Artemis permaneceu em silêncio até chegarem à casa. Evitou ainda
demorar-se para entrar e ser forçado a olhar para Butler e ter mais motivos
para ruborizar-se de novo. Afinal de contas, Butler podia contar nos dedos
as vezes que viu Artemis Fowl II vermelho de vergonha.
Arrastando-se para o seu templo, a sala que abrigava os seus computadores, Artemis fechou a porta, encostou-se nela, suspirando ao ver suas queridas máquinas. Já não estava suportando o olhar indiscreto de Butler, o sorriso ofuscante da Srta. Atlee, aquele ar cheio de monóxido de carbono do parque e das ruas de Belfast; estava precisando voltar ao seu canto.
Admirando as suas máquinas com um sorriso e um olhar quase saudoso, Artemis arrastou-se, soltando o nó da gravata, até o sofá em frente à lareira, que ainda crepitava. Uma de suas ordens a Juliet era que ele queria a lareira daquele quarto sempre acesa enquanto estivesse acordado.
Sentou-se no sofá, suspirou, fechou os olhos por um segundo. No mesmo segundo, algo tocou e estremeceu de dentro do terno de Artemis, fazendo-o pular de susto. Enfiou as mãos nos bolsos do paletó, e tirou, de dentro de um deles, um aparelho de telefone celular, decorado com uma florzinha cor- de-rosa, tocando sem parar uma música que ele não conseguiu identificar.
Artemis pegou o aparelho com nojo. O abriu e leu, Susie, enfeitado com asteriscos e desenhos.
- Que patético – ele comentou consigo ao ler. – Que mentalidade deve ter aquela garota?!
Resolveu não atender. O que diria? Que Artemis Fowl II havia trombado com a dona daquele telefone, caído numa roseira e então roubado o aparelho? Mas que raio de situação, só o que lhe faltava era ela esquecer o telefone celular com ele.
Decidiu, então, que não atenderia nenhuma chamada que não parecesse ser dela – correndo atrás do telefone, claro. Não que ele quisesse falar com ela, mas ela ligaria para saber onde estava o seu telefone. Mas saber que tipos de segredos o aparelho guardava não faria mal nenhum.
Artemis, depois que o telefone parou de tocar, o abriu e começou a mexer em todas as suas funções. Viu todos os nomes da agenda telefônica, a maioria deles com vários números de telefone distintos, fuçou recordes em joguinhos, ouviu cada toque e analisou cada imagem de fundo de tela, além de ler todas as mensagens. A maioria, por sinal, eram de um tal de Victor. As outras e, para Artemis, menos importantes, eram de supostas amigas.
Já eram onze e quarenta da noite quando o telefone voltou a tocar. Artemis estava aninhado em sua cadeira, bastante sonolento e desalinhado, sem o terno e a gravata, e com os primeiros botões da camisa abertos. Seus dedos batiam, vagarosos por causa do sono, nas teclas de um dos computadores, quando se assustou com o toque do telefone ao seu lado. Ao abri-lo, leu Casa. Talvez devesse atender.
Ao invés de falar alguma coisa, apenas abriu o aparelho.
- Alô? – uma voz falou.
- Sim?
- Eu... Esqueci...
- Artemis Fowl II.
- Sim, sim, Artemis! Claro – Elizabeth falou com uma risada – Você... Ficou com o meu telefone, não é? Graças a Deus, eu achava que o tinha perdido.
- Sim, fiquei com o seu telefone, Srta. Atlee. Eu...
- Liz – ela interrompeu – Me chame de Liz.
- Elizabeth, eu...
- LIZ – ela interrompeu de novo. – Por favor, Elizabeth se parece com o meu pai me dando bronca e Srta. Atlee parece o meu mordomo.
- Liz – ele falou, enfatizando todo o seu sarcasmo, catando o terno do sofá e indo para o quarto. – devolverei o seu telefone o mais breve possível, não se preocupe. Mas eu não imaginei que fosse ouvir a sua voz tão cedo. É um prazer – ele terminou, falando mais baixo.
Do outro lado da linha, Elizabeth corou levemente.
- Quando pode me devolver o telefone?
- Quando quiser – ele respondeu, segurando o aparelho com o ombro e tirando a camisa e o relógio de pulso. – Se quiser que eu o devolva amanhã mesmo, eu devolvo. Apenas não me peça para que eu o devolva agora.
- Não, claro que não. Pela sua voz, você me parece bem sonolento.
- Não durmo há – ele olhou no relógio enquanto tirava os sapatos. – trinta horas e quarenta e sete minutos. Eu realmente preciso dormir.
- Acho que é melhor desligar, então.
- Espere – ele falou, arregalando os olhos. – Como eu vou devolver o telefone?
- Você pode me encontrar amanhã... Às cinco, no parque, em frente àquela roseira. Todos os dias eu vou lá, de qualquer maneira.
- Ótimo – ele concordou, jogando as meias dentro dos sapatos que ele largou num canto ao lado da cama. – Estarei lá, então, Srta. Atlee. Liz.
- Obrigada, Artemis. É melhor eu desligar antes que eu lhe cause mais uma noite insone.
- Mas é claro que não – ele respondeu, enquanto jogava o cinto sob uma poltrona e terminava de puxar as calças pelos pés. – Boa noite, Srta. Atlee.
- Liz. – ela respondeu.
- Boa noite, Liz.
- Boa noite. Tchau.
Artemis fechou o aparelho e colocou-o numa das mesas na cabeceira da cama. Passando a mão nos cabelos, arrastou-se até o banheiro, onde terminou de despir tudo o que tinha sob o corpo e acomodou-se dentro de uma enorme banheira, que transbordou quando ele entrou. A melhor companhia que havia, depois de Butler e seus computadores, era a sua banheira.
Os vidros dos espelhos embaçavam quando ele se levantou de dentro da banheira, enrolando uma toalha, tão branca quanto a sua pele, na cintura. Sacudiu os cabelos molhados para trás, escovou os dentes e vestiu o pijama, recém passado, colocado impecavelmente dobrado numa prateleira do closet.
Ao sair de dentro do closet, viu que alguém batia à porta, chamando seu nome. Já estava tarde, aquilo era estranho. Artemis vestiu um roupão, calçou chinelos e arrastou-os até a porta, parecendo um idoso, morrendo de sono. Abriu uma fresta de uma das portas, e olhou para fora, desconfiado.
- Artemis! – sua mãe exclamou ao vê-lo.
- O que quer, mamãe? – ele resmungou, bocejando. – eu preciso dormir.
- Arty, meu filho, eu já disse para não dormir com os cabelos molhados – ela respondeu, afastando a porta, que ele imediatamente prendeu com o pé.
- Eu estou de pijamas, mamãe.
- Ora, Artemis – a mãe abriu a outra porta – eu sou sua mãe, mocinho. Não tenha vergonha de aparecer de pijamas na minha frente – ela entrou, contra a sua vontade. Artemis fez uma careta. – meu filho, Juliet ouviu vozes aqui dentro e foi me chamar, com quem falava?
- Eu estava no telefone, mamãe. – ele respondeu, arremessando-se, cansado, numa poltrona próxima à porta, enquanto Angeline Fowl entrou no banheiro e voltou com uma toalha.
- E com quem estava no telefone? Ainda mais a essa hora? – ela sentou- se ao seu lado e esfregou a toalha em sua cabeça vigorosamente. – alguma namoradinha?
- Não, mamãe, nenhuma namoradinha – ele balbuciou a resposta, vencido pelo cansaço, deixando sua mãe secar-lhe a cabeça. – eu esbarrei numa menina hoje, e ela acabou esquecendo o telefone celular comigo.
- Pois devolva – ela respondeu, entrando novamente no banheiro, e voltando com um pente. – Você tem o seu telefone, Arty, querido. Não precisa do telefone dela. – continuou, penteando os cabelos do filho para trás e erguendo seu rosto pelo queixo. – meu filho, sua aparência está péssima. Você deveria ir dormir.
Artemis a olhou com desprezo e ironia.
- Era o que eu pretendia fazer, mamãe.
- Sim, sim, Arty. Boa noite para você. Acorde bem disposto para sua festa de aniversário amanhã – disse, dando-lhe um beijo na testa.
- Mamãe, essa festa realmente é necessária? Aquele monte de desconhecidos se embebedando não é nada agradável.
- Mas é claro que é necessária, meu bem. São os seus dezesseis anos! Ainda ontem você era uma criança, e hoje já é...
- Um homenzinho. – ele repetiu. - Eu já ouvi isso umas quatrocentas vezes, mamãe.
- Sim, sim, Arty. Venha, venha dormir. – ela terminou, empurrando-o levemente para que se levantasse, e acompanhando-o até a cama. Artemis tirou o roupão, arremessando-o numa outra poltrona, e aconchegou-se no meio dos travesseiros na cama. – Boa noite, querido.
- Boa noite, mamãe.
- A propósito – ela falou, enquanto saía do quarto – por que não convida a menina que conheceu hoje para a sua festa de aniversario, já que reclama tanto que a festa só tem desconhecidos?
- Boa noite, mamãe.
Não demorou muito para adormecer. E também não demorou muito para acordar.
Eram oito da manhã quando foi acordado por seu pai, sua mãe, Butler e Juliet, com uma enorme bandeja de café da manhã, gritando canções de aniversário. Artemis encobriu os olhos com um travesseiro quando sua mãe escancarou as cortinas.
- Acorde, dorminhoco! – sua mãe começou. – Feliz aniversário!
'Dorminhoco?', Artemis pensou. Por Deus, que diabos estavam fazendo?!
- Bom dia – Artemis balbuciou com uma careta.
- Feliz aniversário! – os outros gritaram.
- Meu filho... Meu filho! – seu pai começou. – Dezesseis anos. Já é um homem.
- Esperava que eu fosse o que? Mulher?! – Artemis retrucou. – Por favor. SAIAM DAQUI!
- Artemis, querido, eu lhe disse para não dormir com os cabelos molhados. Veja só como eles estão hoje, que coisa horrível! – sua mãe disse, sentando-se na cama e empurrando os cabelos lisos do filho para trás.
- Mamãe, pelo amor de Deus, pare com isso e me deixe dormir! – Artemis respondeu, puxando as cobertas até a testa, e enfiando o rosto entre os travesseiros.
