Capítulo 10: Show me what you got, baby
Final de novembro. O castelo já começava a estar frio e deserto dos habituais casais, correntes geladas demais não eram nada românticas. Mas isso ao apanhador da Grifinória pouco importava ou quase nada enquanto escapava debaixo da sua Capa até a Torre de Astronomia, onde, oculta para todo o colégio exceto para duas pessoas, tinha um cômodo esquentado agradavelmente por um fogo aceso algumas horas antes. Agora se alegrava de ter tomado essa precaução em base a uma sensação que dizia que o apanhador da Sonserina hoje não iria jantar, enquanto tremia debaixo de varias camadas de roupa.
Por fim chegou ao cômodo, onde se encontrou um espetáculo que já começava a ser comum: O herdeiro Malfoy sentado de uma forma esfarrapada no sofá, absorto em um livro e rodeado das tarefas dadas pelos professores.
Ultimamente lhes haviam dado de trabalho em preparação para o ano seguinte, o mais difícil de todos pelos N.I.E.M's que teriam que passar ao final, e somente graças a as ajudas combinadas (mesmo que eles não soubessem) de Draco e de Hermione, conseguia manter-se mediamente ao dia. Hoje já havia passado grande parte da tarde metido até o pescoço em um trabalho de Transfiguração e não se sentia afim de seguir com ele, por isso trouxe o baralho de Snap.
Meia hora mais tarde, seu rosto estava totalmente manchado pelas cinzas do jogo, e Draco o olhava vitorioso desde o outro lado do tabuleiro, rosto impecável e cabelo perfeitamente penteado como sempre, apesar de ter recebido também um bom bocado de explosões. Curioso (e também um pouco farto das brincadeiras do outro), decidiu pergunta por que não tinha nenhuma mancha no rosto.
- É o glamour – respondeu com certa vergonha – Realmente sim me sujei, mas me custa menos esforço manter minha aparência normal que lembrar continuamente que devo refletir as manchas – em um piscar de olhos apareceram umas manchas em sua mandíbula e bochecha esquerda – Melhor agora?
- Dá na mesma, era só curiosidade. Me desculpa se te fiz envergonhar-se, mas acho que não deveria ter tanto medo de seus poderes, Malfoy – disse com sinceridade, preparando Draco para uma pergunta que levava muito tempo querendo fazer – Draco, – fez uma pequena pausa, vacilante – sei que não gosta de lembrar o que é nestas noites, mas me perguntava se poderia me mostrar o que é capaz de fazer... se não for incomodar muito, claro. Pensa nisso como as vantagens de sua condição, de certa forma. É que desde que li na biblioteca aquele livro... fiquei com a duvida, sabe?
O outro ficou quieto, com uma expressão apagada, os olhos subitamente sérios e frios, e Harry compreendeu que estava meditando, supondo que consegui mostrar e que efeito poderia produzir. A sensação de falta de confiança o machucou como um punhal no primeiro momento, mas a desfez com rapidez. Estava dentro da atitude Sonserina, isso era tudo. Se Draco não confiasse nele, jamais teria contado coisas pessoais sobre seu pai, ou sua família... assim que isto não era por essa razão.
Outra idéia golpeou seu cérebro. Medo. Mas medo de que? De assustá-lo? Pode ser. Pelo o que ele sabia, Dumbledore e ele eram os únicos que o sabiam, e com quem Draco tinha uma relação de amizade era com ele. Vendo o temor que tinha a seus próprios poderes, não seria estranho que temesse assustá-lo e perdê-lo quando se mostrasse em toda sua magnitude. Até agora só havia visto pequenos detalhes, nada tremendamente horrível, mas aquele livro não tinha cara de estar mentindo...
-Confia em mim, Draco... sei que não me fará nada, confio em você de verdade – murmurou suavemente, tirando Malfoy de seus próprios pensamentos – Mesmo que não passa nada se não está preparado...
Ficaram calados, Draco observando-o em silêncio, absorto em seus pensamentos, e Harry desejando que aquilo não fosse um ponto de tensão em sua amizade, já levemente arrependido de ter tocado no tema.
