No dia que se seguiu, pela manhã, ele saiu do quarto e olhou o que havia restado de sua casa. Uma completa bagunça. Parecia-se mais com uma trincheira da primeira guerra do que com o seu luxuoso palacete. Olhou com nojo os inúmeros empregados limpando tudo aquilo, do segundo andar, e retornou para o quarto.
Do banheiro, enquanto arrumava meticulosamente os cabelos como costumava fazer toda manhã, viu, através do reflexo no enorme espelho, um casaco azul-marinho sob uma poltrona. Que casaco era aquele, se perguntou. Até recordar-se de sua mãe, na noite anterior, trazendo-lhe o casaco que Elizabeth esquecera. Maldita perseguição, concluiu.
Pegou o casaco de cima da poltrona, e admirou-o. Era um belo casaco azul, comprido, com detalhes em branco na gola e nas mangas. Combinava perfeitamente com o vestido que ela usara, de dois tons de azul e um belo decote nas costas. Ele seria obrigado a vê-la de novo. O problema seria como ele o faria.
Lembrou-se do que ela havia dito a ele. Todos os dias ela ia andar naquela coisa esquisita com rodas, às quatro. Se fosse para o parque, às quatro, talvez a encontrasse, concluiu. O problema era o seu terno. Dior. Estava com ela, como ela o devolveria? Ele devia falar com ela, mas não tinha seu telefone, da última vez ela havia esquecido o telefone celular com ele.
Foi quando o casaco tocou.
Ao ouvir o casaco tocar e vibrar, Artemis assustou-se, e a primeira coisa que fez foi deixar o casaco cair no chão, levando em seguida uma mão ao coração, que batia acelerado. Excelente, pensou, o telefone também estava com ele, e quase o matara do coração. Que ao menos fosse ela, e não a tal Susie a telefonar de novo. Catou o casaco do chão, enfiou a mão nos bolsos e tirou de dentro de um deles o maldito aparelho de telefone. Abriu- o, e leu Casa.
Como da última vez, ele apenas abriu o aparelho, sem falar nada.
- Alô? – uma voz um pouco rouca falou.
- Sim? – Artemis respondeu.
- Artemis, é Elizabeth. Desculpe-me por ter ligado assim, tão cedo. Talvez fosse dormir até mais tarde hoje.
- Dormir até mais tarde é o tipo do hábito que eu não cultivo, Srta. Atlee – ele respondeu, enfatizando sua ironia. – E você esqueceu ambos seu casaco e seu telefone celular novamente comigo.
- E o seu terno ficou comigo.
- Eu sei disso – ele respondeu, demonstrando uma ligeira irritabilidade. Se havia algo que ele odiava em que mexessem, estes eram seus ternos. Aliás, ele não sabia onde estava com a cabeça quando ofereceu a ela seu terno Dior. – Quero saber quando pode devolvê-lo. Aliás – ele interrompeu a si mesmo.
- Sim?
- Devo ir a uma exposição hoje – ele disse – talvez gostaria de ir comigo? Se é que gosta de impressionismo, o que eu suponho que...
- Adoro – ela interrompeu – Monet é meu favorito. Seu jogo de pinceladas é incrível. Visto de perto parece apenas um aglomerado de cores sem sentido, porém visto um pouco mais de longe tem um efeito incrível.
Artemis estava boquiaberto.
- Como... Digo, sim, está certo. Passarei então para pegá-la às seis.
- Ehr – ela hesitou por um momento. – Então... Pode ser. Obrigada. Tchau, Artemis.
E ela desligou. Quando Artemis fechou o aparelho, parou para refletir. ONDE ESTAVA COM A CABEÇA, ele pensou consigo. Assuma, Artemis, você a quer. NÃO! Impossível. Malditas crises esquizofrênicas, ele tinha que parar com isso. Sentia sua sanidade se esvair cada vez mais e mais.
Na verdade, ele precisava parar de pensar nela, isto era do que ele precisava. Mesmo que negasse, não havia coisa que não o lembrasse dela – fosse o perfume impregnado na camisa, o terno que ela levara, a música clássica, o champanhe, o parque, o skate – qualquer coisa. Pendurou, então, o casaco dela no encosto de uma poltrona da sala de seus computadores, e guardou o telefone celular num dos bolsos de seu terno.
Sentado à frente de seus computadores, admirava-os, concluindo que ele realmente não tinha nada a fazer a não ser esperar. Olhou o relógio, ainda eram onze da manhã.
Foi, então, até a biblioteca. Era uma biblioteca enorme, em estilo vitoriano, como boa parte da casa, com dois andares e uma enorme escadaria de mármore ornada com um elegante tapete aveludado, cor de vinho. Artemis olhou rapidamente ao redor da biblioteca, e lentamente subiu as escadas. Caminhando por entre as prateleiras, ele olhava cada uma rapidamente, como se estivesse numa loja. Porém, ao passar direto por uma das prateleiras, parou repentinamente, intrigado. Voltou e pôs-se de frente para a mesma, com um olhar de nojo. Catou uns livros, e os carregou para fora da biblioteca.
