Quatro horas em ponto. Um Artemis sonolento batia os dedos nos braços
da cadeira e mordiscava uma unha, enquanto movia seus olhos de monitor em
monitor em busca de alguma coisa que não fosse tão rotineira, que não fosse
a oscilação do dólar, que não fossem as inúteis fofocas dos tablóides, o
preço do barril do petróleo ou do grama do ouro, a clonagem de células
tronco de um indivíduo daqui ou dali, ou o diabo que fosse. Estava
entediado.
De vez em quando, ousava fechar as pálpebras. Uma noite insone e um almoço desagradável e longo com seus pais lhe rendera profundas olheiras. Dormia sentado por uns poucos minutos, para depois ser acordado por algum tipo de 'bip' que alguma máquina emitisse. Queria descansar, não conseguia. Levantou-se da cadeira, deu duas voltas ao redor da enorme sala, acariciando seus móveis e aparelhos com o olhar sério. Debruçou-se à janela, a fim de ver alguma coisa do lado de fora através de uma fresta entre as cortinas. Jamais ousaria tocar naquelas cortinas. A poeira poderia tomar conta de seus pulmões como formigas num doce.
Sentou-se num sofá à frente de uma lareira acesa, cruzou as pernas, os braços, e depois olhou em volta, como se ali houvesse milhões de pessoas analisando-o, julgando-o, ou apenas falando besteiras, enfim, fazendo algo que o irritasse profundamente.
Nos seus quinze anos, a completar dezesseis no dia seguinte, via-se numa crise existencial, ou psicológica, ou apenas de enxaqueca. Sua cabeça ardia mais que o fogo que crepitava na lareira. Tirou os sapatos, afrouxou um centímetro a gravata. Deitou-se no sofá, e pôs uma almofada por cima da testa, para que a claridade não mais o incomodasse. Chamou por Juliet, que chegou numa fração de segundo.
- Sim, Mestre Artemis?
- Juliet, me traga um analgésico. Ou traga formol, acho que estou morrendo.
Juliet o olhou de maneira estranha. Se não fosse pela almofada que lhe encobria os olhos, não permitindo que ele visse o olhar da garota, ele a interrogaria até a alma. Ela o conhecia bem.
- Sim, Senhor. – ela apenas assentiu, e retirou-se. Fechou a porta cuidadosamente, para que não houvesse ruído que não fosse o do fogo da lareira ou o de sua própria respiração o incomodasse.
Em vão. No mesmo minuto que ela se retirou, Artemis suspirou, achando que finalmente teria um momento de silêncio e tranqüilidade, e que iria dormir nem que fosse por quinze míseros minutos. Foi quando uma das máquinas apitou. O apito baixinho se transformou num badalar de sinos dentro da cabeça de Artemis. Se ele se olhasse no espelho, talvez conseguisse ver até fumaça saindo por seus ouvidos.
Artemis agarrou a almofada que lhe encobria o rosto com ódio. Cogitou arremessá-la num dos computadores, mas sabia que se arrependeria depois. Limitou-se a arremessá-la no chão. Ao tirar a almofada do rosto, suas olheiras pareciam ainda maiores, e seus olhos estavam vermelhos.
- MÁQUINA CRETINA! – Artemis gritou – CALE A BOCA! – ele levou uma mão à testa que vertia gotas de suor, e deixou o corpo despencar sob o sofá novamente. Viu apenas que um vulto se aproximava dele, com os olhos arregalados. Era Juliet, com uma bandeja. – E você? O que está olhando? Nunca viu?
- Desculpe-me, Senhor. – ela respondeu calmamente. Ela sabia como lidar com ele em momentos como aquele. – Deseja mais alguma coisa?
- Um saco de gelo. – ele respondeu, engolindo um comprimido com um gole da água mineral que havia na bandeja que ela colocara sob uma cômoda. – Para que eu possa enfiar a minha cabeça dentro dele, e assim, quem sabe, ela pare de arder como se alguém tivesse me dado um tiro.
Juliet limitou-se a um risinho.
- Com licença, Senhor.
Artemis sentou-se no sofá, levou as mãos à cabeça, entre os fios de cabelo castanhos, com uma expressão de desolação. 'Mamãe, eu quero ir para um SPA no meu aniversário', Artemis pensou, fazendo uma careta. Ele precisava relaxar.
Saiu do quarto, encarando seus computadores com cara de ódio. Parecia que todas lhe haviam compreendido – se mais alguma emitisse qualquer tipo de som enquanto ele estava ali, ele era capaz de arremessá-la dentro da lareira.
Ajeitando novamente o nó da gravata, passou a mão nos cabelos e desceu as escadarias da mansão Fowl, arrogante como de usual. Butler já o estava esperando, parado à porta do carro, depois de Artemis tê-lo chamado, cinco segundos atrás. Artemis o encarou, olhando para cima, com um jeito de quem não estava suportando mais viver.
- Dia ruim, Mestre Artemis? – Butler perguntou com um sorriso, puxando a porta do carro para que ele entrasse. Artemis lhe fez uma cara de nojo, abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram. Ou talvez ele não quisesse falar muito naquele dia. Ergueu uma sobrancelha, e Butler entendeu. – Para onde quer ir?
- Leve-me para o Parque de São Estevão. – Artemis respondeu, esfregando os olhos – ou para o necrotério.
- Sim, Senhor. – Butler respondeu. Nos dias ruins de Artemis, o veneno escorria de sua boca. Se uma mosca pousasse num lugar que ele não gostasse, a língua viperina de Artemis a humilharia de tal forma que ela sairia, e sairia chorando. – Anime-se, Artemis, amanhã é o dia do seu aniversário.
- Se me lembrar desse dia novamente – ele não se moveu. – eu demito você.