- De acordo... – comentou o Sonserino, com voz baixa e olhando para o chão como se temesse os olhos de Harry, envergonhado e temeroso – Locuum expectarum! – a porta da sala se iluminou com uma luz laranja por um instante, e Harry sentiu eriçar os pelos da sua nuca pelo poder do feitiço de contenção – Iznaith coloir! – outro feitiço, este não reconhecido mas que lhe provocou o familiar nó no estomago que lhe ocasionava a Magia Negra – Sinto, mas tinha que assegurar-me de que não se poderia detectar nem rastrear a magia que faço, por se acaso. Ainda não tenho claro se algumas das coisas que posso fazer são detectáveis como Magia Negra...e com ele pelo Professor...
Ficou calado por um momento, observando com atenção a sala como procurando por falhas no feitiço de contenção. Finalmente, levantou os olhos com um suspiro e os cravou nos de Harry, que notou um estremecimento despertar-se na base de sua coluna quando se viu preso em uns olhos prateados, cheios de timidez e ao mesmo tempo da resolução arrogante dos Malfoy.
-Vejamos Potter... o que você leu no Bestiarium[1] da biblioteca? – ouvindo Harry emitir uma exclamação de surpresa ao dizer o título, Draco sorriu fracamente – Achava que não iria ver que livros de referencia tinha no castelo? Não que os tenha lido, já fiz essa investigação faz tempo na minha biblioteca, que, não faz diferença o que diz, é muito mais extensa a de casa... vertente de conhecimento – declarou com arrogância – E não achei que, por muito Grifinório que pudesse ser, vinhesse a enfrentar-se comigo sem una mínima idéia do que era capaz, por muito insensatos que sejam ao habitual.
- Eeerrr – articulou depois uns minutos de surpresa – Mover-se rápido, por exemplo – em um piscar de olhos, Draco estava na esquina oposta da sala, sem sequer um fio fora de lugar, em outro, atrás dele, e finalmente sentado de novo no sofá, antes de que tivesse podido articular outra palavra – Uau... nossa, é impressionante, uf. – bocejou – Nem sequer consegui ver você durante o trajeto. Poderia manter-se em movimento para ver se distingo algo?
Não podia distingui-lo no movimento propriamente dito, mas vislumbrá-lo um fragmento de movimento quando o outro se virava ou mudava de direção, um reflexo prateado momentâneo no tempo infinito que levava para realizar essa mudança. Era certamente inquietante, e um pouco enjoante porque seus olhos não deixavam de mover-se até os reflexos que se alternavam por toda a sala.
- Certo, certo, estou ficando enjoado de tentar te seguir – imediatamente o teve em frente, com um sorrisinho satisfeito mesmo que com preocupação marcada nos olhos, com o cabelo agora sim revolto pelo ar. Harry não pode evitar rir e estender a mão para alisar os fios fora de lugar, que resultaram ser tão suaves como havia imaginado a vezes, pura seda prateada. Seu estomago se encolheu com uma sensação estranha, mas agradável, e seus dedos brigaram para permanecer mais tempo em contato com aquela maravilha – Era brincadeira, não vi o suficiente para conseguir um enjôo de verdade – comentou com leveza, vendo que o outro tinha relaxado mais ao notar seu gesto de confiança – Também li o da magia sem varinha, sobre tudo a Negra, ainda que já o acabamos de ver, suponho.
- Incendio – o fogo da lareira se acendeu sem que o outro fizera sem quer um gesto de mãos – Apparate reclinum – uma cadeira apareceu atrás de Harry, quem se sentou experimentalmente nela e descobriu que era muito cômoda, mais que o sofá – Conjurate lapin – tirou, com um gesto teatral e um olhar irônico, um pequeno coelho branco de baixo de sua capa – Dissparate reclinum et lapin! – Com um audível Puf! desapareceram cadeira e coelho, deixando a um assombrado w dolorido Harry Potter no chão, enquanto o outro ria maliciosamente.
- Ah! Isso foi um golpe baixo, Malfoy! – esfregando a zona mais afetada se deu conta do que acabava de dizer, e sorriu a seu desgosto, enquanto que o loiro, que havia estado tratando de conter o riso, estalava em gargalhadas – Bom, você me entende... e além disso é sua culpa, não ria tanto! – forçou a mudança de tática, antes de que Draco acabasse o contagiando com os risos – Também mencionava algo acerca de voar, ou levitar, mas que não estava confirmado... – Ainda rindo, o outro se elevou cerca de meio metro no ar, sem demonstrar esforço algum – Uau, suponho que isto o confirma... parece maravilhoso o poder de voar por si mesmo, sem escova.