Angeline olhou para os outros, desapontada. O filho odiava aniversários. Acabou, então, por ceder às ordens do filho, e todos saíram do quarto, deixando-o dormir até mais tarde.
Finalmente Artemis teve paz. Dormiu até depois da hora do almoço, algo que não costumava fazer. Mas estava excepcionalmente sonolento naquele dia. Quando acordou, o chá e a comida que haviam na bandeja de café da manhã sobre uma mesa no quarto já haviam esfriado, estavam completamente intragáveis. Vestiu novamente o roupão, calçou novamente os chinelos e rumou para o banheiro. Ao olhar-se no espelho, se surpreendeu. Realmente devia parar de dormir com os cabelos molhados. Ambos seu rosto e seus cabelos estavam com a pior aparência possível, mais amassados que um maracujá podre.
Depois de um demorado banho que lhe restituiu o belo rosto de sempre, Artemis se trocou e saiu do quarto. Evitou encontrar qualquer um, especialmente sua mãe. Com o telefone de Elizabeth num dos bolsos do terno, sentou-se à frente dos computadores para uma rápida consulta ao que poderia ter ocorrido enquanto dormia. Nada novo, por sinal. Olhou no relógio, eram três e meia, e, estranhamente, suas mãos suavam e tremiam levemente.
Estava cedo ainda, mas Artemis chamou Butler e pediu que ele o tirasse de dentro de casa, ou sua mãe encheria a sua paciência o dia inteiro com os preparativos para a maldita festa.
- Não vai almoçar, Artemis? – Butler perguntou quando ele entrou no carro.
- É o que eu pretendo ir fazer. Vamos, tenho uma hora e meia para almoçar apenas.
Artemis e Butler sentaram-se à mesa de um restaurante, e Butler notou que ele não conseguia manter-se totalmente quieto. Estava anormalmente calado, mas seus dedos batucavam levemente na base de uma taça com água mineral. Butler o olhava, intrigado.
- Artemis?
- Sim? – Artemis se surpreendeu quando Butler quebrou o silêncio na mesa.
- Está se sentindo bem? Há algo errado? Está muito calado.
- Estou faminto.
Foi a única coisa que dissera, até sua comida chegar. Butler reparou, inclusive, que mal comeu o peixe, e mesmo assim dissera estar faminto.
- Sua comida está ruim? – Butler interrompeu, enquanto Artemis comia.
- Está excelente.
- Achei que tivesse dito que estava faminto, mas não está tocando na comida.
- Deixe-me em paz, Butler, por favor. – Artemis resmungou, jogando o guardanapo sob a mesa e levantando-se para ir embora.
- Mestre Artemis? Aonde vai?
- Não me sinto bem, Butler, deixe-me ir – ele terminou, vestindo seu sobretudo e saindo do restaurante, sem rumo. Era a primeira vez que Butler vira Artemis daquela maneira, transtornado e perdido.
Artemis andou por entre as pessoas, massageando uma têmpora vigorosamente com os dedos, numa tentativa desesperada de acabar com a dor de cabeça. O vento cortante lhe gelava as mãos e despenteava seus cabelos, mas mesmo assim ele continuou andando, mesmo que com a respiração debilitada e pesada por causa do ar seco, até o Parque de São Estevão, onde se sentou num banco. Levou as duas mãos à cabeça, e finalmente conseguiu relaxar por um momento naquele dia. Foi quando algo o tocou.
- Artemis? – uma mão delicada tocou seu ombro, e ele sentiu alguém sentar-se ao seu lado. Elizabeth Atlee sentou-se ao seu lado e acariciou- lhe levemente os cabelos. Artemis ergueu a cabeça e arregalou os olhos ao vê-la. – Se sente bem?
- Sim, digo, digo – ele gaguejou – na verdade, não muito bem. Já estive melhor.
- O que está sentindo?
- Nada de mais – ele replicou, ajeitando o cabelo e a gravata – dor de cabeça. Enxaquecas.
- São quatro e meia ainda, o que faz aqui? Achei que tivéssemos combinado às cinco.
- Eu estava almoçando, perdi o apetite. Não sabia que a encontraria aqui tão cedo também.
- Eu venho aqui todos os dias, praticamente. Às quatro, andar de skate ou de bicicleta. Pela cor da sua pele, eu acho que não sai muito de casa – ela falou, com um risinho, levando um enorme copo com um canudo aos lábios. – Quer? – ofereceu. Artemis ergueu uma sobrancelha.
- Que diabo é isso?
- Coca-cola – ela respondeu – não gosta?
- Mas que coisa asquerosa – ele olhou o líquido escuro dentro do copo com nojo. – E, além do mais, o açúcar me deixa hiperativo. Veja – ele enfiou a mão num bolso do sobretudo – seu telefone.
- Obrigada por guardá-lo – ela respondeu, colocando o aparelho num bolso da calça jeans. – Eu... Então eu vou indo – ela se levantou lentamente. Ele a olhava discretamente, inclinado para a frente e com os cotovelos nos joelhos, apoiando o queixo nas mãos. Ela estava mais bonita naquele dia, com os cabelos soltos e um suéter listrado, verde e preto. – Você tem certeza que você vai ficar bem?
- Tenho, tenho – ele respondeu, esfregando os olhos. – Foi um prazer conhecê-la.
- Igualmente.
Elizabeth afastou-se lentamente, arrastando o skate no chão e mordendo o canudo do copo. Haviam se passado dois minutos, e Artemis lembrou-se de sua mãe, perguntando-lhe se não gostaria de convidar ninguém para a maldita festa de aniversário. Artemis levantou-se de súbito, e correu atrás de Elizabeth, que ainda andava lentamente, carregando o skate.
- Srta. Atlee! – ele gritou quando se aproximou dela.
- Sim?
- Hoje... – ele começou, ofegante.
- Respire.
Artemis respirou profundamente antes de recomeçar.
- Hoje é meu aniversário – ele balbuciou. Naquele instante, ela abriu um sorriso, largou o skate no chão e o abraçou. Ele apenas arregalou os olhos.
- Parabéns! Felicidades.
- Obrigado – ele agradeceu, com uma careta. – Gostaria de perguntar se não gostaria de... Comparecer à festa de aniversário que minha mãe dará hoje à noite. Se não estiver ocupada, obviamente.
- Não, não – ela respondeu, ruborizando-se – hoje eu... Pretendia ficar em casa mesmo.
- Que bom – ele terminou, sem ao menos dar um sorriso. – Mandarei Butler pegá-la às nove.
- Então tá – ela concordou, envergonhada. Ele fez uma discreta mesura e foi embora. – Espere!
- Sim?
- O traje?
- Oh, sim, black-tie. Mas não espere me encontrar de smoking.
Artemis ainda não se sentia bem. Sequer se despediu, apenas virou-se, ajeitando o sobretudo, e continuou andando pelo parque. O vento lhe despenteava os cabelos e machucava as pálpebras, enquanto suas mãos suavam e tremiam. Depois de encontrá-la, porem, algo piorou. Agora, além das mãos nervosas, sentia um nó na garganta e o estômago embrulhar-se. Conforme se afastava dela, ele preocupou-se em olhá-la discretamente a cada passo que dava.
Não demorou muito para chamar por Butler para que ele o levasse de volta para casa, onde se trancou no quarto até sua mãe ter de chamá-lo para a maldita festa.
Elizabeth o achara, no mínimo, estranho. Ainda vagou pelo parque sob o skate por mais uma hora inteira, quando voltou, à pé, para casa. Antes que pudesse chegar, recebeu um telefonema.
- Lizzy? Lizzy, onde você está?
- Andando de skate no parque, por que?
- Ah, o maldito skate de novo? Escuta, ontem eu tentei te ligar mas ninguém atendeu – sua amiga, Susie, interrogava.
- Eu sei, eu esqueci o telefone com... Um amigo.
- Um amigo? – Susie perguntou. – Que amigo é esse que eu não sei?
- É um garoto... Eu trombei com ele no parque, ontem. É um garoto com um nome esquisito... Uma coisa que começa com 'A'... Anda sempre engravatado, branquelo, magricela... Alguma coisa... Fowl.
- ARTEMIS FOWL?! O FILHO?! Como você não me conta disso, sua, sua... Desgraçada!
- Hã?!
- Ele é um espetáculo! O lindo e maravilhoso filho gênio e recluso da família Fowl? Meu Deus! Mas, fora isso, amiga, o que você vai fazer hoje à noite?
- Eu... Acho que eu vou numa festa de aniversário.
- De quem? – Susie continuava o interrogatório.
- Do próprio – Liz respondeu com um suspiro. – Eu vou à festa de Artemis.
Por um momento, Susie parou de falar.
- Você vai me levar, não vai?
- Mas é claro... Que não, sua estúpida. Ele ME convidou, eu não vou ser folgada e levar mais um monte de gente.
- Mas sou só eu...
- Susie, não. Agora, se me dá licença – ela bebeu mais um gole da Coca-cola do copo – eu vou desligar, estou chegando em casa.
- Lizzy, por favor!
- Não, Susie. Por que não chama o nojento do Victor para o cinema? Beijos, Susie. Vou desligar.
- Tchau, Liz.
Elizabeth estava surpresa com toda a questão que sua amiga fizera de ir à festa. Aquilo era estranho, talvez ela realmente devesse levá-la, já que não conhecia ninguém da festa, a não ser Artemis, que certamente estaria ocupado demais com seus convidados. Não demorou muito para bater- lhe uma forte insegurança e um desejo de permanecer em casa, não ir à festa, de ir ao cinema com as amigas. Mas ela havia lhe dito que iria, e Butler a estaria esperando às nove – não tinha escapatória.
Diferente dele, que finalmente havia dormido, ela havia passado a noite revirando-se na cama, sem sono. Tinha grandes olheiras, que ela disfarçara com maquiagem para sair de casa, e estava exausta. E tinha se arrependido de ter aceitado ir à festa.