Artemis sacolejou dentro do carro até o parque. Olhando pela janela, seus olhos começaram a se fechar novamente. Encostou a cabeça no vidro e adormeceu por dez minutos. Aqueles foram os melhores minutos de toda a sua vida, até ser acordado por Butler.
As raras vezes que saía de casa e se expunha ao sol eram aquelas que ele passava a tarde sentado no mesmo banco, sob um carvalho, no Parque de São Estevão, em Belfast, analisando o comportamento das pessoas que circulavam ali. Ou apenas se intrometendo na conversa alheia, dando palpites quanto às suas atitudes.
Daquela vez não fora diferente. Sentara-se no banco debaixo do carvalho, com Butler de pé ao seu lado. Artemis primeiro olhou ao redor, analisou rapidamente cada pessoa que havia ali. Não eram muitas, por sinal. O vento frio e cortante do outono irlandês costumava expulsar as pessoas do parque, o que era uma pena. Os hábitos estúpidos das pessoas divertiam Artemis.
Depois de uns minutos, Artemis entortou o pescoço para olhar os dois metros de altura de Butler, parado ao seu lado.
- Algo errado, Artemis? – Butler começou.
- Por que não se senta?
Butler entendeu a ordem do patrão. Deu a volta no banco e sentou-se ao lado de Artemis, que permanecia imóvel. As pernas cruzadas, um cotovelo apoiado no joelho e o queixo apoiado na mão.
- Sente-se melhor?
- O ser humano me intriga, Butler. – Artemis recostou-se no banco. – Veja essas pessoas. – ele apontou. No parque, havia um casal, sentado no gramado encoberto de folhas secas, brincando com uma criancinha, um senhor lendo um jornal num outro banco e uma menina andando num skate por entre as árvores. – Aquele pobre casal, criando seu filho com dedicação. Daqui a uns anos, a pobre criança mal sabe se os seus pais ainda vão estar juntos ou se vão estar sua mãe morando com ele e pregando que seu pai é um salafrário enquanto seu pai se casou de novo com uma cambojana e vive no Vietnã. O outro deve estar lendo o obituário, e esperando que o próximo nome a ser impresso ali seja o dele, porque ele já não agüenta mais a vida dura que levou. E a outra garota...
De repente, Artemis se calou. A garota que andava pelo parque de skate sumira de seu campo de visão. Ele a vira apenas de longe, sacudindo a curta saia de lã e o rabo-de-cavalo castanho.
- O que foi? – Butler falou, surpreendido pelo silêncio do garoto.
- Nada – Artemis respondeu, olhando ao redor. – Butler, por favor, poderia me deixar sozinho? E quando eu digo sozinho, quero mesmo dizer SOZINHO, não quero que fique me vigiando de dentro do carro. Vá dar uma volta, faça o que quiser, e só volte quando eu lhe chamar.
- Sim, Senhor. – Butler o olhou, admirado. Em seguida, foi até o carro, manobrou-o e saiu.
Artemis esparramou-se no banco. Fechou os olhos, suspirou e fugiu dos raios solares que ameaçavam sair de trás das nuvens. Esticou as pernas e apoiou os cotovelos no encosto do banco, olhando ao redor, procurando a menina que andava no skate. Ela havia desaparecido de uma maneira tão sutil que ele não percebera. Depois de uns quinze minutos esperando-a aparecer, deu-se por vencido e resolveu vagar pelo parque.
Era um pouco estranho para as pessoas que o observavam. Um menino, um adolescente, com um olhar sério e penetrante, passeando sozinho por um parque, enfiado num terno elegantíssimo. Além do mais, ele era um paradoxo ambulante. O que seu terno e sua postura tinham de alinhados, tinha de desalinhado o seu cabelo. Liso, caído por cima da testa, um pouco arrepiado na parte de trás por causa do vento.
Depois de quase quarenta minutos circulando lentamente pelo parque, Artemis decidiu chamar Butler. O parque estava absolutamente deserto, estava lhe dando mais dor de cabeça que os monitores de seus computadores. Precisava de outro analgésico, mais forte que o anterior, e de um comprimido para o estômago para que não ficasse com uma bruta gastrite por conta dos remédios.
Ainda caminhava lentamente pelo parque, quando parou ao lado de uma bela roseira ao redor de uma árvore, sacou o telefone celular e discou para Butler. No mesmo momento, ouviu um barulho e sentiu um forte impacto nas costas.
- CUIDADO! – alguém gritou, e depois caiu por cima dele, derrubando-o na roseira e arremessando seu telefone longe.
- Ai – Artemis gemeu, quase que irônico. – Ai, meu Deus! – exclamou, irritado, empurrando a pessoa de cima dele e saindo de cima da roseira.
- Desculpe, desculpe! – uma menina respondeu, ajudando-o a se levantar. – Me desculpe mesmo, você está bem?
Artemis lhe lançou um olhar de fúria, porém um tanto quanto irônico.
- Já estive melhor, sem esses espinhos enfiados nas minhas mãos! – ele falou, puxando um pouco as mangas do terno e desabotoando os pequeninos botões da manga da camisa.
- Deixe-me ver. – a menina pegou sua mão com delicadeza, para não machucá-lo, e olhou as pequenas feridas mais de perto. Foi quando Artemis desligou-se um pouco dos machucados e parou para observá-la. Com um dos pés ela segurava um skate, e tinha os cabelos castanhos e lisos presos num rabo- de-cavalo já um pouco caído, com uma franja cortada de lado, que lhe encobria levemente um dos olhos. Depois de analisar rapidamente a mão dele enquanto ele a olhava da cabeça aos pés, ela o olhou novamente: - não foi nada, só uns furinhos. Eu também me cortei, olhe. – ela ergueu a mão direita e mostrou-lhe o sangue que escorria levemente de um corte num dos dedos e num arranhão na palma da mão.