- Não ache isso, Potter, – com um gesto teatral, se inclinou e retornou ao sofá – no momento só consigo levitar a esta altura, assim que a beleza do vôo e tudo isso segue sendo um conceito um pouco afastado para mim também. E ta-dan! Isso é tudo o que posso te mostrar, se há alguma habilidade mais, não vi nos livros nem descobri ainda, mas te manterei informado... não quero que sofra um trauma da curiosidade, né?
Harry sorriu por sua vez, preferindo não responder a provocação, e outra vez caiu o silencio entre ambos, mas desta vez flutuava como um manto agradável em vez de incômodo ou tenso, enquanto olhavam a dança das chamas na lareira. Afastou seus olhos do espetáculo vermelho e olhou o perfil do outro, tão familiar agora para ele, e de novo a sensação desconhecida esquentou de novo seu peito. Era possível de verdade ele sentir-se a vontade em meio de um silêncio? Nunca havia tido uma amizade assim, onde não importava ele não estar falando ou planejando todo o tempo, mas sim simplesmente estar. Era tranqüilidade? Não sabia, mas enquanto pudesse desfrutar dela, tampouco lhe importava.
As chamas provocavam reflexos no cabelo de Draco e em seus olhos de mercúrio líquido, capazes de expressar tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Perguntou-se se algo da sensação tinha algo a ver com o magnetismo do vampiro que se ocultava sob o glamour, e se se sentiria assim também se visse realmente ao Draco mudado. Era estranho olhar a alguém e não saber em realidade a que rosto estava olhando.
- Draco... sei que isto é algo pessoal para você, mas por uma vez, por quê não me mostra o que há debaixo de todo esse glamour? – murmurou com timidez, temendo quebrar a paz da cena. O outro se virou e o olhou, com um leve alarme em seu olhar – Não é que prefira ter problemas de hipnotismo involuntário – mesmo que já o tem normalmente, continuou uma voz em sua cabeça – mas eu gostaria de saber como é agora na verdade. Por favor?
Malfoy o olhou, temor, vulnerabilidade e sarcasmo não dito mesclados em suas feições, mas se calou a negativa que visivelmente batalhava para sair de seus lábios. Depois de um momento de silêncio, deixou cair de forma súbita todo o glamour que estava usando.
O fôlego de Harry congelou-se na sua garganta. Nem na primeira noite Malfoy havia se deixado ver assim, seus primeiros instintos fazendo-o adotar uma aparência mais humana, como camuflagem. Um gemido áspero escapou de seus lábios ao mesmo tempo que os pelos de sua nuca se eriçavam dolorosamente. Isto era o que tinha entrevisto desde a torre, mas a opinião de então não se aproximava nem um pouco.
Uma cabeça, dois braços, duas pernas... mas aí acabavam as semelhanças com um ser humano. Não humano, repetia sua mente, não é humano. Ante ele tinha um deus das Trevas, um ídolo merecedor de adoração entre fascinada e temerosa, com uma aura de poder que parecia encher toda a sala com uma sensação agonizante, fazendo flutuar levemente suas roupas e cabelos.
As luzes da sala pareceram perder intensidade, e o único que destacava, criando sua própria escuridão dentro da escuridão, era Draco, com a pele iluminada por um frio fogo interior, a cabeça rodeada de uma mata de fogo prateado que fazia seu rosto mais delgado. Os lábios normalmente pálidos tinham um tom vermelho intenso, e não conseguiam ocultar a ponta dos caninos afiados como facas. Mas o que o tinha deixado cravado no lugar eram os olhos. Se é que ainda se podiam descrever como olhos. Ardiam loucamente com um fogo interno, prata líquida que via tudo e mais além de você, com uma sensação de calor e frio intenso a seu invés. Pensou que se afogava lentamente naquelas águas argentinas, e não lhe importou no mínimo.