Artemis caminhava rapidamente pelo corredor principal do primeiro andar, com um olhar de nojo no rosto e oito livros empilhados debaixo dos braços. Subiu as escadarias e entrou no quarto de sua mãe, empurrando a porta com um pé.
- Arty, querido – sua mãe disse-lhe, pondo o livro que lia sobre a cama. – entre.
- Mamãe – ele resmungou ao entrar no quarto, arremessando os livros sobre a cama. – pode me dizer que diabos essas coisas estavam fazendo no meio dos meus livros de Freud?
- Ora, querido. Eu os comprei quando tinha nove anos, você devia lê- los.
- Harry Potter e O Senhor dos Anéis?! Mamãe, aos nove anos eu estava lendo Victor Hugo! Aliás, não tente me enganar, mamãe, o quinto volume de Harry Potter é recente! Por favor – ele recolheu os livros de cima da cama, abriu as cortinas e a janela, indo até a varanda – isto – ele começou, arremessando um dos livros pela janela – é lixo! – ele terminou, arremessando todos de uma vez.
- Artemis! – sua mãe se assustou – Você está ficando maluco? Controle- se!
Artemis encarou a mãe com um olhar de nojo.
- Mamãe, por favor. Me deixe em paz um único momento. Já não bastou a festa de aniversário, agora esses livros? Por favor.
- Querido, você não queria ler alguma coisa?
- Já encontrei o que queria. – ele respondeu, saindo do quarto.
- O que?
- Crime e Castigo. Fiodor Dostoyevski. E não me encha a paciência.
- Mas, querido...
Naquele momento, Artemis bateu a porta com toda a força. Carregou o livro de Dostoyevski até a sala de seus computadores, onde se jogou no sofá para recomeçar a ler. Já havia lido Crime e Castigo inúmeras vezes. Mas era um de seus favoritos, ele não se cansava. E devorava o livro em pouquíssimo tempo.
Daquela vez, foi diferente.
Artemis não conseguia se concentrar direito em sua leitura. Passou, porém, horas debruçado no livro. Não almoçou, permaneceu trancafiado no quarto, ora olhando fixamente para o livro, porém sem passar as páginas, ou sequer ler as palavras, ou ora olhando para a janela com um olhar perdido. Ele definitivamente precisava fazer alguma coisa.
Olhou no relógio que havia sobre a lareira – marcava quatro da tarde. Precisava ter alguma coisa para fazer. Resolveu mergulhar em sua leitura definitivamente.
Quando olhou novamente no relógio, ele já marcava cinco horas. Talvez ele devesse se arrumar, pensou consigo. Ou talvez não. Artemis nunca fora uma pessoa indecisa, muito pelo contrário. Naquele momento, ele chegou à conclusão de que realmente, ele havia ficado completamente maluco. Ele não havia de esperar muito – eram cinco horas e cinco minutos, segundo seu relógio de pulso, cinco horas e sete segundo o website da CNN. Acertou o relógio, adiantou-o em dois minutos, e foi até o quarto.
Escancarando as portas do enorme closet, ele olhou as camisas, perfeitamente penduradas, uma ao lado da outra. Analisou-as rapidamente, puxou uma pelo cabide, e olhou-a minuciosamente. Não poderia usar branco – branco o deixava ainda mais pálido. Preto não seria original, pareceria que ele só tinha aquilo para usar. Listras, nunca, o deixariam ridículo. Verde, talvez. Verde era uma bela cor, afinal de contas. Mas não, ele ficaria parecendo uma planta.
Já eram quase cinco e meia quando ele decidiu-se pelo azul. Um belo terno preto, uma camisa azul clara e uma gravata azul-marinho. Os cabelos estavam meticulosamente penteados – a franja lisa caía de lado de uma maneira discreta, encobrindo levemente seu olho direito. Artemis aproximou- se mais de um dos enormes espelhos do closet e novamente vasculhou o rosto atrás de imperfeições. Nenhuma espinha, nenhum cravo sequer. Depois de meio minuto, concluiu que foi inútil procurar por marcas num rosto tão pueril.
Artemis ainda tinha feições um tanto quanto infantis. O nariz e os lábios eram finos e delicados, nenhuma espinha – talvez houvesse discretíssimas rugas se formando no canto dos olhos, mas nada que fosse preocupá-lo. O que ele detestava era o rosto de criança, aquilo era mais um paradoxo. Seus olhos levemente repuxados e cintilantes de tão azuis transmitiam uma seriedade que um rosto infantil jamais poderia passar por si só.
Os olhos de Artemis tinham um brilho cinzento, fraco e triste, mas, ao mesmo tempo, ameaçador, debochado e sério. Em excesso, talvez. Talvez ninguém ousasse olhá-lo nos olhos, ou ele fulminaria o indivíduo que tentasse com apenas um olhar. Eram amedrontadores.