- Eu posso sangrar até morrer! – foi a primeira coisa que conseguiu pensar em dizer.
- Ora, o que é isso! – ela falou com um risinho. Quando levantou a cabeça, ela o olhou, sorrindo. Ela era bem bonitinha. Tinha os olhos bem azuis e arredondados, e um belo sorriso. O máximo, porém, que ele conseguiu fazer, foi uma careta de desprezo.
- Sangrando até morrer ou não, há um espinho encravado na minha pele e eu definitivamente pretendo tirá-lo. – ele respondeu, ríspido.
- Eu ajudo você – ela interrompeu – você está sozinho?
- Não, eu estava...
Naquele momento, Artemis virou-se para procurar por seu telefone e deu de cara com o que sobrara de seu telefone. Uma pilha de sucata espalhada pela avenida, sendo amassada pelas rodas dos carros que passavam por cima dele. Ao notar o olhar arregalado dele para a rua, ela, que ainda segurava sua mão, olhou para trás e viu o que o assustara.
- Meu Deus, era o seu telefone! – exclamou, virando-se para ele em seguida – Não se preocupe, eu vou lhe pagar um novo. Hoje ainda, eu lhe pago um novo.
- Sim, eu estou sozinho. – ele respondeu com um tom melancólico.
- Venha, você quer que eu te acompanhe até um hospital para tirar esse espinho? Se você quiser, eu mesma posso tirar, e...
- Só me acompanhe, então, por favor. – ele interrompeu no mesmo minuto.
Dez minutos depois, lá estava Artemis, sentado na cadeira de um hospital, com uma enfermeira debruçada sob seu braço, cutucando a palma de sua mão com alguma coisa que ele preferia não olhar para não se assustar mais. Afinal, foram raras as vezes que ele se machucara em toda a sua vida.
Sentada ao seu lado, com o skate apoiado nas pernas, estava a menina que o derrubara, olhando-o.
- Como é o seu nome mesmo? – ela perguntou com um sorriso.
- Artemis Fowl II – ele falou, rangendo os dentes. – Não sei te dizer se é um prazer.
- É um prazer pra mim derrubá-lo numa roseira, Sr. Fowl – ela respondeu, aproximando-se dele. – meu nome é Elizabeth. Elizabeth Atlee, mas pode me chamar de Liz.
- Atlee? – Artemis a olhou, impressionado. – Dos Atlee da exportadora?
- É – ela respondeu, sorrindo. – O dono é meu pai.
Artemis a olhava com um ar estranho. A enfermeira ria de Artemis, que fizera de uns meros cortes uma desgraça, enquanto fazia um curativo onde o espinho o furara.
- Quer mais alguma coisa? – a enfermeira disse, irônica. Artemis cortou toda a sua ironia com um olhar de irritação. O sorriso da mulher se encolheu dois molares.
- Não, minha senhora, nada. Vá, vá – ele expulsou – vá botar pão na sua mesa, vá.
Artemis causava esse impacto nas pessoas. Seu vocabulário, a maneira como agia, como andava, chocava qualquer um. Elizabeth Atlee, no entanto, não parecia assim tão incomodada. Ela o olhava, sorrindo, enquanto ele a encarava com um olhar sério.
- Quer o meu telefone? – ela ofereceu.
- Agradeço.
Ela lhe entregou um aparelho de telefone que tirou de dentro do bolso do casaco. Artemis olhou o aparelho, de um modelo mais novo que aquele que fora destruído pelos carros, e decorado com uma florzinha cor-de-rosa colada. Discou para Butler, que se surpreendeu quando Artemis lhe explicou onde estava e o que havia acontecido. Ainda pediu que Butler esperasse mais, pois sairia – à pé, o que surpreendeu Butler mais ainda – e compraria um novo aparelho de telefone.
Saindo do hospital, a garota o olhou, levantando uma sobrancelha.
- Para onde vamos?
- EU vou comprar um telefone. Quando à Srta., eu não sei.
- Eu vou com você, ora – ela replicou – eu vou lhe pagar um aparelho novo.
- Não é preciso.
- Sim, é. Fique com o meu enquanto isso, o seu mordomo pode ligar de volta.
Os dois rumaram para uma loja, onde Artemis avaliou, com nojo, cada aparelho de telefone, usando o telefone dela para descrever a Butler o lugar onde estava, mesmo que o aparelho estivesse apitando pela falta de bateria e transformando a ligação numa sinfonia de chiados e apitos.
- Que tal este? – Elizabeth apareceu, com um aparelho pequenino em suas mãos, e falando baixinho para não incomodar Artemis ao telefone.
- Não, Butler, não consigo te ouvir! – ele falava, segurando o aparelho com o ombro enquanto mexia em uma série de aparelhos sob uma bancada na loja. – não, Srta. Atlee, muito chamativo, não acha? Olhe para mim e conclua! Eu jamais usaria isto. Não, Butler, não foi com você. Escute, eu estou comprando um telefone! Sim, sim, um telefone! É, é essa a loja a que me referia! Certo, então. Sim. Tá. – ele concluiu, desligando o telefone. – Eu vou querer este aqui – Artemis apontou, depois de praticamente abrir cada telefone para enxergar como foram confeccionados.
- Mas este? – Elizabeth falou.
- Sim, Srta. Atlee, este, sim.
- É uma boa escolha – a vendedora concordou com um sorriso brilhante, que Artemis retribuiu com uma cara de nojo. – Vocês vão aproveitar.
- Vocês, não – Artemis corrigiu – nós não somos nada um do outro.
- Oh, desculpe. – ela falou, acomodando o aparelho dentro da caixa. – Vocês fazem um casal muito bonitinho.