Pediu a Geoffrey, o mordomo, um londrino de oitenta e um anos, que lhe acordasse às sete horas, quando seu pai chegasse. Os pais de Elizabeth não eram dos mais presentes. Sua mãe era consumista compulsiva, jamais estava em casa, estava sempre em Paris, em Londres, Nova Iorque ou Milão, aproveitando a sua vida, porque, como ela mesma costumava dizer, 'um dia a gente vai, né?'. Andrew, seu pai, era um homem de negócios. Seu casamento era apenas uma fachada, e passava meses e meses fora de casa. Aliás, Elizabeth não estava em Belfast há muito tempo. Estivera morando com seu pai em Berlim por um ano e meio, e em Londres por dois meses, até voltar à sua querida Belfast.
Julie Atlee não se preocupava muito com a filha. Andrew, sim, fazia questão de repetir que a amava cada vez que a encontrava. Julie preferia comprar-lhe roupas caríssimas, e crer que sua filha realmente achava que ela se importava com ela. Seu pai era seu melhor amigo. Porém, o período que passavam juntos era mínimo. Quando ele saía para o trabalho, sua filha já havia saído para o colégio, e, quando voltava, ela já estava dormindo. Nos finais de semana que passavam juntos, ele fazia questão de levá-la para almoçar, para que passassem um mínimo de tempo juntos, e para que conversassem sobre suas vidas.
Aos sábados, porém, ele voltava mais cedo, às sete, aproximadamente. Assim, quando Andrew chegou, ele foi acordar a filha, que dormia numa poltrona, com um livro no colo.
- Liz – ele disse baixinho, acordando-a – Lizzy, acorde, sou eu.
Esfregando os olhos, ela o abraçou.
- Olá, papai.
- Geoffrey me disse que tem um compromisso hoje.
- Pois é – ela concordou, fazendo um muxoxo. – Eu tenho que ir a uma festa. Não vou poder jantar com você hoje, papai.
- Tudo bem. Quando estiver pronta, avise-me, eu levo você. Há tanto tempo que não levo você para lugar nenhum.
Elizabeth sacudiu a cabeça, concordando.
- Mas não precisa, papai. Alguém vem me buscar às nove.
Andrew fez uma careta.
- Ele tem carteira, pelo menos? – falou, com um risinho. – É bonito?
- Papai, é o motorista de... Um amigo. – ela respondeu, com um sorriso irônico.
- Certo, certo, então está tudo bem.
Elizabeth foi, então, aprontar-se. Sentia uma ponta de preocupação com seu pai, que ficara entristecido porque ela não jantaria com ele, e também com Artemis, por mais que ela mal o conhecesse, mas ele não aparentava estar bem naquela tarde.
Às nove em ponto, Elizabeth estava pronta, num belo vestido Chanel, um dos presentes de sua mãe. Desceu para esperar Butler, e seu pai a estava esperando ao lado da porta.
- Boa noite, papai. – ela se despediu dele com um beijo de leve em seu rosto.
- Boa noite, querida. Você está muito bonita. – ele a abraçou. – Depois você me conta?
- Conto, papai – ela falou, rindo, enquanto ele vestia nela o casaco. – Tchau.
Butler estava parado do lado de fora do carro, com a porta aberta para que ela entrasse.
- Boa noite, Srta. Atlee. – Butler disse.
- Boa noite... Butler. É Butler, não é?
- Sim, Srta. – ele respondeu com um sorriso. – Sente-se bem? Parece um pouco nervosa.
- Não tenho certeza se devo ir a essa festa, Butler. Mal conheço Artemis, não conheço ninguém além dele. – ela disse, enrubescendo levemente.
- Não se preocupe com isso – ele a empurrou levemente para que entrasse no carro. – garanto que irá se surpreender. Tem a minha palavra.
Em casa, enquanto sua mãe recebia, empolgada, milhares de convidados dos quais Artemis não conhecia ninguém, ele encarava a si mesmo, debruçado na bancada da pia, no enorme espelho do banheiro, em busca de alguma imperfeição na pele alva. Alguma espinha, ruga, olheira, sarda ou mancha de qualquer tipo. Algum resquício de barba, também não havia. Completava dezesseis anos naquele dia, e ainda não havia nascido um pêlo sequer em seu rosto.
Olhou discretamente no relógio de pulso, que marcava nove horas e dez minutos. Pela primeira vez, ele estava nervoso para uma de suas malditas festas de aniversário. Pegou um pente, e, com as mãos levemente trêmulas, ajeitou os cabelos e arrumou a gravata e a camisa, ambos pretos. Seu terno era Dior, feito sob medida, vestia-lhe perfeitamente. Suspirou, vestiu o paletó e saiu do quarto.
Sua casa estava irreconhecível. Havia gente por todas as partes, e Artemis fez uma cara de nojo ao vê-las, da escada, circulando pelo primeiro andar. Desceu as escadarias lentamente, para que ninguém o notasse. Ele discretamente se infiltrou no meio das pessoas, pegou uma taça de champanhe e isolou-se, mantendo-se longe especialmente de sua mãe. Olhou novamente no relógio da sala, que marcava nove e quinze, bebendo tudo o que havia dentro da taça num gole só. Estalou os dedos, passou a mão nos cabelos, olhou novamente o relógio. Precisava se tranqüilizar. Foi quando viu Butler entrar na casa.
Artemis sentiu um calafrio, pegou outra taça de champanhe e virou-se de costas para a porta, tentando disfarçar o medo ou o nervosismo. Mantenha a compostura, pensava consigo. Artemis bebeu um gole do champanhe, e permaneceu olhando para o ponteiro dos segundos no relógio de pulso. Até sentir uma mão em seu ombro.
- Artemis?
Ele virou-se para trás, e viu Elizabeth tocá-lo. Sua surpresa foi tamanha que se engasgou com o champanhe que estava bebendo. Ela não estava bonita, estava deslumbrante. Seus cabelos estavam ondulados e soltos sobre os ombros e pelas costas, ambos descobertos pelo enorme decote do vestido azul. E Artemis estava muito elegante, vestido todo em preto.
- Boa noite – ele gaguejou.
- Boa noite, Artemis. E... Meus parabéns, de novo. – ela respondeu, com um sorriso.
- Obrigado – ele respondeu, bebendo mais um gole, ainda surpreso. – Bebe?
- Talvez.
Artemis pegou outra taça da bandeja de um garçom que passava e entregou a ela.
- Achei que fosse estar ocupado com seus convidados, não achei que fosse encontrá-lo aqui, sozinho, bebendo.
- Se quer saber, eu não conheço ninguém aqui, além de você e meus pais. Venha, eu vou lhe mostrar o lugar, antes que alguma dessas malditas velhas aperte as suas bochechas ou que algum ancião peça para dançar contigo.
Ao dizer aquilo, Artemis lhe deu o braço. Elizabeth hesitou, mas acabou aceitando que ele lhe guiasse, envolvendo seu braço com uma mão.
Naquele momento, Elizabeth notou: desde que o conheceu, ele não dera um único sorriso. No máximo, um meio-sorriso ou uma risadinha sarcástica. Era sua festa de aniversário, e, no entanto, ele tinha um olhar cheio de amargura e uma aparente frustração, o que a deixava intrigada. Porém, a julgar pela festa, ela acabou por concordar que ele agisse daquela maneira. Não conhecia ninguém, detestava o dia de seu aniversário. Uma festa para um garoto de dezesseis anos, regada a champanhe e uísque, decorada de uma maneira fria, que fazia o casarão parecer um cemitério, a julgar pelas velas, flores brancas e pela música clássica que tocava. E, considerando a expressão de Artemis e sua roupa completamente preta, ele parecia mesmo estar de luto. Havia mais alegria num cemitério do que nele.
Artemis a guiou pelo meio das pessoas, que mal o notaram. Ao ver sua mãe, mesmo que ao longe, tratou de esconder-se, e de, especialmente, pôr Elizabeth longe dela. Em vão.
- Arty, querido! – sua mãe gritou, aproximando-se dele.
- Fuja para os abrigos – ele falou discretamente para Elizabeth – um genocídio está prestes a acontecer. – Elizabeth apenas deu uma risada.
- Arty, meu filho – sua mãe segurou seu outro braço, forçando-o a virar-se para ela. Com um sorriso falso estampado no rosto, ele virou-se, dando o braço novamente para que Elizabeth o segurasse. – onde esteve esse tempo todo? – sua mãe continuou, olhando em seguida para Elizabeth, que segurava o braço dele contra o corpo, envergonhada. – e quem é a sua...
- Amiga. – Artemis completou. – Mamãe, conheça Elizabeth Atlee – ele a empurrou levemente para a frente, para que sua mãe a cumprimentasse. – Srta. Atlee, esta é Angeline Fowl. Minha mãe.
- Dos Atlee da exportadora? – Angeline comentou discretamente com ela.
- Sim, Sra. Fowl. Dos Atlee da exportadora.
- Artemis... – sua mãe discretamente dirigiu-se a ele.
- Mamãe – ele logo a repreendeu – não comece. Ela é MINHA convidada. Agora, se me permite, mamãe, com licença.
Artemis a puxou levemente para longe de sua mãe. Elizabeth não entendeu absolutamente nada. Ele a levou de volta para o salão de entrada, cheio de gente.
- É... Uma bela festa. – Elizabeth falou discretamente.
- Pode dizer que é intragável, eu não me importo. Não fui eu que organizei, afinal de contas. Minha mãe, no meu aniversário, se torna a pessoa mais insuportável do mundo. São flores para cá, canapés para lá, champanhe para lá, etc. Ela nunca sequer me perguntou se eu gostaria de tudo isso.
- Não diga isso da sua mãe – ela segurou o braço dele com as duas mãos.
- Aposto que a sua mãe não é assim, e por isso você diz isso da minha. – ele disse, entregando-lhe uma taça de champanhe e pegando outra para si.
- Não, minha mãe na verdade nunca me fez uma festa de aniversário. – ela respondeu, como quem lhe dava uma lição de moral – Ela sempre esteve ocupada demais gastando o dinheiro do meu pai, esquiando em Aspen, fazendo compras em Paris ou na Quinta Avenida.
- Meu pai também não foi dos mais presentes, se é o que quer dizer. Escute, Srta. Atlee, isso não é um assunto muito bom para uma conversa. – Artemis cortou, levando-a para uma varanda.
