2 – Una elucidación sobre lágrimas rojas (Uma descoberta sobre lágrimas
vermelhas)
Harry observou atônito os sinais que indicavam que Draco Malfoy estava chorando: os silenciosos soluços e balbucios, os tremores e convulsões das costas, o balanço inconsciente enquanto escondia seu rosto entre suas mãos...
Algo na figura do outro o perturbava estranhamente junto com a pena que sentia por ele; seria por vê-lo pela primeira vez em uma situação tão vulnerável, tão humana para o frio bastardo que era habitualmente.
Dumbledore também observava Malfoy com uma mistura de assombro e concentração, e reparou em que a mão do diretor agitava casualmente perto do bolo para sua varinha, os dedos crispados com certa tensão.
O que diabos está acontecendo aqui?
Draco havia começado a acalmar-se um pouco, e agora seus balbucios tinham algo de coerência, com palavras soltas, sussurradas em um tom baixo que percorreu o estômago de Harry com um estremecimento: o loiro tinha que tem um tom sexy até em um momento como aquele.
Mesmo que por suposto isso não te afete, né Harry?
- Não, não, não...não eu, não eu... geração... só histórias... o que fazer agora... eu não sou... viver com isto... um pesadelo...não, não, não... oh Merlin...
Os dedos de Malfoy se crisparam fundo entre sua leonina mata de cabelo pálido, fazendo feridas no couro cabeludo sem que se dera conta, perdido como estava em sua miséria.
- Meu pobre menino... – suspirou Dumbledore suavemente, com olhos em quais deslumbrava-se uma nova compreensão, mas sem apartar a mão da varinha – Acalme-se Draco, tem que...
Mas nunca chegou a completar a frase ao encontrar-se subitamente com um irado Draco Malfoy a poucos centímetros de seu rosto, gritando com fúria:
- O que fodidamente é fácil de dizer, Dumbledore!!! Você não tem que suportar ser... ser o que eu... estar... Você não tem que suportar estar morto! – agregou no limite da histeria, fazendo que Albus Dumbledore, Membro da Confederação Internacional de Magos, Ordem de Merlin (primeira classe), temido por o maior Mago das trevas de todos os tempos, dera um passo atrás, piscando e evitando seu olhar – O que demônios se supõe que vou fazer agora?? Diga-me!!!
Harry se viu pego pela mirada de Malfoy, fundo em uns poços de luz da lua que se agitavam com fúria apenas controlada... e algo mais, menos agradável, algo que fez que apartasse seu olhar com um respingo involuntário, tirando-o de um estado atônito, como o dos animais deslumbrados pelos faróis de um carro, e todos seus instintos lhe gritarão "Corre!!!" de uma forma muito mais clara do que em qualquer momento de sua vida até então.
Demônios, o que acaba de passar, isto é muito raro...
Não pode evitar que sua mirada passeasse pela figura do outro, que atraia a mirada como um imã. Se antes Malfoy já era o garoto mais atrativo do colégio, agora havia passado a um nível de beleza quase sobrenatural, que gelava o vigor. Seu cabelo emoldurava seu rosto numa aureola prateada, brilhando com força sobre a luz da lua, movendo-se de um modo hipnótico ao seguir os movimentos de seu rosto, como as algas sobre a maré. Sua pele era de um branco marfim puro, com olhos destacando como duas orbes de luz da lua, dois lagos prateados que afogavam... Fez um esforço e voltou a concentra-se seus olhos, fixando-se em suas pálidas bochechas, onde o único ponto de cor eram seus lábios, de um rosa pálido e uma textura inconcebivelmente sedosa, com um toque voluptuoso; se não fosse pelos rastros de lágrimas vermelhas que corriam indiscriminadas por suas bochechas mármores.
Harry também retrocedeu um passo, reunido dados rapidamente... lágrimas vermelhas... e mais ainda quando se fixou na boca do outro, com uns dentes nacarados perfeitos...exceto pelas pontas de duas pequenas e afiadas presas.
Seu sobressalto ao compreender o que Malfoy havia querido dizer com "morto" foi tão grande que expeliu todo o ar de seus pulmões com um suspiro, e retrocedeu até chocar com a borda de uma cadeira, sobre a qual se deixou cair de maneira desmantelada, abobado. Nem um dos outros reparou nele, ocupados em falar de modo agressivo um e em vigiar ao primeiro o outro, com a mão tensa sobre a varinha. Agora entendia a inquietude que lhe provocava sua silhueta quando estava chorando, e aquela sensação de perigo em seu estômago, e também, porquê Dumbledore não separava a mão de sua varinha. Só esperava que Malfoy se acalmasse ou a situação podia acabar muito mal para todos.