Quando ela disse aquilo, a reação imediata de Artemis foi olhar a menina da cabeça aos pés. De longe e de costas, ela não ouvira o que a vendedora dissera. Estava entretida admirando os aparelhos numa vitrine. Naquele minuto, parecia que o mundo dele havia parado por um momento. Ele a olhou soltar e sacudir os cabelos, de uma maneira que o encheu os olhos. Ela era bem bonita, ele concluiu finalmente. Ela era linda. Mas o que tinha de beleza, não devia ter de cérebro.
- Obrigado – ele respondeu – mas eu não posso fazer nada quanto a isso.
- Sim, Senhor... – a vendedora continuou, fazendo um olhar de interrogação.
- Fowl – ele completou.
- Sr. Fowl, eu preciso que preencha estes formulários.
A mulher arremessou sob a bancada duas páginas de termo de aceitação da política da companhia telefônica, e mais duas páginas praticamente em branco para que preenchesse com seus dados pessoais. Artemis olhou para as folhas em branco, olhou para suas mãos enfaixadas e ardendo, e depois olhou de novo para os papéis.
- Maldita burocracia – ele gemeu.
Naquele instante, Elizabeth se aproximou dele.
- Quer que eu faça isso pra você?
- Não – ele cortou. – não é preciso.
Artemis contorcia seus dedos para que a caneta não se apoiasse em alguma das feridas, em vão. Fresco do jeito que era, a caneta acabaria encostando em um dos curativos, e ele gemeria de dor. Foi quando resolveu ceder. Jogou a caneta sob a bancada e suspirou, irritado.
- Não se preocupe, eu não vou fazer nada com você. – ela falou com um sorriso. – Nome... Como é mesmo?
- Artemis Fowl II – ele cuspiu. – Data de nascimento... Vinte e um de novembro de...
- Você faz aniversário amanhã? – ela interrompeu subitamente.
- Não me lembre desse dia, por favor.
- Que gracinha! – ela respondeu, com um sorriso ofuscante. – Dezesseis anos? Você parece ter muito mais do que isso.
- Uns quarenta e oito, no mínimo? – ele replicou, irônico – É o que todos dizem.
Depois de meia hora preenchendo formulários, a cabeça de Artemis explodia de dor de cabeça. Elizabeth fora excepcionalmente gentil com ele ao preencher tudo o que era preciso, e de acompanhá-lo ao hospital e tudo mais. Ela não era nada de mais, era uma garota comum. Estupidamente rica, isso era verdade. Talvez tão rica quanto ele. Seu pai era o dono da Atlee & Bros., uma das maiores – senão a maior exportadora de manufaturas da Irlanda. E ele se surpreendera de ela ser tão... Normal.
Um pouco depois de terminados os formulários, Butler apareceu para resgatar Artemis daquele inferno psicológico. Ele estava parado à porta da loja, esperando-o, falando alguma coisa com Elizabeth. Butler assustou-se ao vê-lo acompanhado de uma garota, principalmente uma que ele não conhecia. Quando Artemis o viu aproximar-se, fez uma discreta mesura e despediu-se dela.
Assim que entrou no carro, antes que fechasse a porta, ele virou-se para falar alguma coisa. Ela, que subira no skate e ia-se embora, virou-se para ouvi-lo.
- Ei – ele a chamou, corando um pouco. – Eu poderia... Te oferecer uma carona?
- Não precisa, eu...
- Eu insisto – ele interrompeu. Butler estava arregalado e boquiaberto.
- Então... Tá bem, eu aceito! – Ela respondeu, sorrindo. Artemis arrastou-se para o outro lado do banco do enorme carro, dando-lhe espaço. Sentado, as pernas cruzadas e as mãos sobre as mesmas, ele a observava. Com um sorriso discreto no rosto, ela admirava a cidade através da janela, com o skate sob as pernas, batendo levemente com os dedos no mesmo.
Minha nossa, como ela é bonita, Artemis pensava. Estranha, mas bonita. Queria falar alguma coisa com ela, mas não havia nem assunto e nem coragem. Ele nunca estivera assim tão perto de uma garota. Butler os observava, rindo, através do espelho retrovisor. Artemis estava sentado, olhando-a discretamente, mordiscando uma unha.
Depois de ela ditar o seu endereço para que Butler a deixasse em casa, ninguém falou mais nada dentro do carro. Artemis permanecia sentado em seu canto, com um olhar amargurado e pedante.
A mansão dos Atlee surpreendeu Artemis. Inexpressivo, o máximo que conseguiu fazer para demonstrar sua surpresa foi erguer uma sobrancelha e fazer-lhe um olhar irônico. A garota Atlee agradeceu a Butler com um sorriso sincero, e depois virou-se para Artemis, que a olhava com um jeito cheio de nojo, porém cheio de curiosidade, e ainda mordiscando a unha.
- Então – Artemis começou, com um meio sorriso no rosto. – Obrigado por me derrubar na roseira, Srta. Atlee. Adeus. – ele falou, enfatizando sua ironia.
- Tchau – ela respondeu, com outro sorriso, depois inclinando-se rapidamente e beijando-lhe a face. Artemis arregalou os olhos e corou levemente, enquanto Butler ria discretamente. – Foi um prazer conhecer você. E obrigada pela carona.
Elizabeth saiu do carro e foi saltitando pelas escadarias de entrada da mansão Atlee, enquanto Butler manobrava o carro para sair e Artemis virava o pescoço para vê-la.
- Como se sente, Mestre Artemis? – Butler começou.
- Bem, Butler. Bem. Um pouco melhor. – ele respondeu, aconchegando-se no carro depois que ela saiu.
- Se me permite, Artemis – Butler continuou – mas eu vi como o Senhor olhou para ela.
Artemis corou rapidamente e lançou-lhe um olhar de desprezo.
- Eu sei o que quer dizer, Butler. Mas devo dizer que está totalmente enganado.