Olhando no relógio novamente, ele espantou-se. Havia perdido muito tempo. E havia perdido seu precioso tempo arrumando-se... Para uma garota. Aonde está com a cabeça, recomponha-se, ele pensava consigo. Artemis esfregou os olhos, jogou a franja para o lado, admirou-se uma última vez no espelho com um olhar sério, catou o casaco dela de cima da poltrona e saiu.
Chamou por Butler, disse-lhe aonde iriam. Butler manobrava o carro para sair da mansão Fowl quando Artemis interrompeu:
- Butler – ele disse, ajeitando um botão da manga direita da camisa – iremos antes à casa da Srta. Atlee.
- Pretende demorar-se, Artemis?
- Eu, não. – ele respondeu, esticando as dobras do terno – Não sei quanto a ela.
Butler parou o carro na porta da enorme casa da Srta. Atlee. Não entendeu quando Artemis saltou do carro por conta própria, e permaneceu de pé, com os braços cruzados, à porta do carro. Até Elizabeth sair da casa. Uma parte de seus cabelos estava presa para trás, e ela descera as escadarias equilibrando-se nos saltos de seus sapatos e com uma mão num dos bolsos de um belo casaco preto e um cachecol vermelho que balançava, contra o vento, e carregando alguma coisa.
- Boa noite. – ela falou quando o encontrou, jogando o cabelo dele levemente para o lado.
- Você está cinco minutos atrasada. – ele disse, amargo.
- Eu, não – ela interrompeu – você está. Eu estou pronta desde que faltavam dez minutos para as seis. E são – ela indiscretamente puxou o braço esquerdo dele e empurrou as mangas do terno e da camisa, olhando no relógio de pulso dele – Seis e cinco.
Artemis ergueu uma sobrancelha e franziu o cenho.
- Meu relógio está dois minutos adiantado. – respondeu, puxando o braço de volta. – Vamos, entre. – ele abriu a porta do carro e ela entrou. – Maldita CNN. – resmungou, atrasando o relógio em dois minutos. – Butler, podemos ir.
- Artemis...
- Sim, Butler. Apenas saia, por favor. – ele falou, ainda tentando abotoar o botão da manga.
- Por favor – ela interrompeu, puxando delicadamente o braço direito dele – deixe que eu faço isso. Você não parece ter muita habilidade manual com a mão esquerda.
Artemis olhava-a, intrigado, enquanto ela abotoava um único botão na extremidade da manga direita de sua camisa azul. Como ela ousara dizer que ele estava atrasado, ajeitar sua camisa, o seu cabelo, se ela o conhecia há poucos dias?
- Obrigado – ele resmungou.
- Aqui, eu trouxe o seu terno.
- Eu trouxe o seu casaco.
Ele lhe entregou o casaco e ela entregou o terno a ele.
- Eu... Posso deixar o casaco dentro do carro?
Artemis olhou discretamente para Butler, que o olhava pelo espelho retrovisor, com um sorrisinho irônico e as sobrancelhas erguidas. Suspirou, e acabou concordando. Desde que ela não esquecesse o casaco novamente no carro.
Chegando ao lugar, Butler saltou do carro e abriu a porta para os dois, que saltaram em frente à porta do prédio em que estava acontecendo a exposição.
- Butler – Artemis começou, olhando para cima para encarar o mordomo de dois metros e dez centímetros de altura. – pode ir. Quando terminarmos, o chamarei.
- Sim, Senhor. – ele assentiu, com um sorriso sarcástico para ele, que estava levemente corado.
Os dois assistiram Butler sair com o carro. Artemis, em seguida, olhou-a com as pálpebras levemente fechadas e um jeito desconfiado. E ofereceu-lhe o braço. Mesmo um tanto hesitante, ela aceitou, e segurou o braço dele para entrarem.
Artemis entrou, arrogante, no hall de entrada da imensa galeria em que ocorria a exposição. Seus olhos avaliaram uma e cada pessoa do lugar, o modo como agiam, como se vestiam, como falavam. E fez uma breve expressão de nojo. Elizabeth o havia soltado, e deixava seu casaco com alguém numa recepção.
- Meu Deus – ela exclamou, sorrindo, quando retornou – Cézanne! – ela o cutucou e subiu rapidamente as escadarias, colocando-se de frente a um quadro. – Venha! – ela gritou para ele.
Artemis a olhava com estranheza. Que tipo de pessoa tinha aquele comportamento estranho?
Enfim, arrastou-se, disfarçando o embaraço daquela cena dos outros, que sequer se importavam com a sua presença ali. Parou ao lado de Elizabeth, olhando-a e tomando o cuidado necessário para que ela não notasse que ele a estava observando. Nos menores detalhes. Sem o casaco escuro, ela usava uma bela blusa com um decote que exibia seus ombros e pescoço, levemente queimados pelo sol. Uma mão apoiada no queixo, um sorriso e um olhar intrigado para a pintura o fizeram erguer uma sobrancelha.