- Draco, acalme-se, estou certo que a situação não é tão grave como parece... necessita-se tempo para pensar... relaxe um pouco... – o diretor fez um gesto com sua outra mão até o ombro do outro, o qual se apartou em um gesto brusco mas surpreendentemente fluente, se deu à volta e retornou, com uma rapidez incrível ao canto onde tinha se sentado antes.
- Claro, claro, claro – guspiu ele, com um desdém venenoso claro em sua voz argentina – Certo que me acalmar vai levantar a maldição e tudo, certo que não é nada que não se possa consertar com uma taça de chá, né Dumbledore? – continuou, a desesperação substituída agora por uma ira crescente em seus olhos – O que diabos pode se saber de tudo isto na verdade? – com a voz fazendo-se mais profunda e ameaçadora, começou a incorporasse, sua aureola prateada emoldurando ameaçadoramente uma expressão que provocou um encolhimento do estômago em Harry e ele desejou ter sua varinha consigo naquele mesmo momento, ou de estar a vários quilômetros afastado dessa expressão, enquanto uma aura negra começava a crepitar ao redor do jovem Sonserino.
Parecia ser que teve um efeito parecido no bruxo adulto, já que sus mão se crispou ao redor da varinha, denotando mais tensão do que Harry havia visto jamais no poderoso feiticeiro que havia enfrentado a Voldemort e a Grindewald sem perder nem a compostura nem a vida, apesar de que seu rosto não deixava transpassar nada fora a calma e compreensão quando respondeu calmamente:
- Sei mais do que pensa, jovem Malfoy, conheço os antigos rumores e lendas sobre sua família... mesmo que eu também pensei que era uma lenda falsa, inventada para inspirar temor aos inimigos de sua linhagem... – viu reconhecimento nas feições do outro, evidentemente havia pensado o mesmo, um sorriso amargo brotou dos lábios de Draco, que começou a relaxar e a parecer algo mais... humano, na realidade – Vê que ambos nos equivocamos ao não crer em contos fantásticos, não?
- Certamente, professor, ambos nos equivocamos sobre a veracidade dessas histórias... mesmo que a ignorância parece que não me tenha protegido muito, certo? – acentuou com uma expressão triste – Nem sequer o havia considerado, quando o tive maior acesso a essas lendas...
Do que estão falando? E por que Dumbledore o olha como se tudo isto tivesse sentido?
- Então, Draco, creio que deveria iluminarmos com a versão que conhece, que será possivelmente mais completa que a minha, e menos crítica, sendo só um antigo verso e os rumores que correm em reuniões sociais antiquadas. Uma vez que sabermos o que ocorre, analisaremos todas as possíveis opções, de acordo? – comentou o mago ancião, com cara relaxada mesmo que seus olhos seguiam mortalmente sérios, deixando-se cair em uma carteira ele também, depois de ver como Draco se acalmava ligeiramente – Harry, tome asse... – desviou os olhos um instante da figura do outro para comprovar se seguia ali – Ah, bem, vejo que já está sentado. Draco, espero que não se importe que Harry escute a explicação, após passar por tudo o...assunto, digamos.
Harry sentiu desviar a mirada do outro até sua figura, notando o passo daqueles olhos sobre seu rosto com uma força quase física, provocando que sua respiração se alterasse um instante sobre o magnetismo daquela olhada, mas não se atreveu a enfrentar aquele feitiço e manteve fixa a sua em um ponto mais baixo que os olhos de Draco, seus lábios, e olhou com concentração, notando sua textura sedosa, e o brilho pálido à luz da lua, e achou-se se perguntando o que sentiria ao beijá-los: um frio refrescante ou um calor delicioso? Suavidade ou...??
Deixe-o já!! Tem que ser outro feitiço, é Malfoy o que está olhando, por Deus!!!
- De acordo – interrompeu seus pensamentos o outro - já posto a explicar, tanto da que revele a história familiar a um que os dois, e suponho que o devo depois deste... desgraçado incidente – contestou com um gesto estranho que, Harry compreendeu com certa dó, significava um fraco intento de por sua mascara sarcástica habitual - Mas não te acostume Potter... os Malfoy não sabem dever nada a ninguém... Só quero que não volte esta noite a sua torre fazendo descabeladas suposições sobre o que ocorreu, e te evitar pesadelos tontos que tenha que vigiar seu Weasel.
- Morra Malfoy – se deu conta depois de poucos instantes do que havia replicado, e arrependido levantou a vista para enfrentasse com uns olhos cheios de nuvens tormentosas, com uma expressão dolorida que rapidamente desapareceu deixando um espelho impassível – Sinto muito, Malfoy, não era minha int...