- Mas é um belo jardim. – Ela o soltou, mudando o assunto da conversa, e debruçando-se na sacada.
- Quer que eu te leve? – Ele perguntou, engolindo o que restava de sua taça de champanhe.
- Quero – ela concordou com um sorriso, segurando seu braço novamente.
Os dois desceram até o jardim, ainda com os braços dados. As luzes do jardim estavam todas acesas, tudo estava decorado com arranjos de lírios e rosas brancas. As mãos de Artemis suavam frio, evitando ao máximo tocá-la para que ela não percebesse o nervosismo.
- Está uma noite agradável hoje. – ele comentou.
- Para você, que está engravatado – ela respondeu, batendo os dentes.
- Desculpe-me pela indelicadeza – ele a soltou e tirou o terno, oferecendo-o a ela e erguendo uma sobrancelha. – Deve estar morrendo de frio.
- Obrigada – ela falou, vestindo o terno. – Seu jardim é lindo. As flores também são... Muito bonitas. – ela gaguejou, sem graça.
Artemis jamais tinha galanteado uma mulher. Naquele momento, porém, deu-lhe um acesso de cavalheirismo. Tirou uma rosa de um arranjo e entregou a ela, ainda sério. Deu-lhe, no máximo, um meio-sorriso sarcástico e um olhar estranho. Ela enrubesceu facilmente.
- Você está muito bonita esta noite. – ele comentou, pondo as mãos nos bolsos da calça.
- Você também está... Muito elegante – ela riu – aliás, todos os três dias que eu te vi, você estava engravatado e alinhado.
- Obrigado. – ele murmurou de volta.
No jardim, eles podiam ouvir a música que vinha de dentro do palacete, lotado de gente.
- Meu Deus – ela exclamou – eu adoro essa música! Você dança comigo?
Artemis estava acuado.
- Aqui? Mas... Eu... Não sei dançar – ele gaguejou, nervoso.
- Eu te ensino, então – ela pôs as mãos ao redor do pescoço dele suavemente. – Agora ponha as mãos na minha cintura. – Artemis fez uma careta. – Vamos, não tenha medo. – ele finalmente pôs as mãos em sua cintura. – Isso. Agora, mexa-se – ela terminou, fazendo-o mexer os quadris.
- Mas o que – ele se afastou um pouco dela – não, me perdoe. Isso vai ser impossível.
- Não, não vai – ela o puxou contra seu corpo. – Apenas me siga. É fácil.
Depois de um minuto de música tocada, Artemis ainda tinha uma expressão estranha no rosto. Jamais dançara com alguém, ainda mais daquela maneira. Suas mãos, antes separadas pela cintura de Elizabeth, haviam se encontrado em suas costas, abraçando-a por completo, involuntariamente. Ele olhava para a casa, com os olhos arregalados, com medo de que alguém pudesse vê-los, enquanto ela o abraçou pela cintura, acomodando-se em seus braços.
Artemis gelou. Não sabia o que fazer. Aja naturalmente, ele pensava consigo. Mas o que era agir naturalmente numa situação daquela? Era o que ele não sabia. Ela havia encostado a cabeça em seu ombro, o que o fez tremer. Não passe para ela o seu nervosismo, ele continuava pensando. Afinal de contas, você é o que, um homem ou um rato? Meu Deus, acho que isto é o paraíso.
A música havia terminado, mas ela não o soltara. Uma das mãos dele, inclusive, agora enrolava em um dedo uma fina mecha dos cabelos dela. Ele já havia perdido o controle de suas ações. Tinha uma vontade incontrolável de beijá-la. Mas não podia, era fora de cogitação. Ela poderia bater nele.
Artemis olhou discretamente no relógio de pulso, que marcava cinco minutos para a meia-noite. Estava frio no jardim, Elizabeth vestia o seu terno, e eles já estavam ali, parados, sem mais dançar, por quase dez minutos. Artemis tomou coragem e se afastou um pouquinho dela. Ela aparentava estar dormindo, aconchegada em seu terno. Mas ele tinha de fazer alguma coisa.
- Srta. Atlee – ele falou baixinho. – Elizabeth? Ehr – ele gaguejou, levantando o rosto dela delicadamente com uma mão – Liz?
Ela suspirou, abriu os olhos, assustada, e o soltou.
- Desculpe-me – ela falou, ajeitando os cabelos. – Eu acho que... Deve ser o champanhe, eu sou muito fraca pra isso – ela deu um risinho, olhando-o em seguida. – Que mãos geladas – ela segurou ambas as mãos dele.
- Não ligue para isso – ele comentou – eu sou uma pessoa fria.
- Ehr – ela gemeu, sem graça – pode... Me dizer que horas são?
- Faltam dois minutos para a meia-noite – ele respondeu. – Quer entrar?
- Eu... Acho que devo ir embora.
- Deve estar sendo insuportável para você. Essas são as malditas festas dos Fowl, Srta. Atlee. Venha, eu vou pedir a Butler que a leve de volta para casa – ele lhe deu o braço novamente.
- Não, não. Eu pedirei a Geoffrey que venha me buscar, não se preocupe comigo.
- Venha comigo. Está frio aqui fora.
Artemis a carregou para um salão de dança vitoriano, que estava aberto, porém vazio. A lareira estava acesa, e ele fez um gesto para que ela se sentasse no confortável sofá à frente da mesma. Depois fez um sinal para que ela esperasse, e a deixou ali, sentada, sozinha, por cinco minutos, quando retornou, acompanhado de Butler. Elizabeth, porém, havia adormecido, recostada num dos braços do sofá.
- Espere um minuto, Butler, eu vou acordá-la. – Artemis ameaçou ir até ela, mas Butler o segurou.
- Não, Artemis – ele falou baixinho – deixe-a dormir. Eu saio pelos fundos com ela.
- Sim, Butler. Eu vou me retirar. Boa noite.
Artemis saiu da sala, e rumou direto para seu quarto, evitando que sua mãe o visse. Butler, enquanto isso, carregou Elizabeth, adormecida, até o carro, e a levou para casa.
Trancado em seu quarto no dia de seu aniversário, Artemis acabou dando falta de seu terno, que ele esquecera com Elizabeth. Estava sentado no chão, encostado na cama. Esfregou os olhos, tirou o relógio e colocou-o na cabeceira. Foi quando sua mãe entrou no quarto.
- Artemis?
- O que quer, mamãe?
- Conversar com você, querido.
- Mamãe, eu não estou bem para conversar. Estou exausto. Falarei sobre o que quiser amanhã pela manhã, sim? – ele fez um discreto gesto para que ela se retirasse, mas ela havia se sentado numa poltrona próxima da cama. Artemis deu um suspiro. – Mamãe, seja o que for que quer, fale rápido. – ele terminou, esfregando o rosto com ambas as mãos geladas.
- Eu os vi no jardim, Arty.
Artemis arregalou os olhos e a olhou.
- O que viu?
- Você estava com os olhos fechados. Não viu o que estava fazendo. E, quando ela o abraçou, ficou com medo. Eu sei que ficou, Arty. Você temeu colocar as mãos nela a acabar tendo uma vontade incontrolável de tocá-la, não é? E depois, quando ela confiou em você o suficiente para aconchegar-se nos seus braços e usar o seu terno, você temeu ter ido rápido demais e ter feito a coisa errada mexendo nos cabelos dela.
- Como... – ele a olhava, espantado. – Como sabe de tudo isso?
- Eu os vi no jardim – ela respondeu calmamente – e notei o seu olhar para mim quando nos apresentou e o brilho envergonhado nos olhos dela. Artemis...
- O que?
- Você a beijou?
- NÃO! – Artemis respondeu, ríspido. – Digo... Não, mamãe.
- Não precisa ter vergonha de mim, Artemis.
- Não a beijei.
Angeline notou, na atitude do filho, a verossimilhança do que ele lhe dissera. Ele não a havia beijado, era fato. Se ele tivesse, ele talvez tivesse enrubescido de vergonha, e não teria escondido o rosto entre os braços pela vergonha. Sua mãe inclinou-se, o beijou na testa, despediu-se e se retirou. Artemis recolheu-se na amargura de querer tê-la beijado e de não tê-lo feito, e do nervosismo de não saber como lidar com aquela situação, de querê-la e de ter medo de usá-la a ponto de magoá-la.
Ele só a conhecia há dois dias. Dois únicos dias, que ele estava transtornado.
Tentando se controlar, ele trocou de roupa e colocou o pijama, caindo no meio dos travesseiros. Quando estava quase adormecendo, sua mãe bateu novamente à porta.
- Artemis? – ela perguntou baixinho.
- O que foi dessa vez? – ele resmungou.
Angeline jogou um casaco azul-marinho numa poltrona.
- O casaco dela. Ela o esqueceu. Boa noite, Arty.
Artemis jogou-se novamente nos travesseiros. Parecia uma provocação.
Por várias vezes durante a noite, Artemis acordou, transtornado. Numa delas, eram quatro da manhã, e, curioso, vestiu o roupão e abriu a porta, a fim de ver se ainda havia alguém. Já estava tarde, mas a sua casa ainda estava forrada de gente. Os homens bebendo Brandy e fumando charutos fedorentos, enquanto as mulheres bebiam seu champanhe e fofocavam. Artemis ousou aproximar-se das escadarias que davam para o salão de entrada, encostando-se numa pilastra e admirando as pessoas. Viu sua mãe, rodeada de pessoas, falando de alguma futilidade que certamente iria entreter seus convidados por vários minutos. Antes que ela pudesse ver que ele havia acordado, ele retornou ao quarto.
Assim que fechou a porta do quarto, esfregou os olhos e mordeu o lábio, ainda sendo assombrado pela sensação de ter uma mulher em seus braços – pela primeira vez, por pura e espontânea vontade.
Sem acender a luz, com o quarto iluminado apenas pelas luzes que vinham do lado de fora, através da janela e das cortinas que ele deixara abertas, ele se sentou numa poltrona, a poltrona em que estavam jogadas as suas roupas. Esticou uma mão e alcançou a sua gravata, ainda com o nó, que antes se dependurava do encosto da poltrona. Ao desfazer o nó, a gravata exalou um aroma diferente, que ele sentira apenas uma vez na vida, algumas horas atrás. Ambas sua camisa e gravata estavam impregnadas com um maravilhoso perfume feminino, que o estava deixando quase maluco.
