos e o leite esparramado no chão.
- Irônico... - ela disse após alguns segundos; Harry franziu a testa.
- O que é irônico, Gina? - ela o olhou, séria.
- Isso tudo: Owen ir para Sonserina, ser amigo do filho do Draco... O leite... Diz o ditado que não adianta chorar pelo leite derramado. E é verdade. Não há nada que possamos fazer agora Harry. O que podíamos fazer já fizemos. Criamos Owen da melhor forma possível... Nada mais pode ser feito... - Harry também a olhou, sério, Victória ressonou mais uma vez.
- Vá ver a menina Gina. Eu limpo isso aqui. Eu vou limpar tudo isso... - completou, mais para si do que para ela.
Gina levantou, desviando os pés descalços dos cacos, e subiu as escadas. Harry esperou que a esposa estivesse no andar de cima, identificou os passos dela no quarto da filha e as vozes abafadas e sonolentas das duas. Sorriu, foi até a cozinha e pegou o material de limpeza, retirou caco por caco do chão, depois passou um pano úmido. Fez tudo da maneira trouxa e, depois, refez o copo magicamente. Ficou o observando por alguns segundos antes de pegá-lo.
Voltou à cozinha, lavou-o e o encheu de leite. Colocou encima da mesa e sorriu novamente. "Não, Gina, nem sempre só nos resta chorar pelo leite derramado. Nem tudo é definitivo. E eu vou limpar essa sujeira também. Eu só preciso enviar uma carta", pensou antes de beber o leite de um gole só e subir para ajudar a mulher com a filha.
Nattie amassou o segundo pedaço de papel. Não era muito boa em português e escrever uma redação sobre seu ídolo estava ficando cada vez mais difícil. Ela havia escolhido escrever sobre o pai ao invés de escrever sobre cantores de rock ou artistas, como a maioria das meninas e meninos da sua turma. Pegou o último pedaço de rascunho do bloco e jogou pela janela, arrependendo-se em seguida. Poderia ser punida caso fosse denunciada por uma das insuportáveis menininhas mimadas com que dividia a enorme mesa da biblioteca.
Por sorte nenhuma delas viu o que Nattalie havia acabado de fazer. Estavam todas imensamente compenetradas em uma revista de fofocas que Marjorie, a insuportável filha de franceses que fazia questão de fingir um sotaque que não tinha, havia trazido.
- Olha só Marge, o Leonardo DiCaprio sem camisa... - Lisa, uma menina gorduchinha e bochechuda, apontou, animada. A outra fez uma expressão de nojo e fechou bruscamente a revista.
Seguiu-se um coro baixo de reclamações e suspiros decepcionados. Marjorie se virou para a menina e disse, com a maior antipatia que conseguiu impingir à sua voz.
- Acho que você deverrria voltar para a sua mesa, garrota. E meu nome é Marrrjorrie, não algo vulgarrr e pequeno como um nominho de cinco letrras...
Lisa ficou arrasada e saiu correndo da biblioteca. As meninas riram, algumas apenas para tentar fazer com que a revista fosse novamente aberta mas isso não aconteceu.
- Eu poderia te dizer diversos nomes vulgares com bem mais de cinco letras agora mesmo. Mas uma leitora - Nattie arrancou a revista da mão da outra garota. - Ho, ho, digo, uma assinante de uma revista inútil como essa não teria capacidade de entender um insulto com mais de cinco letras... - as meninas se aglomeraram em volta das duas e Nattalie se colocou calmamente em frente a Marjorie.
As duas se encararam por um bom tempo, até que Marjorie viu que a pequena Malfoy apesar de pequena não estava nem um pouco disposta a desistir da encrenca armada, então bufou, arrancando a revista de volta, e saiu pisando firme com a horda de meninhas espevitadas atrás de si.
Nattalie riu mas foi interrompida por uma outra menina, de cabelos castanhos e olhos claros, que estava sentada na ponta da mesa.
- Você não devia fazer isso... - Nattie ergueu as sobrancelhas.