- Não, não estou. Ela é bonita, Artemis. Se eu tivesse a sua idade eu também olharia. E veja só – Butler discretamente virou a cabeça para olhar Artemis, que discretamente escondia o rosto. – está ruborizado. Vermelhinho como um tomate.
De vez em quando, ousava fechar as pálpebras. Uma noite insone e um almoço desagradável e longo com seus pais lhe rendera profundas olheiras. Dormia sentado por uns poucos minutos, para depois ser acordado por algum tipo de 'bip' que alguma máquina emitisse. Queria descansar, não conseguia. Levantou-se da cadeira, deu duas voltas ao redor da enorme sala, acariciando seus móveis e aparelhos com o olhar sério. Debruçou-se à janela, a fim de ver alguma coisa do lado de fora através de uma fresta entre as cortinas. Jamais ousaria tocar naquelas cortinas. A poeira poderia tomar conta de seus pulmões como formigas num doce.
Sentou-se num sofá à frente de uma lareira acesa, cruzou as pernas, os braços, e depois olhou em volta, como se ali houvesse milhões de pessoas analisando-o, julgando-o, ou apenas falando besteiras, enfim, fazendo algo que o irritasse profundamente.
Nos seus quinze anos, a completar dezesseis no dia seguinte, via-se numa crise existencial, ou psicológica, ou apenas de enxaqueca. Sua cabeça ardia mais que o fogo que crepitava na lareira. Tirou os sapatos, afrouxou um centímetro a gravata. Deitou-se no sofá, e pôs uma almofada por cima da testa, para que a claridade não mais o incomodasse. Chamou por Juliet, que chegou numa fração de segundo.
- Sim, Mestre Artemis?
- Juliet, me traga um analgésico. Ou traga formol, acho que estou morrendo.
Juliet o olhou de maneira estranha. Se não fosse pela almofada que lhe encobria os olhos, não permitindo que ele visse o olhar da garota, ele a interrogaria até a alma. Ela o conhecia bem.
- Sim, Senhor. – ela apenas assentiu, e retirou-se. Fechou a porta cuidadosamente, para que não houvesse ruído que não fosse o do fogo da lareira ou o de sua própria respiração o incomodasse.
Em vão. No mesmo minuto que ela se retirou, Artemis suspirou, achando que finalmente teria um momento de silêncio e tranqüilidade, e que iria dormir nem que fosse por quinze míseros minutos. Foi quando uma das máquinas apitou. O apito baixinho se transformou num badalar de sinos dentro da cabeça de Artemis. Se ele se olhasse no espelho, talvez conseguisse ver até fumaça saindo por seus ouvidos.
Artemis agarrou a almofada que lhe encobria o rosto com ódio. Cogitou arremessá-la num dos computadores, mas sabia que se arrependeria depois. Limitou-se a arremessá-la no chão. Ao tirar a almofada do rosto, suas olheiras pareciam ainda maiores, e seus olhos estavam vermelhos.
- MÁQUINA CRETINA! – Artemis gritou – CALE A BOCA! – ele levou uma mão à testa que vertia gotas de suor, e deixou o corpo despencar sob o sofá novamente. Viu apenas que um vulto se aproximava dele, com os olhos arregalados. Era Juliet, com uma bandeja. – E você? O que está olhando? Nunca viu?
- Desculpe-me, Senhor. – ela respondeu calmamente. Ela sabia como lidar com ele em momentos como aquele. – Deseja mais alguma coisa?
- Um saco de gelo. – ele respondeu, engolindo um comprimido com um gole da água mineral que havia na bandeja que ela colocara sob uma cômoda. – Para que eu possa enfiar a minha cabeça dentro dele, e assim, quem sabe, ela pare de arder como se alguém tivesse me dado um tiro.
Juliet limitou-se a um risinho.
- Com licença, Senhor.
Artemis sentou-se no sofá, levou as mãos à cabeça, entre os fios de cabelo castanhos, com uma expressão de desolação. 'Mamãe, eu quero ir para um SPA no meu aniversário', Artemis pensou, fazendo uma careta. Ele precisava relaxar.
Saiu do quarto, encarando seus computadores com cara de ódio. Parecia que todas lhe haviam compreendido – se mais alguma emitisse qualquer tipo de som enquanto ele estava ali, ele era capaz de arremessá-la dentro da lareira.
Ajeitando novamente o nó da gravata, passou a mão nos cabelos e desceu as escadarias da mansão Fowl, arrogante como de usual. Butler já o estava esperando, parado à porta do carro, depois de Artemis tê-lo chamado, cinco segundos atrás. Artemis o encarou, olhando para cima, com um jeito de quem não estava suportando mais viver.
- Dia ruim, Mestre Artemis? – Butler perguntou com um sorriso, puxando a porta do carro para que ele entrasse. Artemis lhe fez uma cara de nojo, abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram. Ou talvez ele não quisesse falar muito naquele dia. Ergueu uma sobrancelha, e Butler entendeu. – Para onde quer ir?
- Leve-me para o Parque de São Estevão. – Artemis respondeu, esfregando os olhos – ou para o necrotério.
- Sim, Senhor. – Butler respondeu. Nos dias ruins de Artemis, o veneno escorria de sua boca. Se uma mosca pousasse num lugar que ele não gostasse, a língua viperina de Artemis a humilharia de tal forma que ela sairia, e sairia chorando. – Anime-se, Artemis, amanhã é o dia do seu aniversário.
- Se me lembrar desse dia novamente – ele não se moveu. – eu demito você.
Artemis sacolejou dentro do carro até o parque. Olhando pela janela, seus olhos começaram a se fechar novamente. Encostou a cabeça no vidro e adormeceu por dez minutos. Aqueles foram os melhores minutos de toda a sua vida, até ser acordado por Butler.