E então algo impossível sucedeu. O lábios da criatura que tinha enfrente se curvaram, entreabrindo-se para configurar um sorriso que pouco tinha a ver com a impressão que causava seu aspecto geral, e que era de desejo? temor?; e imediatamente teve a sua frente Draco Malfoy, outra vez camuflado atrás da ilusão do glamour, observando-o atentamente com nervosismo.
- Nossa... – disse, sem querer ferir os sentimentos do outro, procurando como expressar-se sem fazer que Draco pensasse que o tinha assustado, mesmo que fosse verdade em parte – Merlin, quase prefiro que esteja com o glamour posto, Draco. Faz um minuto não podia nem articular palavra do hipnotizado que estava. Seu aspecto da vontade de sair correndo e também de ajoelhar-se e submeter um culto – Um sorriso triste apareceu nos de novo pálidos lábios – Imagina então tratar de ter uma conversa com você nesse estado: Gaguejos por minha parte e olhares inquisidores por sua, sem duvida. Mas te agradeço que fizera o esforço de mostrar-se, Draco.
- Tão horrível pareço? Tão inumano? – a compreensão atingiu a Harry. O outro não sabia o efeito que provocava, provavelmente não se via diferente demais – Parecia que te ia sair os olhos do susto... ao maldito Garoto-Que- Enfrenta-Voldemort-E-Vive! – Draco esboçou um sorriso amargo, e o Grifinório soube que não devia contar a verdade. Não se pretendia que seguissem sendo amigos e que Draco Malfoy não se afunda-se na depressão.
- Seu aspecto não é horrível... – nunca o finalizou uma voz em sua cabeça, sendo rapidamente calada pelo resto de seus pensamentos -É..., não sei como descrevê-lo. É lindo, mas ao mesmo tempo temível, com uma aura negra o rodeando dessa maneira... – uma emoção indefinível passou pelo rosto de Draco, mas desapareceu imediatamente. O que tinha dito de errado? – É intimidante e sedutor ao mesmo tempo. Tudo o que pudesse descrever oscilaria assim, entre os dois extremos, pálido e negro, horrendo mas atrativo... Suponho que está acima das descrições, como qualquer criatura mágica – gesticulou frustrado, impotente para colocar em palavras sua visão, mas se calou ao ver o rosto triste do loiro – Está tudo bem?
- E a você, o que te importa, Potter? – espetou, um resplendor da antiga fúria brilhando nos seus olhos de forma desagradável – Realmente está aqui por amizade, ou só para ter mais dados para contar a Dumbledore e a seus amiguinhos quando volta correndo a sua sala esta noite? Nem sequer eu seria tão louco para associar-me comigo, depois do que já viu. Não sou uma boa companhia, nem tenho paciência para pequenas conversas socais por compaixão. Assim que se vai ficar por pena ou por medo, se manda – virou-se até a janela, dolorido e assustado por ter mostrado tanto de si – Me ouviu?
- Sim, Draco, te ouvi – respondeu com suavidade, adivinhando o tempestuoso estado de animo de Malfoy – Mas não estou aqui por nada disso. Realmente acredito nesta amizade, e te respeito, não tenho dó e nem te temo. Da mesma maneira, você poderias sentir o mesmo por minha cicatriz, não? – a postura do outro ficou rígida por um momento, e Harry soube que o argumento havia calado fundo – Acredito que ambos sabemos o que é verdade e o que não, e escuta, Draco: Não passa nada, não penso sair correndo por ver isso, porque te estimo e valorizo sua amizade, não suas habilidades nem sua situação. Entende você a mim?
O outro se calou, seu silêncio expressando melhor que qualquer palavra a incerteza do que sentia, e sua aceitação. Fosse o que fosse que Draco temera, Harry estava certo de que não seria essa a última vez que fosse avir à tona.
Continua
[1]Eu fiquei na duvida de como colocar isso, de qq jeito deixei como está no original....
N/T: Bem, é isso aí. Eu só postei hj (08/07), pq amanhã eu vou viajar e no domingo eu vou estar na AnimeFriends, ou seja vou passar o fds fora de casa, e não teria tempo de postar até domingo.....espero q tenham gostado do cap. E só um aviso: A partir do próximo cap. começa o SLASH, por isso quem não gosta, pare de ler a partir de agora...
É só isso, bjos e obrigado pelos comentários.