- Me dê um bom motivo para eu não ter colocado essa gralha metida a francesa no lugar dela? - a menina riu.
- Eu não estou defendendo a Marrrge - deu uma entonação debochada -, apenas avisando que você pode se dar mal. Ela é influente entre essas patetas que estudam aqui. Infelizmente não podemos fazer muita coisa a respeito... Willow Taylor - esticou a mão para Nattie.
- Nattalie Malfoy. Acho que vamos ser boas amigas, Willow - a menina sorriu.
- Pode me chamar de Will... - Nattalie sorriu e as duas se dirigiram juntas ao corredor dos quartos.
Assim que passaram por um grupo de meninas perceberam que havia algo errado. Todas olhavam para as duas com expressão de espanto. Willow percebeu que alguma coisa Marjorie e suas puxa-sacos haviam aprontado. Logo puderam ver o que era. Na porta de Nattalie havia uma espécie de boneca pendurada. As meninas estavam horrorizadas. A pequena Malfoy sorriu.
- O que exatamente é isso, Will? - Willow também estava assustada.
- Eu acho que é uma boneca vodu, Nattie. Dizem que a Marjorie sabe fazer bruxaria... - a loira sorriu.
- Ah, dizem é? Então eu vou mostrar a ela quem entende de bruxaria aqui... Boa noite Will - respondeu, entrando no quarto e arrancando a boneca da porta.
Willow ficou amedontrada. Nunca nenhuma das meninas havia desafiado Marjorie daquele jeito. Nattalie se jogou na cama, gargalhando muito. Finalmente teria alguma novidade daquela escola estúpida para contar aos pais.
Tinha voltado a pensar em como escreveria a redação quando ouviu um piado característico. Era Boss, a velha coruja de Draco. Ela sorriu e abriu a janela.
- Entre Boss - disse, catando alguns biscoitos e esmigalhando para que a coruja pudesse mastigar. - Já estava achando que você não vinha hoje - acrescentou, retirando o pergaminho da pata da coruja.
"Boa noite filha.
Você ficará muito feliz quando chegar em casa. Eu e sua mãe temos uma surpresa.
Beijos, papai."
Nattie sorriu. Todo dia o pai lhe mandava Boss e os dois assim trocavam boa noite, era um modo de tranqüilizar Nicolle e também de dar apoio à menina. Ela pegou a pena - que mantinha escondida debaixo do colchão - e começou a rabiscar a resposta.
"Boa noite papai e mamãe.
Estou ansiosa com a surpresa. E, papai, lembra o que eu lhe falei sobre arrumar minhas próprias encrencas? Bem, eu acho que dessa vez vou precisar de um pouco da sua ajuda..."
Ela sorriu triunfantemente. Marjorie realmente veria o que era bruxaria de verdade.
- Você tem certeza de que não seremos pegos? – Dyllan bufou com vontade.
- Qual é Potter? Vai amarelar justo agora? De que adianta você Ter essa capa velha aí se não podemos fazer um bom uso dela? – Owen deu de ombros.
- Mas meu pai só me emprestou a capa caso eu precisasse escapar de alguma encrenca... – Dyllan ergueu as sombrancelhas e sorriu.
- Exatamente. Mas ele não disse nada sobre quem iria criar a encrenca disse? – Owen torceu os lábios.
- Na-não... – respondeu sem graça.
- E ele mesmo não criou várias quando estudava aqui?
- É, mas...
- Viu só? Pronto. Resolvido. Nós só temos que ir lá na torre da Grifinória, soltar as bombas de bosta e voltarmos correndo para as masmorras... – disse com simplicidade.
- Mas por que a gente tem que fazer isso, Dyll? Os garotos não fizeram nada de tão grave assim... – Dyllan acotovelou o amigo por baixo da capa.
- Como assim não fizeram? Eles ficaram o jantar inteiro fazendo piadas por que a Sonserina perdeu o primeiro jogo da temporada...
- Está certo, é verdade. Mas se nós tivéssemos ganho não teríamos feito o mesmo?