As raras vezes que saía de casa e se expunha ao sol eram aquelas que ele passava a tarde sentado no mesmo banco, sob um carvalho, no Parque de São Estevão, em Belfast, analisando o comportamento das pessoas que circulavam ali. Ou apenas se intrometendo na conversa alheia, dando palpites quanto às suas atitudes.
Daquela vez não fora diferente. Sentara-se no banco debaixo do carvalho, com Butler de pé ao seu lado. Artemis primeiro olhou ao redor, analisou rapidamente cada pessoa que havia ali. Não eram muitas, por sinal. O vento frio e cortante do outono irlandês costumava expulsar as pessoas do parque, o que era uma pena. Os hábitos estúpidos das pessoas divertiam Artemis.
Depois de uns minutos, Artemis entortou o pescoço para olhar os dois metros de altura de Butler, parado ao seu lado.
- Algo errado, Artemis? – Butler começou.
- Por que não se senta?
Butler entendeu a ordem do patrão. Deu a volta no banco e sentou-se ao lado de Artemis, que permanecia imóvel. As pernas cruzadas, um cotovelo apoiado no joelho e o queixo apoiado na mão.
- Sente-se melhor?
- O ser humano me intriga, Butler. – Artemis recostou-se no banco. – Veja essas pessoas. – ele apontou. No parque, havia um casal, sentado no gramado encoberto de folhas secas, brincando com uma criancinha, um senhor lendo um jornal num outro banco e uma menina andando num skate por entre as árvores. – Aquele pobre casal, criando seu filho com dedicação. Daqui a uns anos, a pobre criança mal sabe se os seus pais ainda vão estar juntos ou se vão estar sua mãe morando com ele e pregando que seu pai é um salafrário enquanto seu pai se casou de novo com uma cambojana e vive no Vietnã. O outro deve estar lendo o obituário, e esperando que o próximo nome a ser impresso ali seja o dele, porque ele já não agüenta mais a vida dura que levou. E a outra garota...
De repente, Artemis se calou. A garota que andava pelo parque de skate sumira de seu campo de visão. Ele a vira apenas de longe, sacudindo a curta saia de lã e o rabo-de-cavalo castanho.
- O que foi? – Butler falou, surpreendido pelo silêncio do garoto.
- Nada – Artemis respondeu, olhando ao redor. – Butler, por favor, poderia me deixar sozinho? E quando eu digo sozinho, quero mesmo dizer SOZINHO, não quero que fique me vigiando de dentro do carro. Vá dar uma volta, faça o que quiser, e só volte quando eu lhe chamar.
- Sim, Senhor. – Butler o olhou, admirado. Em seguida, foi até o carro, manobrou-o e saiu.
Artemis esparramou-se no banco. Fechou os olhos, suspirou e fugiu dos raios solares que ameaçavam sair de trás das nuvens. Esticou as pernas e apoiou os cotovelos no encosto do banco, olhando ao redor, procurando a menina que andava no skate. Ela havia desaparecido de uma maneira tão sutil que ele não percebera. Depois de uns quinze minutos esperando-a aparecer, deu-se por vencido e resolveu vagar pelo parque.
Era um pouco estranho para as pessoas que o observavam. Um menino, um adolescente, com um olhar sério e penetrante, passeando sozinho por um parque, enfiado num terno elegantíssimo. Além do mais, ele era um paradoxo ambulante. O que seu terno e sua postura tinham de alinhados, tinha de desalinhado o seu cabelo. Liso, caído por cima da testa, um pouco arrepiado na parte de trás por causa do vento.
Depois de quase quarenta minutos circulando lentamente pelo parque, Artemis decidiu chamar Butler. O parque estava absolutamente deserto, estava lhe dando mais dor de cabeça que os monitores de seus computadores. Precisava de outro analgésico, mais forte que o anterior, e de um comprimido para o estômago para que não ficasse com uma bruta gastrite por conta dos remédios.
Ainda caminhava lentamente pelo parque, quando parou ao lado de uma bela roseira ao redor de uma árvore, sacou o telefone celular e discou para Butler. No mesmo momento, ouviu um barulho e sentiu um forte impacto nas costas.
- CUIDADO! – alguém gritou, e depois caiu por cima dele, derrubando-o na roseira e arremessando seu telefone longe.
- Ai – Artemis gemeu, quase que irônico. – Ai, meu Deus! – exclamou, irritado, empurrando a pessoa de cima dele e saindo de cima da roseira.
- Desculpe, desculpe! – uma menina respondeu, ajudando-o a se levantar. – Me desculpe mesmo, você está bem?
Artemis lhe lançou um olhar de fúria, porém um tanto quanto irônico.
- Já estive melhor, sem esses espinhos enfiados nas minhas mãos! – ele falou, puxando um pouco as mangas do terno e desabotoando os pequeninos botões da manga da camisa.
- Deixe-me ver. – a menina pegou sua mão com delicadeza, para não machucá-lo, e olhou as pequenas feridas mais de perto. Foi quando Artemis desligou-se um pouco dos machucados e parou para observá-la. Com um dos pés ela segurava um skate, e tinha os cabelos castanhos e lisos presos num rabo- de-cavalo já um pouco caído, com uma franja cortada de lado, que lhe encobria levemente um dos olhos. Depois de analisar rapidamente a mão dele enquanto ele a olhava da cabeça aos pés, ela o olhou novamente: - não foi nada, só uns furinhos. Eu também me cortei, olhe. – ela ergueu a mão direita e mostrou-lhe o sangue que escorria levemente de um corte num dos dedos e num arranhão na palma da mão.
- Eu posso sangrar até morrer! – foi a primeira coisa que conseguiu pensar em dizer.