- Oh cale-se, certo? – respondeu venenosamente – Já vê que seu desejo se cumpriu...e se cumprirá mais vez, se estou certo. A história que se conta na Mansão Malfoy tem muitos reflexos de lenda, uma lenda negra sobre nossa família... como se isso fosse piorar nossa reputação, né? Nem meu Pai nem nenhum Malfoy crêem nela, nem pensam que nos seja de utilidade alguma: não necessitamos recorrer a isso para ter poder sobre os demais – agora Draco tinha uma expressão orgulhosa, mesmo que seus olhos estavam nublados e sombrios, centrados em algo que só ele podia ver – Mas, em fim, voltando ao tema que me comove mais pessoalmente, a história conta que faz vários séculos, durante a Baixa Idade Média, um dos meus antepassados, Ignatium Augustus Malfoy, além de ser um Bruxo das Trevas como o resto – Harry se estremeceu ligeiramente ante a rapidez com a que enunciava aquele feito – era... criativo, por dizer de alguma forma.
O gesto que surgiu nos lábios de Draco indicava que atrás dessa palavra se escondiam provavelmente muitas coisas desagradáveis ao extremo.
- Não se sabe o que tentava criar naquela noite, o boato é que era algo para melhorar nossa linhagem, tanto fisicamente quanto magicamente...disse- se que um de seus filhos era quase um Aborto – o desprezo foi claro em sua voz – Tampouco se conhece com o que experimentava, nem quais ingredientes usou...exceto um: o sangue de um vampiro.
Aquilo arrancou um suave suspiro de surpresa dos lábios de Dumbledore, que obviamente no conhecia essa parte da história, e Harry anotou mentalmente que devia perguntar a Hermione sobre o sangue de vampiro e sua importância, mas ninguém interrompeu o relato de Malfoy.
- Os resultados não foram em absoluto o que esperava, para dizer o mínimo...acabou convocando algo muito poderoso...e que não estava nada contente por ter sido molestado – Draco Malfoy se estremeceu, e também viu como Dumbledore reprimia um arrepio ao ouvir aquilo, o que sugeria que havia sido algo muito, muito mal – Ignatium conseguiu salvar a vida mediante feitiços de barreira, mas o ser que havia convocado se vingou de todas formas, jogando uma maldição sobre Ignatium e seus descendentes.
- E morreras de noite, sofrendo o tormento da fome, e a ânsia não te abandonará nem no amanhecer – murmurou Dumbledore suavemente – Mas poucos supõem a que se referia isto...
- Tampouco ele o soube desde o começo, mas na noite seguinte passou o tormento de morrer... e despertar convertido em isto. A revelação o enlouqueceu temporariamente, e antes que recobrasse a lucidez, matou seu criado, um de seus filhos, vários elfos domésticos, e a vários moradores da aldeia mais perto – Draco estava mortalmente sério, Harry supôs que estava pensando na sorte que havia tido de não perder completamente os nervos naquela noite, e agradeceu de coração que Dumbledore havia chegado justo a tempo, entendendo o porquê não havia baixado a guarda até que Draco se havia acalmado - Nas noites seguintes não ocorreram nada, mas Ignatium notou uma certa propensão à violência que antes não estava ali: não de machucar com magia, mas sim a fazê-lo de forma física, com suas próprias mãos – sua voz, que ia baixando enquanto contava isso, deu um ligeiro respingo - Essa era a ânsia que se mencionava na maldição, mas não era isso só o que lhe havia deixado o ser, poucas noites depois voltou a ocorrer a transformação em vampiro...mesmo que desta vez pode controlasse melhor, graças a Merlin. Segundo a família, posto que não se conserva nenhum retrato daqueles tempos para que nos informemos, as seguintes gerações, duas, três – moveu uma mão indicando aproximadamente, em um gesto grácil, refletindo-se a luz da lua em suas unhas bem cuidadas – resultarão infectadas também, mas logo começou a pular gerações... e finalmente a não aparecer nunca. Certamente, os boatos já haviam saído fora da família, mas nunca conseguiram confirmá-los. Antes de mim, o único que se soube que pudesse ter sido foi meu tataravô Thorvald Malfoy, mas nunca o soubemos com toda a certeza, morreu jovem em um acidente de feitiço, antes que lhe fizessem um retrato de sua maturidade. E por isso a família acreditava que provavelmente a historia era um fiasco criado para fundar terror aos inimigos de nossa linhagem, e não uma realidade – acabou, baixando outra vez a cabeça, de maneira que o cabelo lhe ocultava as feições - E que, até se havia sido verdade, se havia perdido já há tantos séculos...
Dumbledore ficou em silêncio um pouco depois de que a voz de Draco, que havia abaixado de tom à medida que falava, se apagasse finalmente, deixando ao vampiro em reflexão e dor, e Harry tratando de assimilar tudo aquilo: ver os caninos havia sido uma coisa, mas ouvir a história inteira e conhecer o destino do outro... Era irônico, a primeira vez que havia visto Draco Malfoy demonstrando que era uma pessoa com sentimentos, razoável, com um lado humano... já não era humano de todo.