- Isso não vem ao caso, Potter. Era para nós termos vencido. Aqueles idiotas trapacearam. E a sua priminha teve muita sorte de principiante como goleira...
- O meu tio foi um bom goleiro também... – Owen se lembrou, mas Dyllan ignorou totalmente o amigo.
- A questão é: Se a gente não fizer nada esses grifinórios sujos vão achar que os sonserinos não são de nada. Nós precisamos honrar o nome da nossa casa... – Owen suspirou fundo.
- É que eu não me sinto bem fazendo isso... A Haly...
- Não venha me dizer que a chata da Weasley vai ficar chateada. Ela não precisa saber que foi você. E francamente, você não tinha como Ter ido pra Grifinória, você não tem um pingo de coragem mesmo – provocou usando as palavras certas. Owen suspirou desanimado e deu de ombros.
- Você é quem sabe, Dyllan... – se deu por vencido.
- Vamos logo. Vai ser divertido... – os dois chegaram em frente ao retrato da mulher gorda. – Você tem mesmo a senha? – Dyllan sussurrou. Owen lhe entregou um pedaço de papel que havia encontrado em cima da mesa do café, no lugar onde Francis Longbottom, filho mais velho de Neville e Lilá, havia sentado.
- "Escama de Sereiano" – o retrato girou e abriu a entrada para os dois, encobertos pela capa de invisibilidade.
- Assim que entraram na Sala Comunal, Owen sentiu o estômago afundar. Já havia entrado algumas vezes ali escondido sob a capa junto com Halyssa para conhecer onde seus pais e tios haviam estudado durante sete anos. Ele sempre se sentia estranhamente à vontade e aconchegado naquele cômodo. E agora, maculá-lo junto com o amigo da Sonserina não lhe parecia mais uma idéia tão agradável e necessária assim.
- Dyllan? – o garoto não respondeu. Estava concentrado armando um pavio comprido para as bombas de bosta, agachado próximo à lereira. – Dyll? – chamou de novo, um pouco mais alto dessa vez.
- Que droga, Potter. Fale logo de uma vez o que é... – Owen abaixou a cabeça.
- Eu não acho mesmo que devíamos fazer isso. Veja, eu poderia estudar aqui. Poderia ser diferente... Meus pais...
- Eles não estudam mais aqui, Potter. E você não foi selecionado para essa casa de perdedores e sangue-ruins...
- Mas a minha Tia Mione...
- Potter, você quer parar de agir como aquela sua prima chata? Parece o velho gagá do Filch... – ele disse alto e um barulho no andar de cima foi ouvido nitidamente: passos descendo as escadas. Dyllan jogou a ponta do pavio na lereira acesa, acendendo-o rapidamente, entrou debaixo da capa junto com Owen e correu para o corredor.
Em segundos a sala estava repleta de uma fumaça marrom e fedorenta. Owen sentiu os pulmões e olhos arderem. Na confusão havia sido deixado para trás. Depois de um crise de tosse e de estar com os olhos irritados e lacrimejantes o suficiente, a fumaça se dissipou. Ele pôde ver na penumbra da Sala Comunal dois olhos castanhos extremamente magoados.
- Eu não acredito que você tenha feito uma coisa dessas conosco, Owen... – Halyssa tinha as duas mãos na cintura. Os olhos vermelhos e marejados não só pela fumaça. Encarava o primo com decepção. Owen nunca havia se sentido tão envergonhado em toda a sua vida.
N/A: Bem, gente. Aí está mais uma atualização. Eu só tenho pronto até o capítulo 8, então vou demorar a atualizar provavelmente. Não me matem rs... Essa atualização extraordinária foi a pedidos da amiguinha e escritora de Luz e Sombra (que eu adoro) Ligia. Foi um pedido tão encarecido que eu não pude recusar. Fica dedicado também a todo mundo que está lendo e ao amor da minha vida que acabou virando fã da série, séculos depois de ela já estar quase toda pronta... Bjims da Lú. PS: Se eu não mencionar minha amada-mala-beta ela me mata, então está devidamente mencionada e agradecida rs...