- Você gosta? –ele perguntou, um tanto gago, olhando para as pernas dela, que escapavam da saia na altura dos joelhos por uma discreta fenda na lateral.
- É lindo – ela disse, olhando para ele e fazendo-o ruborizar-se ao flagrá-lo olhando suas pernas. – adoro Cézanne. Adoro impressionistas, mesmo que Cézanne seja precursor do cubismo, que eu já não gosto muito. Gosto das pinturas de cenas que são mutáveis... É um segundo numa situação que está mudando constantemente. Gosto disso.
Artemis estava parcialmente boquiaberto.
- Ehr – ele gaguejou – venha, continuemos. Cézanne não é dos meus favoritos. – e ele lhe ofereceu o braço novamente.
Ela envolveu o braço dele com uma mão, saltitante.
Uma hora e quarenta minutos depois, estavam os dois, ainda de braços dados, parados à frente de um Monet autêntico. Suas cabeças estavam levemente caídas para o lado, quase se chocando uma com a outra. A de Artemis caía para o lado direito, fazendo sua franja encobrir seu olho direito por completo, enquanto a dela estava levemente inclinada para a esquerda.
- Não é lindo? – ela quebrou o silêncio. – veja as pinceladas, elas não tem... Nexo. Surgem do nada, terminam no nada. Visto assim, de perto, parece um pouco... Um pouco...
- Confuso – ele completou.
- É. – ela concordou, extasiada. – É brilhante.
Ao elogiar a pintura, ela ergueu um braço e empurrou os cabelos para trás da orelha, fazendo seu brinco cair. Artemis desviou o olhar da pintura e notou o brinco no chão, aos seus pés.
- Permita-me – ele disse a ela com um sorrisinho modesto e irônico, abaixando-se para pegar o brinco.
No mesmo momento, ela se abaixou atrás dele.
- Não é preciso – ela disse, levando a mão à mão dele, que segurava o brinco que ele pegara do chão. Naquele momento, seus rostos passaram muito próximos um do outro, seus olhares se cruzaram. Elizabeth ainda ameaçou falar alguma coisa. Artemis aproximou-se do rosto dela, e, num momento em que ele havia perdido consciência dos seus atos, ele a beijou. Seus lábios se encontraram, suas línguas se chocaram levemente num beijo quase infantil, que ela retribuiu depois de um momento breve de hesitação.
Foi um beijo curto, porém delicado. Uma mecha do cabelo dela caiu, tocando levemente o rosto dele quando ele a beijou. Com os lábios ainda presos aos dela, ele levemente empurrou a mecha que caíra para trás com um dedo. Depois de um beijo que não durou mais que cinco segundos, um doze avos de minuto, um setecentos e vinte avos de hora, os lábios dele buscaram os dela novamente, quase em vão. O olhar dos dois se cruzou novamente e ele terminou beijando-lhe os lábios.
Elizabeth se levantou rapidamente, com o rosto rubro como um tomate. Artemis se levantou em seguida, lentamente, admirando o rosto dela avermelhar-se gradativamente.
- O seu brinco – ele estendeu a mão.
- Obrigada – ela murmurou. Sua voz ficou retida, no entanto. Ele conseguiu entender o que ela dissera, mesmo que só depois de ouvir a última sílaba.
Ela estava trêmula. Não conseguia recolocar o brinco, suas mãos tremiam. Artemis, esticando as pregas do terno, percebera. Depois de uns minutos, ele interrompeu.
- Liz? – ele pôs a mão suavemente sob um ombro dela. Ela estremeceu. – Sente-se bem?
- Sim – ela respondeu no mesmo segundo, um pouco atrapalhada.
- Quer ajuda? – ele ofereceu, vendo a desajeitada cena em que ela tentava colocar novamente o brinco. Quando ele a tocou, o brinco caiu novamente. Devo acrescentar que Artemis abaixou-se novamente para pegá-lo e ele esperou que ela fosse abaixar-se novamente e que ele poderia beijá-la de novo. Mas aquilo foi algo que saiu rapidamente de sua mente.
Ele levantou-se novamente e deu-lhe o brinco, e, finalmente, ela conseguiu recolocá-lo. Artemis a olhava, de braços cruzados, intrigado, quando ela virou-se de frente, envergonhada.
- Obrigada.
- Podemos ir? – ele falou, irônico. Ela apenas sacudiu a cabeça, concordando. Ele então lhe ofereceu o braço novamente, e ela o segurou, ainda levemente corada.
Elizabeth não se sentia bem, na verdade. Ela não esperava que ele fosse beijá-la – e, em seguida, chamá-la de 'Liz'. Depois do que ele fizera, ela já não conseguia mais negar, ela queria beijá-lo novamente, decentemente, abraçá-lo. Não era a primeira vez que ela andava por aí de braços dados com ele, como se estivessem na corte francesa do século dezoito. Aliás, já havia uma hora e quarenta e cinco minutos que andavam assim.
