Trecho do diário de Artemis Fowl – Disco 17
Criptografado

Faz tempo... Faz muito tempo. Talvez desde que a família Fowl voltou a ser... Normal. Não, não posso chamar a minha família de normal. Jamais.
Papai é ausente. Na verdade, o único momento em que senti que meu pai estivera presente para mim foi aos... Treze anos, se bem me lembro. Em parte, sinto falta daqueles momentos. Meu pai fazia piadas. eu tinha motivos para rir.
Quanto a mamãe, bem, parece que agora mais do que nunca seu senso maternal decidiu despontar. Algo que também ela poucas vezes tivera. Ela amava papai, sim, amava. Tanto que perdeu a sanidade quando ele desapareceu, e aparentemente ela não voltou. Mamãe está lúcida agora, isto é certo, mas nunca imaginei que mamãe pudesse querer meter-se dessa maneira na minha vida. Ela, que sempre deixou que eu seguisse o meu próprio caminho da maneira que eu quisesse, resolveu dar palpites em tudo. Daqui a pouco ela vai querer opinar quanto às minhas cuecas.
Talvez não seja isso o que mais esteja doendo hoje.
Agora que... Estamos separados, mesmo que jamais estivéssemos juntos, a não ser por poucos minutos, a esperança me parece um desperdício.
Minha boca está impregnada de um gosto amargo. Amargo como o sofrimento.
Parece que eu aprendi. Por causa de todos os meus erros infantis, eu aprendi. Meu coração dói. E a dor é tão real, parece que estas feridas jamais vão se curar. É algo que eu não sentia há muito tempo. Parece que eu havia mesmo incorporado uma máquina, há tempos eu não sentia como é ser querido, receber um carinho. Eu queria mais um beijo, só mais um beijo. Mas um beijo que durasse... Mais do que os minutos que os outros duraram.
Sim, eu a beijei.
Seus lábios têm um gosto doce e suave. Que vicie, talvez. Para me fazer desejá-la tanto, deve haver algo ali que definitivamente vicie. E seu rosto... Seu rosto até agora me causa tonteiras. E devo confessar, estremeci quando ela me tocou, desde a primeira vez, quando dançamos no jardim. Mas quando ela me beijou de volta, que acariciou-me o pescoço, os cabelos, parecia que eu havia enlouquecido de uma vez. E mesmo assim, não sei porque eu fiz o que fiz.
A beijei, e em seguida a mandei para o inferno.
Que vá para o inferno, mas que me leve junto. Não me importa, desde que ela... Me desculpe. Me perdoe. Permita-me voltar atrás, permita-me... Beijá-la novamente. Talvez tenha sido a maior besteira que eu tenha feito em toda a minha vida. Sim, em toda ela, maior que todas as fraudes, roubos, o que for. Eu a tinha e eu a joguei fora.
Eu merecia morrer por isso. Pergunto-me por que ela não me matou naquele momento e me privou de todo este sofrimento. Ou me pergunto por que ela apenas não me bateu, e não me impediu de beijá-la e de querê-la mais e mais.
E me pergunto por que diabos eu não assumo que o erro em insistir em beijá-la foi apenas meu.
Arque com as conseqüências agora, Artemis. Ela não vai ser nada além de apenas mais uma na multidão que o odeia.

Achei por bem incluir este trecho nesta avaliação. Depois de escrevê- lo – e de levar quase quarenta minutos para concentrar-se – Artemis, depois de tanto tempo, fechou o computador, largou-o na cama, e derramou uma lágrima. Uma só.