Olhou até a figura do outro, sentado, imóvel, com uma postura derrotada, como se seu mundo se houvesse sido virado de ponta cabeça.
Realmente foi virado de ponta cabeça, idiota, como acha que você se sentiria? Estaria caindo de tanto rir?? Iria correndo a dar a boa nova a seus amigos???
- Bem, Draco, então sabemos que sua condição não é permanente...y que não ocorrerá todas as noites. Não vejo porque, se tomarmos algumas precauções, sua vida não mudará tanto – um peso invisível pareceu sair dos ombros de Draco à medida que Dumbledore falava com tom seguro e reconfortante – Como saberás, não estou a favor da separação pelas circunstancias... particulares de algumas pessoas, e não vejo porque não deve permanecer em Hogwarts... se me prometer por seu nome que não machucará ninguém nestas noites, entendido?
- Sim, professor, e... obrigado – murmurou com gratidão o jovem – Pensei que...
- Contudo, a visão de grande parte da comunidade mágica é bem diferente, assim que por minha parte no revelarei o que ocorreu a ninguém, exceto a seu pai, clar...
- Não!!! – interrompeu com voz aguda, olhando com desesperação a Dumbledore – Meu pai não deve saber disto... ou me obrigará a receber a Marca. – se estremeceu silenciosamente – Não serei a mascote do Lorde das Trevas, não por minha vontade nem por esta situação. Necessito que siga acreditando que não sou de muita utilidade... e isto mudará tudo.
- Por quê? – escapou de seus lábios sem poder evitar, o que lhe deu uma mirada aborrecida e vacilante do outro, e novos arrepios, em conseqüência, pelas costas de Harry – Pensava que compartia as opiniões de seu pai.
- Potter, não te direi que adoro ao Sangue Sujos, que estou completamente convencido de que são iguais que os bruxos de famílias de Puro Sangue, mas não comparto sua visão de como solucionar o assunto, é um pouco...drástica, e mais ainda, um Malfoy não se inclina ante ninguém. – sibilou - Não receberei a Marca para que Voldemort possa assegurasse de que não atuo contra ele, e para que me convoque quando esteja em este estado e não tenha mais remédio que obedecê-lo – lhe olhou com veneno nos olhos, cheios da mesma luz desagradável de antes – É o suficiente ou quer uma explicação detalhada? Será que necessita de um fodido livro sobre o tema, como sua amiga Granger?? Quer também que te explique como me sinto agora, o que me contribuiu a experiência de morrer???
- Sinto Malfoy, não esperava esta mudança de situação, não queria me meter em seus motivos – agregou rapidamente, com honestidade, vendo que o loiro começava a perder outra vez os nervos.
- Tranqüilize-se Draco, o senhor Potter não o dizia com essa intenção – intervenho Dumbledore apaziguador – Se você o deseja, não mencionarei este assunto a sua família, mesmo que os informantes de Lucius Malfoy sejam muitos – olhou Harry de maneira séria – Harry, você...
- Não revelarei nada disto a ninguém, ninguém tem porque ser olhado como uma curiosidade, ou induzido a algo que não quer por algo do que não é responsável – notou o olhar surpreso do outro, que sempre lhe havia reprovado que estivesse banhado em atenção quase de forma continua – Nem sequer a Ron ou a Hermione.
- Eer... hun-hun – o loiro limpou a garganta, obviamente não acostumado a agradecer ninguém – Obrigado, Potter - disse em um sussurro baixo e aliviado que voltou a arrancar arrepios do outro, cujos pêlos ficaram de pé ao ouvir seu nome pela primeira vez sem maldade na voz de Draco, de uma maneira distinta que jamais tinha ouvida antes.
- Bom, Harry, acredito que já podemos dar por finalizada esta detenção, né? – comentou o diretor com uma piscada de seus olhos azuis – Agora tenho que esclarecer alguns detalhes com Draco, pequenos assuntos... Ah, Draco, creio que gostaria guardar essas lágrimas, podem ser de enorme utilidade, como saberá.
Voltou-se e produziu uma pequena toalha branca, com a qual Malfoy proveu a secar o rosto de forma conscientizada, totalmente no controle de si mesmo uma vez mais, a máscara do herdeiro Malfoy uma vez mais em seu lugar. Harry arriscou a olhar em seus olhos antes de sair e os viu desprovidos de emoção visível, mesmo que o cinza era tempestuoso, indicio seguro da tempestade interior que devia estar ocorrendo detrás das íris do loiro.
Fazendo um esforço, tirou os olhos do rosto do Sonserino e começou a andar até a saída, murmurando um "Boa Noite" ao passar junto deles, respondido por um bufo sarcástico proveniente de Malfoy. Notou o olhar do outro cravado em suas costas durante todo o tempo que esteve em seu campo de visão, uma sensação não de todo desagradável...