Artemis a guiou levemente até um outro quadro que se destacava da parede iluminada. Parecia que ele estava mais doce, mais cuidadoso. Ele abraçava o braço dela firmemente, mas ainda assim de uma maneira delicada. Ela mordiscava um lábio, um pouco nervosa.
Os dois pararam à frente do quadro, e Artemis abriu mais os olhos, jogando para o lado a franja que lhe encobria a visão. Por mais cinco minutos permaneceram em silêncio. Até que ele desviou o olhar da pintura e a encarou. E permaneceu ali, olhando-a, por um tempo. Até ela perceber e olhá-lo, com um jeito que o perguntava o que queria.
- É... – ela gaguejou. – Bonito, não é?
- Muito. – ele respondeu, sem piscar. – Estão à venda. Vai haver um leilão.
- Leilão?
- Sim. Interessa-se por algum?
- Não. Não gostaria de nenhum desses dentro da minha casa.
Artemis permaneceu calado depois do que ela dissera. Ele não sorria, ela pensou. Os olhos dele pareciam mais penetrantes por causa disso.
Suas mãos e braços haviam se separado. Artemis tinha os braços cruzados para trás, enquanto ela recolheu os seus à sua frente. Notando que ele a olhava, constrangida, ela desviou o olhar para a pintura novamente. Era um Degas autêntico, não era muito grande, e era belíssimo. Artemis, no entanto, mal havia visto a gravura à sua frente.
Passaram-se mais alguns minutos.
Não consigo, pensou Artemis consigo mesmo. Isto não é lugar para isso.
Mesmo assim, Elizabeth sentiu uma mão fria tocar-lhe o pescoço suavemente. Sentiu um calafrio. Olhou novamente para Artemis, e jurou que viu um sorriso discreto no rosto dele. Mas foi apenas um lapso de sua sanidade, ou talvez uma vontade que ela apenas imaginou. Quando seus olhares se cruzaram novamente, Artemis correu os dedos pelo seu pescoço e levou a outra mão à sua cintura.
Ele não fez nada alem de olhá-la e de aproximá-la dele. Ela ergueu as duas mãos e buscou seu rosto, aquele mesmo rosto pálido e sem brilho que ela conhecera, e que agora adquirira uma cor mais rosada e um ar mais delicado e menos sombrio. O rosto dos dois se aproximou, seus lábios igualmente chocaram-se levemente, em algo que não fora um beijo, talvez apenas uma troca de um suave carinho, coisa que Artemis jamais tinha experimentado.
Os lábios de Artemis ainda procuraram os dela uma última vez, querendo encontrá-los de novo, beijá-los de novo. Seus rostos, no entanto, apenas permaneceram juntos por um momento, até Artemis interromper.
- Por favor – ele disse baixinho. – mais um?
- Não – ela o repreendeu, mas foi interrompida. Ele a beijara de novo, de qualquer maneira.
- Venha – ele falou quando terminou. – eu preciso resolver uma coisa.
Artemis deu um meio-sorriso. Ao invés de oferecer-lhe o braço, ele deslizou as mãos pelos braços dela, segurando uma de suas mãos, entrelaçando seus dedos, e puxando-a levemente para que ela o acompanhasse.
Dando alguns passos rápidos, não demorou muito para alguém chamar sua atenção.
- Fowl! – um homem gritou de longe. Artemis parou, virou-se e olhou.
- Jack – Artemis respondeu, virando-se na direção dele e segurando Elizabeth pela outra mão. – é bom vê-lo.
Artemis dirigiu-se ao homem, cumprimentando-o. Era um homem bem mais velho, nos seus cinqüenta, talvez sessenta anos de idade. O homem mexeu numa alavanca que fez sua cadeira de rodas mover-se, ergueu a cabeça e a mão enrugada, alcançando a mão de Artemis.
- Mestre Fowl – o homem disse. – como está?
- Bem, Jack.
- Quem é essa dama adorável? – Jack tentou levantar-se da cadeira, apoiando-se em Artemis.
- Elizabeth Atlee – Artemis respondeu, ajudando-o a sentar-se na cadeira de volta.
- Muito prazer, Senhor...
- Jack. Para criaturas adoráveis como você eu sou apenas Jack. Mas diga-me, Artemis. O que vai querer desta vez?
Artemis virou-se para Elizabeth, sério. Olhou-a rapidamente e murmurou:
- Srta. Atlee, talvez isto demore um pouco. Talvez queira... Dar uma volta?
- Não vai ser necessário – ela respondeu, com um leve tom de deboche. – a não ser que o Sr. Fowl esteja me expulsando.
- Que seja – ele respondeu, notando o deboche. – Fique, se quiser. Mas não vou me responsabilizar pelo seu tédio. Jack – ele virou-se para o homem. – aquele – apontou.