- Ora, o que é isso! – ela falou com um risinho. Quando levantou a cabeça, ela o olhou, sorrindo. Ela era bem bonitinha. Tinha os olhos bem azuis e arredondados, e um belo sorriso. O máximo, porém, que ele conseguiu fazer, foi uma careta de desprezo.
- Sangrando até morrer ou não, há um espinho encravado na minha pele e eu definitivamente pretendo tirá-lo. – ele respondeu, ríspido.
- Eu ajudo você – ela interrompeu – você está sozinho?
- Não, eu estava...
Naquele momento, Artemis virou-se para procurar por seu telefone e deu de cara com o que sobrara de seu telefone. Uma pilha de sucata espalhada pela avenida, sendo amassada pelas rodas dos carros que passavam por cima dele. Ao notar o olhar arregalado dele para a rua, ela, que ainda segurava sua mão, olhou para trás e viu o que o assustara.
- Meu Deus, era o seu telefone! – exclamou, virando-se para ele em seguida – Não se preocupe, eu vou lhe pagar um novo. Hoje ainda, eu lhe pago um novo.
- Sim, eu estou sozinho. – ele respondeu com um tom melancólico.
- Venha, você quer que eu te acompanhe até um hospital para tirar esse espinho? Se você quiser, eu mesma posso tirar, e...
- Só me acompanhe, então, por favor. – ele interrompeu no mesmo minuto.
Dez minutos depois, lá estava Artemis, sentado na cadeira de um hospital, com uma enfermeira debruçada sob seu braço, cutucando a palma de sua mão com alguma coisa que ele preferia não olhar para não se assustar mais. Afinal, foram raras as vezes que ele se machucara em toda a sua vida.
Sentada ao seu lado, com o skate apoiado nas pernas, estava a menina que o derrubara, olhando-o.
- Como é o seu nome mesmo? – ela perguntou com um sorriso.
- Artemis Fowl II – ele falou, rangendo os dentes. – Não sei te dizer se é um prazer.
- É um prazer pra mim derrubá-lo numa roseira, Sr. Fowl – ela respondeu, aproximando-se dele. – meu nome é Elizabeth. Elizabeth Atlee, mas pode me chamar de Liz.
- Atlee? – Artemis a olhou, impressionado. – Dos Atlee da exportadora?
- É – ela respondeu, sorrindo. – O dono é meu pai.
Artemis a olhava com um ar estranho. A enfermeira ria de Artemis, que fizera de uns meros cortes uma desgraça, enquanto fazia um curativo onde o espinho o furara.
- Quer mais alguma coisa? – a enfermeira disse, irônica. Artemis cortou toda a sua ironia com um olhar de irritação. O sorriso da mulher se encolheu dois molares.
- Não, minha senhora, nada. Vá, vá – ele expulsou – vá botar pão na sua mesa, vá.
Artemis causava esse impacto nas pessoas. Seu vocabulário, a maneira como agia, como andava, chocava qualquer um. Elizabeth Atlee, no entanto, não parecia assim tão incomodada. Ela o olhava, sorrindo, enquanto ele a encarava com um olhar sério.
- Quer o meu telefone? – ela ofereceu.
- Agradeço.
Ela lhe entregou um aparelho de telefone que tirou de dentro do bolso do casaco. Artemis olhou o aparelho, de um modelo mais novo que aquele que fora destruído pelos carros, e decorado com uma florzinha cor-de-rosa colada. Discou para Butler, que se surpreendeu quando Artemis lhe explicou onde estava e o que havia acontecido. Ainda pediu que Butler esperasse mais, pois sairia – à pé, o que surpreendeu Butler mais ainda – e compraria um novo aparelho de telefone.
Saindo do hospital, a garota o olhou, levantando uma sobrancelha.
- Para onde vamos?
- EU vou comprar um telefone. Quando à Srta., eu não sei.
- Eu vou com você, ora – ela replicou – eu vou lhe pagar um aparelho novo.
- Não é preciso.
- Sim, é. Fique com o meu enquanto isso, o seu mordomo pode ligar de volta.
Os dois rumaram para uma loja, onde Artemis avaliou, com nojo, cada aparelho de telefone, usando o telefone dela para descrever a Butler o lugar onde estava, mesmo que o aparelho estivesse apitando pela falta de bateria e transformando a ligação numa sinfonia de chiados e apitos.
- Que tal este? – Elizabeth apareceu, com um aparelho pequenino em suas mãos, e falando baixinho para não incomodar Artemis ao telefone.
- Não, Butler, não consigo te ouvir! – ele falava, segurando o aparelho com o ombro enquanto mexia em uma série de aparelhos sob uma bancada na loja. – não, Srta. Atlee, muito chamativo, não acha? Olhe para mim e conclua! Eu jamais usaria isto. Não, Butler, não foi com você. Escute, eu estou comprando um telefone! Sim, sim, um telefone! É, é essa a loja a que me referia! Certo, então. Sim. Tá. – ele concluiu, desligando o telefone. – Eu vou querer este aqui – Artemis apontou, depois de praticamente abrir cada telefone para enxergar como foram confeccionados.
- Mas este? – Elizabeth falou.
- Sim, Srta. Atlee, este, sim.
- É uma boa escolha – a vendedora concordou com um sorriso brilhante, que Artemis retribuiu com uma cara de nojo. – Vocês vão aproveitar.
- Vocês, não – Artemis corrigiu – nós não somos nada um do outro.
- Oh, desculpe. – ela falou, acomodando o aparelho dentro da caixa. – Vocês fazem um casal muito bonitinho.
Quando ela disse aquilo, a reação imediata de Artemis foi olhar a menina da cabeça aos pés. De longe e de costas, ela não ouvira o que a vendedora dissera. Estava entretida admirando os aparelhos numa vitrine. Naquele minuto, parecia que o mundo dele havia parado por um momento. Ele a olhou soltar e sacudir os cabelos, de uma maneira que o encheu os olhos. Ela era bem bonita, ele concluiu finalmente. Ela era linda. Mas o que tinha de beleza, não devia ter de cérebro.