Artemis resolveu, forçado, voltar a dormir.
Arrastando-se para o seu templo, a sala que abrigava os seus computadores, Artemis fechou a porta, encostou-se nela, suspirando ao ver suas queridas máquinas. Já não estava suportando o olhar indiscreto de Butler, o sorriso ofuscante da Srta. Atlee, aquele ar cheio de monóxido de carbono do parque e das ruas de Belfast; estava precisando voltar ao seu canto.
Admirando as suas máquinas com um sorriso e um olhar quase saudoso, Artemis arrastou-se, soltando o nó da gravata, até o sofá em frente à lareira, que ainda crepitava. Uma de suas ordens a Juliet era que ele queria a lareira daquele quarto sempre acesa enquanto estivesse acordado.
Sentou-se no sofá, suspirou, fechou os olhos por um segundo. No mesmo segundo, algo tocou e estremeceu de dentro do terno de Artemis, fazendo-o pular de susto. Enfiou as mãos nos bolsos do paletó, e tirou, de dentro de um deles, um aparelho de telefone celular, decorado com uma florzinha cor- de-rosa, tocando sem parar uma música que ele não conseguiu identificar.
Artemis pegou o aparelho com nojo. O abriu e leu, Susie, enfeitado com asteriscos e desenhos.
- Que patético – ele comentou consigo ao ler. – Que mentalidade deve ter aquela garota?!
Resolveu não atender. O que diria? Que Artemis Fowl II havia trombado com a dona daquele telefone, caído numa roseira e então roubado o aparelho? Mas que raio de situação, só o que lhe faltava era ela esquecer o telefone celular com ele.
Decidiu, então, que não atenderia nenhuma chamada que não parecesse ser dela – correndo atrás do telefone, claro. Não que ele quisesse falar com ela, mas ela ligaria para saber onde estava o seu telefone. Mas saber que tipos de segredos o aparelho guardava não faria mal nenhum.
Artemis, depois que o telefone parou de tocar, o abriu e começou a mexer em todas as suas funções. Viu todos os nomes da agenda telefônica, a maioria deles com vários números de telefone distintos, fuçou recordes em joguinhos, ouviu cada toque e analisou cada imagem de fundo de tela, além de ler todas as mensagens. A maioria, por sinal, eram de um tal de Victor. As outras e, para Artemis, menos importantes, eram de supostas amigas.
Já eram onze e quarenta da noite quando o telefone voltou a tocar. Artemis estava aninhado em sua cadeira, bastante sonolento e desalinhado, sem o terno e a gravata, e com os primeiros botões da camisa abertos. Seus dedos batiam, vagarosos por causa do sono, nas teclas de um dos computadores, quando se assustou com o toque do telefone ao seu lado. Ao abri-lo, leu Casa. Talvez devesse atender.
Ao invés de falar alguma coisa, apenas abriu o aparelho.
- Alô? – uma voz falou.
- Sim?
- Eu... Esqueci...
- Artemis Fowl II.
- Sim, sim, Artemis! Claro – Elizabeth falou com uma risada – Você... Ficou com o meu telefone, não é? Graças a Deus, eu achava que o tinha perdido.
- Sim, fiquei com o seu telefone, Srta. Atlee. Eu...
- Liz – ela interrompeu – Me chame de Liz.
- Elizabeth, eu...
- LIZ – ela interrompeu de novo. – Por favor, Elizabeth se parece com o meu pai me dando bronca e Srta. Atlee parece o meu mordomo.
- Liz – ele falou, enfatizando todo o seu sarcasmo, catando o terno do sofá e indo para o quarto. – devolverei o seu telefone o mais breve possível, não se preocupe. Mas eu não imaginei que fosse ouvir a sua voz tão cedo. É um prazer – ele terminou, falando mais baixo.
Do outro lado da linha, Elizabeth corou levemente.
- Quando pode me devolver o telefone?
- Quando quiser – ele respondeu, segurando o aparelho com o ombro e tirando a camisa e o relógio de pulso. – Se quiser que eu o devolva amanhã mesmo, eu devolvo. Apenas não me peça para que eu o devolva agora.
- Não, claro que não. Pela sua voz, você me parece bem sonolento.
- Não durmo há – ele olhou no relógio enquanto tirava os sapatos. – trinta horas e quarenta e sete minutos. Eu realmente preciso dormir.
- Acho que é melhor desligar, então.
- Espere – ele falou, arregalando os olhos. – Como eu vou devolver o telefone?
- Você pode me encontrar amanhã... Às cinco, no parque, em frente àquela roseira. Todos os dias eu vou lá, de qualquer maneira.
- Ótimo – ele concordou, jogando as meias dentro dos sapatos que ele largou num canto ao lado da cama. – Estarei lá, então, Srta. Atlee. Liz.
- Obrigada, Artemis. É melhor eu desligar antes que eu lhe cause mais uma noite insone.
- Mas é claro que não – ele respondeu, enquanto jogava o cinto sob uma poltrona e terminava de puxar as calças pelos pés. – Boa noite, Srta. Atlee.
- Liz. – ela respondeu.
- Boa noite, Liz.
- Boa noite. Tchau.
Artemis fechou o aparelho e colocou-o numa das mesas na cabeceira da cama. Passando a mão nos cabelos, arrastou-se até o banheiro, onde terminou de despir tudo o que tinha sob o corpo e acomodou-se dentro de uma enorme banheira, que transbordou quando ele entrou. A melhor companhia que havia, depois de Butler e seus computadores, era a sua banheira.
Os vidros dos espelhos embaçavam quando ele se levantou de dentro da banheira, enrolando uma toalha, tão branca quanto a sua pele, na cintura. Sacudiu os cabelos molhados para trás, escovou os dentes e vestiu o pijama, recém passado, colocado impecavelmente dobrado numa prateleira do closet.
Ao sair de dentro do closet, viu que alguém batia à porta, chamando seu nome. Já estava tarde, aquilo era estranho. Artemis vestiu um roupão, calçou chinelos e arrastou-os até a porta, parecendo um idoso, morrendo de sono. Abriu uma fresta de uma das portas, e olhou para fora, desconfiado.
- Artemis! – sua mãe exclamou ao vê-lo.
- O que quer, mamãe? – ele resmungou, bocejando. – eu preciso dormir.
- Arty, meu filho, eu já disse para não dormir com os cabelos molhados – ela respondeu, afastando a porta, que ele imediatamente prendeu com o pé.
- Eu estou de pijamas, mamãe.
- Ora, Artemis – a mãe abriu a outra porta – eu sou sua mãe, mocinho. Não tenha vergonha de aparecer de pijamas na minha frente – ela entrou, contra a sua vontade. Artemis fez uma careta. – meu filho, Juliet ouviu vozes aqui dentro e foi me chamar, com quem falava?
- Eu estava no telefone, mamãe. – ele respondeu, arremessando-se, cansado, numa poltrona próxima à porta, enquanto Angeline Fowl entrou no banheiro e voltou com uma toalha.
- E com quem estava no telefone? Ainda mais a essa hora? – ela sentou- se ao seu lado e esfregou a toalha em sua cabeça vigorosamente. – alguma namoradinha?
- Não, mamãe, nenhuma namoradinha – ele balbuciou a resposta, vencido pelo cansaço, deixando sua mãe secar-lhe a cabeça. – eu esbarrei numa menina hoje, e ela acabou esquecendo o telefone celular comigo.
- Pois devolva – ela respondeu, entrando novamente no banheiro, e voltando com um pente. – Você tem o seu telefone, Arty, querido. Não precisa do telefone dela. – continuou, penteando os cabelos do filho para trás e erguendo seu rosto pelo queixo. – meu filho, sua aparência está péssima. Você deveria ir dormir.
Artemis a olhou com desprezo e ironia.
- Era o que eu pretendia fazer, mamãe.
- Sim, sim, Arty. Boa noite para você. Acorde bem disposto para sua festa de aniversário amanhã – disse, dando-lhe um beijo na testa.
- Mamãe, essa festa realmente é necessária? Aquele monte de desconhecidos se embebedando não é nada agradável.
- Mas é claro que é necessária, meu bem. São os seus dezesseis anos! Ainda ontem você era uma criança, e hoje já é...
- Um homenzinho. – ele repetiu. - Eu já ouvi isso umas quatrocentas vezes, mamãe.
- Sim, sim, Arty. Venha, venha dormir. – ela terminou, empurrando-o levemente para que se levantasse, e acompanhando-o até a cama. Artemis tirou o roupão, arremessando-o numa outra poltrona, e aconchegou-se no meio dos travesseiros na cama. – Boa noite, querido.
- Boa noite, mamãe.
- A propósito – ela falou, enquanto saía do quarto – por que não convida a menina que conheceu hoje para a sua festa de aniversario, já que reclama tanto que a festa só tem desconhecidos?
- Boa noite, mamãe.
Não demorou muito para adormecer. E também não demorou muito para acordar.
Eram oito da manhã quando foi acordado por seu pai, sua mãe, Butler e Juliet, com uma enorme bandeja de café da manhã, gritando canções de aniversário. Artemis encobriu os olhos com um travesseiro quando sua mãe escancarou as cortinas.
- Acorde, dorminhoco! – sua mãe começou. – Feliz aniversário!
'Dorminhoco?', Artemis pensou. Por Deus, que diabos estavam fazendo?!
- Bom dia – Artemis balbuciou com uma careta.
- Feliz aniversário! – os outros gritaram.
- Meu filho... Meu filho! – seu pai começou. – Dezesseis anos. Já é um homem.
- Esperava que eu fosse o que? Mulher?! – Artemis retrucou. – Por favor. SAIAM DAQUI!
- Artemis, querido, eu lhe disse para não dormir com os cabelos molhados. Veja só como eles estão hoje, que coisa horrível! – sua mãe disse, sentando-se na cama e empurrando os cabelos lisos do filho para trás.
- Mamãe, pelo amor de Deus, pare com isso e me deixe dormir! – Artemis respondeu, puxando as cobertas até a testa, e enfiando o rosto entre os travesseiros.