Harry observou atônito os sinais que indicavam que Draco Malfoy estava chorando: os silenciosos soluços e balbucios, os tremores e convulsões das costas, o balanço inconsciente enquanto escondia seu rosto entre suas mãos...
Algo na figura do outro o perturbava estranhamente junto com a pena que sentia por ele; seria por vê-lo pela primeira vez em uma situação tão vulnerável, tão humana para o frio bastardo que era habitualmente.
Dumbledore também observava Malfoy com uma mistura de assombro e concentração, e reparou em que a mão do diretor agitava casualmente perto do bolo para sua varinha, os dedos crispados com certa tensão.
O que diabos está acontecendo aqui?
Draco havia começado a acalmar-se um pouco, e agora seus balbucios tinham algo de coerência, com palavras soltas, sussurradas em um tom baixo que percorreu o estômago de Harry com um estremecimento: o loiro tinha que tem um tom sexy até em um momento como aquele.
Mesmo que por suposto isso não te afete, né Harry?
- Não, não, não...não eu, não eu... geração... só histórias... o que fazer agora... eu não sou... viver com isto... um pesadelo...não, não, não... oh Merlin...
Os dedos de Malfoy se crisparam fundo entre sua leonina mata de cabelo pálido, fazendo feridas no couro cabeludo sem que se dera conta, perdido como estava em sua miséria.
- Meu pobre menino... – suspirou Dumbledore suavemente, com olhos em quais deslumbrava-se uma nova compreensão, mas sem apartar a mão da varinha – Acalme-se Draco, tem que...
Mas nunca chegou a completar a frase ao encontrar-se subitamente com um irado Draco Malfoy a poucos centímetros de seu rosto, gritando com fúria:
- O que fodidamente é fácil de dizer, Dumbledore!!! Você não tem que suportar ser... ser o que eu... estar... Você não tem que suportar estar morto! – agregou no limite da histeria, fazendo que Albus Dumbledore, Membro da Confederação Internacional de Magos, Ordem de Merlin (primeira classe), temido por o maior Mago das trevas de todos os tempos, dera um passo atrás, piscando e evitando seu olhar – O que demônios se supõe que vou fazer agora?? Diga-me!!!
Harry se viu pego pela mirada de Malfoy, fundo em uns poços de luz da lua que se agitavam com fúria apenas controlada... e algo mais, menos agradável, algo que fez que apartasse seu olhar com um respingo involuntário, tirando-o de um estado atônito, como o dos animais deslumbrados pelos faróis de um carro, e todos seus instintos lhe gritarão "Corre!!!" de uma forma muito mais clara do que em qualquer momento de sua vida até então.
Demônios, o que acaba de passar, isto é muito raro...
Não pode evitar que sua mirada passeasse pela figura do outro, que atraia a mirada como um imã. Se antes Malfoy já era o garoto mais atrativo do colégio, agora havia passado a um nível de beleza quase sobrenatural, que gelava o vigor. Seu cabelo emoldurava seu rosto numa aureola prateada, brilhando com força sobre a luz da lua, movendo-se de um modo hipnótico ao seguir os movimentos de seu rosto, como as algas sobre a maré. Sua pele era de um branco marfim puro, com olhos destacando como duas orbes de luz da lua, dois lagos prateados que afogavam... Fez um esforço e voltou a concentra-se seus olhos, fixando-se em suas pálidas bochechas, onde o único ponto de cor eram seus lábios, de um rosa pálido e uma textura inconcebivelmente sedosa, com um toque voluptuoso; se não fosse pelos rastros de lágrimas vermelhas que corriam indiscriminadas por suas bochechas mármores.
Harry também retrocedeu um passo, reunido dados rapidamente... lágrimas vermelhas... e mais ainda quando se fixou na boca do outro, com uns dentes nacarados perfeitos...exceto pelas pontas de duas pequenas e afiadas presas.
Seu sobressalto ao compreender o que Malfoy havia querido dizer com "morto" foi tão grande que expeliu todo o ar de seus pulmões com um suspiro, e retrocedeu até chocar com a borda de uma cadeira, sobre a qual se deixou cair de maneira desmantelada, abobado. Nem um dos outros reparou nele, ocupados em falar de modo agressivo um e em vigiar ao primeiro o outro, com a mão tensa sobre a varinha. Agora entendia a inquietude que lhe provocava sua silhueta quando estava chorando, e aquela sensação de perigo em seu estômago, e também, porquê Dumbledore não separava a mão de sua varinha. Só esperava que Malfoy se acalmasse ou a situação podia acabar muito mal para todos.