- Oh, sim. Degas. Interessa-se por mais algum?
- Não, Jack. E sei que as peças vão a leilão, mas gostaria de exclusividade. Vamos, ofereço o triplo do lance inicial. – Artemis propôs.
Jack arregalou os olhos por trás dos óculos na ponta do nariz.
- Então... Feito, Sr. Fowl.
- Artemis – Elizabeth interveio, tocando-lhe a mão. Artemis olhou para a mão dela que o tocara, e o olhar dele a inibiu, fazendo-a pôr as mãos para trás. – é apenas impressão ou vai comprar o quadro?
- Você esteve aqui o tempo todo ou era apenas uma alucinação? – ele ironizou. Elizabeth o encarou com uma expressão de estupefação nos olhos. – Vamos, deixe-me dar-me um presente de aniversário. Afinal de contas, um aniversário por si só já é desagradável, deixe-me comprar-me alguma coisa decente que não sejam meias.
Elizabeth calou-se. Mordeu um lábio e deixou-o ali, acabou por decidir dar uma volta. Não por estar entediada, mas pela maneira arrogante e nojenta com que Artemis a tratara. Enquanto isso, Jack deu a Artemis uma pilha de papéis, que ele foi preenchendo e assinando. Não lhe tomou muito tempo, mas teria tomado menos se Artemis não gemesse de cinco em cinco segundos por conta de feridas minúsculas na palma de sua mão.
Quando terminou, Artemis agradeceu e despediu-se de Jack. O quadro ser-lhe-ia entregue em cinco dias – e não iria mais a leilão. Artemis foi à procura de Elizabeth, e encontrou-a de frente para um quadro de Monet, parada, sem mover um milímetro. Nem parecia estar respirando. Ele olhou-a de longe, até vê-la mexer-se, esfregando as mãos nos braços, com frio.
Artemis suspirou. Não sabia ao certo o que se passava em sua mente. Por um lado, ele queria aproveitar aquele momento para fazer certas coisas que ele mesmo vetava. E, por outro, bem, havia o veto. Não conseguia tirar da cabeça que ela era leviana. A razão de achar aquilo, nem ele mesmo sabia.
Aproximou-se dela, tirando o terno e colocando-o sob os ombros dela, dando-lhe um susto. Em seguida, pôs uma mão na cintura e jogou os cabelos para trás com a outra.
- O que foi? – ela perguntou.
- Não sei, você tem algum problema? – ele insinuou de volta.
- O que quer dizer?
- Nada, nada – ele esfregou os olhos, impaciente. – venha, eu estou faminto. Quer jantar?
- Eu...
- Venha, ande, vamos jantar. – ele a pegou pela mão e a puxou.
Parecia que algo havia feito a sua paciência se esvair em pedacinhos. Ficara calado desde a última coisa que falou, não mais sério, mas um tanto emburrado. Chamou por Butler enquanto ela vestia o casaco, distante dela, sem mais olhá-la direito. Virava-se de costas, parecia estar ignorando-a, estava mais frio. Se é que isso era possível. Já era uma pessoa gelada por natureza.
No entanto, algo chamou-lhe a atenção: já não lhe oferecia mais o braço. Pegava-lhe pela mão, entrelaçava seus dedos aos dela. Mas sua mão parecia estar também mais fria.
Artemis comportava-se como um lorde inglês. Abriu-lhe a porta do carro, fê-la sentar-se, e ele tinha apenas dezesseis anos. Talvez já tenha citado isso. Elizabeth, no entanto, achava estranho. Seu relacionamento com os homens até agora não havia sido dos melhores – pelo menos nenhum deles havia sido educado o suficiente para fazer o que Artemis havia feito por ela em apenas três dias.
Dentro do carro, não trocaram uma única palavra. Butler achou estranho, eram raros os momentos que Artemis não tinha absolutamente nada a dizer. Nem mesmo uma crítica, um comentário inconveniente e sarcástico, daqueles que Artemis era mestre em fazer.
Pararam à frente de um restaurante. Um restaurante francês, refinado, elegante. Daqueles que só te atenderia se você fizesse uma reserva – ou se você fosse Artemis Fowl, o adolescente criminoso e milionário de Belfast, que provavelmente subornaria o recepcionista e conseguiria a melhor mesa num estalar de dedos. Exatamente o que ele fizera.
Sentaram-se à mesa, e, pela primeira vez em vários minutos, Artemis a olhou. De uma maneira muito estranha. Apoiando os cotovelos na mesa, ele cruzou os dedos e apoiou o queixo nas mãos, e deu um sorrisinho. Discreto e sarcástico, com uma sobrancelha levemente levantada. Ela, então, deu um sorriso de volta, um pouco sem graça. Não sabia onde enfiar a cara desde que ele a beijara.
Depois de uns minutos, trouxeram-lhes o cardápio, e serviram a ambos de água mineral. Antes que pudessem decidir o que iriam comer, Elizabeth, escondida atrás das taças e das rosas que haviam sob a mesa, cometeu o erro de, discretamente, bocejar.