Angeline olhou para os outros, desapontada. O filho odiava aniversários. Acabou, então, por ceder às ordens do filho, e todos saíram do quarto, deixando-o dormir até mais tarde.
Finalmente Artemis teve paz. Dormiu até depois da hora do almoço, algo que não costumava fazer. Mas estava excepcionalmente sonolento naquele dia. Quando acordou, o chá e a comida que haviam na bandeja de café da manhã sobre uma mesa no quarto já haviam esfriado, estavam completamente intragáveis. Vestiu novamente o roupão, calçou novamente os chinelos e rumou para o banheiro. Ao olhar-se no espelho, se surpreendeu. Realmente devia parar de dormir com os cabelos molhados. Ambos seu rosto e seus cabelos estavam com a pior aparência possível, mais amassados que um maracujá podre.
Depois de um demorado banho que lhe restituiu o belo rosto de sempre, Artemis se trocou e saiu do quarto. Evitou encontrar qualquer um, especialmente sua mãe. Com o telefone de Elizabeth num dos bolsos do terno, sentou-se à frente dos computadores para uma rápida consulta ao que poderia ter ocorrido enquanto dormia. Nada novo, por sinal. Olhou no relógio, eram três e meia, e, estranhamente, suas mãos suavam e tremiam levemente.
Estava cedo ainda, mas Artemis chamou Butler e pediu que ele o tirasse de dentro de casa, ou sua mãe encheria a sua paciência o dia inteiro com os preparativos para a maldita festa.
- Não vai almoçar, Artemis? – Butler perguntou quando ele entrou no carro.
- É o que eu pretendo ir fazer. Vamos, tenho uma hora e meia para almoçar apenas.
Artemis e Butler sentaram-se à mesa de um restaurante, e Butler notou que ele não conseguia manter-se totalmente quieto. Estava anormalmente calado, mas seus dedos batucavam levemente na base de uma taça com água mineral. Butler o olhava, intrigado.
- Artemis?
- Sim? – Artemis se surpreendeu quando Butler quebrou o silêncio na mesa.
- Está se sentindo bem? Há algo errado? Está muito calado.
- Estou faminto.
Foi a única coisa que dissera, até sua comida chegar. Butler reparou, inclusive, que mal comeu o peixe, e mesmo assim dissera estar faminto.
- Sua comida está ruim? – Butler interrompeu, enquanto Artemis comia.
- Está excelente.
- Achei que tivesse dito que estava faminto, mas não está tocando na comida.
- Deixe-me em paz, Butler, por favor. – Artemis resmungou, jogando o guardanapo sob a mesa e levantando-se para ir embora.
- Mestre Artemis? Aonde vai?
- Não me sinto bem, Butler, deixe-me ir – ele terminou, vestindo seu sobretudo e saindo do restaurante, sem rumo. Era a primeira vez que Butler vira Artemis daquela maneira, transtornado e perdido.
Artemis andou por entre as pessoas, massageando uma têmpora vigorosamente com os dedos, numa tentativa desesperada de acabar com a dor de cabeça. O vento cortante lhe gelava as mãos e despenteava seus cabelos, mas mesmo assim ele continuou andando, mesmo que com a respiração debilitada e pesada por causa do ar seco, até o Parque de São Estevão, onde se sentou num banco. Levou as duas mãos à cabeça, e finalmente conseguiu relaxar por um momento naquele dia. Foi quando algo o tocou.
- Artemis? – uma mão delicada tocou seu ombro, e ele sentiu alguém sentar-se ao seu lado. Elizabeth Atlee sentou-se ao seu lado e acariciou- lhe levemente os cabelos. Artemis ergueu a cabeça e arregalou os olhos ao vê-la. – Se sente bem?
- Sim, digo, digo – ele gaguejou – na verdade, não muito bem. Já estive melhor.
- O que está sentindo?
- Nada de mais – ele replicou, ajeitando o cabelo e a gravata – dor de cabeça. Enxaquecas.
- São quatro e meia ainda, o que faz aqui? Achei que tivéssemos combinado às cinco.
- Eu estava almoçando, perdi o apetite. Não sabia que a encontraria aqui tão cedo também.
- Eu venho aqui todos os dias, praticamente. Às quatro, andar de skate ou de bicicleta. Pela cor da sua pele, eu acho que não sai muito de casa – ela falou, com um risinho, levando um enorme copo com um canudo aos lábios. – Quer? – ofereceu. Artemis ergueu uma sobrancelha.
- Que diabo é isso?
- Coca-cola – ela respondeu – não gosta?
- Mas que coisa asquerosa – ele olhou o líquido escuro dentro do copo com nojo. – E, além do mais, o açúcar me deixa hiperativo. Veja – ele enfiou a mão num bolso do sobretudo – seu telefone.
- Obrigada por guardá-lo – ela respondeu, colocando o aparelho num bolso da calça jeans. – Eu... Então eu vou indo – ela se levantou lentamente. Ele a olhava discretamente, inclinado para a frente e com os cotovelos nos joelhos, apoiando o queixo nas mãos. Ela estava mais bonita naquele dia, com os cabelos soltos e um suéter listrado, verde e preto. – Você tem certeza que você vai ficar bem?
- Tenho, tenho – ele respondeu, esfregando os olhos. – Foi um prazer conhecê-la.
- Igualmente.
Elizabeth afastou-se lentamente, arrastando o skate no chão e mordendo o canudo do copo. Haviam se passado dois minutos, e Artemis lembrou-se de sua mãe, perguntando-lhe se não gostaria de convidar ninguém para a maldita festa de aniversário. Artemis levantou-se de súbito, e correu atrás de Elizabeth, que ainda andava lentamente, carregando o skate.
- Srta. Atlee! – ele gritou quando se aproximou dela.
- Sim?
- Hoje... – ele começou, ofegante.
- Respire.
Artemis respirou profundamente antes de recomeçar.
- Hoje é meu aniversário – ele balbuciou. Naquele instante, ela abriu um sorriso, largou o skate no chão e o abraçou. Ele apenas arregalou os olhos.
- Parabéns! Felicidades.
- Obrigado – ele agradeceu, com uma careta. – Gostaria de perguntar se não gostaria de... Comparecer à festa de aniversário que minha mãe dará hoje à noite. Se não estiver ocupada, obviamente.
- Não, não – ela respondeu, ruborizando-se – hoje eu... Pretendia ficar em casa mesmo.
- Que bom – ele terminou, sem ao menos dar um sorriso. – Mandarei Butler pegá-la às nove.
- Então tá – ela concordou, envergonhada. Ele fez uma discreta mesura e foi embora. – Espere!
- Sim?
- O traje?
- Oh, sim, black-tie. Mas não espere me encontrar de smoking.
Artemis ainda não se sentia bem. Sequer se despediu, apenas virou-se, ajeitando o sobretudo, e continuou andando pelo parque. O vento lhe despenteava os cabelos e machucava as pálpebras, enquanto suas mãos suavam e tremiam. Depois de encontrá-la, porem, algo piorou. Agora, além das mãos nervosas, sentia um nó na garganta e o estômago embrulhar-se. Conforme se afastava dela, ele preocupou-se em olhá-la discretamente a cada passo que dava.
Não demorou muito para chamar por Butler para que ele o levasse de volta para casa, onde se trancou no quarto até sua mãe ter de chamá-lo para a maldita festa.
Elizabeth o achara, no mínimo, estranho. Ainda vagou pelo parque sob o skate por mais uma hora inteira, quando voltou, à pé, para casa. Antes que pudesse chegar, recebeu um telefonema.
- Lizzy? Lizzy, onde você está?
- Andando de skate no parque, por que?
- Ah, o maldito skate de novo? Escuta, ontem eu tentei te ligar mas ninguém atendeu – sua amiga, Susie, interrogava.
- Eu sei, eu esqueci o telefone com... Um amigo.
- Um amigo? – Susie perguntou. – Que amigo é esse que eu não sei?
- É um garoto... Eu trombei com ele no parque, ontem. É um garoto com um nome esquisito... Uma coisa que começa com 'A'... Anda sempre engravatado, branquelo, magricela... Alguma coisa... Fowl.
- ARTEMIS FOWL?! O FILHO?! Como você não me conta disso, sua, sua... Desgraçada!
- Hã?!
- Ele é um espetáculo! O lindo e maravilhoso filho gênio e recluso da família Fowl? Meu Deus! Mas, fora isso, amiga, o que você vai fazer hoje à noite?
- Eu... Acho que eu vou numa festa de aniversário.
- De quem? – Susie continuava o interrogatório.
- Do próprio – Liz respondeu com um suspiro. – Eu vou à festa de Artemis.
Por um momento, Susie parou de falar.
- Você vai me levar, não vai?
- Mas é claro... Que não, sua estúpida. Ele ME convidou, eu não vou ser folgada e levar mais um monte de gente.
- Mas sou só eu...
- Susie, não. Agora, se me dá licença – ela bebeu mais um gole da Coca-cola do copo – eu vou desligar, estou chegando em casa.
- Lizzy, por favor!
- Não, Susie. Por que não chama o nojento do Victor para o cinema? Beijos, Susie. Vou desligar.
- Tchau, Liz.
Elizabeth estava surpresa com toda a questão que sua amiga fizera de ir à festa. Aquilo era estranho, talvez ela realmente devesse levá-la, já que não conhecia ninguém da festa, a não ser Artemis, que certamente estaria ocupado demais com seus convidados. Não demorou muito para bater- lhe uma forte insegurança e um desejo de permanecer em casa, não ir à festa, de ir ao cinema com as amigas. Mas ela havia lhe dito que iria, e Butler a estaria esperando às nove – não tinha escapatória.
Diferente dele, que finalmente havia dormido, ela havia passado a noite revirando-se na cama, sem sono. Tinha grandes olheiras, que ela disfarçara com maquiagem para sair de casa, e estava exausta. E tinha se arrependido de ter aceitado ir à festa.