- Obrigado – ele respondeu – mas eu não posso fazer nada quanto a isso.
- Sim, Senhor... – a vendedora continuou, fazendo um olhar de interrogação.
- Fowl – ele completou.
- Sr. Fowl, eu preciso que preencha estes formulários.
A mulher arremessou sob a bancada duas páginas de termo de aceitação da política da companhia telefônica, e mais duas páginas praticamente em branco para que preenchesse com seus dados pessoais. Artemis olhou para as folhas em branco, olhou para suas mãos enfaixadas e ardendo, e depois olhou de novo para os papéis.
- Maldita burocracia – ele gemeu.
Naquele instante, Elizabeth se aproximou dele.
- Quer que eu faça isso pra você?
- Não – ele cortou. – não é preciso.
Artemis contorcia seus dedos para que a caneta não se apoiasse em alguma das feridas, em vão. Fresco do jeito que era, a caneta acabaria encostando em um dos curativos, e ele gemeria de dor. Foi quando resolveu ceder. Jogou a caneta sob a bancada e suspirou, irritado.
- Não se preocupe, eu não vou fazer nada com você. – ela falou com um sorriso. – Nome... Como é mesmo?
- Artemis Fowl II – ele cuspiu. – Data de nascimento... Vinte e um de novembro de...
- Você faz aniversário amanhã? – ela interrompeu subitamente.
- Não me lembre desse dia, por favor.
- Que gracinha! – ela respondeu, com um sorriso ofuscante. – Dezesseis anos? Você parece ter muito mais do que isso.
- Uns quarenta e oito, no mínimo? – ele replicou, irônico – É o que todos dizem.
Depois de meia hora preenchendo formulários, a cabeça de Artemis explodia de dor de cabeça. Elizabeth fora excepcionalmente gentil com ele ao preencher tudo o que era preciso, e de acompanhá-lo ao hospital e tudo mais. Ela não era nada de mais, era uma garota comum. Estupidamente rica, isso era verdade. Talvez tão rica quanto ele. Seu pai era o dono da Atlee & Bros., uma das maiores – senão a maior exportadora de manufaturas da Irlanda. E ele se surpreendera de ela ser tão... Normal.
Um pouco depois de terminados os formulários, Butler apareceu para resgatar Artemis daquele inferno psicológico. Ele estava parado à porta da loja, esperando-o, falando alguma coisa com Elizabeth. Butler assustou-se ao vê-lo acompanhado de uma garota, principalmente uma que ele não conhecia. Quando Artemis o viu aproximar-se, fez uma discreta mesura e despediu-se dela.
Assim que entrou no carro, antes que fechasse a porta, ele virou-se para falar alguma coisa. Ela, que subira no skate e ia-se embora, virou-se para ouvi-lo.
- Ei – ele a chamou, corando um pouco. – Eu poderia... Te oferecer uma carona?
- Não precisa, eu...
- Eu insisto – ele interrompeu. Butler estava arregalado e boquiaberto.
- Então... Tá bem, eu aceito! – Ela respondeu, sorrindo. Artemis arrastou-se para o outro lado do banco do enorme carro, dando-lhe espaço. Sentado, as pernas cruzadas e as mãos sobre as mesmas, ele a observava. Com um sorriso discreto no rosto, ela admirava a cidade através da janela, com o skate sob as pernas, batendo levemente com os dedos no mesmo.
Minha nossa, como ela é bonita, Artemis pensava. Estranha, mas bonita. Queria falar alguma coisa com ela, mas não havia nem assunto e nem coragem. Ele nunca estivera assim tão perto de uma garota. Butler os observava, rindo, através do espelho retrovisor. Artemis estava sentado, olhando-a discretamente, mordiscando uma unha.
Depois de ela ditar o seu endereço para que Butler a deixasse em casa, ninguém falou mais nada dentro do carro. Artemis permanecia sentado em seu canto, com um olhar amargurado e pedante.
A mansão dos Atlee surpreendeu Artemis. Inexpressivo, o máximo que conseguiu fazer para demonstrar sua surpresa foi erguer uma sobrancelha e fazer-lhe um olhar irônico. A garota Atlee agradeceu a Butler com um sorriso sincero, e depois virou-se para Artemis, que a olhava com um jeito cheio de nojo, porém cheio de curiosidade, e ainda mordiscando a unha.
- Então – Artemis começou, com um meio sorriso no rosto. – Obrigado por me derrubar na roseira, Srta. Atlee. Adeus. – ele falou, enfatizando sua ironia.
- Tchau – ela respondeu, com outro sorriso, depois inclinando-se rapidamente e beijando-lhe a face. Artemis arregalou os olhos e corou levemente, enquanto Butler ria discretamente. – Foi um prazer conhecer você. E obrigada pela carona.
Elizabeth saiu do carro e foi saltitando pelas escadarias de entrada da mansão Atlee, enquanto Butler manobrava o carro para sair e Artemis virava o pescoço para vê-la.
- Como se sente, Mestre Artemis? – Butler começou.
- Bem, Butler. Bem. Um pouco melhor. – ele respondeu, aconchegando-se no carro depois que ela saiu.
- Se me permite, Artemis – Butler continuou – mas eu vi como o Senhor olhou para ela.
Artemis corou rapidamente e lançou-lhe um olhar de desprezo.
- Eu sei o que quer dizer, Butler. Mas devo dizer que está totalmente enganado.
- Não, não estou. Ela é bonita, Artemis. Se eu tivesse a sua idade eu também olharia. E veja só – Butler discretamente virou a cabeça para olhar Artemis, que discretamente escondia o rosto. – está ruborizado. Vermelhinho como um tomate.