- Cansada? – ele interrompeu, sem olhá-la diretamente.
- Um pouquinho.
- Pode ir embora, se quiser. Não tem a obrigação de me acompanhar para sempre.
Elizabeth boquiabriu-se. Afastou uma das taças e olhou para Artemis, que ainda não a olhava, olhava para baixo, decidindo-se entre um filé de peixe defumado e uma lagosta. Quando notou que ela o encarava, o máximo que fez foi erguer os olhos.
- Desculpe-me – ela começou com um ar de interrogatório – mas está me mandando embora? Digo, está me mandando embora... De novo?
- Entenda como quiser.
Elizabeth estava ainda mais chocada.
- Se não queria a minha presença aqui, por que diabos me convidou?
- Eu a convidei por educação – ele respondeu, encarando-a. – você aceitou porque quis, oras. Vivi a minha vida inteira sozinho, Srta. Atlee. Sei como ninguém me virar e não preciso da ajuda de mais ninguém.
- Mas...
- Oh, sim, aquilo? – ele deu uma risadinha. – Ora, por favor. Você não pode ser tão infantil a ponto de pensar que um mero beijo vai fazer eu me casar com você, ou é?
- O quê?! – ela ergueu discretamente o tom da voz. – Como você... Ousa?! Você não pode ser normal. Você é frio, calculista, um fraco. Não é como você pensa, você não consegue sobreviver sem o Butler. Um garoto de dezesseis anos que anda por aí engravatado como um executivo, compra um quadro de Degas para colocar no próprio quarto e não tem um amigo sequer não pode ser normal. Além do mais, eu disse não. Um sonoro NÃO. Quem me beijou foi você.
Artemis estava começando a perder a paciência.
- Repita isso novamente – ele falou em tom de ameaça, apontando-lhe um dedo. – e você pode não acordar amanhã de manhã.
- Aponte esse seu dedo arrogante de novo pra mim – ela jogou o guardanapo na mesa, furiosa. – e eu mato você agora mesmo, seu infeliz. Não sei como ainda pude pensar que estava começando a gostar de você. Adeus, Sr. Fowl.
Artemis mordia o próprio lábio, bufando de raiva. Elizabeth levantou- se da mesa, empurrou a cadeira e foi embora. Porém, deu apenas dois passos quando ele a chamou de volta.
- Elizabeth – ele resmungou, amargo.
- O que quer? – ela virou-se para ele, com um último resquício de esperança.
- O seu telefone – ele meteu a mão num bolso do paletó e entregou a ela um aparelho de telefone, sem ao menos ter a decência de levantar-se ou de sequer olhar para ela.
Elizabeth tomou o telefone das mãos dele, gemendo de ódio. Todos dentro do restaurante olhavam para ele, que não se incomodou com qualquer olhar ou opinião alheia.
Do lado de fora do restaurante, Elizabeth telefonava para que Geoffrey fosse buscá-la. Chorava discretamente, secando qualquer lágrima que pudesse escorrer. Antes que alguém pudesse atender o telefone, ela ainda preocupou-se em olhar para dentro do restaurante, onde viu Artemis, sentado à mesa, inabalável, inatingível, ainda com a mesma pose arrogante. Não conseguiu se controlar e deu um grito de raiva, de desespero, do que fosse.
Butler, parado com o carro à porta do restaurante, surpreendeu-se ao vê-la ali, chorando, aparentando estar desesperada. Saltou do carro para tentar falar com ela, mas quando ela notou que ele se aproximava, ela correu. Olhou-o secando as lagrimas, mas não conseguiu disfarçar por completo. Seus olhos denunciaram a ele o que ocorrera.
- Oh, não – Butler falou consigo mesmo. – Artemis aprontou mais alguma.
Butler desistiu de ir atrás dela, ela não falaria nada, muito menos a ele. Entrou no restaurante, desafiando a recepcionista, que amedrontara-se com os dois metros e dez centímetros do eurasiano que entrara sem dizer palavra alguma.
Artemis, ao ver o enorme vulto parado ao seu lado, reconheceu no mesmo momento.
- Butler?!
- Bonito, não? Artemis, o que fez com a garota?
- Como você...
- Eu a vi, Artemis. Ela tentou disfarçar, mas ela estava chorando. O que diabos você fez pra ela?
- Butler, você é meu mordomo – Artemis levantou-se, indignado. – como você ousa se meter nos meus assuntos particulares?!
- Ora, não se faça de desentendido, Artemis – Butler fê-lo sentar-se novamente. – eu sei que vocês se beijaram, ou melhor – que VOCÊ a beijou. E eu sei que você estava querendo fazer isso há um bom tempo. Mas não justifica você mandar a garota embora do jeito que ela saiu.
- Já chega, Butler – Artemis se levantou – eu vou embora. Agora mesmo.