Pediu a Geoffrey, o mordomo, um londrino de oitenta e um anos, que lhe acordasse às sete horas, quando seu pai chegasse. Os pais de Elizabeth não eram dos mais presentes. Sua mãe era consumista compulsiva, jamais estava em casa, estava sempre em Paris, em Londres, Nova Iorque ou Milão, aproveitando a sua vida, porque, como ela mesma costumava dizer, 'um dia a gente vai, né?'. Andrew, seu pai, era um homem de negócios. Seu casamento era apenas uma fachada, e passava meses e meses fora de casa. Aliás, Elizabeth não estava em Belfast há muito tempo. Estivera morando com seu pai em Berlim por um ano e meio, e em Londres por dois meses, até voltar à sua querida Belfast.
Julie Atlee não se preocupava muito com a filha. Andrew, sim, fazia questão de repetir que a amava cada vez que a encontrava. Julie preferia comprar-lhe roupas caríssimas, e crer que sua filha realmente achava que ela se importava com ela. Seu pai era seu melhor amigo. Porém, o período que passavam juntos era mínimo. Quando ele saía para o trabalho, sua filha já havia saído para o colégio, e, quando voltava, ela já estava dormindo. Nos finais de semana que passavam juntos, ele fazia questão de levá-la para almoçar, para que passassem um mínimo de tempo juntos, e para que conversassem sobre suas vidas.
Aos sábados, porém, ele voltava mais cedo, às sete, aproximadamente. Assim, quando Andrew chegou, ele foi acordar a filha, que dormia numa poltrona, com um livro no colo.
- Liz – ele disse baixinho, acordando-a – Lizzy, acorde, sou eu.
Esfregando os olhos, ela o abraçou.
- Olá, papai.
- Geoffrey me disse que tem um compromisso hoje.
- Pois é – ela concordou, fazendo um muxoxo. – Eu tenho que ir a uma festa. Não vou poder jantar com você hoje, papai.
- Tudo bem. Quando estiver pronta, avise-me, eu levo você. Há tanto tempo que não levo você para lugar nenhum.
Elizabeth sacudiu a cabeça, concordando.
- Mas não precisa, papai. Alguém vem me buscar às nove.
Andrew fez uma careta.
- Ele tem carteira, pelo menos? – falou, com um risinho. – É bonito?
- Papai, é o motorista de... Um amigo. – ela respondeu, com um sorriso irônico.
- Certo, certo, então está tudo bem.
Elizabeth foi, então, aprontar-se. Sentia uma ponta de preocupação com seu pai, que ficara entristecido porque ela não jantaria com ele, e também com Artemis, por mais que ela mal o conhecesse, mas ele não aparentava estar bem naquela tarde.
Às nove em ponto, Elizabeth estava pronta, num belo vestido Chanel, um dos presentes de sua mãe. Desceu para esperar Butler, e seu pai a estava esperando ao lado da porta.
- Boa noite, papai. – ela se despediu dele com um beijo de leve em seu rosto.
- Boa noite, querida. Você está muito bonita. – ele a abraçou. – Depois você me conta?
- Conto, papai – ela falou, rindo, enquanto ele vestia nela o casaco. – Tchau.
Butler estava parado do lado de fora do carro, com a porta aberta para que ela entrasse.
- Boa noite, Srta. Atlee. – Butler disse.
- Boa noite... Butler. É Butler, não é?
- Sim, Srta. – ele respondeu com um sorriso. – Sente-se bem? Parece um pouco nervosa.
- Não tenho certeza se devo ir a essa festa, Butler. Mal conheço Artemis, não conheço ninguém além dele. – ela disse, enrubescendo levemente.
- Não se preocupe com isso – ele a empurrou levemente para que entrasse no carro. – garanto que irá se surpreender. Tem a minha palavra.
Em casa, enquanto sua mãe recebia, empolgada, milhares de convidados dos quais Artemis não conhecia ninguém, ele encarava a si mesmo, debruçado na bancada da pia, no enorme espelho do banheiro, em busca de alguma imperfeição na pele alva. Alguma espinha, ruga, olheira, sarda ou mancha de qualquer tipo. Algum resquício de barba, também não havia. Completava dezesseis anos naquele dia, e ainda não havia nascido um pêlo sequer em seu rosto.
Olhou discretamente no relógio de pulso, que marcava nove horas e dez minutos. Pela primeira vez, ele estava nervoso para uma de suas malditas festas de aniversário. Pegou um pente, e, com as mãos levemente trêmulas, ajeitou os cabelos e arrumou a gravata e a camisa, ambos pretos. Seu terno era Dior, feito sob medida, vestia-lhe perfeitamente. Suspirou, vestiu o paletó e saiu do quarto.
Sua casa estava irreconhecível. Havia gente por todas as partes, e Artemis fez uma cara de nojo ao vê-las, da escada, circulando pelo primeiro andar. Desceu as escadarias lentamente, para que ninguém o notasse. Ele discretamente se infiltrou no meio das pessoas, pegou uma taça de champanhe e isolou-se, mantendo-se longe especialmente de sua mãe. Olhou novamente no relógio da sala, que marcava nove e quinze, bebendo tudo o que havia dentro da taça num gole só. Estalou os dedos, passou a mão nos cabelos, olhou novamente o relógio. Precisava se tranqüilizar. Foi quando viu Butler entrar na casa.
Artemis sentiu um calafrio, pegou outra taça de champanhe e virou-se de costas para a porta, tentando disfarçar o medo ou o nervosismo. Mantenha a compostura, pensava consigo. Artemis bebeu um gole do champanhe, e permaneceu olhando para o ponteiro dos segundos no relógio de pulso. Até sentir uma mão em seu ombro.
- Artemis?
Ele virou-se para trás, e viu Elizabeth tocá-lo. Sua surpresa foi tamanha que se engasgou com o champanhe que estava bebendo. Ela não estava bonita, estava deslumbrante. Seus cabelos estavam ondulados e soltos sobre os ombros e pelas costas, ambos descobertos pelo enorme decote do vestido azul. E Artemis estava muito elegante, vestido todo em preto.
- Boa noite – ele gaguejou.
- Boa noite, Artemis. E... Meus parabéns, de novo. – ela respondeu, com um sorriso.
- Obrigado – ele respondeu, bebendo mais um gole, ainda surpreso. – Bebe?
- Talvez.
Artemis pegou outra taça da bandeja de um garçom que passava e entregou a ela.
- Achei que fosse estar ocupado com seus convidados, não achei que fosse encontrá-lo aqui, sozinho, bebendo.
- Se quer saber, eu não conheço ninguém aqui, além de você e meus pais. Venha, eu vou lhe mostrar o lugar, antes que alguma dessas malditas velhas aperte as suas bochechas ou que algum ancião peça para dançar contigo.
Ao dizer aquilo, Artemis lhe deu o braço. Elizabeth hesitou, mas acabou aceitando que ele lhe guiasse, envolvendo seu braço com uma mão.
Naquele momento, Elizabeth notou: desde que o conheceu, ele não dera um único sorriso. No máximo, um meio-sorriso ou uma risadinha sarcástica. Era sua festa de aniversário, e, no entanto, ele tinha um olhar cheio de amargura e uma aparente frustração, o que a deixava intrigada. Porém, a julgar pela festa, ela acabou por concordar que ele agisse daquela maneira. Não conhecia ninguém, detestava o dia de seu aniversário. Uma festa para um garoto de dezesseis anos, regada a champanhe e uísque, decorada de uma maneira fria, que fazia o casarão parecer um cemitério, a julgar pelas velas, flores brancas e pela música clássica que tocava. E, considerando a expressão de Artemis e sua roupa completamente preta, ele parecia mesmo estar de luto. Havia mais alegria num cemitério do que nele.
Artemis a guiou pelo meio das pessoas, que mal o notaram. Ao ver sua mãe, mesmo que ao longe, tratou de esconder-se, e de, especialmente, pôr Elizabeth longe dela. Em vão.
- Arty, querido! – sua mãe gritou, aproximando-se dele.
- Fuja para os abrigos – ele falou discretamente para Elizabeth – um genocídio está prestes a acontecer. – Elizabeth apenas deu uma risada.
- Arty, meu filho – sua mãe segurou seu outro braço, forçando-o a virar-se para ela. Com um sorriso falso estampado no rosto, ele virou-se, dando o braço novamente para que Elizabeth o segurasse. – onde esteve esse tempo todo? – sua mãe continuou, olhando em seguida para Elizabeth, que segurava o braço dele contra o corpo, envergonhada. – e quem é a sua...
- Amiga. – Artemis completou. – Mamãe, conheça Elizabeth Atlee – ele a empurrou levemente para a frente, para que sua mãe a cumprimentasse. – Srta. Atlee, esta é Angeline Fowl. Minha mãe.
- Dos Atlee da exportadora? – Angeline comentou discretamente com ela.
- Sim, Sra. Fowl. Dos Atlee da exportadora.
- Artemis... – sua mãe discretamente dirigiu-se a ele.
- Mamãe – ele logo a repreendeu – não comece. Ela é MINHA convidada. Agora, se me permite, mamãe, com licença.
Artemis a puxou levemente para longe de sua mãe. Elizabeth não entendeu absolutamente nada. Ele a levou de volta para o salão de entrada, cheio de gente.
- É... Uma bela festa. – Elizabeth falou discretamente.
- Pode dizer que é intragável, eu não me importo. Não fui eu que organizei, afinal de contas. Minha mãe, no meu aniversário, se torna a pessoa mais insuportável do mundo. São flores para cá, canapés para lá, champanhe para lá, etc. Ela nunca sequer me perguntou se eu gostaria de tudo isso.
- Não diga isso da sua mãe – ela segurou o braço dele com as duas mãos.
- Aposto que a sua mãe não é assim, e por isso você diz isso da minha. – ele disse, entregando-lhe uma taça de champanhe e pegando outra para si.
- Não, minha mãe na verdade nunca me fez uma festa de aniversário. – ela respondeu, como quem lhe dava uma lição de moral – Ela sempre esteve ocupada demais gastando o dinheiro do meu pai, esquiando em Aspen, fazendo compras em Paris ou na Quinta Avenida.
- Meu pai também não foi dos mais presentes, se é o que quer dizer. Escute, Srta. Atlee, isso não é um assunto muito bom para uma conversa. – Artemis cortou, levando-a para uma varanda.
- Mas é um belo jardim. – Ela o soltou, mudando o assunto da conversa, e debruçando-se na sacada.
- Quer que eu te leve? – Ele perguntou, engolindo o que restava de sua taça de champanhe.