- Draco, acalme-se, estou certo que a situação não é tão grave como parece... necessita-se tempo para pensar... relaxe um pouco... – o diretor fez um gesto com sua outra mão até o ombro do outro, o qual se apartou em um gesto brusco mas surpreendentemente fluente, se deu à volta e retornou, com uma rapidez incrível ao canto onde tinha se sentado antes.
- Claro, claro, claro – guspiu ele, com um desdém venenoso claro em sua voz argentina – Certo que me acalmar vai levantar a maldição e tudo, certo que não é nada que não se possa consertar com uma taça de chá, né Dumbledore? – continuou, a desesperação substituída agora por uma ira crescente em seus olhos – O que diabos pode se saber de tudo isto na verdade? – com a voz fazendo-se mais profunda e ameaçadora, começou a incorporasse, sua aureola prateada emoldurando ameaçadoramente uma expressão que provocou um encolhimento do estômago em Harry e ele desejou ter sua varinha consigo naquele mesmo momento, ou de estar a vários quilômetros afastado dessa expressão, enquanto uma aura negra começava a crepitar ao redor do jovem Sonserino.
Parecia ser que teve um efeito parecido no bruxo adulto, já que sus mão se crispou ao redor da varinha, denotando mais tensão do que Harry havia visto jamais no poderoso feiticeiro que havia enfrentado a Voldemort e a Grindewald sem perder nem a compostura nem a vida, apesar de que seu rosto não deixava transpassar nada fora a calma e compreensão quando respondeu calmamente:
- Sei mais do que pensa, jovem Malfoy, conheço os antigos rumores e lendas sobre sua família... mesmo que eu também pensei que era uma lenda falsa, inventada para inspirar temor aos inimigos de sua linhagem... – viu reconhecimento nas feições do outro, evidentemente havia pensado o mesmo, um sorriso amargo brotou dos lábios de Draco, que começou a relaxar e a parecer algo mais... humano, na realidade – Vê que ambos nos equivocamos ao não crer em contos fantásticos, não?
- Certamente, professor, ambos nos equivocamos sobre a veracidade dessas histórias... mesmo que a ignorância parece que não me tenha protegido muito, certo? – acentuou com uma expressão triste – Nem sequer o havia considerado, quando o tive maior acesso a essas lendas...
Do que estão falando? E por que Dumbledore o olha como se tudo isto tivesse sentido?
- Então, Draco, creio que deveria iluminarmos com a versão que conhece, que será possivelmente mais completa que a minha, e menos crítica, sendo só um antigo verso e os rumores que correm em reuniões sociais antiquadas. Uma vez que sabermos o que ocorre, analisaremos todas as possíveis opções, de acordo? – comentou o mago ancião, com cara relaxada mesmo que seus olhos seguiam mortalmente sérios, deixando-se cair em uma carteira ele também, depois de ver como Draco se acalmava ligeiramente – Harry, tome asse... – desviou os olhos um instante da figura do outro para comprovar se seguia ali – Ah, bem, vejo que já está sentado. Draco, espero que não se importe que Harry escute a explicação, após passar por tudo o...assunto, digamos.
Harry sentiu desviar a mirada do outro até sua figura, notando o passo daqueles olhos sobre seu rosto com uma força quase física, provocando que sua respiração se alterasse um instante sobre o magnetismo daquela olhada, mas não se atreveu a enfrentar aquele feitiço e manteve fixa a sua em um ponto mais baixo que os olhos de Draco, seus lábios, e olhou com concentração, notando sua textura sedosa, e o brilho pálido à luz da lua, e achou-se se perguntando o que sentiria ao beijá-los: um frio refrescante ou um calor delicioso? Suavidade ou...??
Deixe-o já!! Tem que ser outro feitiço, é Malfoy o que está olhando, por Deus!!!
- De acordo – interrompeu seus pensamentos o outro - já posto a explicar, tanto da que revele a história familiar a um que os dois, e suponho que o devo depois deste... desgraçado incidente – contestou com um gesto estranho que, Harry compreendeu com certa dó, significava um fraco intento de por sua mascara sarcástica habitual - Mas não te acostume Potter... os Malfoy não sabem dever nada a ninguém... Só quero que não volte esta noite a sua torre fazendo descabeladas suposições sobre o que ocorreu, e te evitar pesadelos tontos que tenha que vigiar seu Weasel.
- Morra Malfoy – se deu conta depois de poucos instantes do que havia replicado, e arrependido levantou a vista para enfrentasse com uns olhos cheios de nuvens tormentosas, com uma expressão dolorida que rapidamente desapareceu deixando um espelho impassível – Sinto muito, Malfoy, não era minha int...