Artemis sacou a carteira, jogou alguma coisa sob a mesa, cutucou Butler e saiu.
Metendo-se no carro, não falou mais nada. Entrou em casa, sequer olhou para a mãe, rumou direto para a sala de seus computadores, carregando o casaco que ela novamente havia esquecido no carro e o seu terno, que ela devolvera. Jogando-os no sofá em frente à lareira, algo caiu de dentro do seu terno. Um embrulho, com um envelope, que escorregou para debaixo do sofá.
Desconfiado, Artemis o pegou. Podia ser uma bomba-relógio. Não, ela não o odiava antes do ocorrido no restaurante. Abrindo o pacote, havia dentro dele um livro. Artemis gemeu. O Senhor dos Anéis, estava escrito. Jogou o livro sob o sofá, esfregando os olhos, e procurou pelo envelope em seguida. Dentro dele havia um cartão de felicidades pelo aniversário. Na parte de dentro, algo escrito numa caligrafia interessante, e um desenho perfeito de Artemis feito a lápis.
Feliz aniversário! Adorei ter conhecido você.
Era o que estava escrito. O 'adorei' rabiscado em um canto e a caricatura idêntica, até na frieza dos olhos, o fizeram estremecer. Jogou o cartão no chão, recostou-se no sofá e levou as mãos ao rosto.
Mas o que foi que eu fiz, ele pensou.
Artemis olhou para os computadores, sentou-se à mesa, levou os dedos ao teclado de um deles, mas eles frearam. Não tinha o que fazer ali, pensou. Na verdade, não pensou em mais nada a não ser no rosto de ódio dela de quando ela foi embora, ou no rosto dela a meio milímetro do dele, ou do gosto dos lábios dela. Melhor do que tudo que ele havia provado até hoje.
Resmungando, saiu do computador, catou o casaco dela de cima do sofá e arrastou-se para o quarto. As palavras que ela lhe dissera, todas verdadeiras, martelavam em sua cabeça. Que ele era frio, fraco, estranho, o que fosse, tudo era verdade. Pela primeira vez, Artemis olhou-se no espelho e sentiu vergonha. Vergonha e raiva, de Elizabeth, do mundo, de si mesmo.
Já exausto, Artemis jogou-se em cima da cama, com as mãos na cabeça. Mais alguma coisa naquele dia e estaria a ponto de cometer suicídio.
Não demorou muito para levantar-se. Arrastou-se até uma cômoda, abriu as portas de um armário, e fez reviver sua nacionalidade irlandesa. Serviu- se de uma dose de uísque e um comprimido calmante. Sabia que não deveria tomar nenhum dos dois, mas aquele não era o momento para pensar em futuras conseqüências. Largou o copo em cima da cômoda, foi até o closet e trocou a roupa pelo pijama, fazendo questão de deixar tudo amontoado no chão.
Ao sair do closet, teve tempo apenas de pegar seu copo novamente de cima da cômoda. Alguém entrou no quarto.
- Arty?
- O que quer? – ele respondeu com nojo.
- Meu filho – sua mãe começou – alguma coisa está acontecendo? E... Está bebendo?!
- Algum problema?
- Artemis! Artemis, meu filho. Sente-se aqui, nós precisamos conversar.
Artemis engoliu todo o uísque.
- Não temos nada para conversar, mamãe. Agora – ele abriu a porta e apontou para o lado de fora. – Faça o favor.
- Artemis, por que fez o que fez com a menina?
- Eu não fiz nada, mãe.
- Você a expulsou grosseiramente quando estavam jantando.
- Butler lhe contou isso, não foi? Aquele desgraçado. Ande, saia, não quero falar sobre isso.
- Artemis...
- SAIA! – ele gritou, impaciente, e arremessou o copo de uísque numa parede, fazendo-o quebrar-se em pedacinhos. – Saia. Por favor. Eu já disse que não quero falar sobre mais nada.
Angeline estava chocada com a atitude do filho. Nunca o vira perder a cabeça daquela maneira, mas ela sabia que ele era emocionalmente inconstante e incontrolável. Em um momento podia ser um amor de pessoa, e, em outro, um maníaco depressivo e autodestrutivo, por mais incrível que possa parecer.
Respeitando a vontade do filho, ela se levantou da cama, saiu do quarto, olhando-o tristemente. Assim que ela saiu, ele bateu a porta e caiu no chão, de joelhos, arrependido do que fizera. Algo o estava devorando por dentro, consumindo-o pouco a pouco.
Minutos mais tarde, ele se levantou, catou o casaco de Elizabeth de cima de uma das poltronas, e sentou sob a cama, sentindo o leve perfume que havia no casaco. Acomodou-se então no meio dos travesseiros, abriu um armário num criado-mudo e tirou dele um de seus segredos. Um PowerBook, que ele pôs sob as pernas e digitou alguma coisa. Depois de uma breve pausa e de um longo suspiro, voltou a digitar.