- Quero – ela concordou com um sorriso, segurando seu braço novamente.
Os dois desceram até o jardim, ainda com os braços dados. As luzes do jardim estavam todas acesas, tudo estava decorado com arranjos de lírios e rosas brancas. As mãos de Artemis suavam frio, evitando ao máximo tocá-la para que ela não percebesse o nervosismo.
- Está uma noite agradável hoje. – ele comentou.
- Para você, que está engravatado – ela respondeu, batendo os dentes.
- Desculpe-me pela indelicadeza – ele a soltou e tirou o terno, oferecendo-o a ela e erguendo uma sobrancelha. – Deve estar morrendo de frio.
- Obrigada – ela falou, vestindo o terno. – Seu jardim é lindo. As flores também são... Muito bonitas. – ela gaguejou, sem graça.
Artemis jamais tinha galanteado uma mulher. Naquele momento, porém, deu-lhe um acesso de cavalheirismo. Tirou uma rosa de um arranjo e entregou a ela, ainda sério. Deu-lhe, no máximo, um meio-sorriso sarcástico e um olhar estranho. Ela enrubesceu facilmente.
- Você está muito bonita esta noite. – ele comentou, pondo as mãos nos bolsos da calça.
- Você também está... Muito elegante – ela riu – aliás, todos os três dias que eu te vi, você estava engravatado e alinhado.
- Obrigado. – ele murmurou de volta.
No jardim, eles podiam ouvir a música que vinha de dentro do palacete, lotado de gente.
- Meu Deus – ela exclamou – eu adoro essa música! Você dança comigo?
Artemis estava acuado.
- Aqui? Mas... Eu... Não sei dançar – ele gaguejou, nervoso.
- Eu te ensino, então – ela pôs as mãos ao redor do pescoço dele suavemente. – Agora ponha as mãos na minha cintura. – Artemis fez uma careta. – Vamos, não tenha medo. – ele finalmente pôs as mãos em sua cintura. – Isso. Agora, mexa-se – ela terminou, fazendo-o mexer os quadris.
- Mas o que – ele se afastou um pouco dela – não, me perdoe. Isso vai ser impossível.
- Não, não vai – ela o puxou contra seu corpo. – Apenas me siga. É fácil.
Depois de um minuto de música tocada, Artemis ainda tinha uma expressão estranha no rosto. Jamais dançara com alguém, ainda mais daquela maneira. Suas mãos, antes separadas pela cintura de Elizabeth, haviam se encontrado em suas costas, abraçando-a por completo, involuntariamente. Ele olhava para a casa, com os olhos arregalados, com medo de que alguém pudesse vê-los, enquanto ela o abraçou pela cintura, acomodando-se em seus braços.
Artemis gelou. Não sabia o que fazer. Aja naturalmente, ele pensava consigo. Mas o que era agir naturalmente numa situação daquela? Era o que ele não sabia. Ela havia encostado a cabeça em seu ombro, o que o fez tremer. Não passe para ela o seu nervosismo, ele continuava pensando. Afinal de contas, você é o que, um homem ou um rato? Meu Deus, acho que isto é o paraíso.
A música havia terminado, mas ela não o soltara. Uma das mãos dele, inclusive, agora enrolava em um dedo uma fina mecha dos cabelos dela. Ele já havia perdido o controle de suas ações. Tinha uma vontade incontrolável de beijá-la. Mas não podia, era fora de cogitação. Ela poderia bater nele.
Artemis olhou discretamente no relógio de pulso, que marcava cinco minutos para a meia-noite. Estava frio no jardim, Elizabeth vestia o seu terno, e eles já estavam ali, parados, sem mais dançar, por quase dez minutos. Artemis tomou coragem e se afastou um pouquinho dela. Ela aparentava estar dormindo, aconchegada em seu terno. Mas ele tinha de fazer alguma coisa.
- Srta. Atlee – ele falou baixinho. – Elizabeth? Ehr – ele gaguejou, levantando o rosto dela delicadamente com uma mão – Liz?
Ela suspirou, abriu os olhos, assustada, e o soltou.
- Desculpe-me – ela falou, ajeitando os cabelos. – Eu acho que... Deve ser o champanhe, eu sou muito fraca pra isso – ela deu um risinho, olhando-o em seguida. – Que mãos geladas – ela segurou ambas as mãos dele.
- Não ligue para isso – ele comentou – eu sou uma pessoa fria.
- Ehr – ela gemeu, sem graça – pode... Me dizer que horas são?
- Faltam dois minutos para a meia-noite – ele respondeu. – Quer entrar?
- Eu... Acho que devo ir embora.
- Deve estar sendo insuportável para você. Essas são as malditas festas dos Fowl, Srta. Atlee. Venha, eu vou pedir a Butler que a leve de volta para casa – ele lhe deu o braço novamente.
- Não, não. Eu pedirei a Geoffrey que venha me buscar, não se preocupe comigo.
- Venha comigo. Está frio aqui fora.
Artemis a carregou para um salão de dança vitoriano, que estava aberto, porém vazio. A lareira estava acesa, e ele fez um gesto para que ela se sentasse no confortável sofá à frente da mesma. Depois fez um sinal para que ela esperasse, e a deixou ali, sentada, sozinha, por cinco minutos, quando retornou, acompanhado de Butler. Elizabeth, porém, havia adormecido, recostada num dos braços do sofá.
- Espere um minuto, Butler, eu vou acordá-la. – Artemis ameaçou ir até ela, mas Butler o segurou.
- Não, Artemis – ele falou baixinho – deixe-a dormir. Eu saio pelos fundos com ela.
- Sim, Butler. Eu vou me retirar. Boa noite.
Artemis saiu da sala, e rumou direto para seu quarto, evitando que sua mãe o visse. Butler, enquanto isso, carregou Elizabeth, adormecida, até o carro, e a levou para casa.
Trancado em seu quarto no dia de seu aniversário, Artemis acabou dando falta de seu terno, que ele esquecera com Elizabeth. Estava sentado no chão, encostado na cama. Esfregou os olhos, tirou o relógio e colocou-o na cabeceira. Foi quando sua mãe entrou no quarto.
- Artemis?
- O que quer, mamãe?
- Conversar com você, querido.
- Mamãe, eu não estou bem para conversar. Estou exausto. Falarei sobre o que quiser amanhã pela manhã, sim? – ele fez um discreto gesto para que ela se retirasse, mas ela havia se sentado numa poltrona próxima da cama. Artemis deu um suspiro. – Mamãe, seja o que for que quer, fale rápido. – ele terminou, esfregando o rosto com ambas as mãos geladas.
- Eu os vi no jardim, Arty.
Artemis arregalou os olhos e a olhou.
- O que viu?
- Você estava com os olhos fechados. Não viu o que estava fazendo. E, quando ela o abraçou, ficou com medo. Eu sei que ficou, Arty. Você temeu colocar as mãos nela a acabar tendo uma vontade incontrolável de tocá-la, não é? E depois, quando ela confiou em você o suficiente para aconchegar-se nos seus braços e usar o seu terno, você temeu ter ido rápido demais e ter feito a coisa errada mexendo nos cabelos dela.
- Como... – ele a olhava, espantado. – Como sabe de tudo isso?
- Eu os vi no jardim – ela respondeu calmamente – e notei o seu olhar para mim quando nos apresentou e o brilho envergonhado nos olhos dela. Artemis...
- O que?
- Você a beijou?
- NÃO! – Artemis respondeu, ríspido. – Digo... Não, mamãe.
- Não precisa ter vergonha de mim, Artemis.
- Não a beijei.
Angeline notou, na atitude do filho, a verossimilhança do que ele lhe dissera. Ele não a havia beijado, era fato. Se ele tivesse, ele talvez tivesse enrubescido de vergonha, e não teria escondido o rosto entre os braços pela vergonha. Sua mãe inclinou-se, o beijou na testa, despediu-se e se retirou. Artemis recolheu-se na amargura de querer tê-la beijado e de não tê-lo feito, e do nervosismo de não saber como lidar com aquela situação, de querê-la e de ter medo de usá-la a ponto de magoá-la.
Ele só a conhecia há dois dias. Dois únicos dias, que ele estava transtornado.
Tentando se controlar, ele trocou de roupa e colocou o pijama, caindo no meio dos travesseiros. Quando estava quase adormecendo, sua mãe bateu novamente à porta.
- Artemis? – ela perguntou baixinho.
- O que foi dessa vez? – ele resmungou.
Angeline jogou um casaco azul-marinho numa poltrona.
- O casaco dela. Ela o esqueceu. Boa noite, Arty.
Artemis jogou-se novamente nos travesseiros. Parecia uma provocação.
Por várias vezes durante a noite, Artemis acordou, transtornado. Numa delas, eram quatro da manhã, e, curioso, vestiu o roupão e abriu a porta, a fim de ver se ainda havia alguém. Já estava tarde, mas a sua casa ainda estava forrada de gente. Os homens bebendo Brandy e fumando charutos fedorentos, enquanto as mulheres bebiam seu champanhe e fofocavam. Artemis ousou aproximar-se das escadarias que davam para o salão de entrada, encostando-se numa pilastra e admirando as pessoas. Viu sua mãe, rodeada de pessoas, falando de alguma futilidade que certamente iria entreter seus convidados por vários minutos. Antes que ela pudesse ver que ele havia acordado, ele retornou ao quarto.
Assim que fechou a porta do quarto, esfregou os olhos e mordeu o lábio, ainda sendo assombrado pela sensação de ter uma mulher em seus braços – pela primeira vez, por pura e espontânea vontade.
Sem acender a luz, com o quarto iluminado apenas pelas luzes que vinham do lado de fora, através da janela e das cortinas que ele deixara abertas, ele se sentou numa poltrona, a poltrona em que estavam jogadas as suas roupas. Esticou uma mão e alcançou a sua gravata, ainda com o nó, que antes se dependurava do encosto da poltrona. Ao desfazer o nó, a gravata exalou um aroma diferente, que ele sentira apenas uma vez na vida, algumas horas atrás. Ambas sua camisa e gravata estavam impregnadas com um maravilhoso perfume feminino, que o estava deixando quase maluco.
Artemis resolveu, forçado, voltar a dormir.