- Oh cale-se, certo? – respondeu venenosamente – Já vê que seu desejo se cumpriu...e se cumprirá mais vez, se estou certo. A história que se conta na Mansão Malfoy tem muitos reflexos de lenda, uma lenda negra sobre nossa família... como se isso fosse piorar nossa reputação, né? Nem meu Pai nem nenhum Malfoy crêem nela, nem pensam que nos seja de utilidade alguma: não necessitamos recorrer a isso para ter poder sobre os demais – agora Draco tinha uma expressão orgulhosa, mesmo que seus olhos estavam nublados e sombrios, centrados em algo que só ele podia ver – Mas, em fim, voltando ao tema que me comove mais pessoalmente, a história conta que faz vários séculos, durante a Baixa Idade Média, um dos meus antepassados, Ignatium Augustus Malfoy, além de ser um Bruxo das Trevas como o resto – Harry se estremeceu ligeiramente ante a rapidez com a que enunciava aquele feito – era... criativo, por dizer de alguma forma.
O gesto que surgiu nos lábios de Draco indicava que atrás dessa palavra se escondiam provavelmente muitas coisas desagradáveis ao extremo.
- Não se sabe o que tentava criar naquela noite, o boato é que era algo para melhorar nossa linhagem, tanto fisicamente quanto magicamente...disse- se que um de seus filhos era quase um Aborto – o desprezo foi claro em sua voz – Tampouco se conhece com o que experimentava, nem quais ingredientes usou...exceto um: o sangue de um vampiro.
Aquilo arrancou um suave suspiro de surpresa dos lábios de Dumbledore, que obviamente no conhecia essa parte da história, e Harry anotou mentalmente que devia perguntar a Hermione sobre o sangue de vampiro e sua importância, mas ninguém interrompeu o relato de Malfoy.
- Os resultados não foram em absoluto o que esperava, para dizer o mínimo...acabou convocando algo muito poderoso...e que não estava nada contente por ter sido molestado – Draco Malfoy se estremeceu, e também viu como Dumbledore reprimia um arrepio ao ouvir aquilo, o que sugeria que havia sido algo muito, muito mal – Ignatium conseguiu salvar a vida mediante feitiços de barreira, mas o ser que havia convocado se vingou de todas formas, jogando uma maldição sobre Ignatium e seus descendentes.
- E morreras de noite, sofrendo o tormento da fome, e a ânsia não te abandonará nem no amanhecer – murmurou Dumbledore suavemente – Mas poucos supõem a que se referia isto...
- Tampouco ele o soube desde o começo, mas na noite seguinte passou o tormento de morrer... e despertar convertido em isto. A revelação o enlouqueceu temporariamente, e antes que recobrasse a lucidez, matou seu criado, um de seus filhos, vários elfos domésticos, e a vários moradores da aldeia mais perto – Draco estava mortalmente sério, Harry supôs que estava pensando na sorte que havia tido de não perder completamente os nervos naquela noite, e agradeceu de coração que Dumbledore havia chegado justo a tempo, entendendo o porquê não havia baixado a guarda até que Draco se havia acalmado - Nas noites seguintes não ocorreram nada, mas Ignatium notou uma certa propensão à violência que antes não estava ali: não de machucar com magia, mas sim a fazê-lo de forma física, com suas próprias mãos – sua voz, que ia baixando enquanto contava isso, deu um ligeiro respingo - Essa era a ânsia que se mencionava na maldição, mas não era isso só o que lhe havia deixado o ser, poucas noites depois voltou a ocorrer a transformação em vampiro...mesmo que desta vez pode controlasse melhor, graças a Merlin. Segundo a família, posto que não se conserva nenhum retrato daqueles tempos para que nos informemos, as seguintes gerações, duas, três – moveu uma mão indicando aproximadamente, em um gesto grácil, refletindo-se a luz da lua em suas unhas bem cuidadas – resultarão infectadas também, mas logo começou a pular gerações... e finalmente a não aparecer nunca. Certamente, os boatos já haviam saído fora da família, mas nunca conseguiram confirmá-los. Antes de mim, o único que se soube que pudesse ter sido foi meu tataravô Thorvald Malfoy, mas nunca o soubemos com toda a certeza, morreu jovem em um acidente de feitiço, antes que lhe fizessem um retrato de sua maturidade. E por isso a família acreditava que provavelmente a historia era um fiasco criado para fundar terror aos inimigos de nossa linhagem, e não uma realidade – acabou, baixando outra vez a cabeça, de maneira que o cabelo lhe ocultava as feições - E que, até se havia sido verdade, se havia perdido já há tantos séculos...
Dumbledore ficou em silêncio um pouco depois de que a voz de Draco, que havia abaixado de tom à medida que falava, se apagasse finalmente, deixando ao vampiro em reflexão e dor, e Harry tratando de assimilar tudo aquilo: ver os caninos havia sido uma coisa, mas ouvir a história inteira e conhecer o destino do outro... Era irônico, a primeira vez que havia visto Draco Malfoy demonstrando que era uma pessoa com sentimentos, razoável, com um lado humano... já não era humano de todo.
Olhou até a figura do outro, sentado, imóvel, com uma postura derrotada, como se seu mundo se houvesse sido virado de ponta cabeça.
Realmente foi virado de ponta cabeça, idiota, como acha que você se sentiria? Estaria caindo de tanto rir?? Iria correndo a dar a boa nova a seus amigos???
- Bem, Draco, então sabemos que sua condição não é permanente...y que não ocorrerá todas as noites. Não vejo porque, se tomarmos algumas precauções, sua vida não mudará tanto – um peso invisível pareceu sair dos ombros de Draco à medida que Dumbledore falava com tom seguro e reconfortante – Como saberás, não estou a favor da separação pelas circunstancias... particulares de algumas pessoas, e não vejo porque não deve permanecer em Hogwarts... se me prometer por seu nome que não machucará ninguém nestas noites, entendido?
- Sim, professor, e... obrigado – murmurou com gratidão o jovem – Pensei que...
- Contudo, a visão de grande parte da comunidade mágica é bem diferente, assim que por minha parte no revelarei o que ocorreu a ninguém, exceto a seu pai, clar...
- Não!!! – interrompeu com voz aguda, olhando com desesperação a Dumbledore – Meu pai não deve saber disto... ou me obrigará a receber a Marca. – se estremeceu silenciosamente – Não serei a mascote do Lorde das Trevas, não por minha vontade nem por esta situação. Necessito que siga acreditando que não sou de muita utilidade... e isto mudará tudo.
- Por quê? – escapou de seus lábios sem poder evitar, o que lhe deu uma mirada aborrecida e vacilante do outro, e novos arrepios, em conseqüência, pelas costas de Harry – Pensava que compartia as opiniões de seu pai.
- Potter, não te direi que adoro ao Sangue Sujos, que estou completamente convencido de que são iguais que os bruxos de famílias de Puro Sangue, mas não comparto sua visão de como solucionar o assunto, é um pouco...drástica, e mais ainda, um Malfoy não se inclina ante ninguém. – sibilou - Não receberei a Marca para que Voldemort possa assegurasse de que não atuo contra ele, e para que me convoque quando esteja em este estado e não tenha mais remédio que obedecê-lo – lhe olhou com veneno nos olhos, cheios da mesma luz desagradável de antes – É o suficiente ou quer uma explicação detalhada? Será que necessita de um fodido livro sobre o tema, como sua amiga Granger?? Quer também que te explique como me sinto agora, o que me contribuiu a experiência de morrer???
- Sinto Malfoy, não esperava esta mudança de situação, não queria me meter em seus motivos – agregou rapidamente, com honestidade, vendo que o loiro começava a perder outra vez os nervos.
- Tranqüilize-se Draco, o senhor Potter não o dizia com essa intenção – intervenho Dumbledore apaziguador – Se você o deseja, não mencionarei este assunto a sua família, mesmo que os informantes de Lucius Malfoy sejam muitos – olhou Harry de maneira séria – Harry, você...
- Não revelarei nada disto a ninguém, ninguém tem porque ser olhado como uma curiosidade, ou induzido a algo que não quer por algo do que não é responsável – notou o olhar surpreso do outro, que sempre lhe havia reprovado que estivesse banhado em atenção quase de forma continua – Nem sequer a Ron ou a Hermione.
- Eer... hun-hun – o loiro limpou a garganta, obviamente não acostumado a agradecer ninguém – Obrigado, Potter - disse em um sussurro baixo e aliviado que voltou a arrancar arrepios do outro, cujos pêlos ficaram de pé ao ouvir seu nome pela primeira vez sem maldade na voz de Draco, de uma maneira distinta que jamais tinha ouvida antes.
- Bom, Harry, acredito que já podemos dar por finalizada esta detenção, né? – comentou o diretor com uma piscada de seus olhos azuis – Agora tenho que esclarecer alguns detalhes com Draco, pequenos assuntos... Ah, Draco, creio que gostaria guardar essas lágrimas, podem ser de enorme utilidade, como saberá.
Voltou-se e produziu uma pequena toalha branca, com a qual Malfoy proveu a secar o rosto de forma conscientizada, totalmente no controle de si mesmo uma vez mais, a máscara do herdeiro Malfoy uma vez mais em seu lugar. Harry arriscou a olhar em seus olhos antes de sair e os viu desprovidos de emoção visível, mesmo que o cinza era tempestuoso, indicio seguro da tempestade interior que devia estar ocorrendo detrás das íris do loiro.
Fazendo um esforço, tirou os olhos do rosto do Sonserino e começou a andar até a saída, murmurando um "Boa Noite" ao passar junto deles, respondido por um bufo sarcástico proveniente de Malfoy. Notou o olhar do outro cravado em suas costas durante todo o tempo que esteve em seu campo de visão, uma sensação não de todo desagradável...
